Heitor Jorge Lau
Ensaios longos, textos contemplativos, arqueologia cultural, análises psicológicas, crônicas filosóficas, antropologia do cotidiano.
segunda-feira, 2 de novembro de 2026
quinta-feira, 29 de outubro de 2026
MUDAM OS SÉCULOS, MUDAM OS RÓTULOS, A EXCLUSÃO PERMANECE
MUDAM OS SÉCULOS, MUDAM OS RÓTULOS,
A EXCLUSÃO
PERMANECE
por Heitor Jorge Lau
Em pleno
ano de 2026, voltam a circular, nas redes sociais e nas conversas do cotidiano,
convocações para que pessoas sejam demitidas por causa do partido que
escolheram e para que empresas sejam boicotadas por supostamente apoiarem este
ou aquele lado. Boicote, para quem não está habituado ao termo, é a recusa
organizada de comprar, de contratar ou de se relacionar com alguém, com o
objetivo de pressioná-lo ou puni-lo. Convém deixar claro desde o início: este
texto não defende nem critica partido algum. Ele olha para o método, porque o
método é o mesmo, qualquer que seja o lado que o utilize, e a história tem
muito a nos dizer sobre onde esse caminho costuma terminar.
Quase nunca
a perseguição começa pela violência. Ela segue uma sequência que se repete em
épocas e lugares muito diferentes. Primeiro vem o rótulo, que reduz uma pessoa
a uma única característica, seja o partido, a religião, a origem ou a idade, e
a faz parecer menos digna de respeito. Depois vem a pressão econômica, que
consiste em tirar o emprego, esvaziar o comércio e tornar a vida material
impossível. Em seguida, o isolamento social, em que o grupo marcado passa a ser
evitado e o mundo ao redor se acostuma com isso. Só no final, e nem sempre,
aparece a violência física. O que torna o processo perigoso é que cada etapa,
isolada, parece pequena e até justificável para quem a pratica, e é justamente
por isso que tanta gente não percebe o caminho que está sendo percorrido.
O exemplo
mais conhecido é o da Alemanha nazista. Em 1º de abril de 1933, o regime
organizou um boicote nacional aos negócios de judeus, com integrantes da SA, a
tropa paramilitar do partido nazista, postados diante das lojas para intimidar
os clientes. Poucos dias depois, uma lei afastou judeus e opositores políticos
do serviço público e, em 1935, as chamadas Leis de Nuremberg retiraram a
cidadania dos judeus alemães e proibiram casamentos entre judeus e não judeus.
A eliminação física veio anos depois e foi precedida por esse longo preparo, no
qual muita gente aprendeu a olhar para o lado.
A Alemanha,
porém, não foi a primeira nem a única. Na Europa medieval, judeus eram
impedidos de ingressar em muitas corporações de ofício, confinados em bairros
fechados chamados guetos e, na Espanha, expulsos do reino em 1492. No início do
século XVII foi a vez dos mouriscos, descendentes de muçulmanos convertidos à
força ao cristianismo. A Inquisição, tribunal da Igreja Católica criado para
investigar desvios de fé, perseguiu hereges e "cristãos-novos",
judeus convertidos cuja sinceridade era sempre posta sob suspeita. Nos Estados
Unidos, as leis conhecidas como Jim Crow mantiveram, por quase um século depois
do fim da escravidão, a separação legal entre brancos e negros em escolas,
transportes e empregos. Na África do Sul, o Apartheid, regime vigente a partir
de 1948, dividiu a população por raça e determinou onde cada grupo podia morar,
estudar e trabalhar.
Houve
também perseguições por ideias políticas, o que se aproxima mais do que vemos
hoje. Nos Estados Unidos dos anos 1950, o macarthismo, nome dado à caça a
supostos comunistas liderada pelo senador Joseph McCarthy, levou à criação de
listas negras: roteiristas, atores, professores e funcionários públicos eram
demitidos ou impedidos de trabalhar apenas por serem acusados de simpatizar com
o comunismo, muitas vezes sem provas. Na União Soviética de Stálin, os chamados
"inimigos do povo" perdiam o emprego e a moradia antes de serem
presos ou executados. Na China de Mao, a partir de 1966, a Revolução Cultural
humilhou publicamente professores e intelectuais e os afastou de suas funções.
No Camboja do Khmer Vermelho, na segunda metade da década de 1970, as pessoas
instruídas e os profissionais liberais estavam entre os principais alvos. E, em
outro registro, a caça às bruxas na Europa dos séculos XV a XVII atingiu
majoritariamente mulheres, acusadas de desvio por não se encaixarem no papel
que a sociedade lhes reservava.
Mas não é
preciso voltar tantos séculos para encontrar a segregação de pessoas do
trabalho. Ela acontece, em silêncio, no mercado de hoje. Profissionais com mais
de 50 ou 60 anos relatam que, a partir de certa idade, seus currículos deixam
de ser lidos, as vagas passam a pedir "perfil jovem" e a experiência,
que deveria ser um ativo, é tratada como obstáculo. Mulheres enfrentam a
pergunta velada sobre planos de ter filhos, a desconfiança diante da
maternidade, a dificuldade de chegar a cargos de liderança e, em muitos casos,
salários menores para funções iguais. O mesmo se dá com pessoas com deficiência
e com quem vem de determinado bairro ou tem determinado sotaque. Não há lista
oficial nem boicote declarado, mas o efeito é parecido: uma característica isolada
passa a valer mais do que a competência, e a pessoa é afastada antes de ter
tido a chance de mostrar o que sabe fazer. A diferença em relação aos
fanatismos políticos de hoje está apenas no rótulo escolhido. A lógica de
excluir alguém pelo que ela é, ou pelo que pensa, e não pelo que faz, é a
mesma.
O Brasil
tem proteção para isso, ao menos no papel. A Constituição proíbe diferença de
salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo,
idade, cor ou estado civil, e garante o voto direto e secreto. A Lei nº
9.029/1995 proíbe práticas discriminatórias no acesso ao emprego e na sua
manutenção, e a Lei nº 14.611/2023 trata da igualdade salarial entre mulheres e
homens. O Ministério Público do Trabalho, por sua vez, tem tratado como assédio
eleitoral a pressão exercida sobre trabalhadores por causa do voto. Mas lei
nenhuma funciona sozinha: ela depende de uma cultura que reconheça o outro como
pessoa inteira.
É preciso
prudência com as comparações. Os casos históricos citados foram, em sua
maioria, projetos de poder nos quais o Estado estava nas mãos de quem
perseguia, e suas consequências foram incomparavelmente mais graves. O que
vemos hoje, em grande parte, são grupos privados, sem esse poder, e exagerar a
analogia só enfraquece o alerta. O ponto não é dizer que estamos repetindo o
passado, e sim que o começo de todos esses processos foi parecido: a
naturalização da ideia de que alguém pode ser privado do seu sustento por
pertencer a um grupo ou por pensar de determinada forma.
Um
trabalhador não é o partido em que vota, a religião que professa, a idade que
tem ou o gênero a que pertence. É uma pessoa com contas a pagar, família,
competência e uma vida inteira além daquela característica. O voto é secreto
exatamente para que ninguém precise pagar com o próprio sustento pela sua
convicção. Defender esse princípio não é tomar partido, é defender a
possibilidade de convivermos entre diferentes. Podemos discordar com firmeza,
argumentar e votar de modos distintos. O que não podemos é confundir
divergência com inimizade, nem deixar que a discordância vire pretexto para
tirar o pão da mesa de alguém.
Uma
sociedade amadurece quando aprende a debater ideias sem destruir pessoas e a
contratar, promover e conviver pelo que cada um faz, e não pelo rótulo que
carrega. E você, já viu alguém ser julgado pelo que é ou pelo que pensa, e não
pelo que faz?
#Reflexão #Democracia #Respeito
#MercadoDeTrabalho
quarta-feira, 28 de outubro de 2026
MEA CULPA OU DE QUEM É A CULPA?
MEA CULPA
OU DE QUEM É A CULPA?
A síndrome do
indicador e o Brasil das urnas
por Heitor Jorge Lau
Existe um
gesto que o brasileiro aprendeu cedo e foi aperfeiçoando com o tempo: esticar o
braço, dobrar três dedos e deixar o indicador apontando para longe de si. Não é
um gesto raro, nem exclusivo de uma ideologia, de uma região ou de uma faixa
etária. É quase um reflexo. Algo dá errado e, antes mesmo de entender o que
aconteceu, já sabemos de quem é a culpa, desde que seja de outra pessoa. A esse
reflexo coletivo vou chamar aqui de síndrome do indicador: a
tendência de apontar o dedo, transferir a responsabilidade e sair de cena com a
consciência tranquila. Falo do Brasil, apenas dele, porque é o país que vivo e
que consigo observar de perto, sem pretensão de opinar sobre o que se passa em
outros lugares.
O cenário
eleitoral é o palco onde essa síndrome se manifesta com mais nitidez, e o
curioso é que ela funciona nos dois tempos, antes e depois das urnas. Durante a
campanha, cada lado descreve os problemas do país como obra exclusiva do
adversário: a economia que não anda como deveria, o serviço público que falha,
a segurança que preocupa, a divisão entre as pessoas. Ouvindo os discursos,
parece que ninguém jamais teve qualquer participação no que está aí, que as
dificuldades surgiram sozinhas e que só existe um grupo capaz de tê-las
causado. O dedo aponta para a frente, na direção do outro candidato, e o
eleitor é convidado a apontar junto.
Passada a
eleição, o gesto não desaparece, apenas muda de alvo. Quem venceu atribui as
dificuldades que vierem ao que foi herdado, aos obstáculos colocados pela
oposição, às instituições que atrapalham, à imprensa que distorce. Quem perdeu
explica a derrota pelos erros dos outros: o eleitor que não entendeu a
mensagem, a informação que chegou torta, a estrutura que favoreceu o
adversário, a campanha rival que foi injusta. Raramente se ouve, nas noites de
apuração, alguém dizer com simplicidade: "nós erramos neste ponto". E
o eleitor, que assiste a tudo do sofá ou da mesa do bar, completa o ciclo:
culpa os políticos, todos eles, como se o voto de cada um fosse um assunto
separado do resultado final. É uma tentação que alcança todos nós, e é justamente
por ser tão humana que merece ser examinada com calma.
Aqui está o
ponto mais interessante, aquele que dá nome a este texto: nesse jogo, todos são
culpados e todos são inocentes ao mesmo tempo. Todos são culpados porque cada
um aponta o dedo para o outro e o acusa... todos são inocentes porque cada um,
em sua própria narrativa, nunca teve nada a ver com o problema. É um paradoxo e
tanto. Se todos são sempre inocentes em suas próprias versões, de onde vêm
então os problemas? Se a soma de milhões de inocentes resulta em um país com
tantas queixas, alguma coisa nessa conta não fecha. A culpa, quando todos a
repassam adiante como uma batata quente, não desaparece, ela apenas fica sem
dono, e o que não tem dono dificilmente tem conserto.
A psicanálise
ajuda a entender por que esse gesto é tão confortável. Estudos sobre atribuição
mostram que tendemos a explicar nossos acertos por mérito pessoal e nossos
fracassos por circunstâncias externas, enquanto fazemos exatamente o contrário
ao julgar os outros: o fracasso alheio vira defeito de caráter, e o sucesso
alheio vira sorte. Há ainda o mecanismo da projeção, em que depositamos em
outra pessoa aquilo que nos incomoda reconhecer em nós mesmos. Apontar o dedo,
portanto, não é apenas um hábito político; é um recurso de proteção do ego. Dói
menos acreditar que o problema está fora. O preço, porém, é alto: quem nunca
olha para dentro nunca encontra a parte que lhe cabe e, sem encontrá-la, nunca
poderá mudá-la.
Na outra
ponta vem a expressão que abre o título: mea culpa, do latim,
"minha culpa". Ela vem de uma oração antiga em que a pessoa
reconhece, batendo no peito, o próprio erro. Hoje a expressão é usada com certa
leveza e, muitas vezes, de forma retórica, como um pedido de desculpas
protocolar que não altera coisa alguma. Mas o mea culpa verdadeiro não é
humilhação nem autoflagelo... é um ato de maturidade. É dizer: nesta parte do
problema eu participei, e nesta parte posso fazer diferente. Não se trata de
assumir a culpa por tudo, o que seria apenas outra forma de distorção, mas de
separar o que é do outro do que é meu, com honestidade suficiente para não
empurrar tudo para um lado só.
Aplicado ao
cenário político, esse exercício incomoda e, por isso mesmo, é necessário. O
voto é um ato individual com consequências coletivas. Isso significa que, ao
escolher alguém, assumo uma parcela pequena, mas real, de corresponsabilidade
pelo que virá: pelo quanto me informei, pelo quanto desconfiei de promessas
fáceis, pelo quanto cobrei depois. Votar e se desligar por quatro anos,
reaparecendo apenas na hora da queixa, é uma forma elegante de apontar o dedo
para o futuro. Da mesma maneira, quem governa ou legisla precisa aprender que
"a culpa é de quem veio antes" tem prazo de validade, e que prestar
contas não é um favor feito ao eleitor, e sim parte do cargo. Cada um, no seu
lugar, tem uma fatia da responsabilidade, e o país só funciona quando as fatias
são reconhecidas.
Há ainda um
detalhe que o gesto do indicador esconde, e que muita gente já ouviu, mas
poucos aplicam: quando apontamos um dedo para alguém, os outros três dedos da
mesma mão estão apontados para nós. A anatomia, nesse caso, é uma pequena lição
de ética, bastando olhar para a própria mão. O que a síndrome do indicador nos
pede, portanto, não é que deixemos de cobrar, criticar ou de apontar falhas,
pois isso faz parte saudável de qualquer democracia. Pede apenas que o dedo que
aponta para fora venha acompanhado de uma pergunta que aponte para dentro: o
que me cabe nisso?
Então, de
quem é a culpa? Talvez a pergunta esteja mal formulada. Procurar o culpado é
procurar alguém para punir. Procurar a responsabilidade é procurar o que pode
ser feito. Enquanto o Brasil perguntar apenas "de quem é a culpa?",
continuará girando em círculos, com cada lado acusando o outro e todos se
sentindo injustiçados. Quando passar a perguntar "qual é a minha parte, e
o que posso fazer com ela?", talvez descubra que a saída nunca esteve em
um único nome, em um único partido ou em uma única eleição. Esteve, desde
sempre, na mão que aponta, e na coragem de recolher o dedo, ao menos por um
instante, para olhar o que ele apontava de volta.
segunda-feira, 26 de outubro de 2026
MÃOS QUE ORAM: A BELEZA DE NUNCA ESQUECER QUEM NOS AJUDOU A CHEGAR
MÃOS
QUE ORAM:
A BELEZA DE NUNCA
ESQUECER QUEM NOS AJUDOU A CHEGAR
por Heitor Jorge Lau
A
inspiração para esta reflexão nasceu da leitura de “Poesias em Aquarela”,
de Antônio J. Giacomin, obra que apresenta, entre suas páginas, a imagem de “Mãos
que Oram”, associada a uma comovente narrativa sobre sacrifício, amizade e
gratidão. A partir dessa imagem, surge uma questão que ultrapassa os limites de
uma única pintura: quantas histórias podem estar inscritas nas mãos de um
artista plástico? Mãos que aprendem a observar o mundo, experimentam a
resistência dos materiais, descobrem formas e cores, enfrentam dificuldades,
amadurecem com o tempo e transformam sentimentos, lembranças e inquietações em
expressões artísticas. Cada pincelada pode guardar a memória de uma
experiência, cada obra pode carregar fragmentos de uma existência e cada marca
deixada pelo tempo pode revelar o esforço silencioso que tornou possível uma
criação. Por trás daquilo que admiramos em uma tela, existe uma trajetória que
os olhos nem sempre conseguem enxergar: horas de dedicação, renúncias,
descobertas, pessoas que ofereceram apoio e outras que, mesmo sem perceber,
contribuíram para a formação do artista. Contemplar uma obra, portanto, é
também reconhecer que a arte não nasce apenas do talento das mãos, mas de tudo
aquilo que a vida deposita nelas. E, quando procuramos compreender essa
dimensão humana da criação artística, percebemos que algumas das histórias mais
profundas não estão pintadas na superfície da tela, mas permanecem guardadas
nas mãos que a tornaram possível.
Boa leitura!
Existem
obras de arte que ultrapassam a beleza de suas formas e encontram um lugar
permanente na memória humana por seu significado original. Não é apenas o
talento do artista que lhes confere grandeza, mas a história que carregam e os
sentimentos que despertam. Entre elas está a célebre pintura “Mãos que Oram”,
associada ao artista alemão Albrecht Dürer (1471–1528), cuja origem é contada
por meio de uma lenda que, independentemente de sua veracidade histórica,
encerra uma profunda lição sobre a gratidão e os vínculos que construímos ao
longo da vida.
Uma das
versões dessa narrativa remonta à juventude de Dürer, um dos dezoito filhos de
um ourives que vivia nas proximidades de Nuremberg. O jovem Albrecht
compartilhava com um de seus irmãos o sonho de se tornar artista. A família,
entretanto, não dispunha de recursos para custear a formação de ambos, e os
dois irmãos precisavam encontrar uma maneira de superar aquela limitação. Foi
então que conceberam um acordo que mudaria o destino de suas vidas.
Decidiram
lançar uma moeda ao alto para determinar quem teria a oportunidade de estudar
arte. O vencedor partiria para a academia, enquanto o outro trabalharia nas
minas de carvão da região, dedicando-se ao sustento do irmão. Quando os estudos
terminassem, aquele que tivesse alcançado a formação artística assumiria a
responsabilidade de financiar a educação do outro, permitindo-lhe realizar o
mesmo sonho. A sorte favoreceu Albrecht, que partiu para estudar, enquanto seu
irmão se submeteu ao trabalho árduo nas profundezas das minas.
Durante
quatro anos, Dürer dedicou-se intensamente à aprendizagem, demonstrando um
talento extraordinário e conquistando reconhecimento por sua habilidade.
Enquanto isso, o irmão cumpria sua parte no acordo, trabalhando incansavelmente
para custear a formação daquele que havia sido escolhido. Cada jornada nas
minas representava uma contribuição silenciosa para um futuro que ambos haviam
imaginado, mas que apenas um deles, naquele momento, podia perseguir.
Concluídos
os estudos, Albrecht retornou à aldeia natal, já reconhecido por sua
competência artística. A família reuniu-se para celebrar a conquista, e o jovem
artista, em meio à alegria do reencontro, anunciou ao irmão que havia chegado
sua vez de partir para a cidade e realizar o sonho de tornar-se pintor. Afinal,
aquele era o compromisso assumido entre os dois. O que aconteceu em seguida,
porém, transformou a celebração em um dos episódios mais comoventes dessa
narrativa.
Com
lágrimas nos olhos, o irmão revelou que já não poderia seguir o caminho
desejado. Os quatro anos de trabalho nas minas haviam deixado marcas profundas
em suas mãos: ossos quebrados, calosidades, sulcos e deformações provocadas
pelo esforço brutal. Aquilo que antes lhe permitiria manejar com delicadeza os
instrumentos da arte havia sido comprometido de maneira irreversível. Seu sonho
de tornar-se pintor não poderia mais se realizar.
Diante
dessa realidade, o irmão não demonstrou ressentimento. Pelo contrário,
manifestou satisfação por ter contribuído para que Albrecht alcançasse a
posição que ambos haviam desejado. Suas mãos, embora incapazes de executar os
movimentos delicados exigidos pela pintura, haviam cumprido uma tarefa
extraordinária: ajudaram a construir o futuro de outra pessoa. O sacrifício não
fora pequeno, tampouco suas consequências, mas ele reconhecia o valor da
conquista do irmão e encontrava nisso uma razão para se alegrar.
Profundamente
tocado por aquela demonstração de dedicação, Dürer decidiu desenhar as mãos
castigadas do irmão, unidas em uma posição de oração e agradecimento. O
resultado teria sido a imagem que atravessou gerações sob o título “Mãos que
Oram”. A força expressiva do desenho estaria justamente no contraste entre
a delicadeza do gesto e a dureza da vida que aquelas mãos representavam. Não
eram mãos comuns: eram o testemunho de um esforço silencioso, de uma renúncia
profunda e de uma generosidade que não exigia recompensas.
Existe,
contudo, outra versão da lenda. Porém, essa narrativa é o suficiente para germinar
na mente do leitor a reflexão desejada. As duas narrativas apresentam
diferenças quanto à identidade do homem retratado e às circunstâncias que
teriam originado o desenho. Não é necessário, entretanto, decidir qual delas é
verdadeira para compreender a mensagem que ambas procuram transmitir. A
história pode ser examinada como uma lenda de origem, sem que se confunda sua
força simbólica com a comprovação dos fatos históricos. Seu valor reside,
sobretudo, na reflexão que desperta sobre a maneira como reconhecemos aqueles
que contribuíram para nossas realizações.
A imagem
das mãos unidas nos convida a olhar para além do sucesso individual.
Frequentemente, celebramos as conquistas como se fossem resultados exclusivos
de nosso esforço, de nossa inteligência ou de nosso talento. Esquecemos que, em
diferentes momentos da vida, alguém nos ofereceu tempo, conhecimento, trabalho,
incentivo ou oportunidades que tornaram possível avançar. Nem sempre essas
contribuições aparecem publicamente, e muitas delas permanecem invisíveis para
aqueles que contemplam os resultados alcançados. Ainda assim, fazem parte da
história de cada realização.
Há pessoas
cujos nomes jamais serão associados às grandes conquistas que ajudaram a tornar
possíveis. Seus esforços não aparecem em certificados, homenagens ou
biografias. Suas mãos, contudo, estão presentes em muitas das coisas que
admiramos. Reconhecê-las exige sensibilidade para compreender que o mérito
individual não elimina a importância da colaboração, e que a gratidão não
diminui quem a manifesta. Ao contrário, revela a capacidade de reconhecer a
presença do outro em nossa própria trajetória.
É nesse
sentido que “Mãos que Oram” adquire uma dimensão que ultrapassa a religiosidade
sugerida por seu título e sua composição. A imagem pode ser compreendida como
uma expressão universal de reconhecimento, respeito e gratidão. Ela nos lembra
que existem sacrifícios que não podem ser desfeitos, oportunidades que não
podem ser devolvidas e gestos de generosidade que nenhuma recompensa material
consegue compensar integralmente. Diante deles, resta-nos preservar a memória,
honrar a contribuição recebida e impedir que o esquecimento apague a
importância de quem caminhou conosco.
Seja qual
for a versão da lenda, permanece uma verdade humana que merece ser preservada:
ninguém constrói sozinho tudo aquilo que a vida lhe permite realizar. Em algum
momento, nossas conquistas carregam a participação de pessoas que acreditaram
em nós, que assumiram responsabilidades, que compartilharam dificuldades ou que
aceitaram renúncias para nos oferecer melhores condições de seguir adiante.
Reconhecer essa presença é uma forma de justiça, mas também uma expressão de
maturidade e humanidade.
A maior
beleza das mãos retratadas não está apenas na posição em que foram desenhadas,
mas naquilo que simbolizam: a possibilidade de transformar o sacrifício em
generosidade, a lembrança em reconhecimento e o sucesso em motivo de gratidão.
São mãos que, mesmo marcadas pelo sofrimento, não perderam a capacidade de
expressar afeto. Mãos que contam uma história sem precisar de palavras. Mãos
que nos recordam que a grandeza de uma pessoa não se mede somente pelo que
consegue realizar, mas também pela maneira como reconhece aqueles que
contribuíram para sua caminhada.
No fim, a
lição permanece simples e profunda: nunca devemos esquecer as mãos que nos
ajudaram a chegar onde estamos. Algumas nos ensinaram, outras nos sustentaram;
algumas abriram caminhos, outras trabalharam silenciosamente para que
pudéssemos percorrê-los. Todas merecem ser lembradas com respeito. Porque o
verdadeiro valor de uma conquista também está na gratidão que somos capazes de
conservar por aqueles que fizeram parte dela.
VIDA - UMA QUESTÃO DE PERSPECTIVA
“Há grandes chances de o seu ponto de vista não ser o único
possível!” - Carl Sagan
A frase do renomado astrônomo científico Carl Sagan nos
convida a uma reflexão profunda sobre a humildade intelectual e a abertura para
perspectivas diversas. Em um mundo cada vez mais polarizado, onde opiniões se
cristalizam e o diálogo muitas vezes dá lugar à intolerância, a mensagem de
Sagan ressoa como um lembrete essencial: nossa visão de mundo, por mais
fundamentada que pareça, é apenas uma entre muitas.
METONÍMIA e ROTULAGEM: ANTES DO RÓTULO, HAVIA ALGUÉM
ANTES DO RÓTULO,
HAVIA ALGUÉM
Sobre a pessoa, a
profissão e o posicionamento político
por Heitor Jorge Lau
Há uma cena
banal que se repete todos os dias, em conversas de bar, reuniões de trabalho e,
sobretudo, nas redes sociais. Alguém menciona um nome e, antes que a frase
termine, o interlocutor já decidiu quem é aquela pessoa: “ah, é professor”,
“ah, é de direita”, “ah, é daquele partido”. Em poucos segundos, um ser humano
inteiro foi arquivado numa gaveta com etiqueta. A pergunta que merece ser feita
é simples e, justamente por isso, desconfortável: quando falamos de alguém, de
quem estamos realmente falando? Sobre a pessoa, sobre a sua profissão ou do seu
posicionamento político?
A resposta
mais honesta - do ponto de vista filosófico e linguístico - é que um nome
próprio aponta para um indivíduo inteiro, com biografia, afetos, medos,
contradições e uma história que ultrapassa qualquer papel que ele desempenhe.
Quando dizemos “João”, não estamos dizendo “o contador” nem “o eleitor de tal
candidato”. Profissão e convicção política são atributos de alguém, não o
alguém em si. Um médico é uma pessoa que exerce a medicina; um militante é uma
pessoa que abraçou certas ideias. O atributo descreve, mas não esgota. Essa
distinção parece óbvia quando enunciada com calma, e, no entanto, é violada com
uma naturalidade assustadora no dia a dia.
O mecanismo
dessa violação é conhecido. Trata-se da METONÍMIA e da ROTULAGEM:
tomamos a parte pelo todo e deixamos que a categoria fale no lugar do
indivíduo. Expressamos “os médicos pensam assim”, “os professores são todos
iguais”, “os eleitores daquele lado fazem aquilo”, e a pessoa concreta
desaparece atrás do grupo abstrato. Há, é verdade, uma economia cognitiva
nisso, porque o mundo é complexo e o rótulo simplifica. Mas o preço da
simplificação é alto. O rótulo apaga a singularidade, atribui a cada um tudo o
que se associa ao coletivo e transforma o debate de ideias em um confronto de
identidades. Quem é reduzido ao rótulo deixa de ser ouvido pelo que diz e passa
a ser lido pelo que supostamente representa.
Convém,
contudo, separar dois planos. No plano descritivo, mencionar a profissão ou a
posição política de alguém é perfeitamente legítimo quando isso é relevante ao
assunto em questão. Se discutimos uma sentença, é pertinente falar da juíza; se
analisamos um voto no parlamento, é pertinente falar do partido do parlamentar.
O problema nasce no plano valorativo, quando o atributo deixa de ser
informação e vira argumento. “Isso é coisa de empresário”, “só poderia vir de
um professor universitário”: nessas frases, ninguém examina o que foi dito,
apenas desqualifica-se quem disse. É a velha falácia ad hominem, que
avalia o falante em vez da fala. E o caminho inverso é igualmente enganoso, o
argumento de autoridade, em que o atributo serve de escudo: “ele é doutor, logo
está certo”. Nos dois casos, o rótulo ocupa o lugar que deveria pertencer à
razão.
Seria um
erro, porém, concluir que profissão e política são camadas superficiais, que a
pessoa veste e despe como um casaco. Para muita gente, ser professor, militar,
enfermeiro ou militante não é apenas o que faz... é quem é. São escolhas que
moldam rotinas, vínculos, vocabulário e até a forma de enxergar o mundo. Tratar
esses elementos como descartáveis também seria uma injustiça, porque negaria
algo que a própria pessoa considera essencial em sua trajetória. A questão,
portanto, não é negar que tais atributos compõem alguém, e sim reconhecer que
compõem sem esgotar. Uma pessoa pode ser coerente em suas convicções e, ainda
assim, surpreender, mudar de ideia, discordar do próprio grupo e agir de modo
que nenhum rótulo previa. A coerência de um indivíduo é maior e mais
interessante do que a coerência de qualquer categoria.
Há aqui,
ainda, uma dimensão que toca diretamente o problema da interpretação. Quando
lemos ou ouvimos alguém já munidos de um rótulo, aplicamos uma intenção
presumida ao discurso antes mesmo de compreendê-lo. Em vez de interpretar o que
foi dito, projetamos o que esperávamos ouvir. Umberto Eco, ao refletir sobre os
limites da interpretação, lembrava que um texto não pode ser transformado em
qualquer coisa que o leitor deseje, que há um ponto em que a leitura precisa
ser contida por aquilo que o texto efetivamente diz. Com as pessoas ocorre algo
semelhante. O rótulo funciona como uma chave de leitura imposta de fora, uma “sobreinterpretação”
que faz a fala do outro caber, à força, na caixa que já tínhamos preparado.
Ouvimos o que o rótulo prometia, não o que a pessoa disse.
O ambiente
digital agrava esse quadro. As redes sociais premiam a identificação rápida de
lados, recompensam a frase de efeito e punem a nuance. Cada perfil é lido em
segundos, classificado em segundos e, em segundos, aceito ou condenado. Nessa
lógica, quem se apresenta como “fulano, professor, de direita” ou “beltrana,
advogada, de esquerda” oferece, voluntariamente, o crachá com o qual será lido.
Seria isso uma autorização para que o reduzam ao crachá? Penso que não. Quem se
apresenta por um rótulo está dizendo de onde fala, não renunciando ao direito
de ser compreendido além dele. Apresentar-se não é render-se à classificação
alheia.
Existe, por
fim, uma maneira honesta de criticar ideias, instituições e grupos sem atingir
injustamente os indivíduos que os compõem. Ela exige um esforço que o rótulo
dispensa: o de ouvir antes de classificar, perguntar antes de presumir, e de refutar
o argumento e não o argumentador. É mais trabalhoso, sem dúvida, porque obriga
a reconhecer que o outro é complexo tanto quanto nós mesmos. Mas é também o
único caminho para um debate que produza compreensão, e não apenas ruído.
Enfim,
quando nos referimos a uma pessoa, referimo-nos a ela, inteira, com tudo o que
a torna única, inclusive a profissão que exerce e as ideias que defende, mas
sem nunca nos limitarmos a essas marcas. Tratar alguém como pessoa antes de
tratá-lo como representante de uma categoria é um ato de justiça e de
generosidade intelectual. Antes do rótulo, havia alguém. E o maior
desafio é lembrar disso, justamente quando o rótulo é mais conveniente do que a
conversa.
sábado, 24 de outubro de 2026
O VERNIZ DA CIVILIZAÇÃO
O VERNIZ DA
CIVILIZAÇÃO
O Senhor das Moscas e
a natureza que insistimos em esquecer
por Heitor Jorge Lau
Há obras
que envelhecem e há obras que apenas esperam. O Senhor das Moscas pertence ao
segundo grupo: a cada geração ele volta a ser atual, não porque o mundo se
parece com uma ilha deserta, mas porque nós continuamos a ser quem somos.
Retomo estas reflexões, que publiquei há um ano, por uma razão simples: as
pessoas parecem ter esquecido de que carregam dentro de si uma natureza
primitiva, e quem esquece o que é costuma ser surpreendido pelo que faz.
Os
comentários que seguem nascem da observação do filme à luz da Filosofia, mas
logo ficou claro que ela, sozinha, não bastaria. A riqueza de situações, com
atitudes individuais e coletivas, proativas e reativas, racionais e
irracionais, exigiu um passeio pela psicologia, pela sociologia e pela
antropologia. A diversidade de detalhes comportamentais é tão ampla que um
olhar restrito aos aspectos filosóficos, ainda que fortemente presentes,
deixaria escapar metade do que a história revela.
O que se vê
na tela é a exposição dos instintos mais antigos da condição humana: a desordem
social, a disputa pelo poder, o domínio do fogo, o impulso de caçar, a urgência
de sobreviver. Não seria exagero tratá-lo como uma Guerra do Fogo vivida em
tempos modernos. Que o elenco seja formado por garotos pré-adolescentes,
vestidos com resquícios de uniformes militares, importa menos do que parece.
Para esta análise, interessam as atitudes e o aprendizado que delas se extrai,
não a idade de quem as protagoniza.
Praticamente
todas as sociedades constroem hierarquias nas quais alguns recebem poder e
autoridade sobre os demais. Na nossa, pais, diretores de escola, gerentes e até
amigos exercem diferentes graus de autoridade, e a relação entre quem manda e
quem obedece raramente se dá sem conflito moral. A história de Abraão, a quem
Deus ordenou o sacrifício do filho Isaac, ilustra o dilema com força incomum:
ele amava a Deus e amava o filho, e viu-se numa posição em que parecia obrigado
a trair um dos dois. Até onde deve ir a obediência?
O mesmo
conflito aparece, em versão sombria, quando soldados recebem ordem de matar
civis indefesos. Foi o que ocorreu na Guerra do Vietnã, quando o tenente Calley
mandou massacrar moradores de My Lai e se defendeu dizendo que apenas obedecia
a ordens superiores, "cumprindo o seu dever". De um lado, a
disciplina militar; de outro, o respeito pela vida humana. O exemplo mostra a
disposição das pessoas de ir a extremos para ser obedientes. E não precisamos
de um campo de batalha para reconhecê-la: basta observar como colaboradores se
comportam diante de chefes que dizem e fazem coisas evidentemente erradas, e
como existe uma relutância generalizada em contestá-los.
A cultura
insiste nessa lição porque acredita que uma sociedade eficiente e organizada
depende de uma hierarquia estável, e procura garantir a obediência dando ao
indivíduo obediente um lugar na estrutura. Entregamos a saúde ao médico, as
finanças ao contador, e precisamos confiar nas opiniões de várias figuras de
autoridade para que a vida funcione. É exatamente isso que os garotos do filme
retratam: um impulso difícil de controlar, uma necessidade quase inconsciente
de submeter-se a quem parece mandar. Chamo isso de efeito manada, e ele não
precisa de ilha alguma para operar.
Há ainda um
detalhe que não deve passar despercebido: toda a trama acontece num ambiente
hostil, sem as leis sociais que regulam a moral, a ética e os bons costumes.
Pode não parecer evidente, mas o contexto geográfico valida ou rejeita
determinadas ações. Qualquer homem oferece o pescoço a alguém munido de uma
navalha numa barbearia; ninguém faria o mesmo numa sapataria. O cenário diz o
que é aceitável antes mesmo de alguém falar.
Misture o
ambiente errado com a influência inadequada e teremos a receita da capacidade
humana de abandonar a própria humanidade, à medida que a personalidade singular
se dissolve em estruturas institucionais defeituosas. Talvez seja esse o
defeito de fábrica com que a natureza nos dotou, e que, a longo prazo, dá à
nossa espécie apenas uma modesta chance de sobreviver. Pessimismo ou não, basta
lembrar Darwin: compartilhamos ancestrais com os animais mais primitivos, e
essa herança vale tanto para o cérebro, berço da razão e da sensação, quanto
para qualquer outra parte do corpo. Como o assunto aqui é comportamento,
deixemos de lado o que fica do pescoço para baixo.
A ciência
identificou duas estruturas cerebrais decisivas. O sistema límbico, também
chamado de Paleocórtex, é a parte mais antiga e governa a expressão das
emoções. O Neocórtex, a massa cinzenta que surgiu depois, é o que distingue o
homem dos demais animais: permite o raciocínio lógico, a linguagem complexa e a
superação das barreiras da evolução puramente biológica. Herdamos mais do que
genes; herdamos as culturas complexas que nós mesmos criamos. Há comunicação
entre as duas partes, mas cada uma cumpre funções próprias, e nenhuma tentativa
de explicar a natureza humana prospera se ignorar essa diferença.
O ponto
crucial é que o raciocínio e a linguagem derivam de uma estrutura posterior e
separada, e por isso têm pouco poder sobre o sistema límbico e sobre as emoções
que ele comanda. É provável que aí esteja a explicação para a migração dos
garotos do filme: de um imaginário moral e eticamente correto para um mundo em
que a luta pela sobrevivência passou a mandar.
Se a ilha
do filme parece distante, basta olhar para o debate político brasileiro dos
últimos anos. Sem que ninguém tenha sido abandonado numa praia deserta, o país
se dividiu em grupos que mal se reconhecem como parte da mesma comunidade. Cada
um tem a sua fogueira, o seu chefe, a sua concha que dá o direito à palavra, e
a sua certeza de que o outro lado é a fera escondida na mata. O desacordo, que
é a substância normal da vida democrática, foi substituído pela hostilidade.
Opinião virou identidade, e quem discorda deixou de ser adversário para
tornar-se inimigo.
O mecanismo
é o mesmo que o filme escancara. O indivíduo que é capaz de ponderar, em sua
vida privada, com a calma do Neocórtex, entrega-se em grupo ao comando do
sistema límbico: medo, raiva, orgulho tribal, necessidade de pertencer. Passa a
repetir o que a sua manada repete, a aplaudir sem examinar e a condenar sem
ouvir. A obediência a líderes e narrativas, que antes vimos em Abraão e no
tenente Calley, reaparece sob a forma de fidelidade cega a figuras políticas e
a correntes de opinião, e a falha, quando há, é sempre do outro. Num ambiente
em que cada lado afirma defender a civilização contra a barbárie, ambos acabam
cometendo, com a consciência tranquila, as pequenas barbáries do cotidiano: o
insulto, a mentira repassada sem checagem, o rompimento de amizades e a quebra
de laços familiares.
Vale
lembrar o que vimos há pouco sobre a distância da vítima. As redes sociais, que
dominam o debate, ampliam justamente o que favorece a crueldade: não enxergamos
o rosto de quem é atingido pela palavra. Sem testemunhar o sofrimento, a
obediência ao grupo prevalece sobre a compaixão. O ambiente, repito, também
decide: a arena digital, sem as regras de conduta de uma conversa face a face,
é a ilha, e nela muita gente se comporta de um modo que jamais adotaria numa
mesa de jantar.
Quem lê
isto talvez queira apontar o dedo para um lado, ou para o outro. Esse é
exatamente o reflexo que o filme denuncia. A política não é o problema; o
problema é o que fazemos com ela quando deixamos de pensar. A posição de cada
um é um direito, e defendê-la com firmeza é legítimo. Perder a capacidade de
reconhecer a humanidade de quem pensa diferente é que é o primeiro passo rumo à
selvageria.
Conflitos
extremamente poderosos surgem quando alguém é levado por uma autoridade a
cometer atos imorais, e a tensão resultante pode ser quase intolerável. A
obediência tende a prevalecer quando o indivíduo se sente mais ligado à figura
de autoridade do que à vítima; a desobediência aparece quando ele testemunha o
sofrimento de quem está sendo atingido. Proximidade com a dor alheia, portanto,
é um dos poucos freios que conhecemos.
Sobram,
então, perguntas que cada leitor pode levar consigo. Somente situações extremas
fazem aflorar nossos instintos mais primitivos, ou bastam um grupo, um líder e
um inimigo comum? Ou seríamos selvagens em nosso cotidiano, de forma
institucionalizada, sem que a palavra "selvageria" nos ocorra? Resta
refletir sobre elas e sobre tantas outras situações que atrapalham o nosso
desenvolvimento social. Quem sabe, um dia, as pessoas deixem de ser candidatas
e passem à categoria efetiva de seres humanos, no sentido mais verdadeiro da
palavra.
A FORÇA QUE VEM DO RECONHECIMENTO
Cada acesso representa mais do que um número: é o encontro entre uma ideia e alguém disposto a conhecê-la. A todos que acompanham minhas publicações, leem, compartilham e ajudam a manter vivo este espaço de conhecimentos e reflexões, deixo meu sincero agradecimento. É essa presença que me incentiva a continuar escrevendo, pesquisando e compartilhando ideias sobre a natureza, a sociedade, a ciência, a política, a filosofia e tantos outros temas que merecem nossa atenção.
Seguimos juntos, porque o conhecimento ganha sentido quando encontra quem esteja disposto a refletir.
Minha gratidão a todos vocês! ❤️
quinta-feira, 22 de outubro de 2026
A PIRÂMIDE DE MASLOW E AS NECESSIDADES DE CADA LADO DA POLARIZAÇÃO
A
PIRÂMIDE DE MASLOW
E AS NECESSIDADES
DE CADA LADO DA POLARIZAÇÃO
por Heitor Jorge Lau
A Pirâmide
de Maslow, proposta pelo psicólogo Abraham Maslow em 1943, organiza as
motivações humanas em degraus: as necessidades fisiológicas, como alimentação e
abrigo; as de segurança; as de pertencimento; as de estima e reconhecimento; e,
no alto, a autorrealização. A ideia central é simples e poderosa: enquanto o
degrau mais básico não está minimamente atendido, ele ocupa o centro da
atenção, e só depois de satisfeito é que o olhar se volta para o seguinte.
Poucas vezes essa ideia pareceu tão presente quanto agora, em uma sociedade
dividida entre a direita e a esquerda radicalizadas. Sem querer generalizar,
até porque isso seria um raciocínio burro e radical, as necessidades daqueles
que se posicionam radicalmente à direita parecem ser diferentes das daqueles
que se posicionam à esquerda. É nesse ponto do embate que Maslow se faz
presente.
Tenho um
exemplo muito pessoal disso. Há muito tempo, houve um momento em que eu
necessitava, ou simplesmente desejava, um carro. Depois de conquistá-lo, o
desejo seguinte passou a ser um lugar próprio para morar, e do carro eu já não
pensava mais, pelo menos não com a mesma urgência. E assim foi, a cada nova
conquista, que podemos chamar de uma melhora de vida. A aquisição anterior
jamais era esquecida; apenas deixava de ser lembrada como falta e deixava de
ser desejada como meta. Não era descartada, era "guardada" no baú das
lembranças. O degrau já vencido continuava ali, sustentando os demais, mas a
atenção seguia adiante.
Se levarmos
essa lógica para o debate político, algo se esclarece. Quem vive a incerteza do
prato de comida, do emprego, do aluguel ou do atendimento de saúde tende a
enxergar o mundo a partir da base da pirâmide e a valorizar o que garante um
piso mínimo de dignidade. Quem já superou essa etapa e construiu algum
patrimônio, algum espaço, alguma estabilidade, tende a voltar a atenção para o
degrau seguinte: a proteção do que conquistou, a segurança, a liberdade para
empreender, o reconhecimento pelo próprio esforço. Cada um olha para a política
da altura em que se encontra na pirâmide, e por isso pede ao Estado coisas
diferentes. Nada disso é uma regra rígida. Há pessoas pobres com valores
conservadores e pessoas ricas com sensibilidade social, e o próprio modelo de
Maslow, mais tarde criticado e relativizado, nunca foi uma escada que todos
sobem na mesma ordem. Ele descreve momentos de vida, não identidades
ideológicas.
O problema
surge quando a polarização transforma degraus em trincheiras. Quem está embaixo
e olha para cima passa a acusar o outro de egoísmo e de insensibilidade, e quem
está em cima e olha para baixo passa a acusar o outro de acomodação e de
ingratidão. Ambos tomam o degrau em que se encontram pelo mapa completo da
realidade. Esquecem que quase todos já estiveram, ou podem vir a estar, em
outro nível, e que a vida, como mostra o meu baú de lembranças, é feita de
passagens, não de lugares fixos.
Chego,
então, à questão central do tema: as necessidades de uns não invalidam as
necessidades de outros. Não me refiro a serem as mesmas necessidades, mas às
necessidades básicas, por assim dizer, aquelas sem as quais nenhum degrau
superior se sustenta. Quem luta por comida e moradia não está pedindo demais, e
quem luta por segurança, liberdade e reconhecimento também não está pedindo de
menos. Reconhecer a legitimidade da necessidade alheia não exige abrir mão da
própria; exige apenas admitir que a pirâmide é de todos, e não de uma facção.
Há ainda um
segundo aspecto, que me parece decisivo. As duas visões sempre irão se
complementar, e não me refiro às necessidades propriamente ditas, mas ao
equilíbrio entre o empenho em proporcionar tudo para todos, independentemente
da classe social ou do posicionamento em que cada cidadão se encontra. Uma
sociedade saudável precisa de um piso firme, que impeça que alguém caia abaixo
do mínimo, e de um teto aberto, que permita a quem deseja crescer chegar mais
alto. Sem o piso, a liberdade vira privilégio de poucos; sem o teto, a proteção
vira estagnação. Defender apenas um dos dois é enxergar metade da pirâmide.
Se cada
lado conseguir olhar para o degrau do outro com o mesmo respeito com que
gostaria que olhassem para o seu, o embate deixa de ser uma guerra de
necessidades e passa a ser aquilo que a democracia sempre pretendeu ser: a
busca conjunta de um modo de garantir que todos, em qualquer ponto da pirâmide,
tenham as condições de seguir adiante.
ENTRE A SOMBRA DE MEIN KAMPF DE ADOLF HITLER E OS RISCOS DA POLÍTICA BRASILEIRA
ENTRE
A SOMBRA DE MEIN KAMPF DE ADOLF HITLER
E OS RISCOS DA
POLÍTICA BRASILEIRA
por Heitor Jorge Lau
A história
não se repete necessariamente com os mesmos personagens, os mesmos métodos ou
as mesmas circunstâncias. O que ela faz, com inquietante frequência, é oferecer
padrões que permitem reconhecer os perigos de determinadas escolhas políticas
antes que suas consequências se tornem irreversíveis. É sob essa perspectiva
que a leitura de Mein Kampf, obra em que Adolf Hitler expôs suas ideias, seus
ressentimentos e seu projeto de poder, pode provocar reflexões sobre o cenário
político brasileiro e, particularmente, sobre as tensões envolvendo o Supremo
Tribunal Federal (STF).
O livro de
Hitler não deve ser analisado apenas como um registro histórico do nazismo, mas
também como um exemplo de como o discurso político pode ser utilizado para
mobilizar ressentimentos, fabricar inimigos, simplificar problemas complexos e
transformar divergências em conflitos entre aqueles que seriam considerados
legítimos e aqueles que deveriam ser combatidos. Sua trajetória demonstra como
a manipulação da opinião pública, o culto à liderança e a exploração do medo
podem contribuir para enfraquecer as instituições democráticas. É importante,
entretanto, reconhecer que a Alemanha da República de Weimar e o Brasil
contemporâneo possuem contextos históricos, institucionais e sociais distintos.
A comparação é útil quando ilumina mecanismos de poder, não quando transforma
realidades diferentes em equivalentes históricos.
No Brasil,
a polarização política tem contribuído para um ambiente no qual parcelas da
sociedade passaram a interpretar as instituições a partir de suas preferências
ideológicas. O mesmo acontecimento pode ser considerado legítimo por um grupo e
inaceitável por outro, dependendo de quem se beneficia de determinada decisão.
Nesse ambiente, o debate racional cede espaço à fidelidade política, e a
análise dos fatos frequentemente é substituída pela necessidade de defender o
próprio lado. Quando isso acontece, perde-se uma condição fundamental da
democracia: a disposição de submeter os próprios aliados aos mesmos critérios
de avaliação aplicados aos adversários.
É nesse
contexto que o Supremo Tribunal Federal ocupa uma posição especialmente
delicada. Como guardião da Constituição, o STF desempenha uma função
indispensável à preservação do Estado Democrático de Direito. Sua independência
diante dos demais Poderes é necessária, mas não o coloca acima da crítica
pública. Pelo contrário, quanto maior a relevância de uma instituição para o
equilíbrio democrático, maior deve ser a exigência de fundamentação de suas
decisões, transparência, respeito aos limites constitucionais e mecanismos
efetivos de responsabilização. Questionar decisões judiciais, discutir a
extensão das competências dos ministros e exigir coerência jurídica não
constitui, por si só, uma ameaça à democracia. A crítica fundamentada é parte
essencial dela.
O perigo
começa quando a defesa de qualquer instituição se transforma em fidelidade
incondicional, ou quando sua contestação abandona os argumentos jurídicos e
passa a tratar seus integrantes como inimigos que precisam ser eliminados do
debate público. A mesma cautela vale para os Poderes Executivo e Legislativo,
para os partidos políticos e para as lideranças que reivindicam representar a
vontade popular. Nenhum deles possui legitimidade para reivindicar uma
autoridade ilimitada. A democracia não depende da infalibilidade de seus
representantes, mas da existência de limites que impeçam qualquer pessoa ou
instituição de concentrar poder sem controle.
Uma das
lições mais inquietantes do nazismo é que a erosão democrática não depende
exclusivamente da violência explícita. Ela também pode avançar por meio da
normalização de discursos autoritários, da desumanização dos adversários, propagação
sistemática de falsidades e aceitação de que determinados fins justificariam a
violação das regras. Hitler explorou o ressentimento e a instabilidade de sua
época para apresentar a concentração de poder como solução para os problemas
alemães. O resultado foi a destruição progressiva das liberdades, a perseguição
de grupos inteiros e a implantação de um regime responsável por crimes de
proporções históricas.
Isso não
significa afirmar que o STF brasileiro seja equivalente ao regime nazista, nem
que toda decisão controversa represente um passo em direção ao totalitarismo.
Uma analogia séria exige distinguir acontecimentos, intenções, instituições e
consequências. O valor da comparação está em identificar sinais de alerta: a
intolerância à divergência, a tentativa de deslegitimar toda oposição, a
utilização seletiva das regras, a concentração de autoridade e a disposição de
sacrificar direitos fundamentais em nome de uma suposta causa superior.
O Brasil
precisa compreender que a democracia não se resume à realização de eleições.
Ela também exige instituições independentes, imprensa livre, oposição legítima,
liberdade de expressão, devido processo legal e respeito às garantias
constitucionais. Esses princípios devem valer para todos, inclusive para
aqueles cujas ideias rejeitamos. Não existe compromisso democrático verdadeiro
quando se exige liberdade para os próprios aliados e se considera aceitável
restringi-la aos adversários.
A leitura
de Mein Kampf serve, portanto, menos para procurar um Hitler contemporâneo em
cada liderança política e mais para compreender como sociedades podem ser
conduzidas à intolerância quando abandonam o pensamento crítico. O risco não
está apenas no aparecimento de um governante autoritário, mas também na
disposição coletiva de justificar abusos quando eles parecem favorecer convicções.
Diante do
cenário brasileiro, a pergunta decisiva não é se o STF está sempre certo ou
sempre errado. É se estamos dispostos a exigir de todas as instituições o mesmo
compromisso com a Constituição, legalidade, transparência e os direitos
fundamentais. Se a resposta depender da identidade ideológica de quem exerce o
poder, o problema já ultrapassou os limites de uma disputa partidária.
A história
ensina que nenhuma democracia está protegida apenas por sua Constituição
escrita. Ela depende de cidadãos capazes de desconfiar dos discursos fáceis,
reconhecer os próprios preconceitos e defender princípios mesmo quando isso
contraria suas preferências políticas. A liberdade não se preserva pela
submissão a líderes, partidos ou tribunais, mas pela vigilância crítica sobre
todos eles. Enfim, quando a convicção política se torna mais importante do que
a verdade, e quando a lealdade a um grupo vale mais do que os princípios que
deveriam limitar o poder, a sociedade começa a abrir mão justamente daquilo que
acredita estar defendendo: a própria democracia.
quarta-feira, 21 de outubro de 2026
CETICISMO E ATEÍSMO: DÚVIDA NÃO É DESCRENÇA
CETICISMO E
ATEÍSMO: DÚVIDA NÃO É DESCRENÇA
por Heitor Jorge Lau
No texto
que redigi anteriormente, expliquei o significado de “pessimismo” e “realismo”.
Lembrei-me, então, de outros dois termos de que comumente ouço falar: ceticismo
e ateísmo. Já me perguntaram, inclusive, se eu era ateu. Vamos, pois, às
devidas explicações.
Ceticismo e
ateísmo se confundem porque ambos costumam aparecer juntos na mesma pessoa e
porque o senso comum associa "duvidar" a "não acreditar em
Deus". Mas as duas palavras respondem a perguntas diferentes. O ceticismo
diz respeito a como alguém forma suas convicções, enquanto o ateísmo diz
respeito a uma convicção específica, a de que não há deuses.
A palavra
"cético" vem do grego skeptikós, que significa "aquele
que examina". Na Antiguidade, filósofos como Pirro e, mais tarde, Sexto
Empírico propunham suspender o juízo (a epoché) diante de afirmações que
não podem ser sustentadas por razões suficientes. Em sua forma mais radical,
isso valia para quase tudo. Na versão moderna, mais comum, o ceticismo virou
uma atitude de exigir evidências proporcionais à força da afirmação, aplicada a
qualquer assunto: medicina alternativa, horóscopo, notícias, promessas de
investimento, teorias da conspiração. Nesse sentido, o cético é alguém que
pergunta "como você sabe disso?" antes de concordar.
"Epoché"
é uma palavra grega que significa "suspensão" ou
"contenção". Na filosofia cética, ela designa o ato de não aceitar
nem rejeitar uma afirmação, deixando o juízo em aberto. Quem pratica a epoché
não diz "isso é verdade" nem "isso é falso", mas "por
enquanto não tenho razões suficientes para decidir".
A ideia
aparece em Pirro de Élis, filósofo do século IV a.C., e foi sistematizada
séculos depois por Sexto Empírico, em obras como os Esboços Pirrônicos. O
raciocínio deles partia de uma observação: para quase toda afirmação sobre como
as coisas realmente são, é possível encontrar um argumento contrário de força
semelhante. Os céticos chamavam isso de equipolência, ou seja, razões que se
equilibram como pesos numa balança. Quando as razões a favor e contra se
equivalem, qualquer decisão parece arbitrária, e o caminho mais honesto é
suspender o juízo.
Um exemplo
cotidiano ajuda: imagine duas testemunhas igualmente confiáveis que contam
versões opostas de um acidente. Enquanto não surgir um fato novo, como uma
gravação ou uma perícia, a atitude racional é não bater o martelo. Isso é a epoché
em pequena escala: não é ignorância nem preguiça, mas uma recusa consciente de
concluir além do que as evidências permitem.
Convém
notar que essa suspensão não leva à paralisia nem à afirmação de que nada pode
ser conhecido. Os céticos pirrônicos faziam questão de distinguir sua posição
da de outros filósofos, os da chamada Academia Cética, que declaravam ser
impossível o conhecimento. Para Sexto Empírico, isso já seria uma tese
dogmática, só que negativa. O cético de verdade continua investigando, e é por
isso que o nome vem de "aquele que examina". Na vida prática, ele segue
as aparências, os costumes e as necessidades do dia a dia: o mel lhe parece
doce, ele come quando tem fome e respeita as leis da cidade. O que ele evita é
afirmar, com certeza metafísica, como as coisas são em si mesmas.
Havia
também um objetivo de fundo. Os pirrônicos observaram que a ansiedade de quem
briga para ter certezas, e sofre quando elas são contestadas, costuma
desaparecer em quem suspende o juízo. Eles chamavam esse estado de Ataraxia,
a tranquilidade do espírito. A suspensão, portanto, era vista não só como uma
conclusão intelectual, mas como um caminho para viver com mais serenidade.
No uso
moderno, a ideia sobrevive de forma mais branda. O cético atual não suspende o
juízo sobre tudo, mas o faz de modo provisório diante de afirmações que carecem
de evidência suficiente, e está disposto a revisá-lo quando surgirem dados
novos. A epoché, nesse sentido, é uma pausa antes da conclusão, não uma
recusa permanente de concluir.
O ateísmo,
por sua vez, trata de um único tema. Em sentido amplo, é a ausência de crença
em divindades, e em sentido mais estrito é a afirmação de que elas não existem.
Perceba que o ateu pode chegar a essa posição por vários caminhos, alguns
bastante rigorosos. Existem ateus que examinaram argumentos com muito cuidado,
e há ateus que simplesmente herdaram a descrença da família ou do meio social,
sem jamais terem questionado outras crenças que sustentam, como superstições,
teorias da conspiração ou fé cega em alguma ideologia. Ser ateu não torna
ninguém automaticamente cético.
O inverso
também vale. Existem pessoas religiosas e céticas ao mesmo tempo, porque
aplicam a dúvida metódica à política, à ciência e à imprensa e, ainda assim,
mantêm uma crença religiosa que consideram fora do alcance da prova, como
aquelas que a tratam como questão de fé e não de evidência. Pensadores como
Pascal e Montaigne, cada um à sua maneira, combinaram um olhar muito crítico
sobre a capacidade da razão com uma postura religiosa. Além disso, o próprio
cético rigoroso costuma desconfiar também do ateísmo dogmático, quando este se
apresenta como certeza absoluta, porque a ausência de evidência não é, por si
só, prova de ausência.
Há ainda um
terceiro termo que costuma entrar na confusão, o agnosticismo. Foi cunhado por
Thomas Huxley no século XIX e se refere ao conhecimento, não à crença:
agnóstico é quem entende que não é possível saber se há ou não um deus. Ele é
mais próximo do ceticismo do que o ateísmo, mas ainda assim é uma posição
específica sobre um tema específico, ao passo que o ceticismo é uma postura bem
mais ampla. Aliás, é possível ser ao mesmo tempo ateu e agnóstico, quando se
vive sem crer em deuses, mas se admite que não há como provar a inexistência
deles.
Em resumo,
o ceticismo é um método, uma disposição de examinar antes de aceitar, e o
ateísmo é uma conclusão a respeito de um assunto determinado. Chamar o cético
de ateu é parecido com o equívoco do texto anterior, quando se chama o realista
de pessimista: toma-se a atitude que examina pelo resultado que alguns, e só
alguns, tiram dela.
PESSIMISMO E REALISMO: QUAL A DIFERENÇA?
PESSIMISMO E
REALISMO: QUAL A DIFERENÇA?
por Heitor Jorge Lau
Hoje, ao
término de uma conversa sobre o futuro da humanidade, fui rotulado como
pessimista. Salientei que sou realista, o que é bem outra coisa, mas parece que
de nada adiantou, pois a pessoa afirmou: “Dá na mesma!”. Então vamos às devidas
explicações.
Pessimismo
e realismo se confundem porque ambos costumam enxergar o que dá errado, mas
partem de lugares muito diferentes. O pessimista tem uma expectativa de
fracasso que vem antes dos fatos: ele já decidiu que o resultado será ruim e
passa a recolher evidências que confirmem essa convicção. É uma disposição de
ânimo, uma lente que escurece tudo. O realista, ao contrário, tenta ajustar sua
expectativa ao que os dados permitem concluir. Se as evidências apontam risco,
ele fala em risco; se apontam oportunidade, ele fala em oportunidade. Sua
atitude é de conferência, não de torcida a favor ou contra.
Por isso o
realista pode soar pessimista num ambiente onde o otimismo virou obrigação
social. Quando todos esperam entusiasmo, quem pergunta "e se isso não der
certo?" ou "quanto isso realmente custa?" parece estar remando
contra. Mas fazer a pergunta incômoda não é desejar o pior. É o que um
engenheiro faz ao calcular a carga de uma ponte: ninguém diz que ele é
pessimista por prever que o material pode ceder, porque é justamente essa
previsão que permite construir algo que não caia. O realismo é, em boa medida,
uma forma de cuidado com o resultado.
Há também
uma diferença importante na relação com a ação. O pessimismo tende à paralisia,
já que, se o fim é ruim de qualquer jeito, para que tentar? O realismo, tendo
mapeado os obstáculos, costuma ser o ponto de partida do plano. Quem sabe onde
estão as dificuldades consegue se preparar para elas, e muitas vezes chega mais
longe do que o otimista ingênuo, que só descobre o problema quando ele já está
em cima dele.
Vale
lembrar que o realismo não é o ponto médio entre os dois extremos, uma espécie
de meio-termo morno. Em certas situações os fatos justificam enorme confiança,
e o realista será então bastante otimista, sem que isso o torne ingênuo. O que
o define é a fidelidade ao que se pode verificar, não o tom emocional da
conclusão. Ele pode dar boas notícias com a mesma serenidade com que dá as más.
O otimismo
ingênuo, aliás, é o outro lado dessa confusão. Ele toma a esperança por método
e trata a dúvida como falta de fé. Quando o mundo desmente essa expectativa, a
frustração costuma ser maior e, curiosamente, empurra muita gente para o
pessimismo. Assim, os dois extremos se alimentam, enquanto o realista, que
nunca apostou na ilusão, tem menos a perder com a desilusão.
Enfim, a
pergunta que separa os três é: de onde vem a minha expectativa? Caso venha do
temperamento, seja para o negativo ou para o positivo, estamos diante de
pessimismo ou otimismo. Caso venha da análise do que está de fato diante de
mim, estamos diante do realismo. Chamar o realista de pessimista é, no fundo,
confundir quem descreve o terreno com quem desejava que o terreno fosse outro.















