quarta-feira, 4 de novembro de 2026

ESTÉTICA ou SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL?

CONTÊINERES SUBTERRÂNEOS PARA OS RESÍDUOS

ESTÉTICA ou SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL?

por Heitor Jorge Lau

            A matéria apresentada na Gazeta do Sul (4 de novembro de 2026) expressa uma proposta interessante para Santa Cruz do Sul, mas há algumas questões técnicas que merecem bastante atenção antes de se considerar a instalação desses equipamentos um avanço na gestão dos resíduos urbanos.

            Um primeiro detalhe chama a atenção: a notícia não anuncia uma decisão definitiva de implantação. A Prefeitura está estudando a possibilidade de realizar um projeto-piloto no município, tendo como referência o modelo utilizado em Balneário Camboriú, Santa Catarina. A reportagem também revela uma característica importante: os resíduos ficam depositados em contêineres instalados abaixo do nível do solo, enquanto a parte superior permite o descarte pela população. No momento da coleta, o equipamento é elevado para que o caminhão possa retirar o material. Isso significa que não estamos falando simplesmente de substituir lixeiras convencionais por recipientes mais bonitos. Estamos falando de instalar uma estrutura subterrânea, com componentes mecânicos, hidráulicos ou eletromecânicos, que exige obras civis, drenagem, higienização e manutenção especializada.

            Minha primeira observação crítica: a redução do impacto visual é uma vantagem evidente, mas não constitui, por si só, uma demonstração de sustentabilidade ambiental. Precisamos avaliar o que acontece com os resíduos, os líquidos gerados, o solo, as águas subterrâneas e os custos de operação durante toda a vida útil do sistema.

 

            Desvantagens e riscos que merecem investigação

            Aqui começa a parte mais importante da análise. O fato de o recipiente ficar enterrado não significa que os problemas relacionados aos resíduos desapareçam. Alguns apenas deixam de ficar visíveis.

           

            Acúmulo de líquidos e chorume

            Este é um dos pontos que eu exigiria que a Prefeitura esclarecesse tecnicamente.

            Resíduos orgânicos, restos de alimentos, líquidos descartados e materiais em decomposição podem produzir líquidos contaminantes. A esse líquido damos o nome de chorume, ou lixiviado. O risco depende da construção do equipamento. Se o contentor for estanque, íntegro e possuir sistema adequado de retenção, o líquido não deve entrar em contato com o solo. Entretanto, precisamos saber:

            - O recipiente possui vedação contra vazamentos?

            - Existe sistema de coleta de líquidos acumulados?

            - Como é feita a retirada e a destinação desses líquidos?

            - A caixa subterrânea possui impermeabilização?

            - Existe sistema de drenagem para águas pluviais?

            - Como são identificados vazamentos e infiltrações?

 

            É importante não afirmar que todo contêiner subterrâneo contamina o solo. Isso não é correto. Mas também seria inadequado presumir que o risco inexiste simplesmente porque o fabricante apresenta o equipamento como ambientalmente seguro.

 

            Água subterrânea e condições do terreno

            Uma instalação subterrânea exige conhecimento prévio das condições geológicas e hidrológicas do local. Em áreas com lençol freático elevado, por exemplo, a instalação pode exigir soluções especiais de impermeabilização, drenagem e ancoragem. A pressão da água subterrânea pode comprometer estruturas mal dimensionadas. Além disso, uma caixa subterrânea mal executada pode receber água da chuva, acumular umidade e favorecer a corrosão de componentes metálicos. Na Rua Marechal Floriano, seria necessário verificar as redes subterrâneas existentes, as condições do pavimento, a drenagem urbana e as características do terreno antes de definir o ponto de instalação.

 

            Higienização e odores

            A Prefeitura de Balneário Camboriú afirma que os equipamentos não geram odores. Essa afirmação precisa ser interpretada com cautela. O armazenamento subterrâneo pode reduzir a exposição dos resíduos e as oscilações térmicas, mas não interrompe a decomposição da matéria orgânica. Se houver resíduos aderidos às paredes, líquidos acumulados, falhas de vedação ou higienização insuficiente, os odores podem persistir. A limpeza precisa alcançar não somente o recipiente removível, mas também as bocas de descarte, a plataforma e as superfícies internas da estrutura.

 

            Falhas mecânicas e hidráulicas

            Este é um problema que não existe da mesma maneira em uma lixeira convencional. O equipamento depende de mecanismos de elevação, componentes hidráulicos, travas de segurança, sensores e estruturas de sustentação. Uma falha pode impedir a coleta ou deixar o equipamento indisponível. A depender do projeto, o reparo exige assistência especializada e peças específicas. Também precisamos considerar a possibilidade de corrosão, desgaste de componentes, infiltrações na instalação elétrica, quando existente, e falhas dos sensores.

 

            Segurança dos usuários e dos trabalhadores

            A movimentação de uma plataforma de elevação exige dispositivos de segurança e procedimentos operacionais rigorosos. É necessário impedir o acesso de pessoas à área de movimentação durante a elevação, evitar quedas no vão subterrâneo e assegurar que a operação seja realizada por trabalhadores capacitados. O equipamento também precisa permanecer protegido contra acionamentos indevidos e vandalismo.

 

            Capacidade insuficiente e descarte inadequado

            Um contentor de mil litros não resolve automaticamente o problema da geração de resíduos. Se a capacidade for insuficiente para a demanda daquele ponto, o resultado será o acúmulo de sacos de lixo na superfície, justamente o problema que se pretende solucionar. Também existe a questão do descarte irregular: móveis, papelões volumosos, restos de construção, óleo, pilhas e outros materiais incompatíveis podem comprometer o funcionamento do equipamento.

 

            Portanto, a implantação precisa estar associada a orientação pública, fiscalização e coleta diferenciada.

 

            Uma descoberta importante: o sistema subterrâneo não é necessariamente mais sustentável

            Encontrei um estudo científico particularmente relevante para a investigação: Life cycle assessment as a decision-making tool for the design of urban solid waste pre-collection and collection/transport systems, publicado na revista científica Resources, Conservation and Recycling. O trabalho compara diferentes sistemas de pré-coleta e transporte de resíduos utilizando a metodologia de Avaliação do Ciclo de Vida (ACV).

            Uma de suas conclusões é especialmente significativa: nos cenários analisados, os sistemas convencionais com contêineres de superfície apresentaram impactos ambientais menores do que os sistemas com contêineres subterrâneos. Isso não significa que todos os modelos subterrâneos sejam ambientalmente piores. O resultado depende das características dos equipamentos, das obras de instalação, da logística de coleta, da energia utilizada e da vida útil considerada.

            Mas essa pesquisa derruba uma associação que frequentemente aparece em campanhas de modernização urbana: tecnologia mais sofisticada não significa necessariamente maior sustentabilidade. A fabricação dos componentes, o concreto utilizado, a escavação, o transporte de materiais, as substituições de peças e a manutenção também precisam entrar na conta ambiental.

 

            O custo que costuma ficar escondido

            A instalação de um contêiner convencional envolve basicamente a aquisição ou locação do recipiente e sua manutenção. Já um sistema subterrâneo envolve uma estrutura muito mais complexa.

 

            Para Santa Cruz do Sul, eu consideraria obrigatória uma planilha que contemplasse:

1.      Componente   à Despesa envolvida   

2.      Obras civis      à Escavação, concreto e pavimentação

3.      Equipamento  à Contentor, plataforma e mecanismos

4.      Instalação       à Montagem, transporte e testes

5.      Operação        à Elevação e recolhimento dos resíduos

6.      Higienização   à Lavagem e desinfecção

7.      Manutenção    à Peças, hidráulica e reparos

8.      Segurança       à Inspeções e dispositivos de proteção

9.      Vida útil          à Substituição e modernização

 

            Observe uma questão fundamental: a instalação de contêineres subterrâneos não representa, isoladamente, avanço significativo nessas prioridades. Ela pode melhorar o acondicionamento e a coleta, mas não reduz necessariamente a quantidade de lixo produzida, não aumenta automaticamente a reciclagem e não garante melhor tratamento dos resíduos. A legislação estabelece que os municípios são responsáveis pela gestão integrada dos resíduos sólidos em seus territórios e prevê mecanismos de controle social, educação ambiental e participação das cooperativas de catadores. Portanto, qualquer projeto de modernização deveria ser apresentado como parte de uma política mais ampla de gestão de resíduos, e não como solução ambiental isolada.

 

            O que eu investigaria especificamente em Santa Cruz do Sul

            A escolha da Rua Marechal Floriano merece uma avaliação própria. A reportagem informa que a intenção é liberar espaço ocupado pelos contêineres tradicionais e ampliar as vagas de estacionamento. Esse objetivo é legítimo do ponto de vista urbanístico. Entretanto, eu não consideraria suficiente justificar um investimento público apenas pela recuperação de espaço na via.

            Há questões que precisam ser respondidas antes da implantação:

            - Condições físicas do local: existem redes de água, esgoto, drenagem, telefonia e energia no ponto escolhido? Qual é a profundidade disponível para escavação? Existe interferência com outras estruturas subterrâneas?

            - Condições ambientais: qual é a situação do lençol freático? Como será feita a impermeabilização? Há previsão de coleta e destinação dos líquidos eventualmente acumulados?

            - Condições operacionais: os caminhões atualmente utilizados pela empresa responsável pela coleta possuem equipamentos compatíveis com o sistema? Qual será o tempo necessário para cada operação?

            - Condições econômicas: quanto custará o conjunto completo? Qual será o custo mensal de operação? Quem pagará pela manutenção? Qual é a vida útil estimada?

            - Condições sanitárias: qual será a frequência de lavagem? Como serão controlados odores, vetores, resíduos aderidos e líquidos provenientes da decomposição?

            - Condições de acessibilidade: a instalação não poderá prejudicar a circulação de pedestres, especialmente pessoas com deficiência e usuários de cadeiras de rodas.

            Essas informações precisam fazer parte do planejamento, não ser providenciadas depois que o equipamento já estiver instalado.

 

            Minha perspectiva: como deveria ser conduzido o projeto-piloto

            Considero acertada a ideia de começar com apenas uma unidade. Isso reduz o risco de um investimento precipitado e permite avaliar o comportamento do equipamento em condições reais. Mas eu acrescentaria uma exigência: o projeto-piloto precisa ter indicadores objetivos de desempenho, definidos antes da instalação:

 

              Indicador                      O que avaliar

1.      | Custo total                à Instalação e operação

2.      | Disponibilidade        à Tempo em funcionamento

3.      | Manutenção              à Frequência e custo dos reparos

4.      | Higienização             à Frequência e eficiência

5.      | Odores                      à Ocorrências registradas

6.      | Vazamentos              à Inspeções e ocorrências

7.      | Coleta                       àTempo e eficiência operacional

8.      | Capacidade               àFrequência de transbordamento

9.      | Reciclagem               àQuantidade efetivamente recuperada

10.  | Satisfação pública     à Avaliação dos usuários

 

            Também considero indispensável estabelecer um período de acompanhamento suficientemente longo para contemplar diferentes condições climáticas e variações na geração de resíduos. Uma avaliação realizada apenas nos primeiros dias de funcionamento seria insuficiente. E existe uma questão adicional: o município deveria comparar o desempenho do equipamento subterrâneo com o de um contêiner convencional instalado em condições equivalentes. Sem essa comparação, não será possível determinar se o investimento realmente produziu ganhos.

 

            Balanço geral: prós e contras

            Avaliação técnica qualitativa da tecnologia, não uma pontuação estatística.

 

            Aspecto                    Avaliação

1.      Estética urbana                       àFavorável

2.      Liberação de espaço               àFavorável

3.      Proteção contra animais         àFavorável, se bem vedado

4.      Proteção contra chuva            àFavorável, dependendo do projeto

5.      Controle de odores                 àFavorável, mas não garantido

Higienização                    àExige cuidados adicionais

6.      Risco de vazamentos             àExige controle específico

Manutenção                     àMais complexa

7.      Investimento inicial                àTendencialmente mais elevado

8.      Dependência tecnológica       àMaior

9.      Eficiência da coleta                àDepende da operação

10.  Sustentabilidade ambiental    àNão comprovadamente superior

11.  Reciclagem                             àNão melhora automaticamente

 

            Modernização urbana não pode ser confundida com sustentabilidade

            Minha avaliação é que os contêineres subterrâneos constituem uma alternativa tecnicamente interessante para determinados ambientes urbanos, principalmente locais de grande circulação de pessoas, concentração comercial e limitação de espaço nas calçadas. Entretanto, não encontrei fundamento para afirmar que essa tecnologia seja, por definição, ambientalmente superior aos contêineres convencionais. Pelo contrário, a pesquisa de avaliação do ciclo de vida que localizei aponta resultados desfavoráveis ao sistema subterrâneo em determinados indicadores ambientais.

            O que considero mais importante é que a Prefeitura de Santa Cruz do Sul não transforme uma iniciativa de modernização paisagística em uma iniciativa apresentada automaticamente como política de sustentabilidade. A sustentabilidade precisa ser demonstrada por resultados mensuráveis, considerando todo o ciclo de vida do equipamento, os recursos empregados, os custos públicos, a prevenção de contaminações e a efetiva melhoria na gestão dos resíduos.

            Eu não sou contrário à implantação. Sou contrário à implantação sem fundamentação técnica, ambiental e econômica suficientemente demonstrada. Um projeto-piloto bem planejado pode ser uma boa oportunidade para o município aprender, testar e decidir. Mas um projeto-piloto sem critérios de avaliação corre o risco de servir apenas para justificar uma expansão futura.

            Se eu tivesse oportunidade de encaminhar perguntas à Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Saneamento e Sustentabilidade, faria estas:

            1. Existe estudo técnico preliminar comparando os custos dos contêineres subterrâneos com os convencionais?

            2. Qual é o investimento total previsto para a instalação do equipamento na Rua Marechal Floriano?

            3. Qual será o custo anual de manutenção, operação e higienização?

            4. Qual é a solução técnica prevista para a contenção e destinação de líquidos provenientes dos resíduos?

            5. Qual é a garantia de impermeabilização da estrutura subterrânea?

            6. Foi realizado estudo das condições geológicas e hidrológicas do local?

            7. Qual é a vida útil estimada do equipamento e de seus componentes hidráulicos?

            8. Quais indicadores serão utilizados para avaliar o sucesso do projeto-piloto?

            9. Existe avaliação comparativa independente dos impactos ambientais do sistema?

            10. Qual será a destinação dos resíduos e como será preservada a coleta seletiva?

 

            Essas perguntas não representam oposição à administração municipal. Representam o exercício legítimo do controle social sobre a aplicação de recursos públicos.

            Uma última consideração: existe material suficiente para uma reflexão pública interessante sobre esse assunto. A questão não é simplesmente decidir se queremos lixeiras subterrâneas ou superficiais. É discutir quais critérios devem orientar o emprego do dinheiro público quando uma administração municipal anuncia uma inovação tecnológica com justificativa ambiental. Eu considero essa uma discussão especialmente pertinente para Santa Cruz do Sul e você?

 

terça-feira, 3 de novembro de 2026

QUANDO O HÁBITO SE TRANSFORMA EM PRISÃO

QUANDO O HÁBITO SE TRANSFORMA EM PRISÃO:

SOMOS DONOS DAS NOSSAS ESCOLHAS?

por Heitor Jorge Lau

            Existe uma força silenciosa que participa da construção da nossa personalidade, organiza boa parte das nossas atividades cotidianas e, em determinadas circunstâncias, pode assumir o controle de nossas decisões sem que percebamos. Essa força atende pelo nome de hábito. Repetimos comportamentos, incorporamos rotinas, desenvolvemos preferências e estabelecemos padrões de funcionamento que, com o passar do tempo, deixam de exigir reflexão ou deliberação consciente. O problema começa quando essa capacidade extraordinária de automatizar nossas ações ultrapassa os limites da conveniência e passa a restringir nossa liberdade. Afinal, existe uma diferença considerável entre adquirir um hábito e tornar-se prisioneiro dele. E essa diferença merece uma reflexão que vai muito além dos conhecidos problemas relacionados ao consumo de drogas lícitas e ilícitas.

            Costumo ouvir afirmações de pessoas que dizem ter experimentado cocaína ou maconha uma única vez e, imediatamente, desenvolvido um vício. Minha reação costuma ser de questionamento, pois a dependência não funciona, em regra, como um interruptor que se aciona instantaneamente após um único contato com determinada substância. Existe um processo complexo envolvendo aprendizagem, repetição, associação de estímulos, mecanismos de recompensa e adaptações neurobiológicas. Uma primeira experiência pode proporcionar prazer, curiosidade, sensação de bem-estar ou alívio momentâneo de alguma tensão, levando o indivíduo a desejar sua repetição. Entretanto, é importante esclarecer que não existe uma quantidade universal de experiências a partir da qual alguém desenvolve dependência, tampouco se pode considerar inofensivo um primeiro consumo. A vulnerabilidade individual, a substância utilizada, a frequência, a intensidade e o contexto interferem nesse processo. Cocaína e maconha, por exemplo, apresentam características e riscos distintos. O ponto central da reflexão é que a repetição pode fortalecer associações entre determinada experiência e a recompensa percebida, transformando gradualmente um comportamento inicialmente ocasional em uma prática persistente, por vezes acompanhada de perda de controle.

            É justamente nesse processo que encontramos uma das explicações mais interessantes oferecidas pela neurociência. Os Gânglios da Base, também denominados Núcleos da Base, constituem um conjunto de estruturas profundas do cérebro que participa de funções relacionadas ao movimento, à aprendizagem, à seleção de ações e à formação de hábitos. Uma região particularmente importante desse sistema é o Estriado, que participa dos circuitos envolvidos na aprendizagem por recompensa e na automatização de comportamentos. Em termos simplificados, o cérebro aprende a reconhecer determinadas situações, estímulos e circunstâncias que antecedem uma ação e suas respectivas consequências. Quando uma sequência comportamental é repetida suficientemente, ela pode passar a ser executada com menor necessidade de deliberação consciente. É por isso que conseguimos dirigir por trajetos conhecidos, escovar os dentes ou executar tarefas familiares enquanto pensamos em outras coisas. Essa capacidade representa uma extraordinária economia de recursos cognitivos. O cérebro não precisa reinventar diariamente aquilo que já aprendeu. Entretanto, o mesmo mecanismo que facilita nossa vida também pode consolidar comportamentos prejudiciais, excessivos ou incompatíveis com nossas necessidades. A automatização, portanto, não distingue necessariamente aquilo que nos beneficia daquilo que nos prejudica.

            Aqui encontramos uma questão que considero particularmente relevante: nem todo hábito é um vício, mas todo vício comportamental envolve, em alguma medida, processos de aprendizagem e repetição. Um hábito pode ser perfeitamente saudável enquanto permanece subordinado às nossas necessidades e escolhas. O problema surge quando a pessoa continua executando determinada atividade mesmo diante de consequências negativas, quando sente desconforto intenso ao tentar interrompê-la ou quando passa a organizar sua existência em função daquele comportamento. É nesse momento que precisamos abandonar a interpretação superficial de que tudo se resume à força de vontade. Existem mecanismos psicológicos e neurobiológicos envolvidos, e compreender sua atuação é fundamental para não transformar uma questão complexa em simples julgamento moral.

            Pensemos, por exemplo, nas atividades domésticas, um território aparentemente distante das discussões sobre dependência, mas que oferece situações bastante ilustrativas. Limpar a casa, lavar roupas, passar camisas, organizar armários, arear panelas e manter os ambientes em ordem são atividades legítimas e necessárias. Algumas pessoas encontram satisfação genuína nessas tarefas, e não existe absolutamente nada de errado nisso. Entretanto, o que acontece quando alguém não consegue descansar porque existe uma peça de roupa fora do lugar? Quando uma panela precisa ser novamente limpa, mesmo estando perfeitamente utilizável? Quando a pessoa interrompe momentos de convivência, lazer ou descanso porque sente uma necessidade praticamente incontrolável de executar alguma tarefa doméstica? A questão deixa de ser a limpeza ou a organização propriamente ditas e passa a envolver a relação psicológica estabelecida com essas atividades. Em determinadas circunstâncias, a repetição pode funcionar como uma tentativa de aliviar ansiedade, recuperar uma sensação de controle ou evitar o contato com pensamentos e sentimentos desagradáveis. Existem situações em que esse padrão se aproxima de manifestações obsessiva-compulsivas, que exigem avaliação clínica adequada, mas não devemos confundir organização, zelo e disciplina com transtornos psicológicos. O que interessa investigar é quando uma atividade deixa de servir à pessoa e passa a exigir que a pessoa sirva a ela.

            Existe, entretanto, uma manifestação dessa dinâmica que considero ainda mais curiosa, justamente porque costuma receber reconhecimento e aprovação social: a relação excessivamente intensa com o trabalho. Sempre tive reservas diante da expressão “sou apaixonado pelo meu trabalho”, principalmente quando ela vem acompanhada de uma dedicação que praticamente elimina todos os demais espaços da existência. É perfeitamente saudável encontrar satisfação na profissão, sentir orgulho das próprias realizações e reconhecer a importância do trabalho para a construção da identidade e da autonomia individual. Minha inquietação está relacionada àqueles que não conseguem se desligar das obrigações profissionais, que sentem desconforto diante do descanso, que precisam estar permanentemente ocupados e que parecem experimentar uma espécie de vazio quando não existe uma tarefa a cumprir. Em determinadas circunstâncias, o trabalho pode deixar de representar uma atividade produtiva e transformar-se em um mecanismo de compensação psicológica. A pessoa encontra na ocupação permanente uma maneira socialmente aceita de evitar questionamentos, conflitos, frustrações e insatisfações que exigiriam um confronto consigo mesma. Enquanto trabalha, não precisa pensar sobre determinados aspectos da vida; enquanto cumpre metas, não precisa examinar suas relações; enquanto permanece ocupada, não precisa enfrentar o silêncio que surge quando as obrigações terminam.

            Essa possibilidade merece atenção porque o excesso de trabalho costuma ser confundido com virtude. A sociedade frequentemente recompensa quem trabalha além dos limites, quem abre mão do descanso e quem transforma a profissão no centro absoluto da própria existência. O indivíduo recebe elogios por sua dedicação, comprometimento e produtividade, mas raramente alguém pergunta o que acontece quando ele não está trabalhando. Será que consegue aproveitar o tempo livre? Consegue estabelecer relações que não estejam subordinadas às exigências profissionais? Consegue simplesmente permanecer consigo mesmo, sem precisar preencher cada instante com alguma obrigação? É claro que não podemos afirmar que toda pessoa extremamente dedicada ao trabalho esteja fugindo de conflitos internos ou desenvolvendo uma dependência comportamental. Existem diferenças individuais, necessidades econômicas, características profissionais e motivações legítimas. Entretanto, quando o trabalho se transforma em uma necessidade permanente, quando a pessoa perde a capacidade de estabelecer limites e quando sua identidade passa a depender exclusivamente da produtividade, estamos diante de uma situação que merece investigação. A paixão pelo trabalho não deve servir como justificativa automática para a renúncia à própria vida.

            O mesmo raciocínio pode ser ampliado para inúmeros comportamentos contemporâneos. A necessidade de verificar constantemente o telefone celular, acompanhar notificações, consultar redes sociais, realizar compras desnecessárias, consumir alimentos sem fome ou procurar entretenimento a cada instante revela como determinadas práticas podem adquirir uma dimensão que ultrapassa sua finalidade original. Em muitos casos, a repetição proporciona uma recompensa imediata, ainda que passageira, e essa recompensa contribui para reforçar o comportamento. A pessoa consulta o celular porque espera encontrar alguma novidade; compra porque experimenta uma satisfação momentânea; trabalha porque recebe reconhecimento; limpa porque sente alívio diante da organização. O cérebro aprende essas associações e passa a favorecer a repetição. Entretanto, a satisfação inicial pode diminuir, enquanto a necessidade de repetir permanece ou até aumenta. O comportamento deixa de ser uma escolha plenamente deliberada e começa a funcionar como resposta automática a determinados estímulos, emoções ou circunstâncias.

            Sob uma perspectiva psicanalítica, essa discussão ganha outra dimensão. A repetição não está necessariamente relacionada apenas à busca de prazer. Em determinadas situações, ela também pode expressar tentativas inconscientes de lidar com conflitos, angústias e experiências que não foram devidamente elaboradas. Uma pessoa pode repetir comportamentos porque encontra neles uma forma de administrar tensões internas, evitar determinadas percepções ou manter uma sensação de estabilidade diante de um mundo que experimenta como ameaçador. Nesse sentido, a repetição pode representar muito mais do que uma rotina consolidada: pode revelar uma maneira particular de se relacionar consigo mesmo e com a realidade. O indivíduo acredita estar escolhendo livremente, mas nem sempre reconhece os motivos que sustentam suas escolhas. É por isso que a investigação das razões subjacentes ao comportamento se torna tão importante. Não basta perguntar o que alguém faz repetidamente; precisamos compreender o que aquela repetição representa em sua vida e qual função psicológica desempenha.

            Uma das maiores dificuldades humanas está, justamente, em reconhecer quando perdemos a capacidade de questionar nossos próprios comportamentos. Estamos tão acostumados a determinadas rotinas que passamos a considerá-las naturais, necessárias e até indispensáveis. Não percebemos que algumas delas consomem nosso tempo, limitam nossas experiências, prejudicam nossas relações e impedem o desenvolvimento de outras possibilidades de existência. O hábito oferece conforto porque reduz a necessidade de decidir, mas também pode nos manter presos a padrões que já não fazem sentido. A repetição proporciona familiaridade, e a familiaridade frequentemente é confundida com segurança. Entretanto, viver permanentemente dentro daquilo que já conhecemos não significa necessariamente viver melhor.

            O desafio, portanto, não consiste em eliminar os hábitos, pois eles são indispensáveis à organização da vida humana. Precisamos aprender a reconhecer sua função, avaliar suas consequências e preservar a capacidade de modificá-los quando deixam de nos beneficiar. Uma rotina saudável amplia nossa autonomia; uma compulsão pode restringi-la. A disciplina contribui para a realização de objetivos; a rigidez impede adaptações. O trabalho pode proporcionar satisfação e dignidade; o excesso pode servir de esconderijo. A organização doméstica pode trazer bem-estar; a necessidade de controlar cada detalhe pode produzir sofrimento. A diferença não está necessariamente na atividade executada, mas na relação que estabelecemos com ela e na liberdade que conservamos diante de sua repetição.

            No fim das contas, a pergunta mais importante não é quantas vezes repetimos determinado comportamento, mas o quanto ainda somos capazes de decidir sobre ele. Conseguimos interrompê-lo sem experimentar angústia desproporcional? Conseguimos substituí-lo por outras atividades? Conseguimos reconhecer quando ele começa a prejudicar nossa saúde, nossas relações e nossa qualidade de vida? Ou precisamos encontrar justificativas para continuar fazendo exatamente aquilo que já percebemos ser excessivo? Essas perguntas nos colocam diante de uma questão fundamental da existência: a liberdade não consiste apenas em poder fazer o que desejamos, mas também em conservar a capacidade de deixar de fazer aquilo que já não nos faz bem. O hábito deveria ser um instrumento a serviço da nossa existência, nunca o senhor que determina como devemos vivê-la. Afinal, quando deixamos de questionar nossas repetições, corremos o risco de passar a vida inteira obedecendo a comportamentos que um dia começamos a escolher. 

 

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

SOLASTALGIA: A SAUDADE DE CASA ESTANDO EM CASA

SOLASTALGIA: A SAUDADE DE CASA ESTANDO EM CASA

Sobre a nostalgia, a memória e os lugares que mudam diante de nós

por Heitor Jorge Lau

            Existe um tipo de saudade que dispensa a viagem. Não é a de quem partiu e olha para trás, mas a de quem ficou e foi percebendo, aos poucos, que o lugar onde sempre viveu já não é o mesmo. A rua conserva o nome, a casa continua no mesmo número, mas o cheiro, o ruído, o comércio da esquina e a sombra da árvore da calçada não são mais aqueles. Quem passa por isso costuma sentir um desconforto difícil de explicar, porque não há a quem dizer “estou com saudade de casa” sem ouvir como resposta: “mas você está em casa”.

            Para esse sentimento, o filósofo australiano Glenn Albrecht propôs, em 2003, a palavra solastalgia, formada pelo latim solacium, que significa consolo, e pelo grego algos, que significa dor. Seria, portanto, a dor de perder o consolo que um lugar nos oferecia. Albrecht a observou em moradores de uma região cuja paisagem foi profundamente transformada, mas o termo logo ultrapassou a origem e passou a nomear algo que qualquer pessoa já experimentou em escala menor: o bairro da infância irreconhecível, a escola reformada, a padaria que fechou, a praça que ganhou outro desenho. O ponto central é que a perda, aqui, não está na distância, e sim na mudança. É o lugar que parte, enquanto a pessoa fica.

            A palavra irmã, nostalgia, tem uma história curiosa. Ela foi cunhada em 1688 pelo estudante de medicina suíço Johannes Hofer, a partir do grego nostos, que quer dizer regresso, e algos, dor. Hofer a criou para descrever uma doença: o mal que acometia soldados suíços servindo longe de casa, com tristeza persistente, insônia e perda de apetite. Durante muito tempo, médicos procuraram causas físicas para ela e a trataram como enfermidade. Só séculos depois a nostalgia passou a ser compreendida como uma emoção humana comum, e algo curioso aconteceu com o seu sentido: nascida como dor do espaço, a saudade do lugar distante, ela se tornou dor do tempo, a falta de uma época que não volta. A solastalgia reúne as duas, porque o lugar que perdemos é sempre o lugar de um tempo.

            A Antropologia ajuda a entender por que essa perda pesa tanto. O geógrafo Yi-Fu Tuan falou em topofilia, o laço afetivo que as pessoas criam com os lugares, e lembrou que um lugar é diferente de um simples espaço: é um espaço ao qual atribuímos significado. O antropólogo Marc Augé, por sua vez, distinguiu os lugares antropológicos, que carregam identidade, relações e história, dos chamados não-lugares, como aeroportos e corredores de passagem, onde ninguém se demora o bastante para deixar marcas. Quando um lugar cheio de sentido vai perdendo seus traços, as pessoas perdem também parte dos “espelhos” em que se reconheciam. Quem sou eu sem a esquina onde aprendi a andar de bicicleta? A identidade, de certa forma, tem endereço.

            A Psicanálise oferece outra chave. Em “Luto e Melancolia”, de 1917, Freud descreveu o trabalho do luto como o processo lento pelo qual retiramos, pouco a pouco, a energia afetiva depositada em algo ou alguém que perdemos. Mas o luto costuma pressupor uma perda reconhecível, com marcos claros, como a morte, a despedida e o velório. Na solastalgia, não há cerimônia alguma, porque o objeto amado continua ali, apenas modificado. Como elaborar a perda de algo que ainda existe? Isso nos remete a outro conceito freudiano, o estranho familiar, apresentado em 1919. A palavra alemã heimlich, que designa o que é íntimo e doméstico, vem de Heim, o lar, e o seu oposto, unheimlich, descreve aquilo que inquieta justamente por ter sido familiar. O que nos perturba, nesse caso, não é o desconhecido, mas o conhecido que mudou de rosto. O lugar da infância alterado produz exatamente essa sensação.

            A Neurociência acrescenta que a memória não funciona como um arquivo fixo. Cada vez que recordamos, reconstruímos, e o ambiente físico serve como um conjunto de pistas que facilitam esse resgate. O hipocampo, estrutura ligada à memória espacial e à memória de episódios, trabalha em estreita relação com o lugar em que as coisas aconteceram, e o olfato mantém conexões diretas com regiões como a amígdala e o próprio hipocampo, o que ajuda a explicar por que um simples cheiro pode devolver uma tarde inteira em poucos segundos, fenômeno eternizado por Proust no Episódio da Madeleine. É plausível supor, portanto, que, quando o cenário muda, algumas dessas pistas desaparecem e certas lembranças ficam mais difíceis de alcançar. A pessoa sente que perdeu o lugar e, ao mesmo tempo, que está perdendo um pouco do acesso ao que viveu nele.

            Seria um erro, porém, pensar que a nostalgia é apenas dor. Pesquisadores como Constantine Sedikides e Tim Wildschut, da Universidade de Southampton, vêm mostrando em estudos que recordar o passado de forma nostálgica tende a aumentar a sensação de sentido na vida, de conexão com outras pessoas e de continuidade da própria história. A estudiosa Svetlana Boym propôs uma distinção interessante entre dois modos de sentir. Na nostalgia restauradora, a pessoa deseja reconstruir o passado tal como ele era, como se fosse possível fazer o relógio voltar. Na nostalgia reflexiva, ela se demora na saudade, aceita que o tempo passou e usa a lembrança para compreender melhor quem foi e quem é. As duas existem em nós, em proporções que variam conforme a fase da vida e o que está em jogo.

            O português tem uma palavra que costuma ser apontada como difícil de traduzir: saudade. Talvez, ainda assim, nos falte uma para a saudade específica do lugar que mudou diante dos nossos olhos. Há também uma observação antiga que pode adicionar uma camada a essa reflexão. Heráclito dizia que ninguém entra duas vezes no mesmo rio, porque o rio muda e quem entra também muda. Parte da dor da solastalgia talvez venha de esquecermos que não foi apenas o lugar que se transformou. Quem olha também não é mais a criança que corria por aquela calçada. A casa da infância parece menor quando voltamos a ela não só porque foi alterada, mas porque crescemos, e porque aquilo que de fato perdemos não cabe em nenhum endereço: é o olhar com o qual a víamos.

            Este texto não pretende dizer se a mudança dos lugares é boa ou ruim. Cidades, bairros e paisagens se transformam o tempo todo, e nem sempre para pior; muitas vezes, aquilo que parece perda para uns é conquista para outros. A intenção é apenas dar nome a uma experiência silenciosa, porque nomear já é uma maneira de começar a elaborar. Quem descobre que existe uma palavra para o que sente deixa de achar que está exagerando ou sozinho nesse sentimento. E fica uma pergunta que cada leitor pode levar consigo: qual lugar ainda está no mesmo endereço, mas já não mora onde você o deixou?

#Reflexão #Nostalgia #Memória #Saudade #Solastalgia

 

FILOSOFIA - REFLEXÃO - BEM VIVER - sempre...








 

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

MUDAM OS SÉCULOS, MUDAM OS RÓTULOS, A EXCLUSÃO PERMANECE

            MUDAM OS SÉCULOS, MUDAM OS RÓTULOS,

A EXCLUSÃO PERMANECE

por Heitor Jorge Lau

            Em pleno ano de 2026, voltam a circular, nas redes sociais e nas conversas do cotidiano, convocações para que pessoas sejam demitidas por causa do partido que escolheram e para que empresas sejam boicotadas por supostamente apoiarem este ou aquele lado. Boicote, para quem não está habituado ao termo, é a recusa organizada de comprar, de contratar ou de se relacionar com alguém, com o objetivo de pressioná-lo ou puni-lo. Convém deixar claro desde o início: este texto não defende nem critica partido algum. Ele olha para o método, porque o método é o mesmo, qualquer que seja o lado que o utilize, e a história tem muito a nos dizer sobre onde esse caminho costuma terminar.

            Quase nunca a perseguição começa pela violência. Ela segue uma sequência que se repete em épocas e lugares muito diferentes. Primeiro vem o rótulo, que reduz uma pessoa a uma única característica, seja o partido, a religião, a origem ou a idade, e a faz parecer menos digna de respeito. Depois vem a pressão econômica, que consiste em tirar o emprego, esvaziar o comércio e tornar a vida material impossível. Em seguida, o isolamento social, em que o grupo marcado passa a ser evitado e o mundo ao redor se acostuma com isso. Só no final, e nem sempre, aparece a violência física. O que torna o processo perigoso é que cada etapa, isolada, parece pequena e até justificável para quem a pratica, e é justamente por isso que tanta gente não percebe o caminho que está sendo percorrido.

            O exemplo mais conhecido é o da Alemanha nazista. Em 1º de abril de 1933, o regime organizou um boicote nacional aos negócios de judeus, com integrantes da SA, a tropa paramilitar do partido nazista, postados diante das lojas para intimidar os clientes. Poucos dias depois, uma lei afastou judeus e opositores políticos do serviço público e, em 1935, as chamadas Leis de Nuremberg retiraram a cidadania dos judeus alemães e proibiram casamentos entre judeus e não judeus. A eliminação física veio anos depois e foi precedida por esse longo preparo, no qual muita gente aprendeu a olhar para o lado.

            A Alemanha, porém, não foi a primeira nem a única. Na Europa medieval, judeus eram impedidos de ingressar em muitas corporações de ofício, confinados em bairros fechados chamados guetos e, na Espanha, expulsos do reino em 1492. No início do século XVII foi a vez dos mouriscos, descendentes de muçulmanos convertidos à força ao cristianismo. A Inquisição, tribunal da Igreja Católica criado para investigar desvios de fé, perseguiu hereges e "cristãos-novos", judeus convertidos cuja sinceridade era sempre posta sob suspeita. Nos Estados Unidos, as leis conhecidas como Jim Crow mantiveram, por quase um século depois do fim da escravidão, a separação legal entre brancos e negros em escolas, transportes e empregos. Na África do Sul, o Apartheid, regime vigente a partir de 1948, dividiu a população por raça e determinou onde cada grupo podia morar, estudar e trabalhar.

            Houve também perseguições por ideias políticas, o que se aproxima mais do que vemos hoje. Nos Estados Unidos dos anos 1950, o macarthismo, nome dado à caça a supostos comunistas liderada pelo senador Joseph McCarthy, levou à criação de listas negras: roteiristas, atores, professores e funcionários públicos eram demitidos ou impedidos de trabalhar apenas por serem acusados de simpatizar com o comunismo, muitas vezes sem provas. Na União Soviética de Stálin, os chamados "inimigos do povo" perdiam o emprego e a moradia antes de serem presos ou executados. Na China de Mao, a partir de 1966, a Revolução Cultural humilhou publicamente professores e intelectuais e os afastou de suas funções. No Camboja do Khmer Vermelho, na segunda metade da década de 1970, as pessoas instruídas e os profissionais liberais estavam entre os principais alvos. E, em outro registro, a caça às bruxas na Europa dos séculos XV a XVII atingiu majoritariamente mulheres, acusadas de desvio por não se encaixarem no papel que a sociedade lhes reservava.

            Mas não é preciso voltar tantos séculos para encontrar a segregação de pessoas do trabalho. Ela acontece, em silêncio, no mercado de hoje. Profissionais com mais de 50 ou 60 anos relatam que, a partir de certa idade, seus currículos deixam de ser lidos, as vagas passam a pedir "perfil jovem" e a experiência, que deveria ser um ativo, é tratada como obstáculo. Mulheres enfrentam a pergunta velada sobre planos de ter filhos, a desconfiança diante da maternidade, a dificuldade de chegar a cargos de liderança e, em muitos casos, salários menores para funções iguais. O mesmo se dá com pessoas com deficiência e com quem vem de determinado bairro ou tem determinado sotaque. Não há lista oficial nem boicote declarado, mas o efeito é parecido: uma característica isolada passa a valer mais do que a competência, e a pessoa é afastada antes de ter tido a chance de mostrar o que sabe fazer. A diferença em relação aos fanatismos políticos de hoje está apenas no rótulo escolhido. A lógica de excluir alguém pelo que ela é, ou pelo que pensa, e não pelo que faz, é a mesma.

            O Brasil tem proteção para isso, ao menos no papel. A Constituição proíbe diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil, e garante o voto direto e secreto. A Lei nº 9.029/1995 proíbe práticas discriminatórias no acesso ao emprego e na sua manutenção, e a Lei nº 14.611/2023 trata da igualdade salarial entre mulheres e homens. O Ministério Público do Trabalho, por sua vez, tem tratado como assédio eleitoral a pressão exercida sobre trabalhadores por causa do voto. Mas lei nenhuma funciona sozinha: ela depende de uma cultura que reconheça o outro como pessoa inteira.

            É preciso prudência com as comparações. Os casos históricos citados foram, em sua maioria, projetos de poder nos quais o Estado estava nas mãos de quem perseguia, e suas consequências foram incomparavelmente mais graves. O que vemos hoje, em grande parte, são grupos privados, sem esse poder, e exagerar a analogia só enfraquece o alerta. O ponto não é dizer que estamos repetindo o passado, e sim que o começo de todos esses processos foi parecido: a naturalização da ideia de que alguém pode ser privado do seu sustento por pertencer a um grupo ou por pensar de determinada forma.

            Um trabalhador não é o partido em que vota, a religião que professa, a idade que tem ou o gênero a que pertence. É uma pessoa com contas a pagar, família, competência e uma vida inteira além daquela característica. O voto é secreto exatamente para que ninguém precise pagar com o próprio sustento pela sua convicção. Defender esse princípio não é tomar partido, é defender a possibilidade de convivermos entre diferentes. Podemos discordar com firmeza, argumentar e votar de modos distintos. O que não podemos é confundir divergência com inimizade, nem deixar que a discordância vire pretexto para tirar o pão da mesa de alguém.

            Uma sociedade amadurece quando aprende a debater ideias sem destruir pessoas e a contratar, promover e conviver pelo que cada um faz, e não pelo rótulo que carrega. E você, já viu alguém ser julgado pelo que é ou pelo que pensa, e não pelo que faz?

#Reflexão #Democracia #Respeito #MercadoDeTrabalho

 

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

MEA CULPA OU DE QUEM É A CULPA?

MEA CULPA OU DE QUEM É A CULPA?

A síndrome do indicador e o Brasil das urnas

por Heitor Jorge Lau

            Existe um gesto que o brasileiro aprendeu cedo e foi aperfeiçoando com o tempo: esticar o braço, dobrar três dedos e deixar o indicador apontando para longe de si. Não é um gesto raro, nem exclusivo de uma ideologia, de uma região ou de uma faixa etária. É quase um reflexo. Algo dá errado e, antes mesmo de entender o que aconteceu, já sabemos de quem é a culpa, desde que seja de outra pessoa. A esse reflexo coletivo vou chamar aqui de síndrome do indicador: a tendência de apontar o dedo, transferir a responsabilidade e sair de cena com a consciência tranquila. Falo do Brasil, apenas dele, porque é o país que vivo e que consigo observar de perto, sem pretensão de opinar sobre o que se passa em outros lugares.

            O cenário eleitoral é o palco onde essa síndrome se manifesta com mais nitidez, e o curioso é que ela funciona nos dois tempos, antes e depois das urnas. Durante a campanha, cada lado descreve os problemas do país como obra exclusiva do adversário: a economia que não anda como deveria, o serviço público que falha, a segurança que preocupa, a divisão entre as pessoas. Ouvindo os discursos, parece que ninguém jamais teve qualquer participação no que está aí, que as dificuldades surgiram sozinhas e que só existe um grupo capaz de tê-las causado. O dedo aponta para a frente, na direção do outro candidato, e o eleitor é convidado a apontar junto.

            Passada a eleição, o gesto não desaparece, apenas muda de alvo. Quem venceu atribui as dificuldades que vierem ao que foi herdado, aos obstáculos colocados pela oposição, às instituições que atrapalham, à imprensa que distorce. Quem perdeu explica a derrota pelos erros dos outros: o eleitor que não entendeu a mensagem, a informação que chegou torta, a estrutura que favoreceu o adversário, a campanha rival que foi injusta. Raramente se ouve, nas noites de apuração, alguém dizer com simplicidade: "nós erramos neste ponto". E o eleitor, que assiste a tudo do sofá ou da mesa do bar, completa o ciclo: culpa os políticos, todos eles, como se o voto de cada um fosse um assunto separado do resultado final. É uma tentação que alcança todos nós, e é justamente por ser tão humana que merece ser examinada com calma.

            Aqui está o ponto mais interessante, aquele que dá nome a este texto: nesse jogo, todos são culpados e todos são inocentes ao mesmo tempo. Todos são culpados porque cada um aponta o dedo para o outro e o acusa... todos são inocentes porque cada um, em sua própria narrativa, nunca teve nada a ver com o problema. É um paradoxo e tanto. Se todos são sempre inocentes em suas próprias versões, de onde vêm então os problemas? Se a soma de milhões de inocentes resulta em um país com tantas queixas, alguma coisa nessa conta não fecha. A culpa, quando todos a repassam adiante como uma batata quente, não desaparece, ela apenas fica sem dono, e o que não tem dono dificilmente tem conserto.

            A psicanálise ajuda a entender por que esse gesto é tão confortável. Estudos sobre atribuição mostram que tendemos a explicar nossos acertos por mérito pessoal e nossos fracassos por circunstâncias externas, enquanto fazemos exatamente o contrário ao julgar os outros: o fracasso alheio vira defeito de caráter, e o sucesso alheio vira sorte. Há ainda o mecanismo da projeção, em que depositamos em outra pessoa aquilo que nos incomoda reconhecer em nós mesmos. Apontar o dedo, portanto, não é apenas um hábito político; é um recurso de proteção do ego. Dói menos acreditar que o problema está fora. O preço, porém, é alto: quem nunca olha para dentro nunca encontra a parte que lhe cabe e, sem encontrá-la, nunca poderá mudá-la.

            Na outra ponta vem a expressão que abre o título: mea culpa, do latim, "minha culpa". Ela vem de uma oração antiga em que a pessoa reconhece, batendo no peito, o próprio erro. Hoje a expressão é usada com certa leveza e, muitas vezes, de forma retórica, como um pedido de desculpas protocolar que não altera coisa alguma. Mas o mea culpa verdadeiro não é humilhação nem autoflagelo... é um ato de maturidade. É dizer: nesta parte do problema eu participei, e nesta parte posso fazer diferente. Não se trata de assumir a culpa por tudo, o que seria apenas outra forma de distorção, mas de separar o que é do outro do que é meu, com honestidade suficiente para não empurrar tudo para um lado só.

            Aplicado ao cenário político, esse exercício incomoda e, por isso mesmo, é necessário. O voto é um ato individual com consequências coletivas. Isso significa que, ao escolher alguém, assumo uma parcela pequena, mas real, de corresponsabilidade pelo que virá: pelo quanto me informei, pelo quanto desconfiei de promessas fáceis, pelo quanto cobrei depois. Votar e se desligar por quatro anos, reaparecendo apenas na hora da queixa, é uma forma elegante de apontar o dedo para o futuro. Da mesma maneira, quem governa ou legisla precisa aprender que "a culpa é de quem veio antes" tem prazo de validade, e que prestar contas não é um favor feito ao eleitor, e sim parte do cargo. Cada um, no seu lugar, tem uma fatia da responsabilidade, e o país só funciona quando as fatias são reconhecidas.

            Há ainda um detalhe que o gesto do indicador esconde, e que muita gente já ouviu, mas poucos aplicam: quando apontamos um dedo para alguém, os outros três dedos da mesma mão estão apontados para nós. A anatomia, nesse caso, é uma pequena lição de ética, bastando olhar para a própria mão. O que a síndrome do indicador nos pede, portanto, não é que deixemos de cobrar, criticar ou de apontar falhas, pois isso faz parte saudável de qualquer democracia. Pede apenas que o dedo que aponta para fora venha acompanhado de uma pergunta que aponte para dentro: o que me cabe nisso?

            Então, de quem é a culpa? Talvez a pergunta esteja mal formulada. Procurar o culpado é procurar alguém para punir. Procurar a responsabilidade é procurar o que pode ser feito. Enquanto o Brasil perguntar apenas "de quem é a culpa?", continuará girando em círculos, com cada lado acusando o outro e todos se sentindo injustiçados. Quando passar a perguntar "qual é a minha parte, e o que posso fazer com ela?", talvez descubra que a saída nunca esteve em um único nome, em um único partido ou em uma única eleição. Esteve, desde sempre, na mão que aponta, e na coragem de recolher o dedo, ao menos por um instante, para olhar o que ele apontava de volta.

 

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

MÃOS QUE ORAM: A BELEZA DE NUNCA ESQUECER QUEM NOS AJUDOU A CHEGAR

MÃOS QUE ORAM:

A BELEZA DE NUNCA ESQUECER QUEM NOS AJUDOU A CHEGAR

por Heitor Jorge Lau

            A inspiração para esta reflexão nasceu da leitura de “Poesias em Aquarela”, de Antônio J. Giacomin, obra que apresenta, entre suas páginas, a imagem de “Mãos que Oram”, associada a uma comovente narrativa sobre sacrifício, amizade e gratidão. A partir dessa imagem, surge uma questão que ultrapassa os limites de uma única pintura: quantas histórias podem estar inscritas nas mãos de um artista plástico? Mãos que aprendem a observar o mundo, experimentam a resistência dos materiais, descobrem formas e cores, enfrentam dificuldades, amadurecem com o tempo e transformam sentimentos, lembranças e inquietações em expressões artísticas. Cada pincelada pode guardar a memória de uma experiência, cada obra pode carregar fragmentos de uma existência e cada marca deixada pelo tempo pode revelar o esforço silencioso que tornou possível uma criação. Por trás daquilo que admiramos em uma tela, existe uma trajetória que os olhos nem sempre conseguem enxergar: horas de dedicação, renúncias, descobertas, pessoas que ofereceram apoio e outras que, mesmo sem perceber, contribuíram para a formação do artista. Contemplar uma obra, portanto, é também reconhecer que a arte não nasce apenas do talento das mãos, mas de tudo aquilo que a vida deposita nelas. E, quando procuramos compreender essa dimensão humana da criação artística, percebemos que algumas das histórias mais profundas não estão pintadas na superfície da tela, mas permanecem guardadas nas mãos que a tornaram possível.           

Boa leitura!

 

            Existem obras de arte que ultrapassam a beleza de suas formas e encontram um lugar permanente na memória humana por seu significado original. Não é apenas o talento do artista que lhes confere grandeza, mas a história que carregam e os sentimentos que despertam. Entre elas está a célebre pintura “Mãos que Oram”, associada ao artista alemão Albrecht Dürer (1471–1528), cuja origem é contada por meio de uma lenda que, independentemente de sua veracidade histórica, encerra uma profunda lição sobre a gratidão e os vínculos que construímos ao longo da vida.

            Uma das versões dessa narrativa remonta à juventude de Dürer, um dos dezoito filhos de um ourives que vivia nas proximidades de Nuremberg. O jovem Albrecht compartilhava com um de seus irmãos o sonho de se tornar artista. A família, entretanto, não dispunha de recursos para custear a formação de ambos, e os dois irmãos precisavam encontrar uma maneira de superar aquela limitação. Foi então que conceberam um acordo que mudaria o destino de suas vidas.

            Decidiram lançar uma moeda ao alto para determinar quem teria a oportunidade de estudar arte. O vencedor partiria para a academia, enquanto o outro trabalharia nas minas de carvão da região, dedicando-se ao sustento do irmão. Quando os estudos terminassem, aquele que tivesse alcançado a formação artística assumiria a responsabilidade de financiar a educação do outro, permitindo-lhe realizar o mesmo sonho. A sorte favoreceu Albrecht, que partiu para estudar, enquanto seu irmão se submeteu ao trabalho árduo nas profundezas das minas.

            Durante quatro anos, Dürer dedicou-se intensamente à aprendizagem, demonstrando um talento extraordinário e conquistando reconhecimento por sua habilidade. Enquanto isso, o irmão cumpria sua parte no acordo, trabalhando incansavelmente para custear a formação daquele que havia sido escolhido. Cada jornada nas minas representava uma contribuição silenciosa para um futuro que ambos haviam imaginado, mas que apenas um deles, naquele momento, podia perseguir.

            Concluídos os estudos, Albrecht retornou à aldeia natal, já reconhecido por sua competência artística. A família reuniu-se para celebrar a conquista, e o jovem artista, em meio à alegria do reencontro, anunciou ao irmão que havia chegado sua vez de partir para a cidade e realizar o sonho de tornar-se pintor. Afinal, aquele era o compromisso assumido entre os dois. O que aconteceu em seguida, porém, transformou a celebração em um dos episódios mais comoventes dessa narrativa.

            Com lágrimas nos olhos, o irmão revelou que já não poderia seguir o caminho desejado. Os quatro anos de trabalho nas minas haviam deixado marcas profundas em suas mãos: ossos quebrados, calosidades, sulcos e deformações provocadas pelo esforço brutal. Aquilo que antes lhe permitiria manejar com delicadeza os instrumentos da arte havia sido comprometido de maneira irreversível. Seu sonho de tornar-se pintor não poderia mais se realizar.

            Diante dessa realidade, o irmão não demonstrou ressentimento. Pelo contrário, manifestou satisfação por ter contribuído para que Albrecht alcançasse a posição que ambos haviam desejado. Suas mãos, embora incapazes de executar os movimentos delicados exigidos pela pintura, haviam cumprido uma tarefa extraordinária: ajudaram a construir o futuro de outra pessoa. O sacrifício não fora pequeno, tampouco suas consequências, mas ele reconhecia o valor da conquista do irmão e encontrava nisso uma razão para se alegrar.

            Profundamente tocado por aquela demonstração de dedicação, Dürer decidiu desenhar as mãos castigadas do irmão, unidas em uma posição de oração e agradecimento. O resultado teria sido a imagem que atravessou gerações sob o título “Mãos que Oram”. A força expressiva do desenho estaria justamente no contraste entre a delicadeza do gesto e a dureza da vida que aquelas mãos representavam. Não eram mãos comuns: eram o testemunho de um esforço silencioso, de uma renúncia profunda e de uma generosidade que não exigia recompensas.

            Existe, contudo, outra versão da lenda. Porém, essa narrativa é o suficiente para germinar na mente do leitor a reflexão desejada. As duas narrativas apresentam diferenças quanto à identidade do homem retratado e às circunstâncias que teriam originado o desenho. Não é necessário, entretanto, decidir qual delas é verdadeira para compreender a mensagem que ambas procuram transmitir. A história pode ser examinada como uma lenda de origem, sem que se confunda sua força simbólica com a comprovação dos fatos históricos. Seu valor reside, sobretudo, na reflexão que desperta sobre a maneira como reconhecemos aqueles que contribuíram para nossas realizações.

            A imagem das mãos unidas nos convida a olhar para além do sucesso individual. Frequentemente, celebramos as conquistas como se fossem resultados exclusivos de nosso esforço, de nossa inteligência ou de nosso talento. Esquecemos que, em diferentes momentos da vida, alguém nos ofereceu tempo, conhecimento, trabalho, incentivo ou oportunidades que tornaram possível avançar. Nem sempre essas contribuições aparecem publicamente, e muitas delas permanecem invisíveis para aqueles que contemplam os resultados alcançados. Ainda assim, fazem parte da história de cada realização.

            Há pessoas cujos nomes jamais serão associados às grandes conquistas que ajudaram a tornar possíveis. Seus esforços não aparecem em certificados, homenagens ou biografias. Suas mãos, contudo, estão presentes em muitas das coisas que admiramos. Reconhecê-las exige sensibilidade para compreender que o mérito individual não elimina a importância da colaboração, e que a gratidão não diminui quem a manifesta. Ao contrário, revela a capacidade de reconhecer a presença do outro em nossa própria trajetória.

            É nesse sentido que “Mãos que Oram” adquire uma dimensão que ultrapassa a religiosidade sugerida por seu título e sua composição. A imagem pode ser compreendida como uma expressão universal de reconhecimento, respeito e gratidão. Ela nos lembra que existem sacrifícios que não podem ser desfeitos, oportunidades que não podem ser devolvidas e gestos de generosidade que nenhuma recompensa material consegue compensar integralmente. Diante deles, resta-nos preservar a memória, honrar a contribuição recebida e impedir que o esquecimento apague a importância de quem caminhou conosco.

            Seja qual for a versão da lenda, permanece uma verdade humana que merece ser preservada: ninguém constrói sozinho tudo aquilo que a vida lhe permite realizar. Em algum momento, nossas conquistas carregam a participação de pessoas que acreditaram em nós, que assumiram responsabilidades, que compartilharam dificuldades ou que aceitaram renúncias para nos oferecer melhores condições de seguir adiante. Reconhecer essa presença é uma forma de justiça, mas também uma expressão de maturidade e humanidade.

            A maior beleza das mãos retratadas não está apenas na posição em que foram desenhadas, mas naquilo que simbolizam: a possibilidade de transformar o sacrifício em generosidade, a lembrança em reconhecimento e o sucesso em motivo de gratidão. São mãos que, mesmo marcadas pelo sofrimento, não perderam a capacidade de expressar afeto. Mãos que contam uma história sem precisar de palavras. Mãos que nos recordam que a grandeza de uma pessoa não se mede somente pelo que consegue realizar, mas também pela maneira como reconhece aqueles que contribuíram para sua caminhada.

            No fim, a lição permanece simples e profunda: nunca devemos esquecer as mãos que nos ajudaram a chegar onde estamos. Algumas nos ensinaram, outras nos sustentaram; algumas abriram caminhos, outras trabalharam silenciosamente para que pudéssemos percorrê-los. Todas merecem ser lembradas com respeito. Porque o verdadeiro valor de uma conquista também está na gratidão que somos capazes de conservar por aqueles que fizeram parte dela.