terça-feira, 3 de novembro de 2026

QUANDO O HÁBITO SE TRANSFORMA EM PRISÃO

QUANDO O HÁBITO SE TRANSFORMA EM PRISÃO:

SOMOS DONOS DAS NOSSAS ESCOLHAS?

por Heitor Jorge Lau

            Existe uma força silenciosa que participa da construção da nossa personalidade, organiza boa parte das nossas atividades cotidianas e, em determinadas circunstâncias, pode assumir o controle de nossas decisões sem que percebamos. Essa força atende pelo nome de hábito. Repetimos comportamentos, incorporamos rotinas, desenvolvemos preferências e estabelecemos padrões de funcionamento que, com o passar do tempo, deixam de exigir reflexão ou deliberação consciente. O problema começa quando essa capacidade extraordinária de automatizar nossas ações ultrapassa os limites da conveniência e passa a restringir nossa liberdade. Afinal, existe uma diferença considerável entre adquirir um hábito e tornar-se prisioneiro dele. E essa diferença merece uma reflexão que vai muito além dos conhecidos problemas relacionados ao consumo de drogas lícitas e ilícitas.

            Costumo ouvir afirmações de pessoas que dizem ter experimentado cocaína ou maconha uma única vez e, imediatamente, desenvolvido um vício. Minha reação costuma ser de questionamento, pois a dependência não funciona, em regra, como um interruptor que se aciona instantaneamente após um único contato com determinada substância. Existe um processo complexo envolvendo aprendizagem, repetição, associação de estímulos, mecanismos de recompensa e adaptações neurobiológicas. Uma primeira experiência pode proporcionar prazer, curiosidade, sensação de bem-estar ou alívio momentâneo de alguma tensão, levando o indivíduo a desejar sua repetição. Entretanto, é importante esclarecer que não existe uma quantidade universal de experiências a partir da qual alguém desenvolve dependência, tampouco se pode considerar inofensivo um primeiro consumo. A vulnerabilidade individual, a substância utilizada, a frequência, a intensidade e o contexto interferem nesse processo. Cocaína e maconha, por exemplo, apresentam características e riscos distintos. O ponto central da reflexão é que a repetição pode fortalecer associações entre determinada experiência e a recompensa percebida, transformando gradualmente um comportamento inicialmente ocasional em uma prática persistente, por vezes acompanhada de perda de controle.

            É justamente nesse processo que encontramos uma das explicações mais interessantes oferecidas pela neurociência. Os Gânglios da Base, também denominados Núcleos da Base, constituem um conjunto de estruturas profundas do cérebro que participa de funções relacionadas ao movimento, à aprendizagem, à seleção de ações e à formação de hábitos. Uma região particularmente importante desse sistema é o Estriado, que participa dos circuitos envolvidos na aprendizagem por recompensa e na automatização de comportamentos. Em termos simplificados, o cérebro aprende a reconhecer determinadas situações, estímulos e circunstâncias que antecedem uma ação e suas respectivas consequências. Quando uma sequência comportamental é repetida suficientemente, ela pode passar a ser executada com menor necessidade de deliberação consciente. É por isso que conseguimos dirigir por trajetos conhecidos, escovar os dentes ou executar tarefas familiares enquanto pensamos em outras coisas. Essa capacidade representa uma extraordinária economia de recursos cognitivos. O cérebro não precisa reinventar diariamente aquilo que já aprendeu. Entretanto, o mesmo mecanismo que facilita nossa vida também pode consolidar comportamentos prejudiciais, excessivos ou incompatíveis com nossas necessidades. A automatização, portanto, não distingue necessariamente aquilo que nos beneficia daquilo que nos prejudica.

            Aqui encontramos uma questão que considero particularmente relevante: nem todo hábito é um vício, mas todo vício comportamental envolve, em alguma medida, processos de aprendizagem e repetição. Um hábito pode ser perfeitamente saudável enquanto permanece subordinado às nossas necessidades e escolhas. O problema surge quando a pessoa continua executando determinada atividade mesmo diante de consequências negativas, quando sente desconforto intenso ao tentar interrompê-la ou quando passa a organizar sua existência em função daquele comportamento. É nesse momento que precisamos abandonar a interpretação superficial de que tudo se resume à força de vontade. Existem mecanismos psicológicos e neurobiológicos envolvidos, e compreender sua atuação é fundamental para não transformar uma questão complexa em simples julgamento moral.

            Pensemos, por exemplo, nas atividades domésticas, um território aparentemente distante das discussões sobre dependência, mas que oferece situações bastante ilustrativas. Limpar a casa, lavar roupas, passar camisas, organizar armários, arear panelas e manter os ambientes em ordem são atividades legítimas e necessárias. Algumas pessoas encontram satisfação genuína nessas tarefas, e não existe absolutamente nada de errado nisso. Entretanto, o que acontece quando alguém não consegue descansar porque existe uma peça de roupa fora do lugar? Quando uma panela precisa ser novamente limpa, mesmo estando perfeitamente utilizável? Quando a pessoa interrompe momentos de convivência, lazer ou descanso porque sente uma necessidade praticamente incontrolável de executar alguma tarefa doméstica? A questão deixa de ser a limpeza ou a organização propriamente ditas e passa a envolver a relação psicológica estabelecida com essas atividades. Em determinadas circunstâncias, a repetição pode funcionar como uma tentativa de aliviar ansiedade, recuperar uma sensação de controle ou evitar o contato com pensamentos e sentimentos desagradáveis. Existem situações em que esse padrão se aproxima de manifestações obsessiva-compulsivas, que exigem avaliação clínica adequada, mas não devemos confundir organização, zelo e disciplina com transtornos psicológicos. O que interessa investigar é quando uma atividade deixa de servir à pessoa e passa a exigir que a pessoa sirva a ela.

            Existe, entretanto, uma manifestação dessa dinâmica que considero ainda mais curiosa, justamente porque costuma receber reconhecimento e aprovação social: a relação excessivamente intensa com o trabalho. Sempre tive reservas diante da expressão “sou apaixonado pelo meu trabalho”, principalmente quando ela vem acompanhada de uma dedicação que praticamente elimina todos os demais espaços da existência. É perfeitamente saudável encontrar satisfação na profissão, sentir orgulho das próprias realizações e reconhecer a importância do trabalho para a construção da identidade e da autonomia individual. Minha inquietação está relacionada àqueles que não conseguem se desligar das obrigações profissionais, que sentem desconforto diante do descanso, que precisam estar permanentemente ocupados e que parecem experimentar uma espécie de vazio quando não existe uma tarefa a cumprir. Em determinadas circunstâncias, o trabalho pode deixar de representar uma atividade produtiva e transformar-se em um mecanismo de compensação psicológica. A pessoa encontra na ocupação permanente uma maneira socialmente aceita de evitar questionamentos, conflitos, frustrações e insatisfações que exigiriam um confronto consigo mesma. Enquanto trabalha, não precisa pensar sobre determinados aspectos da vida; enquanto cumpre metas, não precisa examinar suas relações; enquanto permanece ocupada, não precisa enfrentar o silêncio que surge quando as obrigações terminam.

            Essa possibilidade merece atenção porque o excesso de trabalho costuma ser confundido com virtude. A sociedade frequentemente recompensa quem trabalha além dos limites, quem abre mão do descanso e quem transforma a profissão no centro absoluto da própria existência. O indivíduo recebe elogios por sua dedicação, comprometimento e produtividade, mas raramente alguém pergunta o que acontece quando ele não está trabalhando. Será que consegue aproveitar o tempo livre? Consegue estabelecer relações que não estejam subordinadas às exigências profissionais? Consegue simplesmente permanecer consigo mesmo, sem precisar preencher cada instante com alguma obrigação? É claro que não podemos afirmar que toda pessoa extremamente dedicada ao trabalho esteja fugindo de conflitos internos ou desenvolvendo uma dependência comportamental. Existem diferenças individuais, necessidades econômicas, características profissionais e motivações legítimas. Entretanto, quando o trabalho se transforma em uma necessidade permanente, quando a pessoa perde a capacidade de estabelecer limites e quando sua identidade passa a depender exclusivamente da produtividade, estamos diante de uma situação que merece investigação. A paixão pelo trabalho não deve servir como justificativa automática para a renúncia à própria vida.

            O mesmo raciocínio pode ser ampliado para inúmeros comportamentos contemporâneos. A necessidade de verificar constantemente o telefone celular, acompanhar notificações, consultar redes sociais, realizar compras desnecessárias, consumir alimentos sem fome ou procurar entretenimento a cada instante revela como determinadas práticas podem adquirir uma dimensão que ultrapassa sua finalidade original. Em muitos casos, a repetição proporciona uma recompensa imediata, ainda que passageira, e essa recompensa contribui para reforçar o comportamento. A pessoa consulta o celular porque espera encontrar alguma novidade; compra porque experimenta uma satisfação momentânea; trabalha porque recebe reconhecimento; limpa porque sente alívio diante da organização. O cérebro aprende essas associações e passa a favorecer a repetição. Entretanto, a satisfação inicial pode diminuir, enquanto a necessidade de repetir permanece ou até aumenta. O comportamento deixa de ser uma escolha plenamente deliberada e começa a funcionar como resposta automática a determinados estímulos, emoções ou circunstâncias.

            Sob uma perspectiva psicanalítica, essa discussão ganha outra dimensão. A repetição não está necessariamente relacionada apenas à busca de prazer. Em determinadas situações, ela também pode expressar tentativas inconscientes de lidar com conflitos, angústias e experiências que não foram devidamente elaboradas. Uma pessoa pode repetir comportamentos porque encontra neles uma forma de administrar tensões internas, evitar determinadas percepções ou manter uma sensação de estabilidade diante de um mundo que experimenta como ameaçador. Nesse sentido, a repetição pode representar muito mais do que uma rotina consolidada: pode revelar uma maneira particular de se relacionar consigo mesmo e com a realidade. O indivíduo acredita estar escolhendo livremente, mas nem sempre reconhece os motivos que sustentam suas escolhas. É por isso que a investigação das razões subjacentes ao comportamento se torna tão importante. Não basta perguntar o que alguém faz repetidamente; precisamos compreender o que aquela repetição representa em sua vida e qual função psicológica desempenha.

            Uma das maiores dificuldades humanas está, justamente, em reconhecer quando perdemos a capacidade de questionar nossos próprios comportamentos. Estamos tão acostumados a determinadas rotinas que passamos a considerá-las naturais, necessárias e até indispensáveis. Não percebemos que algumas delas consomem nosso tempo, limitam nossas experiências, prejudicam nossas relações e impedem o desenvolvimento de outras possibilidades de existência. O hábito oferece conforto porque reduz a necessidade de decidir, mas também pode nos manter presos a padrões que já não fazem sentido. A repetição proporciona familiaridade, e a familiaridade frequentemente é confundida com segurança. Entretanto, viver permanentemente dentro daquilo que já conhecemos não significa necessariamente viver melhor.

            O desafio, portanto, não consiste em eliminar os hábitos, pois eles são indispensáveis à organização da vida humana. Precisamos aprender a reconhecer sua função, avaliar suas consequências e preservar a capacidade de modificá-los quando deixam de nos beneficiar. Uma rotina saudável amplia nossa autonomia; uma compulsão pode restringi-la. A disciplina contribui para a realização de objetivos; a rigidez impede adaptações. O trabalho pode proporcionar satisfação e dignidade; o excesso pode servir de esconderijo. A organização doméstica pode trazer bem-estar; a necessidade de controlar cada detalhe pode produzir sofrimento. A diferença não está necessariamente na atividade executada, mas na relação que estabelecemos com ela e na liberdade que conservamos diante de sua repetição.

            No fim das contas, a pergunta mais importante não é quantas vezes repetimos determinado comportamento, mas o quanto ainda somos capazes de decidir sobre ele. Conseguimos interrompê-lo sem experimentar angústia desproporcional? Conseguimos substituí-lo por outras atividades? Conseguimos reconhecer quando ele começa a prejudicar nossa saúde, nossas relações e nossa qualidade de vida? Ou precisamos encontrar justificativas para continuar fazendo exatamente aquilo que já percebemos ser excessivo? Essas perguntas nos colocam diante de uma questão fundamental da existência: a liberdade não consiste apenas em poder fazer o que desejamos, mas também em conservar a capacidade de deixar de fazer aquilo que já não nos faz bem. O hábito deveria ser um instrumento a serviço da nossa existência, nunca o senhor que determina como devemos vivê-la. Afinal, quando deixamos de questionar nossas repetições, corremos o risco de passar a vida inteira obedecendo a comportamentos que um dia começamos a escolher. 

 

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

SOLASTALGIA: A SAUDADE DE CASA ESTANDO EM CASA

SOLASTALGIA: A SAUDADE DE CASA ESTANDO EM CASA

Sobre a nostalgia, a memória e os lugares que mudam diante de nós

por Heitor Jorge Lau

            Existe um tipo de saudade que dispensa a viagem. Não é a de quem partiu e olha para trás, mas a de quem ficou e foi percebendo, aos poucos, que o lugar onde sempre viveu já não é o mesmo. A rua conserva o nome, a casa continua no mesmo número, mas o cheiro, o ruído, o comércio da esquina e a sombra da árvore da calçada não são mais aqueles. Quem passa por isso costuma sentir um desconforto difícil de explicar, porque não há a quem dizer “estou com saudade de casa” sem ouvir como resposta: “mas você está em casa”.

            Para esse sentimento, o filósofo australiano Glenn Albrecht propôs, em 2003, a palavra solastalgia, formada pelo latim solacium, que significa consolo, e pelo grego algos, que significa dor. Seria, portanto, a dor de perder o consolo que um lugar nos oferecia. Albrecht a observou em moradores de uma região cuja paisagem foi profundamente transformada, mas o termo logo ultrapassou a origem e passou a nomear algo que qualquer pessoa já experimentou em escala menor: o bairro da infância irreconhecível, a escola reformada, a padaria que fechou, a praça que ganhou outro desenho. O ponto central é que a perda, aqui, não está na distância, e sim na mudança. É o lugar que parte, enquanto a pessoa fica.

            A palavra irmã, nostalgia, tem uma história curiosa. Ela foi cunhada em 1688 pelo estudante de medicina suíço Johannes Hofer, a partir do grego nostos, que quer dizer regresso, e algos, dor. Hofer a criou para descrever uma doença: o mal que acometia soldados suíços servindo longe de casa, com tristeza persistente, insônia e perda de apetite. Durante muito tempo, médicos procuraram causas físicas para ela e a trataram como enfermidade. Só séculos depois a nostalgia passou a ser compreendida como uma emoção humana comum, e algo curioso aconteceu com o seu sentido: nascida como dor do espaço, a saudade do lugar distante, ela se tornou dor do tempo, a falta de uma época que não volta. A solastalgia reúne as duas, porque o lugar que perdemos é sempre o lugar de um tempo.

            A Antropologia ajuda a entender por que essa perda pesa tanto. O geógrafo Yi-Fu Tuan falou em topofilia, o laço afetivo que as pessoas criam com os lugares, e lembrou que um lugar é diferente de um simples espaço: é um espaço ao qual atribuímos significado. O antropólogo Marc Augé, por sua vez, distinguiu os lugares antropológicos, que carregam identidade, relações e história, dos chamados não-lugares, como aeroportos e corredores de passagem, onde ninguém se demora o bastante para deixar marcas. Quando um lugar cheio de sentido vai perdendo seus traços, as pessoas perdem também parte dos “espelhos” em que se reconheciam. Quem sou eu sem a esquina onde aprendi a andar de bicicleta? A identidade, de certa forma, tem endereço.

            A Psicanálise oferece outra chave. Em “Luto e Melancolia”, de 1917, Freud descreveu o trabalho do luto como o processo lento pelo qual retiramos, pouco a pouco, a energia afetiva depositada em algo ou alguém que perdemos. Mas o luto costuma pressupor uma perda reconhecível, com marcos claros, como a morte, a despedida e o velório. Na solastalgia, não há cerimônia alguma, porque o objeto amado continua ali, apenas modificado. Como elaborar a perda de algo que ainda existe? Isso nos remete a outro conceito freudiano, o estranho familiar, apresentado em 1919. A palavra alemã heimlich, que designa o que é íntimo e doméstico, vem de Heim, o lar, e o seu oposto, unheimlich, descreve aquilo que inquieta justamente por ter sido familiar. O que nos perturba, nesse caso, não é o desconhecido, mas o conhecido que mudou de rosto. O lugar da infância alterado produz exatamente essa sensação.

            A Neurociência acrescenta que a memória não funciona como um arquivo fixo. Cada vez que recordamos, reconstruímos, e o ambiente físico serve como um conjunto de pistas que facilitam esse resgate. O hipocampo, estrutura ligada à memória espacial e à memória de episódios, trabalha em estreita relação com o lugar em que as coisas aconteceram, e o olfato mantém conexões diretas com regiões como a amígdala e o próprio hipocampo, o que ajuda a explicar por que um simples cheiro pode devolver uma tarde inteira em poucos segundos, fenômeno eternizado por Proust no Episódio da Madeleine. É plausível supor, portanto, que, quando o cenário muda, algumas dessas pistas desaparecem e certas lembranças ficam mais difíceis de alcançar. A pessoa sente que perdeu o lugar e, ao mesmo tempo, que está perdendo um pouco do acesso ao que viveu nele.

            Seria um erro, porém, pensar que a nostalgia é apenas dor. Pesquisadores como Constantine Sedikides e Tim Wildschut, da Universidade de Southampton, vêm mostrando em estudos que recordar o passado de forma nostálgica tende a aumentar a sensação de sentido na vida, de conexão com outras pessoas e de continuidade da própria história. A estudiosa Svetlana Boym propôs uma distinção interessante entre dois modos de sentir. Na nostalgia restauradora, a pessoa deseja reconstruir o passado tal como ele era, como se fosse possível fazer o relógio voltar. Na nostalgia reflexiva, ela se demora na saudade, aceita que o tempo passou e usa a lembrança para compreender melhor quem foi e quem é. As duas existem em nós, em proporções que variam conforme a fase da vida e o que está em jogo.

            O português tem uma palavra que costuma ser apontada como difícil de traduzir: saudade. Talvez, ainda assim, nos falte uma para a saudade específica do lugar que mudou diante dos nossos olhos. Há também uma observação antiga que pode adicionar uma camada a essa reflexão. Heráclito dizia que ninguém entra duas vezes no mesmo rio, porque o rio muda e quem entra também muda. Parte da dor da solastalgia talvez venha de esquecermos que não foi apenas o lugar que se transformou. Quem olha também não é mais a criança que corria por aquela calçada. A casa da infância parece menor quando voltamos a ela não só porque foi alterada, mas porque crescemos, e porque aquilo que de fato perdemos não cabe em nenhum endereço: é o olhar com o qual a víamos.

            Este texto não pretende dizer se a mudança dos lugares é boa ou ruim. Cidades, bairros e paisagens se transformam o tempo todo, e nem sempre para pior; muitas vezes, aquilo que parece perda para uns é conquista para outros. A intenção é apenas dar nome a uma experiência silenciosa, porque nomear já é uma maneira de começar a elaborar. Quem descobre que existe uma palavra para o que sente deixa de achar que está exagerando ou sozinho nesse sentimento. E fica uma pergunta que cada leitor pode levar consigo: qual lugar ainda está no mesmo endereço, mas já não mora onde você o deixou?

#Reflexão #Nostalgia #Memória #Saudade #Solastalgia

 

FILOSOFIA - REFLEXÃO - BEM VIVER - sempre...








 

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

MUDAM OS SÉCULOS, MUDAM OS RÓTULOS, A EXCLUSÃO PERMANECE

            MUDAM OS SÉCULOS, MUDAM OS RÓTULOS,

A EXCLUSÃO PERMANECE

por Heitor Jorge Lau

            Em pleno ano de 2026, voltam a circular, nas redes sociais e nas conversas do cotidiano, convocações para que pessoas sejam demitidas por causa do partido que escolheram e para que empresas sejam boicotadas por supostamente apoiarem este ou aquele lado. Boicote, para quem não está habituado ao termo, é a recusa organizada de comprar, de contratar ou de se relacionar com alguém, com o objetivo de pressioná-lo ou puni-lo. Convém deixar claro desde o início: este texto não defende nem critica partido algum. Ele olha para o método, porque o método é o mesmo, qualquer que seja o lado que o utilize, e a história tem muito a nos dizer sobre onde esse caminho costuma terminar.

            Quase nunca a perseguição começa pela violência. Ela segue uma sequência que se repete em épocas e lugares muito diferentes. Primeiro vem o rótulo, que reduz uma pessoa a uma única característica, seja o partido, a religião, a origem ou a idade, e a faz parecer menos digna de respeito. Depois vem a pressão econômica, que consiste em tirar o emprego, esvaziar o comércio e tornar a vida material impossível. Em seguida, o isolamento social, em que o grupo marcado passa a ser evitado e o mundo ao redor se acostuma com isso. Só no final, e nem sempre, aparece a violência física. O que torna o processo perigoso é que cada etapa, isolada, parece pequena e até justificável para quem a pratica, e é justamente por isso que tanta gente não percebe o caminho que está sendo percorrido.

            O exemplo mais conhecido é o da Alemanha nazista. Em 1º de abril de 1933, o regime organizou um boicote nacional aos negócios de judeus, com integrantes da SA, a tropa paramilitar do partido nazista, postados diante das lojas para intimidar os clientes. Poucos dias depois, uma lei afastou judeus e opositores políticos do serviço público e, em 1935, as chamadas Leis de Nuremberg retiraram a cidadania dos judeus alemães e proibiram casamentos entre judeus e não judeus. A eliminação física veio anos depois e foi precedida por esse longo preparo, no qual muita gente aprendeu a olhar para o lado.

            A Alemanha, porém, não foi a primeira nem a única. Na Europa medieval, judeus eram impedidos de ingressar em muitas corporações de ofício, confinados em bairros fechados chamados guetos e, na Espanha, expulsos do reino em 1492. No início do século XVII foi a vez dos mouriscos, descendentes de muçulmanos convertidos à força ao cristianismo. A Inquisição, tribunal da Igreja Católica criado para investigar desvios de fé, perseguiu hereges e "cristãos-novos", judeus convertidos cuja sinceridade era sempre posta sob suspeita. Nos Estados Unidos, as leis conhecidas como Jim Crow mantiveram, por quase um século depois do fim da escravidão, a separação legal entre brancos e negros em escolas, transportes e empregos. Na África do Sul, o Apartheid, regime vigente a partir de 1948, dividiu a população por raça e determinou onde cada grupo podia morar, estudar e trabalhar.

            Houve também perseguições por ideias políticas, o que se aproxima mais do que vemos hoje. Nos Estados Unidos dos anos 1950, o macarthismo, nome dado à caça a supostos comunistas liderada pelo senador Joseph McCarthy, levou à criação de listas negras: roteiristas, atores, professores e funcionários públicos eram demitidos ou impedidos de trabalhar apenas por serem acusados de simpatizar com o comunismo, muitas vezes sem provas. Na União Soviética de Stálin, os chamados "inimigos do povo" perdiam o emprego e a moradia antes de serem presos ou executados. Na China de Mao, a partir de 1966, a Revolução Cultural humilhou publicamente professores e intelectuais e os afastou de suas funções. No Camboja do Khmer Vermelho, na segunda metade da década de 1970, as pessoas instruídas e os profissionais liberais estavam entre os principais alvos. E, em outro registro, a caça às bruxas na Europa dos séculos XV a XVII atingiu majoritariamente mulheres, acusadas de desvio por não se encaixarem no papel que a sociedade lhes reservava.

            Mas não é preciso voltar tantos séculos para encontrar a segregação de pessoas do trabalho. Ela acontece, em silêncio, no mercado de hoje. Profissionais com mais de 50 ou 60 anos relatam que, a partir de certa idade, seus currículos deixam de ser lidos, as vagas passam a pedir "perfil jovem" e a experiência, que deveria ser um ativo, é tratada como obstáculo. Mulheres enfrentam a pergunta velada sobre planos de ter filhos, a desconfiança diante da maternidade, a dificuldade de chegar a cargos de liderança e, em muitos casos, salários menores para funções iguais. O mesmo se dá com pessoas com deficiência e com quem vem de determinado bairro ou tem determinado sotaque. Não há lista oficial nem boicote declarado, mas o efeito é parecido: uma característica isolada passa a valer mais do que a competência, e a pessoa é afastada antes de ter tido a chance de mostrar o que sabe fazer. A diferença em relação aos fanatismos políticos de hoje está apenas no rótulo escolhido. A lógica de excluir alguém pelo que ela é, ou pelo que pensa, e não pelo que faz, é a mesma.

            O Brasil tem proteção para isso, ao menos no papel. A Constituição proíbe diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil, e garante o voto direto e secreto. A Lei nº 9.029/1995 proíbe práticas discriminatórias no acesso ao emprego e na sua manutenção, e a Lei nº 14.611/2023 trata da igualdade salarial entre mulheres e homens. O Ministério Público do Trabalho, por sua vez, tem tratado como assédio eleitoral a pressão exercida sobre trabalhadores por causa do voto. Mas lei nenhuma funciona sozinha: ela depende de uma cultura que reconheça o outro como pessoa inteira.

            É preciso prudência com as comparações. Os casos históricos citados foram, em sua maioria, projetos de poder nos quais o Estado estava nas mãos de quem perseguia, e suas consequências foram incomparavelmente mais graves. O que vemos hoje, em grande parte, são grupos privados, sem esse poder, e exagerar a analogia só enfraquece o alerta. O ponto não é dizer que estamos repetindo o passado, e sim que o começo de todos esses processos foi parecido: a naturalização da ideia de que alguém pode ser privado do seu sustento por pertencer a um grupo ou por pensar de determinada forma.

            Um trabalhador não é o partido em que vota, a religião que professa, a idade que tem ou o gênero a que pertence. É uma pessoa com contas a pagar, família, competência e uma vida inteira além daquela característica. O voto é secreto exatamente para que ninguém precise pagar com o próprio sustento pela sua convicção. Defender esse princípio não é tomar partido, é defender a possibilidade de convivermos entre diferentes. Podemos discordar com firmeza, argumentar e votar de modos distintos. O que não podemos é confundir divergência com inimizade, nem deixar que a discordância vire pretexto para tirar o pão da mesa de alguém.

            Uma sociedade amadurece quando aprende a debater ideias sem destruir pessoas e a contratar, promover e conviver pelo que cada um faz, e não pelo rótulo que carrega. E você, já viu alguém ser julgado pelo que é ou pelo que pensa, e não pelo que faz?

#Reflexão #Democracia #Respeito #MercadoDeTrabalho

 

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

MEA CULPA OU DE QUEM É A CULPA?

MEA CULPA OU DE QUEM É A CULPA?

A síndrome do indicador e o Brasil das urnas

por Heitor Jorge Lau

            Existe um gesto que o brasileiro aprendeu cedo e foi aperfeiçoando com o tempo: esticar o braço, dobrar três dedos e deixar o indicador apontando para longe de si. Não é um gesto raro, nem exclusivo de uma ideologia, de uma região ou de uma faixa etária. É quase um reflexo. Algo dá errado e, antes mesmo de entender o que aconteceu, já sabemos de quem é a culpa, desde que seja de outra pessoa. A esse reflexo coletivo vou chamar aqui de síndrome do indicador: a tendência de apontar o dedo, transferir a responsabilidade e sair de cena com a consciência tranquila. Falo do Brasil, apenas dele, porque é o país que vivo e que consigo observar de perto, sem pretensão de opinar sobre o que se passa em outros lugares.

            O cenário eleitoral é o palco onde essa síndrome se manifesta com mais nitidez, e o curioso é que ela funciona nos dois tempos, antes e depois das urnas. Durante a campanha, cada lado descreve os problemas do país como obra exclusiva do adversário: a economia que não anda como deveria, o serviço público que falha, a segurança que preocupa, a divisão entre as pessoas. Ouvindo os discursos, parece que ninguém jamais teve qualquer participação no que está aí, que as dificuldades surgiram sozinhas e que só existe um grupo capaz de tê-las causado. O dedo aponta para a frente, na direção do outro candidato, e o eleitor é convidado a apontar junto.

            Passada a eleição, o gesto não desaparece, apenas muda de alvo. Quem venceu atribui as dificuldades que vierem ao que foi herdado, aos obstáculos colocados pela oposição, às instituições que atrapalham, à imprensa que distorce. Quem perdeu explica a derrota pelos erros dos outros: o eleitor que não entendeu a mensagem, a informação que chegou torta, a estrutura que favoreceu o adversário, a campanha rival que foi injusta. Raramente se ouve, nas noites de apuração, alguém dizer com simplicidade: "nós erramos neste ponto". E o eleitor, que assiste a tudo do sofá ou da mesa do bar, completa o ciclo: culpa os políticos, todos eles, como se o voto de cada um fosse um assunto separado do resultado final. É uma tentação que alcança todos nós, e é justamente por ser tão humana que merece ser examinada com calma.

            Aqui está o ponto mais interessante, aquele que dá nome a este texto: nesse jogo, todos são culpados e todos são inocentes ao mesmo tempo. Todos são culpados porque cada um aponta o dedo para o outro e o acusa... todos são inocentes porque cada um, em sua própria narrativa, nunca teve nada a ver com o problema. É um paradoxo e tanto. Se todos são sempre inocentes em suas próprias versões, de onde vêm então os problemas? Se a soma de milhões de inocentes resulta em um país com tantas queixas, alguma coisa nessa conta não fecha. A culpa, quando todos a repassam adiante como uma batata quente, não desaparece, ela apenas fica sem dono, e o que não tem dono dificilmente tem conserto.

            A psicanálise ajuda a entender por que esse gesto é tão confortável. Estudos sobre atribuição mostram que tendemos a explicar nossos acertos por mérito pessoal e nossos fracassos por circunstâncias externas, enquanto fazemos exatamente o contrário ao julgar os outros: o fracasso alheio vira defeito de caráter, e o sucesso alheio vira sorte. Há ainda o mecanismo da projeção, em que depositamos em outra pessoa aquilo que nos incomoda reconhecer em nós mesmos. Apontar o dedo, portanto, não é apenas um hábito político; é um recurso de proteção do ego. Dói menos acreditar que o problema está fora. O preço, porém, é alto: quem nunca olha para dentro nunca encontra a parte que lhe cabe e, sem encontrá-la, nunca poderá mudá-la.

            Na outra ponta vem a expressão que abre o título: mea culpa, do latim, "minha culpa". Ela vem de uma oração antiga em que a pessoa reconhece, batendo no peito, o próprio erro. Hoje a expressão é usada com certa leveza e, muitas vezes, de forma retórica, como um pedido de desculpas protocolar que não altera coisa alguma. Mas o mea culpa verdadeiro não é humilhação nem autoflagelo... é um ato de maturidade. É dizer: nesta parte do problema eu participei, e nesta parte posso fazer diferente. Não se trata de assumir a culpa por tudo, o que seria apenas outra forma de distorção, mas de separar o que é do outro do que é meu, com honestidade suficiente para não empurrar tudo para um lado só.

            Aplicado ao cenário político, esse exercício incomoda e, por isso mesmo, é necessário. O voto é um ato individual com consequências coletivas. Isso significa que, ao escolher alguém, assumo uma parcela pequena, mas real, de corresponsabilidade pelo que virá: pelo quanto me informei, pelo quanto desconfiei de promessas fáceis, pelo quanto cobrei depois. Votar e se desligar por quatro anos, reaparecendo apenas na hora da queixa, é uma forma elegante de apontar o dedo para o futuro. Da mesma maneira, quem governa ou legisla precisa aprender que "a culpa é de quem veio antes" tem prazo de validade, e que prestar contas não é um favor feito ao eleitor, e sim parte do cargo. Cada um, no seu lugar, tem uma fatia da responsabilidade, e o país só funciona quando as fatias são reconhecidas.

            Há ainda um detalhe que o gesto do indicador esconde, e que muita gente já ouviu, mas poucos aplicam: quando apontamos um dedo para alguém, os outros três dedos da mesma mão estão apontados para nós. A anatomia, nesse caso, é uma pequena lição de ética, bastando olhar para a própria mão. O que a síndrome do indicador nos pede, portanto, não é que deixemos de cobrar, criticar ou de apontar falhas, pois isso faz parte saudável de qualquer democracia. Pede apenas que o dedo que aponta para fora venha acompanhado de uma pergunta que aponte para dentro: o que me cabe nisso?

            Então, de quem é a culpa? Talvez a pergunta esteja mal formulada. Procurar o culpado é procurar alguém para punir. Procurar a responsabilidade é procurar o que pode ser feito. Enquanto o Brasil perguntar apenas "de quem é a culpa?", continuará girando em círculos, com cada lado acusando o outro e todos se sentindo injustiçados. Quando passar a perguntar "qual é a minha parte, e o que posso fazer com ela?", talvez descubra que a saída nunca esteve em um único nome, em um único partido ou em uma única eleição. Esteve, desde sempre, na mão que aponta, e na coragem de recolher o dedo, ao menos por um instante, para olhar o que ele apontava de volta.

 

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

MÃOS QUE ORAM: A BELEZA DE NUNCA ESQUECER QUEM NOS AJUDOU A CHEGAR

MÃOS QUE ORAM:

A BELEZA DE NUNCA ESQUECER QUEM NOS AJUDOU A CHEGAR

por Heitor Jorge Lau

            A inspiração para esta reflexão nasceu da leitura de “Poesias em Aquarela”, de Antônio J. Giacomin, obra que apresenta, entre suas páginas, a imagem de “Mãos que Oram”, associada a uma comovente narrativa sobre sacrifício, amizade e gratidão. A partir dessa imagem, surge uma questão que ultrapassa os limites de uma única pintura: quantas histórias podem estar inscritas nas mãos de um artista plástico? Mãos que aprendem a observar o mundo, experimentam a resistência dos materiais, descobrem formas e cores, enfrentam dificuldades, amadurecem com o tempo e transformam sentimentos, lembranças e inquietações em expressões artísticas. Cada pincelada pode guardar a memória de uma experiência, cada obra pode carregar fragmentos de uma existência e cada marca deixada pelo tempo pode revelar o esforço silencioso que tornou possível uma criação. Por trás daquilo que admiramos em uma tela, existe uma trajetória que os olhos nem sempre conseguem enxergar: horas de dedicação, renúncias, descobertas, pessoas que ofereceram apoio e outras que, mesmo sem perceber, contribuíram para a formação do artista. Contemplar uma obra, portanto, é também reconhecer que a arte não nasce apenas do talento das mãos, mas de tudo aquilo que a vida deposita nelas. E, quando procuramos compreender essa dimensão humana da criação artística, percebemos que algumas das histórias mais profundas não estão pintadas na superfície da tela, mas permanecem guardadas nas mãos que a tornaram possível.           

Boa leitura!

 

            Existem obras de arte que ultrapassam a beleza de suas formas e encontram um lugar permanente na memória humana por seu significado original. Não é apenas o talento do artista que lhes confere grandeza, mas a história que carregam e os sentimentos que despertam. Entre elas está a célebre pintura “Mãos que Oram”, associada ao artista alemão Albrecht Dürer (1471–1528), cuja origem é contada por meio de uma lenda que, independentemente de sua veracidade histórica, encerra uma profunda lição sobre a gratidão e os vínculos que construímos ao longo da vida.

            Uma das versões dessa narrativa remonta à juventude de Dürer, um dos dezoito filhos de um ourives que vivia nas proximidades de Nuremberg. O jovem Albrecht compartilhava com um de seus irmãos o sonho de se tornar artista. A família, entretanto, não dispunha de recursos para custear a formação de ambos, e os dois irmãos precisavam encontrar uma maneira de superar aquela limitação. Foi então que conceberam um acordo que mudaria o destino de suas vidas.

            Decidiram lançar uma moeda ao alto para determinar quem teria a oportunidade de estudar arte. O vencedor partiria para a academia, enquanto o outro trabalharia nas minas de carvão da região, dedicando-se ao sustento do irmão. Quando os estudos terminassem, aquele que tivesse alcançado a formação artística assumiria a responsabilidade de financiar a educação do outro, permitindo-lhe realizar o mesmo sonho. A sorte favoreceu Albrecht, que partiu para estudar, enquanto seu irmão se submeteu ao trabalho árduo nas profundezas das minas.

            Durante quatro anos, Dürer dedicou-se intensamente à aprendizagem, demonstrando um talento extraordinário e conquistando reconhecimento por sua habilidade. Enquanto isso, o irmão cumpria sua parte no acordo, trabalhando incansavelmente para custear a formação daquele que havia sido escolhido. Cada jornada nas minas representava uma contribuição silenciosa para um futuro que ambos haviam imaginado, mas que apenas um deles, naquele momento, podia perseguir.

            Concluídos os estudos, Albrecht retornou à aldeia natal, já reconhecido por sua competência artística. A família reuniu-se para celebrar a conquista, e o jovem artista, em meio à alegria do reencontro, anunciou ao irmão que havia chegado sua vez de partir para a cidade e realizar o sonho de tornar-se pintor. Afinal, aquele era o compromisso assumido entre os dois. O que aconteceu em seguida, porém, transformou a celebração em um dos episódios mais comoventes dessa narrativa.

            Com lágrimas nos olhos, o irmão revelou que já não poderia seguir o caminho desejado. Os quatro anos de trabalho nas minas haviam deixado marcas profundas em suas mãos: ossos quebrados, calosidades, sulcos e deformações provocadas pelo esforço brutal. Aquilo que antes lhe permitiria manejar com delicadeza os instrumentos da arte havia sido comprometido de maneira irreversível. Seu sonho de tornar-se pintor não poderia mais se realizar.

            Diante dessa realidade, o irmão não demonstrou ressentimento. Pelo contrário, manifestou satisfação por ter contribuído para que Albrecht alcançasse a posição que ambos haviam desejado. Suas mãos, embora incapazes de executar os movimentos delicados exigidos pela pintura, haviam cumprido uma tarefa extraordinária: ajudaram a construir o futuro de outra pessoa. O sacrifício não fora pequeno, tampouco suas consequências, mas ele reconhecia o valor da conquista do irmão e encontrava nisso uma razão para se alegrar.

            Profundamente tocado por aquela demonstração de dedicação, Dürer decidiu desenhar as mãos castigadas do irmão, unidas em uma posição de oração e agradecimento. O resultado teria sido a imagem que atravessou gerações sob o título “Mãos que Oram”. A força expressiva do desenho estaria justamente no contraste entre a delicadeza do gesto e a dureza da vida que aquelas mãos representavam. Não eram mãos comuns: eram o testemunho de um esforço silencioso, de uma renúncia profunda e de uma generosidade que não exigia recompensas.

            Existe, contudo, outra versão da lenda. Porém, essa narrativa é o suficiente para germinar na mente do leitor a reflexão desejada. As duas narrativas apresentam diferenças quanto à identidade do homem retratado e às circunstâncias que teriam originado o desenho. Não é necessário, entretanto, decidir qual delas é verdadeira para compreender a mensagem que ambas procuram transmitir. A história pode ser examinada como uma lenda de origem, sem que se confunda sua força simbólica com a comprovação dos fatos históricos. Seu valor reside, sobretudo, na reflexão que desperta sobre a maneira como reconhecemos aqueles que contribuíram para nossas realizações.

            A imagem das mãos unidas nos convida a olhar para além do sucesso individual. Frequentemente, celebramos as conquistas como se fossem resultados exclusivos de nosso esforço, de nossa inteligência ou de nosso talento. Esquecemos que, em diferentes momentos da vida, alguém nos ofereceu tempo, conhecimento, trabalho, incentivo ou oportunidades que tornaram possível avançar. Nem sempre essas contribuições aparecem publicamente, e muitas delas permanecem invisíveis para aqueles que contemplam os resultados alcançados. Ainda assim, fazem parte da história de cada realização.

            Há pessoas cujos nomes jamais serão associados às grandes conquistas que ajudaram a tornar possíveis. Seus esforços não aparecem em certificados, homenagens ou biografias. Suas mãos, contudo, estão presentes em muitas das coisas que admiramos. Reconhecê-las exige sensibilidade para compreender que o mérito individual não elimina a importância da colaboração, e que a gratidão não diminui quem a manifesta. Ao contrário, revela a capacidade de reconhecer a presença do outro em nossa própria trajetória.

            É nesse sentido que “Mãos que Oram” adquire uma dimensão que ultrapassa a religiosidade sugerida por seu título e sua composição. A imagem pode ser compreendida como uma expressão universal de reconhecimento, respeito e gratidão. Ela nos lembra que existem sacrifícios que não podem ser desfeitos, oportunidades que não podem ser devolvidas e gestos de generosidade que nenhuma recompensa material consegue compensar integralmente. Diante deles, resta-nos preservar a memória, honrar a contribuição recebida e impedir que o esquecimento apague a importância de quem caminhou conosco.

            Seja qual for a versão da lenda, permanece uma verdade humana que merece ser preservada: ninguém constrói sozinho tudo aquilo que a vida lhe permite realizar. Em algum momento, nossas conquistas carregam a participação de pessoas que acreditaram em nós, que assumiram responsabilidades, que compartilharam dificuldades ou que aceitaram renúncias para nos oferecer melhores condições de seguir adiante. Reconhecer essa presença é uma forma de justiça, mas também uma expressão de maturidade e humanidade.

            A maior beleza das mãos retratadas não está apenas na posição em que foram desenhadas, mas naquilo que simbolizam: a possibilidade de transformar o sacrifício em generosidade, a lembrança em reconhecimento e o sucesso em motivo de gratidão. São mãos que, mesmo marcadas pelo sofrimento, não perderam a capacidade de expressar afeto. Mãos que contam uma história sem precisar de palavras. Mãos que nos recordam que a grandeza de uma pessoa não se mede somente pelo que consegue realizar, mas também pela maneira como reconhece aqueles que contribuíram para sua caminhada.

            No fim, a lição permanece simples e profunda: nunca devemos esquecer as mãos que nos ajudaram a chegar onde estamos. Algumas nos ensinaram, outras nos sustentaram; algumas abriram caminhos, outras trabalharam silenciosamente para que pudéssemos percorrê-los. Todas merecem ser lembradas com respeito. Porque o verdadeiro valor de uma conquista também está na gratidão que somos capazes de conservar por aqueles que fizeram parte dela.

 

VIDA - UMA QUESTÃO DE PERSPECTIVA

“Há grandes chances de o seu ponto de vista não ser o único possível!” - Carl Sagan

        A frase do renomado astrônomo científico Carl Sagan nos convida a uma reflexão profunda sobre a humildade intelectual e a abertura para perspectivas diversas. Em um mundo cada vez mais polarizado, onde opiniões se cristalizam e o diálogo muitas vezes dá lugar à intolerância, a mensagem de Sagan ressoa como um lembrete essencial: nossa visão de mundo, por mais fundamentada que pareça, é apenas uma entre muitas.

 

METONÍMIA e ROTULAGEM: ANTES DO RÓTULO, HAVIA ALGUÉM

ANTES DO RÓTULO, HAVIA ALGUÉM

Sobre a pessoa, a profissão e o posicionamento político

por Heitor Jorge Lau

            Há uma cena banal que se repete todos os dias, em conversas de bar, reuniões de trabalho e, sobretudo, nas redes sociais. Alguém menciona um nome e, antes que a frase termine, o interlocutor já decidiu quem é aquela pessoa: “ah, é professor”, “ah, é de direita”, “ah, é daquele partido”. Em poucos segundos, um ser humano inteiro foi arquivado numa gaveta com etiqueta. A pergunta que merece ser feita é simples e, justamente por isso, desconfortável: quando falamos de alguém, de quem estamos realmente falando? Sobre a pessoa, sobre a sua profissão ou do seu posicionamento político?

            A resposta mais honesta - do ponto de vista filosófico e linguístico - é que um nome próprio aponta para um indivíduo inteiro, com biografia, afetos, medos, contradições e uma história que ultrapassa qualquer papel que ele desempenhe. Quando dizemos “João”, não estamos dizendo “o contador” nem “o eleitor de tal candidato”. Profissão e convicção política são atributos de alguém, não o alguém em si. Um médico é uma pessoa que exerce a medicina; um militante é uma pessoa que abraçou certas ideias. O atributo descreve, mas não esgota. Essa distinção parece óbvia quando enunciada com calma, e, no entanto, é violada com uma naturalidade assustadora no dia a dia.

            O mecanismo dessa violação é conhecido. Trata-se da METONÍMIA e da ROTULAGEM: tomamos a parte pelo todo e deixamos que a categoria fale no lugar do indivíduo. Expressamos “os médicos pensam assim”, “os professores são todos iguais”, “os eleitores daquele lado fazem aquilo”, e a pessoa concreta desaparece atrás do grupo abstrato. Há, é verdade, uma economia cognitiva nisso, porque o mundo é complexo e o rótulo simplifica. Mas o preço da simplificação é alto. O rótulo apaga a singularidade, atribui a cada um tudo o que se associa ao coletivo e transforma o debate de ideias em um confronto de identidades. Quem é reduzido ao rótulo deixa de ser ouvido pelo que diz e passa a ser lido pelo que supostamente representa.

            Convém, contudo, separar dois planos. No plano descritivo, mencionar a profissão ou a posição política de alguém é perfeitamente legítimo quando isso é relevante ao assunto em questão. Se discutimos uma sentença, é pertinente falar da juíza; se analisamos um voto no parlamento, é pertinente falar do partido do parlamentar. O problema nasce no plano valorativo, quando o atributo deixa de ser informação e vira argumento. “Isso é coisa de empresário”, “só poderia vir de um professor universitário”: nessas frases, ninguém examina o que foi dito, apenas desqualifica-se quem disse. É a velha falácia ad hominem, que avalia o falante em vez da fala. E o caminho inverso é igualmente enganoso, o argumento de autoridade, em que o atributo serve de escudo: “ele é doutor, logo está certo”. Nos dois casos, o rótulo ocupa o lugar que deveria pertencer à razão.

            Seria um erro, porém, concluir que profissão e política são camadas superficiais, que a pessoa veste e despe como um casaco. Para muita gente, ser professor, militar, enfermeiro ou militante não é apenas o que faz... é quem é. São escolhas que moldam rotinas, vínculos, vocabulário e até a forma de enxergar o mundo. Tratar esses elementos como descartáveis também seria uma injustiça, porque negaria algo que a própria pessoa considera essencial em sua trajetória. A questão, portanto, não é negar que tais atributos compõem alguém, e sim reconhecer que compõem sem esgotar. Uma pessoa pode ser coerente em suas convicções e, ainda assim, surpreender, mudar de ideia, discordar do próprio grupo e agir de modo que nenhum rótulo previa. A coerência de um indivíduo é maior e mais interessante do que a coerência de qualquer categoria.

            Há aqui, ainda, uma dimensão que toca diretamente o problema da interpretação. Quando lemos ou ouvimos alguém já munidos de um rótulo, aplicamos uma intenção presumida ao discurso antes mesmo de compreendê-lo. Em vez de interpretar o que foi dito, projetamos o que esperávamos ouvir. Umberto Eco, ao refletir sobre os limites da interpretação, lembrava que um texto não pode ser transformado em qualquer coisa que o leitor deseje, que há um ponto em que a leitura precisa ser contida por aquilo que o texto efetivamente diz. Com as pessoas ocorre algo semelhante. O rótulo funciona como uma chave de leitura imposta de fora, uma “sobreinterpretação” que faz a fala do outro caber, à força, na caixa que já tínhamos preparado. Ouvimos o que o rótulo prometia, não o que a pessoa disse.

            O ambiente digital agrava esse quadro. As redes sociais premiam a identificação rápida de lados, recompensam a frase de efeito e punem a nuance. Cada perfil é lido em segundos, classificado em segundos e, em segundos, aceito ou condenado. Nessa lógica, quem se apresenta como “fulano, professor, de direita” ou “beltrana, advogada, de esquerda” oferece, voluntariamente, o crachá com o qual será lido. Seria isso uma autorização para que o reduzam ao crachá? Penso que não. Quem se apresenta por um rótulo está dizendo de onde fala, não renunciando ao direito de ser compreendido além dele. Apresentar-se não é render-se à classificação alheia.

            Existe, por fim, uma maneira honesta de criticar ideias, instituições e grupos sem atingir injustamente os indivíduos que os compõem. Ela exige um esforço que o rótulo dispensa: o de ouvir antes de classificar, perguntar antes de presumir, e de refutar o argumento e não o argumentador. É mais trabalhoso, sem dúvida, porque obriga a reconhecer que o outro é complexo tanto quanto nós mesmos. Mas é também o único caminho para um debate que produza compreensão, e não apenas ruído.

            Enfim, quando nos referimos a uma pessoa, referimo-nos a ela, inteira, com tudo o que a torna única, inclusive a profissão que exerce e as ideias que defende, mas sem nunca nos limitarmos a essas marcas. Tratar alguém como pessoa antes de tratá-lo como representante de uma categoria é um ato de justiça e de generosidade intelectual. Antes do rótulo, havia alguém. E o maior desafio é lembrar disso, justamente quando o rótulo é mais conveniente do que a conversa.

 

sábado, 24 de outubro de 2026

O VERNIZ DA CIVILIZAÇÃO

O VERNIZ DA CIVILIZAÇÃO

O Senhor das Moscas e a natureza que insistimos em esquecer

por Heitor Jorge Lau

            Há obras que envelhecem e há obras que apenas esperam. O Senhor das Moscas pertence ao segundo grupo: a cada geração ele volta a ser atual, não porque o mundo se parece com uma ilha deserta, mas porque nós continuamos a ser quem somos. Retomo estas reflexões, que publiquei há um ano, por uma razão simples: as pessoas parecem ter esquecido de que carregam dentro de si uma natureza primitiva, e quem esquece o que é costuma ser surpreendido pelo que faz.

            Os comentários que seguem nascem da observação do filme à luz da Filosofia, mas logo ficou claro que ela, sozinha, não bastaria. A riqueza de situações, com atitudes individuais e coletivas, proativas e reativas, racionais e irracionais, exigiu um passeio pela psicologia, pela sociologia e pela antropologia. A diversidade de detalhes comportamentais é tão ampla que um olhar restrito aos aspectos filosóficos, ainda que fortemente presentes, deixaria escapar metade do que a história revela.

            O que se vê na tela é a exposição dos instintos mais antigos da condição humana: a desordem social, a disputa pelo poder, o domínio do fogo, o impulso de caçar, a urgência de sobreviver. Não seria exagero tratá-lo como uma Guerra do Fogo vivida em tempos modernos. Que o elenco seja formado por garotos pré-adolescentes, vestidos com resquícios de uniformes militares, importa menos do que parece. Para esta análise, interessam as atitudes e o aprendizado que delas se extrai, não a idade de quem as protagoniza.

            Praticamente todas as sociedades constroem hierarquias nas quais alguns recebem poder e autoridade sobre os demais. Na nossa, pais, diretores de escola, gerentes e até amigos exercem diferentes graus de autoridade, e a relação entre quem manda e quem obedece raramente se dá sem conflito moral. A história de Abraão, a quem Deus ordenou o sacrifício do filho Isaac, ilustra o dilema com força incomum: ele amava a Deus e amava o filho, e viu-se numa posição em que parecia obrigado a trair um dos dois. Até onde deve ir a obediência?

            O mesmo conflito aparece, em versão sombria, quando soldados recebem ordem de matar civis indefesos. Foi o que ocorreu na Guerra do Vietnã, quando o tenente Calley mandou massacrar moradores de My Lai e se defendeu dizendo que apenas obedecia a ordens superiores, "cumprindo o seu dever". De um lado, a disciplina militar; de outro, o respeito pela vida humana. O exemplo mostra a disposição das pessoas de ir a extremos para ser obedientes. E não precisamos de um campo de batalha para reconhecê-la: basta observar como colaboradores se comportam diante de chefes que dizem e fazem coisas evidentemente erradas, e como existe uma relutância generalizada em contestá-los.

            A cultura insiste nessa lição porque acredita que uma sociedade eficiente e organizada depende de uma hierarquia estável, e procura garantir a obediência dando ao indivíduo obediente um lugar na estrutura. Entregamos a saúde ao médico, as finanças ao contador, e precisamos confiar nas opiniões de várias figuras de autoridade para que a vida funcione. É exatamente isso que os garotos do filme retratam: um impulso difícil de controlar, uma necessidade quase inconsciente de submeter-se a quem parece mandar. Chamo isso de efeito manada, e ele não precisa de ilha alguma para operar.

            Há ainda um detalhe que não deve passar despercebido: toda a trama acontece num ambiente hostil, sem as leis sociais que regulam a moral, a ética e os bons costumes. Pode não parecer evidente, mas o contexto geográfico valida ou rejeita determinadas ações. Qualquer homem oferece o pescoço a alguém munido de uma navalha numa barbearia; ninguém faria o mesmo numa sapataria. O cenário diz o que é aceitável antes mesmo de alguém falar.

            Misture o ambiente errado com a influência inadequada e teremos a receita da capacidade humana de abandonar a própria humanidade, à medida que a personalidade singular se dissolve em estruturas institucionais defeituosas. Talvez seja esse o defeito de fábrica com que a natureza nos dotou, e que, a longo prazo, dá à nossa espécie apenas uma modesta chance de sobreviver. Pessimismo ou não, basta lembrar Darwin: compartilhamos ancestrais com os animais mais primitivos, e essa herança vale tanto para o cérebro, berço da razão e da sensação, quanto para qualquer outra parte do corpo. Como o assunto aqui é comportamento, deixemos de lado o que fica do pescoço para baixo.

            A ciência identificou duas estruturas cerebrais decisivas. O sistema límbico, também chamado de Paleocórtex, é a parte mais antiga e governa a expressão das emoções. O Neocórtex, a massa cinzenta que surgiu depois, é o que distingue o homem dos demais animais: permite o raciocínio lógico, a linguagem complexa e a superação das barreiras da evolução puramente biológica. Herdamos mais do que genes; herdamos as culturas complexas que nós mesmos criamos. Há comunicação entre as duas partes, mas cada uma cumpre funções próprias, e nenhuma tentativa de explicar a natureza humana prospera se ignorar essa diferença.

            O ponto crucial é que o raciocínio e a linguagem derivam de uma estrutura posterior e separada, e por isso têm pouco poder sobre o sistema límbico e sobre as emoções que ele comanda. É provável que aí esteja a explicação para a migração dos garotos do filme: de um imaginário moral e eticamente correto para um mundo em que a luta pela sobrevivência passou a mandar.

            Se a ilha do filme parece distante, basta olhar para o debate político brasileiro dos últimos anos. Sem que ninguém tenha sido abandonado numa praia deserta, o país se dividiu em grupos que mal se reconhecem como parte da mesma comunidade. Cada um tem a sua fogueira, o seu chefe, a sua concha que dá o direito à palavra, e a sua certeza de que o outro lado é a fera escondida na mata. O desacordo, que é a substância normal da vida democrática, foi substituído pela hostilidade. Opinião virou identidade, e quem discorda deixou de ser adversário para tornar-se inimigo.

            O mecanismo é o mesmo que o filme escancara. O indivíduo que é capaz de ponderar, em sua vida privada, com a calma do Neocórtex, entrega-se em grupo ao comando do sistema límbico: medo, raiva, orgulho tribal, necessidade de pertencer. Passa a repetir o que a sua manada repete, a aplaudir sem examinar e a condenar sem ouvir. A obediência a líderes e narrativas, que antes vimos em Abraão e no tenente Calley, reaparece sob a forma de fidelidade cega a figuras políticas e a correntes de opinião, e a falha, quando há, é sempre do outro. Num ambiente em que cada lado afirma defender a civilização contra a barbárie, ambos acabam cometendo, com a consciência tranquila, as pequenas barbáries do cotidiano: o insulto, a mentira repassada sem checagem, o rompimento de amizades e a quebra de laços familiares.

            Vale lembrar o que vimos há pouco sobre a distância da vítima. As redes sociais, que dominam o debate, ampliam justamente o que favorece a crueldade: não enxergamos o rosto de quem é atingido pela palavra. Sem testemunhar o sofrimento, a obediência ao grupo prevalece sobre a compaixão. O ambiente, repito, também decide: a arena digital, sem as regras de conduta de uma conversa face a face, é a ilha, e nela muita gente se comporta de um modo que jamais adotaria numa mesa de jantar.

            Quem lê isto talvez queira apontar o dedo para um lado, ou para o outro. Esse é exatamente o reflexo que o filme denuncia. A política não é o problema; o problema é o que fazemos com ela quando deixamos de pensar. A posição de cada um é um direito, e defendê-la com firmeza é legítimo. Perder a capacidade de reconhecer a humanidade de quem pensa diferente é que é o primeiro passo rumo à selvageria.

            Conflitos extremamente poderosos surgem quando alguém é levado por uma autoridade a cometer atos imorais, e a tensão resultante pode ser quase intolerável. A obediência tende a prevalecer quando o indivíduo se sente mais ligado à figura de autoridade do que à vítima; a desobediência aparece quando ele testemunha o sofrimento de quem está sendo atingido. Proximidade com a dor alheia, portanto, é um dos poucos freios que conhecemos.

            Sobram, então, perguntas que cada leitor pode levar consigo. Somente situações extremas fazem aflorar nossos instintos mais primitivos, ou bastam um grupo, um líder e um inimigo comum? Ou seríamos selvagens em nosso cotidiano, de forma institucionalizada, sem que a palavra "selvageria" nos ocorra? Resta refletir sobre elas e sobre tantas outras situações que atrapalham o nosso desenvolvimento social. Quem sabe, um dia, as pessoas deixem de ser candidatas e passem à categoria efetiva de seres humanos, no sentido mais verdadeiro da palavra.

 

A FORÇA QUE VEM DO RECONHECIMENTO

Estimado Leitor,

Cada acesso representa mais do que um número: é o encontro entre uma ideia e alguém disposto a conhecê-la. A todos que acompanham minhas publicações, leem, compartilham e ajudam a manter vivo este espaço de conhecimentos e reflexões, deixo meu sincero agradecimento. É essa presença que me incentiva a continuar escrevendo, pesquisando e compartilhando ideias sobre a natureza, a sociedade, a ciência, a política, a filosofia e tantos outros temas que merecem nossa atenção.

Seguimos juntos, porque o conhecimento ganha sentido quando encontra quem esteja disposto a refletir.

Minha gratidão a todos vocês! ❤️
 

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

A PIRÂMIDE DE MASLOW E AS NECESSIDADES DE CADA LADO DA POLARIZAÇÃO

A PIRÂMIDE DE MASLOW

E AS NECESSIDADES DE CADA LADO DA POLARIZAÇÃO

por Heitor Jorge Lau

            A Pirâmide de Maslow, proposta pelo psicólogo Abraham Maslow em 1943, organiza as motivações humanas em degraus: as necessidades fisiológicas, como alimentação e abrigo; as de segurança; as de pertencimento; as de estima e reconhecimento; e, no alto, a autorrealização. A ideia central é simples e poderosa: enquanto o degrau mais básico não está minimamente atendido, ele ocupa o centro da atenção, e só depois de satisfeito é que o olhar se volta para o seguinte. Poucas vezes essa ideia pareceu tão presente quanto agora, em uma sociedade dividida entre a direita e a esquerda radicalizadas. Sem querer generalizar, até porque isso seria um raciocínio burro e radical, as necessidades daqueles que se posicionam radicalmente à direita parecem ser diferentes das daqueles que se posicionam à esquerda. É nesse ponto do embate que Maslow se faz presente.

            Tenho um exemplo muito pessoal disso. Há muito tempo, houve um momento em que eu necessitava, ou simplesmente desejava, um carro. Depois de conquistá-lo, o desejo seguinte passou a ser um lugar próprio para morar, e do carro eu já não pensava mais, pelo menos não com a mesma urgência. E assim foi, a cada nova conquista, que podemos chamar de uma melhora de vida. A aquisição anterior jamais era esquecida; apenas deixava de ser lembrada como falta e deixava de ser desejada como meta. Não era descartada, era "guardada" no baú das lembranças. O degrau já vencido continuava ali, sustentando os demais, mas a atenção seguia adiante.

            Se levarmos essa lógica para o debate político, algo se esclarece. Quem vive a incerteza do prato de comida, do emprego, do aluguel ou do atendimento de saúde tende a enxergar o mundo a partir da base da pirâmide e a valorizar o que garante um piso mínimo de dignidade. Quem já superou essa etapa e construiu algum patrimônio, algum espaço, alguma estabilidade, tende a voltar a atenção para o degrau seguinte: a proteção do que conquistou, a segurança, a liberdade para empreender, o reconhecimento pelo próprio esforço. Cada um olha para a política da altura em que se encontra na pirâmide, e por isso pede ao Estado coisas diferentes. Nada disso é uma regra rígida. Há pessoas pobres com valores conservadores e pessoas ricas com sensibilidade social, e o próprio modelo de Maslow, mais tarde criticado e relativizado, nunca foi uma escada que todos sobem na mesma ordem. Ele descreve momentos de vida, não identidades ideológicas.

            O problema surge quando a polarização transforma degraus em trincheiras. Quem está embaixo e olha para cima passa a acusar o outro de egoísmo e de insensibilidade, e quem está em cima e olha para baixo passa a acusar o outro de acomodação e de ingratidão. Ambos tomam o degrau em que se encontram pelo mapa completo da realidade. Esquecem que quase todos já estiveram, ou podem vir a estar, em outro nível, e que a vida, como mostra o meu baú de lembranças, é feita de passagens, não de lugares fixos.

            Chego, então, à questão central do tema: as necessidades de uns não invalidam as necessidades de outros. Não me refiro a serem as mesmas necessidades, mas às necessidades básicas, por assim dizer, aquelas sem as quais nenhum degrau superior se sustenta. Quem luta por comida e moradia não está pedindo demais, e quem luta por segurança, liberdade e reconhecimento também não está pedindo de menos. Reconhecer a legitimidade da necessidade alheia não exige abrir mão da própria; exige apenas admitir que a pirâmide é de todos, e não de uma facção.

            Há ainda um segundo aspecto, que me parece decisivo. As duas visões sempre irão se complementar, e não me refiro às necessidades propriamente ditas, mas ao equilíbrio entre o empenho em proporcionar tudo para todos, independentemente da classe social ou do posicionamento em que cada cidadão se encontra. Uma sociedade saudável precisa de um piso firme, que impeça que alguém caia abaixo do mínimo, e de um teto aberto, que permita a quem deseja crescer chegar mais alto. Sem o piso, a liberdade vira privilégio de poucos; sem o teto, a proteção vira estagnação. Defender apenas um dos dois é enxergar metade da pirâmide.

            Se cada lado conseguir olhar para o degrau do outro com o mesmo respeito com que gostaria que olhassem para o seu, o embate deixa de ser uma guerra de necessidades e passa a ser aquilo que a democracia sempre pretendeu ser: a busca conjunta de um modo de garantir que todos, em qualquer ponto da pirâmide, tenham as condições de seguir adiante.

 

ENTRE A SOMBRA DE MEIN KAMPF DE ADOLF HITLER E OS RISCOS DA POLÍTICA BRASILEIRA

ENTRE A SOMBRA DE MEIN KAMPF DE ADOLF HITLER

E OS RISCOS DA POLÍTICA BRASILEIRA

por Heitor Jorge Lau

            A história não se repete necessariamente com os mesmos personagens, os mesmos métodos ou as mesmas circunstâncias. O que ela faz, com inquietante frequência, é oferecer padrões que permitem reconhecer os perigos de determinadas escolhas políticas antes que suas consequências se tornem irreversíveis. É sob essa perspectiva que a leitura de Mein Kampf, obra em que Adolf Hitler expôs suas ideias, seus ressentimentos e seu projeto de poder, pode provocar reflexões sobre o cenário político brasileiro e, particularmente, sobre as tensões envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF).

            O livro de Hitler não deve ser analisado apenas como um registro histórico do nazismo, mas também como um exemplo de como o discurso político pode ser utilizado para mobilizar ressentimentos, fabricar inimigos, simplificar problemas complexos e transformar divergências em conflitos entre aqueles que seriam considerados legítimos e aqueles que deveriam ser combatidos. Sua trajetória demonstra como a manipulação da opinião pública, o culto à liderança e a exploração do medo podem contribuir para enfraquecer as instituições democráticas. É importante, entretanto, reconhecer que a Alemanha da República de Weimar e o Brasil contemporâneo possuem contextos históricos, institucionais e sociais distintos. A comparação é útil quando ilumina mecanismos de poder, não quando transforma realidades diferentes em equivalentes históricos.

            No Brasil, a polarização política tem contribuído para um ambiente no qual parcelas da sociedade passaram a interpretar as instituições a partir de suas preferências ideológicas. O mesmo acontecimento pode ser considerado legítimo por um grupo e inaceitável por outro, dependendo de quem se beneficia de determinada decisão. Nesse ambiente, o debate racional cede espaço à fidelidade política, e a análise dos fatos frequentemente é substituída pela necessidade de defender o próprio lado. Quando isso acontece, perde-se uma condição fundamental da democracia: a disposição de submeter os próprios aliados aos mesmos critérios de avaliação aplicados aos adversários.

            É nesse contexto que o Supremo Tribunal Federal ocupa uma posição especialmente delicada. Como guardião da Constituição, o STF desempenha uma função indispensável à preservação do Estado Democrático de Direito. Sua independência diante dos demais Poderes é necessária, mas não o coloca acima da crítica pública. Pelo contrário, quanto maior a relevância de uma instituição para o equilíbrio democrático, maior deve ser a exigência de fundamentação de suas decisões, transparência, respeito aos limites constitucionais e mecanismos efetivos de responsabilização. Questionar decisões judiciais, discutir a extensão das competências dos ministros e exigir coerência jurídica não constitui, por si só, uma ameaça à democracia. A crítica fundamentada é parte essencial dela.

            O perigo começa quando a defesa de qualquer instituição se transforma em fidelidade incondicional, ou quando sua contestação abandona os argumentos jurídicos e passa a tratar seus integrantes como inimigos que precisam ser eliminados do debate público. A mesma cautela vale para os Poderes Executivo e Legislativo, para os partidos políticos e para as lideranças que reivindicam representar a vontade popular. Nenhum deles possui legitimidade para reivindicar uma autoridade ilimitada. A democracia não depende da infalibilidade de seus representantes, mas da existência de limites que impeçam qualquer pessoa ou instituição de concentrar poder sem controle.

            Uma das lições mais inquietantes do nazismo é que a erosão democrática não depende exclusivamente da violência explícita. Ela também pode avançar por meio da normalização de discursos autoritários, da desumanização dos adversários, propagação sistemática de falsidades e aceitação de que determinados fins justificariam a violação das regras. Hitler explorou o ressentimento e a instabilidade de sua época para apresentar a concentração de poder como solução para os problemas alemães. O resultado foi a destruição progressiva das liberdades, a perseguição de grupos inteiros e a implantação de um regime responsável por crimes de proporções históricas.

            Isso não significa afirmar que o STF brasileiro seja equivalente ao regime nazista, nem que toda decisão controversa represente um passo em direção ao totalitarismo. Uma analogia séria exige distinguir acontecimentos, intenções, instituições e consequências. O valor da comparação está em identificar sinais de alerta: a intolerância à divergência, a tentativa de deslegitimar toda oposição, a utilização seletiva das regras, a concentração de autoridade e a disposição de sacrificar direitos fundamentais em nome de uma suposta causa superior.

            O Brasil precisa compreender que a democracia não se resume à realização de eleições. Ela também exige instituições independentes, imprensa livre, oposição legítima, liberdade de expressão, devido processo legal e respeito às garantias constitucionais. Esses princípios devem valer para todos, inclusive para aqueles cujas ideias rejeitamos. Não existe compromisso democrático verdadeiro quando se exige liberdade para os próprios aliados e se considera aceitável restringi-la aos adversários.

            A leitura de Mein Kampf serve, portanto, menos para procurar um Hitler contemporâneo em cada liderança política e mais para compreender como sociedades podem ser conduzidas à intolerância quando abandonam o pensamento crítico. O risco não está apenas no aparecimento de um governante autoritário, mas também na disposição coletiva de justificar abusos quando eles parecem favorecer convicções.

            Diante do cenário brasileiro, a pergunta decisiva não é se o STF está sempre certo ou sempre errado. É se estamos dispostos a exigir de todas as instituições o mesmo compromisso com a Constituição, legalidade, transparência e os direitos fundamentais. Se a resposta depender da identidade ideológica de quem exerce o poder, o problema já ultrapassou os limites de uma disputa partidária.

            A história ensina que nenhuma democracia está protegida apenas por sua Constituição escrita. Ela depende de cidadãos capazes de desconfiar dos discursos fáceis, reconhecer os próprios preconceitos e defender princípios mesmo quando isso contraria suas preferências políticas. A liberdade não se preserva pela submissão a líderes, partidos ou tribunais, mas pela vigilância crítica sobre todos eles. Enfim, quando a convicção política se torna mais importante do que a verdade, e quando a lealdade a um grupo vale mais do que os princípios que deveriam limitar o poder, a sociedade começa a abrir mão justamente daquilo que acredita estar defendendo: a própria democracia.