"SÓ SEI QUE
NADA SEI"
QUEM PERGUNTA, PENSA:
SÓCRATES, OS SOFISTAS E A ARTE
PERDIDA DE DUVIDAR
por Heitor Jorge Lau
Em 399
a.C., num tribunal popular de Atenas, um homem de setenta anos ouvia a acusação
de não reconhecer os deuses da cidade e de corromper a juventude. Diante de
centenas de jurados sorteados entre os cidadãos, ele poderia ter feito o que a
praxe recomendava: levar os filhos chorando, apelar à piedade, prometer
silêncio... Não fez nada disso. Segundo o relato de Platão na “Apologia”, falou
como quem continua uma conversa antiga e declarou que uma vida sem exame não
vale a pena ser vivida. Foi condenado por margem relativamente estreita, e, ao
propor sua própria pena, sugeriu, com ironia que os juízes não perdoaram, que a
cidade lhe pagasse refeições no edifício reservado aos benfeitores públicos.
Acabou condenado à morte e bebeu a cicuta (veneno). Seu crime, no fundo, era
outro: fazia perguntas, e as fazia justamente a quem se julgava sábio.
Para
entender por que isso incomodava tanto, vale voltar à origem da missão que ele
diz ter assumido. Conta Sócrates que seu amigo Querefonte foi a Delfos
perguntar ao oráculo se alguém era mais sábio que ele, e a resposta foi que
ninguém. Sócrates, que se sabia ignorante, tomou aquilo como um enigma e
decidiu refutá-lo. Procurou os políticos, que tinham fama de sábios, e
descobriu que não sabiam o que pensavam saber. Procurou os poetas e viu que
compunham belos versos sem conseguir explicá-los. Procurou os artesãos e
constatou que dominavam seu ofício, mas, por isso mesmo, julgavam entender
também de assuntos graves sobre os quais nada sabiam. Concluiu que a diferença
entre ele e os outros era mínima, porém real: ele não acreditava saber o que
não sabia. A tradição resumiu isso na fórmula "só sei que nada
sei", que é uma síntese posterior e um pouco simplificadora, mas que
capta o espírito da coisa. A sabedoria humana, para Sócrates, começa no
reconhecimento do próprio limite.
Daí o
método. Nos primeiros diálogos de Platão, Sócrates aborda alguém que parece
dominar um conceito e pergunta o que ele é. No “Êutifron” (personagem que dá
nome a um dos diálogos mais curtos e mais citados de Platão), pergunta a um
especialista em assuntos religiosos o que é a piedade, e vai desmontando,
resposta por resposta, cada definição apresentada, até que o interlocutor,
encurralado, alega ter pressa e sai de cena. No “Laques” (um dos diálogos
socráticos mais bem construídos de Platão, e o que o torna especial é o ponto
de partida: ele começa com uma questão prática de educação e termina numa
pergunta sobre a natureza da coragem), discute-se a coragem com dois generais,
e nenhum consegue defini-la. No “Cármides” (diálogo de Platão sobre a Sophrosýne,
palavra grega de tradução difícil que costumamos verter por temperança,
moderação ou sensatez), a temperança. No “Lísis” (diálogo de Platão sobre a
amizade), a amizade. Esses diálogos terminam em aporia, palavra grega que
designa o impasse, o beco sem saída. Ninguém chega a uma definição. Os
estudiosos chamam esse procedimento de “élenkhos”, a refutação, e seu efeito é
duplo: o interlocutor perde a falsa certeza e, ao mesmo tempo, ganha algo
difícil de nomear, a consciência de que há uma questão real onde antes via
apenas um lugar-comum. O desconforto faz parte do processo. Sócrates compara a
si mesmo a um moscardo que pica um cavalo grande e preguiçoso para despertá-lo,
e a um peixe-torpedo que paralisa quem o toca. Ele mesmo, aliás, se diz estéril
de sabedoria, como a parteira que ajuda a dar à luz sem ter parido, imagem que
Platão desenvolve no “Teeteto” (um dos diálogos mais densos e mais importantes
de Platão).
É aqui que
convém desfazer uma confusão frequente. O que chamamos hoje de método
socrático, em muitas salas de aula, é outra coisa. Quando o professor faz uma
sequência de perguntas já sabendo aonde quer chegar, está mais próximo do que
Platão encena no “Mênon” (um dos diálogos mais importantes de Platão e funciona
como ponto de passagem entre os diálogos de juventude, de linha socrática, e as
obras da maturidade, em que aparecem as doutrinas propriamente platônicas), em
que Sócrates conduz um jovem escravo, passo a passo, até a solução de um
problema de geometria. Ali a pergunta tem destino marcado, e Platão a usa para
ilustrar a ideia de que aprender é recordar. No mesmo diálogo surge um problema
que continua atual: como é possível buscar aquilo que não sabemos, se, ao
encontrá-lo, não o reconheceríamos? A resposta platônica, a reminiscência, é
discutível, mas a pergunta é uma das mais fecundas da história da pedagogia,
porque revela que todo aprendizado exige uma espécie de intuição prévia daquilo
que se busca. Já nos primeiros diálogos, a pergunta não conduz a lugar nenhum.
Ela limpa o terreno. Misturar as duas coisas é um erro comum, e talvez valha a
pena que quem ensina saiba qual das duas está praticando.
Essa
tradição ganhou uma versão institucional no século XIX, quando a faculdade de
direito de Harvard, sob Christopher Langdell, consagrou o método dos casos e a
interrogação em sala de aula, que passaram a ser chamados de socráticos. O
resultado é conhecido por quem passou por escolas assim: a pergunta pública
pode servir ao pensamento, mas também pode virar instrumento de exposição e
intimidação. Sócrates fazia perguntas a adultos que aceitavam o jogo, e que
podiam ir embora, como Êutifron foi. Um estudante cuja nota depende da resposta
não está na mesma posição. A lição, para quem ensina, é que a qualidade do
método não está na forma da pergunta, mas na atitude de quem pergunta: com real
interesse em pensar junto, ou com a intenção de provar que sabe mais.
A pedagogia
contemporânea reencontrou parte dessa intuição nas metodologias ativas e no
ensino por problemas. A convicção de fundo é a mesma: conhecimento não é um
objeto que se passa de uma cabeça a outra como quem enche um copo. Quem aprende
precisa se envolver, se confundir, formular hipóteses, errar e corrigir. Há uma
passagem do “Fedro” (diálogos de Platão e também dos mais difíceis de resumir,
porque parece tratar de dois assuntos que mal se tocam: a primeira metade fala
do amor, a segunda da retórica e da escrita) que dá a essa ideia uma
profundidade inesperada. Ali Sócrates conta o mito do deus egípcio Teute, que
apresenta ao rei Tamuz a invenção da escrita como remédio para a memória e para
a sabedoria. O rei responde que a escrita fará exatamente o contrário: produzirá
esquecimento, porque as pessoas deixarão de exercitar a memória e passarão a
confiar em sinais externos, e terão a aparência da sabedoria sem a sua
realidade. Sócrates acrescenta que o texto escrito é como uma pintura: parece
vivo, mas, se o interrogamos, permanece em silêncio solene, repetindo sempre a
mesma coisa. Não responde, não se defende, não adapta o que diz a quem o lê.
Lembre-se de que ele próprio nada escreveu, e que conhecemos seu pensamento por
meio de Platão, Xenofonte e outros. Há uma ironia notável em que a crítica à
escrita nos tenha chegado por escrito, e Platão sabia disso.
Troque a
escrita pela internet e a crítica ganha uma atualidade desconfortável. Temos
acesso instantâneo a quase tudo, mas a facilidade de acesso não equivale a
compreensão. Consultar não é examinar. Quem busca uma resposta em segundos pode
ter a sensação de saber sem ter feito o trabalho de entender, e o conteúdo que
lê, como a pintura de Sócrates, não o questiona de volta. É claro que seria
exagero reduzir tudo a uma condenação da tecnologia, e o próprio Platão não
abdicou de escrever. Mas a advertência permanece útil: o que se aprende sem
esforço de pensar tende a se esvair com a mesma facilidade com que chegou.
No debate
público, o contraste é ainda mais evidente. As redes recompensam a afirmação
rápida, categórica, de preferência com um tom de certeza que gera adesão e
compartilhamento. Pergunta engaja pouco. Admitir ignorância engaja menos ainda.
Se Sócrates entrasse hoje numa discussão online, provavelmente seria
silenciado em poucos minutos, e talvez fosse essa a melhor prova de que sua
atitude continua incomodando. O "só sei que nada sei" é quase o
oposto do que os algoritmos premiam, e talvez por isso seja tão necessário. Não
se trata de defender a dúvida permanente, que paralisa, nem de pedir que
ninguém tenha convicções. Sócrates tinha as suas, e morreu por elas. Trata-se
de manter a possibilidade de revisar o que se pensa quando surge um bom
argumento, algo que exige, antes de tudo, disposição para ouvir.
Do outro
lado do palco ateniense estavam os sofistas, os mestres itinerantes que
cobravam para ensinar a arte do discurso e da argumentação numa cidade em que
as decisões se tomavam em assembleias e tribunais. A imagem que a história lhes
legou, a de vendedores de vitórias retóricas indiferentes à verdade, vem em boa
parte de Platão, que era seu adversário, e os próprios sofistas deixaram poucos
textos para se defender. É preciso, portanto, cautela. Protágoras de Abdera, o
mais célebre deles, é citado por uma frase famosa, a de que o “homem é a
medida de todas as coisas”, que Platão discute no “Teeteto” e que pode ser
lida de modos muito diferentes, do relativismo radical à simples constatação de
que todo conhecimento humano é situado. No diálogo que leva seu nome,
Protágoras sustenta que todos os homens recebem um senso básico de justiça e
respeito mútuo e que, por isso, todos podem participar das decisões da cidade,
uma defesa da democracia mais sofisticada do que a caricatura permite supor.
Ainda assim, a pergunta de Platão ao confrontar essa tradição continua válida.
No “Górgias” (diálogo de Platão em que a pergunta sobre a retórica se
transforma, aos poucos, numa pergunta sobre como se deve viver), Sócrates
compara a retórica que busca apenas agradar à culinária, que dá prazer sem se
preocupar com a saúde, em contraste com a medicina, que cuida do corpo mesmo
quando incomoda. A retórica, diz ele, bajula, e a verdadeira arte do discurso
deveria tornar melhores os cidadãos. Isso lembra que persuadir e esclarecer são
coisas distintas, e que a mesma técnica pode servir a ambas.
Ao olhar
para a política, a publicidade e o ambiente digital de hoje, a distinção faz
falta. Vivemos cercados de uma retórica extremamente sofisticada, treinada para
convencer em segundos, calibrada por dados sobre o que funciona, e muito pouco
treinada para fazer a pergunta que Sócrates faria: isso é verdadeiro? Aquele
que ensina a persuadir responde pelo uso que se faz do que ensina? A pergunta,
que os atenienses já se faziam, segue sem resposta confortável.
O que
Sócrates deixa, afinal, não é uma técnica a ser aplicada mecanicamente nem um
conjunto de conclusões. É uma atitude, a de quem aceita ser questionado... de
quem trata a própria convicção como hipótese a ser testada e não como
patrimônio a ser defendido... de quem entende que conversar bem é pensar junto
e não vencer. Essa atitude custa caro, e o próprio Sócrates pagou o preço
máximo. Num tempo em que todos têm opinião sobre tudo e poucos têm paciência
para examiná-la, a pergunta mais socrática que podemos fazer é a mais simples e
a mais difícil: e se eu estiver errado? Quem consegue fazê-la
sinceramente, e escutar a resposta, já começou a filosofar.



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