Heitor Jorge Lau
Ensaios longos, textos contemplativos, arqueologia cultural, análises psicológicas, crônicas filosóficas, antropologia do cotidiano.
sexta-feira, 6 de novembro de 2026
ENTRE A FÉ E A RAZÃO: A LIBERDADE DE PENSAR E O DIREITO DE DUVIDAR. Um assunto tratado como tabu
ENTRE A FÉ E A
RAZÃO
A LIBERDADE DE
PENSAR E O DIREITO DE DUVIDAR
Um assunto tratado como tabu
por Heitor Jorge Lau
A religião
ocupa um lugar singular na história da humanidade. Desde as primeiras
manifestações de organização social, o ser humano procura compreender sua
existência, encontrar explicações para os fenômenos que o cercam e atribuir
algum sentido à própria finitude. Diante daquilo que desconhece, construiu
narrativas, desenvolveu crenças, estabeleceu rituais e criou sistemas de
pensamento que atravessaram gerações. A religião tornou-se, assim, muito mais
do que uma experiência espiritual: passou a exercer influência sobre a cultura,
a política, a moral, as relações sociais e a própria organização das
civilizações. Entretanto, existe uma questão que merece permanente reflexão: em
que momento a necessidade humana de acreditar deixa de representar uma escolha
individual e passa a funcionar como uma estrutura de condicionamento do
pensamento?
A fé pode
oferecer conforto diante da morte, esperança nos momentos de sofrimento e uma
sensação de pertencimento que ajuda muitas pessoas a enfrentar as dificuldades
da existência. Não seria razoável ignorar a importância que essas experiências
possuem na vida de milhões de indivíduos. O problema não está na crença em si,
mas na transformação dessa crença em uma verdade absoluta, cuja legitimidade
não admite questionamentos. Quando uma convicção pessoal pretende estabelecer
os limites do pensamento coletivo, a espiritualidade deixa de pertencer
exclusivamente ao universo da consciência e começa a interferir na liberdade
dos demais. A história oferece inúmeros exemplos de como instituições
religiosas, em diferentes épocas e sociedades, utilizaram sua autoridade para
estabelecer comportamentos, controlar consciências, restringir conhecimentos e
condenar aqueles que ousavam pensar de maneira diferente (exemplos práticos não
faltam).
É
justamente nesse ponto que a razão assume uma importância fundamental. Pensar
racionalmente não significa necessariamente negar a existência de uma dimensão
espiritual, tampouco ridicularizar aqueles que encontram na religião uma
referência para suas vidas. Significa, antes de tudo, preservar a capacidade de
examinar afirmações, confrontar argumentos, reconhecer contradições e
distinguir aquilo que pode ser demonstrado daquilo que pertence ao campo das
convicções pessoais. Uma afirmação não se transforma em verdade universal
simplesmente porque foi transmitida durante séculos, repetida por milhões de
pessoas ou legitimada por uma instituição. A antiguidade de uma ideia não
constitui prova de sua veracidade, assim como a intensidade com que alguém
acredita em determinada coisa não representa evidência de que ela corresponda à
realidade.
Existe,
ainda, uma questão frequentemente negligenciada nos debates sobre religião: a
origem da moralidade. Durante muito tempo, consolidou-se a percepção de que os
princípios éticos dependem necessariamente de uma orientação divina, como se a
capacidade humana de distinguir o justo do injusto estivesse condicionada à
existência de uma autoridade sobrenatural. Entretanto, a experiência histórica
e a própria observação da natureza humana demonstram que a solidariedade, a
cooperação, o cuidado com os outros e o reconhecimento do sofrimento alheio
possuem raízes também nas relações sociais e na capacidade de desenvolver
empatia. Uma pessoa não precisa professar uma religião para compreender que
provocar deliberadamente o sofrimento de outra é moralmente condenável. Da
mesma maneira, professar uma religião não constitui garantia de integridade,
honestidade ou compaixão. A conduta humana precisa ser avaliada por suas
consequências concretas, e não apenas pelas convicções que alguém declara
possuir.
Essa
distinção é particularmente importante porque a história está repleta de
contradições entre discursos religiosos e comportamentos humanos. Em nome de
princípios supostamente sagrados, foram justificadas perseguições, guerras,
discriminações e inúmeras formas de violência. Ao mesmo tempo, pessoas sem
qualquer compromisso religioso demonstraram extraordinária capacidade de
solidariedade, coragem moral e dedicação ao bem coletivo. Isso não significa
atribuir à religião a responsabilidade exclusiva pelos conflitos humanos, pois
a intolerância também encontra terreno fértil em ideologias políticas,
nacionalismos, fanatismos e sistemas de poder. Significa reconhecer que nenhuma
convicção, independentemente de sua origem, está automaticamente protegida contra
a possibilidade de se transformar em instrumento de dominação.
Outro
aspecto relevante diz respeito à dificuldade que muitas pessoas encontram para
abandonar crenças recebidas durante a infância. As primeiras referências
familiares e culturais exercem influência profunda na formação da identidade.
Quando determinadas explicações são apresentadas como verdades incontestáveis
desde os primeiros anos de vida, questioná-las pode representar não apenas uma
mudança intelectual, mas também uma ruptura afetiva com a família, a comunidade
e o próprio sentimento de pertencimento. Dessa maneira, muitas convicções
permanecem preservadas não necessariamente porque foram examinadas e
consideradas consistentes, mas porque questioná-las exige enfrentar medos,
inseguranças e possíveis rejeições sociais. A liberdade de pensamento, portanto,
não depende apenas do acesso à informação. Exige também disposição para
examinar aquilo que aprendemos, inclusive quando as conclusões colocam em
dúvida nossas referências mais antigas.
Há uma
diferença importante entre viver uma experiência de fé e permitir que essa
experiência determine a maneira como toda a sociedade deve funcionar. Em uma
comunidade verdadeiramente democrática, a liberdade religiosa precisa ser
protegida, mas não pode se sobrepor à liberdade de consciência de quem pensa de
maneira diferente. Leis, políticas públicas e decisões coletivas precisam
encontrar sustentação em argumentos que possam ser debatidos por todos,
independentemente de suas crenças particulares. A religião merece respeito
enquanto manifestação legítima da liberdade humana, mas não deve adquirir
autoridade automática para estabelecer normas universais. O mesmo princípio
vale para qualquer ideologia que pretenda transformar suas convicções
particulares em obrigações coletivas.
Também é
necessário reconhecer os limites da própria razão. O pensamento racional não
oferece respostas definitivas para todas as inquietações humanas, especialmente
aquelas relacionadas ao sentido da existência, à consciência, à morte e à
dimensão subjetiva da experiência. Existem perguntas para as quais a humanidade
ainda não encontrou explicações satisfatórias. Reconhecer essa limitação não
representa uma derrota intelectual, mas uma demonstração de maturidade. O
conhecimento avança justamente porque admite a possibilidade de revisão,
confronta hipóteses e reconhece que aquilo que consideramos verdadeiro em
determinado momento pode ser aperfeiçoado ou substituído diante de novas
evidências. A diferença fundamental está em preservar a abertura para investigar,
em vez de preencher todas as lacunas do conhecimento com respostas que não
admitem contestação.
Talvez uma
das maiores conquistas intelectuais de um indivíduo seja compreender que não
precisa de certezas absolutas para conduzir sua existência com dignidade. É
possível viver com princípios éticos, desenvolver relações afetivas profundas,
respeitar a natureza, contribuir para a sociedade e reconhecer a importância da
vida sem necessariamente encontrar fundamento para essas atitudes em uma
doutrina religiosa. Da mesma forma, é possível professar uma fé e conservar uma
postura crítica diante das instituições, das interpretações e das pessoas que
afirmam falar em nome de verdades superiores. O que realmente importa é a
capacidade de pensar e agir com responsabilidade, sem transformar as próprias
convicções em instrumentos de julgamento ou submissão dos demais.
No fundo, a
questão não deveria ser estabelecer uma disputa permanente entre aqueles que
acreditam e aqueles que não acreditam. Essa oposição simplifica uma discussão
muito mais profunda sobre a liberdade humana, os limites do conhecimento e a
responsabilidade individual diante da existência. O verdadeiro problema surge
quando alguém considera que sua maneira de compreender o mundo lhe concede
superioridade moral ou intelectual sobre os demais. A intolerância começa
justamente quando o direito de pensar deixa de ser reconhecido como uma
condição universal e passa a depender da concordância com determinadas
convicções.
A
humanidade não precisa compartilhar uma única explicação sobre sua origem, seu
destino ou o significado da existência para construir uma sociedade mais justa.
Precisa, antes, desenvolver a capacidade de conviver com diferenças, respeitar
a autonomia das consciências e compreender que nenhuma pessoa possui autoridade
natural para determinar aquilo em que outra deve acreditar. A liberdade de
pensamento não consiste apenas no direito de professar uma religião ou
rejeitá-la, mas também no direito de questionar, mudar de opinião, reconhecer
dúvidas e construir suas próprias convicções sem medo de condenação.
Afinal, uma
consciência verdadeiramente livre não é aquela que possui todas as respostas,
mas aquela que não tem medo de fazer perguntas. E nenhuma fé, ideologia ou
autoridade deveria exigir do ser humano a renúncia à sua capacidade de pensar.
quarta-feira, 4 de novembro de 2026
RABDOMIÓLISE - QUANDO O CORPO COBRA A CONTA
RABDOMIÓLISE
O PERIGO DE
CONFUNDIR SUPERAÇÃO COM SAÚDE:
QUANDO O CORPO
COBRA A CONTA
por Heitor Jorge Lau
Estamos
vivendo uma espécie de culto à superação física, no qual correr mais, percorrer
distâncias maiores, suportar mais dor e exibir resultados nas redes sociais
passaram a ser tratados como demonstrações de saúde, disciplina e sucesso
pessoal. Entretanto, existe uma diferença enorme entre cuidar do corpo e
submetê-lo a exigências para as quais ele não está preparado.
A morte de
uma jovem durante uma maratona nos Estados Unidos, atribuída à Rabdomiólise,
deveria servir de alerta para uma questão que vem ganhando espaço na sociedade:
a perigosa banalização dos limites físicos do organismo. Estamos assistindo a
uma crescente valorização de desafios esportivos, corridas de longa distância e
demonstrações de resistência que, embora frequentemente apresentadas como
símbolos de saúde e determinação, escondem riscos que muitas pessoas
simplesmente ignoram. O problema não está na atividade física, que é
indispensável à saúde, mas na transformação do exercício em uma espécie de
competição permanente contra o próprio corpo.
Essa
preocupação ganha proporções ainda maiores quando observamos pessoas acima dos
40, 50 e 60 anos assumindo desafios físicos cada vez mais exigentes, muitas
vezes sem preparação compatível, acompanhamento adequado ou compreensão dos
riscos envolvidos. Parece existir uma necessidade crescente de provar que a
idade não representa obstáculo, como se envelhecer fosse uma condição a ser
combatida mediante quilômetros percorridos, recordes pessoais e fotografias
exibindo medalhas. Entretanto, existe uma diferença fundamental entre
envelhecer com saúde e tentar demonstrar uma juventude física que o organismo
já não possui da mesma maneira.
Recentemente,
ouvi o relato de uma mulher cuja irmã, acima dos 50 anos, havia participado de
uma corrida de 25 quilômetros em Porto Alegre. Ao manifestar minha preocupação,
ouvi como justificativa: "Ela está acostumada". É justamente aí que
reside uma das maiores armadilhas dessa cultura de desafios físicos. Estar
acostumado a correr não significa estar adequadamente preparado para uma prova
de longa distância. Ter conseguido completar determinado percurso também não
significa que o organismo tenha suportado a experiência sem consequências.
Resistir a um esforço não é sinônimo de estar fisiologicamente protegido contra
ele.
A
rabdomiólise é um exemplo assustador dessa realidade. Trata-se de uma condição
na qual ocorre destruição das fibras musculares, liberando substâncias na
corrente sanguínea que podem provocar lesões renais graves e até levar à morte.
O esforço físico extremo, especialmente quando realizado sem condicionamento
adequado, associado ao calor, à desidratação ou à recuperação insuficiente,
pode desencadear esse quadro. E o mais preocupante é que uma pessoa pode
interpretar sinais de esgotamento como simples manifestações de esforço,
insistindo na atividade quando deveria interrompê-la e procurar atendimento.
Foi o caso da JOVEM que veio a falecer.
Não estamos
falando apenas de atletas profissionais. Ao contrário, o alerta precisa
alcançar principalmente os chamados atletas de fim de semana, aqueles que
passam boa parte da semana em atividades sedentárias e, em determinados
momentos, resolvem compensar a inatividade submetendo o organismo a esforços
intensos. Também precisamos considerar que, com o avanço da idade, a
recuperação muscular, a capacidade cardiovascular, a resposta ao calor e outras
funções fisiológicas passam por transformações. Isso não significa que pessoas
com 50, 60 ou 70 anos devam abandonar as corridas ou os desafios esportivos.
Significa que precisam compreender melhor suas condições individuais e
respeitar os limites do próprio organismo.
E os jovens
também não estão livres desses riscos. A juventude oferece determinadas
vantagens fisiológicas, mas não constitui um escudo contra o excesso, a
imprudência ou a falta de preparo. A rabdomiólise não escolhe idade, e
nenhum organismo está autorizado a ignorar seus próprios sinais de esgotamento.
Precisamos
abandonar a ideia de que parar representa fraqueza, que diminuir o ritmo
significa fracasso ou que completar uma prova a qualquer custo constitui uma
conquista admirável. A verdadeira inteligência esportiva está em reconhecer
limites, preparar-se progressivamente, respeitar períodos de recuperação e
compreender que desempenho não pode ser colocado acima da própria vida. Afinal,
de que adianta conquistar uma medalha, publicar uma fotografia de superação e
receber aplausos por alguns quilômetros percorridos, se o preço dessa
demonstração de resistência pode ser a própria saúde.
O corpo não
é um adversário a ser derrotado, tampouco uma máquina que aceita exigências
ilimitadas. É uma estrutura biológica complexa, que precisa de cuidados,
respeito e bom senso. Envelhecer com saúde não significa provar que ainda somos
capazes de fazer tudo o que fazíamos aos 20 anos. Significa ter maturidade
suficiente para compreender que a longevidade vale muito mais do que qualquer
medalha.
Enfim, não
transforme o exercício em uma aposta com a própria vida. Superação sem
consciência não é saúde. É imprudência disfarçada de virtude.
ESTÉTICA ou SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL?
CONTÊINERES
SUBTERRÂNEOS PARA OS RESÍDUOS
ESTÉTICA ou SUSTENTABILIDADE
AMBIENTAL?
por Heitor Jorge Lau
A matéria
apresentada na Gazeta do Sul (4 de novembro de 2026) expressa uma proposta
interessante para Santa Cruz do Sul, mas há algumas questões técnicas que
merecem bastante atenção antes de se considerar a instalação desses
equipamentos um avanço na gestão dos resíduos urbanos.
Um primeiro
detalhe chama a atenção: a notícia não anuncia uma decisão definitiva de
implantação. A Prefeitura está estudando a possibilidade de realizar um
projeto-piloto no município, tendo como referência o modelo utilizado em
Balneário Camboriú, Santa Catarina. A reportagem também revela uma
característica importante: os resíduos ficam depositados em contêineres
instalados abaixo do nível do solo, enquanto a parte superior permite o
descarte pela população. No momento da coleta, o equipamento é elevado para que
o caminhão possa retirar o material. Isso significa que não estamos falando
simplesmente de substituir lixeiras convencionais por recipientes mais bonitos.
Estamos falando de instalar uma estrutura subterrânea, com componentes
mecânicos, hidráulicos ou eletromecânicos, que exige obras civis, drenagem,
higienização e manutenção especializada.
Minha
primeira observação crítica: a redução do impacto visual é uma vantagem
evidente, mas não constitui, por si só, uma demonstração de sustentabilidade
ambiental. Precisamos avaliar o que acontece com os resíduos, os líquidos
gerados, o solo, as águas subterrâneas e os custos de operação durante toda a
vida útil do sistema.
Desvantagens e riscos que merecem
investigação
Aqui começa
a parte mais importante da análise. O fato de o recipiente ficar enterrado não
significa que os problemas relacionados aos resíduos desapareçam. Alguns apenas
deixam de ficar visíveis.
Acúmulo
de líquidos e chorume
Este é um
dos pontos que eu exigiria que a Prefeitura esclarecesse tecnicamente.
Resíduos
orgânicos, restos de alimentos, líquidos descartados e materiais em
decomposição podem produzir líquidos contaminantes. A esse líquido damos o nome
de chorume, ou lixiviado. O risco depende da construção do equipamento. Se o
contentor for estanque, íntegro e possuir sistema adequado de retenção, o
líquido não deve entrar em contato com o solo. Entretanto, precisamos saber:
- O
recipiente possui vedação contra vazamentos?
- Existe
sistema de coleta de líquidos acumulados?
- Como é
feita a retirada e a destinação desses líquidos?
- A caixa
subterrânea possui impermeabilização?
- Existe
sistema de drenagem para águas pluviais?
- Como são
identificados vazamentos e infiltrações?
É
importante não afirmar que todo contêiner subterrâneo contamina o solo. Isso
não é correto. Mas também seria inadequado presumir que o risco inexiste
simplesmente porque o fabricante apresenta o equipamento como ambientalmente
seguro.
Água
subterrânea e condições do terreno
Uma
instalação subterrânea exige conhecimento prévio das condições geológicas e
hidrológicas do local. Em áreas com lençol freático elevado, por exemplo, a
instalação pode exigir soluções especiais de impermeabilização, drenagem e
ancoragem. A pressão da água subterrânea pode comprometer estruturas mal
dimensionadas. Além disso, uma caixa subterrânea mal executada pode receber
água da chuva, acumular umidade e favorecer a corrosão de componentes
metálicos. Na Rua Marechal Floriano, seria necessário verificar as redes
subterrâneas existentes, as condições do pavimento, a drenagem urbana e as
características do terreno antes de definir o ponto de instalação.
Higienização
e odores
A
Prefeitura de Balneário Camboriú afirma que os equipamentos não geram odores.
Essa afirmação precisa ser interpretada com cautela. O armazenamento
subterrâneo pode reduzir a exposição dos resíduos e as oscilações térmicas, mas
não interrompe a decomposição da matéria orgânica. Se houver resíduos aderidos
às paredes, líquidos acumulados, falhas de vedação ou higienização
insuficiente, os odores podem persistir. A limpeza precisa alcançar não somente
o recipiente removível, mas também as bocas de descarte, a plataforma e as superfícies
internas da estrutura.
Falhas
mecânicas e hidráulicas
Este é um
problema que não existe da mesma maneira em uma lixeira convencional. O
equipamento depende de mecanismos de elevação, componentes hidráulicos, travas
de segurança, sensores e estruturas de sustentação. Uma falha pode impedir a
coleta ou deixar o equipamento indisponível. A depender do projeto, o reparo
exige assistência especializada e peças específicas. Também precisamos
considerar a possibilidade de corrosão, desgaste de componentes, infiltrações
na instalação elétrica, quando existente, e falhas dos sensores.
Segurança
dos usuários e dos trabalhadores
A
movimentação de uma plataforma de elevação exige dispositivos de segurança e
procedimentos operacionais rigorosos. É necessário impedir o acesso de pessoas
à área de movimentação durante a elevação, evitar quedas no vão subterrâneo e
assegurar que a operação seja realizada por trabalhadores capacitados. O
equipamento também precisa permanecer protegido contra acionamentos indevidos e
vandalismo.
Capacidade
insuficiente e descarte inadequado
Um
contentor de mil litros não resolve automaticamente o problema da geração de
resíduos. Se a capacidade for insuficiente para a demanda daquele ponto, o
resultado será o acúmulo de sacos de lixo na superfície, justamente o problema
que se pretende solucionar. Também existe a questão do descarte irregular:
móveis, papelões volumosos, restos de construção, óleo, pilhas e outros
materiais incompatíveis podem comprometer o funcionamento do equipamento.
Portanto, a
implantação precisa estar associada a orientação pública, fiscalização e coleta
diferenciada.
Uma
descoberta importante: o sistema subterrâneo não é necessariamente mais
sustentável
Encontrei
um estudo científico particularmente relevante para a investigação: Life
cycle assessment as a decision-making tool for the design of urban solid waste
pre-collection and collection/transport systems, publicado na revista
científica Resources, Conservation and Recycling. O trabalho
compara diferentes sistemas de pré-coleta e transporte de resíduos utilizando a
metodologia de Avaliação do Ciclo de Vida (ACV).
Uma de suas
conclusões é especialmente significativa: nos cenários analisados, os sistemas
convencionais com contêineres de superfície apresentaram impactos ambientais
menores do que os sistemas com contêineres subterrâneos. Isso não significa que
todos os modelos subterrâneos sejam ambientalmente piores. O resultado depende
das características dos equipamentos, das obras de instalação, da logística de
coleta, da energia utilizada e da vida útil considerada.
Mas essa
pesquisa derruba uma associação que frequentemente aparece em campanhas de
modernização urbana: tecnologia mais sofisticada não significa necessariamente
maior sustentabilidade. A fabricação dos componentes, o concreto utilizado, a
escavação, o transporte de materiais, as substituições de peças e a manutenção
também precisam entrar na conta ambiental.
O custo que
costuma ficar escondido
A
instalação de um contêiner convencional envolve basicamente a aquisição ou
locação do recipiente e sua manutenção. Já um sistema subterrâneo envolve uma
estrutura muito mais complexa.
Para Santa
Cruz do Sul, eu consideraria obrigatória uma planilha que contemplasse:
1.
Componente à
Despesa envolvida
2.
Obras civis à
Escavação, concreto e pavimentação
3.
Equipamento à
Contentor, plataforma e mecanismos
4.
Instalação à
Montagem, transporte e testes
5.
Operação à
Elevação e recolhimento dos resíduos
6.
Higienização à
Lavagem e desinfecção
7.
Manutenção à
Peças, hidráulica e reparos
8.
Segurança à
Inspeções e dispositivos de proteção
9.
Vida útil à
Substituição e modernização
Observe uma
questão fundamental: a instalação de contêineres subterrâneos não representa,
isoladamente, avanço significativo nessas prioridades. Ela pode melhorar o
acondicionamento e a coleta, mas não reduz necessariamente a quantidade de lixo
produzida, não aumenta automaticamente a reciclagem e não garante melhor
tratamento dos resíduos. A legislação estabelece que os municípios são
responsáveis pela gestão integrada dos resíduos sólidos em seus territórios e
prevê mecanismos de controle social, educação ambiental e participação das
cooperativas de catadores. Portanto, qualquer projeto de modernização deveria
ser apresentado como parte de uma política mais ampla de gestão de resíduos, e
não como solução ambiental isolada.
O que eu
investigaria especificamente em Santa Cruz do Sul
A escolha
da Rua Marechal Floriano merece uma avaliação própria. A reportagem informa que
a intenção é liberar espaço ocupado pelos contêineres tradicionais e ampliar as
vagas de estacionamento. Esse objetivo é legítimo do ponto de vista
urbanístico. Entretanto, eu não consideraria suficiente justificar um
investimento público apenas pela recuperação de espaço na via.
Há questões
que precisam ser respondidas antes da implantação:
- Condições
físicas do local: existem redes de água, esgoto, drenagem, telefonia e energia
no ponto escolhido? Qual é a profundidade disponível para escavação? Existe
interferência com outras estruturas subterrâneas?
- Condições
ambientais: qual é a situação do lençol freático? Como será feita a
impermeabilização? Há previsão de coleta e destinação dos líquidos
eventualmente acumulados?
- Condições
operacionais: os caminhões atualmente utilizados pela empresa responsável pela
coleta possuem equipamentos compatíveis com o sistema? Qual será o tempo
necessário para cada operação?
- Condições
econômicas: quanto custará o conjunto completo? Qual será o custo mensal de
operação? Quem pagará pela manutenção? Qual é a vida útil estimada?
- Condições
sanitárias: qual será a frequência de lavagem? Como serão controlados odores,
vetores, resíduos aderidos e líquidos provenientes da decomposição?
- Condições
de acessibilidade: a instalação não poderá prejudicar a circulação de
pedestres, especialmente pessoas com deficiência e usuários de cadeiras de
rodas.
Essas
informações precisam fazer parte do planejamento, não ser providenciadas depois
que o equipamento já estiver instalado.
Minha perspectiva:
como deveria ser conduzido o projeto-piloto
Considero
acertada a ideia de começar com apenas uma unidade. Isso reduz o risco de um
investimento precipitado e permite avaliar o comportamento do equipamento em
condições reais. Mas eu acrescentaria uma exigência: o projeto-piloto precisa
ter indicadores objetivos de desempenho, definidos antes da instalação:
Indicador O que avaliar
1.
| Custo total à Instalação e operação
2.
| Disponibilidade à Tempo em funcionamento
3.
| Manutenção à
Frequência e custo dos reparos
4.
| Higienização à Frequência e eficiência
5.
| Odores à
Ocorrências registradas
6.
| Vazamentos à
Inspeções e ocorrências
7.
| Coleta àTempo
e eficiência operacional
8.
| Capacidade àFrequência
de transbordamento
9.
| Reciclagem àQuantidade
efetivamente recuperada
10. |
Satisfação pública à
Avaliação dos usuários
Também
considero indispensável estabelecer um período de acompanhamento
suficientemente longo para contemplar diferentes condições climáticas e
variações na geração de resíduos. Uma avaliação realizada apenas nos primeiros
dias de funcionamento seria insuficiente. E existe uma questão adicional: o
município deveria comparar o desempenho do equipamento subterrâneo com o de um
contêiner convencional instalado em condições equivalentes. Sem essa
comparação, não será possível determinar se o investimento realmente produziu
ganhos.
Balanço
geral: prós e contras
Avaliação
técnica qualitativa da tecnologia, não uma pontuação estatística.
Aspecto Avaliação
1.
Estética urbana àFavorável
2.
Liberação de espaço àFavorável
3.
Proteção contra animais àFavorável, se bem
vedado
4.
Proteção contra chuva àFavorável, dependendo do projeto
5.
Controle de odores àFavorável, mas não garantido
Higienização àExige cuidados
adicionais
6.
Risco de vazamentos àExige controle específico
Manutenção àMais complexa
7.
Investimento inicial àTendencialmente mais elevado
8.
Dependência tecnológica àMaior
9.
Eficiência da coleta àDepende da operação
10. Sustentabilidade
ambiental àNão comprovadamente
superior
11. Reciclagem àNão
melhora automaticamente
Modernização
urbana não pode ser confundida com sustentabilidade
Minha
avaliação é que os contêineres subterrâneos constituem uma alternativa
tecnicamente interessante para determinados ambientes urbanos, principalmente
locais de grande circulação de pessoas, concentração comercial e limitação de
espaço nas calçadas. Entretanto, não encontrei fundamento para afirmar que essa
tecnologia seja, por definição, ambientalmente superior aos contêineres
convencionais. Pelo contrário, a pesquisa de avaliação do ciclo de vida que
localizei aponta resultados desfavoráveis ao sistema subterrâneo em
determinados indicadores ambientais.
O que
considero mais importante é que a Prefeitura de Santa Cruz do Sul não
transforme uma iniciativa de modernização paisagística em uma iniciativa
apresentada automaticamente como política de sustentabilidade. A
sustentabilidade precisa ser demonstrada por resultados mensuráveis,
considerando todo o ciclo de vida do equipamento, os recursos empregados, os
custos públicos, a prevenção de contaminações e a efetiva melhoria na gestão
dos resíduos.
Eu não sou
contrário à implantação. Sou contrário à implantação sem fundamentação técnica,
ambiental e econômica suficientemente demonstrada. Um projeto-piloto bem
planejado pode ser uma boa oportunidade para o município aprender, testar e
decidir. Mas um projeto-piloto sem critérios de avaliação corre o risco de
servir apenas para justificar uma expansão futura.
Se eu
tivesse oportunidade de encaminhar perguntas à Secretaria Municipal de Meio
Ambiente, Saneamento e Sustentabilidade, faria estas:
1. Existe
estudo técnico preliminar comparando os custos dos contêineres subterrâneos com
os convencionais?
2. Qual é o
investimento total previsto para a instalação do equipamento na Rua Marechal
Floriano?
3. Qual
será o custo anual de manutenção, operação e higienização?
4. Qual é a
solução técnica prevista para a contenção e destinação de líquidos provenientes
dos resíduos?
5. Qual é a
garantia de impermeabilização da estrutura subterrânea?
6. Foi
realizado estudo das condições geológicas e hidrológicas do local?
7. Qual é a
vida útil estimada do equipamento e de seus componentes hidráulicos?
8. Quais
indicadores serão utilizados para avaliar o sucesso do projeto-piloto?
9. Existe
avaliação comparativa independente dos impactos ambientais do sistema?
10. Qual
será a destinação dos resíduos e como será preservada a coleta seletiva?
Essas
perguntas não representam oposição à administração municipal. Representam o
exercício legítimo do controle social sobre a aplicação de recursos públicos.
Uma última
consideração: existe material suficiente para uma reflexão pública interessante
sobre esse assunto. A questão não é simplesmente decidir se queremos lixeiras
subterrâneas ou superficiais. É discutir quais critérios devem orientar o
emprego do dinheiro público quando uma administração municipal anuncia uma
inovação tecnológica com justificativa ambiental. Eu considero essa uma
discussão especialmente pertinente para Santa Cruz do Sul e você?
terça-feira, 3 de novembro de 2026
QUANDO O HÁBITO SE TRANSFORMA EM PRISÃO
QUANDO O HÁBITO SE
TRANSFORMA EM PRISÃO:
SOMOS DONOS DAS
NOSSAS ESCOLHAS?
por Heitor Jorge Lau
Existe uma
força silenciosa que participa da construção da nossa personalidade, organiza
boa parte das nossas atividades cotidianas e, em determinadas circunstâncias,
pode assumir o controle de nossas decisões sem que percebamos. Essa força
atende pelo nome de hábito. Repetimos comportamentos, incorporamos
rotinas, desenvolvemos preferências e estabelecemos padrões de funcionamento
que, com o passar do tempo, deixam de exigir reflexão ou deliberação
consciente. O problema começa quando essa capacidade extraordinária de
automatizar nossas ações ultrapassa os limites da conveniência e passa a
restringir nossa liberdade. Afinal, existe uma diferença considerável entre
adquirir um hábito e tornar-se prisioneiro dele. E essa diferença merece uma
reflexão que vai muito além dos conhecidos problemas relacionados ao consumo de
drogas lícitas e ilícitas.
Costumo
ouvir afirmações de pessoas que dizem ter experimentado cocaína ou maconha uma
única vez e, imediatamente, desenvolvido um vício. Minha reação costuma ser de
questionamento, pois a dependência não funciona, em regra, como um interruptor
que se aciona instantaneamente após um único contato com determinada
substância. Existe um processo complexo envolvendo aprendizagem, repetição,
associação de estímulos, mecanismos de recompensa e adaptações neurobiológicas.
Uma primeira experiência pode proporcionar prazer, curiosidade, sensação de
bem-estar ou alívio momentâneo de alguma tensão, levando o indivíduo a desejar
sua repetição. Entretanto, é importante esclarecer que não existe uma
quantidade universal de experiências a partir da qual alguém desenvolve dependência,
tampouco se pode considerar inofensivo um primeiro consumo. A vulnerabilidade
individual, a substância utilizada, a frequência, a intensidade e o contexto
interferem nesse processo. Cocaína e maconha, por exemplo, apresentam
características e riscos distintos. O ponto central da reflexão é que a
repetição pode fortalecer associações entre determinada experiência e a
recompensa percebida, transformando gradualmente um comportamento inicialmente
ocasional em uma prática persistente, por vezes acompanhada de perda de
controle.
É
justamente nesse processo que encontramos uma das explicações mais
interessantes oferecidas pela neurociência. Os Gânglios da Base, também
denominados Núcleos da Base, constituem um conjunto de estruturas
profundas do cérebro que participa de funções relacionadas ao movimento, à
aprendizagem, à seleção de ações e à formação de hábitos. Uma região
particularmente importante desse sistema é o Estriado, que participa dos
circuitos envolvidos na aprendizagem por recompensa e na automatização de
comportamentos. Em termos simplificados, o cérebro aprende a reconhecer
determinadas situações, estímulos e circunstâncias que antecedem uma ação e
suas respectivas consequências. Quando uma sequência comportamental é repetida
suficientemente, ela pode passar a ser executada com menor necessidade de
deliberação consciente. É por isso que conseguimos dirigir por trajetos
conhecidos, escovar os dentes ou executar tarefas familiares enquanto pensamos
em outras coisas. Essa capacidade representa uma extraordinária economia de
recursos cognitivos. O cérebro não precisa reinventar diariamente aquilo que já
aprendeu. Entretanto, o mesmo mecanismo que facilita nossa vida também pode
consolidar comportamentos prejudiciais, excessivos ou incompatíveis com nossas
necessidades. A automatização, portanto, não distingue necessariamente aquilo
que nos beneficia daquilo que nos prejudica.
Aqui
encontramos uma questão que considero particularmente relevante: nem todo
hábito é um vício, mas todo vício comportamental envolve, em alguma medida,
processos de aprendizagem e repetição. Um hábito pode ser perfeitamente
saudável enquanto permanece subordinado às nossas necessidades e escolhas. O
problema surge quando a pessoa continua executando determinada atividade mesmo
diante de consequências negativas, quando sente desconforto intenso ao tentar
interrompê-la ou quando passa a organizar sua existência em função daquele
comportamento. É nesse momento que precisamos abandonar a interpretação
superficial de que tudo se resume à força de vontade. Existem mecanismos
psicológicos e neurobiológicos envolvidos, e compreender sua atuação é
fundamental para não transformar uma questão complexa em simples julgamento
moral.
Pensemos,
por exemplo, nas atividades domésticas, um território aparentemente distante
das discussões sobre dependência, mas que oferece situações bastante
ilustrativas. Limpar a casa, lavar roupas, passar camisas, organizar armários,
arear panelas e manter os ambientes em ordem são atividades legítimas e
necessárias. Algumas pessoas encontram satisfação genuína nessas tarefas, e não
existe absolutamente nada de errado nisso. Entretanto, o que acontece quando
alguém não consegue descansar porque existe uma peça de roupa fora do lugar?
Quando uma panela precisa ser novamente limpa, mesmo estando perfeitamente
utilizável? Quando a pessoa interrompe momentos de convivência, lazer ou
descanso porque sente uma necessidade praticamente incontrolável de executar alguma
tarefa doméstica? A questão deixa de ser a limpeza ou a organização
propriamente ditas e passa a envolver a relação psicológica estabelecida com
essas atividades. Em determinadas circunstâncias, a repetição pode funcionar
como uma tentativa de aliviar ansiedade, recuperar uma sensação de controle ou
evitar o contato com pensamentos e sentimentos desagradáveis. Existem situações
em que esse padrão se aproxima de manifestações obsessiva-compulsivas, que
exigem avaliação clínica adequada, mas não devemos confundir organização, zelo
e disciplina com transtornos psicológicos. O que interessa investigar é quando
uma atividade deixa de servir à pessoa e passa a exigir que a pessoa sirva a
ela.
Existe,
entretanto, uma manifestação dessa dinâmica que considero ainda mais curiosa,
justamente porque costuma receber reconhecimento e aprovação social: a relação
excessivamente intensa com o trabalho. Sempre tive reservas diante da expressão
“sou apaixonado pelo meu trabalho”, principalmente quando ela vem acompanhada
de uma dedicação que praticamente elimina todos os demais espaços da
existência. É perfeitamente saudável encontrar satisfação na profissão, sentir
orgulho das próprias realizações e reconhecer a importância do trabalho para a
construção da identidade e da autonomia individual. Minha inquietação está
relacionada àqueles que não conseguem se desligar das obrigações profissionais,
que sentem desconforto diante do descanso, que precisam estar permanentemente
ocupados e que parecem experimentar uma espécie de vazio quando não existe uma
tarefa a cumprir. Em determinadas circunstâncias, o trabalho pode deixar de
representar uma atividade produtiva e transformar-se em um mecanismo de
compensação psicológica. A pessoa encontra na ocupação permanente uma maneira
socialmente aceita de evitar questionamentos, conflitos, frustrações e
insatisfações que exigiriam um confronto consigo mesma. Enquanto trabalha, não
precisa pensar sobre determinados aspectos da vida; enquanto cumpre metas, não
precisa examinar suas relações; enquanto permanece ocupada, não precisa
enfrentar o silêncio que surge quando as obrigações terminam.
Essa
possibilidade merece atenção porque o excesso de trabalho costuma ser
confundido com virtude. A sociedade frequentemente recompensa quem trabalha
além dos limites, quem abre mão do descanso e quem transforma a profissão no
centro absoluto da própria existência. O indivíduo recebe elogios por sua
dedicação, comprometimento e produtividade, mas raramente alguém pergunta o que
acontece quando ele não está trabalhando. Será que consegue aproveitar o tempo
livre? Consegue estabelecer relações que não estejam subordinadas às exigências
profissionais? Consegue simplesmente permanecer consigo mesmo, sem precisar
preencher cada instante com alguma obrigação? É claro que não podemos afirmar
que toda pessoa extremamente dedicada ao trabalho esteja fugindo de conflitos
internos ou desenvolvendo uma dependência comportamental. Existem diferenças
individuais, necessidades econômicas, características profissionais e
motivações legítimas. Entretanto, quando o trabalho se transforma em uma
necessidade permanente, quando a pessoa perde a capacidade de estabelecer
limites e quando sua identidade passa a depender exclusivamente da
produtividade, estamos diante de uma situação que merece investigação. A paixão
pelo trabalho não deve servir como justificativa automática para a renúncia à
própria vida.
O mesmo
raciocínio pode ser ampliado para inúmeros comportamentos contemporâneos. A
necessidade de verificar constantemente o telefone celular, acompanhar
notificações, consultar redes sociais, realizar compras desnecessárias,
consumir alimentos sem fome ou procurar entretenimento a cada instante revela
como determinadas práticas podem adquirir uma dimensão que ultrapassa sua
finalidade original. Em muitos casos, a repetição proporciona uma recompensa
imediata, ainda que passageira, e essa recompensa contribui para reforçar o
comportamento. A pessoa consulta o celular porque espera encontrar alguma
novidade; compra porque experimenta uma satisfação momentânea; trabalha porque
recebe reconhecimento; limpa porque sente alívio diante da organização. O cérebro
aprende essas associações e passa a favorecer a repetição. Entretanto, a
satisfação inicial pode diminuir, enquanto a necessidade de repetir permanece
ou até aumenta. O comportamento deixa de ser uma escolha plenamente deliberada
e começa a funcionar como resposta automática a determinados estímulos, emoções
ou circunstâncias.
Sob uma
perspectiva psicanalítica, essa discussão ganha outra dimensão. A repetição não
está necessariamente relacionada apenas à busca de prazer. Em determinadas
situações, ela também pode expressar tentativas inconscientes de lidar com
conflitos, angústias e experiências que não foram devidamente elaboradas. Uma
pessoa pode repetir comportamentos porque encontra neles uma forma de
administrar tensões internas, evitar determinadas percepções ou manter uma
sensação de estabilidade diante de um mundo que experimenta como ameaçador.
Nesse sentido, a repetição pode representar muito mais do que uma rotina
consolidada: pode revelar uma maneira particular de se relacionar consigo mesmo
e com a realidade. O indivíduo acredita estar escolhendo livremente, mas nem
sempre reconhece os motivos que sustentam suas escolhas. É por isso que a
investigação das razões subjacentes ao comportamento se torna tão importante.
Não basta perguntar o que alguém faz repetidamente; precisamos compreender o
que aquela repetição representa em sua vida e qual função psicológica
desempenha.
Uma das
maiores dificuldades humanas está, justamente, em reconhecer quando perdemos a
capacidade de questionar nossos próprios comportamentos. Estamos tão
acostumados a determinadas rotinas que passamos a considerá-las naturais,
necessárias e até indispensáveis. Não percebemos que algumas delas consomem
nosso tempo, limitam nossas experiências, prejudicam nossas relações e impedem
o desenvolvimento de outras possibilidades de existência. O hábito oferece
conforto porque reduz a necessidade de decidir, mas também pode nos manter
presos a padrões que já não fazem sentido. A repetição proporciona
familiaridade, e a familiaridade frequentemente é confundida com segurança.
Entretanto, viver permanentemente dentro daquilo que já conhecemos não significa
necessariamente viver melhor.
O desafio,
portanto, não consiste em eliminar os hábitos, pois eles são indispensáveis à
organização da vida humana. Precisamos aprender a reconhecer sua função,
avaliar suas consequências e preservar a capacidade de modificá-los quando
deixam de nos beneficiar. Uma rotina saudável amplia nossa autonomia; uma
compulsão pode restringi-la. A disciplina contribui para a realização de
objetivos; a rigidez impede adaptações. O trabalho pode proporcionar satisfação
e dignidade; o excesso pode servir de esconderijo. A organização doméstica pode
trazer bem-estar; a necessidade de controlar cada detalhe pode produzir
sofrimento. A diferença não está necessariamente na atividade executada, mas na
relação que estabelecemos com ela e na liberdade que conservamos diante de sua
repetição.
No fim das
contas, a pergunta mais importante não é quantas vezes repetimos determinado
comportamento, mas o quanto ainda somos capazes de decidir sobre ele.
Conseguimos interrompê-lo sem experimentar angústia desproporcional?
Conseguimos substituí-lo por outras atividades? Conseguimos reconhecer quando
ele começa a prejudicar nossa saúde, nossas relações e nossa qualidade de vida?
Ou precisamos encontrar justificativas para continuar fazendo exatamente aquilo
que já percebemos ser excessivo? Essas perguntas nos colocam diante de uma
questão fundamental da existência: a liberdade não consiste apenas em poder
fazer o que desejamos, mas também em conservar a capacidade de deixar de fazer
aquilo que já não nos faz bem. O hábito deveria ser um instrumento a serviço da
nossa existência, nunca o senhor que determina como devemos vivê-la. Afinal,
quando deixamos de questionar nossas repetições, corremos o risco de passar a
vida inteira obedecendo a comportamentos que um dia começamos a escolher.
segunda-feira, 2 de novembro de 2026
SOLASTALGIA: A SAUDADE DE CASA ESTANDO EM CASA
SOLASTALGIA: A
SAUDADE DE CASA ESTANDO EM CASA
Sobre a nostalgia, a
memória e os lugares que mudam diante de nós
por Heitor Jorge Lau
Existe um
tipo de saudade que dispensa a viagem. Não é a de quem partiu e olha para trás,
mas a de quem ficou e foi percebendo, aos poucos, que o lugar onde sempre viveu
já não é o mesmo. A rua conserva o nome, a casa continua no mesmo número, mas o
cheiro, o ruído, o comércio da esquina e a sombra da árvore da calçada não são
mais aqueles. Quem passa por isso costuma sentir um desconforto difícil de
explicar, porque não há a quem dizer “estou com saudade de casa” sem ouvir como
resposta: “mas você está em casa”.
Para esse
sentimento, o filósofo australiano Glenn Albrecht propôs, em 2003, a palavra solastalgia,
formada pelo latim solacium, que significa consolo, e pelo grego algos,
que significa dor. Seria, portanto, a dor de perder o consolo que um lugar nos
oferecia. Albrecht a observou em moradores de uma região cuja paisagem foi
profundamente transformada, mas o termo logo ultrapassou a origem e passou a
nomear algo que qualquer pessoa já experimentou em escala menor: o bairro da
infância irreconhecível, a escola reformada, a padaria que fechou, a praça que
ganhou outro desenho. O ponto central é que a perda, aqui, não está na
distância, e sim na mudança. É o lugar que parte, enquanto a pessoa fica.
A palavra
irmã, nostalgia, tem uma história curiosa. Ela foi cunhada em 1688 pelo
estudante de medicina suíço Johannes Hofer, a partir do grego nostos,
que quer dizer regresso, e algos, dor. Hofer a criou para descrever uma
doença: o mal que acometia soldados suíços servindo longe de casa, com tristeza
persistente, insônia e perda de apetite. Durante muito tempo, médicos
procuraram causas físicas para ela e a trataram como enfermidade. Só séculos
depois a nostalgia passou a ser compreendida como uma emoção humana comum, e
algo curioso aconteceu com o seu sentido: nascida como dor do espaço, a saudade
do lugar distante, ela se tornou dor do tempo, a falta de uma época que não
volta. A solastalgia reúne as duas, porque o lugar que perdemos é sempre o
lugar de um tempo.
A
Antropologia ajuda a entender por que essa perda pesa tanto. O geógrafo Yi-Fu
Tuan falou em topofilia, o laço afetivo que as pessoas criam com os
lugares, e lembrou que um lugar é diferente de um simples espaço: é um espaço
ao qual atribuímos significado. O antropólogo Marc Augé, por sua vez,
distinguiu os lugares antropológicos, que carregam identidade, relações e
história, dos chamados não-lugares, como aeroportos e corredores de passagem,
onde ninguém se demora o bastante para deixar marcas. Quando um lugar cheio de
sentido vai perdendo seus traços, as pessoas perdem também parte dos “espelhos”
em que se reconheciam. Quem sou eu sem a esquina onde aprendi a andar de
bicicleta? A identidade, de certa forma, tem endereço.
A
Psicanálise oferece outra chave. Em “Luto e Melancolia”, de 1917, Freud
descreveu o trabalho do luto como o processo lento pelo qual retiramos,
pouco a pouco, a energia afetiva depositada em algo ou alguém que perdemos. Mas
o luto costuma pressupor uma perda reconhecível, com marcos claros, como a
morte, a despedida e o velório. Na solastalgia, não há cerimônia alguma, porque
o objeto amado continua ali, apenas modificado. Como elaborar a perda de algo
que ainda existe? Isso nos remete a outro conceito freudiano, o estranho
familiar, apresentado em 1919. A palavra alemã heimlich, que designa
o que é íntimo e doméstico, vem de Heim, o lar, e o seu oposto, unheimlich,
descreve aquilo que inquieta justamente por ter sido familiar. O que nos
perturba, nesse caso, não é o desconhecido, mas o conhecido que mudou de rosto.
O lugar da infância alterado produz exatamente essa sensação.
A
Neurociência acrescenta que a memória não funciona como um arquivo fixo. Cada
vez que recordamos, reconstruímos, e o ambiente físico serve como um conjunto
de pistas que facilitam esse resgate. O hipocampo, estrutura ligada à memória
espacial e à memória de episódios, trabalha em estreita relação com o lugar em
que as coisas aconteceram, e o olfato mantém conexões diretas com regiões como
a amígdala e o próprio hipocampo, o que ajuda a explicar por que um simples
cheiro pode devolver uma tarde inteira em poucos segundos, fenômeno eternizado
por Proust no Episódio da Madeleine. É plausível supor, portanto, que, quando o
cenário muda, algumas dessas pistas desaparecem e certas lembranças ficam mais
difíceis de alcançar. A pessoa sente que perdeu o lugar e, ao mesmo tempo, que
está perdendo um pouco do acesso ao que viveu nele.
Seria um
erro, porém, pensar que a nostalgia é apenas dor. Pesquisadores como
Constantine Sedikides e Tim Wildschut, da Universidade de Southampton, vêm
mostrando em estudos que recordar o passado de forma nostálgica tende a
aumentar a sensação de sentido na vida, de conexão com outras pessoas e de
continuidade da própria história. A estudiosa Svetlana Boym propôs uma
distinção interessante entre dois modos de sentir. Na nostalgia restauradora,
a pessoa deseja reconstruir o passado tal como ele era, como se fosse possível
fazer o relógio voltar. Na nostalgia reflexiva, ela se demora na
saudade, aceita que o tempo passou e usa a lembrança para compreender melhor
quem foi e quem é. As duas existem em nós, em proporções que variam conforme a
fase da vida e o que está em jogo.
O português
tem uma palavra que costuma ser apontada como difícil de traduzir: saudade.
Talvez, ainda assim, nos falte uma para a saudade específica do lugar que mudou
diante dos nossos olhos. Há também uma observação antiga que pode adicionar uma
camada a essa reflexão. Heráclito dizia que ninguém entra duas vezes no mesmo
rio, porque o rio muda e quem entra também muda. Parte da dor da solastalgia
talvez venha de esquecermos que não foi apenas o lugar que se transformou. Quem
olha também não é mais a criança que corria por aquela calçada. A casa da
infância parece menor quando voltamos a ela não só porque foi alterada, mas
porque crescemos, e porque aquilo que de fato perdemos não cabe em nenhum
endereço: é o olhar com o qual a víamos.
Este texto
não pretende dizer se a mudança dos lugares é boa ou ruim. Cidades, bairros e
paisagens se transformam o tempo todo, e nem sempre para pior; muitas vezes,
aquilo que parece perda para uns é conquista para outros. A intenção é apenas
dar nome a uma experiência silenciosa, porque nomear já é uma maneira de
começar a elaborar. Quem descobre que existe uma palavra para o que sente deixa
de achar que está exagerando ou sozinho nesse sentimento. E fica uma pergunta
que cada leitor pode levar consigo: qual lugar ainda está no mesmo endereço,
mas já não mora onde você o deixou?
#Reflexão #Nostalgia
#Memória #Saudade #Solastalgia
quinta-feira, 29 de outubro de 2026
MUDAM OS SÉCULOS, MUDAM OS RÓTULOS, A EXCLUSÃO PERMANECE
MUDAM OS SÉCULOS, MUDAM OS RÓTULOS,
A EXCLUSÃO
PERMANECE
por Heitor Jorge Lau
Em pleno
ano de 2026, voltam a circular, nas redes sociais e nas conversas do cotidiano,
convocações para que pessoas sejam demitidas por causa do partido que
escolheram e para que empresas sejam boicotadas por supostamente apoiarem este
ou aquele lado. Boicote, para quem não está habituado ao termo, é a recusa
organizada de comprar, de contratar ou de se relacionar com alguém, com o
objetivo de pressioná-lo ou puni-lo. Convém deixar claro desde o início: este
texto não defende nem critica partido algum. Ele olha para o método, porque o
método é o mesmo, qualquer que seja o lado que o utilize, e a história tem
muito a nos dizer sobre onde esse caminho costuma terminar.
Quase nunca
a perseguição começa pela violência. Ela segue uma sequência que se repete em
épocas e lugares muito diferentes. Primeiro vem o rótulo, que reduz uma pessoa
a uma única característica, seja o partido, a religião, a origem ou a idade, e
a faz parecer menos digna de respeito. Depois vem a pressão econômica, que
consiste em tirar o emprego, esvaziar o comércio e tornar a vida material
impossível. Em seguida, o isolamento social, em que o grupo marcado passa a ser
evitado e o mundo ao redor se acostuma com isso. Só no final, e nem sempre,
aparece a violência física. O que torna o processo perigoso é que cada etapa,
isolada, parece pequena e até justificável para quem a pratica, e é justamente
por isso que tanta gente não percebe o caminho que está sendo percorrido.
O exemplo
mais conhecido é o da Alemanha nazista. Em 1º de abril de 1933, o regime
organizou um boicote nacional aos negócios de judeus, com integrantes da SA, a
tropa paramilitar do partido nazista, postados diante das lojas para intimidar
os clientes. Poucos dias depois, uma lei afastou judeus e opositores políticos
do serviço público e, em 1935, as chamadas Leis de Nuremberg retiraram a
cidadania dos judeus alemães e proibiram casamentos entre judeus e não judeus.
A eliminação física veio anos depois e foi precedida por esse longo preparo, no
qual muita gente aprendeu a olhar para o lado.
A Alemanha,
porém, não foi a primeira nem a única. Na Europa medieval, judeus eram
impedidos de ingressar em muitas corporações de ofício, confinados em bairros
fechados chamados guetos e, na Espanha, expulsos do reino em 1492. No início do
século XVII foi a vez dos mouriscos, descendentes de muçulmanos convertidos à
força ao cristianismo. A Inquisição, tribunal da Igreja Católica criado para
investigar desvios de fé, perseguiu hereges e "cristãos-novos",
judeus convertidos cuja sinceridade era sempre posta sob suspeita. Nos Estados
Unidos, as leis conhecidas como Jim Crow mantiveram, por quase um século depois
do fim da escravidão, a separação legal entre brancos e negros em escolas,
transportes e empregos. Na África do Sul, o Apartheid, regime vigente a partir
de 1948, dividiu a população por raça e determinou onde cada grupo podia morar,
estudar e trabalhar.
Houve
também perseguições por ideias políticas, o que se aproxima mais do que vemos
hoje. Nos Estados Unidos dos anos 1950, o macarthismo, nome dado à caça a
supostos comunistas liderada pelo senador Joseph McCarthy, levou à criação de
listas negras: roteiristas, atores, professores e funcionários públicos eram
demitidos ou impedidos de trabalhar apenas por serem acusados de simpatizar com
o comunismo, muitas vezes sem provas. Na União Soviética de Stálin, os chamados
"inimigos do povo" perdiam o emprego e a moradia antes de serem
presos ou executados. Na China de Mao, a partir de 1966, a Revolução Cultural
humilhou publicamente professores e intelectuais e os afastou de suas funções.
No Camboja do Khmer Vermelho, na segunda metade da década de 1970, as pessoas
instruídas e os profissionais liberais estavam entre os principais alvos. E, em
outro registro, a caça às bruxas na Europa dos séculos XV a XVII atingiu
majoritariamente mulheres, acusadas de desvio por não se encaixarem no papel
que a sociedade lhes reservava.
Mas não é
preciso voltar tantos séculos para encontrar a segregação de pessoas do
trabalho. Ela acontece, em silêncio, no mercado de hoje. Profissionais com mais
de 50 ou 60 anos relatam que, a partir de certa idade, seus currículos deixam
de ser lidos, as vagas passam a pedir "perfil jovem" e a experiência,
que deveria ser um ativo, é tratada como obstáculo. Mulheres enfrentam a
pergunta velada sobre planos de ter filhos, a desconfiança diante da
maternidade, a dificuldade de chegar a cargos de liderança e, em muitos casos,
salários menores para funções iguais. O mesmo se dá com pessoas com deficiência
e com quem vem de determinado bairro ou tem determinado sotaque. Não há lista
oficial nem boicote declarado, mas o efeito é parecido: uma característica isolada
passa a valer mais do que a competência, e a pessoa é afastada antes de ter
tido a chance de mostrar o que sabe fazer. A diferença em relação aos
fanatismos políticos de hoje está apenas no rótulo escolhido. A lógica de
excluir alguém pelo que ela é, ou pelo que pensa, e não pelo que faz, é a
mesma.
O Brasil
tem proteção para isso, ao menos no papel. A Constituição proíbe diferença de
salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo,
idade, cor ou estado civil, e garante o voto direto e secreto. A Lei nº
9.029/1995 proíbe práticas discriminatórias no acesso ao emprego e na sua
manutenção, e a Lei nº 14.611/2023 trata da igualdade salarial entre mulheres e
homens. O Ministério Público do Trabalho, por sua vez, tem tratado como assédio
eleitoral a pressão exercida sobre trabalhadores por causa do voto. Mas lei
nenhuma funciona sozinha: ela depende de uma cultura que reconheça o outro como
pessoa inteira.
É preciso
prudência com as comparações. Os casos históricos citados foram, em sua
maioria, projetos de poder nos quais o Estado estava nas mãos de quem
perseguia, e suas consequências foram incomparavelmente mais graves. O que
vemos hoje, em grande parte, são grupos privados, sem esse poder, e exagerar a
analogia só enfraquece o alerta. O ponto não é dizer que estamos repetindo o
passado, e sim que o começo de todos esses processos foi parecido: a
naturalização da ideia de que alguém pode ser privado do seu sustento por
pertencer a um grupo ou por pensar de determinada forma.
Um
trabalhador não é o partido em que vota, a religião que professa, a idade que
tem ou o gênero a que pertence. É uma pessoa com contas a pagar, família,
competência e uma vida inteira além daquela característica. O voto é secreto
exatamente para que ninguém precise pagar com o próprio sustento pela sua
convicção. Defender esse princípio não é tomar partido, é defender a
possibilidade de convivermos entre diferentes. Podemos discordar com firmeza,
argumentar e votar de modos distintos. O que não podemos é confundir
divergência com inimizade, nem deixar que a discordância vire pretexto para
tirar o pão da mesa de alguém.
Uma
sociedade amadurece quando aprende a debater ideias sem destruir pessoas e a
contratar, promover e conviver pelo que cada um faz, e não pelo rótulo que
carrega. E você, já viu alguém ser julgado pelo que é ou pelo que pensa, e não
pelo que faz?
#Reflexão #Democracia #Respeito
#MercadoDeTrabalho











