NEM TODA “NUDEZ”
SERÁ CASTIGADA
por Heitor Jorge Lau
Hoje
pela manhã acordei pensando num pequeno livro, literalmente. Topless, uma obra
bastante peculiar de Marta Medeiros. Apesar do título provocar uma expectativa
inicial, o livro não trata de nudez física, mas de algo muito mais
interessante: a nudez das ideias, dos sentimentos, das contradições humanas e
dos pequenos acontecimentos do cotidiano. Marta possui uma habilidade rara de
transformar situações aparentemente banais em reflexões profundas. Seus textos
costumam ser curtos, quase conversas íntimas com o leitor, mas deixam uma
espécie de eco que permanece depois da leitura. É o tipo de livro que não exige
pressa. Pode ser aberto em qualquer página, lido em poucos minutos e, ainda
assim, acompanhar o leitor pelo restante do dia.
Ao
lembrar desse livro e seu conteúdo, pensei algo que talvez explique meu
encanto. Existem obras que contam histórias e existem obras que nos fazem
conversar conosco mesmos. "Topless" pertence mais à segunda
categoria. Cada crônica funciona como um espelho discreto: o texto fala de
alguém, mas o leitor acaba encontrando a si mesmo. Curiosamente, esse gênero de
narrativa breve e reflexiva parece dialogar muito com as teorias psicanalíticas.
Um detalhe cotidiano, uma frase ouvida por acaso, uma lembrança aparentemente
insignificante — tudo isso pode abrir caminhos inesperados para a reflexão. As
melhores crônicas fazem justamente isso: revelam que a profundidade nem sempre
está nos grandes acontecimentos, mas na maneira como olhamos para os pequenos.
A
minha lembrança também me fez pensar numa reflexão interessante. Algo como: Há
livros que terminam quando chegamos à última página e outros começam,
justamente, nesse ponto. Alguns textos de Marta Medeiros têm esse efeito. Encerramos
a leitura, mas a reflexão continua silenciosamente dentro de nós.
Há
livros que nos contam histórias e há livros que nos fazem prestar atenção na
vida. Lembro-me de ter sentido isso ao ler "Topless", de Marta
Medeiros. As narrativas eram breves, mas carregavam algo curioso: a capacidade
de transformar situações comuns em reflexões inesperadas. Muitas vezes eu
terminava uma página pensando menos na história e mais nas pessoas que haviam
passado pela minha vida. Uma dessas recordações surgiu ao observar a maneira
como cada geração fala. O idioma é o mesmo, mas as palavras parecem vestir
roupas diferentes conforme o tempo passa. Quem viveu algumas décadas já ouviu
expressões que hoje soam quase arqueológicas. Houve uma época em que tudo era
"jóia", "legal", "bacana", "supimpa" ou
"uma brasa, mora?". Depois vieram outras modas linguísticas, cada
qual acreditando que seria eterna.
Atualmente
escuto com frequência frases recheadas de "tá ligado?", "tipo
assim" e "não eras". Não me incomodam por existirem. O que chama
atenção é a velocidade com que algumas delas se repetem. Conheci uma pessoa que
conseguia encaixar um "tipo assim" a cada meia dúzia de palavras. Em
determinado momento, entre a amizade e o desespero, pedi que tentasse falar
"direito". Rimos muito da situação, embora a expressão continuasse
firme e forte na conversa. O curioso é que provavelmente alguém mais velho
também deve ter se irritado com as gírias da minha geração. Enquanto eu franzia
a testa para o "tipo assim", outro cidadão, décadas atrás, fazia o
mesmo ao ouvir um jovem dizer que algo era "bacana" ou "trique
trique". A história humana parece repetir esse pequeno ritual: os jovens
inventam palavras, os adultos reclamam delas e, algum tempo depois, todos
percebem que aquelas expressões se tornaram lembranças afetuosas de uma época.
As
gírias acabam funcionando como fotografias invisíveis. Basta ouvir uma delas
para que retornem determinados lugares, músicas, amizades e modos de viver.
Algumas desaparecem completamente. Outras sobrevivem apenas na memória daqueles
que as utilizaram sem imaginar que um dia se tornariam peças de museu
linguístico. Talvez seja por isso que textos como os de Marta Medeiros
continuem agradando tantos leitores. Eles nos lembram que a vida não é feita
apenas de grandes acontecimentos. Existe poesia nas palavras que escolhemos,
nos hábitos que adquirimos e até nas expressões que repetimos sem perceber. No
fim das contas, cada geração deixa sua marca não apenas no que faz, mas também
na maneira como fala. E, gostemos ou não das gírias da moda, elas acabam
contando um pedaço da história de quem fomos.
Enfim,
não se trata de transformar a questão das gírias em uma crítica aos jovens (ou
nem tão jovens), mas em uma observação sobre a passagem do tempo. Aquele que um
dia foi (trique trique) jovem, será um dia (tipo assim) um pouco mais velho. Talvez
no futuro distante (ou menos) muitos que foram jovens (hoje) estarão rindo ou
reclamando de quem um dia disse “tá lig@do!”. Simples assim!













