QUANDO O VOTO
DEIXA DE SER UMA ESCOLHA
Estamos
elegendo um presidente
ou apenas elegendo
quem queremos que o outro lado não seja?
por Heitor Jorge Lau
A atual
conjuntura política brasileira produz uma situação que merece mais reflexão do
que paixão. De um lado, temos dois candidatos que concentram enorme parcela das
atenções e carregam, cada um à sua maneira, problemas, controvérsias e
questionamentos que deveriam ser considerados seriamente por qualquer eleitor.
De outro, existem candidatos que, embora disponham de menor força eleitoral,
poderiam merecer uma análise mais cuidadosa, inclusive como alternativas
capazes de romper a lógica de uma disputa transformada em confronto permanente
entre dois grupos. Há ainda outros nomes, mas com limitações evidentes quando
se considera a capacidade de governança de um país das dimensões e da
complexidade do Brasil.
O mais
curioso é que uma parcela enorme da população declara não gostar de nenhum dos
dois candidatos principais e, ainda assim, acaba escolhendo um deles. E aqui
aparece uma pergunta incômoda: essa pessoa está realmente votando naquele
candidato ou está simplesmente votando contra o outro? Existe uma diferença
enorme entre escolher alguém por acreditar que seja a melhor alternativa e
escolhê-lo porque sua principal virtude, aos olhos do eleitor, é impedir que o
adversário chegue ao poder. No primeiro caso, existe uma escolha. No segundo,
existe uma rejeição transformada em voto.
Esse
fenômeno produz uma das situações mais estranhas da política contemporânea
brasileira: pessoas que não defendem propriamente o candidato em quem votam,
mas que estão dispostas a fazer qualquer coisa para impedir a vitória daquele
que consideram intolerável. O voto deixa de representar uma aprovação e passa a
representar uma barreira. Não se vota necessariamente em alguém... vota-se
contra alguém. E, quando isso acontece em grande escala, a eleição deixa de ser
uma comparação entre projetos e passa a funcionar como um mecanismo de
sobrevivência política de dois grupos que precisam manter o outro
permanentemente sob ameaça.
Há ainda
uma questão mais delicada. Quando existem questionamentos sérios, fatos
controversos ou episódios que colocam em dúvida a conduta de um candidato, por
que isso deixa de ser suficiente para que seu eleitor reavalie a escolha? Não
estou afirmando aqui que toda acusação corresponde a culpa, nem que qualquer
candidato submetido a controvérsia deva ser automaticamente considerado inapto.
A questão é outra: por que determinados eleitores abandonam completamente a
disposição de examinar criticamente aquilo que existe contra o candidato que
escolheram?
E surge
então a pergunta que considero mais perturbadora: se existem outras opções,
inclusive algumas que não carregam o mesmo conjunto de controvérsias, por que
elas são frequentemente descartadas antes mesmo de serem examinadas? Por que o
eleitor aceita a ideia de que precisa escolher obrigatoriamente entre dois
nomes, como se qualquer terceira possibilidade fosse uma espécie de desperdício
de voto? Será que o voto útil se transformou em uma prisão mental na qual o
eleitor passa a considerar impossível qualquer alternativa que não pertença aos
dois polos dominantes?
É nesse
ponto que a palavra fundamentalismo começa a fazer sentido. Não necessariamente
fundamentalismo religioso, mas fundamentalismo político. O fundamentalista não
precisa conhecer profundamente aquilo que defende, precisa apenas acreditar que
aquilo que defende não pode ser questionado. Os fatos deixam de funcionar como
elementos para reflexão e passam a ser classificados conforme favoreçam ou
prejudiquem o lado escolhido. O mesmo acontecimento pode ser considerado
gravíssimo quando envolve o adversário e irrelevante quando envolve o próprio
candidato.
Nesse
ambiente, o eleitor não pergunta mais “isso é verdadeiro?”. Pergunta “isso
prejudica o meu lado?”. Não pergunta “esse candidato está preparado para
governar?”. Pergunta “quem ele vai derrotar?”. Não pergunta “eu realmente
confio nessa pessoa?”. Pergunta “quem seria pior?”. E essa última pergunta,
quando se transforma no único critério de escolha, produz uma consequência
perigosa: o eleitor passa a aceitar quase qualquer coisa do seu candidato desde
que o adversário seja considerado pior.
É assim que
a política pode se transformar em uma disputa de torcidas. O candidato deixa de
ser avaliado pelo que faz e passa a ser protegido pelo que representa. Seus
erros são relativizados, suas contradições são justificadas e suas
controvérsias são imediatamente comparadas às do adversário. A pergunta deixa
de ser “ele merece meu voto?” e passa a ser “o outro merece menos?”. Parece uma
diferença pequena, mas não é. Uma pergunta procura escolher um governante, a
outra procura derrotar um inimigo.
O problema
é que um país não é governado pela simples derrota do adversário. O Brasil
precisa de alguém capaz de administrar uma máquina pública gigantesca,
respeitar instituições, tomar decisões difíceis, enfrentar problemas econômicos
e sociais, negociar com o Congresso, preservar direitos, lidar com conflitos e,
sobretudo, compreender que o cargo de presidente não pertence a uma torcida.
Pertence ao país.
Por isso,
considero saudável recuperar uma pergunta que parece ter desaparecido do debate
eleitoral: se nenhum dos dois candidatos principais merece nossa confiança
integral, por que somos obrigados a escolher entre eles como se fossem as
únicas possibilidades existentes? E, se existem outras alternativas que
apresentam condições razoáveis de governabilidade, por que não as examinar com
a mesma seriedade?
Uma
democracia madura não deveria produzir eleitores que defendem cegamente seus
candidatos. Deveria produzir cidadãos capazes de abandonar uma preferência
quando os fatos demonstram que ela deixou de ser justificável. O voto não
deveria ser um ato de fidelidade. Deveria ser um ato de julgamento. Assim, o
maior problema da política brasileira não esteja apenas nos candidatos. Ele
também está na incapacidade de uma parte do eleitorado de admitir que o próprio
candidato pode estar errado. Quando isso acontece, a política deixa de ser uma
escolha racional entre possibilidades e começa a adquirir características de
fundamentalismo: nada que venha do outro lado merece consideração e nada que
venha do próprio lado merece condenação.
Um país
governado por esse tipo de lógica corre o risco de passar anos escolhendo não o
melhor, mas simplesmente aquele que consegue derrotar o pior (e já faz algum
tempo que é assim). Essa é uma escolha? Ou é apenas uma forma sofisticada de
fundamentalismo político?








