quarta-feira, 16 de setembro de 2026

ENTRE O VIVIDO E O MOSTRADO

ENTRE O VIVIDO E O MOSTRADO

por Heitor Jorge Lau

            Há um instante, quase imperceptível, em que a experiência deixa de ser experiência e passa a ser matéria-prima de outra coisa. Alguém está diante de uma paisagem, uma refeição, de um filho que dá os primeiros passos, e o gesto seguinte não é o de sentir aquilo até o fim, mas o de erguer um aparelho, escolher um ângulo, imaginar uma legenda. A cena continua acontecendo, mas já não pertence inteiramente a quem a vive: pertence, em parte, a um público futuro, hipotético, que talvez nem exista, mas cuja presença fantasmagórica já organiza o presente. Essa duplicação silenciosa, em que cada gesto vem acompanhado de sua sombra representada, tornou-se tão comum que deixamos de percebê-la como estranha. E, no entanto, ela marca uma mudança profunda na relação entre o que fazemos e o que somos.

            Não é preciso recorrer a nenhuma teoria sofisticada para notar que vivemos cercados de imagens de vida alheia — e que produzimos, com o mesmo empenho, imagens da nossa. O curioso é que essas imagens raramente mentem de modo grosseiro; elas selecionam, recortam, iluminam de um jeito específico aquilo que já aconteceu ou que se arranja para acontecer justamente para ser mostrado. A vida cotidiana passa, assim, por um processo de edição permanente, em que cada indivíduo é ao mesmo tempo personagem, diretor e plateia de si mesmo. O resultado é uma espécie de segunda camada de existência, feita de aparências cuidadosamente compostas, que se sobrepõe à primeira e, pouco a pouco, ganha mais peso do que ela. Não se trata de hipocrisia consciente: a maioria das pessoas que cultiva essa camada acredita sinceramente estar apenas compartilhando, documentando, mantendo contato. Mas a soma de pequenas escolhas — este ângulo e não aquele, este momento e não o outro, silenciar o tédio, o cansaço, a mediocridade do cotidiano — vai construindo, sem que ninguém tenha planejado deliberadamente, um mundo paralelo de superfícies polidas, onde a vida parece sempre mais interessante, mais bem-sucedida e mais coerente do que de fato é.

            O problema não está em mostrar, mas no deslocamento do centro de gravidade: a experiência deixa de ser fim em si mesma e passa a ser meio para produzir sua própria imagem. Quando isso se generaliza, cria-se uma economia inteira ao redor da atenção alheia, em que cada pessoa administra sua própria marca como se fosse uma pequena empresa de si. As redes sociais não inventaram esse mecanismo — a vaidade e a necessidade de reconhecimento são tão antigas quanto a vida em sociedade —, mas o potencializaram de um jeito sem precedentes, ao oferecer métricas exatas de aprovação: curtidas, visualizações, comentários, um placar contínuo que converte afeto e atenção em números. Diante desse placar, é difícil resistir à tentação de ajustar o comportamento para otimizá-lo. E assim a espontaneidade, que antes era o próprio tecido da experiência, torna-se um recurso escasso, algo que precisa ser encenado para parecer verdadeiro.

            A publicidade entendeu esse fenômeno antes de qualquer um e soube explorá-lo com precisão cirúrgica. Ela já não vende apenas produtos, vende estilos de vida, humores, versões idealizadas de rotina; e o mais eficaz é que essas versões idealizadas passaram a se infiltrar no discurso das próprias pessoas comuns, que replicam, sem perceber, a estética publicitária em suas fotos, em suas frases de efeito, em seus pequenos manifestos de bem-estar. A linha entre o conteúdo pessoal e o conteúdo comercial se torna cada vez mais tênue, ao ponto de já não ser possível saber, ao rolar uma tela, se o que se vê é confissão ou anúncio, testemunho ou estratégia. Esse embaçamento não é acidental: é funcional a um sistema que precisa transformar cada momento de atenção em oportunidade de consumo, e que, para isso, se beneficia de uma confusão constante entre o que é genuíno e o que é encenado.

            Na política, o mesmo mecanismo assume contornos mais graves. Discursos, gestos, indignações e reconciliações passam a ser calculados menos por sua capacidade de resolver problemas reais do que por seu potencial de gerar imagens fortes, capazes de circular e comover. A governança se transforma, em boa medida, em produção de acontecimentos visualmente eficazes, enquanto as decisões que realmente afetam a vida das pessoas ocorrem em espaços menos vistosos, quase sempre fora do alcance das câmeras. Isso não significa que tudo seja pura encenação vazia, mas que o critério de sucesso migrou, silenciosamente, da eficácia concreta para o impacto simbólico. E quando o eleitor também vive mergulhado nesse regime de imagens, sua própria capacidade de julgamento se organiza em torno dos mesmos códigos: prefere-se o gesto categórico à ponderação, o embate espetacular ao argumento paciente, porque é isso que se destaca em um fluxo de informações no qual só sobrevive o que causa impacto imediato.

            Esse fluxo, aliás, merece atenção à parte. Nunca se teve acesso a tanta informação, e ainda assim raramente se teve tão pouca clareza sobre o que está de fato acontecendo. O excesso não amplia a compreensão - ele a dissolve. Cada notícia, cada dado, cada opinião chega desconectado do que veio antes e do que virá depois, como um fragmento entre milhares de outros fragmentos, todos concorrendo pela mesma fatia escassa de atenção. Nessas condições, o pensamento perde o tempo de que precisa para amadurecer e é, imediatamente, substituído por reações rápidas, por veredictos instantâneos, por indignações que se acendem e se apagam no espaço de um dia. A abundância de estímulos gera, paradoxalmente, uma espécie de anestesia: depois de certo ponto, tudo passa a ter o mesmo peso e, portanto, nenhum peso.

            O efeito mais silencioso de todo esse arranjo talvez seja o que ele provoca nas relações humanas. Encontros que antes exigiam presença plena passam a ser mediados por telas mesmo quando os corpos estão lado a lado; conversas se fragmentam em mensagens curtas, trocadas aos poucos, sem a densidade do olhar e do silêncio compartilhado; a intimidade, que se constrói justamente naquilo que não é mostrado, corre o risco de minguar diante da compulsão por narrar tudo em tempo real. Talvez o gesto mais radical, hoje, não seja produzir mais conteúdo nem denunciar o sistema com mais um comentário indignado, mas simplesmente permitir que certos momentos aconteçam sem testemunha, sem registro, sem consequência representacional alguma — recuperando, ainda que por instantes, a experiência bruta e não editada de estar inteiramente ali, sem plateia, sem holofote, sem espelho. Não como fuga romântica do mundo contemporâneo, mas como pequeno ato de reapropriação: lembrar que a vida, antes de ser contada, precisa ser vivida.

            Há, no entanto, uma saída que não passa pela renúncia total às imagens, pois isso seria tão ilusório quanto acreditar que se pode voltar a um estado de pureza anterior à representação. A alternativa mais realista talvez esteja em inverter o uso dos próprios instrumentos que produzem essa separação, virando contra o sistema as ferramentas que ele mesmo oferece. Assim como certos gestos de apropriação e recombinação podem transformar um discurso alheio em crítica desse mesmo discurso, também é possível usar as redes, as imagens e os formatos de exposição de si contra a lógica que os sustenta: compartilhar o processo em vez do resultado polido, expor a hesitação em vez de apenas a conquista, dizer o que normalmente se cala. Esse gesto não anula o espetáculo, mas introduz nele uma fissura, um ponto de atrito que devolve, ainda que provisoriamente, algum peso ao que é realmente vivido. É um trabalho pequeno, quase invisível, que cada pessoa pode fazer em sua própria escala — e talvez seja justamente da soma desses gestos mínimos, e não de nenhuma ruptura espetacular, que possa nascer uma relação mais honesta entre aquilo que se vive e aquilo que se mostra.

 


 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

EM TERRA DE CEGOS, QUEM TEM UM OLHO É REI

EM TERRA DE CEGOS, QUEM TEM UM OLHO É REI

por Heitor Jorge Lau

            O provérbio da imagem permite uma analogia bastante forte com a conjuntura política brasileira atual, justamente porque ele não precisa ser usado para defender um lado contra o outro. A questão central é outra: o que acontece quando uma sociedade mergulha em um ambiente de radicalização no qual a capacidade de enxergar criticamente diminui?

            O Brasil atravessa novamente um período de intensa polarização política, em que o debate público vem sendo marcado por disputas cada vez mais rígidas, pelo confronto entre campos ideológicos e pela transformação das redes sociais em espaços de mobilização e conflito. A própria cobertura das eleições de 2026 já registra preocupações com a “tiktokização” da política e com a redução do espaço para propostas diante da lógica de confronto e circulação acelerada de conteúdos.

            Nesse contexto, “Em terra de cegos, quem tem um olho é rei” ganha uma dimensão política particularmente interessante. Em uma sociedade tomada por certezas absolutas, aquele que enxerga apenas um pouco mais do que os demais pode parecer extraordinariamente lúcido. Não porque possua uma visão completa da realidade, mas porque, diante de uma multidão que deixou de questionar, qualquer percepção parcial adquire aparência de verdade absoluta.

            É justamente aí que mora o perigo. O extremismo político transforma adversários em inimigos, opiniões em identidades e divergências em provas de corrupção moral. Cada grupo passa a enxergar com nitidez aquilo que confirma suas próprias convicções, enquanto desenvolve uma espécie de cegueira seletiva diante dos erros do próprio campo. O resultado é uma curiosa inversão: quanto mais estreito se torna o campo de visão, maior pode parecer a certeza de quem está dentro dele.

            O “rei” do provérbio contemporâneo não precisa ser aquele que possui conhecimento, equilíbrio ou capacidade de compreender a complexidade. Pode ser simplesmente aquele que consegue oferecer uma narrativa suficientemente simples para uma multidão que perdeu a disposição de olhar além dela. Em ambientes politicamente radicalizados, quem grita mais alto, simplifica melhor ou identifica um inimigo com maior eficiência pode conquistar uma autoridade que não corresponde necessariamente à sua capacidade de compreender a realidade.

            E existe uma ironia ainda maior. Quando todos acreditam possuir o único olho capaz de enxergar, ninguém percebe que continua vendo apenas uma parte do mundo. Essa seria, para mim, a melhor ligação entre o antigo provérbio e a política brasileira contemporânea: o problema não está apenas em haver cegos, mas em uma sociedade na qual cada grupo acredita ser o único possuidor da visão.


 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

O IMPÉRIO DA FRIVOLIDADE

  Vivenciamos uma época em que a cultura passou por uma metamorfose profunda, deixando de ser um espaço de reflexão, busca pelo absoluto e cultivo do espírito para se transformar em puro entretenimento. Nessa nova ordem, o objetivo principal da vida social e intelectual não é mais compreender a complexidade do mundo ou buscar verdades duradouras, mas sim divertir, distrair e manter o público perpetuamente entretido. A leveza, a superficialidade e a diversão imediata tornaram-se os novos valores supremos, ditando o ritmo da nossa existência e moldando a forma como consumimos ideias, arte e informação.

   O sintoma mais evidente dessa transformação é a maneira como o conceito de cultura foi redefinido. Antigamente, a cultura exigia esforço, estudo e concentração. Era um patrimônio acumulado ao longo de séculos que demandava do indivíduo uma postura ativa de aprendizado e questionamento. Hoje, ela foi substituída pelo espetáculo. Tudo precisa ser visualmente atraente, rápido e acessível sem esforço. O conhecimento aprofundado foi desvalorizado em favor da informação descartável, e o pensador ou o artista sério cedeu espaço ao "influenciador" e à celebridade instantânea, cuja principal virtude é a visibilidade midiática. Ser famoso tornou-se um valor em si mesmo, independentemente de qualquer talento, obra ou contribuição real para a sociedade.

   Essa mudança de paradigma alterou drasticamente o papel da arte e da literatura. Na tradição clássica, a criação artística era um ato de rebeldia contra a banalidade cotidiana, uma tentativa de decifrar os enigmas da condição humana e de confrontar as angústias existenciais. Atualmente, a arte transformou-se em mercadoria de consumo rápido, submetida às leis implacáveis do mercado e do lucro. As obras que sobrevivem são aquelas que conseguem gerar impacto imediato, escândalo ou apelo marqueteiro. O que importa não é a densidade da mensagem, mas a capacidade de capturar a atenção de um público acostumado a estímulos velozes e efêmeros. A literatura, por sua vez, tende a abandonar a complexidade formal e temática para adotar fórmulas comerciais previsíveis, priorizando o enredo linear e a distração pura.

   Paralelamente, o jornalismo também sofreu uma mutação profunda. A informação informativa e analítica, que exigia rigor e apuração, foi amplamente substituída pelo jornalismo de entretenimento, onde o limite entre a notícia e a fofoca se dissolve. Os fatos políticos, econômicos e sociais são apresentados sob a ótica do sensacionalismo e do escândalo, reduzindo questões complexas a embates superficiais e personalistas. O espetáculo substituiu a análise. Como resultado, o cidadão comum é inundado por uma torrente de dados irrelevantes que geram a ilusão de estar bem informado, quando, na verdade, encontra-se anestesiado pela quantidade de ruído e pela falta de sentido crítico.

   Outro aspecto marcante dessa dinâmica é a frivolidade generalizada que invadiu o espaço público. Os grandes debates sobre o destino das sociedades, a ética, a justiça e a liberdade perderam espaço para conversas banais sobre a vida privada de figuras públicas, tendências passageiras e consumo ostentatório. A opinião pública, antes moldada por argumentos racionais e debates de ideias, passou a ser guiada pelas emoções momentâneas, pelo clamor das redes sociais e pelo politicamente correto mal compreendido. Qualquer manifestação que ouse questionar o consenso dominante ou que exija um nível mínimo de reflexão intelectual é rapidamente descartada ou hostilizada por ser considerada elitista ou chata.

   Essa valorização excessiva do entretenimento gerou também uma banalização da violência e do sexo. Quando tudo precisa ser espetacularizado para prender a atenção do espectador, os limites éticos e estéticos tradicionais são rompidos rotineiramente. A violência real, a dor alheia e os dramas humanos mais profundos são transformados em matéria-prima para programas de televisão, filmes e conteúdos digitais consumidos como mero passatempo. Perde-se a capacidade de empatia genuína, pois o sofrimento alheio é enquadrado esteticamente como mais um produto na prateleira do consumo de massa.

   O sistema educacional não ficou imune a essa tendência. Sob a justificativa de tornar o aprendizado mais atraente para as novas gerações, muitas instituições vêm adotando métodos baseados na diversão e na facilitação excessiva. O rigor acadêmico, a memorização de conteúdos fundamentais e a exigência de leitura aprofundada são frequentemente vistos como arcaicos. O resultado é a formação de indivíduos com dificuldades crescentes de concentração, menor capacidade de raciocínio abstrato e uma resistência natural a qualquer atividade que exija esforço prolongado. A educação, que deveria ser um antídoto contra a superficialidade, muitas vezes acaba reforçando-a ao nivelar por baixo as expectativas intelectuais.

   No entanto, seria um equívoco enxergar essa realidade apenas com pessimismo paralisante, mas é fundamental encará-la com lucidez. A expansão do acesso à cultura e à informação — impulsionada pelas novas tecnologias — é, sem dúvida, um avanço democrático extraordinário. O problema não reside na tecnologia em si, mas no uso que fazemos dela e na abdicação do espírito crítico. Quando o mercado se torna o único árbitro do que tem valor, a exceção cultural corre o risco de desaparecer, sufocada pelo ruído ensurdecedor da banalidade.

   Resistir a essa correnteza exige um esforço consciente. Significa redescobrir o valor do silêncio, da leitura atenta de livros densos, da contemplação estética genuína e do diálogo profundo. Significa compreender que a verdadeira liberdade intelectual não consiste em consumir passivamente tudo o que a indústria do entretenimento nos oferece, mas em manter a capacidade de escolher, duvidar e buscar sentidos que transcendam o momento presente. O resgate da profundidade e do pensamento crítico é o único caminho para evitar que a vida coletiva se reduza a uma grande festa vazia, onde todos sorriem, mas ninguém sabe exatamente por quê.