sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

A DIFICULDADE DO SER HUMANO EM DIZER NÃO - A FORÇA DO NÃO POSITIVO

A FORÇA DO “NÃO” POSITIVO

Por Heitor Jorge Lau

            Existe um paradoxo que atravessa silenciosamente grande parte das relações humanas: quanto mais uma pessoa teme dizer “não”, mais esse “não” não dito contamina tudo ao redor. Relacionamentos se deterioram sob o peso de concessões ressentidas. Acordos se constroem sobre bases frágeis porque ninguém ousou expressar o que realmente pensava. Lideranças se fragilizam porque nunca aprenderam a sustentar uma posição diante da pressão. E... indivíduos que constroem identidades em torno da aprovação alheia, sacrificando progressivamente a substância de quem são em troca da ilusão de harmonia. Esse artigo parte precisamente desse paradoxo para construir uma das reflexões mais cuidadosas e praticamente relevantes sobre negociação, comunicação e integridade pessoal produzidas no decorrer das últimas décadas. A maioria dos fracassos nas negociações, a maioria dos conflitos que se tornam destrutivos, a maioria das relações que entram em colapso não acontece porque as pessoas disseram “não” com muita frequência ou com muita firmeza. Acontece porque disseram “não” da forma errada — de maneira reativa, agressiva, ou simplesmente não disseram, substituindo o “não” por uma aquiescência vazia que eventualmente explode.

            A tese central desse artigo pode ser formulada com precisão: o “não”, quando dito corretamente, não é o oposto do “sim” — é a condição de possibilidade de um “sim” genuíno. Um “sim” arrancado pela pressão, medo e incapacidade de sustentar um “não”, não é um “sim” que produz acordos duráveis ou relações saudáveis. É uma capitulação disfarçada de cooperação, e capitulações têm memória: acumulam ressentimento, corroem a confiança e eventualmente produzem rupturas muito mais devastadoras do que o “não” que nunca foi dito. É preciso aprender a dizer “não” para que seja compreendido não como um exercício de confronto ou assertividade agressiva, mas como um ato de cuidado — com a própria integridade, com a qualidade das relações e com a possibilidade de acordos que funcionem de fato.

            O texto a seguir revela a estrutura conceitual do artigo: A FORÇA DO NÃO POSITIVO. Essa formulação aparentemente contraditória é o coração de todo o argumento. O “não” negativo é aquele que simplesmente nega, que rejeita sem oferecer nada em lugar do que recusa — é o “não” reativo, emocional, frequentemente agressivo ou, no extremo oposto, passivo-agressivo. Produz confronto, mágoa ou o colapso imediato da conversa. O “não” positivo, por contraste, tem uma estrutura tripartite: começa com um “sim” interno — um “sim” aos próprios valores, necessidades e compromissos que tornam o “não” necessário —, passa pelo “não” propriamente dito — claro, firme, sem desculpas —, e termina com um “sim” externo — uma oferta de alternativa, uma proposta de caminho diferente que reconhece os interesses do outro sem abrir mão dos próprios. Essa estrutura transforma o “não” de rejeição em proposição.

            Para compreender a profundidade dessa estrutura, é necessário entender o que esse artigo pretende sugerir com o “sim” interno que precede e fundamenta o “não”. Numa das contribuições mais interessantes, esse artigo argumenta que a maioria das pessoas falha ao dizer “não” não porque careça de coragem, mas porque não sabe ao certo a que está dizendo “sim”. Sem clareza sobre os próprios valores, prioridades e compromissos, qualquer “não” fica suspenso no ar — parece arbitrário, caprichoso ou meramente defensivo. Quando alguém sabe profundamente o que está protegendo ao dizer “não”, o “não” adquire uma qualidade diferente: não é negação do outro, mas afirmação de si. E essa distinção, aparentemente sutil, muda completamente a dinâmica da interação.

            Esse “sim” interno não é um recurso retórico — é um trabalho genuíno de autoconhecimento. A ideia, aqui, é provocar uma reflexão sobre o que realmente importa, sobre quais são os valores inegociáveis que definem o que se está disposto a proteger mesmo sob pressão. Essa reflexão remete a uma tradição filosófica que atravessa o estoicismo, o existencialismo e certas vertentes da psicologia humanista: a ideia de que a integridade — no sentido literal de integração, de não fragmentação — requer saber o que se é e o que se defende. Sem esse núcleo, a pessoa se torna permeável a todas as pressões externas, incapaz de sustentar qualquer posição diante da demanda alheia. Com esse núcleo, o “não” não precisa de justificação excessiva: sustenta-se na solidez do que está sendo protegido.

            Há basicamente duas armadilhas simétricas. A primeira é a da acomodação: incapaz de dizer “não”, a pessoa diz “sim” quando quer dizer “não”, acumula concessões que não consegue honrar ou que honra ao custo de si mesma, e eventualmente explode — num rompimento súbito, numa agressividade desproporcional, ou numa deterioração silenciosa da relação. A segunda é a do ataque: incapaz de formular um “não” que preserve a relação, a pessoa reage ao não solicitado com agressividade, fazendo do conflito um confronto de poder onde o objetivo já não é resolver o problema, mas derrotar o outro. Ambas as armadilhas partilham a mesma raiz: a ausência de um “não” que seja ao mesmo tempo firme e respeitoso, que proteja interesses sem destruir relações.

            A metáfora da "varanda" — um espaço mental de distância e perspectiva que se acessa deliberadamente nos momentos de pressão. Subir à varanda significa recusar a reatividade imediata, criar um intervalo entre o estímulo e a resposta, observar a situação de um ângulo mais amplo antes de agir. Essa metáfora, que reaparece em outras circunstâncias, aqui ganha uma dimensão específica: a varanda é o lugar onde se reconecta com o “sim interno”, onde se lembra do que está sendo protegido, onde se decide como formular o “não” de maneira que ele seja ouvido em vez de meramente resistido. É um espaço de autocomando que impede que as emoções sequestrem o julgamento num momento decisivo.

            A importância dessa capacidade de pausa não deve ser subestimada. Grande parte dos “nãos” que produzem danos desnecessários — tanto para quem diz quanto para quem recebe — são “nãos” ditos em modo reativo, quando a adrenalina do conflito já distorceu a percepção e a comunicação. O “não” gritado numa discussão conjugal, o “não” explosivo num impasse profissional, o “não” disfarçado de sarcasmo ou silêncio punitivo — todos carregam o conteúdo correto, mas a forma errada, e frequentemente a forma destrói o conteúdo. A varanda é a condição de possibilidade de um “não” que chegue ao outro como o que realmente é: uma posição, não um ataque; uma proteção, não uma rejeição.

            A dimensão relacional desse argumento é tão importante quanto a dimensão individual. O “não” positivo não é apenas uma técnica de autoafirmação — é uma prática que tem em conta o impacto no outro e na relação. Isso é o que o distingue de abordagens meramente assertivas que treinam as pessoas a dizer “não” sem se preocupar com as consequências relacionais. Esse artigo está interessado num “não” que preserve — e por vezes fortaleça — a relação ao mesmo tempo em que protege os interesses próprios. Isso exige uma atenção genuína ao outro: entender o que o outro quer, por que quer, quais são os interesses por trás das posições declaradas. Só com essa compreensão é possível formular a segunda parte da estrutura tripartite — o “sim” externo, a alternativa proposta — de maneira que seja relevante e potencialmente aceitável para o outro.

            O “sim” externo, ao final do “não” positivo, é um elemento que frequentemente surpreende porque vai contra o instinto de quem acaba de dizer “não”. A tendência natural, após negar algo, é recuar, encerrar a conversa, deixar que o outro processe a recusa. Esse instinto é contraproducente: é precisamente no momento do “não” que a oferta de uma alternativa tem maior poder de transformar o conflito em colaboração. Ao dizer “não” e imediatamente propor um caminho diferente, quem fala demonstra que o objetivo não é obstruir, mas redirecionar — que há um interesse genuíno em encontrar uma solução que funcione para ambos os lados, dentro dos limites que o “não” estabelece. Isso muda a percepção que o outro tem do “não”: de rejeição passa a ser o início de uma negociação.

            Há diferentes tipos de pressão que se enfrenta ao tentar sustentar um “não”. São três grandes categorias: a pressão do poder (quando o outro usa sua posição, recursos ou ameaças para tentar fazer recuar), a pressão das emoções (quando o outro usa raiva, mágoa, culpa ou outras emoções para tentar neutralizar o “não”) e a pressão das táticas (quando o outro usa manipulação, engano, argumentos de autoridade ou outras estratégias para contornar o “não”). Para cada uma dessas formas de pressão, esse artigo oferece um conjunto de respostas que não requerem nem capitulação nem escalada do conflito. A chave em todos os casos é a mesma: manter o contato com o “sim” interno, permanecer na varanda e encontrar formas de reafirmar o “não” sem transformar a interação em confronto de poder.

            A questão das consequências merece atenção especial. Um mínimo detalhe: o fato de que dizer “não” tem custos — às vezes custos significativos. Relações podem ser tensionadas. Oportunidades podem ser perdidas. Situações de poder podem se tornar mais adversas. Negar essa realidade seria desonesto e tornaria este assunto uma fantasia motivacional sem substrato na experiência real. O “não” não é indolor, mas as consequências de não dizer “não” são, na maioria dos casos, ainda maiores. O custo acumulado da acomodação sistemática — em saúde mental, em integridade pessoal, em qualidade das relações, em eficácia profissional — tende a superar em muito o custo pontual de um “não” dito com clareza e respeito. Essa é uma aposta existencial que cada um precisa fazer por conta própria.

            E aquele que é o receptor do “não”? Essa perspectiva é frequentemente negligenciada em artigos ou livros sobre comunicação assertiva. Receber um “não” de outra pessoa ativa mecanismos defensivos poderosos: a sensação de rejeição, a frustração de não conseguir o que se queria, o impulso de pressionar mais ou de recuar completamente. A capacidade de receber “nãos” com maturidade é tão importante quanto a capacidade de dizê-los — e como as duas capacidades estão interligadas. Quem nunca aprendeu a dizer “não” com clareza frequentemente também não sabe receber “nãos” dos outros: ou capitula imediatamente ao primeiro sinal de resistência alheia, ou reage com hostilidade desproporcionada. A maturidade no dizer e no receber “nãos” são faces de uma mesma moeda.

            É impossível perceber a força do “não” positivo" sem perceber que a negação vai além de uma manual de negociação ou comunicação. No fundo, trata-se de identidade e integridade — sobre o que significa ter um “si mesmo” coerente e sustentável numa vida inevitavelmente atravessada por pressões, demandas e conflitos de interesses. A capacidade de dizer “não”, nessa perspectiva, é um indicador de saúde psicológica e moral: não a capacidade de negar por prazer ou por rigidez, mas a capacidade de proteger o que é genuinamente importante mesmo quando há custo em fazê-lo. Uma pessoa que nunca consegue dizer “não” é uma pessoa sem fronteiras — e sem fronteiras não há um “si mesmo” definido, apenas uma superfície reativa às pressões do ambiente.

            Essa dimensão existencial conecta todo indivíduo a pensadores como Erich Fromm — que analisou a fuga da liberdade como mecanismo de defesa contra a responsabilidade de ser “si mesmo” —, Erik Erikson — que colocou a formação de uma identidade coerente no centro do desenvolvimento psicológico —, e Viktor Frankl — que encontrou na capacidade de dizer “não” nas circunstâncias, mesmo nas mais extremas, a expressão máxima da liberdade humana. Dizer “não”, nessa tradição, não é um ato de egoísmo ou hostilidade: é a afirmação de que existe alguém ali — alguém com valores, compromissos e uma maneira própria de estar no mundo que merece ser preservada.

            O mesmo instrumental que serve a uma negociação comercial serve a uma conversa conjugal difícil, a uma interação com um colega de trabalho, a um confronto com um superior hierárquico, a uma situação política onde um líder precisa sustentar uma posição impopular, a um contexto diplomático onde países em conflito precisam estabelecer limites enquanto mantêm canais de diálogo. O interessante é que os princípios se mantêm reconhecíveis ao longo dessas variações de contexto. O que muda são os interlocutores, as apostas, as pressões específicas — mas a estrutura do “não” positivo permanece aplicável.

            A reabilitação do conflito é como um fenômeno potencialmente produtivo. Há uma tendência cultural — especialmente em ambientes profissionais e em certas tradições familiares — de tratar o conflito como patologia, como sinal de falha relacional ou organizacional que precisa ser suprimido o mais rapidamente possível. Essa supressão do conflito é frequentemente mais destrutiva do que o conflito em si: conflitos não expressos não desaparecem, apenas migram para formas mais oblíquas e danosas de manifestação. O “não” positivo  é uma maneira de trazer o conflito para a superfície de maneira construtiva — de torná-lo explícito sem torná-lo destrutivo, de usá-lo como informação sobre onde os interesses divergem e, portanto, onde um trabalho de negociação genuíno é necessário.

            Há também uma dimensão ética no argumento que merece ser sublinhada. O “não” positivo deve ser dito com respeito pelo outro — não como estratégia de suavização, mas como reconhecimento genuíno da humanidade do interlocutor. Mesmo quando os interesses são radicalmente opostos, mesmo quando o comportamento do outro é difícil ou abusivo, o “não” positivo mantém a dignidade de ambos os lados. Isso não é fraqueza — é a recusa de reduzir a interação a uma batalha de poder onde a única vitória possível é a humilhação do adversário. É perceptível, com base em décadas de exemplos históricos, que acordos duráveis só emergem de processos que preservam a dignidade de todos os envolvidos — e o “não” que preserva dignidade é fundamentalmente diferente do “não” que envergonha, diminui ou ameaça.

            O poder do “não” positivo" é um manifesto pela autenticidade nas relações humanas. Numa cultura que frequentemente recompensa a complacência, que confunde acomodação com generosidade e firmeza com agressividade, faz-se necessária uma inversão de perspectiva: o mais respeitoso que se pode oferecer a outro ser humano, numa negociação, numa relação ou num conflito, é a própria presença real — não a fachada de concordância que esconde divergência, não o “sim” vazio que se dissolve sob pressão, mas o “não” honesto que diz onde realmente se está e que cria, a partir dessa honestidade, a possibilidade de um encontro genuíno. Porque só quando ambos os lados são capazes de dizer “não” é que o “sim” — quando finalmente chega — significa alguma coisa.


 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A INEXISTÊNCIA DA AMIZADE - A EXISTÊNCIA DE INTERESSES

Uma análise científica do vínculo interpessoal

sob a perspectiva da psicologia evolutiva, neurociência e filosofia do sujeito

Por Heitor Jorge Lau

            Prefácio Epistemológico

            Antes de qualquer coisa, é necessário estabelecer o solo sobre o qual este texto pretende caminhar. A palavra "amizade" funciona como aquilo que na Semiótica Peirceana chamamos de símbolo: um signo arbitrário, cuja relação com o referente não é causal nem icônica, mas puramente convencional. Isso significa que, antes mesmo de investigarmos se a amizade existe no plano da realidade, já nos deparamos com uma dificuldade estrutural: estamos perseguindo algo que, no plano da linguagem, já nasce vago. Wittgenstein, nas Investigações Filosóficas, advertia que os limites da nossa linguagem são os limites do nosso mundo. Se o conceito de amizade é impreciso, poroso e culturalmente variável, há uma boa chance de que o que chamamos por esse nome não seja uma coisa, mas muitas coisas — ou talvez nenhuma coisa com substância própria.

            A proposta deste estudo não é nihilista no sentido sentimental do termo. Não se trata de uma proclamação de cinismo barato ou de uma tentativa de destruir experiências que, fenomenologicamente, as pessoas descrevem como reais e significativas. A proposta é cirúrgica: examinar o que de fato ocorre quando dois ou mais seres humanos constroem aquilo que convencionalmente chamam de amizade, e verificar se, retiradas as camadas de romantização cultural, resta algum substrato que justifique o uso de uma categoria tão nobre quanto essa. A conclusão antecipada — e que será sustentada ao longo deste texto por evidências oriundas de múltiplas disciplinas — é que a amizade, como categoria ontológica autônoma, não existe. O que existe são configurações temporárias de interesse mútuo, mediadas por neurobiologia, moldadas por contexto e dissolvidas quando as condições que as sustentavam se alteram.

 

               O QUE A EVOLUÇÃO REALMENTE FEZ COM O SER HUMANO

            Para compreender por que os vínculos humanos são estruturalmente interesseiros, é preciso começar onde tudo começa: na biologia evolutiva. O ser humano é um animal social não porque o amor fraterno foi inscrito em seu DNA por alguma força benevolente, mas porque a sociabilidade, ao longo de milhões de anos, mostrou-se uma estratégia adaptativa superior ao isolamento. Em outras palavras, nossos ancestrais que cooperavam sobreviviam mais, reproduziam-se mais e, consequentemente, transmitiram mais eficientemente seus genes às gerações seguintes. A cooperação, portanto, não é uma virtude moral — é uma ferramenta de sobrevivência que a seleção natural poliu durante eras.

            Richard Dawkins, em O Gene Egoísta, oferece uma das formulações mais provocadoras e rigorosas sobre esse ponto. Para Dawkins, o organismo individual não passa de uma "máquina de sobrevivência" construída pelos genes para perpetuar a si mesmos. Nesse quadro, qualquer comportamento aparentemente altruísta pode ser reinterpretado como altruísmo recíproco — um conceito elaborado por Robert Trivers em 1971 — no qual o indivíduo aparentemente "dá" algo ao outro porque, em algum momento presente ou futuro, espera receber algo equivalente ou superior em troca. Não se trata de um cálculo consciente e maquiavélico. É um mecanismo profundamente inconsciente, gravado na arquitetura neural de qualquer primata social. A formiga que carrega alimento para o formigueiro não age por amizade à colônia — age porque sua biologia a compele a agir assim, e qualquer narrativa que ela construísse sobre "amizade" com suas companheiras seria uma ficção sobreposta a um processo puramente funcional.

            A analogia com o ser humano é mais desconfortável, mas não menos precisa. Quando alguém descreve uma "amizade verdadeira", o que frequentemente está descrevendo é uma relação em que o custo de manutenção do vínculo é compensado pelos benefícios que dele derivam: suporte emocional, acesso a recursos, ampliação de rede social, validação identitária, segurança psicológica. Quando esses benefícios cessam — ou quando os custos superam os retornos — o vínculo se dissolve com uma naturalidade que, em retrospecto, revela sua verdadeira natureza. A amizade, nesse sentido, funciona como um contrato não escrito, sujeito a rescisão tácita quando as cláusulas implícitas deixam de ser cumpridas.

 

            A NEUROCIÊNCIA DO VÍNCULO

            O QUE ACONTECE NO CÉREBRO QUANDO ACREDITAMOS SENTIR AMIZADE POR ALGUÉM

            A neurociência contemporânea, longe de romantizar os vínculos humanos, oferece uma descrição surpreendentemente mecânica do que ocorre quando duas pessoas estabelecem uma relação próxima. O sistema de recompensa cerebral — estruturado em torno do Núcleo Accumbens, da área tegmental ventral e de circuitos dopaminérgicos bem mapeados — responde à presença de indivíduos com os quais temos vínculos da mesma forma que responde a outros estímulos prazerosos: liberando dopamina, oxitocina e serotonina, criando um estado de bem-estar que o organismo passa a buscar repetidamente.

            Aqui reside um ponto crucial: o que chamamos de "gostar de alguém" é, em grande medida, gostar de como aquela pessoa nos faz sentir. A distinção pode parecer sutil, mas é filosoficamente devastadora. Não amamos a pessoa — amamos o estado neuroquímico que a presença daquela pessoa induz em nós. A pessoa, nesse esquema, é um vetor, um instrumento bioquímico que aciona em nós uma resposta que nosso cérebro classifica como positiva. Quando esse vetor deixa de produzir esse efeito — seja porque mudamos, porque ela mudou, porque as circunstâncias se alteraram — o vínculo perde sua razão de ser do ponto de vista neurobiológico.

            Helen Fisher, neurocientista que dedicou décadas ao estudo do apego humano, demonstrou em pesquisas com neuroimagem funcional que os padrões de ativação cerebral associados à amizade intensa são notavelmente similares aos padrões de dependência química. O cérebro de alguém que perdeu um amigo próximo ativa regiões associadas à síndrome de abstinência. Isso não eleva o vínculo a uma categoria transcendente — ao contrário, confirma que estamos lidando com um fenômeno biológico de dependência mútua temporária, cuja dissolução produz sintomas de privação. Uma pessoa que rompe uma amizade não está perdendo uma verdade metafísica — está passando por um processo de desintoxicação neurobiológica.

            Ainda nesse plano, vale observar o papel da oxitocina, frequentemente chamada de "hormônio do amor" pela mídia popular, mas que a literatura científica descreve com muito mais ambiguidade. Pesquisas conduzidas por Carsten de Dreu e colaboradores demonstraram que a oxitocina não promove amizade universal — ela promove amizade paroquial. Ela aumenta a coesão dentro do grupo ao mesmo tempo em que intensifica a desconfiança e até a agressividade em relação a quem está fora do grupo. Em outras palavras, o mesmo mecanismo que nos faz sentir próximos de alguns é o que nos distancia de outros. A amizade, nesse sentido biológico, é inseparável da exclusão — e ambas servem ao mesmo propósito evolutivo de demarcar aliados e adversários.

 

            A PSICOLOGIA SOCIAL E A CIRCUNSTANCIALIDADE DOS VÍNCULOS

            A psicologia social acumulou, ao longo do século XX e início do XXI, um conjunto robusto de evidências que corroboram a tese da circunstancialidade dos vínculos. Um dos fenômenos mais estudados nesse campo é o chamado Efeito de Mera Exposição, descrito por Robert Zajonc nos anos 1960: tendemos a gostar mais de estímulos — incluindo pessoas — simplesmente porque os encontramos com mais frequência. Não há nada de sublime nesse processo. É um viés cognitivo. A amizade nasce, com muita frequência, da proximidade física — colegas de trabalho, vizinhos, companheiros de escola — e não de alguma afinidade essencial e profunda entre duas almas. Quando a proximidade cessa, o vínculo tende a enfraquecer com uma regularidade que as ciências sociais documentaram exaustivamente.

            Leon Festinger, Stanley Schachter e Kurt Back, em seu clássico estudo sobre os conjuntos habitacionais do MIT na década de 1950, demonstraram que a formação de amizades entre estudantes era prevista, com notável precisão, pela distância física entre os apartamentos. Não pela compatibilidade de personalidade, não por valores compartilhados, não por experiências comuns — pela distância em metros entre as portas. Isso é particularmente revelador porque sugere que a maioria das amizades que as pessoas consideram significativas poderia simplesmente não ter existido se as coordenadas geográficas tivessem sido outras. A amizade, portanto, é em grande parte um acidente topográfico.

            Soma-se a isso o fenômeno descrito por Mark Granovetter em sua influente pesquisa sobre a força dos laços fracos: em termos de utilidade social concreta — como encontrar empregos, acessar informações, construir trajetórias — os laços fracos (conhecidos superficiais) frequentemente superam os laços fortes (amizades profundas) em termos de impacto real na vida das pessoas. Isso subverte a narrativa popular de que a amizade profunda é o tipo mais valioso de conexão humana. Do ponto de vista funcional, o que as pessoas chamam de amizade íntima pode ser, paradoxalmente, menos útil do que uma rede ampla de relações instrumentais moderadas.

            A teoria da troca social, formulada por George Homans e posteriormente desenvolvida por Peter Blau, oferece um modelo ainda mais diretamente relacionado à essa tese. Segundo essa teoria, as relações interpessoais são fundamentalmente transacionais: as pessoas avaliam, consciente ou inconscientemente, os custos e benefícios de manter cada relação, e tendem a preservar aquelas cujo saldo é positivo e a abandonar aquelas cujo saldo se torna negativo. A amizade, nesse modelo, não é diferente de qualquer outra forma de troca econômica — apenas utiliza uma moeda mais difusa e socialmente aceitável: atenção, afeto, tempo, apoio.

 

            A FILOSOFIA DO SUJEITO E A IMPOSSIBILIDADE DO OUTRO

            Mas há ainda um nível mais profundo de análise, que transcende as ciências empíricas e adentra o território da filosofia. Jean-Paul Sartre, em O Ser e o Nada, argumentou que a relação entre dois sujeitos é estruturalmente conflituosa: ao olhar o outro, objetifico-o; ao ser olhado pelo outro, sou objetificado. Cada sujeito ameaça a liberdade do outro simplesmente por existir como consciência. Nesse quadro, qualquer tentativa de fusão genuína entre duas subjetividades — que é o que a amizade profunda pretende ser — está condenada ao fracasso ontológico. Não é possível verdadeiramente conhecer o outro; o que conhecemos é sempre uma representação, uma projeção, uma construção que realizamos a partir de dados incompletos e filtrados pela nossa própria subjetividade.

            Emmanuel Levinas tentou escapar dessa aporia sartreana ao postular a radical alteridade do Outro — o rosto do outro como apelo ético irredutível. Mas mesmo a filosofia levinasiana, ao insistir na absoluta diferença do outro, inadvertidamente confirma essa tese: se o outro é radicalmente outro, então a comunhão que a amizade supõe — um encontro genuíno entre dois eus — é uma ilusão. O que existe é um eu confrontado pela presença opaca de uma alteridade que nunca pode ser plenamente compreendida.

            Jacques Lacan, por sua vez, ao deslocar o sujeito do centro da consciência e situá-lo no campo da linguagem e do desejo, fornece ferramentas para entender por que as relações humanas são estruturalmente insatisfatórias. Para Lacan, o desejo é sempre desejo do desejo do Outro — ou seja, o que buscamos nas relações não é o outro em si, mas o reconhecimento que o outro nos confere. A amizade, nesse esquema, é uma busca de espelhamento, validação, confirmação da própria existência e valor. Não amamos o amigo — precisamos que ele nos ame para sustentar nossa própria ficção identitária. Quando ele deixa de desempenhar essa função especular, a "amizade" perde sua razão de ser.

 

            A DISSOLUÇÃO DOS VÍNCULOS COMO EVIDÊNCIA DA SUA NATUREZA

            Se existe uma prova empírica da tese da inexistência da amizade como categoria autônoma e transcendente, ela está na frequência e na naturalidade com que os vínculos se dissolvem quando as circunstâncias que os sustentavam se alteram. Estudos longitudinais sobre redes sociais — como os conduzidos por Gerald Mollenhorst e colaboradores na Universidade de Utrecht, acompanhando redes de amizade ao longo de sete anos — demonstraram que aproximadamente metade das pessoas que os indivíduos consideram "amigos próximos" em determinado momento deixam de fazer parte ativa de suas vidas sete anos depois. Não por conflito, não por traição, não por qualquer ruptura dramática — simplesmente porque as circunstâncias mudaram, os contextos se alteraram, e o custo de manutenção do vínculo superou os benefícios percebidos.

            Isso é perfeitamente consistente com a tese que estou desenvolvendo. Se a amizade fosse uma realidade ontológica robusta — algo com substância própria, independente das circunstâncias — ela resistiria às mudanças contextuais com muito mais firmeza do que os dados demonstram. O que os dados mostram é que a amizade é extraordinariamente sensível ao contexto, à proximidade, à utilidade mútua e ao custo de manutenção. Ela se comporta, em suma, exatamente como um interesse circunstancial se comportaria — e não como uma verdade perene se comportaria.

            A analogia com o clima é pertinente: podemos chamar de "bom tempo" a combinação de fatores atmosféricos que produz céu claro, temperatura agradável e ausência de vento. Mas "bom tempo" não é uma coisa — é uma configuração temporária de variáveis físicas que, assim que se alteram, dissolvem aquilo que chamávamos por esse nome. Da mesma forma, "amizade" não é uma coisa — é uma configuração temporária de variáveis psicossociais, neurobiológicas e circunstanciais que, ao se dissolverem, revelam que nunca houve ali nada além de uma convergência momentânea de interesses e condições.

 

             A FUNÇÃO CULTURAL DO MITO DA AMIZADE

            Se a amizade não existe como substância autônoma, por que o mito de sua existência é tão universal e tão persistente? Aqui a antropologia e a sociologia oferecem respostas complementares. Émile Durkheim argumentou que as sociedades necessitam de narrativas de coesão — representações coletivas que criem senso de pertencimento e solidariedade entre indivíduos que, de outro modo, seriam movidos apenas por interesses particulares fragmentadores. A amizade, como narrativa cultural, cumpre essa função: ela romantiza e nobilita o que é, em sua estrutura profunda, uma rede de reciprocidades interesseiras, tornando-a socialmente sustentável e moralmente palatável.

            Uma sociedade que reconhecesse abertamente que todas as relações são transacionais e circunstanciais provavelmente sofreria de uma erosão na coesão social que lhe seria prejudicial. O mito da amizade — como o mito do altruísmo puro — é uma narrativa funcional que lubrifica as engrenagens da cooperação social ao revestir de significado transcendente o que é, em sua raiz, um mecanismo adaptativo de reciprocidade. Acreditamos na amizade porque a crença na amizade nos torna cooperativos, e a cooperação nos torna mais bem-sucedidos como espécie. É uma ilusão funcional — o que os filósofos, seguindo Nietzsche e Vaihinger, chamam de ficção útil.

 

            O QUE RESTA QUANDO RETIRAMOS A FICÇÃO

            Ao final deste percurso dentre a biologia evolutiva, neurociência, psicologia social e filosofia do sujeito, o que resta quando retiramos a ficção culturalmente construída chamada "amizade"? Restam seres humanos fundamentalmente solitários, movidos por necessidades biológicas e psicológicas que os impelem a buscar nos outros o que não conseguem encontrar em si mesmos. Restam vínculos que nascem da proximidade, são sustentados pela utilidade mútua, e se dissolvem quando as condições que os geraram se alteram. Resta a evidência de que o que chamamos de amizade é, em sua estrutura mais honesta, um sistema de trocas recíprocas temporárias — sofisticado, matizado, frequentemente inconsciente, mas transacional em sua essência.

            Isso não é necessariamente uma tragédia. Reconhecer a natureza real dos vínculos humanos pode ser o primeiro passo para habitá-los com mais lucidez e menos decepção. A ilusão da amizade eterna e incondicional gera expectativas que, inevitavelmente, colidem com a realidade da sua contingência. Compreender que o outro está conosco enquanto as condições assim o permitirem — e que nós estamos com o outro pela mesma razão — não destrói o valor da experiência compartilhada. Apenas a reposiciona: do plano do eterno para o plano do presente. Do mito para o fato. Da ficção útil para a realidade navegável. A amizade, como tantas outras palavras que a sociedade usa para descrever o inefável da experiência humana, é um símbolo que aponta para algo que nunca conseguimos plenamente capturar. E talvez seja precisamente porque não existe — não como substância, não como verdade permanente, não como essência — que continuamos, obstinadamente, a buscá-la.