OS DONOS DAS
RÉDEAS
por Heitor Jorge Lau
O texto que inspirou a reflexão a
seguir merece reconhecimento não apenas pela contundência de sua crítica, mas,
sobretudo, por recorrer a autores clássicos da filosofia política para
interpretar fenômenos que atravessam diferentes épocas. Ao aproximar o
pensamento de Mikhail Bakunin, a alegoria de George Orwell em A Revolução
dos Bichos e as reflexões de Jürgen Habermas sobre o Estado contemporâneo,
o autor constrói um convite à análise, independentemente de concordâncias
ideológicas. Mais do que uma crítica circunstancial, trata-se de um estímulo à
reflexão sobre a permanente tensão entre poder, representação e natureza
humana. (texto que inspirou foi postado no jornal Gazeta do Sul, sob o nome de “Cavalos
e Porcos”, em 15 de julho de 2026).
Foi
justamente essa breve leitura que motivou as considerações apresentadas a
seguir. Não como uma réplica ou contraposição, mas como um desdobramento da
mesma inquietação filosófica: compreender por que o exercício do poder, em
diferentes contextos históricos, parece revelar aspectos recorrentes da
condição humana. Afinal, antes de ser um problema das instituições, o poder é
um fenômeno profundamente humano e, por isso mesmo, merece ser examinado também
à luz da psicologia, da antropologia e da filosofia.
Vamos
ao texto!
Ao
longo da história, poucas ilusões mostraram-se tão persistentes quanto a crença
de que a simples substituição dos governantes seria suficiente para transformar
uma sociedade. Mudam-se os nomes, alteram-se os discursos, renovam-se as
promessas, mas a lógica do poder frequentemente permanece a mesma. Essa
constatação não pertence a uma única corrente política. Ela atravessa séculos
de filosofia, sociologia e ciência política.
A
própria estrutura do poder exerce uma força silenciosa sobre aqueles que a
ocupam. Muitos chegam às posições de comando afirmando representar os
interesses coletivos. Entretanto, à medida que se aproximam dos centros
decisórios, não raramente passam a enxergar a sociedade por uma perspectiva
diferente daquela que possuíam quando buscavam o apoio popular. A distância
entre representantes e representados cresce quase imperceptivelmente, até
tornar-se um abismo.
O
revolucionário russo Mikhail Bakunin chamou a atenção para esse fenômeno ao
advertir que aqueles que ascendem ao governo tendem a representar, antes de
tudo, os próprios interesses e a lógica da preservação do poder. Embora suas
conclusões estejam inseridas no contexto do pensamento anarquista do século
XIX, sua observação ultrapassa fronteiras ideológicas ao lembrar que nenhuma
instituição elimina, por si só, as limitações da natureza humana.
Essa
preocupação reaparece, sob diferentes perspectivas, em diversos pensadores
contemporâneos. A burocracia estatal, concebida originalmente como instrumento
de organização da vida pública, pode transformar-se em um fim em si mesma. Em
vez de servir aos cidadãos, passa a exigir que os cidadãos sirvam ao seu
funcionamento. O Estado deixa de ser um meio para garantir direitos e
converte-se, gradualmente, em uma estrutura voltada à própria conservação.
George
Orwell ilustrou magistralmente essa dinâmica em A Revolução dos Bichos.
Embora concebida como uma sátira ao totalitarismo soviético, sua narrativa
alcançou um significado muito mais amplo. A fazenda representa qualquer
sociedade na qual uma elite dirigente, após conquistar o poder em nome da
igualdade, termina por reproduzir privilégios e estabelecer novas formas de
dominação. A famosa máxima de que "todos os animais são iguais, mas alguns
são mais iguais que os outros" permanece como uma advertência sobre a
facilidade com que discursos emancipatórios podem ser apropriados pelos
próprios mecanismos de poder.
A
metáfora dos cavalos continua particularmente sugestiva. Na obra de Orwell, o
cavalo simboliza o trabalhador dedicado, disciplinado e perseverante. Carrega o
peso da produção, sustenta a estrutura e acredita sinceramente que seu esforço
contribuirá para um futuro melhor. Entretanto, raramente participa das decisões
que determinam os rumos da própria fazenda. Sua força mantém o sistema
funcionando, mas não lhe garante influência proporcional sobre ele.
Em
sociedades democráticas, esse risco assume formas mais sutis. O voto periódico
constitui um importante mecanismo de legitimidade, mas não substitui a
vigilância permanente da sociedade civil. Democracias sólidas não dependem
apenas de eleições. Elas exigem transparência, instituições independentes,
imprensa livre, educação crítica e cidadãos capazes de distinguir propaganda de
informação.
O
filósofo Jürgen Habermas dedicou grande parte de sua obra a investigar
justamente esse desafio. Ao refletir sobre os limites do Estado moderno,
questionou até que ponto o aparato estatal consegue regular a economia sem
comprometer a própria democracia e perguntou se instrumentos burocráticos
seriam suficientes para promover formas de vida verdadeiramente livres e
emancipadas. Sua preocupação não consistia em rejeitar o Estado, mas em
compreender como impedir que a racionalidade administrativa sufocasse a participação
cidadã.
Essa
reflexão conduz a uma conclusão importante: nenhuma organização política é
automaticamente virtuosa. Monarquias, repúblicas, democracias, ditaduras ou
modelos revolucionários compartilham um elemento comum: são administrados por
seres humanos. Por isso, qualquer sistema institucional necessita de mecanismos
capazes de limitar abusos, distribuir responsabilidades e permitir o controle
social sobre quem exerce autoridade.
A
história demonstra que o problema central não é apenas quem ocupa o poder, mas
a facilidade com que o poder tende a ocupar aqueles que o exercem. Instituições
concebidas para servir à coletividade podem, lentamente, desenvolver interesses
próprios. Quando isso acontece, cresce a sensação de que a sociedade trabalha
para manter estruturas cada vez mais complexas, caras e distantes de suas
necessidades reais.
A
maior lição oferecida pelos clássicos da filosofia política é justamente esta:
liberdade não é um estado permanente conquistado de uma vez por todas. Trata-se
de uma construção contínua, sustentada pelo espírito crítico, pela
responsabilidade cívica e disposição permanente de submeter toda forma de
autoridade ao escrutínio público. Afinal, quando os cidadãos deixam de
acompanhar quem segura as rédeas, dificilmente perceberão o momento em que
passaram de condutores a simples passageiros da própria história.











