MEA CULPA
OU DE QUEM É A CULPA?
A síndrome do
indicador e o Brasil das urnas
por Heitor Jorge Lau
Existe um
gesto que o brasileiro aprendeu cedo e foi aperfeiçoando com o tempo: esticar o
braço, dobrar três dedos e deixar o indicador apontando para longe de si. Não é
um gesto raro, nem exclusivo de uma ideologia, de uma região ou de uma faixa
etária. É quase um reflexo. Algo dá errado e, antes mesmo de entender o que
aconteceu, já sabemos de quem é a culpa, desde que seja de outra pessoa. A esse
reflexo coletivo vou chamar aqui de síndrome do indicador: a
tendência de apontar o dedo, transferir a responsabilidade e sair de cena com a
consciência tranquila. Falo do Brasil, apenas dele, porque é o país que vivo e
que consigo observar de perto, sem pretensão de opinar sobre o que se passa em
outros lugares.
O cenário
eleitoral é o palco onde essa síndrome se manifesta com mais nitidez, e o
curioso é que ela funciona nos dois tempos, antes e depois das urnas. Durante a
campanha, cada lado descreve os problemas do país como obra exclusiva do
adversário: a economia que não anda como deveria, o serviço público que falha,
a segurança que preocupa, a divisão entre as pessoas. Ouvindo os discursos,
parece que ninguém jamais teve qualquer participação no que está aí, que as
dificuldades surgiram sozinhas e que só existe um grupo capaz de tê-las
causado. O dedo aponta para a frente, na direção do outro candidato, e o
eleitor é convidado a apontar junto.
Passada a
eleição, o gesto não desaparece, apenas muda de alvo. Quem venceu atribui as
dificuldades que vierem ao que foi herdado, aos obstáculos colocados pela
oposição, às instituições que atrapalham, à imprensa que distorce. Quem perdeu
explica a derrota pelos erros dos outros: o eleitor que não entendeu a
mensagem, a informação que chegou torta, a estrutura que favoreceu o
adversário, a campanha rival que foi injusta. Raramente se ouve, nas noites de
apuração, alguém dizer com simplicidade: "nós erramos neste ponto". E
o eleitor, que assiste a tudo do sofá ou da mesa do bar, completa o ciclo:
culpa os políticos, todos eles, como se o voto de cada um fosse um assunto
separado do resultado final. É uma tentação que alcança todos nós, e é justamente
por ser tão humana que merece ser examinada com calma.
Aqui está o
ponto mais interessante, aquele que dá nome a este texto: nesse jogo, todos são
culpados e todos são inocentes ao mesmo tempo. Todos são culpados porque cada
um aponta o dedo para o outro e o acusa... todos são inocentes porque cada um,
em sua própria narrativa, nunca teve nada a ver com o problema. É um paradoxo e
tanto. Se todos são sempre inocentes em suas próprias versões, de onde vêm
então os problemas? Se a soma de milhões de inocentes resulta em um país com
tantas queixas, alguma coisa nessa conta não fecha. A culpa, quando todos a
repassam adiante como uma batata quente, não desaparece, ela apenas fica sem
dono, e o que não tem dono dificilmente tem conserto.
A psicanálise
ajuda a entender por que esse gesto é tão confortável. Estudos sobre atribuição
mostram que tendemos a explicar nossos acertos por mérito pessoal e nossos
fracassos por circunstâncias externas, enquanto fazemos exatamente o contrário
ao julgar os outros: o fracasso alheio vira defeito de caráter, e o sucesso
alheio vira sorte. Há ainda o mecanismo da projeção, em que depositamos em
outra pessoa aquilo que nos incomoda reconhecer em nós mesmos. Apontar o dedo,
portanto, não é apenas um hábito político; é um recurso de proteção do ego. Dói
menos acreditar que o problema está fora. O preço, porém, é alto: quem nunca
olha para dentro nunca encontra a parte que lhe cabe e, sem encontrá-la, nunca
poderá mudá-la.
Na outra
ponta vem a expressão que abre o título: mea culpa, do latim,
"minha culpa". Ela vem de uma oração antiga em que a pessoa
reconhece, batendo no peito, o próprio erro. Hoje a expressão é usada com certa
leveza e, muitas vezes, de forma retórica, como um pedido de desculpas
protocolar que não altera coisa alguma. Mas o mea culpa verdadeiro não é
humilhação nem autoflagelo... é um ato de maturidade. É dizer: nesta parte do
problema eu participei, e nesta parte posso fazer diferente. Não se trata de
assumir a culpa por tudo, o que seria apenas outra forma de distorção, mas de
separar o que é do outro do que é meu, com honestidade suficiente para não
empurrar tudo para um lado só.
Aplicado ao
cenário político, esse exercício incomoda e, por isso mesmo, é necessário. O
voto é um ato individual com consequências coletivas. Isso significa que, ao
escolher alguém, assumo uma parcela pequena, mas real, de corresponsabilidade
pelo que virá: pelo quanto me informei, pelo quanto desconfiei de promessas
fáceis, pelo quanto cobrei depois. Votar e se desligar por quatro anos,
reaparecendo apenas na hora da queixa, é uma forma elegante de apontar o dedo
para o futuro. Da mesma maneira, quem governa ou legisla precisa aprender que
"a culpa é de quem veio antes" tem prazo de validade, e que prestar
contas não é um favor feito ao eleitor, e sim parte do cargo. Cada um, no seu
lugar, tem uma fatia da responsabilidade, e o país só funciona quando as fatias
são reconhecidas.
Há ainda um
detalhe que o gesto do indicador esconde, e que muita gente já ouviu, mas
poucos aplicam: quando apontamos um dedo para alguém, os outros três dedos da
mesma mão estão apontados para nós. A anatomia, nesse caso, é uma pequena lição
de ética, bastando olhar para a própria mão. O que a síndrome do indicador nos
pede, portanto, não é que deixemos de cobrar, criticar ou de apontar falhas,
pois isso faz parte saudável de qualquer democracia. Pede apenas que o dedo que
aponta para fora venha acompanhado de uma pergunta que aponte para dentro: o
que me cabe nisso?
Então, de
quem é a culpa? Talvez a pergunta esteja mal formulada. Procurar o culpado é
procurar alguém para punir. Procurar a responsabilidade é procurar o que pode
ser feito. Enquanto o Brasil perguntar apenas "de quem é a culpa?",
continuará girando em círculos, com cada lado acusando o outro e todos se
sentindo injustiçados. Quando passar a perguntar "qual é a minha parte, e
o que posso fazer com ela?", talvez descubra que a saída nunca esteve em
um único nome, em um único partido ou em uma única eleição. Esteve, desde
sempre, na mão que aponta, e na coragem de recolher o dedo, ao menos por um
instante, para olhar o que ele apontava de volta.












