segunda-feira, 26 de outubro de 2026

MÃOS QUE ORAM: A BELEZA DE NUNCA ESQUECER QUEM NOS AJUDOU A CHEGAR

MÃOS QUE ORAM:

A BELEZA DE NUNCA ESQUECER QUEM NOS AJUDOU A CHEGAR

por Heitor Jorge Lau

            A inspiração para esta reflexão nasceu da leitura de “Poesias em Aquarela”, de Antônio J. Giacomin, obra que apresenta, entre suas páginas, a imagem de “Mãos que Oram”, associada a uma comovente narrativa sobre sacrifício, amizade e gratidão. A partir dessa imagem, surge uma questão que ultrapassa os limites de uma única pintura: quantas histórias podem estar inscritas nas mãos de um artista plástico? Mãos que aprendem a observar o mundo, experimentam a resistência dos materiais, descobrem formas e cores, enfrentam dificuldades, amadurecem com o tempo e transformam sentimentos, lembranças e inquietações em expressões artísticas. Cada pincelada pode guardar a memória de uma experiência, cada obra pode carregar fragmentos de uma existência e cada marca deixada pelo tempo pode revelar o esforço silencioso que tornou possível uma criação. Por trás daquilo que admiramos em uma tela, existe uma trajetória que os olhos nem sempre conseguem enxergar: horas de dedicação, renúncias, descobertas, pessoas que ofereceram apoio e outras que, mesmo sem perceber, contribuíram para a formação do artista. Contemplar uma obra, portanto, é também reconhecer que a arte não nasce apenas do talento das mãos, mas de tudo aquilo que a vida deposita nelas. E, quando procuramos compreender essa dimensão humana da criação artística, percebemos que algumas das histórias mais profundas não estão pintadas na superfície da tela, mas permanecem guardadas nas mãos que a tornaram possível.           

Boa leitura!

 

            Existem obras de arte que ultrapassam a beleza de suas formas e encontram um lugar permanente na memória humana por seu significado original. Não é apenas o talento do artista que lhes confere grandeza, mas a história que carregam e os sentimentos que despertam. Entre elas está a célebre pintura “Mãos que Oram”, associada ao artista alemão Albrecht Dürer (1471–1528), cuja origem é contada por meio de uma lenda que, independentemente de sua veracidade histórica, encerra uma profunda lição sobre a gratidão e os vínculos que construímos ao longo da vida.

            Uma das versões dessa narrativa remonta à juventude de Dürer, um dos dezoito filhos de um ourives que vivia nas proximidades de Nuremberg. O jovem Albrecht compartilhava com um de seus irmãos o sonho de se tornar artista. A família, entretanto, não dispunha de recursos para custear a formação de ambos, e os dois irmãos precisavam encontrar uma maneira de superar aquela limitação. Foi então que conceberam um acordo que mudaria o destino de suas vidas.

            Decidiram lançar uma moeda ao alto para determinar quem teria a oportunidade de estudar arte. O vencedor partiria para a academia, enquanto o outro trabalharia nas minas de carvão da região, dedicando-se ao sustento do irmão. Quando os estudos terminassem, aquele que tivesse alcançado a formação artística assumiria a responsabilidade de financiar a educação do outro, permitindo-lhe realizar o mesmo sonho. A sorte favoreceu Albrecht, que partiu para estudar, enquanto seu irmão se submeteu ao trabalho árduo nas profundezas das minas.

            Durante quatro anos, Dürer dedicou-se intensamente à aprendizagem, demonstrando um talento extraordinário e conquistando reconhecimento por sua habilidade. Enquanto isso, o irmão cumpria sua parte no acordo, trabalhando incansavelmente para custear a formação daquele que havia sido escolhido. Cada jornada nas minas representava uma contribuição silenciosa para um futuro que ambos haviam imaginado, mas que apenas um deles, naquele momento, podia perseguir.

            Concluídos os estudos, Albrecht retornou à aldeia natal, já reconhecido por sua competência artística. A família reuniu-se para celebrar a conquista, e o jovem artista, em meio à alegria do reencontro, anunciou ao irmão que havia chegado sua vez de partir para a cidade e realizar o sonho de tornar-se pintor. Afinal, aquele era o compromisso assumido entre os dois. O que aconteceu em seguida, porém, transformou a celebração em um dos episódios mais comoventes dessa narrativa.

            Com lágrimas nos olhos, o irmão revelou que já não poderia seguir o caminho desejado. Os quatro anos de trabalho nas minas haviam deixado marcas profundas em suas mãos: ossos quebrados, calosidades, sulcos e deformações provocadas pelo esforço brutal. Aquilo que antes lhe permitiria manejar com delicadeza os instrumentos da arte havia sido comprometido de maneira irreversível. Seu sonho de tornar-se pintor não poderia mais se realizar.

            Diante dessa realidade, o irmão não demonstrou ressentimento. Pelo contrário, manifestou satisfação por ter contribuído para que Albrecht alcançasse a posição que ambos haviam desejado. Suas mãos, embora incapazes de executar os movimentos delicados exigidos pela pintura, haviam cumprido uma tarefa extraordinária: ajudaram a construir o futuro de outra pessoa. O sacrifício não fora pequeno, tampouco suas consequências, mas ele reconhecia o valor da conquista do irmão e encontrava nisso uma razão para se alegrar.

            Profundamente tocado por aquela demonstração de dedicação, Dürer decidiu desenhar as mãos castigadas do irmão, unidas em uma posição de oração e agradecimento. O resultado teria sido a imagem que atravessou gerações sob o título “Mãos que Oram”. A força expressiva do desenho estaria justamente no contraste entre a delicadeza do gesto e a dureza da vida que aquelas mãos representavam. Não eram mãos comuns: eram o testemunho de um esforço silencioso, de uma renúncia profunda e de uma generosidade que não exigia recompensas.

            Existe, contudo, outra versão da lenda. Porém, essa narrativa é o suficiente para germinar na mente do leitor a reflexão desejada. As duas narrativas apresentam diferenças quanto à identidade do homem retratado e às circunstâncias que teriam originado o desenho. Não é necessário, entretanto, decidir qual delas é verdadeira para compreender a mensagem que ambas procuram transmitir. A história pode ser examinada como uma lenda de origem, sem que se confunda sua força simbólica com a comprovação dos fatos históricos. Seu valor reside, sobretudo, na reflexão que desperta sobre a maneira como reconhecemos aqueles que contribuíram para nossas realizações.

            A imagem das mãos unidas nos convida a olhar para além do sucesso individual. Frequentemente, celebramos as conquistas como se fossem resultados exclusivos de nosso esforço, de nossa inteligência ou de nosso talento. Esquecemos que, em diferentes momentos da vida, alguém nos ofereceu tempo, conhecimento, trabalho, incentivo ou oportunidades que tornaram possível avançar. Nem sempre essas contribuições aparecem publicamente, e muitas delas permanecem invisíveis para aqueles que contemplam os resultados alcançados. Ainda assim, fazem parte da história de cada realização.

            Há pessoas cujos nomes jamais serão associados às grandes conquistas que ajudaram a tornar possíveis. Seus esforços não aparecem em certificados, homenagens ou biografias. Suas mãos, contudo, estão presentes em muitas das coisas que admiramos. Reconhecê-las exige sensibilidade para compreender que o mérito individual não elimina a importância da colaboração, e que a gratidão não diminui quem a manifesta. Ao contrário, revela a capacidade de reconhecer a presença do outro em nossa própria trajetória.

            É nesse sentido que “Mãos que Oram” adquire uma dimensão que ultrapassa a religiosidade sugerida por seu título e sua composição. A imagem pode ser compreendida como uma expressão universal de reconhecimento, respeito e gratidão. Ela nos lembra que existem sacrifícios que não podem ser desfeitos, oportunidades que não podem ser devolvidas e gestos de generosidade que nenhuma recompensa material consegue compensar integralmente. Diante deles, resta-nos preservar a memória, honrar a contribuição recebida e impedir que o esquecimento apague a importância de quem caminhou conosco.

            Seja qual for a versão da lenda, permanece uma verdade humana que merece ser preservada: ninguém constrói sozinho tudo aquilo que a vida lhe permite realizar. Em algum momento, nossas conquistas carregam a participação de pessoas que acreditaram em nós, que assumiram responsabilidades, que compartilharam dificuldades ou que aceitaram renúncias para nos oferecer melhores condições de seguir adiante. Reconhecer essa presença é uma forma de justiça, mas também uma expressão de maturidade e humanidade.

            A maior beleza das mãos retratadas não está apenas na posição em que foram desenhadas, mas naquilo que simbolizam: a possibilidade de transformar o sacrifício em generosidade, a lembrança em reconhecimento e o sucesso em motivo de gratidão. São mãos que, mesmo marcadas pelo sofrimento, não perderam a capacidade de expressar afeto. Mãos que contam uma história sem precisar de palavras. Mãos que nos recordam que a grandeza de uma pessoa não se mede somente pelo que consegue realizar, mas também pela maneira como reconhece aqueles que contribuíram para sua caminhada.

            No fim, a lição permanece simples e profunda: nunca devemos esquecer as mãos que nos ajudaram a chegar onde estamos. Algumas nos ensinaram, outras nos sustentaram; algumas abriram caminhos, outras trabalharam silenciosamente para que pudéssemos percorrê-los. Todas merecem ser lembradas com respeito. Porque o verdadeiro valor de uma conquista também está na gratidão que somos capazes de conservar por aqueles que fizeram parte dela.

 

VIDA - UMA QUESTÃO DE PERSPECTIVA

“Há grandes chances de o seu ponto de vista não ser o único possível!” - Carl Sagan

        A frase do renomado astrônomo científico Carl Sagan nos convida a uma reflexão profunda sobre a humildade intelectual e a abertura para perspectivas diversas. Em um mundo cada vez mais polarizado, onde opiniões se cristalizam e o diálogo muitas vezes dá lugar à intolerância, a mensagem de Sagan ressoa como um lembrete essencial: nossa visão de mundo, por mais fundamentada que pareça, é apenas uma entre muitas.

 

METONÍMIA e ROTULAGEM: ANTES DO RÓTULO, HAVIA ALGUÉM

ANTES DO RÓTULO, HAVIA ALGUÉM

Sobre a pessoa, a profissão e o posicionamento político

por Heitor Jorge Lau

            Há uma cena banal que se repete todos os dias, em conversas de bar, reuniões de trabalho e, sobretudo, nas redes sociais. Alguém menciona um nome e, antes que a frase termine, o interlocutor já decidiu quem é aquela pessoa: “ah, é professor”, “ah, é de direita”, “ah, é daquele partido”. Em poucos segundos, um ser humano inteiro foi arquivado numa gaveta com etiqueta. A pergunta que merece ser feita é simples e, justamente por isso, desconfortável: quando falamos de alguém, de quem estamos realmente falando? Sobre a pessoa, sobre a sua profissão ou do seu posicionamento político?

            A resposta mais honesta - do ponto de vista filosófico e linguístico - é que um nome próprio aponta para um indivíduo inteiro, com biografia, afetos, medos, contradições e uma história que ultrapassa qualquer papel que ele desempenhe. Quando dizemos “João”, não estamos dizendo “o contador” nem “o eleitor de tal candidato”. Profissão e convicção política são atributos de alguém, não o alguém em si. Um médico é uma pessoa que exerce a medicina; um militante é uma pessoa que abraçou certas ideias. O atributo descreve, mas não esgota. Essa distinção parece óbvia quando enunciada com calma, e, no entanto, é violada com uma naturalidade assustadora no dia a dia.

            O mecanismo dessa violação é conhecido. Trata-se da METONÍMIA e da ROTULAGEM: tomamos a parte pelo todo e deixamos que a categoria fale no lugar do indivíduo. Expressamos “os médicos pensam assim”, “os professores são todos iguais”, “os eleitores daquele lado fazem aquilo”, e a pessoa concreta desaparece atrás do grupo abstrato. Há, é verdade, uma economia cognitiva nisso, porque o mundo é complexo e o rótulo simplifica. Mas o preço da simplificação é alto. O rótulo apaga a singularidade, atribui a cada um tudo o que se associa ao coletivo e transforma o debate de ideias em um confronto de identidades. Quem é reduzido ao rótulo deixa de ser ouvido pelo que diz e passa a ser lido pelo que supostamente representa.

            Convém, contudo, separar dois planos. No plano descritivo, mencionar a profissão ou a posição política de alguém é perfeitamente legítimo quando isso é relevante ao assunto em questão. Se discutimos uma sentença, é pertinente falar da juíza; se analisamos um voto no parlamento, é pertinente falar do partido do parlamentar. O problema nasce no plano valorativo, quando o atributo deixa de ser informação e vira argumento. “Isso é coisa de empresário”, “só poderia vir de um professor universitário”: nessas frases, ninguém examina o que foi dito, apenas desqualifica-se quem disse. É a velha falácia ad hominem, que avalia o falante em vez da fala. E o caminho inverso é igualmente enganoso, o argumento de autoridade, em que o atributo serve de escudo: “ele é doutor, logo está certo”. Nos dois casos, o rótulo ocupa o lugar que deveria pertencer à razão.

            Seria um erro, porém, concluir que profissão e política são camadas superficiais, que a pessoa veste e despe como um casaco. Para muita gente, ser professor, militar, enfermeiro ou militante não é apenas o que faz... é quem é. São escolhas que moldam rotinas, vínculos, vocabulário e até a forma de enxergar o mundo. Tratar esses elementos como descartáveis também seria uma injustiça, porque negaria algo que a própria pessoa considera essencial em sua trajetória. A questão, portanto, não é negar que tais atributos compõem alguém, e sim reconhecer que compõem sem esgotar. Uma pessoa pode ser coerente em suas convicções e, ainda assim, surpreender, mudar de ideia, discordar do próprio grupo e agir de modo que nenhum rótulo previa. A coerência de um indivíduo é maior e mais interessante do que a coerência de qualquer categoria.

            Há aqui, ainda, uma dimensão que toca diretamente o problema da interpretação. Quando lemos ou ouvimos alguém já munidos de um rótulo, aplicamos uma intenção presumida ao discurso antes mesmo de compreendê-lo. Em vez de interpretar o que foi dito, projetamos o que esperávamos ouvir. Umberto Eco, ao refletir sobre os limites da interpretação, lembrava que um texto não pode ser transformado em qualquer coisa que o leitor deseje, que há um ponto em que a leitura precisa ser contida por aquilo que o texto efetivamente diz. Com as pessoas ocorre algo semelhante. O rótulo funciona como uma chave de leitura imposta de fora, uma “sobreinterpretação” que faz a fala do outro caber, à força, na caixa que já tínhamos preparado. Ouvimos o que o rótulo prometia, não o que a pessoa disse.

            O ambiente digital agrava esse quadro. As redes sociais premiam a identificação rápida de lados, recompensam a frase de efeito e punem a nuance. Cada perfil é lido em segundos, classificado em segundos e, em segundos, aceito ou condenado. Nessa lógica, quem se apresenta como “fulano, professor, de direita” ou “beltrana, advogada, de esquerda” oferece, voluntariamente, o crachá com o qual será lido. Seria isso uma autorização para que o reduzam ao crachá? Penso que não. Quem se apresenta por um rótulo está dizendo de onde fala, não renunciando ao direito de ser compreendido além dele. Apresentar-se não é render-se à classificação alheia.

            Existe, por fim, uma maneira honesta de criticar ideias, instituições e grupos sem atingir injustamente os indivíduos que os compõem. Ela exige um esforço que o rótulo dispensa: o de ouvir antes de classificar, perguntar antes de presumir, e de refutar o argumento e não o argumentador. É mais trabalhoso, sem dúvida, porque obriga a reconhecer que o outro é complexo tanto quanto nós mesmos. Mas é também o único caminho para um debate que produza compreensão, e não apenas ruído.

            Enfim, quando nos referimos a uma pessoa, referimo-nos a ela, inteira, com tudo o que a torna única, inclusive a profissão que exerce e as ideias que defende, mas sem nunca nos limitarmos a essas marcas. Tratar alguém como pessoa antes de tratá-lo como representante de uma categoria é um ato de justiça e de generosidade intelectual. Antes do rótulo, havia alguém. E o maior desafio é lembrar disso, justamente quando o rótulo é mais conveniente do que a conversa.

 

sábado, 24 de outubro de 2026

O VERNIZ DA CIVILIZAÇÃO

O VERNIZ DA CIVILIZAÇÃO

O Senhor das Moscas e a natureza que insistimos em esquecer

por Heitor Jorge Lau

            Há obras que envelhecem e há obras que apenas esperam. O Senhor das Moscas pertence ao segundo grupo: a cada geração ele volta a ser atual, não porque o mundo se parece com uma ilha deserta, mas porque nós continuamos a ser quem somos. Retomo estas reflexões, que publiquei há um ano, por uma razão simples: as pessoas parecem ter esquecido de que carregam dentro de si uma natureza primitiva, e quem esquece o que é costuma ser surpreendido pelo que faz.

            Os comentários que seguem nascem da observação do filme à luz da Filosofia, mas logo ficou claro que ela, sozinha, não bastaria. A riqueza de situações, com atitudes individuais e coletivas, proativas e reativas, racionais e irracionais, exigiu um passeio pela psicologia, pela sociologia e pela antropologia. A diversidade de detalhes comportamentais é tão ampla que um olhar restrito aos aspectos filosóficos, ainda que fortemente presentes, deixaria escapar metade do que a história revela.

            O que se vê na tela é a exposição dos instintos mais antigos da condição humana: a desordem social, a disputa pelo poder, o domínio do fogo, o impulso de caçar, a urgência de sobreviver. Não seria exagero tratá-lo como uma Guerra do Fogo vivida em tempos modernos. Que o elenco seja formado por garotos pré-adolescentes, vestidos com resquícios de uniformes militares, importa menos do que parece. Para esta análise, interessam as atitudes e o aprendizado que delas se extrai, não a idade de quem as protagoniza.

            Praticamente todas as sociedades constroem hierarquias nas quais alguns recebem poder e autoridade sobre os demais. Na nossa, pais, diretores de escola, gerentes e até amigos exercem diferentes graus de autoridade, e a relação entre quem manda e quem obedece raramente se dá sem conflito moral. A história de Abraão, a quem Deus ordenou o sacrifício do filho Isaac, ilustra o dilema com força incomum: ele amava a Deus e amava o filho, e viu-se numa posição em que parecia obrigado a trair um dos dois. Até onde deve ir a obediência?

            O mesmo conflito aparece, em versão sombria, quando soldados recebem ordem de matar civis indefesos. Foi o que ocorreu na Guerra do Vietnã, quando o tenente Calley mandou massacrar moradores de My Lai e se defendeu dizendo que apenas obedecia a ordens superiores, "cumprindo o seu dever". De um lado, a disciplina militar; de outro, o respeito pela vida humana. O exemplo mostra a disposição das pessoas de ir a extremos para ser obedientes. E não precisamos de um campo de batalha para reconhecê-la: basta observar como colaboradores se comportam diante de chefes que dizem e fazem coisas evidentemente erradas, e como existe uma relutância generalizada em contestá-los.

            A cultura insiste nessa lição porque acredita que uma sociedade eficiente e organizada depende de uma hierarquia estável, e procura garantir a obediência dando ao indivíduo obediente um lugar na estrutura. Entregamos a saúde ao médico, as finanças ao contador, e precisamos confiar nas opiniões de várias figuras de autoridade para que a vida funcione. É exatamente isso que os garotos do filme retratam: um impulso difícil de controlar, uma necessidade quase inconsciente de submeter-se a quem parece mandar. Chamo isso de efeito manada, e ele não precisa de ilha alguma para operar.

            Há ainda um detalhe que não deve passar despercebido: toda a trama acontece num ambiente hostil, sem as leis sociais que regulam a moral, a ética e os bons costumes. Pode não parecer evidente, mas o contexto geográfico valida ou rejeita determinadas ações. Qualquer homem oferece o pescoço a alguém munido de uma navalha numa barbearia; ninguém faria o mesmo numa sapataria. O cenário diz o que é aceitável antes mesmo de alguém falar.

            Misture o ambiente errado com a influência inadequada e teremos a receita da capacidade humana de abandonar a própria humanidade, à medida que a personalidade singular se dissolve em estruturas institucionais defeituosas. Talvez seja esse o defeito de fábrica com que a natureza nos dotou, e que, a longo prazo, dá à nossa espécie apenas uma modesta chance de sobreviver. Pessimismo ou não, basta lembrar Darwin: compartilhamos ancestrais com os animais mais primitivos, e essa herança vale tanto para o cérebro, berço da razão e da sensação, quanto para qualquer outra parte do corpo. Como o assunto aqui é comportamento, deixemos de lado o que fica do pescoço para baixo.

            A ciência identificou duas estruturas cerebrais decisivas. O sistema límbico, também chamado de Paleocórtex, é a parte mais antiga e governa a expressão das emoções. O Neocórtex, a massa cinzenta que surgiu depois, é o que distingue o homem dos demais animais: permite o raciocínio lógico, a linguagem complexa e a superação das barreiras da evolução puramente biológica. Herdamos mais do que genes; herdamos as culturas complexas que nós mesmos criamos. Há comunicação entre as duas partes, mas cada uma cumpre funções próprias, e nenhuma tentativa de explicar a natureza humana prospera se ignorar essa diferença.

            O ponto crucial é que o raciocínio e a linguagem derivam de uma estrutura posterior e separada, e por isso têm pouco poder sobre o sistema límbico e sobre as emoções que ele comanda. É provável que aí esteja a explicação para a migração dos garotos do filme: de um imaginário moral e eticamente correto para um mundo em que a luta pela sobrevivência passou a mandar.

            Se a ilha do filme parece distante, basta olhar para o debate político brasileiro dos últimos anos. Sem que ninguém tenha sido abandonado numa praia deserta, o país se dividiu em grupos que mal se reconhecem como parte da mesma comunidade. Cada um tem a sua fogueira, o seu chefe, a sua concha que dá o direito à palavra, e a sua certeza de que o outro lado é a fera escondida na mata. O desacordo, que é a substância normal da vida democrática, foi substituído pela hostilidade. Opinião virou identidade, e quem discorda deixou de ser adversário para tornar-se inimigo.

            O mecanismo é o mesmo que o filme escancara. O indivíduo que é capaz de ponderar, em sua vida privada, com a calma do Neocórtex, entrega-se em grupo ao comando do sistema límbico: medo, raiva, orgulho tribal, necessidade de pertencer. Passa a repetir o que a sua manada repete, a aplaudir sem examinar e a condenar sem ouvir. A obediência a líderes e narrativas, que antes vimos em Abraão e no tenente Calley, reaparece sob a forma de fidelidade cega a figuras políticas e a correntes de opinião, e a falha, quando há, é sempre do outro. Num ambiente em que cada lado afirma defender a civilização contra a barbárie, ambos acabam cometendo, com a consciência tranquila, as pequenas barbáries do cotidiano: o insulto, a mentira repassada sem checagem, o rompimento de amizades e a quebra de laços familiares.

            Vale lembrar o que vimos há pouco sobre a distância da vítima. As redes sociais, que dominam o debate, ampliam justamente o que favorece a crueldade: não enxergamos o rosto de quem é atingido pela palavra. Sem testemunhar o sofrimento, a obediência ao grupo prevalece sobre a compaixão. O ambiente, repito, também decide: a arena digital, sem as regras de conduta de uma conversa face a face, é a ilha, e nela muita gente se comporta de um modo que jamais adotaria numa mesa de jantar.

            Quem lê isto talvez queira apontar o dedo para um lado, ou para o outro. Esse é exatamente o reflexo que o filme denuncia. A política não é o problema; o problema é o que fazemos com ela quando deixamos de pensar. A posição de cada um é um direito, e defendê-la com firmeza é legítimo. Perder a capacidade de reconhecer a humanidade de quem pensa diferente é que é o primeiro passo rumo à selvageria.

            Conflitos extremamente poderosos surgem quando alguém é levado por uma autoridade a cometer atos imorais, e a tensão resultante pode ser quase intolerável. A obediência tende a prevalecer quando o indivíduo se sente mais ligado à figura de autoridade do que à vítima; a desobediência aparece quando ele testemunha o sofrimento de quem está sendo atingido. Proximidade com a dor alheia, portanto, é um dos poucos freios que conhecemos.

            Sobram, então, perguntas que cada leitor pode levar consigo. Somente situações extremas fazem aflorar nossos instintos mais primitivos, ou bastam um grupo, um líder e um inimigo comum? Ou seríamos selvagens em nosso cotidiano, de forma institucionalizada, sem que a palavra "selvageria" nos ocorra? Resta refletir sobre elas e sobre tantas outras situações que atrapalham o nosso desenvolvimento social. Quem sabe, um dia, as pessoas deixem de ser candidatas e passem à categoria efetiva de seres humanos, no sentido mais verdadeiro da palavra.

 

A FORÇA QUE VEM DO RECONHECIMENTO

Estimado Leitor,

Cada acesso representa mais do que um número: é o encontro entre uma ideia e alguém disposto a conhecê-la. A todos que acompanham minhas publicações, leem, compartilham e ajudam a manter vivo este espaço de conhecimentos e reflexões, deixo meu sincero agradecimento. É essa presença que me incentiva a continuar escrevendo, pesquisando e compartilhando ideias sobre a natureza, a sociedade, a ciência, a política, a filosofia e tantos outros temas que merecem nossa atenção.

Seguimos juntos, porque o conhecimento ganha sentido quando encontra quem esteja disposto a refletir.

Minha gratidão a todos vocês! ❤️
 

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

A PIRÂMIDE DE MASLOW E AS NECESSIDADES DE CADA LADO DA POLARIZAÇÃO

A PIRÂMIDE DE MASLOW

E AS NECESSIDADES DE CADA LADO DA POLARIZAÇÃO

por Heitor Jorge Lau

            A Pirâmide de Maslow, proposta pelo psicólogo Abraham Maslow em 1943, organiza as motivações humanas em degraus: as necessidades fisiológicas, como alimentação e abrigo; as de segurança; as de pertencimento; as de estima e reconhecimento; e, no alto, a autorrealização. A ideia central é simples e poderosa: enquanto o degrau mais básico não está minimamente atendido, ele ocupa o centro da atenção, e só depois de satisfeito é que o olhar se volta para o seguinte. Poucas vezes essa ideia pareceu tão presente quanto agora, em uma sociedade dividida entre a direita e a esquerda radicalizadas. Sem querer generalizar, até porque isso seria um raciocínio burro e radical, as necessidades daqueles que se posicionam radicalmente à direita parecem ser diferentes das daqueles que se posicionam à esquerda. É nesse ponto do embate que Maslow se faz presente.

            Tenho um exemplo muito pessoal disso. Há muito tempo, houve um momento em que eu necessitava, ou simplesmente desejava, um carro. Depois de conquistá-lo, o desejo seguinte passou a ser um lugar próprio para morar, e do carro eu já não pensava mais, pelo menos não com a mesma urgência. E assim foi, a cada nova conquista, que podemos chamar de uma melhora de vida. A aquisição anterior jamais era esquecida; apenas deixava de ser lembrada como falta e deixava de ser desejada como meta. Não era descartada, era "guardada" no baú das lembranças. O degrau já vencido continuava ali, sustentando os demais, mas a atenção seguia adiante.

            Se levarmos essa lógica para o debate político, algo se esclarece. Quem vive a incerteza do prato de comida, do emprego, do aluguel ou do atendimento de saúde tende a enxergar o mundo a partir da base da pirâmide e a valorizar o que garante um piso mínimo de dignidade. Quem já superou essa etapa e construiu algum patrimônio, algum espaço, alguma estabilidade, tende a voltar a atenção para o degrau seguinte: a proteção do que conquistou, a segurança, a liberdade para empreender, o reconhecimento pelo próprio esforço. Cada um olha para a política da altura em que se encontra na pirâmide, e por isso pede ao Estado coisas diferentes. Nada disso é uma regra rígida. Há pessoas pobres com valores conservadores e pessoas ricas com sensibilidade social, e o próprio modelo de Maslow, mais tarde criticado e relativizado, nunca foi uma escada que todos sobem na mesma ordem. Ele descreve momentos de vida, não identidades ideológicas.

            O problema surge quando a polarização transforma degraus em trincheiras. Quem está embaixo e olha para cima passa a acusar o outro de egoísmo e de insensibilidade, e quem está em cima e olha para baixo passa a acusar o outro de acomodação e de ingratidão. Ambos tomam o degrau em que se encontram pelo mapa completo da realidade. Esquecem que quase todos já estiveram, ou podem vir a estar, em outro nível, e que a vida, como mostra o meu baú de lembranças, é feita de passagens, não de lugares fixos.

            Chego, então, à questão central do tema: as necessidades de uns não invalidam as necessidades de outros. Não me refiro a serem as mesmas necessidades, mas às necessidades básicas, por assim dizer, aquelas sem as quais nenhum degrau superior se sustenta. Quem luta por comida e moradia não está pedindo demais, e quem luta por segurança, liberdade e reconhecimento também não está pedindo de menos. Reconhecer a legitimidade da necessidade alheia não exige abrir mão da própria; exige apenas admitir que a pirâmide é de todos, e não de uma facção.

            Há ainda um segundo aspecto, que me parece decisivo. As duas visões sempre irão se complementar, e não me refiro às necessidades propriamente ditas, mas ao equilíbrio entre o empenho em proporcionar tudo para todos, independentemente da classe social ou do posicionamento em que cada cidadão se encontra. Uma sociedade saudável precisa de um piso firme, que impeça que alguém caia abaixo do mínimo, e de um teto aberto, que permita a quem deseja crescer chegar mais alto. Sem o piso, a liberdade vira privilégio de poucos; sem o teto, a proteção vira estagnação. Defender apenas um dos dois é enxergar metade da pirâmide.

            Se cada lado conseguir olhar para o degrau do outro com o mesmo respeito com que gostaria que olhassem para o seu, o embate deixa de ser uma guerra de necessidades e passa a ser aquilo que a democracia sempre pretendeu ser: a busca conjunta de um modo de garantir que todos, em qualquer ponto da pirâmide, tenham as condições de seguir adiante.

 

ENTRE A SOMBRA DE MEIN KAMPF DE ADOLF HITLER E OS RISCOS DA POLÍTICA BRASILEIRA

ENTRE A SOMBRA DE MEIN KAMPF DE ADOLF HITLER

E OS RISCOS DA POLÍTICA BRASILEIRA

por Heitor Jorge Lau

            A história não se repete necessariamente com os mesmos personagens, os mesmos métodos ou as mesmas circunstâncias. O que ela faz, com inquietante frequência, é oferecer padrões que permitem reconhecer os perigos de determinadas escolhas políticas antes que suas consequências se tornem irreversíveis. É sob essa perspectiva que a leitura de Mein Kampf, obra em que Adolf Hitler expôs suas ideias, seus ressentimentos e seu projeto de poder, pode provocar reflexões sobre o cenário político brasileiro e, particularmente, sobre as tensões envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF).

            O livro de Hitler não deve ser analisado apenas como um registro histórico do nazismo, mas também como um exemplo de como o discurso político pode ser utilizado para mobilizar ressentimentos, fabricar inimigos, simplificar problemas complexos e transformar divergências em conflitos entre aqueles que seriam considerados legítimos e aqueles que deveriam ser combatidos. Sua trajetória demonstra como a manipulação da opinião pública, o culto à liderança e a exploração do medo podem contribuir para enfraquecer as instituições democráticas. É importante, entretanto, reconhecer que a Alemanha da República de Weimar e o Brasil contemporâneo possuem contextos históricos, institucionais e sociais distintos. A comparação é útil quando ilumina mecanismos de poder, não quando transforma realidades diferentes em equivalentes históricos.

            No Brasil, a polarização política tem contribuído para um ambiente no qual parcelas da sociedade passaram a interpretar as instituições a partir de suas preferências ideológicas. O mesmo acontecimento pode ser considerado legítimo por um grupo e inaceitável por outro, dependendo de quem se beneficia de determinada decisão. Nesse ambiente, o debate racional cede espaço à fidelidade política, e a análise dos fatos frequentemente é substituída pela necessidade de defender o próprio lado. Quando isso acontece, perde-se uma condição fundamental da democracia: a disposição de submeter os próprios aliados aos mesmos critérios de avaliação aplicados aos adversários.

            É nesse contexto que o Supremo Tribunal Federal ocupa uma posição especialmente delicada. Como guardião da Constituição, o STF desempenha uma função indispensável à preservação do Estado Democrático de Direito. Sua independência diante dos demais Poderes é necessária, mas não o coloca acima da crítica pública. Pelo contrário, quanto maior a relevância de uma instituição para o equilíbrio democrático, maior deve ser a exigência de fundamentação de suas decisões, transparência, respeito aos limites constitucionais e mecanismos efetivos de responsabilização. Questionar decisões judiciais, discutir a extensão das competências dos ministros e exigir coerência jurídica não constitui, por si só, uma ameaça à democracia. A crítica fundamentada é parte essencial dela.

            O perigo começa quando a defesa de qualquer instituição se transforma em fidelidade incondicional, ou quando sua contestação abandona os argumentos jurídicos e passa a tratar seus integrantes como inimigos que precisam ser eliminados do debate público. A mesma cautela vale para os Poderes Executivo e Legislativo, para os partidos políticos e para as lideranças que reivindicam representar a vontade popular. Nenhum deles possui legitimidade para reivindicar uma autoridade ilimitada. A democracia não depende da infalibilidade de seus representantes, mas da existência de limites que impeçam qualquer pessoa ou instituição de concentrar poder sem controle.

            Uma das lições mais inquietantes do nazismo é que a erosão democrática não depende exclusivamente da violência explícita. Ela também pode avançar por meio da normalização de discursos autoritários, da desumanização dos adversários, propagação sistemática de falsidades e aceitação de que determinados fins justificariam a violação das regras. Hitler explorou o ressentimento e a instabilidade de sua época para apresentar a concentração de poder como solução para os problemas alemães. O resultado foi a destruição progressiva das liberdades, a perseguição de grupos inteiros e a implantação de um regime responsável por crimes de proporções históricas.

            Isso não significa afirmar que o STF brasileiro seja equivalente ao regime nazista, nem que toda decisão controversa represente um passo em direção ao totalitarismo. Uma analogia séria exige distinguir acontecimentos, intenções, instituições e consequências. O valor da comparação está em identificar sinais de alerta: a intolerância à divergência, a tentativa de deslegitimar toda oposição, a utilização seletiva das regras, a concentração de autoridade e a disposição de sacrificar direitos fundamentais em nome de uma suposta causa superior.

            O Brasil precisa compreender que a democracia não se resume à realização de eleições. Ela também exige instituições independentes, imprensa livre, oposição legítima, liberdade de expressão, devido processo legal e respeito às garantias constitucionais. Esses princípios devem valer para todos, inclusive para aqueles cujas ideias rejeitamos. Não existe compromisso democrático verdadeiro quando se exige liberdade para os próprios aliados e se considera aceitável restringi-la aos adversários.

            A leitura de Mein Kampf serve, portanto, menos para procurar um Hitler contemporâneo em cada liderança política e mais para compreender como sociedades podem ser conduzidas à intolerância quando abandonam o pensamento crítico. O risco não está apenas no aparecimento de um governante autoritário, mas também na disposição coletiva de justificar abusos quando eles parecem favorecer convicções.

            Diante do cenário brasileiro, a pergunta decisiva não é se o STF está sempre certo ou sempre errado. É se estamos dispostos a exigir de todas as instituições o mesmo compromisso com a Constituição, legalidade, transparência e os direitos fundamentais. Se a resposta depender da identidade ideológica de quem exerce o poder, o problema já ultrapassou os limites de uma disputa partidária.

            A história ensina que nenhuma democracia está protegida apenas por sua Constituição escrita. Ela depende de cidadãos capazes de desconfiar dos discursos fáceis, reconhecer os próprios preconceitos e defender princípios mesmo quando isso contraria suas preferências políticas. A liberdade não se preserva pela submissão a líderes, partidos ou tribunais, mas pela vigilância crítica sobre todos eles. Enfim, quando a convicção política se torna mais importante do que a verdade, e quando a lealdade a um grupo vale mais do que os princípios que deveriam limitar o poder, a sociedade começa a abrir mão justamente daquilo que acredita estar defendendo: a própria democracia.

 

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

FÉ NA VIDA...


 

CETICISMO E ATEÍSMO: DÚVIDA NÃO É DESCRENÇA

CETICISMO E ATEÍSMO: DÚVIDA NÃO É DESCRENÇA

por Heitor Jorge Lau

            No texto que redigi anteriormente, expliquei o significado de “pessimismo” e “realismo”. Lembrei-me, então, de outros dois termos de que comumente ouço falar: ceticismo e ateísmo. Já me perguntaram, inclusive, se eu era ateu. Vamos, pois, às devidas explicações.

            Ceticismo e ateísmo se confundem porque ambos costumam aparecer juntos na mesma pessoa e porque o senso comum associa "duvidar" a "não acreditar em Deus". Mas as duas palavras respondem a perguntas diferentes. O ceticismo diz respeito a como alguém forma suas convicções, enquanto o ateísmo diz respeito a uma convicção específica, a de que não há deuses.

            A palavra "cético" vem do grego skeptikós, que significa "aquele que examina". Na Antiguidade, filósofos como Pirro e, mais tarde, Sexto Empírico propunham suspender o juízo (a epoché) diante de afirmações que não podem ser sustentadas por razões suficientes. Em sua forma mais radical, isso valia para quase tudo. Na versão moderna, mais comum, o ceticismo virou uma atitude de exigir evidências proporcionais à força da afirmação, aplicada a qualquer assunto: medicina alternativa, horóscopo, notícias, promessas de investimento, teorias da conspiração. Nesse sentido, o cético é alguém que pergunta "como você sabe disso?" antes de concordar.

            "Epoché" é uma palavra grega que significa "suspensão" ou "contenção". Na filosofia cética, ela designa o ato de não aceitar nem rejeitar uma afirmação, deixando o juízo em aberto. Quem pratica a epoché não diz "isso é verdade" nem "isso é falso", mas "por enquanto não tenho razões suficientes para decidir".

            A ideia aparece em Pirro de Élis, filósofo do século IV a.C., e foi sistematizada séculos depois por Sexto Empírico, em obras como os Esboços Pirrônicos. O raciocínio deles partia de uma observação: para quase toda afirmação sobre como as coisas realmente são, é possível encontrar um argumento contrário de força semelhante. Os céticos chamavam isso de equipolência, ou seja, razões que se equilibram como pesos numa balança. Quando as razões a favor e contra se equivalem, qualquer decisão parece arbitrária, e o caminho mais honesto é suspender o juízo.

            Um exemplo cotidiano ajuda: imagine duas testemunhas igualmente confiáveis que contam versões opostas de um acidente. Enquanto não surgir um fato novo, como uma gravação ou uma perícia, a atitude racional é não bater o martelo. Isso é a epoché em pequena escala: não é ignorância nem preguiça, mas uma recusa consciente de concluir além do que as evidências permitem.

            Convém notar que essa suspensão não leva à paralisia nem à afirmação de que nada pode ser conhecido. Os céticos pirrônicos faziam questão de distinguir sua posição da de outros filósofos, os da chamada Academia Cética, que declaravam ser impossível o conhecimento. Para Sexto Empírico, isso já seria uma tese dogmática, só que negativa. O cético de verdade continua investigando, e é por isso que o nome vem de "aquele que examina". Na vida prática, ele segue as aparências, os costumes e as necessidades do dia a dia: o mel lhe parece doce, ele come quando tem fome e respeita as leis da cidade. O que ele evita é afirmar, com certeza metafísica, como as coisas são em si mesmas.

            Havia também um objetivo de fundo. Os pirrônicos observaram que a ansiedade de quem briga para ter certezas, e sofre quando elas são contestadas, costuma desaparecer em quem suspende o juízo. Eles chamavam esse estado de Ataraxia, a tranquilidade do espírito. A suspensão, portanto, era vista não só como uma conclusão intelectual, mas como um caminho para viver com mais serenidade.

            No uso moderno, a ideia sobrevive de forma mais branda. O cético atual não suspende o juízo sobre tudo, mas o faz de modo provisório diante de afirmações que carecem de evidência suficiente, e está disposto a revisá-lo quando surgirem dados novos. A epoché, nesse sentido, é uma pausa antes da conclusão, não uma recusa permanente de concluir.

            O ateísmo, por sua vez, trata de um único tema. Em sentido amplo, é a ausência de crença em divindades, e em sentido mais estrito é a afirmação de que elas não existem. Perceba que o ateu pode chegar a essa posição por vários caminhos, alguns bastante rigorosos. Existem ateus que examinaram argumentos com muito cuidado, e há ateus que simplesmente herdaram a descrença da família ou do meio social, sem jamais terem questionado outras crenças que sustentam, como superstições, teorias da conspiração ou fé cega em alguma ideologia. Ser ateu não torna ninguém automaticamente cético.

            O inverso também vale. Existem pessoas religiosas e céticas ao mesmo tempo, porque aplicam a dúvida metódica à política, à ciência e à imprensa e, ainda assim, mantêm uma crença religiosa que consideram fora do alcance da prova, como aquelas que a tratam como questão de fé e não de evidência. Pensadores como Pascal e Montaigne, cada um à sua maneira, combinaram um olhar muito crítico sobre a capacidade da razão com uma postura religiosa. Além disso, o próprio cético rigoroso costuma desconfiar também do ateísmo dogmático, quando este se apresenta como certeza absoluta, porque a ausência de evidência não é, por si só, prova de ausência.

            Há ainda um terceiro termo que costuma entrar na confusão, o agnosticismo. Foi cunhado por Thomas Huxley no século XIX e se refere ao conhecimento, não à crença: agnóstico é quem entende que não é possível saber se há ou não um deus. Ele é mais próximo do ceticismo do que o ateísmo, mas ainda assim é uma posição específica sobre um tema específico, ao passo que o ceticismo é uma postura bem mais ampla. Aliás, é possível ser ao mesmo tempo ateu e agnóstico, quando se vive sem crer em deuses, mas se admite que não há como provar a inexistência deles.

            Em resumo, o ceticismo é um método, uma disposição de examinar antes de aceitar, e o ateísmo é uma conclusão a respeito de um assunto determinado. Chamar o cético de ateu é parecido com o equívoco do texto anterior, quando se chama o realista de pessimista: toma-se a atitude que examina pelo resultado que alguns, e só alguns, tiram dela.

 

PESSIMISMO E REALISMO: QUAL A DIFERENÇA?

PESSIMISMO E REALISMO: QUAL A DIFERENÇA?

por Heitor Jorge Lau

            Hoje, ao término de uma conversa sobre o futuro da humanidade, fui rotulado como pessimista. Salientei que sou realista, o que é bem outra coisa, mas parece que de nada adiantou, pois a pessoa afirmou: “Dá na mesma!”. Então vamos às devidas explicações.

            Pessimismo e realismo se confundem porque ambos costumam enxergar o que dá errado, mas partem de lugares muito diferentes. O pessimista tem uma expectativa de fracasso que vem antes dos fatos: ele já decidiu que o resultado será ruim e passa a recolher evidências que confirmem essa convicção. É uma disposição de ânimo, uma lente que escurece tudo. O realista, ao contrário, tenta ajustar sua expectativa ao que os dados permitem concluir. Se as evidências apontam risco, ele fala em risco; se apontam oportunidade, ele fala em oportunidade. Sua atitude é de conferência, não de torcida a favor ou contra.

            Por isso o realista pode soar pessimista num ambiente onde o otimismo virou obrigação social. Quando todos esperam entusiasmo, quem pergunta "e se isso não der certo?" ou "quanto isso realmente custa?" parece estar remando contra. Mas fazer a pergunta incômoda não é desejar o pior. É o que um engenheiro faz ao calcular a carga de uma ponte: ninguém diz que ele é pessimista por prever que o material pode ceder, porque é justamente essa previsão que permite construir algo que não caia. O realismo é, em boa medida, uma forma de cuidado com o resultado.

            Há também uma diferença importante na relação com a ação. O pessimismo tende à paralisia, já que, se o fim é ruim de qualquer jeito, para que tentar? O realismo, tendo mapeado os obstáculos, costuma ser o ponto de partida do plano. Quem sabe onde estão as dificuldades consegue se preparar para elas, e muitas vezes chega mais longe do que o otimista ingênuo, que só descobre o problema quando ele já está em cima dele.

            Vale lembrar que o realismo não é o ponto médio entre os dois extremos, uma espécie de meio-termo morno. Em certas situações os fatos justificam enorme confiança, e o realista será então bastante otimista, sem que isso o torne ingênuo. O que o define é a fidelidade ao que se pode verificar, não o tom emocional da conclusão. Ele pode dar boas notícias com a mesma serenidade com que dá as más.

            O otimismo ingênuo, aliás, é o outro lado dessa confusão. Ele toma a esperança por método e trata a dúvida como falta de fé. Quando o mundo desmente essa expectativa, a frustração costuma ser maior e, curiosamente, empurra muita gente para o pessimismo. Assim, os dois extremos se alimentam, enquanto o realista, que nunca apostou na ilusão, tem menos a perder com a desilusão.

            Enfim, a pergunta que separa os três é: de onde vem a minha expectativa? Caso venha do temperamento, seja para o negativo ou para o positivo, estamos diante de pessimismo ou otimismo. Caso venha da análise do que está de fato diante de mim, estamos diante do realismo. Chamar o realista de pessimista é, no fundo, confundir quem descreve o terreno com quem desejava que o terreno fosse outro.

 

terça-feira, 20 de outubro de 2026

DOENÇA DE CREUTZFELDT-JAKOB

DOENÇA DE CREUTZFELDT-JAKOB

ENTENDENDO UMA ENFERMIDADE RARA E SILENCIOSA

por Heitor Jorge Lau

PSICANALISTA

            Lito Sousa, influenciador e especialista em aviação, criador do canal “Aviões e Músicas”. Falecido aos 59 anos, em 1º de outubro de 2026, por complicações da doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), uma condição neurológica rara que compromete o funcionamento do cérebro. Foram menos de dois meses entre o diagnóstico e a morte.

            A doença de Creutzfeldt-Jakob, muitas vezes chamada apenas de DCJ, é uma enfermidade que ataca o cérebro e provoca uma perda muito rápida das capacidades de pensar, lembrar das coisas e de controlar o próprio corpo. O nome vem dos dois médicos alemães que a descreveram no início do século passado. Ela é considerada rara porque aparece em cerca de uma a duas pessoas por milhão a cada ano. Apesar de pouco frequente, desperta atenção por ser grave e por ter uma origem diferente de quase todas as outras doenças que conhecemos.

            Para entendê-la, é preciso primeiro saber o que é uma proteína. Proteínas são pequenas estruturas, invisíveis a olho nu, que o corpo fabrica o tempo todo e que funcionam como minúsculas peças de trabalho. Algumas ajudam a digerir os alimentos, outras formam os músculos, outras transportam substâncias pelo sangue. Cada proteína só funciona direito porque tem um formato específico, como uma chave que só abre determinada fechadura. Quando o formato muda, a peça deixa de cumprir seu papel e pode até atrapalhar o trabalho das vizinhas.

            No centro da doença está um tipo especial de proteína, chamada Príon. O mais curioso é que ela existe normalmente no cérebro de todas as pessoas saudáveis, e os cientistas ainda discutem qual é exatamente a sua função. O problema começa quando uma dessas proteínas se “dobra” do jeito errado, adquirindo um formato anormal. Essa versão defeituosa tem uma característica perigosa: ela força as proteínas normais ao seu redor a adotarem também o formato errado. É como uma fila de dominós em que a queda de um derruba o seguinte, e assim a alteração se espalha aos poucos.

            À medida que as proteínas defeituosas se multiplicam, elas se acumulam dentro do cérebro e passam a prejudicar os neurônios, que são as células responsáveis por receber, processar e enviar as mensagens que nos permitem pensar, sentir, falar e nos movimentar. Os neurônios danificados vão morrendo, e no lugar deles surgem pequenos buracos. Quando os médicos examinam o tecido cerebral ao microscópio, ele lembra uma esponja cheia de furos. Por isso a DCJ pertence a um grupo chamado de Encefalopatias Espongiformes, expressão que significa, simplesmente, doenças do cérebro com aspecto de esponja.

            A doença pode surgir por três caminhos diferentes. O mais comum, responsável pela grande maioria dos casos, é o chamado esporádico, em que ela aparece sem motivo conhecido, como se uma proteína se dobrasse errado por acaso. O segundo caminho é o hereditário, em que a pessoa nasce com uma alteração em um gene, que é o trecho do material genético que guarda as instruções para fabricar cada proteína. Esse defeito passa de pais para filhos e faz o corpo produzir a proteína já propensa ao erro. O terceiro caminho, bem mais raro, é o adquirido, quando o contato com tecido cerebral contaminado transmite o problema, como ocorreu no passado em certos tratamentos médicos antigos e em casos ligados ao consumo de carne de gado doente, a famosa Doença da Vaca Louca.

            Os primeiros sinais costumam ser confundidos com problemas comuns: esquecimentos, dificuldade de concentração, mudanças de humor, ansiedade, tristeza profunda ou alterações de comportamento. Logo depois surgem sintomas mais evidentes, como falta de coordenação ao andar, problemas de visão, dificuldade para falar e movimentos bruscos e involuntários, que são pequenos sacolejos nos músculos que a pessoa não consegue controlar. O quadro avança até a demência, que é a perda grave da capacidade de raciocinar, de lembrar e de cuidar de si mesmo. Nas fases finais, a pessoa pode ficar incapaz de se mexer e de se comunicar, embora em muitos casos a consciência permaneça por bastante tempo.

            O que torna a DCJ especialmente dura é a velocidade. Enquanto outras doenças que afetam a memória levam muitos anos para progredir, aqui a DCJ costuma se dar em semanas ou meses, e a maioria dos pacientes falece em cerca de um ano após os primeiros sintomas, muitas vezes em bem menos tempo. O diagnóstico não é simples, porque os sintomas lembram os de outras condições. Os médicos combinam a avaliação clínica com exames de imagem do cérebro, o registro da atividade elétrica cerebral e a análise do líquido que envolve a medula, em busca de sinais da proteína alterada. A confirmação absoluta só vem com o exame do tecido do cérebro.

            Até hoje não existe cura nem tratamento capaz de interromper ou reverter a doença. O cuidado se concentra nos chamados cuidados paliativos, que são aqueles voltados a aliviar o sofrimento, controlar os sintomas e dar conforto ao paciente e à família, sem a pretensão de curar. Pesquisadores em vários países testam substâncias experimentais, que são medicamentos ainda em fase de estudo e sem eficácia comprovada, na esperança de frear o avanço da doença. Os resultados ainda são incertos, mas cada estudo ajuda a compreender melhor esse mecanismo tão incomum de adoecimento.

            Uma dúvida frequente é se a doença é contagiosa, e a resposta tranquilizadora é que ela não se transmite pelo convívio do dia a dia. Abraçar, conversar, dividir a mesa ou cuidar de um paciente em casa não oferece risco. A transmissão exige contato direto com tecidos contaminados, o que só ocorre em situações muito específicas, como certos procedimentos médicos com instrumentos mal esterilizados, algo que hoje é rigorosamente controlado. Compreender a DCJ ajuda a diminuir o medo e o preconceito e lembra o quanto ainda há a descobrir sobre o funcionamento do cérebro humano e sobre os limites da medicina.

 

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

SOBRE HEREDITARIEDADE

O GENE E A PERGUNTA QUE ELE NOS FAZ:

ATÉ ONDE SOMOS O QUE ESTÁ ESCRITO EM NÓS?

por Heitor Jorge Lau

            Quase todo mundo já ouviu alguém dizer "puxou ao pai" ou "tem o gênio da avó". Frases assim mostram que, desde sempre, as pessoas perceberam que algo passa de uma geração para a outra, mas ninguém sabia o quê, nem como. É essa curiosidade antiga que o médico e pesquisador Siddhartha Mukherjee transforma em história no livro "O Gene: uma história íntima". Ele conta como a humanidade passou de simples palpites sobre a hereditariedade a ler, e hoje até a reescrever, o código que está dentro de cada uma de nossas células. Mas o livro não é apenas ciência. Mukherjee mistura essa trajetória com a da própria família, em que vários parentes sofreram de doenças mentais graves, como esquizofrenia e transtorno bipolar. Essa sombra o acompanha e o leva a uma dúvida que também pode ser nossa: quanto do nosso destino já vem pronto de “fábrica”?

            A história começa no século XIX, com um monge chamado Gregor Mendel, que passou anos cultivando ervilhas no jardim de um mosteiro. Cruzando plantas de sementes lisas e rugosas, de flores brancas e roxas, ele percebeu que as características não se misturavam como tinta. Elas passavam de pai para filho em pequenas unidades separadas, que depois ganhariam o nome de genes. O mais curioso é que ninguém deu importância ao trabalho dele. Mendel morreu sem reconhecimento, e suas ideias ficaram esquecidas por décadas. Enquanto isso, Charles Darwin propunha a evolução das espécies sem conseguir explicar como as características eram transmitidas de uma geração para a outra. A resposta já existia, mas estava guardada numa publicação que quase ninguém leu. Só no início do século XX o mundo redescobriu Mendel e percebeu que ele tinha entregado a peça que faltava no quebra-cabeça da vida.

            Quando a genética ganhou força, veio também um dos capítulos mais tristes da história. Se era possível entender a hereditariedade, algumas pessoas pensaram que seria possível "melhorar" a humanidade, escolhendo quem deveria ter filhos e quem não deveria. Essa ideia se chamou eugenia e foi defendida em vários países, inclusive por pessoas respeitadas na época. Nos Estados Unidos, milhares de pessoas foram esterilizadas à força, só por serem pobres, terem alguma deficiência ou serem consideradas "inadequadas". Um dos casos mais conhecidos é o da jovem Carrie Buck, que teve a esterilização aprovada pela Justiça. Na Alemanha nazista, essa lógica foi levada ao extremo e terminou no extermínio de milhões de pessoas. Mukherjee faz questão de lembrar esse episódio porque ele mostra o perigo de usar a ciência da herança para decidir quem merece existir e quem não merece.

            Passado esse período sombrio, os cientistas começaram a perguntar do que, afinal, os genes são feitos. Durante um tempo, muita gente achava que a herança estava guardada nas proteínas. Depois, experimentos cuidadosos mostraram que o verdadeiro material hereditário era o DNA. Em 1953, James Watson e Francis Crick apresentaram ao mundo a famosa forma de dupla hélice, uma espécie de escada em espiral. Eles contaram com dados importantes obtidos pela cientista Rosalind Franklin, cujo papel só foi reconhecido de forma mais justa com o passar do tempo. A partir dali tudo mudou de velocidade. Os pesquisadores decifraram como o DNA funciona como uma receita, escrita com apenas quatro letras, que ensina a célula a fabricar proteínas. Descobriram também que os genes são ligados e desligados conforme a necessidade, o que explica por que uma célula do coração é diferente de uma célula do cérebro, mesmo tendo o mesmo DNA.

            Com o avanço das técnicas, os cientistas aprenderam não só a ler o DNA, mas a cortá-lo, emendá-lo e passá-lo de um organismo para outro. Era uma ferramenta poderosa, capaz de produzir remédios, como a insulina feita por bactérias, mas também capaz de assustar. Em 1975, pesquisadores do mundo inteiro se reuniram numa cidade da Califórnia, chamada Asilomar, para discutir os riscos do que estavam criando. Foi um momento raro na história, em que cientistas propuseram limites para o próprio trabalho antes que algo desse errado. Pouco depois veio o grande projeto de ler o genoma humano inteiro, o conjunto completo das nossas instruções genéticas. Foi uma corrida entre um grupo de instituições públicas e uma empresa privada, e ela terminou, no início dos anos 2000, com o primeiro mapa da nossa espécie. A comemoração foi enorme, e a expectativa, ainda maior.

            Mas o mapa trouxe uma surpresa. Muita gente imaginava que, com o genoma na mão, saberíamos explicar tudo sobre as doenças e sobre as pessoas. Não foi isso que aconteceu. Algumas doenças, como a de Huntington (doença hereditária e degenerativa do cérebro), dependem de um único gene defeituoso, e nesses casos a ligação é direta. Mas a grande maioria das características humanas, da altura à propensão para certas doenças, depende de muitos genes trabalhando juntos, além do ambiente em que a pessoa vive, das experiências que tem e até do puro acaso. Mukherjee mostra que os genes não funcionam como uma sentença definitiva, e sim como um conjunto de probabilidades. Ter uma predisposição não significa que a doença virá, assim como não ter não significa que ela nunca virá. Entender isso é importante para não cairmos na ideia simplista de que somos apenas o que o nosso DNA diz.

            O livro também trata de temas delicados, como inteligência, identidade, sexualidade e raça. Nessas áreas, é comum que a ciência seja mal interpretada ou usada para reforçar preconceitos que já existiam. O autor lembra que as diferenças entre grupos humanos são muito menores do que as diferenças que existem entre indivíduos dentro de um mesmo grupo, e que a ideia de "raças" biológicas bem definidas não se sustenta nos dados. Ele mostra, ainda, o lado difícil da tentativa de corrigir genes defeituosos em pessoas doentes, a chamada terapia gênica. Houve avanços importantes, mas também fracassos dolorosos, como a morte de um jovem chamado Jesse Gelsinger, durante um teste, em 1999. Esse caso serviu de alerta de que a medicina, por mais bem-intencionada que seja, precisa avançar com cuidado, transparência e respeito pelas pessoas que se voluntariam para a pesquisa.

         Nos capítulos finais, o autor chega ao presente e ao futuro. Hoje já é possível investigar o DNA de um bebê antes mesmo do nascimento e identificar certas doenças. Também já existem ferramentas, como a famosa CRISPR, que funcionam como uma tesoura molecular capaz de editar o código da vida com enorme precisão. Isso abre a porta para curar doenças graves, mas abre também uma pergunta desconfortável: quem vai decidir o que é doença, o que é normal e o que é apenas um "aprimoramento"? Será que um dia pais poderão escolher a altura, a cor dos olhos ou a inteligência dos filhos? Mukherjee não entrega uma resposta pronta. Ele defende que os genes moldam o que somos, mas não decidem tudo, e que a liberdade de mexer na hereditariedade exige humildade, regras claras e boa memória do que a eugenia já provocou.

            Portanto, a grande lição do livro é que conhecer o gene não significa dominar a vida. Quanto mais aprendemos sobre a nossa herança biológica, mais percebemos que somos resultado de uma combinação complexa entre genes, ambiente, história e acaso. Ao mesmo tempo, o poder de ler e alterar o código humano cresce a cada ano, e com ele cresce também a nossa responsabilidade. Não se trata apenas de uma discussão para cientistas em laboratórios, mas de um debate que envolve todos nós, porque diz respeito ao futuro da nossa espécie. Mukherjee nos convida a olhar para essa história com curiosidade, mas também com cuidado, lembrando que a pergunta mais importante não é o que a ciência consegue fazer com os genes, e sim o que nós, como sociedade, decidimos que vale a pena fazer.

 

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

QUEM PERGUNTA, PENSA:

"SÓ SEI QUE NADA SEI"

QUEM PERGUNTA, PENSA:

SÓCRATES, OS SOFISTAS E A ARTE PERDIDA DE DUVIDAR

por Heitor Jorge Lau

            Em 399 a.C., num tribunal popular de Atenas, um homem de setenta anos ouvia a acusação de não reconhecer os deuses da cidade e de corromper a juventude. Diante de centenas de jurados sorteados entre os cidadãos, ele poderia ter feito o que a praxe recomendava: levar os filhos chorando, apelar à piedade, prometer silêncio... Não fez nada disso. Segundo o relato de Platão na “Apologia”, falou como quem continua uma conversa antiga e declarou que uma vida sem exame não vale a pena ser vivida. Foi condenado por margem relativamente estreita, e, ao propor sua própria pena, sugeriu, com ironia que os juízes não perdoaram, que a cidade lhe pagasse refeições no edifício reservado aos benfeitores públicos. Acabou condenado à morte e bebeu a cicuta (veneno). Seu crime, no fundo, era outro: fazia perguntas, e as fazia justamente a quem se julgava sábio.

            Para entender por que isso incomodava tanto, vale voltar à origem da missão que ele diz ter assumido. Conta Sócrates que seu amigo Querefonte foi a Delfos perguntar ao oráculo se alguém era mais sábio que ele, e a resposta foi que ninguém. Sócrates, que se sabia ignorante, tomou aquilo como um enigma e decidiu refutá-lo. Procurou os políticos, que tinham fama de sábios, e descobriu que não sabiam o que pensavam saber. Procurou os poetas e viu que compunham belos versos sem conseguir explicá-los. Procurou os artesãos e constatou que dominavam seu ofício, mas, por isso mesmo, julgavam entender também de assuntos graves sobre os quais nada sabiam. Concluiu que a diferença entre ele e os outros era mínima, porém real: ele não acreditava saber o que não sabia. A tradição resumiu isso na fórmula "só sei que nada sei", que é uma síntese posterior e um pouco simplificadora, mas que capta o espírito da coisa. A sabedoria humana, para Sócrates, começa no reconhecimento do próprio limite.

            Daí o método. Nos primeiros diálogos de Platão, Sócrates aborda alguém que parece dominar um conceito e pergunta o que ele é. No “Êutifron” (personagem que dá nome a um dos diálogos mais curtos e mais citados de Platão), pergunta a um especialista em assuntos religiosos o que é a piedade, e vai desmontando, resposta por resposta, cada definição apresentada, até que o interlocutor, encurralado, alega ter pressa e sai de cena. No “Laques” (um dos diálogos socráticos mais bem construídos de Platão, e o que o torna especial é o ponto de partida: ele começa com uma questão prática de educação e termina numa pergunta sobre a natureza da coragem), discute-se a coragem com dois generais, e nenhum consegue defini-la. No “Cármides” (diálogo de Platão sobre a Sophrosýne, palavra grega de tradução difícil que costumamos verter por temperança, moderação ou sensatez), a temperança. No “Lísis” (diálogo de Platão sobre a amizade), a amizade. Esses diálogos terminam em aporia, palavra grega que designa o impasse, o beco sem saída. Ninguém chega a uma definição. Os estudiosos chamam esse procedimento de “élenkhos”, a refutação, e seu efeito é duplo: o interlocutor perde a falsa certeza e, ao mesmo tempo, ganha algo difícil de nomear, a consciência de que há uma questão real onde antes via apenas um lugar-comum. O desconforto faz parte do processo. Sócrates compara a si mesmo a um moscardo que pica um cavalo grande e preguiçoso para despertá-lo, e a um peixe-torpedo que paralisa quem o toca. Ele mesmo, aliás, se diz estéril de sabedoria, como a parteira que ajuda a dar à luz sem ter parido, imagem que Platão desenvolve no “Teeteto” (um dos diálogos mais densos e mais importantes de Platão).

            É aqui que convém desfazer uma confusão frequente. O que chamamos hoje de método socrático, em muitas salas de aula, é outra coisa. Quando o professor faz uma sequência de perguntas já sabendo aonde quer chegar, está mais próximo do que Platão encena no “Mênon” (um dos diálogos mais importantes de Platão e funciona como ponto de passagem entre os diálogos de juventude, de linha socrática, e as obras da maturidade, em que aparecem as doutrinas propriamente platônicas), em que Sócrates conduz um jovem escravo, passo a passo, até a solução de um problema de geometria. Ali a pergunta tem destino marcado, e Platão a usa para ilustrar a ideia de que aprender é recordar. No mesmo diálogo surge um problema que continua atual: como é possível buscar aquilo que não sabemos, se, ao encontrá-lo, não o reconheceríamos? A resposta platônica, a reminiscência, é discutível, mas a pergunta é uma das mais fecundas da história da pedagogia, porque revela que todo aprendizado exige uma espécie de intuição prévia daquilo que se busca. Já nos primeiros diálogos, a pergunta não conduz a lugar nenhum. Ela limpa o terreno. Misturar as duas coisas é um erro comum, e talvez valha a pena que quem ensina saiba qual das duas está praticando.

            Essa tradição ganhou uma versão institucional no século XIX, quando a faculdade de direito de Harvard, sob Christopher Langdell, consagrou o método dos casos e a interrogação em sala de aula, que passaram a ser chamados de socráticos. O resultado é conhecido por quem passou por escolas assim: a pergunta pública pode servir ao pensamento, mas também pode virar instrumento de exposição e intimidação. Sócrates fazia perguntas a adultos que aceitavam o jogo, e que podiam ir embora, como Êutifron foi. Um estudante cuja nota depende da resposta não está na mesma posição. A lição, para quem ensina, é que a qualidade do método não está na forma da pergunta, mas na atitude de quem pergunta: com real interesse em pensar junto, ou com a intenção de provar que sabe mais.

            A pedagogia contemporânea reencontrou parte dessa intuição nas metodologias ativas e no ensino por problemas. A convicção de fundo é a mesma: conhecimento não é um objeto que se passa de uma cabeça a outra como quem enche um copo. Quem aprende precisa se envolver, se confundir, formular hipóteses, errar e corrigir. Há uma passagem do “Fedro” (diálogos de Platão e também dos mais difíceis de resumir, porque parece tratar de dois assuntos que mal se tocam: a primeira metade fala do amor, a segunda da retórica e da escrita) que dá a essa ideia uma profundidade inesperada. Ali Sócrates conta o mito do deus egípcio Teute, que apresenta ao rei Tamuz a invenção da escrita como remédio para a memória e para a sabedoria. O rei responde que a escrita fará exatamente o contrário: produzirá esquecimento, porque as pessoas deixarão de exercitar a memória e passarão a confiar em sinais externos, e terão a aparência da sabedoria sem a sua realidade. Sócrates acrescenta que o texto escrito é como uma pintura: parece vivo, mas, se o interrogamos, permanece em silêncio solene, repetindo sempre a mesma coisa. Não responde, não se defende, não adapta o que diz a quem o lê. Lembre-se de que ele próprio nada escreveu, e que conhecemos seu pensamento por meio de Platão, Xenofonte e outros. Há uma ironia notável em que a crítica à escrita nos tenha chegado por escrito, e Platão sabia disso.

            Troque a escrita pela internet e a crítica ganha uma atualidade desconfortável. Temos acesso instantâneo a quase tudo, mas a facilidade de acesso não equivale a compreensão. Consultar não é examinar. Quem busca uma resposta em segundos pode ter a sensação de saber sem ter feito o trabalho de entender, e o conteúdo que lê, como a pintura de Sócrates, não o questiona de volta. É claro que seria exagero reduzir tudo a uma condenação da tecnologia, e o próprio Platão não abdicou de escrever. Mas a advertência permanece útil: o que se aprende sem esforço de pensar tende a se esvair com a mesma facilidade com que chegou.

            No debate público, o contraste é ainda mais evidente. As redes recompensam a afirmação rápida, categórica, de preferência com um tom de certeza que gera adesão e compartilhamento. Pergunta engaja pouco. Admitir ignorância engaja menos ainda. Se Sócrates entrasse hoje numa discussão online, provavelmente seria silenciado em poucos minutos, e talvez fosse essa a melhor prova de que sua atitude continua incomodando. O "só sei que nada sei" é quase o oposto do que os algoritmos premiam, e talvez por isso seja tão necessário. Não se trata de defender a dúvida permanente, que paralisa, nem de pedir que ninguém tenha convicções. Sócrates tinha as suas, e morreu por elas. Trata-se de manter a possibilidade de revisar o que se pensa quando surge um bom argumento, algo que exige, antes de tudo, disposição para ouvir.

            Do outro lado do palco ateniense estavam os sofistas, os mestres itinerantes que cobravam para ensinar a arte do discurso e da argumentação numa cidade em que as decisões se tomavam em assembleias e tribunais. A imagem que a história lhes legou, a de vendedores de vitórias retóricas indiferentes à verdade, vem em boa parte de Platão, que era seu adversário, e os próprios sofistas deixaram poucos textos para se defender. É preciso, portanto, cautela. Protágoras de Abdera, o mais célebre deles, é citado por uma frase famosa, a de que o “homem é a medida de todas as coisas”, que Platão discute no “Teeteto” e que pode ser lida de modos muito diferentes, do relativismo radical à simples constatação de que todo conhecimento humano é situado. No diálogo que leva seu nome, Protágoras sustenta que todos os homens recebem um senso básico de justiça e respeito mútuo e que, por isso, todos podem participar das decisões da cidade, uma defesa da democracia mais sofisticada do que a caricatura permite supor. Ainda assim, a pergunta de Platão ao confrontar essa tradição continua válida. No “Górgias” (diálogo de Platão em que a pergunta sobre a retórica se transforma, aos poucos, numa pergunta sobre como se deve viver), Sócrates compara a retórica que busca apenas agradar à culinária, que dá prazer sem se preocupar com a saúde, em contraste com a medicina, que cuida do corpo mesmo quando incomoda. A retórica, diz ele, bajula, e a verdadeira arte do discurso deveria tornar melhores os cidadãos. Isso lembra que persuadir e esclarecer são coisas distintas, e que a mesma técnica pode servir a ambas.

            Ao olhar para a política, a publicidade e o ambiente digital de hoje, a distinção faz falta. Vivemos cercados de uma retórica extremamente sofisticada, treinada para convencer em segundos, calibrada por dados sobre o que funciona, e muito pouco treinada para fazer a pergunta que Sócrates faria: isso é verdadeiro? Aquele que ensina a persuadir responde pelo uso que se faz do que ensina? A pergunta, que os atenienses já se faziam, segue sem resposta confortável.

            O que Sócrates deixa, afinal, não é uma técnica a ser aplicada mecanicamente nem um conjunto de conclusões. É uma atitude, a de quem aceita ser questionado... de quem trata a própria convicção como hipótese a ser testada e não como patrimônio a ser defendido... de quem entende que conversar bem é pensar junto e não vencer. Essa atitude custa caro, e o próprio Sócrates pagou o preço máximo. Num tempo em que todos têm opinião sobre tudo e poucos têm paciência para examiná-la, a pergunta mais socrática que podemos fazer é a mais simples e a mais difícil: e se eu estiver errado? Quem consegue fazê-la sinceramente, e escutar a resposta, já começou a filosofar.