quinta-feira, 8 de outubro de 2026

QUANTA INFORMAÇÃO A MENTE CONSEGUE ARMAZENAR?

"O SENHOR ACHA QUE SABE TUDO?"

A RESPOSTA HONESTA É: QUASE NADA

por Heitor Jorge Lau

            Numa certa noite, durante uma palestra que eu ministrava para acadêmicos de um curso superior, uma aluna me interrompeu com uma pergunta em tom provocativo. Ela claramente não estava gostando da minha fala. Perguntou: "O senhor acha que sabe tudo?" Respondi: "Eu praticamente sei quase nada."

            Pode parecer modéstia, ou até uma resposta para encerrar a discussão. Não era! Era uma constatação, e hoje a ciência ajuda a mostrar o quanto ela é verdadeira, para mim, para você e para qualquer ser humano que já passou por este planeta.

            Para entender o tamanho dessa conta, precisamos de uma régua. Os computadores medem informação em bytes, e dá para imaginar essas medidas como uma grande biblioteca. Um byte é uma única letra de um texto. Mil letras, mais ou menos uma página, formam um kilobyte. Mil páginas, o equivalente a um livro inteiro, formam um megabyte. Mil livros, o acervo de uma boa biblioteca de escola, formam um gigabyte. Mil gigabytes, ou um milhão de livros, formam um terabyte, o tamanho de uma grande biblioteca pública. E mil dessas grandes bibliotecas formam um petabyte.

            Agora vem o salto. Mil petabytes formam um exabyte, e mil exabytes formam um zettabyte. Ou seja, um zettabyte equivale a um milhão de petabytes, algo como um bilhão de grandes bibliotecas. É uma quantidade tão grande que o nosso cérebro, acostumado a contar o que cabe numa mesa ou numa estante, simplesmente não consegue imaginar.

            Agora, os números. Os pesquisadores ainda discutem quanto o cérebro humano consegue armazenar. Algumas estimativas falam em capacidade teórica de 1 a 2,5 petabytes: seria como carregar dentro da cabeça mil ou duas mil e quinhentas dessas bibliotecas gigantes. Já estudos de psicologia que medem o que uma pessoa realmente retém ao longo da vida chegam a valores muito menores, algo como a informação de algumas centenas de livros. A diferença está entre o que o cérebro poderia guardar e o que ele de fato guarda.

            Agora olhe para o outro lado da balança. A humanidade já produziu algumas centenas de zettabytes de dados, e a conta cresce a cada dia. Em bibliotecas, seriam centenas de bilhões. Mesmo na hipótese mais generosa, aquela em que o cérebro estivesse completamente cheio, tudo o que um ser humano consegue saber representa cerca de 0,0000005% de tudo o que existe, ou menos. É como levar algumas gotas d'água até uma piscina enorme e dizer que conhece a piscina.

            E tem mais um detalhe: nem tudo o que guardamos está guardado direito. A memória não funciona como um arquivo de computador. Ela é reconstruída a cada vez que a acessamos, e por isso muda, se mistura e, às vezes, falha. Guardamos o que tem emoção, repetição ou utilidade, e o resto se perde pelo caminho. Esquecer, afinal, faz parte do funcionamento normal do cérebro.

            Isso me faz lembrar de uma frase atribuída a Sócrates: "Só sei que nada sei." Ele não estava dizendo que era ignorante. Estava dizendo que quem enxerga o tamanho do que não sabe fica livre para continuar aprendendo. Quem acha que já sabe tudo para de perguntar, e quem para de perguntar para de crescer (para não dizer outra coisa).

            Talvez seja por isso que o conhecimento de verdade não se mede em quantidade. O que faz diferença é a qualidade das conexões que fazemos entre as poucas coisas que sabemos: a capacidade de comparar, duvidar, ligar um assunto a outro e mudar de ideia quando aparecem bons argumentos. É daí que nascem a compreensão, o bom senso e a criatividade. Saber muito importa menos do que saber o que fazer com o que se sabe.

            Aquela aluna me fez uma pergunta provocativa, e eu agradeço a ela até hoje, porque me obrigou a dizer em voz alta algo que todos nós deveríamos lembrar com mais frequência: diante do tamanho do mundo, somos eternos aprendizes, e não há vergonha nenhuma nisso.

            E você, quanto acha que sabe?

 

HIPERTIMESIA - O DRAMA DE QUEM NÃO CONSEGUE ESQUECER

LEMBRAR DE TUDO: DOM OU MALDIÇÃO?

O DRAMA DE QUEM NÃO CONSEGUE ESQUECER

Por Heitor Jorge Lau

            Imagine acordar e saber, sem esforço, o que você almoçou em 14 de março de 2009, como estava o clima naquele dia, qual música tocava no rádio e o que você sentiu durante a tarde. Para a maioria de nós, isso soa como superpoder. Para quem vive com HIPERTIMESIA, é só o funcionamento normal da própria cabeça.

            O termo surgiu em 2006, quando pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Irvine, estudaram o caso de uma mulher que se tornou conhecida como Jill Price. Ela procurou os cientistas porque se lembrava de praticamente todos os dias da vida adulta, e essa lembrança vinha em forma de cena, como um filme que nunca para de rodar ao fundo. Daí o nome, que une o prefixo grego que indica excesso à palavra que significa "lembrar". Anos depois, a ciência passou a chamar o fenômeno também de Memória Autobiográfica Altamente Superior. É uma condição rara, com poucas dezenas de casos confirmados no mundo, entre eles o da atriz norte-americana Marilu Henner.

            Aqui vale desfazer um mal-entendido comum. Hipertimesia não é memória fotográfica. Essas pessoas não decoram uma lista de compras, um número de telefone ou um capítulo de livro com mais facilidade que ninguém. Em testes de laboratório com listas de palavras, por exemplo, costumam ir tão bem quanto qualquer pessoa. O que elas têm de extraordinário é a memória da própria vida: datas, lugares, conversas, acontecimentos e, principalmente, a sensação de ter estado ali. Se você perguntar o que aconteceu em uma data qualquer de anos atrás, a resposta vem quase instantânea e com uma riqueza de detalhes que parece inventada.

            Os estudos de imagem cerebral mostram diferenças em regiões ligadas à memória e à organização das lembranças, além de uma comunicação mais intensa entre elas. Mas ninguém sabe ao certo por que isso acontece. Alguns pesquisadores observam que muitas dessas pessoas têm o hábito de revisitar o próprio passado o tempo todo, e isso levanta uma pergunta curiosa: elas lembram mais porque o cérebro é diferente, ou o cérebro é diferente porque elas lembram o tempo todo? A resposta ainda está em aberto.

            Então, o que há de bom nisso? Muita coisa, para começar pelo lado humano. Quem tem Hipertimesia carrega uma biografia viva. Os momentos felizes, como um aniversário, uma viagem, o rosto de alguém querido, podem ser revividos com uma nitidez que a maioria de nós só encontra em fotografias desbotadas. Nomes, datas e conversas importantes dificilmente se perdem, e isso cria uma sensação rara de continuidade: a vida inteira ao alcance, sem lacunas. Para a ciência, esses casos são um tesouro. Entender como alguns cérebros guardam o passado com tanta precisão pode ajudar a compreender melhor a memória humana e, quem sabe, abrir caminhos para pesquisas sobre doenças como o Alzheimer, em que justamente a memória se desfaz.

            Só que a mesma moeda tem outro lado, e é ele que costuma pesar mais. Quem lembra de tudo lembra de tudo, inclusive do que gostaria de esquecer. Os vexames, as perdas, as despedidas, as palavras duras ditas ou ouvidas ficam guardados com a mesma clareza das alegrias. Os relatos dessas pessoas apontam uma dificuldade real de virar a página, porque o passado não esmaece com o tempo: ele volta como se fosse hoje. As lembranças surgem sozinhas, sem convite, e o cansaço mental pode ser grande. Pessoas com essa condição contam que a memória é, ao mesmo tempo, o maior tesouro e o maior fardo que carregam.

            E há um detalhe que desmonta a ideia de infalibilidade: a memória delas também pode errar. Pesquisas indicam que pessoas com Hipertimesia continuam suscetíveis a falsas memórias, assim como todos nós. Lembrar com muita convicção e muita riqueza de detalhes não significa lembrar de forma correta. A lembrança continua sendo uma reconstrução do cérebro, e não um arquivo de vídeo guardado intacto.

            Essa história lembra um conto famoso do escritor argentino Jorge Luis Borges, “Funes, o Memorioso”, sobre um homem que, depois de um acidente, passa a lembrar absolutamente tudo. Funes recorda cada folha de cada árvore, cada nuvem em cada instante, e justamente por isso não consegue pensar. Pensar, dizia Borges, é esquecer diferenças, generalizar, abstrair... Sem esquecer, não há ideias, só lembranças soltas, infinitas e esmagadoras. A ficção exagera, claro, mas a intuição é poderosa.

            No fundo, a Hipertimesia nos obriga a rever o que pensamos sobre o esquecimento. Costumamos tratá-lo como falha, como o defeito do cérebro que nos faz perder a chave ou o nome daquela pessoa. Mas o esquecimento também é uma função. É ele que suaviza a dor, que nos permite perdoar, que dá espaço ao novo e que transforma o que vivemos em aprendizado, em vez de arquivo morto. Esquecer é, em muitos sentidos, uma forma de cuidar de si. Enfim... a pergunta mais importante na vida pode não ser: "como lembrar mais?", mas "o que vale a pena guardar?".

            E você? Se pudesse escolher, trocaria a sua memória pela de quem não esquece nada, ou agradeceria por poder esquecer?

 

 

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

ATINGIR A META NÃO É PRODUZIR RESULTADO

ATINGIR A META NÃO É PRODUZIR RESULTADO

por Heitor Jorge Lau

            Há uma ideia bastante difundida no mundo corporativo de que toda organização precisa estabelecer metas para que seus profissionais saibam exatamente o que se espera deles. A afirmação parece tão lógica que raramente alguém se dispõe a questioná-la. Afinal, como administrar uma empresa sem objetivos, sem indicadores e sem saber onde se pretende chegar? O problema começa quando confundimos a necessidade de uma organização possuir uma direção com a necessidade de transformar cada trabalhador em responsável por atingir números individualizados. Uma empresa precisa saber para onde está indo. Outra coisa, completamente diferente, é fazer com que cada pessoa passe a enxergar o próprio trabalho como uma corrida permanente contra um indicador.

            Durante minha experiência profissional, presenciei situações que demonstram como esse mecanismo pode produzir resultados completamente diferentes daqueles imaginados por quem criou a meta. Trabalhadores inventando vendas para alcançar determinado número, gerentes de conta solicitando a contratação de seguros que seriam cancelados poucos dias depois, vendedores combinando com clientes a aquisição de quantidades de produtos no último dia do período de apuração, sabendo que os pedidos seriam cancelados no dia seguinte. Na aparência, os indicadores apresentavam um excelente resultado. No mundo real, porém, parte daquele resultado simplesmente não existia.

            É importante perceber que o problema não está necessariamente no trabalhador. Quando uma organização estabelece que determinada remuneração, reconhecimento ou permanência está condicionada ao atingimento de um número, ela cria um poderoso incentivo para que o profissional concentre sua inteligência na obtenção daquele número. Se o sistema permite que uma venda fictícia, uma contratação temporária ou um pedido que será posteriormente cancelado produza o mesmo efeito, para fins de avaliação, que uma venda verdadeira, sustentável e economicamente saudável, o próprio sistema está ensinando as pessoas a procurarem o caminho mais conveniente para alcançar a recompensa.

            Nesse momento acontece uma inversão silenciosa. A empresa imaginava que estava utilizando a meta para estimular resultados, mas a meta começa a determinar o comportamento. O trabalhador deixa de perguntar qual é a melhor maneira de atender o cliente, ampliar o mercado ou contribuir para o crescimento da organização. A pergunta passa a ser outra: o que preciso fazer para chegar ao número antes do fechamento do período? E quando essa segunda pergunta se torna mais importante do que a primeira, a criatividade deixa de trabalhar a favor da organização e passa a trabalhar a favor do indicador.

            Existe uma diferença enorme entre perseguir um objetivo empresarial e perseguir uma meta individual. O primeiro pressupõe um projeto coletivo. A empresa estabelece onde deseja chegar e reúne pessoas, competências, conhecimentos e esforços diferentes para alcançar esse destino. O segundo pode transformar colegas em concorrentes, estimular a retenção de informações, provocar ansiedade e fazer com que profissionais passem a administrar a própria imagem de desempenho em vez de administrar o resultado real do trabalho. A organização pretende obter cooperação, mas cria mecanismos que incentivam competição permanente.

            O problema se torna ainda mais grave quando o indicador escolhido é considerado uma representação perfeita da realidade. Uma venda registrada no sistema é tratada como resultado, mesmo quando o produto retorna. Um contrato assinado é contabilizado como negócio, mesmo quando será cancelado. Uma determinada quantidade comercializada aparece como crescimento, mesmo quando foi adquirida apenas para permitir que alguém alcance uma bonificação. O sistema registra o acontecimento, o relatório apresenta o número e todos podem comemorar. Só depois aparece a realidade que o indicador não conseguiu enxergar.

            Há ainda uma ilusão gerencial particularmente perigosa: acreditar que o atingimento de uma meta permite determinar quem é um profissional “bom” e quem é um profissional “ruim”. O número passa a funcionar como uma espécie de termômetro da competência humana. Quem supera a meta é considerado competente, comprometido e produtivo; quem não alcança o número é rapidamente classificado como alguém que precisa melhorar (ou ser demitido). O problema é que esse raciocínio confunde desempenho mensurado com competência real. Uma pessoa pode atingir sistematicamente suas metas porque trabalha em uma carteira de clientes favorável, dispõe de melhores condições, recebe oportunidades que outros não recebem ou simplesmente aprendeu a explorar as regras do sistema. Da mesma forma, um profissional altamente competente pode apresentar resultados inferiores em determinado período por atuar em condições mais difíceis, desenvolver atividades cujo valor não aparece imediatamente nos indicadores ou dedicar seu tempo a problemas que não cabem na planilha de avaliação.

            Transformar a meta em instrumento de medição da competência revela, em muitos casos, mais sobre a pobreza dos mecanismos de avaliação da empresa do que sobre a capacidade do trabalhador. Quando uma organização precisa de um único número para decidir quem é bom ou ruim, produtivo ou improdutivo, competente ou incompetente, ela pode estar apenas confessando que não desenvolveu instrumentos suficientemente inteligentes para compreender o trabalho humano. É mais fácil medir uma venda do que compreender a qualidade da relação construída com o cliente; mais fácil contar contratos do que avaliar a capacidade de resolver problemas; mais fácil comparar números do que compreender contextos. A simplicidade do indicador cria a ilusão de precisão.

            No fundo, transformar metas individuais em termômetro de competência pode representar uma forma de ineficácia gerencial. Em vez de compreender as diferentes circunstâncias nas quais as pessoas trabalham, a organização escolhe um número, coloca todos diante dele e chama isso de avaliação de desempenho. Depois se surpreende quando os profissionais aprendem a trabalhar para o número.

            Há situações ainda mais perversas nessa lógica. Em determinada empresa, o profissional realizava a venda, atingia a meta e, mesmo assim, não recebia imediatamente a comissão correspondente. O pagamento somente era liberado depois que a empresa tivesse certeza de que o cliente havia quitado a dívida, o que poderia ocorrer 30, 60 ou 90 dias após. Na prática, o trabalhador realizava a venda, cumpria aquilo que a organização havia estabelecido como objetivo e ainda permanecia responsável pelo risco financeiro da operação. A empresa transferia para o funcionário uma parcela de um risco que pertencia à própria atividade empresarial. A meta era individual, a cobrança era individual, a responsabilidade era individual, mas o risco era da empresa — até o momento em que a empresa decidiu dividi-lo com o trabalhador. E pior: a empresa ainda ovacionou o “cara” que criou essa barbaridade.

            É justamente aí que precisamos discutir uma das maiores ilusões da administração contemporânea: acreditar que aquilo que pode ser medido necessariamente representa aquilo que possui valor. Nem sempre representa. Existem resultados que podem ser expressos em números com enorme facilidade e outros que são fundamentais para uma organização, mas resistem à simplificação matemática. Confiança do cliente, conhecimento acumulado, qualidade do relacionamento, capacidade de solucionar problemas, cooperação entre profissionais, criatividade, reputação e aprendizado organizacional dificilmente cabem em uma planilha com a mesma precisão de uma quantidade vendida.

            Quando a remuneração passa a depender excessivamente de indicadores individuais, o profissional também aprende uma lição bastante objetiva sobre o funcionamento da empresa: aquilo que não entra na avaliação possui menor importância. E as pessoas são extremamente capazes de compreender rapidamente quais comportamentos são realmente recompensados, independentemente daquilo que aparece nos discursos institucionais. A empresa pode falar em qualidade, ética, relacionamento e sustentabilidade, mas, se o reconhecimento financeiro depende exclusivamente de determinado número, será esse número que ocupará o centro da atenção.

            Isso explica por que algumas metas aparentemente bem-intencionadas produzem comportamentos que seus próprios gestores considerariam inadequados. Não é necessário imaginar trabalhadores desonestos ou descomprometidos. Basta compreender que pessoas respondem aos incentivos existentes no ambiente em que trabalham. Se o sistema recompensa o número e não verifica adequadamente a qualidade do resultado que produziu esse número, algumas pessoas encontrarão maneiras de alcançar o indicador. E, quanto mais rígida for a cobrança, maior será a pressão para encontrar essas maneiras.

            Existe, portanto, uma pergunta que todo gestor deveria fazer antes de estabelecer uma meta individual: “Que comportamento estou incentivando ao criar esta regra?”. A pergunta é muito mais importante do que simplesmente perguntar quanto cada profissional deverá vender, produzir ou entregar. Porque uma meta não determina apenas um resultado esperado. Ela também pode determinar comportamentos. E, quando esses comportamentos são inadequados, a empresa acaba pagando duas vezes: primeiro para incentivar o resultado artificial e depois para corrigir os problemas provocados por ele.

            Isso não significa abandonar indicadores, planejamento ou objetivos. Uma organização sem direção também produz desperdício. O ponto está em compreender que metas devem servir à estratégia, e não substituir a estratégia. A empresa precisa saber onde quer chegar, quais resultados pretende construir e como avaliar sua evolução. Mas isso não exige necessariamente transformar cada trabalhador em uma unidade isolada de produção, permanentemente comparada com os demais.

            Talvez a melhor pergunta não seja “quanto cada funcionário precisa entregar?”, mas “como podemos fazer com que diferentes pessoas contribuam para que a organização alcance aquilo que realmente importa?”. A diferença parece pequena, mas muda completamente a lógica da gestão. Na primeira pergunta, o indivíduo está diante de um número. Na segunda, está diante de um propósito coletivo. Quando o indicador se torna o objetivo, o sistema começa a produzir pessoas especialistas em atingir indicadores. Quando o objetivo permanece maior que o indicador, o número volta a ocupar o lugar que deveria ter: o de instrumento de acompanhamento.

            Uma organização inteligente não deveria comemorar apenas porque uma meta foi atingida. Deveria perguntar o que aquele número representa quando retiramos dele os pedidos cancelados, as vendas artificiais, os contratos que não permaneceram, os comportamentos estimulados apenas pela bonificação e tudo aquilo que existiu no relatório, mas não existiu verdadeiramente no resultado. Porque existe uma diferença fundamental entre alcançar uma meta e produzir um resultado. E uma empresa que não consegue distinguir as duas coisas corre o risco de transformar seus melhores profissionais em excelentes fabricantes de números.

 

terça-feira, 6 de outubro de 2026

QUANDO O VOTO DEIXA DE SER UMA ESCOLHA

QUANDO O VOTO DEIXA DE SER UMA ESCOLHA

Estamos elegendo um presidente

ou apenas elegendo quem queremos que o outro lado não seja?

por Heitor Jorge Lau

            A atual conjuntura política brasileira produz uma situação que merece mais reflexão do que paixão. De um lado, temos dois candidatos que concentram enorme parcela das atenções e carregam, cada um à sua maneira, problemas, controvérsias e questionamentos que deveriam ser considerados seriamente por qualquer eleitor. De outro, existem candidatos que, embora disponham de menor força eleitoral, poderiam merecer uma análise mais cuidadosa, inclusive como alternativas capazes de romper a lógica de uma disputa transformada em confronto permanente entre dois grupos. Há ainda outros nomes, mas com limitações evidentes quando se considera a capacidade de governança de um país das dimensões e da complexidade do Brasil.

            O mais curioso é que uma parcela enorme da população declara não gostar de nenhum dos dois candidatos principais e, ainda assim, acaba escolhendo um deles. E aqui aparece uma pergunta incômoda: essa pessoa está realmente votando naquele candidato ou está simplesmente votando contra o outro? Existe uma diferença enorme entre escolher alguém por acreditar que seja a melhor alternativa e escolhê-lo porque sua principal virtude, aos olhos do eleitor, é impedir que o adversário chegue ao poder. No primeiro caso, existe uma escolha. No segundo, existe uma rejeição transformada em voto.

            Esse fenômeno produz uma das situações mais estranhas da política contemporânea brasileira: pessoas que não defendem propriamente o candidato em quem votam, mas que estão dispostas a fazer qualquer coisa para impedir a vitória daquele que consideram intolerável. O voto deixa de representar uma aprovação e passa a representar uma barreira. Não se vota necessariamente em alguém... vota-se contra alguém. E, quando isso acontece em grande escala, a eleição deixa de ser uma comparação entre projetos e passa a funcionar como um mecanismo de sobrevivência política de dois grupos que precisam manter o outro permanentemente sob ameaça.

            Há ainda uma questão mais delicada. Quando existem questionamentos sérios, fatos controversos ou episódios que colocam em dúvida a conduta de um candidato, por que isso deixa de ser suficiente para que seu eleitor reavalie a escolha? Não estou afirmando aqui que toda acusação corresponde a culpa, nem que qualquer candidato submetido a controvérsia deva ser automaticamente considerado inapto. A questão é outra: por que determinados eleitores abandonam completamente a disposição de examinar criticamente aquilo que existe contra o candidato que escolheram?

            E surge então a pergunta que considero mais perturbadora: se existem outras opções, inclusive algumas que não carregam o mesmo conjunto de controvérsias, por que elas são frequentemente descartadas antes mesmo de serem examinadas? Por que o eleitor aceita a ideia de que precisa escolher obrigatoriamente entre dois nomes, como se qualquer terceira possibilidade fosse uma espécie de desperdício de voto? Será que o voto útil se transformou em uma prisão mental na qual o eleitor passa a considerar impossível qualquer alternativa que não pertença aos dois polos dominantes?

            É nesse ponto que a palavra fundamentalismo começa a fazer sentido. Não necessariamente fundamentalismo religioso, mas fundamentalismo político. O fundamentalista não precisa conhecer profundamente aquilo que defende, precisa apenas acreditar que aquilo que defende não pode ser questionado. Os fatos deixam de funcionar como elementos para reflexão e passam a ser classificados conforme favoreçam ou prejudiquem o lado escolhido. O mesmo acontecimento pode ser considerado gravíssimo quando envolve o adversário e irrelevante quando envolve o próprio candidato.

            Nesse ambiente, o eleitor não pergunta mais “isso é verdadeiro?”. Pergunta “isso prejudica o meu lado?”. Não pergunta “esse candidato está preparado para governar?”. Pergunta “quem ele vai derrotar?”. Não pergunta “eu realmente confio nessa pessoa?”. Pergunta “quem seria pior?”. E essa última pergunta, quando se transforma no único critério de escolha, produz uma consequência perigosa: o eleitor passa a aceitar quase qualquer coisa do seu candidato desde que o adversário seja considerado pior.

            É assim que a política pode se transformar em uma disputa de torcidas. O candidato deixa de ser avaliado pelo que faz e passa a ser protegido pelo que representa. Seus erros são relativizados, suas contradições são justificadas e suas controvérsias são imediatamente comparadas às do adversário. A pergunta deixa de ser “ele merece meu voto?” e passa a ser “o outro merece menos?”. Parece uma diferença pequena, mas não é. Uma pergunta procura escolher um governante, a outra procura derrotar um inimigo.

            O problema é que um país não é governado pela simples derrota do adversário. O Brasil precisa de alguém capaz de administrar uma máquina pública gigantesca, respeitar instituições, tomar decisões difíceis, enfrentar problemas econômicos e sociais, negociar com o Congresso, preservar direitos, lidar com conflitos e, sobretudo, compreender que o cargo de presidente não pertence a uma torcida. Pertence ao país.

            Por isso, considero saudável recuperar uma pergunta que parece ter desaparecido do debate eleitoral: se nenhum dos dois candidatos principais merece nossa confiança integral, por que somos obrigados a escolher entre eles como se fossem as únicas possibilidades existentes? E, se existem outras alternativas que apresentam condições razoáveis de governabilidade, por que não as examinar com a mesma seriedade?

            Uma democracia madura não deveria produzir eleitores que defendem cegamente seus candidatos. Deveria produzir cidadãos capazes de abandonar uma preferência quando os fatos demonstram que ela deixou de ser justificável. O voto não deveria ser um ato de fidelidade. Deveria ser um ato de julgamento. Assim, o maior problema da política brasileira não esteja apenas nos candidatos. Ele também está na incapacidade de uma parte do eleitorado de admitir que o próprio candidato pode estar errado. Quando isso acontece, a política deixa de ser uma escolha racional entre possibilidades e começa a adquirir características de fundamentalismo: nada que venha do outro lado merece consideração e nada que venha do próprio lado merece condenação.

            Um país governado por esse tipo de lógica corre o risco de passar anos escolhendo não o melhor, mas simplesmente aquele que consegue derrotar o pior (e já faz algum tempo que é assim). Essa é uma escolha? Ou é apenas uma forma sofisticada de fundamentalismo político?

domingo, 4 de outubro de 2026

TODA VEZ QUE APRENDEMOS ALGUMA COISA, ALGUMA COISA EM NÓS PRECISA DEIXAR DE SER EXATAMENTE COMO ERA.

TODA VEZ QUE APRENDEMOS ALGUMA COISA,

ALGUMA COISA EM NÓS PRECISA DEIXAR DE SER EXATAMENTE COMO ERA.

por Heitor Jorge Lau

            Há uma ideia fascinante na neurociência contemporânea que nos obriga a repensar uma das imagens mais comuns que imaginamos do cérebro. Durante muito tempo, foi conveniente imaginar a mente como uma espécie de computador biológico: recebemos informações, armazenamos dados, recuperamos aquilo que precisamos e seguimos funcionando como antes. A comparação é sedutora, mas o cérebro humano é muito mais estranho, complexo e dinâmico do que qualquer máquina que tenhamos construído. Quando aprendemos, não estamos simplesmente colocando uma informação nova dentro de uma estrutura que permanece intacta. O próprio sistema que aprende é modificado pela experiência. Redes neurais alteram seus padrões de atividade, conexões são fortalecidas ou enfraquecidas, caminhos anteriormente pouco utilizados passam a participar de novas associações. O cérebro não apenas guarda aquilo que descobrimos, ele se reorganiza a partir daquilo que descobrimos. E é justamente nesse ponto que uma constatação científica começa a adquirir uma dimensão profundamente humana: depois que alguma coisa realmente nos transforma, já não existe um caminho perfeitamente intacto de volta ao que éramos antes.

            Toda vez que realmente aprendemos alguma coisa, alguma coisa em nós precisa deixar de ser exatamente como era. A frase parece simples, mas contém uma consequência que ultrapassa muito a ideia convencional de aprendizagem. Saber não significa apenas possuir mais uma informação. Saber pode significar perceber de outra maneira, estabelecer novas relações, desconfiar de antigas certezas e enxergar aquilo que antes permanecia invisível. Uma pessoa que descobre determinado aspecto da realidade não consegue mais olhar para essa realidade exatamente com os mesmos olhos. Mesmo quando tenta esquecer, negar ou ignorar o que descobriu, a experiência já aconteceu. O conhecimento atravessou sua história e passou a fazer parte daquilo que ela é. Não se trata de afirmar que toda informação produz uma transformação profunda, porque acumulamos diariamente uma quantidade imensa de dados que desaparecem sem deixar marcas significativas. A transformação acontece quando o conhecimento encontra alguma estrutura interior capaz de acolhê-lo, confrontá-lo e integrá-lo. Nesse momento, aprender deixa de ser acumulação e passa a ser metamorfose.

            Por isso que algumas leituras permanecem conosco durante décadas, enquanto centenas de outras desaparecem pouco depois de fecharmos um livro. Não lembramos necessariamente de todas as páginas que lemos, dos nomes dos personagens, das datas ou das informações que encontramos ao longo do caminho. Entretanto, determinadas ideias permanecem trabalhando silenciosamente dentro de nós. Uma frase que lemos aos vinte anos pode adquirir um significado completamente diferente aos quarenta. Um conceito que parecia insignificante na juventude pode tornar-se essencial depois de uma perda, de uma mudança profissional ou de uma experiência amorosa. Um livro esquecido na estante pode continuar existindo dentro de nós mesmo quando já não conseguimos reproduzir uma única página dele. A leitura profunda possui essa característica quase misteriosa: ela não termina necessariamente quando chegamos à última página. Algumas leituras continuam acontecendo durante anos, porque aquilo que encontramos nelas passa a dialogar com acontecimentos que sequer nem haviam acontecido quando lemos o livro.

            Isso também explica por que envelhecer não significa apenas acumular anos. Envelhecer é acumular versões de nós mesmos que foram sendo modificadas pelas experiências. Há dentro de cada pessoa uma espécie de arqueologia particular, formada por tudo aquilo que ela viveu, perdeu, descobriu, compreendeu e deixou de compreender. Não somos apenas a pessoa que acordou nesta manhã... somos também, em alguma medida, todas as pessoas que fomos obrigados a deixar para trás. O adolescente que acreditava conhecer o mundo continua existindo em algum lugar da memória, mas não possui mais o mesmo território dentro de nós. O jovem que defendia determinadas certezas foi confrontado pela experiência. O adulto que acreditava ter compreendido certas coisas descobriu posteriormente que ainda havia muito a aprender. E assim seguimos, não como uma identidade perfeitamente contínua, mas como uma espécie de construção permanente na qual cada experiência importante acrescenta algo e, ao mesmo tempo, retira alguma coisa que já não consegue permanecer intacta.

            Há nisso uma beleza que nem sempre percebemos quando somos jovens. Costumamos imaginar que amadurecer significa finalmente chegar a uma versão definitiva de nós mesmos. Como se em algum momento da vida pudéssemos dizer: agora sei quem sou, agora compreendo como o mundo funciona, agora não preciso mais mudar. A experiência costuma demonstrar justamente o contrário. Quanto mais conhecemos, mais percebemos a dimensão daquilo que desconhecemos. Quanto mais lemos, mais percebemos quantos livros ainda não lemos. Quanto mais observamos a natureza, mais percebemos que nossa compreensão dela é pequena. Quanto mais convivemos com outras pessoas, mais percebemos que nenhum ser humano cabe completamente nas categorias que criamos para compreendê-lo. O conhecimento verdadeiro não produz apenas respostas, ele modifica a qualidade das nossas perguntas. E uma das marcas da maturidade intelectual é justamente essa capacidade de continuar mudando sem sentir que cada mudança representa uma derrota daquilo que fomos anteriormente.

            A experiência também possui esse poder. Há coisas que nenhum livro consegue ensinar porque precisam atravessar o corpo, o tempo e a própria existência. Uma pessoa pode estudar durante anos o significado da perda e ainda assim não compreender o que significa perder alguém que ama. Pode ler sobre envelhecimento e continuar imaginando que envelhecer é simplesmente possuir mais idade. Pode estudar sobre solidão e descobrir posteriormente que a solidão possui dimensões que nenhuma definição acadêmica consegue abarcar. A vida introduz conhecimentos que não pedimos e para os quais muitas vezes não estamos preparados. E, quando esses conhecimentos chegam, modificam a maneira como interpretamos tudo aquilo que já sabíamos. Uma experiência posterior pode reorganizar uma lembrança antiga, assim como uma nova compreensão pode alterar o significado de algo que aconteceu muitos anos antes. O passado permanece cronologicamente imóvel, mas sua interpretação continua se transformando dentro de nós.

            Por isso que algumas pessoas envelhecem permanecendo intelectualmente jovens, enquanto outras envelhecem muito antes de seus cabelos embranquecerem. A idade cronológica não determina sozinha a vitalidade interior. Existe uma diferença enorme entre acumular anos e continuar aprendendo. Quem deixou de aprender pode permanecer biologicamente vivo, mas começa a viver dentro de um mundo cada vez mais fechado, no qual as novas experiências precisam caber nas antigas certezas. Quem continua aprendendo aceita, ainda que nem sempre confortavelmente, que o mundo pode obrigá-lo a reorganizar aquilo que pensava saber. Isso não significa abandonar princípios ou transformar toda convicção em dúvida permanente. Significa reconhecer que uma mente viva não é uma sala onde colocamos objetos e depois fechamos a porta. É um espaço em permanente reorganização, no qual cada experiência significativa pode deslocar alguma coisa de lugar.

            É justamente aí que a leitura adquire uma importância que ultrapassa o simples prazer de ler. Ler é permitir que uma inteligência que existiu em outro tempo entre em contato com a nossa própria inteligência e produza alguma alteração. Quando abrimos um livro, colocamos nossa experiência diante da experiência de alguém que viveu, pensou, imaginou ou pesquisou de outra maneira. Podemos concordar ou discordar, aceitar ou rejeitar, mas alguma coisa acontece nesse encontro. Muitas vezes o livro confirma aquilo que já pensávamos. Noutras vezes destrói uma certeza. Ou... oferece uma pergunta que permanece conosco por anos. E, em determinadas ocasiões, encontramos uma ideia que parece ter esperado por nós durante toda a vida. É nesse momento que compreendemos que ler não é simplesmente passar os olhos sobre palavras. Ler é permitir que palavras produzam movimento dentro de nós.

            No fim, a grande aventura intelectual de uma vida não está em chegar a um ponto onde finalmente sabemos tudo, mas em conservar a capacidade de sermos modificados por aquilo que encontramos. Há uma espécie de pobreza interior em quem já não admite nenhuma transformação, porque toda novidade passa a ser julgada imediatamente pelas antigas certezas. Em contrapartida, existe uma forma de riqueza silenciosa naquele que ainda consegue dizer: eu não havia pensado nisso dessa maneira. Essa pequena frase representa uma das maiores demonstrações de inteligência que um ser humano pode oferecer. Ela significa que ainda existe espaço interior para que alguma coisa nova aconteça. Significa que o cérebro continua aprendendo, mas significa também algo maior: que a pessoa ainda permite que a vida participe da construção de quem ela é.

            Envelhecer, em parte, é compreender isso. Não podemos impedir que o tempo transforme nosso corpo, nem podemos recuperar exatamente as pessoas que fomos em outras épocas. Também não podemos voltar ao estado mental anterior a determinadas experiências. Mas podemos continuar oferecendo à nossa existência aquilo que a mantém intelectualmente viva: curiosidade, leitura, observação, diálogo, contemplação e disposição para aprender. Cada nova compreensão modifica alguma coisa em nós. Cada experiência importante desloca alguma peça do nosso mundo interior. Cada livro que realmente nos alcança deixa alguma marca, ainda que não consigamos identificá-la imediatamente. E assim vamos envelhecendo, não como quem simplesmente acumula tempo, mas como quem atravessa sucessivas transformações.

            No fundo, esse é o paradoxo mais valoroso da existência: passamos a vida tentando descobrir quem somos, enquanto cada descoberta modifica aquele que está descobrindo. Procuramos conhecer o mundo, mas o mundo também nos transforma enquanto o conhecemos. Lemos para compreender a realidade, mas as melhores leituras acabam modificando o leitor. Vivemos para acumular experiências, mas são as experiências que acabam nos reconstruindo. E, quando percebemos isso, compreendemos que não existe uma versão definitiva de nós mesmos esperando no futuro. Existe apenas essa construção contínua, silenciosa e inevitável de alguém que nunca permanece exatamente igual.

            Toda vez que realmente aprendemos alguma coisa, alguma coisa em nós precisa deixar de ser exatamente como era. Isso não é uma perda. É precisamente a maneira que a vida encontrou para impedir que nos tornemos estátuas de nós mesmos.

 

terça-feira, 29 de setembro de 2026

O CALDEIRÃO CLIMÁTICO E A FRAGILIDADE HUMANA

O CALDEIRÃO CLIMÁTICO E A FRAGILIDADE HUMANA

DA EUROPA TROPICALIZADA ÀS MAZELAS DO BRASIL

por Heitor Jorge Lau

            O espanto coletivo diante de notícias sobre milhares de mortes causadas por ondas de calor na Europa revela uma miopia generalizada sobre os limites biológicos do ser humano e a resiliência das nossas infraestruturas. Quando termômetros disparam em latitudes tradicionalmente temperadas, o senso comum costuma questionar como o calor pode ser letal, imaginando que se trata apenas de um incômodo passageiro ou de um exagero midiático. No entanto, a letalidade desses eventos não reside estritamente na marca registrada pelo mercúrio dos termômetros, mas em uma engrenagem trágica que une o colapso fisiológico do organismo, a herança arquitetônica das edificações e a implacável fratura social. Ao deslocarmos esse olhar para o Brasil, percebemos que o problema não apenas nos pertence como se capilariza de forma perversa, escancarando que a adaptação às mudanças climáticas é, antes de tudo, uma questão de justiça econômica e estrutural.

            Do ponto de vista puramente biológico, o corpo humano funciona como uma refinada máquina termodinâmica que precisa manter sua temperatura interna estritamente regulada entre 36,5°C e 37°C. Quando o ambiente externo ameaça esse equilíbrio, o sistema cardiovascular aciona um mecanismo de defesa conhecido como vasodilatação periférica, processo no qual os vasos sanguíneos se dilatam para direcionar um fluxo maior de sangue à pele, dissipando o calor acumulado. Paralelamente, ocorre a sudorese (produção de suor pelo corpo, essencial para regular a temperatura corporal e eliminar calor excessivo), cujo resfriamento por evaporação atua como o principal ar-condicionado natural do corpo. Contudo, em cenários de calor extremo e umidade elevada — condição esta que anula a evaporação do suor —, esse sistema entra em exaustão. O coração passa a bombear sangue em ritmo frenético para tentar resfriar o corpo, gerando uma sobrecarga cardiovascular severa que pode desencadear infartos e insuficiência cardíaca, sobretudo em populações idosas ou com comorbidades pré-existentes. A perda massiva de líquidos e sais minerais também compromete a perfusão sanguínea nos rins, provocando quadros de falência renal aguda, enquanto a ausência de alívio térmico noturno impede o descanso biológico, acumulando estresse fisiológico dia após dia.

            Se a vulnerabilidade biológica é universal, a forma como ela se manifesta na infraestrutura urbana varia drasticamente conforme a geografia e a economia. Na Europa, a arquitetura histórica foi concebida para reter calor em função dos invernos rigorosos, transformando edifícios modernos e antigos em verdadeiras estufas durante o verão, agravadas pela escassez cultural e estrutural de sistemas de ar-condicionado. No Brasil, o problema assume feições distintas, embora igualmente dramáticas. Existe um mito reconfortante de que o brasileiro estaria naturalmente aclimatado ao calor por viver em um país tropical, ignorando que a fisiologia humana possui limites intransponíveis. Mais grave ainda é o fator socioeconômico que dita a forma como construímos nossas moradias. A arquitetura brasileira é flagrantemente deficiente tanto para o rigor do verão quanto para o frio, não por falta de conhecimento técnico, mas pela barreira financeira intransponível para a imensa maioria da população. Com um déficit habitacional histórico, grande parte das famílias constrói suas casas por etapas, utilizando materiais inadequados e de baixo custo que não oferecem nenhum isolamento térmico, transformando os lares em fornos abafados (ou “geladeiras”). Empreender valores na edificação de habitações bioclimáticas eficientes exige recursos que simplesmente não estão disponíveis para quem luta cotidianamente pela subsistência.

            Essa carência estrutural se desdobra nas periferias urbanas e nas ruas, onde o impacto letal do calor ganha contornos de urgência social. Trabalhadores informais, entregadores, agricultores, garis e profissionais da construção civil exercem suas atividades sob radiação solar implacável, muitas vezes sem qualquer amparo legal ou proteção ocupacional adequada. Nas favelas e aglomerados urbanos, a ausência de arborização, o adensamento excessivo e o uso generalizado de telhas de fibrocimento ou zinco intensificam o fenômeno da ilha de calor urbana, onde o concreto e o asfalto retêm o calor durante o dia e o irradiam noite adentro, roubando o sono e a saúde da população mais vulnerável. O calor extremo atua, portanto, como um revelador implacável das desigualdades: ele mata quem não tem ar-condicionado, quem mora em habitações precárias, quem trabalha desprotegido e quem habita cidades que priorizam o cimento em detrimento do verde e da dignidade humana.

            Enfrentar essa realidade exige abandonar a ilusão de que o clima extremo é um fenômeno distante ou passageiro. A transição para cidades mais resilientes e a exigência de normas construtivas voltadas à eficiência térmica não podem ser tratadas como luxo, mas como pilares fundamentais de saúde pública e direitos humanos. Se continuarmos a ignorar o peso da desigualdade sobre a nossa capacidade de adaptação térmica, o calor continuará a cobrar seu tributo mais alto justamente daqueles que já carregam o fardo da invisibilidade social, transformando o termômetro em um implacável juiz do nosso fracasso coletivo.

 

 

O MENINO, A MENINA E A GANGORRA QUE MOVE O CLIMA DO PLANETA

O MENINO, A MENINA

E A GANGORRA QUE MOVE O CLIMA DO PLANETA

por Heitor Jorge Lau

            Você sabia que o mar não tem o mesmo nível em todo o Pacífico? Por mais incrível que pareça, os ventos que sopram sem parar sobre a linha do Equador empurram tanta água para o oeste que o nível do mar na Indonésia fica cerca de meio metro acima do Equador. Essa diferença é a situação normal do oceano. E é justamente quando esse equilíbrio se desfaz que nasce um dos fenômenos mais famosos do clima, cuja história começa com pescadores olhando para o mar.

            Muito antes de existirem satélites, boias e modelos de computador, os pescadores da costa norte do Peru perceberam um padrão curioso. Perto do Natal, o mar ficava mais quente do que o normal e os peixes, que davam sustento a suas famílias, ficavam mais escassos. Como o fenômeno coincidia com a data do nascimento de Jesus, eles o batizaram de "El Niño", que em espanhol significa "o menino". Um nome carinhoso para algo que, mais tarde, a ciência descobriria ser muito maior do que parecia.

            Por muito tempo, o termo designava apenas essa corrente de água quente que aparecia todo fim de ano junto à costa peruana. Os registros indicam que, em 1892, o geógrafo Camilo Carrillo apresentou em Lima um trabalho que citava o nome usado pelos marinheiros da região, e foi assim que a expressão entrou no vocabulário científico. Com o tempo, ela passou a nomear algo mais raro e intenso: os anos em que o aquecimento do oceano ia muito além do normal e trazia consequências dramáticas.

            Para entender o que acontece, imagine o Pacífico como uma grande bacia de água. Os ventos alísios sopram de leste a oeste e empurram a água quente da superfície em direção à Ásia e à Austrália, como um sopro que a acumula num dos lados da bacia. No lado oposto, perto da América do Sul, a água que sai é substituída por água fria vinda das profundezas, rica em nutrientes, num movimento chamado ressurgência. É essa água fria que alimenta o plâncton e os peixes que os pescadores conhecem tão bem.

            No El Niño, essa engrenagem falha. Os ventos alísios enfraquecem e o sopro que mantinha a água de um lado da bacia diminui. A água acumulada no oeste desliza de volta para o centro e o leste do Pacífico, e o nível do mar sobe de um lado e baixa do outro. A água fria das profundezas sobe menos, a superfície esquenta e os cardumes diminuem. O ar acima dessa mancha quente também muda, e isso aciona um ciclo: o mar aquecido enfraquece ainda mais os ventos, e os ventos fracos deixam o mar ainda mais quente.

            É aí que está a virada na compreensão do fenômeno. Ele não é apenas "o vento que enfraquece" nem apenas "o mar que esquenta". É uma conversa constante entre o oceano e a atmosfera, em que um influencia o outro. Nas primeiras décadas do século XX, o meteorologista Gilbert Walker percebeu que a pressão do ar oscilava entre lados opostos do Pacífico. Décadas depois, Jacob Bjerknes uniu as peças e mostrou que oceano e ar formavam um único sistema. Por isso, hoje os cientistas falam em El Niño-Oscilação Sul, ou simplesmente ENOS.

            Mas essa história tem uma segunda personagem. Ao contrário do que muita gente imagina, a La Niña, "a menina", não é um fenômeno novo: ela sempre fez parte do mesmo sistema, e só ganhou mais espaço no noticiário nos últimos tempos. Seu nome surgiu por ela ser o oposto do menino, e a ciência também a chama de episódio frio. Chamá-la de "anti-El Niño" soaria estranho, já que o menino do nome é o menino Jesus. Nas décadas passadas houve até quem a chamasse de El Viejo, “o velho”, para completar o par.

            Na La Niña, a bacia do Pacífico faz o caminho contrário do El Niño. Os ventos alísios ficam mais fortes que o normal e empurram ainda mais água quente para o oeste, o que aumenta o desnível entre os dois lados do oceano. No leste, perto do Peru e do Equador, a ressurgência se intensifica, a água fria sobe em maior quantidade e o mar esfria. É uma situação curiosa: enquanto o El Niño costuma prejudicar a pesca na região, a La Niña tende a favorecê-la, porque traz mais nutrientes para a superfície. Então El Niño e La Niña são uma gangorra: quando um lado sobe, o outro desce, e o clima do planeta balança junto.

            As consequências dessa gangorra chegam muito longe, mas não são simplesmente opostas. Como o aquecimento ou o resfriamento do Pacífico altera a circulação do ar em escala planetária, algumas regiões recebem chuvas acima do normal e outras enfrentam secas. No Brasil, o El Niño costuma trazer mais chuva ao Sul e menos ao Norte e ao Nordeste, enquanto a La Niña tende a intensificar as chuvas em partes do Norte e do Nordeste. Os efeitos variam de um episódio para outro, e por isso instituições como a NOAA, nos Estados Unidos, e o INPE, no Brasil, acompanham o Pacífico de perto.

            E o El Niño é tão poderoso que até a rotação da Terra sente. Como os ventos da atmosfera se aceleram durante o fenômeno, o planeta gira um pouco mais devagar para conservar a energia de rotação do conjunto, e o dia fica menos de um milésimo de segundo mais longo. É imperceptível para nós, mas os instrumentos mais sensíveis detectam essa diferença. Quando o El Niño se dissipa, a atmosfera desacelera, a Terra volta a girar mais rápido e tudo retorna ao normal.

            É por isso que o El Niño e a La Niña devem ser acompanhados de perto: entender o que acontece no Pacífico ajuda a se preparar para chuvas, secas e outros impactos que afetam a vida de milhões de pessoas. E tudo isso começou quando alguém olhou para o mar com atenção. Quantas outras descobertas ainda estão esperando alguém que simplesmente observe?         

 

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

ATÉ ONDE OS TRAUMAS DA INFÂNCIA COMANDAM A VIDA ADULTA?

O PASSADO QUE NÃO PASSA

ATÉ ONDE OS TRAUMAS DA INFÂNCIA COMANDAM A VIDA ADULTA?

por Heitor Jorge Lau

            A influência dos traumas e recalques infantis na vida adulta é profunda e, em muitos aspectos, estruturante, mas o seu peso e o grau de determinação sobre o presente não são fixos nem definitivos. Na perspectiva da psicanálise contemporânea, a infância não é uma condenação, mas sim o solo onde se constroem as primeiras defesas, os padrões relacionais e as lentes através das quais interpretamos o mundo. Para compreender até que ponto essas marcas acompanham o indivíduo, vale a pena observar como elas operam e, sobretudo, como podem ser transformadas.

 

            1. O PESO ESTRUTURANTE DO PASSADO

            Os eventos e as cargas afetivas da infância — especialmente os recalques, mecanismos de defesa em que desejos, ideias ou afetos intoleráveis são banidos para o inconsciente — não desaparecem com o tempo. Eles continuam ativos, atuando nos bastidores da vida psíquica:

            Repetição no presente: como o inconsciente não tem noção cronológica, aquilo que não foi elaborado tende a se repetir. Na psicanálise, a elaboração é o processo psíquico pelo qual a pessoa consegue metabolizar uma vivência dolorosa, integrando-a à sua história sem que ela continue gerando sofrimento ou sintomas automáticos. O adulto pode se ver, sem entender o motivo, atraído pelos mesmos tipos de relações conflituosas, vivenciando sentimentos crônicos de inadequação ou adotando defesas rígidas que o protegem de dores antigas, mas que hoje sabotam sua felicidade.

            Sintomatologia e sofrimento: traumas não resolvidos frequentemente encontram vias de expressão no corpo (sintomas psicossomáticos), na ansiedade generalizada, em fobias ou em traços de caráter endurecidos.

 

            2. LEMBRAR NÃO É O MESMO QUE ELABORAR

            Muitas pessoas questionam esse processo porque dizem se lembrar perfeitamente de suas infâncias, sejam de episódios difíceis ou de lares onde "nada de grave aconteceu". No entanto percebemos que “ter memória não é o mesmo que elaborar”.

            É perfeitamente possível guardar fatos na memória racional enquanto o afeto correspondente continua soterrado, intocado e operando no escuro. A elaboração vai muito além da recordação: é o trabalho psíquico de metabolizar a vivência, permitindo que o adulto dê um novo significado àquela dor infantil. É preciso recolocar a história no seu devido lugar temporal para que ela deixe de ditar ordens no presente.

 

            3. A MALEABILIDADE DA MENTE E A PLASTICIDADE PSÍQUICA

            Embora as marcas infantis sejam profundas, a psique humana não é estática. O alcance desses traumas na vida adulta depende de ferramentas poderosas de transformação:

            A escuta analítica: quando o adulto consegue, através da palavra e de um espaço de escuta qualificada, acessar esses conteúdos recalcados, o peso do sintoma diminui drasticamente.

            Novas experiências emocionais: relações afetivas maduras, ambientes seguros e experiências reparadoras ao longo da vida adulta têm a capacidade de reescrever, em alguma medida, as antigas matrizes emocionais, provando ao psiquismo que o presente não é necessariamente uma repetição do passado.

 

            4. ATÉ QUE PONTO? LIMITES E POSSIBILIDADES

            É possível afirmar que um adulto carrega esses traumas até o limite em que escolhe — ou tem condições de — olhar para eles. Enquanto permanecem inconscientes, os traumas operam como um roteiro invisível que o indivíduo é compelido a encenar. No entanto, à medida que a reflexão profunda ilumina essas zonas escuras, o grau de determinismo diminui.

            Aqui entra uma virada ética fundamental: embora não escolhamos o que nos feriu ou o que nos faltou na infância, a responsabilidade sobre o tratamento e sobre o que faremos com essas marcas na vida adulta passa a ser inteiramente nossa. O passado deixa de ser um cárcere irrevogável e passa a ser compreendido como história. O sujeito descobre que, se não pode apagar o que aconteceu, tem inteira autonomia para decidir o destino de sua própria vida a partir de agora.

 

            Você sabia? O Conceito da Fita de Möbius

            Na ilustração, a estrutura em espiral que conecta o passado ao presente é inspirada na Fita de Möbius — uma superfície geométrica fascinante que possui apenas uma borda e um único lado. Na psicanálise, eu uso ela como uma metáfora visual: ilustra como o inconsciente, os traumas infantis e a vida adulta não estão separados em caixas estanques, mas fazem parte de uma mesma continuidade psíquica que pode ser integrada e transformada através da elaboração.

 

AS ARMADILHAS DA VIDA DO DIA A DIA - APENAS UMA REFLEXÃO


         Essa expressão tem uma origem tradicional bastante conhecida! Ela é considerada um provérbio russo clássico. Na cultura eslava, essa frase é usada exatamente com o mesmo peso de alerta prático: serve para lembrar que facilidades extremas ou vantagens que parecem cair do céu sem nenhum esforço quase sempre escondem um perigo oculto. Na economia e na sociologia moderna, ela ganhou um equivalente muito famoso na boca do economista Milton Friedman: "não existe almoço grátis". A ideia central de ambos os ditados é a mesma: no fim das contas, alguém sempre paga o preço, seja com dinheiro, seja com a própria liberdade.

LEI DA VIDA - ISSO NÃO É CONSOLO, ISSO É SABEDORIA


 

SOBRE A VAIDADE

O PREÇO DA VAIDADE

por Heitor Jorge Lau

            Dois gansos se preparavam para começar a sua viagem anual de migração rumo ao hemisfério sul quando um sapo lhes perguntou se eles estariam dispostos a levá-lo junto. Os gansos disseram que sim, mas perguntaram de que maneira poderiam fazê-lo. Muito criativo, o sapo arranjou um longo e forte talo de grama, persuadindo os gansos a segurarem nas extremidades ao tempo em que, pela boca, ele se mantinha agarrado nele.

            Os três inusitados personagens partiram e estavam indo bem até que um homem, observando o estranho quadro, expressou em voz alta a sua admiração pela criatividade dos três e perguntou: de quem foi essa ideia?

            Ao ouvir o homem, o sapo não conseguiu conter a vaidade, abriu a boca e gritou: “A ideia foi minha!”. Daí... nem é preciso narrar o fato seguinte: o sapo caiu.

            Talvez o ditado mais antigo sobre a vantagem de nos mantermos de boca fechada seja: “Mantenha-se calado e as pessoas jamais saberão até que ponto vai a sua ignorância”. Enfim, a sabedoria nos trará a resposta, indicando-nos quando devemos falar e quando devemos apenas ouvir.

 

domingo, 27 de setembro de 2026

O ESPELHO QUE NINGUÉM QUER ENCARAR

O ESPELHO QUE NINGUÉM QUER ENCARAR

por Heitor Jorge Lau

            Toda vez que um caso trágico envolvendo inteligência artificial ganha as manchetes, a sociedade se divide rapidamente em dois exércitos que gritam um contra o outro sem nunca se entreolhar. De um lado, aqueles que apontam o dedo para a máquina, tratando-a como uma entidade maligna que corrompe mentes inocentes, como se um algoritmo tivesse vontade própria e um plano deliberado de destruição. Do outro lado, os que zombam da vítima, atribuindo tudo a uma suposta fraqueza mental ou burrice, como se sofrimento e vulnerabilidade fossem sinônimos de estupidez. O que raramente aparece nesse debate, e é justamente o que mais importa, é a pergunta incômoda sobre por que tantas pessoas chegam à vida adulta sem nunca terem aprendido a pensar de forma crítica sobre o que consomem, seja um livro, um vídeo ou uma conversa com um chatbot.

            Essa lacuna não nasce do nada. Ela é o produto de décadas de um sistema educacional obcecado em decorar fórmulas e datas, mas incapaz de ensinar algo tão básico quanto distinguir uma opinião de um fato, ou reconhecer quando um texto está tentando manipular emocionalmente em vez de informar. Gerações inteiras passaram pela escola sabendo calcular a área de um trapézio (ou não), mas sem jamais terem sido convidadas a questionar por que acreditam no que acreditam. Essa ausência de treino mental não é um detalhe menor: é a raiz de um problema que hoje se manifesta de formas cada vez mais visíveis e, por vezes, trágicas.

            Quando alguém sem esse repertório crítico entra em contato com uma tecnologia que responde com fluência, empatia simulada e uma aparência de autoridade, o resultado é previsível. A pessoa não tem as ferramentas mentais para colocar aquela resposta em perspectiva, para perguntar de onde ela vem, que limitações ela carrega, ou se aquilo faz sentido dentro de um contexto mais amplo de vida. Ela simplesmente absorve, porque nunca lhe ensinaram a fazer outra coisa (na maioria esmagadora dos casos). Isso não é estupidez inata, é o resultado esperado de um sistema que nunca priorizou essa habilidade, e é exatamente esse ponto que os dois lados do debate público insistem em não discutir.

            Culpar exclusivamente a inteligência artificial é conveniente porque transforma um problema estrutural e incômodo em um vilão externo, fácil de apontar e fácil de regulamentar com uma lei aqui, uma multa ali. É um alívio psicológico coletivo: se a culpa é da máquina, ninguém precisa perguntar por que não ensinamos nossos filhos a duvidar, a checar, a refletir antes de aceitar qualquer informação como verdade absoluta. Essa narrativa poupa escolas, poupa currículos, poupa políticas públicas de educação, e poupa até os pais, que preferem entregar um smartphone a uma criança do que sentar para conversar sobre como o mundo digital (e outros mundos) funciona e quais são seus riscos reais.

            Por outro lado, culpar exclusivamente o usuário e chamá-lo de ignorante ou fraco é igualmente conveniente, só que para um público diferente. Essa postura permite que empresas de tecnologia, desenvolvedores de sistemas e formuladores de políticas se isentem de qualquer responsabilidade sobre como esses produtos são desenhados, testados e liberados para a sociedade, incluindo menores de idade e pessoas em momentos de fragilidade emocional. Se o problema é sempre a pessoa que usa mal a ferramenta, ninguém precisa questionar se a ferramenta foi construída pensando em vulnerabilidades humanas conhecidas, ou se existiram sinais de alerta ignorados em nome de métricas de engajamento e crescimento de usuários.

            A verdade desconfortável é que essas duas posturas, embora pareçam opostas, cumprem exatamente a mesma função social: evitar que se discuta a causa mais profunda e mais difícil de resolver, que é a ausência generalizada de pensamento crítico como competência básica de cidadania. É muito mais fácil brigar em redes sociais sobre se a IA deveria ser banida ou se a vítima era "burra demais para perceber", do que sentar e admitir que passamos décadas formando pessoas incapazes de interpretar o mundo à sua volta com um mínimo de distanciamento e ceticismo saudável.

            Pensar criticamente não é um dom raro reservado a poucos privilegiados intelectuais, é uma habilidade que se ensina e se pratica, como qualquer outra. Uma pessoa treinada desde cedo a perguntar "por que isso está sendo dito assim", "quem se beneficia dessa informação" ou "isso realmente faz sentido dentro do que eu sei sobre a vida" desenvolve uma espécie de imunidade natural contra manipulações, sejam elas vindas de um algoritmo, de um vizinho mal-intencionado ou de um discurso político vazio. Sem esse treino, qualquer fonte de informação convincente, humana ou artificial, se torna potencialmente perigosa, porque não existe filtro interno capaz de separar o que é sólido do que é ilusório.

            Isso não significa isentar a tecnologia de qualquer responsabilidade, e seria um erro tão grave quanto o oposto insistir nessa isenção. Sistemas que interagem com seres humanos em momentos de extrema fragilidade emocional carregam, sim, uma responsabilidade de design que não pode ser terceirizada para o usuário final. Mas essa responsabilidade compartilhada é justamente o ponto que o debate público se recusa a admitir, porque exige complexidade, exige nuance, e exige aceitar que várias coisas podem estar erradas ao mesmo tempo, sem que isso anule a validade de nenhuma delas.

            Enquanto a sociedade insistir em escolher um único vilão para cada tragédia, seja a máquina, seja a vítima, continuaremos girando em um ciclo que nunca ataca a raiz do problema. Nenhuma regulamentação de inteligência artificial, por mais rigorosa que seja, vai resolver sozinha o déficit crônico de pensamento crítico que atravessa gerações inteiras. E nenhuma dose de desprezo público por quem sofreu vai construir, retroativamente, a educação que essa pessoa jamais recebeu. O verdadeiro trabalho, o mais difícil e o mais urgente, é reconstruir desde a base a capacidade humana de pensar, questionar e interpretar, antes que a próxima onda tecnológica torne essa ausência ainda mais custosa do que já é hoje. E...isso não diz respeito tão somente a IA, mas também a muitas outras coisas também...

 

 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

O CLIMA INTERIOR: UMA GEOGRAFIA DA SABEDORIA

O CLIMA INTERIOR: UMA GEOGRAFIA DA SABEDORIA

por Heitor Jorge Lau

            A sabedoria que nasce da dúvida diante do sofrimento é como a tempestade que chega sem aviso, escurecendo o céu que minutos antes parecia calmo e confiável. Ninguém pede pela tempestade, e ninguém a entende completamente enquanto ela ainda está caindo com toda a sua força, com trovões que parecem questionar a própria existência do sol. Mas é justamente no meio do vendaval, quando os raios cortam o céu e o vento derruba o que parecia firme, que algo essencial se revela: a tempestade não pede permissão, e resistir a ela com raiva só multiplica o cansaço. Aceitar que ela vai passar, sem saber exatamente quando nem como, é a mesma lição de quem aprende a conviver com o sofrimento sem exigir respostas imediatas do universo. A verdadeira serenidade não está em impedir a tempestade de chegar, mas em manter os pés firmes na terra enquanto ela ruge, confiando que depois do temporal mais violento o ar sempre fica mais limpo, mais leve, mais respirável.

            A lucidez cansada que reconhece a impermanência das coisas é como o vento que sopra hoje de um lado e amanhã do lado oposto, sem nunca se fixar em uma única direção por muito tempo. Ele passa pelos campos, sacode as árvores, levanta poeira e folhas secas, e depois segue seu caminho como se nada daquilo lhe pertencesse de fato. Assim também são os dias do ser humano: chegam com força, agitam tudo ao redor, parecem eternos enquanto acontecem, e depois se vão... dando lugar a um novo vento vindo de outra direção completamente diferente. Reconhecer que nada permanece, que cada rajada é passageira por natureza, não é motivo de tristeza, mas de leveza: por que se apegar a uma direção do vento se ele mesmo nunca promete continuar soprando daquele jeito? Aprender a se mover junto com essas mudanças, como os galhos que dobram sem quebrar, é talvez a forma mais honesta de habitar o tempo.

            A coragem de questionar as próprias certezas é como o dia claro de céu azul que, de repente, revela pequenas nuvens brancas passando sem pressa, sem nunca cobrir totalmente o sol. Essas nuvens não escondem a luz, apenas lembram que nada no céu é totalmente sólido ou definitivo, nem mesmo aquilo que parecia mais estável um instante atrás. Olhar para cima e perceber essas formas mutantes, sempre se desfazendo e se refazendo em novos contornos, é como aceitar que nossas próprias convicções também merecem ser observadas com curiosidade, e não com apego cego. Quem insiste em acreditar que o céu é sempre exatamente igual, sem nuvens, sem variações, sem movimento, acaba surpreendido pela primeira mudança inesperada. A verdadeira clareza mental se parece mais com esse céu de nuvens passageiras do que com um azul artificialmente perfeito: ela permite dúvidas sem se desfazer, permite perguntas sem desabar.

            A honestidade de observar a si mesmo sem disfarces lembra as manhãs de garoa fina, aquela chuva mansa que não faz barulho, não assusta ninguém, mas ainda assim molha profundamente tudo o que toca, silenciosa e constante. Diferente da tempestade, ela não exige atenção imediata, e por isso é fácil ignorá-la, seguir andando como se nada estivesse acontecendo, até perceber, horas depois, que as roupas já estão completamente encharcadas. Assim também é o processo de se conhecer verdadeiramente: não acontece em um único momento dramático, mas em pequenas gotas diárias de percepção, de honestidade consigo mesmo, de atenção aos próprios humores e contradições. Ignorar essa garoa interior, fingir que ela não está ali, não impede que ela continue penetrando devagar, formando poças onde menos se espera. Prestar atenção a essas gotas sutis, entender de onde vêm e o que revelam, é a diferença entre chegar em casa surpreso com o próprio encharcamento ou caminhar sob a chuva já sabendo exatamente o que ela representa.

            A crença de que crescemos através das crises é como a ventania que antecede as grandes mudanças de estação, aquele vento forte e insistente que anuncia o fim de um período e o início de outro completamente diferente. Ele sacode com força as árvores que ainda carregam folhas antigas, forçando-as a se soltarem antes mesmo de estarem prontas, abrindo espaço para os novos brotos que virão depois. É desconfortável, às vezes até assustador, sentir essa ventania balançando tudo o que parecia estável, mas sem ela muitas árvores continuariam presas às suas folhas velhas para sempre, impedindo a renovação natural do ciclo. As crises pessoais funcionam de maneira parecida: chegam como rajadas inesperadas, arrancam certezas antigas de forma abrupta, e por mais dolorosa que seja essa perda, é justamente ela que abre espaço para um novo crescimento. Temer a ventania é natural, mas resistir completamente a ela apenas prolonga o desconforto; aceitar seu papel na renovação é o que permite florescer de novo, mais forte, na estação seguinte.

            A coragem de afirmar a vida mesmo em seus aspectos mais duros se parece com o raio que corta o céu escuro durante uma tempestade e, por uma fração de segundo, ilumina tudo com uma intensidade que o dia claro jamais conseguiria. Ele não pede desculpas por sua força, não tenta suavizar seu impacto, apenas existe com toda a potência que lhe é própria, mesmo sabendo que dura apenas um instante. Há algo profundamente vital nessa imagem: reconhecer que os momentos mais intensos da existência, sejam eles dolorosos ou extraordinários, carregam uma energia que os momentos calmos simplesmente não possuem. Negar essa intensidade em nome de uma vida sempre morna e sem sobressaltos é abrir mão da própria eletricidade que torna a existência vívida. Aceitar o raio como parte legítima da tempestade, e não como algo a ser evitado a qualquer custo, é aceitar também as próprias paixões, dores e alegrias intensas como parte necessária de uma vida plenamente vivida.

            A coragem de explorar as regiões mais escuras da própria mente é como a neblina espessa que cobre os vales nas primeiras horas da manhã, escondendo caminhos, árvores e formas que sabemos estarem ali, mesmo sem conseguir enxergá-los claramente. Caminhar dentro dessa neblina exige cuidado e paciência, pois cada passo é dado com incerteza, sem a garantia total do que existe logo à frente. Muitas pessoas preferem esperar o sol nascer por completo, evitando entrar na névoa, mas quem se arrisca a atravessá-la, mesmo devagar, começa a distinguir contornos que antes pareciam invisíveis. Essa neblina interior, feita de memórias esquecidas e impulsos não compreendidos, não desaparece só porque a ignoramos; ela apenas continua ali, esperando a luz certa para começar a se dissipar. Caminhar por ela com atenção, sem pressa e sem pânico, é a única forma de eventualmente chegar ao outro lado do vale, onde o ar já está mais claro.

            Ao final, percebe-se que nenhum desses fenômenos existe isoladamente: o mesmo céu que hoje está tomado por nuvens escuras amanhã pode se abrir em um azul infinito, e a garoa silenciosa pode, sem aviso, se transformar em ventania. A sabedoria talvez seja exatamente isso: a capacidade de reconhecer cada clima interior como parte de um mesmo ciclo natural, sem tentar viver eternamente sob um único tipo de tempo. Quem já sentiu a tempestade sabe valorizar o dia de sol; quem já atravessou a neblina reconhece com mais gratidão a claridade quando ela finalmente chega. Não existe controle sobre o clima que se forma lá fora nem sobre aquele que se agita por dentro, mas existe, sempre, a escolha de como caminhar sob cada um deles. E é justamente essa disposição de seguir em frente, chuva ou sol, tempestade ou céu limpo, que transforma a experiência bruta da vida em verdadeira sabedoria.