PRODUTIVIDADE
E O MITO DO
TRABALHADOR QUE PRECISA TRABALHAR MAIS
por Heitor Jorge
Lau
Psicanalista e
Analista de Recursos Humanos
Poucas
palavras são tão mal compreendidas no Brasil quanto produtividade. No senso
comum brasileiro, "produtividade" costuma ser entendida como
trabalhar mais, correr mais, fazer hora extra, não parar, responder mensagens à
noite, acumular tarefas e manter-se constantemente ocupado. O próprio texto
demonstra que essa concepção é equivocada. Produtividade não significa aumentar
a quantidade de esforço... significa aumentar o resultado obtido por cada hora
de esforço. Um pedreiro com uma pá e um carrinho de mão pode trabalhar dez
horas e produzir menos do que outro que trabalhe seis horas utilizando
betoneira, elevador de carga, ferramentas modernas e materiais adequados. O
segundo é mais produtivo, embora trabalhe menos. O aumento da produtividade
está relacionado muito mais à qualidade do ambiente produtivo do que à
intensidade do esforço individual.
Para
entender a produtividade é preciso voltar a uma época em que o trabalho não era
medido em horas, mas em tarefas. Numa aldeia europeia de 1780, ninguém cumpria
“turno”: as pessoas ordenhavam, plantavam, consertavam cercas, buscavam água e
realizavam outras atividades até que as tarefas terminassem. O dia começava com
a luz e terminava com o sol. No inverno, quando a terra congelava e a produção
diminuía drasticamente, o trabalho praticamente parava. O historiador Edward
Thompson chamou essa lógica de “orientação pela tarefa”: o ritmo era ditado
pela natureza e pela necessidade, não pelo relógio. À primeira vista, esse modo
de vida pode parecer mais humano e menos apressado. A pausa forçada do inverno,
entretanto, não representava necessariamente descanso. Representava fome.
Quando a despensa esvaziava, restava esperar que os estoques fossem suficientes
para atravessar a estação até a chegada da primavera.
A diferença
entre aquela realidade e o cotidiano contemporâneo é extraordinária. Hoje, uma
pessoa comum pode consumir, em poucos minutos, produtos que atravessaram
continentes: lençóis fabricados na China, televisores produzidos na Coreia do
Sul, telas fabricadas em Singapura e informações transmitidas instantaneamente
por servidores espalhados pelo mundo. Por trás desse padrão de vida existe uma
enorme quantidade de trabalho humano, máquinas, energia, conhecimento,
infraestrutura e organização. Há até uma forma de dimensionar essa
transformação em termos de energia: estima-se que uma pessoa consuma, em média,
cerca de 2.500 watts, enquanto um ciclista em boa forma consegue gerar
aproximadamente 50 watts de potência física. A comparação ajuda a compreender a
dimensão da infraestrutura produtiva que sustenta o padrão de vida
contemporâneo. Transportado de volta para 1780, o indivíduo moderno perderia
instantaneamente boa parte das condições que hoje considera elementares e
ficaria novamente exposto à fome, às doenças e à insegurança material que
marcaram grande parte da história humana.
Nos últimos
dois séculos, dois movimentos aconteceram simultaneamente: a humanidade ficou
muito mais rica e passou a trabalhar, em média, menos horas. No Brasil, os
dados confiáveis disponíveis mostram que o trabalhador médio passou de 2.483
horas anuais em 1970 para cerca de 1.994 horas atualmente. São quase 490 horas
a menos por ano, uma redução equivalente a aproximadamente dez horas de
trabalho por semana. A mudança é importante porque mostra que a redução da
jornada não surgiu simplesmente de uma decisão política isolada. Ela está
relacionada a uma transformação muito mais profunda na capacidade de produzir
bens e serviços.
Dinheiro
pode ser uma régua enganosa para medir riqueza, porque seu valor varia ao longo
do tempo e entre diferentes países. O tempo, nesse sentido, oferece uma medida
mais concreta. Há duzentos anos, um trabalhador inglês precisava de mais de
seis horas de trabalho para pagar uma hora de iluminação destinada à leitura
durante a noite. Hoje, essa mesma hora de iluminação pode custar menos de um
segundo de trabalho. O mesmo fenômeno aparece quando se observa uma cesta de
matérias-primas básicas, como petróleo, trigo, café e cobre. Entre 1980 e 2018,
o chamado “preço em tempo” dessa cesta caiu 72%. Quando o custo de alguma coisa
diminui em relação ao tempo necessário para obtê-la, uma parcela da vida humana
deixa de ser consumida para produzir aquilo.
O debate
sobre produtividade é, no fundo, uma discussão sobre o uso do tempo, mas a
história do trabalho sofreu uma transformação decisiva com a Revolução
Industrial. Antes da máquina a vapor, trabalhar menos frequentemente
significava produzir menos e, consequentemente, correr o risco de passar fome.
Depois da máquina a vapor, durante muito tempo, trabalhar menos continuou sendo
difícil, mas por uma razão diferente: a lógica da própria máquina. Uma máquina
a vapor era cara, e mantê-la parada representava prejuízo. Pela primeira vez, o
tempo do trabalhador precisou se submeter de maneira sistemática ao tempo da
máquina. Se a fábrica funcionava durante doze horas, o trabalhador deveria
permanecer disponível durante as mesmas doze horas.
As fábricas
passaram a criar mecanismos rigorosos de controle do tempo. Atrasos de poucos
minutos podiam resultar em descontos salariais, comportamentos como cantar ou
assobiar eram punidos e existem registros históricos de patrões que chegaram a
adulterar os relógios das fábricas para controlar ainda mais rigorosamente o
tempo dos empregados. Foi nesse período que as jornadas atingiram níveis
extremos. Em Londres, chegaram a aproximadamente 70 horas semanais. Parte dessa
jornada era imposta pelos empregadores, mas havia também uma dimensão
relacionada às próprias transformações sociais da época. As famílias passaram a
ter acesso a bens de consumo que antes eram raros, como açúcar, chá e tecidos,
e isso contribuiu para aquilo que o historiador Jan de Vries chamou de
“revolução do esforço”. Por volta de 1800, o mundo alcançou seu recorde
histórico de horas trabalhadas. A partir daí, entretanto, as jornadas começaram
a cair e permaneceram em queda durante aproximadamente 150 anos.
A palavra
fundamental para compreender essa mudança é produtividade. O conceito costuma
ser associado a discursos sobre desempenho e eficiência, mas seu significado
econômico é bastante diferente de simplesmente “trabalhar mais”. Produtividade
significa produzir mais valor por hora trabalhada. Quando a produtividade
aumenta, torna-se possível produzir a mesma quantidade em menos tempo ou
produzir uma quantidade muito maior utilizando a mesma quantidade de tempo.
Um pedreiro
brasileiro de hoje não trabalha necessariamente mais do que um pedreiro de
1926. Em muitos casos, trabalha menos e ainda assim consegue construir muito
mais em muito menos tempo. Isso acontece porque dispõe de betoneira em vez de
depender apenas da pá, utiliza furadeira elétrica, caminhões para transportar
materiais, cimento padronizado, ferramentas mais eficientes e energia elétrica
disponível. O resultado não depende simplesmente do esforço físico do
trabalhador. Depende do conjunto de recursos que está ao redor dele.
Economistas
costumam apontar três grandes motores da produtividade. O primeiro é o capital
físico, representado por máquinas, estradas, energia e ferramentas que
multiplicam o rendimento de cada hora de trabalho. O segundo é o capital
humano, formado por educação, saúde, conhecimento e experiência acumulada.
O terceiro é a chamada produtividade total dos fatores, uma dimensão
mais difícil de enxergar porque envolve organização, tecnologia, instituições,
regras e confiança. É a diferença entre uma cidade na qual semáforos são
sincronizados, ruas são bem cuidadas e as regras funcionam e outra na qual os
mesmos carros e os mesmos motoristas enfrentam congestionamentos, buracos e
regras inconsistentes. Os recursos humanos podem ser semelhantes, mas o
resultado produzido por eles será completamente diferente.
Quando
esses três fatores avançam simultaneamente, cada hora de trabalho passa a valer
mais. Surge então uma possibilidade que seria praticamente inimaginável em
sociedades de baixa produtividade: trabalhar menos sem necessariamente
empobrecer. O excedente produzido pelo aumento da produtividade pode assumir
diferentes destinos. Pode transformar-se em salários maiores, jornadas menores,
preços mais baixos ou lucros maiores. O destino desse excedente depende da
negociação entre trabalhadores e empresas, das leis, da força sindical e da
cultura de cada sociedade.
Existe uma
tentação recorrente de explicar diferenças de produtividade por características
individuais, como se determinadas populações fossem naturalmente mais
trabalhadoras e outras mais preguiçosas. Um estudo realizado em 2008 pelos
economistas Michael Clemens, Cláudio Montenegro e Lant Pritchett ajuda a
desmontar essa interpretação. Os pesquisadores compararam trabalhadores
estatisticamente semelhantes em idade, escolaridade, experiência e sexo que
migraram de seus países de origem para os Estados Unidos. Um trabalhador
boliviano passava a ganhar quase três vezes mais simplesmente por mudar de
país. Um trabalhador nigeriano passava a ganhar mais de oito vezes. A pessoa
continuava essencialmente a mesma. Todavia, o ambiente produtivo havia mudado.
Esse
fenômeno foi chamado de “Prêmio do Lugar”. A conclusão é particularmente
importante para o debate brasileiro: se uma mesma pessoa, com capacidade e
esforço semelhantes, consegue produzir muito mais em determinado lugar do que
em outro, a produtividade não pode ser entendida apenas como uma característica
individual. Ela é também uma propriedade do sistema ao redor do trabalhador.
Máquinas, estradas, energia, educação, instituições, organização, crédito e
regras econômicas influenciam diretamente o valor que cada hora de trabalho
consegue produzir.
É nesse
ponto que o Brasil entra no debate. O trabalhador brasileiro não pode ser
simplesmente classificado como pouco produtivo ou preguiçoso. Pelo contrário,
trabalha bastante. São aproximadamente 1.708 horas por ano, contra 1.386 horas
de um trabalhador alemão, uma diferença superior a 300 horas anuais. O problema
central não está, portanto, apenas na quantidade de horas trabalhadas, mas no
valor gerado por cada uma delas.
Segundo as
estimativas apresentadas no material, cada hora trabalhada no Brasil gera
aproximadamente US$ 21 de valor, contra mais de US$ 80 nos Estados Unidos e
cerca de US$ 70 na média dos países ricos. O Brasil aparece, nesse indicador,
na 94ª posição entre 184 países. A comparação histórica com a Coreia do Sul é
ainda mais reveladora. Em 1970, o Brasil produzia aproximadamente o dobro do
que a Coreia do Sul. Atualmente, um trabalhador brasileiro produz menos da
metade do que produz um trabalhador coreano. A diferença não pode ser explicada
por uma súbita mudança na capacidade individual dos brasileiros ou dos
coreanos. Ela resulta, sobretudo, das condições produtivas construídas ao longo
de décadas.
Diversos
fatores estruturais ajudam a explicar essa distância. Um dos principais é a
educação. O Brasil praticamente universalizou o acesso à escola, mas ainda
apresenta dificuldades importantes no aprendizado. Menos da metade das crianças
que concluem o ensino primário consegue interpretar adequadamente um texto
curto. Os quase 13 anos de escolaridade média equivalem, quando se considera o
aprendizado efetivamente adquirido, a apenas 7,9 anos de escolaridade efetiva,
segundo o Banco Mundial. No último grande exame internacional, o estudante
brasileiro de 15 anos ficou na 64ª posição entre 81 países em matemática. A
educação, portanto, não é apenas uma questão social: é também um dos
fundamentos da produtividade econômica.
Outro
problema é a infraestrutura. Transportar produtos dentro do Brasil custa entre
12% e 15% de tudo aquilo que o país produz, enquanto nos países ricos esse
custo fica entre 8% e 10%. De mais de 1,7 milhão de quilômetros de estradas,
apenas cerca de 12% são pavimentados. A malha ferroviária ativa possui
aproximadamente 10 mil quilômetros, cerca de um terço do que já existiu no
país. Cada estrada inadequada, cada transporte demorado e cada deficiência
logística representa tempo e recursos que deixam de ser utilizados na atividade
produtiva.
Também
existe o problema de um Estado que frequentemente protege setores econômicos em
vez de estimular a concorrência. Uma empresa pode prosperar porque inova,
aumenta sua eficiência e conquista consumidores ou pode obter vantagens por
meio de regimes fiscais especiais, crédito favorecido e proteção contra
concorrentes estrangeiros. A primeira alternativa tende a estimular a
produtividade geral. A segunda pode preservar empresas pouco eficientes e
reduzir a pressão para inovar. O Brasil também apresenta baixa abertura ao
comércio internacional: importações e exportações somam aproximadamente um
terço do PIB, abaixo da média mundial, que supera 50%.
O crédito
constitui outro gargalo. Mais de 40% do crédito do sistema financeiro
brasileiro é direcionado, mas os estudos citados no material do Banco Mundial não
encontraram evidências de que o crédito subsidiado tenha melhorado de maneira
significativa a alocação dos recursos. A tendência apontada é a de beneficiar
empresas grandes e já estabelecidas, em vez de necessariamente favorecer
aquelas com maior capacidade de inovação.
A
burocracia completa esse quadro. Uma empresa brasileira gasta, em média, mais
de 1.500 horas por ano apenas para calcular, declarar e pagar tributos. Nos
países ricos, esse tempo gira em torno de 150 horas. São centenas de horas que
poderiam estar sendo utilizadas para produzir, investir, inovar ou ampliar
negócios. O resultado é um ambiente em que empresas pouco produtivas conseguem
sobreviver protegidas da concorrência, enquanto empresas mais eficientes
encontram dificuldades para crescer.
Países
ricos costumam ser justamente aqueles nos quais as pessoas trabalham menos
horas. Isso não significa que jornadas menores tenham sido a causa original da
riqueza. Em grande medida, são consequência dela. Uma economia altamente
produtiva consegue produzir muito valor em poucas horas e, por isso, pode
distribuir parte dos ganhos em forma de descanso. A Europa discute novas
reduções da jornada depois de acumular níveis muito elevados de produtividade.
O Brasil discute sair de uma organização de seis dias de trabalho partindo de
uma produtividade consideravelmente menor. As discussões podem parecer
semelhantes na forma, mas acontecem em pontos diferentes da mesma trajetória
histórica.
Existe,
entretanto, um grupo ainda maior e mais vulnerável que nenhuma reforma da CLT
atualmente em discussão alcança diretamente: os trabalhadores informais.
Segundo os dados apresentados, existem aproximadamente 38 milhões de
trabalhadores sem carteira assinada e sem CNPJ, cerca de quatro em cada dez
trabalhadores brasileiros. Em estados como o Maranhão, essa proporção
ultrapassa a metade da força de trabalho. São pessoas que trabalham por conta
própria, vendem produtos nas ruas, dirigem veículos de aplicativo, realizam
serviços domésticos ou sobrevivem de atividades sem a proteção oferecida pelo
emprego formal.
O problema
torna-se ainda mais evidente quando se observa a jornada. Quem trabalha por
conta própria chega a uma média de 45,3 horas semanais, superior à de
empregados e empregadores. Ao mesmo tempo, um trabalhador informal produz, em
média, aproximadamente um quarto do que produz um trabalhador formal. São essas
pessoas que muitas vezes aparecem apenas como números nas estatísticas, embora
estejam presentes diariamente nas cidades. É o entregador que sobe uma rua às
dez da noite, a diarista que enfrenta várias conduções para chegar ao trabalho,
o motorista de aplicativo que permanece mais de 45 horas por semana trabalhando
e o autônomo que precisa dedicar uma parcela enorme do próprio tempo para obter
uma renda muito inferior àquela gerada por um trabalhador formal. A discussão
sobre produtividade é legítima e envolve milhões de brasileiros, mas não pode
fazer desaparecer esse outro universo de trabalhadores que permanece fora das
proteções da legislação trabalhista.
Nos últimos
dois séculos, a humanidade conseguiu realizar algo extraordinário: aprender a
trabalhar menos e, simultaneamente, viver melhor. A história do trabalho mostra
que essa transformação não ocorreu simplesmente porque as pessoas passaram a
desejar mais tempo livre. Ela foi possível porque máquinas, conhecimento,
educação, energia, infraestrutura, organização e instituições aumentaram
enormemente a produtividade de cada hora trabalhada. A riqueza produzida pela
sociedade tornou possível devolver ao ser humano uma parcela do tempo que antes
precisava ser consumida pela luta cotidiana pela sobrevivência.
O Brasil
percorreu parte desse caminho, mas ainda está distante de concluí-lo. Uma
jornada mais curta, inclusive modelos como o 4x3, por exemplo, não precisa ser
encarada como uma fantasia. Ela pode representar uma etapa natural do
desenvolvimento de uma sociedade que consiga produzir valor suficiente para
financiar maior quantidade de tempo livre. O ponto decisivo, entretanto, está
na forma como essa transição será construída. Reduzir jornadas por determinação
legal pode ser uma parte da solução, mas não elimina os problemas de
produtividade que permanecem por trás da questão.
O
verdadeiro desafio brasileiro é aumentar o valor produzido por cada hora de
trabalho. Isso exige educação de qualidade, infraestrutura eficiente, maior
abertura econômica, crédito direcionado de maneira mais produtiva, instituições
capazes de estimular a concorrência, inovação e uma redução significativa da
burocracia. Sem esse avanço, a discussão sobre a produtividade corre o risco de
permanecer concentrada na superfície. Com produtividade maior, a redução do
tempo de trabalho deixa de ser apenas uma reivindicação social e passa a ser
também uma consequência econômica possível.
No fim das
contas, a questão central da produtividade não é simplesmente decidir se o
trabalhador deve trabalhar cinco ou seis dias por semana (ou sete). A questão
mais profunda é saber o que uma sociedade faz com o tempo que consegue
economizar por meio do progresso. Durante séculos, o aumento da produtividade
serviu para produzir mais. Em sociedades mais ricas, uma parte crescente desse
ganho passou a ser convertida em salários, consumo e, principalmente, tempo. O
grande desafio brasileiro é conseguir fazer essa mesma transformação sem
ignorar as condições concretas da economia. Trabalhar menos e viver melhor é
uma conquista possível, mas ela depende de uma sociedade capaz de produzir mais
valor com cada hora de trabalho.





