Heitor Jorge Lau
Ensaios longos, textos contemplativos, arqueologia cultural, análises psicológicas, crônicas filosóficas, antropologia do cotidiano.
domingo, 11 de outubro de 2026
sábado, 10 de outubro de 2026
POR QUE ACREDITAMOS EM COISAS ESTRANHAS?
POR QUE
ACREDITAMOS EM COISAS ESTRANHAS?
por Heitor Jorge Lau
Conheço
quem deixe o registro da água meio aberto "para poupar água". Conheço
quem coloque garrafas PET no medidor de energia elétrica "para economizar
luz". Já vi garrafas com água espalhadas pelo pátio, e nem perguntei por
quê. E conheço quem lave o cabelo o mínimo possível porque "estraga os
fios". Todas essas pessoas têm algo em comum: acreditam de verdade no que
fazem.
A lista é
longa. Tem gente que desliga a geladeira à noite para gastar menos, enquanto o
motor trabalha mais para esfriar tudo de novo. Tem quem passe pasta de dente na
queimadura, pó de café na ferida ou coloque uma faca embaixo do travesseiro.
Tem quem jure que manga com leite faz mal e que deixar o celular carregando a
noite toda estraga a bateria (o que valia para aparelhos antigos, não para os
de hoje).
Por que
isso pega? Quase nunca é falta de inteligência. É uma lógica intuitiva
incompleta. Se passa menos água pelo registro, gasta-se menos, parece óbvio. Só
que o hidrômetro mede volume: para encher o mesmo balde, a conta será a mesma,
mais devagar ou mais depressa. A garrafa no medidor também ilude, porque ele
apenas mede a corrente que passa pelos fios, e nenhuma garrafa muda isso.
Há ainda a
prova que parece prova. A pessoa pôs a garrafa, a conta veio mais baixa e
pronto, funcionou. Ela não considera o clima, a viagem da família, o chuveiro
desligado. E se a conta sobe, a culpa é de outra coisa. Quando dá certo, o
mérito é da crença; quando dá errado, nunca é dela. Muitas dessas ideias também
carregam um grão de verdade. Xampu em excesso pode ressecar o cabelo, e daí a
crença exagera até "lavar estraga". É esse pedaço de verdade que a
torna tão difícil de derrubar.
E o mais
curioso: se alguém que entende do assunto explica o contrário, a pessoa muitas
vezes nem ouve. A crença deixou de ser opinião e virou identidade. Ela é
"aquela que economiza", "aquele que entende de cabelo".
Admitir o erro é admitir que passou anos enganada, e ninguém gosta disso. Além
do mais, o "eu vi com meus olhos" pesa mais do que qualquer estudo. E
o especialista, às vezes, fala de cima para baixo, com arrogância e jargão, o
que faz a pessoa defender o território em vez de pensar no argumento. Acreditar
na bobagem não custa nada. Rever a crença custa reconhecer o erro e recomeçar.
Mas antes
que alguém ria dos outros, vale a pergunta: e as minhas crenças? Quem nunca
colocou garrafa em medidor também carrega as suas, do seu jeito. Aquela certeza
que nunca testou, aquela verdade herdada de alguém confiável, aquela convicção
da qual não abre mão nem diante de bons argumentos... e isso vale para crenças
de todo tipo, das domésticas às ideológicas. As nossas sempre nos parecem
razoáveis, por definição.
No fim, o
que separa quem muda de ideia de quem não muda não é a inteligência. É a
disposição de testar e de aceitar ser corrigido sem se sentir humilhado ou
desmerecido.
A CURIOSIDADE DA CRIANÇA DE HOJE, É O PENSAMENTO CRÍTICO DO ADULTO DE AMANHÃ.
A CURIOSIDADE DA CRIANÇA DE HOJE,
É O PENSAMENTO CRÍTICO DO ADULTO DE AMANHÃ.
por Heitor Jorge Lau
Há iniciativas educacionais que
merecem ser observadas para além dos resultados imediatos que apresentam, pois
seus maiores efeitos não aparecem necessariamente nas avaliações escolares, nos
certificados recebidos ou nos números divulgados pelas instituições. Seus
frutos se manifestam silenciosamente, ao longo dos anos, na maneira como uma
criança aprende a observar o mundo, formular perguntas, lidar com as próprias
dúvidas e construir explicações para aquilo que ainda não compreende. A Feira
de Ciências — Inovação e Sustentabilidade da Universidade de Santa Cruz do Sul
(Unisc), ao selecionar 120 trabalhos desenvolvidos por estudantes de diferentes
etapas da educação, representa uma oportunidade de refletir sobre a importância
dessas experiências para a formação intelectual e humana das novas gerações.
Quando uma criança começa a
investigar um fenômeno, seja ele relacionado à natureza, à tecnologia ou aos
desafios da vida cotidiana, alguma coisa importante acontece em sua maneira de
pensar. O mundo deixa de ser apenas um conjunto de coisas prontas, cujos
significados são apresentados pelos adultos, e passa a se transformar em um
território de descobertas. Uma planta que cresce em determinadas condições, a
água que se modifica conforme a temperatura, o comportamento de pequenos
animais ou o funcionamento de um objeto comum podem despertar perguntas que
conduzem a novas observações. Nesse movimento, a criança começa a compreender
que conhecer não significa apenas receber informações, mas também investigar,
comparar, experimentar e procurar explicações consistentes para aquilo que
desperta sua curiosidade.
Esse processo guarda uma analogia
interessante com o próprio desenvolvimento infantil. Assim como o corpo cresce
por meio de transformações sucessivas, a mente também amplia suas capacidades à
medida que encontra experiências que a desafiam. Uma criança que recebe
respostas prontas para todas as perguntas pode acumular informações sem
necessariamente aprender a examiná-las. Em contrapartida, aquela que é
estimulada a investigar desenvolve uma relação mais ativa com o conhecimento.
Aprende que uma dúvida não representa uma deficiência, mas o ponto de partida
de uma descoberta... que uma hipótese pode ser modificada diante de novas
evidências... e que reconhecer um erro constitui uma oportunidade de
aprendizagem, não um motivo para constrangimento.
É exatamente nessa passagem entre a
curiosidade espontânea e a investigação organizada que iniciativas como as
feiras de ciências adquirem um valor extraordinário. Ao transformar uma
pergunta em um projeto, o estudante precisa organizar ideias, estabelecer
objetivos, selecionar materiais, observar resultados e encontrar uma maneira de
comunicar aquilo que descobriu. Mesmo quando o trabalho é simples, essas etapas
mobilizam capacidades que ultrapassam os limites de uma disciplina escolar. A
criança exercita a atenção, a memória, o raciocínio lógico, a criatividade e a
persistência, enquanto aprende a estabelecer relações entre diferentes
informações. Mais do que reproduzir um conteúdo apresentado em sala de aula,
ela começa a experimentar o significado de produzir conhecimento.
Existe ainda uma dimensão
particularmente relevante nessa experiência: a necessidade de explicar o
próprio trabalho a outras pessoas. Quando um estudante apresenta sua pesquisa
diante de colegas, professores, avaliadores ou visitantes, precisa organizar o
pensamento para torná-lo compreensível. É nesse momento que a aprendizagem
individual encontra a dimensão social do conhecimento. Ao ouvir perguntas,
receber observações e confrontar interpretações diferentes, a criança descobre
que suas ideias podem ser examinadas, aperfeiçoadas e enriquecidas pelo
diálogo. Desenvolve, assim, não apenas a capacidade de argumentar, mas também a
disposição para escutar, reconhecer limites e considerar perspectivas que não
havia percebido anteriormente.
Essas experiências são especialmente
importantes durante a pré-adolescência, período em que o jovem amplia
progressivamente sua capacidade de abstração, começa a questionar explicações
antes aceitas sem resistência e procura compreender melhor o próprio lugar no
mundo. O pensamento crítico não surge automaticamente com a idade, assim como a
maturidade intelectual não decorre exclusivamente da quantidade de informações
acumuladas. Ambos dependem, em boa medida, das oportunidades de exercitar o
raciocínio, enfrentar problemas, sustentar argumentos e rever conclusões. Uma
escola que abre espaço para a investigação oferece ao estudante condições para
experimentar essas capacidades em desenvolvimento, respeitando seu ritmo e
incentivando sua autonomia.
Há também uma contribuição
importante para a formação emocional. Desenvolver um projeto exige lidar com
dificuldades, resultados inesperados, limitações de materiais e momentos em que
as coisas não funcionam como foram planejadas. A criança aprende, na prática,
que nem todo esforço produz imediatamente o resultado esperado e que a
persistência precisa caminhar junto com a capacidade de modificar estratégias.
Essa aprendizagem fortalece a confiança baseada na experiência, diferente
daquela sustentada apenas por elogios. O estudante passa a reconhecer que é
capaz de enfrentar desafios, procurar alternativas e continuar aprendendo mesmo
quando o caminho se mostra mais difícil do que imaginava.
No atual modelo de sociedade, marcada
pela circulação acelerada de informações, essa formação assume uma importância
ainda maior. Crianças e adolescentes entram em contato diariamente com
afirmações, imagens, vídeos e explicações que disputam sua atenção, nem sempre
acompanhados de evidências confiáveis. Aprender a pensar criticamente significa
desenvolver a capacidade de perguntar de onde vem uma informação, quais
elementos sustentam determinada afirmação, se existem explicações alternativas
e quais interesses podem estar envolvidos em sua divulgação. Uma feira de
ciências, evidentemente, não resolve sozinha os desafios da desinformação, mas
contribui para construir uma disposição intelectual indispensável: a de não
confundir uma afirmação convincente com uma afirmação comprovada.
A sustentabilidade, presente no nome
da iniciativa da Unisc, acrescenta outra dimensão a essa reflexão. Investigar
questões ambientais pode ajudar o estudante a compreender que os fenômenos
naturais não existem isoladamente e que as ações humanas produzem consequências
que ultrapassam o momento e o lugar em que ocorrem. Ao estudar o solo, a água,
a vegetação, os resíduos ou as relações entre os seres vivos, a criança
encontra oportunidades de relacionar conhecimento científico e responsabilidade
coletiva. A natureza deixa de ser apenas um cenário observado à distância e
passa a ser compreendida como um sistema do qual fazemos parte, cuja
preservação depende de escolhas fundamentadas e de uma percepção mais ampla das
relações entre sociedade e ambiente.
Naturalmente, não se deve esperar
que toda criança participante de uma feira científica se transforme em
pesquisadora ou cientista. O valor dessas experiências não está em antecipar
uma profissão, mas em ampliar as possibilidades de desenvolvimento de cada
estudante. Mesmo aquele que seguirá caminhos inteiramente diferentes poderá
levar consigo a capacidade de investigar problemas, avaliar argumentos,
reconhecer informações frágeis e tomar decisões com maior consciência. São
habilidades que encontram aplicação na vida profissional, nas relações sociais,
no exercício da cidadania e na maneira como cada pessoa interpreta a realidade.
Portanto, os 120 trabalhos
selecionados pela Feira de Ciências — Inovação e Sustentabilidade não
representam meramente uma coleção de pesquisas escolares. Representam também
120 oportunidades de exercitar a curiosidade, estimular a autonomia intelectual
e mostrar às novas gerações que o conhecimento é uma construção permanente.
Naturalmente, os resultados mais profundos desse processo não podem ser medidos
apenas pelo número de projetos apresentados ou pelas classificações obtidas.
Eles dependem da continuidade dessas experiências, da qualidade da orientação
oferecida e da disposição das instituições educacionais para preservar espaços
nos quais perguntar, experimentar e pensar sejam atividades tão valorizadas
quanto memorizar conteúdos.
Uma sociedade que deseja cidadãos
mais conscientes, críticos e reflexivos deveria estimular mentes pensantes muito
antes da idade adulta. Precisa oferecer às crianças oportunidades para
descobrir que a realidade pode ser examinada, que as ideias podem ser
questionadas e que compreender um problema exige mais do que aceitar a primeira
resposta disponível. A mente crítica não nasce pronta: desenvolve-se por meio
de estímulos, experiências, diálogos e desafios que ensinam o indivíduo a
pensar por conta própria sem desprezar o conhecimento construído pelos outros.
O maior mérito de uma iniciativa
como essa está naquilo que não aparece nas fotografias, nos painéis ou nas
apresentações: a transformação silenciosa que ocorre quando uma criança percebe
que é capaz de formular uma pergunta relevante e procurar, com os próprios
recursos e a orientação necessária, uma resposta fundamentada. Nesse instante,
não está apenas aprendendo ciências. Está descobrindo uma maneira de se
relacionar com o mundo, com as outras pessoas e consigo mesma.
Investir na curiosidade infantil
é investir na qualidade do pensamento que acompanhará essa criança durante toda
a vida. E uma educação que ensina a perguntar, investigar e refletir oferece
algo que ultrapassa qualquer resultado escolar imediato: as condições para que
o conhecimento deixe de ser uma coleção de respostas decoradas e se transforme
em instrumento de compreensão, autonomia e liberdade intelectual.
quinta-feira, 8 de outubro de 2026
QUANTA INFORMAÇÃO A MENTE CONSEGUE ARMAZENAR?
"O
SENHOR ACHA QUE SABE TUDO?"
A RESPOSTA HONESTA
É: QUASE NADA
por Heitor Jorge Lau
Numa certa
noite, durante uma palestra que eu ministrava para acadêmicos de um curso
superior, uma aluna me interrompeu com uma pergunta em tom provocativo. Ela
claramente não estava gostando da minha fala. Perguntou: "O senhor acha
que sabe tudo?" Respondi: "Eu praticamente sei quase nada."
Pode
parecer modéstia, ou até uma resposta para encerrar a discussão. Não era! Era
uma constatação, e hoje a ciência ajuda a mostrar o quanto ela é verdadeira,
para mim, para você e para qualquer ser humano que já passou por este planeta.
Para
entender o tamanho dessa conta, precisamos de uma régua. Os computadores medem
informação em bytes, e dá para imaginar essas medidas como uma grande
biblioteca. Um byte é uma única letra de um texto. Mil letras, mais ou menos
uma página, formam um kilobyte. Mil páginas, o equivalente a um livro inteiro,
formam um megabyte. Mil livros, o acervo de uma boa biblioteca de escola,
formam um gigabyte. Mil gigabytes, ou um milhão de livros, formam um terabyte,
o tamanho de uma grande biblioteca pública. E mil dessas grandes bibliotecas
formam um petabyte.
Agora vem o
salto. Mil petabytes formam um exabyte, e mil exabytes formam um zettabyte. Ou
seja, um zettabyte equivale a um milhão de petabytes, algo como um bilhão de
grandes bibliotecas. É uma quantidade tão grande que o nosso cérebro,
acostumado a contar o que cabe numa mesa ou numa estante, simplesmente não
consegue imaginar.
Agora, os
números. Os pesquisadores ainda discutem quanto o cérebro humano consegue
armazenar. Algumas estimativas falam em capacidade teórica de 1 a 2,5
petabytes: seria como carregar dentro da cabeça mil ou duas mil e quinhentas
dessas bibliotecas gigantes. Já estudos de psicologia que medem o que uma
pessoa realmente retém ao longo da vida chegam a valores muito menores, algo
como a informação de algumas centenas de livros. A diferença está entre o que o
cérebro poderia guardar e o que ele de fato guarda.
Agora olhe
para o outro lado da balança. A humanidade já produziu algumas centenas de
zettabytes de dados, e a conta cresce a cada dia. Em bibliotecas, seriam
centenas de bilhões. Mesmo na hipótese mais generosa, aquela em que o cérebro
estivesse completamente cheio, tudo o que um ser humano consegue saber
representa cerca de 0,0000005% de tudo o que existe, ou menos. É como levar
algumas gotas d'água até uma piscina enorme e dizer que conhece a piscina.
E tem mais
um detalhe: nem tudo o que guardamos está guardado direito. A memória não
funciona como um arquivo de computador. Ela é reconstruída a cada vez que a
acessamos, e por isso muda, se mistura e, às vezes, falha. Guardamos o que tem
emoção, repetição ou utilidade, e o resto se perde pelo caminho. Esquecer,
afinal, faz parte do funcionamento normal do cérebro.
Isso me faz
lembrar de uma frase atribuída a Sócrates: "Só sei que nada sei." Ele
não estava dizendo que era ignorante. Estava dizendo que quem enxerga o tamanho
do que não sabe fica livre para continuar aprendendo. Quem acha que já sabe
tudo para de perguntar, e quem para de perguntar para de crescer (para não
dizer outra coisa).
Talvez seja
por isso que o conhecimento de verdade não se mede em quantidade. O que faz
diferença é a qualidade das conexões que fazemos entre as poucas coisas que
sabemos: a capacidade de comparar, duvidar, ligar um assunto a outro e mudar de
ideia quando aparecem bons argumentos. É daí que nascem a compreensão, o bom
senso e a criatividade. Saber muito importa menos do que saber o que fazer com
o que se sabe.
Aquela
aluna me fez uma pergunta provocativa, e eu agradeço a ela até hoje, porque me
obrigou a dizer em voz alta algo que todos nós deveríamos lembrar com mais
frequência: diante do tamanho do mundo, somos eternos aprendizes, e não há
vergonha nenhuma nisso.
E você,
quanto acha que sabe?
HIPERTIMESIA - O DRAMA DE QUEM NÃO CONSEGUE ESQUECER
LEMBRAR DE TUDO:
DOM OU MALDIÇÃO?
O DRAMA DE QUEM
NÃO CONSEGUE ESQUECER
Por Heitor Jorge Lau
Imagine
acordar e saber, sem esforço, o que você almoçou em 14 de março de 2009, como
estava o clima naquele dia, qual música tocava no rádio e o que você sentiu
durante a tarde. Para a maioria de nós, isso soa como superpoder. Para quem
vive com HIPERTIMESIA, é só o funcionamento normal da própria cabeça.
O termo
surgiu em 2006, quando pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Irvine,
estudaram o caso de uma mulher que se tornou conhecida como Jill Price. Ela
procurou os cientistas porque se lembrava de praticamente todos os dias da vida
adulta, e essa lembrança vinha em forma de cena, como um filme que nunca para
de rodar ao fundo. Daí o nome, que une o prefixo grego que indica excesso à
palavra que significa "lembrar". Anos depois, a ciência passou a
chamar o fenômeno também de Memória Autobiográfica Altamente Superior. É
uma condição rara, com poucas dezenas de casos confirmados no mundo, entre eles
o da atriz norte-americana Marilu Henner.
Aqui vale
desfazer um mal-entendido comum. Hipertimesia não é memória fotográfica. Essas
pessoas não decoram uma lista de compras, um número de telefone ou um capítulo
de livro com mais facilidade que ninguém. Em testes de laboratório com listas
de palavras, por exemplo, costumam ir tão bem quanto qualquer pessoa. O que
elas têm de extraordinário é a memória da própria vida: datas, lugares,
conversas, acontecimentos e, principalmente, a sensação de ter estado ali. Se
você perguntar o que aconteceu em uma data qualquer de anos atrás, a resposta
vem quase instantânea e com uma riqueza de detalhes que parece inventada.
Os estudos
de imagem cerebral mostram diferenças em regiões ligadas à memória e à
organização das lembranças, além de uma comunicação mais intensa entre elas.
Mas ninguém sabe ao certo por que isso acontece. Alguns pesquisadores observam
que muitas dessas pessoas têm o hábito de revisitar o próprio passado o tempo
todo, e isso levanta uma pergunta curiosa: elas lembram mais porque o cérebro é
diferente, ou o cérebro é diferente porque elas lembram o tempo todo? A
resposta ainda está em aberto.
Então, o
que há de bom nisso? Muita coisa, para começar pelo lado humano. Quem tem Hipertimesia
carrega uma biografia viva. Os momentos felizes, como um aniversário, uma
viagem, o rosto de alguém querido, podem ser revividos com uma nitidez que a
maioria de nós só encontra em fotografias desbotadas. Nomes, datas e conversas
importantes dificilmente se perdem, e isso cria uma sensação rara de
continuidade: a vida inteira ao alcance, sem lacunas. Para a ciência, esses
casos são um tesouro. Entender como alguns cérebros guardam o passado com tanta
precisão pode ajudar a compreender melhor a memória humana e, quem sabe, abrir
caminhos para pesquisas sobre doenças como o Alzheimer, em que justamente a
memória se desfaz.
Só que a
mesma moeda tem outro lado, e é ele que costuma pesar mais. Quem lembra de tudo
lembra de tudo, inclusive do que gostaria de esquecer. Os vexames, as perdas,
as despedidas, as palavras duras ditas ou ouvidas ficam guardados com a mesma
clareza das alegrias. Os relatos dessas pessoas apontam uma dificuldade real de
virar a página, porque o passado não esmaece com o tempo: ele volta como se
fosse hoje. As lembranças surgem sozinhas, sem convite, e o cansaço mental pode
ser grande. Pessoas com essa condição contam que a memória é, ao mesmo tempo, o
maior tesouro e o maior fardo que carregam.
E há um
detalhe que desmonta a ideia de infalibilidade: a memória delas também pode
errar. Pesquisas indicam que pessoas com Hipertimesia continuam suscetíveis a
falsas memórias, assim como todos nós. Lembrar com muita convicção e muita
riqueza de detalhes não significa lembrar de forma correta. A lembrança
continua sendo uma reconstrução do cérebro, e não um arquivo de vídeo guardado
intacto.
Essa
história lembra um conto famoso do escritor argentino Jorge Luis Borges, “Funes,
o Memorioso”, sobre um homem que, depois de um acidente, passa a lembrar
absolutamente tudo. Funes recorda cada folha de cada árvore, cada nuvem em cada
instante, e justamente por isso não consegue pensar. Pensar, dizia Borges, é
esquecer diferenças, generalizar, abstrair... Sem esquecer, não há ideias, só
lembranças soltas, infinitas e esmagadoras. A ficção exagera, claro, mas a
intuição é poderosa.
No fundo, a
Hipertimesia nos obriga a rever o que pensamos sobre o esquecimento. Costumamos
tratá-lo como falha, como o defeito do cérebro que nos faz perder a chave ou o
nome daquela pessoa. Mas o esquecimento também é uma função. É ele que suaviza
a dor, que nos permite perdoar, que dá espaço ao novo e que transforma o que
vivemos em aprendizado, em vez de arquivo morto. Esquecer é, em muitos
sentidos, uma forma de cuidar de si. Enfim... a pergunta mais importante na
vida pode não ser: "como lembrar mais?", mas "o que vale a pena
guardar?".
E você? Se
pudesse escolher, trocaria a sua memória pela de quem não esquece nada, ou
agradeceria por poder esquecer?
quarta-feira, 7 de outubro de 2026
ATINGIR A META NÃO É PRODUZIR RESULTADO
ATINGIR A META NÃO
É PRODUZIR RESULTADO
por Heitor Jorge Lau
Há uma
ideia bastante difundida no mundo corporativo de que toda organização precisa
estabelecer metas para que seus profissionais saibam exatamente o que se espera
deles. A afirmação parece tão lógica que raramente alguém se dispõe a
questioná-la. Afinal, como administrar uma empresa sem objetivos, sem
indicadores e sem saber onde se pretende chegar? O problema começa quando
confundimos a necessidade de uma organização possuir uma direção com a
necessidade de transformar cada trabalhador em responsável por atingir números
individualizados. Uma empresa precisa saber para onde está indo. Outra coisa,
completamente diferente, é fazer com que cada pessoa passe a enxergar o próprio
trabalho como uma corrida permanente contra um indicador.
Durante
minha experiência profissional, presenciei situações que demonstram como esse
mecanismo pode produzir resultados completamente diferentes daqueles imaginados
por quem criou a meta. Trabalhadores inventando vendas para alcançar
determinado número, gerentes de conta solicitando a contratação de seguros que
seriam cancelados poucos dias depois, vendedores combinando com clientes a
aquisição de quantidades de produtos no último dia do período de apuração,
sabendo que os pedidos seriam cancelados no dia seguinte. Na aparência, os
indicadores apresentavam um excelente resultado. No mundo real, porém, parte
daquele resultado simplesmente não existia.
É
importante perceber que o problema não está necessariamente no trabalhador.
Quando uma organização estabelece que determinada remuneração, reconhecimento
ou permanência está condicionada ao atingimento de um número, ela cria um
poderoso incentivo para que o profissional concentre sua inteligência na
obtenção daquele número. Se o sistema permite que uma venda fictícia, uma
contratação temporária ou um pedido que será posteriormente cancelado produza o
mesmo efeito, para fins de avaliação, que uma venda verdadeira, sustentável e
economicamente saudável, o próprio sistema está ensinando as pessoas a
procurarem o caminho mais conveniente para alcançar a recompensa.
Nesse
momento acontece uma inversão silenciosa. A empresa imaginava que estava
utilizando a meta para estimular resultados, mas a meta começa a determinar o
comportamento. O trabalhador deixa de perguntar qual é a melhor maneira de
atender o cliente, ampliar o mercado ou contribuir para o crescimento da
organização. A pergunta passa a ser outra: o que preciso fazer para chegar ao
número antes do fechamento do período? E quando essa segunda pergunta se torna
mais importante do que a primeira, a criatividade deixa de trabalhar a favor da
organização e passa a trabalhar a favor do indicador.
Existe uma
diferença enorme entre perseguir um objetivo empresarial e perseguir uma meta
individual. O primeiro pressupõe um projeto coletivo. A empresa estabelece onde
deseja chegar e reúne pessoas, competências, conhecimentos e esforços
diferentes para alcançar esse destino. O segundo pode transformar colegas em
concorrentes, estimular a retenção de informações, provocar ansiedade e fazer
com que profissionais passem a administrar a própria imagem de desempenho em
vez de administrar o resultado real do trabalho. A organização pretende obter
cooperação, mas cria mecanismos que incentivam competição permanente.
O problema
se torna ainda mais grave quando o indicador escolhido é considerado uma
representação perfeita da realidade. Uma venda registrada no sistema é tratada
como resultado, mesmo quando o produto retorna. Um contrato assinado é
contabilizado como negócio, mesmo quando será cancelado. Uma determinada
quantidade comercializada aparece como crescimento, mesmo quando foi adquirida
apenas para permitir que alguém alcance uma bonificação. O sistema registra o
acontecimento, o relatório apresenta o número e todos podem comemorar. Só
depois aparece a realidade que o indicador não conseguiu enxergar.
Há ainda
uma ilusão gerencial particularmente perigosa: acreditar que o atingimento de
uma meta permite determinar quem é um profissional “bom” e quem é um
profissional “ruim”. O número passa a funcionar como uma espécie de termômetro
da competência humana. Quem supera a meta é considerado competente,
comprometido e produtivo; quem não alcança o número é rapidamente classificado
como alguém que precisa melhorar (ou ser demitido). O problema é que esse
raciocínio confunde desempenho mensurado com competência real. Uma pessoa pode
atingir sistematicamente suas metas porque trabalha em uma carteira de clientes
favorável, dispõe de melhores condições, recebe oportunidades que outros não
recebem ou simplesmente aprendeu a explorar as regras do sistema. Da mesma
forma, um profissional altamente competente pode apresentar resultados
inferiores em determinado período por atuar em condições mais difíceis,
desenvolver atividades cujo valor não aparece imediatamente nos indicadores ou
dedicar seu tempo a problemas que não cabem na planilha de avaliação.
Transformar
a meta em instrumento de medição da competência revela, em muitos casos, mais
sobre a pobreza dos mecanismos de avaliação da empresa do que sobre a
capacidade do trabalhador. Quando uma organização precisa de um único número
para decidir quem é bom ou ruim, produtivo ou improdutivo, competente ou
incompetente, ela pode estar apenas confessando que não desenvolveu
instrumentos suficientemente inteligentes para compreender o trabalho humano. É
mais fácil medir uma venda do que compreender a qualidade da relação construída
com o cliente; mais fácil contar contratos do que avaliar a capacidade de
resolver problemas; mais fácil comparar números do que compreender contextos. A
simplicidade do indicador cria a ilusão de precisão.
No fundo,
transformar metas individuais em termômetro de competência pode representar uma
forma de ineficácia gerencial. Em vez de compreender as diferentes
circunstâncias nas quais as pessoas trabalham, a organização escolhe um número,
coloca todos diante dele e chama isso de avaliação de desempenho. Depois se
surpreende quando os profissionais aprendem a trabalhar para o número.
Há
situações ainda mais perversas nessa lógica. Em determinada empresa, o
profissional realizava a venda, atingia a meta e, mesmo assim, não recebia
imediatamente a comissão correspondente. O pagamento somente era liberado depois
que a empresa tivesse certeza de que o cliente havia quitado a dívida, o que
poderia ocorrer 30, 60 ou 90 dias após. Na prática, o trabalhador realizava a
venda, cumpria aquilo que a organização havia estabelecido como objetivo e
ainda permanecia responsável pelo risco financeiro da operação. A empresa
transferia para o funcionário uma parcela de um risco que pertencia à própria
atividade empresarial. A meta era individual, a cobrança era individual, a
responsabilidade era individual, mas o risco era da empresa — até o momento em
que a empresa decidiu dividi-lo com o trabalhador. E pior: a empresa ainda ovacionou
o “cara” que criou essa barbaridade.
É
justamente aí que precisamos discutir uma das maiores ilusões da administração
contemporânea: acreditar que aquilo que pode ser medido necessariamente
representa aquilo que possui valor. Nem sempre representa. Existem resultados
que podem ser expressos em números com enorme facilidade e outros que são
fundamentais para uma organização, mas resistem à simplificação matemática.
Confiança do cliente, conhecimento acumulado, qualidade do relacionamento,
capacidade de solucionar problemas, cooperação entre profissionais,
criatividade, reputação e aprendizado organizacional dificilmente cabem em uma
planilha com a mesma precisão de uma quantidade vendida.
Quando a
remuneração passa a depender excessivamente de indicadores individuais, o
profissional também aprende uma lição bastante objetiva sobre o funcionamento
da empresa: aquilo que não entra na avaliação possui menor importância. E as
pessoas são extremamente capazes de compreender rapidamente quais
comportamentos são realmente recompensados, independentemente daquilo que
aparece nos discursos institucionais. A empresa pode falar em qualidade, ética,
relacionamento e sustentabilidade, mas, se o reconhecimento financeiro depende
exclusivamente de determinado número, será esse número que ocupará o centro da
atenção.
Isso
explica por que algumas metas aparentemente bem-intencionadas produzem
comportamentos que seus próprios gestores considerariam inadequados. Não é
necessário imaginar trabalhadores desonestos ou descomprometidos. Basta
compreender que pessoas respondem aos incentivos existentes no ambiente em que
trabalham. Se o sistema recompensa o número e não verifica adequadamente a
qualidade do resultado que produziu esse número, algumas pessoas encontrarão
maneiras de alcançar o indicador. E, quanto mais rígida for a cobrança, maior
será a pressão para encontrar essas maneiras.
Existe,
portanto, uma pergunta que todo gestor deveria fazer antes de estabelecer uma
meta individual: “Que comportamento estou incentivando ao criar esta regra?”. A
pergunta é muito mais importante do que simplesmente perguntar quanto cada
profissional deverá vender, produzir ou entregar. Porque uma meta não determina
apenas um resultado esperado. Ela também pode determinar comportamentos. E,
quando esses comportamentos são inadequados, a empresa acaba pagando duas
vezes: primeiro para incentivar o resultado artificial e depois para corrigir
os problemas provocados por ele.
Isso não
significa abandonar indicadores, planejamento ou objetivos. Uma organização sem
direção também produz desperdício. O ponto está em compreender que metas devem
servir à estratégia, e não substituir a estratégia. A empresa precisa saber
onde quer chegar, quais resultados pretende construir e como avaliar sua
evolução. Mas isso não exige necessariamente transformar cada trabalhador em
uma unidade isolada de produção, permanentemente comparada com os demais.
Talvez a
melhor pergunta não seja “quanto cada funcionário precisa entregar?”, mas “como
podemos fazer com que diferentes pessoas contribuam para que a organização
alcance aquilo que realmente importa?”. A diferença parece pequena, mas muda
completamente a lógica da gestão. Na primeira pergunta, o indivíduo está diante
de um número. Na segunda, está diante de um propósito coletivo. Quando o
indicador se torna o objetivo, o sistema começa a produzir pessoas
especialistas em atingir indicadores. Quando o objetivo permanece maior que o
indicador, o número volta a ocupar o lugar que deveria ter: o de instrumento de
acompanhamento.
Uma
organização inteligente não deveria comemorar apenas porque uma meta foi
atingida. Deveria perguntar o que aquele número representa quando retiramos
dele os pedidos cancelados, as vendas artificiais, os contratos que não
permaneceram, os comportamentos estimulados apenas pela bonificação e tudo
aquilo que existiu no relatório, mas não existiu verdadeiramente no resultado. Porque
existe uma diferença fundamental entre alcançar uma meta e produzir um
resultado. E uma empresa que não consegue distinguir as duas coisas corre o
risco de transformar seus melhores profissionais em excelentes fabricantes de
números.
terça-feira, 6 de outubro de 2026
QUANDO O VOTO DEIXA DE SER UMA ESCOLHA
QUANDO O VOTO
DEIXA DE SER UMA ESCOLHA
Estamos
elegendo um presidente
ou apenas elegendo
quem queremos que o outro lado não seja?
por Heitor Jorge Lau
A atual
conjuntura política brasileira produz uma situação que merece mais reflexão do
que paixão. De um lado, temos dois candidatos que concentram enorme parcela das
atenções e carregam, cada um à sua maneira, problemas, controvérsias e
questionamentos que deveriam ser considerados seriamente por qualquer eleitor.
De outro, existem candidatos que, embora disponham de menor força eleitoral,
poderiam merecer uma análise mais cuidadosa, inclusive como alternativas
capazes de romper a lógica de uma disputa transformada em confronto permanente
entre dois grupos. Há ainda outros nomes, mas com limitações evidentes quando
se considera a capacidade de governança de um país das dimensões e da
complexidade do Brasil.
O mais
curioso é que uma parcela enorme da população declara não gostar de nenhum dos
dois candidatos principais e, ainda assim, acaba escolhendo um deles. E aqui
aparece uma pergunta incômoda: essa pessoa está realmente votando naquele
candidato ou está simplesmente votando contra o outro? Existe uma diferença
enorme entre escolher alguém por acreditar que seja a melhor alternativa e
escolhê-lo porque sua principal virtude, aos olhos do eleitor, é impedir que o
adversário chegue ao poder. No primeiro caso, existe uma escolha. No segundo,
existe uma rejeição transformada em voto.
Esse
fenômeno produz uma das situações mais estranhas da política contemporânea
brasileira: pessoas que não defendem propriamente o candidato em quem votam,
mas que estão dispostas a fazer qualquer coisa para impedir a vitória daquele
que consideram intolerável. O voto deixa de representar uma aprovação e passa a
representar uma barreira. Não se vota necessariamente em alguém... vota-se
contra alguém. E, quando isso acontece em grande escala, a eleição deixa de ser
uma comparação entre projetos e passa a funcionar como um mecanismo de
sobrevivência política de dois grupos que precisam manter o outro
permanentemente sob ameaça.
Há ainda
uma questão mais delicada. Quando existem questionamentos sérios, fatos
controversos ou episódios que colocam em dúvida a conduta de um candidato, por
que isso deixa de ser suficiente para que seu eleitor reavalie a escolha? Não
estou afirmando aqui que toda acusação corresponde a culpa, nem que qualquer
candidato submetido a controvérsia deva ser automaticamente considerado inapto.
A questão é outra: por que determinados eleitores abandonam completamente a
disposição de examinar criticamente aquilo que existe contra o candidato que
escolheram?
E surge
então a pergunta que considero mais perturbadora: se existem outras opções,
inclusive algumas que não carregam o mesmo conjunto de controvérsias, por que
elas são frequentemente descartadas antes mesmo de serem examinadas? Por que o
eleitor aceita a ideia de que precisa escolher obrigatoriamente entre dois
nomes, como se qualquer terceira possibilidade fosse uma espécie de desperdício
de voto? Será que o voto útil se transformou em uma prisão mental na qual o
eleitor passa a considerar impossível qualquer alternativa que não pertença aos
dois polos dominantes?
É nesse
ponto que a palavra fundamentalismo começa a fazer sentido. Não necessariamente
fundamentalismo religioso, mas fundamentalismo político. O fundamentalista não
precisa conhecer profundamente aquilo que defende, precisa apenas acreditar que
aquilo que defende não pode ser questionado. Os fatos deixam de funcionar como
elementos para reflexão e passam a ser classificados conforme favoreçam ou
prejudiquem o lado escolhido. O mesmo acontecimento pode ser considerado
gravíssimo quando envolve o adversário e irrelevante quando envolve o próprio
candidato.
Nesse
ambiente, o eleitor não pergunta mais “isso é verdadeiro?”. Pergunta “isso
prejudica o meu lado?”. Não pergunta “esse candidato está preparado para
governar?”. Pergunta “quem ele vai derrotar?”. Não pergunta “eu realmente
confio nessa pessoa?”. Pergunta “quem seria pior?”. E essa última pergunta,
quando se transforma no único critério de escolha, produz uma consequência
perigosa: o eleitor passa a aceitar quase qualquer coisa do seu candidato desde
que o adversário seja considerado pior.
É assim que
a política pode se transformar em uma disputa de torcidas. O candidato deixa de
ser avaliado pelo que faz e passa a ser protegido pelo que representa. Seus
erros são relativizados, suas contradições são justificadas e suas
controvérsias são imediatamente comparadas às do adversário. A pergunta deixa
de ser “ele merece meu voto?” e passa a ser “o outro merece menos?”. Parece uma
diferença pequena, mas não é. Uma pergunta procura escolher um governante, a
outra procura derrotar um inimigo.
O problema
é que um país não é governado pela simples derrota do adversário. O Brasil
precisa de alguém capaz de administrar uma máquina pública gigantesca,
respeitar instituições, tomar decisões difíceis, enfrentar problemas econômicos
e sociais, negociar com o Congresso, preservar direitos, lidar com conflitos e,
sobretudo, compreender que o cargo de presidente não pertence a uma torcida.
Pertence ao país.
Por isso,
considero saudável recuperar uma pergunta que parece ter desaparecido do debate
eleitoral: se nenhum dos dois candidatos principais merece nossa confiança
integral, por que somos obrigados a escolher entre eles como se fossem as
únicas possibilidades existentes? E, se existem outras alternativas que
apresentam condições razoáveis de governabilidade, por que não as examinar com
a mesma seriedade?
Uma
democracia madura não deveria produzir eleitores que defendem cegamente seus
candidatos. Deveria produzir cidadãos capazes de abandonar uma preferência
quando os fatos demonstram que ela deixou de ser justificável. O voto não
deveria ser um ato de fidelidade. Deveria ser um ato de julgamento. Assim, o
maior problema da política brasileira não esteja apenas nos candidatos. Ele
também está na incapacidade de uma parte do eleitorado de admitir que o próprio
candidato pode estar errado. Quando isso acontece, a política deixa de ser uma
escolha racional entre possibilidades e começa a adquirir características de
fundamentalismo: nada que venha do outro lado merece consideração e nada que
venha do próprio lado merece condenação.
Um país
governado por esse tipo de lógica corre o risco de passar anos escolhendo não o
melhor, mas simplesmente aquele que consegue derrotar o pior (e já faz algum
tempo que é assim). Essa é uma escolha? Ou é apenas uma forma sofisticada de
fundamentalismo político?
domingo, 4 de outubro de 2026
TODA VEZ QUE APRENDEMOS ALGUMA COISA, ALGUMA COISA EM NÓS PRECISA DEIXAR DE SER EXATAMENTE COMO ERA.
TODA
VEZ QUE APRENDEMOS ALGUMA COISA,
ALGUMA COISA EM
NÓS PRECISA DEIXAR DE SER EXATAMENTE COMO ERA.
por Heitor Jorge Lau
Há uma
ideia fascinante na neurociência contemporânea que nos obriga a repensar uma
das imagens mais comuns que imaginamos do cérebro. Durante muito tempo, foi
conveniente imaginar a mente como uma espécie de computador biológico:
recebemos informações, armazenamos dados, recuperamos aquilo que precisamos e
seguimos funcionando como antes. A comparação é sedutora, mas o cérebro humano
é muito mais estranho, complexo e dinâmico do que qualquer máquina que tenhamos
construído. Quando aprendemos, não estamos simplesmente colocando uma
informação nova dentro de uma estrutura que permanece intacta. O próprio
sistema que aprende é modificado pela experiência. Redes neurais alteram seus
padrões de atividade, conexões são fortalecidas ou enfraquecidas, caminhos anteriormente
pouco utilizados passam a participar de novas associações. O cérebro não apenas
guarda aquilo que descobrimos, ele se reorganiza a partir daquilo que
descobrimos. E é justamente nesse ponto que uma constatação científica começa a
adquirir uma dimensão profundamente humana: depois que alguma coisa realmente
nos transforma, já não existe um caminho perfeitamente intacto de volta ao que
éramos antes.
Toda vez
que realmente aprendemos alguma coisa, alguma coisa em nós precisa deixar de
ser exatamente como era. A frase parece simples, mas contém uma consequência
que ultrapassa muito a ideia convencional de aprendizagem. Saber não significa
apenas possuir mais uma informação. Saber pode significar perceber de outra
maneira, estabelecer novas relações, desconfiar de antigas certezas e enxergar
aquilo que antes permanecia invisível. Uma pessoa que descobre determinado
aspecto da realidade não consegue mais olhar para essa realidade exatamente com
os mesmos olhos. Mesmo quando tenta esquecer, negar ou ignorar o que descobriu,
a experiência já aconteceu. O conhecimento atravessou sua história e passou a
fazer parte daquilo que ela é. Não se trata de afirmar que toda informação
produz uma transformação profunda, porque acumulamos diariamente uma quantidade
imensa de dados que desaparecem sem deixar marcas significativas. A
transformação acontece quando o conhecimento encontra alguma estrutura interior
capaz de acolhê-lo, confrontá-lo e integrá-lo. Nesse momento, aprender deixa de
ser acumulação e passa a ser metamorfose.
Por isso
que algumas leituras permanecem conosco durante décadas, enquanto centenas de
outras desaparecem pouco depois de fecharmos um livro. Não lembramos
necessariamente de todas as páginas que lemos, dos nomes dos personagens, das
datas ou das informações que encontramos ao longo do caminho. Entretanto,
determinadas ideias permanecem trabalhando silenciosamente dentro de nós. Uma
frase que lemos aos vinte anos pode adquirir um significado completamente
diferente aos quarenta. Um conceito que parecia insignificante na juventude
pode tornar-se essencial depois de uma perda, de uma mudança profissional ou de
uma experiência amorosa. Um livro esquecido na estante pode continuar existindo
dentro de nós mesmo quando já não conseguimos reproduzir uma única página dele.
A leitura profunda possui essa característica quase misteriosa: ela não termina
necessariamente quando chegamos à última página. Algumas leituras continuam
acontecendo durante anos, porque aquilo que encontramos nelas passa a dialogar
com acontecimentos que sequer nem haviam acontecido quando lemos o livro.
Isso também
explica por que envelhecer não significa apenas acumular anos. Envelhecer é
acumular versões de nós mesmos que foram sendo modificadas pelas experiências.
Há dentro de cada pessoa uma espécie de arqueologia particular, formada por
tudo aquilo que ela viveu, perdeu, descobriu, compreendeu e deixou de
compreender. Não somos apenas a pessoa que acordou nesta manhã... somos também,
em alguma medida, todas as pessoas que fomos obrigados a deixar para trás. O
adolescente que acreditava conhecer o mundo continua existindo em algum lugar
da memória, mas não possui mais o mesmo território dentro de nós. O jovem que
defendia determinadas certezas foi confrontado pela experiência. O adulto que
acreditava ter compreendido certas coisas descobriu posteriormente que ainda
havia muito a aprender. E assim seguimos, não como uma identidade perfeitamente
contínua, mas como uma espécie de construção permanente na qual cada
experiência importante acrescenta algo e, ao mesmo tempo, retira alguma coisa
que já não consegue permanecer intacta.
Há nisso
uma beleza que nem sempre percebemos quando somos jovens. Costumamos imaginar
que amadurecer significa finalmente chegar a uma versão definitiva de nós
mesmos. Como se em algum momento da vida pudéssemos dizer: agora sei quem sou,
agora compreendo como o mundo funciona, agora não preciso mais mudar. A
experiência costuma demonstrar justamente o contrário. Quanto mais conhecemos,
mais percebemos a dimensão daquilo que desconhecemos. Quanto mais lemos, mais
percebemos quantos livros ainda não lemos. Quanto mais observamos a natureza,
mais percebemos que nossa compreensão dela é pequena. Quanto mais convivemos
com outras pessoas, mais percebemos que nenhum ser humano cabe completamente
nas categorias que criamos para compreendê-lo. O conhecimento verdadeiro não
produz apenas respostas, ele modifica a qualidade das nossas perguntas. E uma
das marcas da maturidade intelectual é justamente essa capacidade de continuar
mudando sem sentir que cada mudança representa uma derrota daquilo que fomos
anteriormente.
A
experiência também possui esse poder. Há coisas que nenhum livro consegue
ensinar porque precisam atravessar o corpo, o tempo e a própria existência. Uma
pessoa pode estudar durante anos o significado da perda e ainda assim não
compreender o que significa perder alguém que ama. Pode ler sobre
envelhecimento e continuar imaginando que envelhecer é simplesmente possuir
mais idade. Pode estudar sobre solidão e descobrir posteriormente que a solidão
possui dimensões que nenhuma definição acadêmica consegue abarcar. A vida
introduz conhecimentos que não pedimos e para os quais muitas vezes não estamos
preparados. E, quando esses conhecimentos chegam, modificam a maneira como
interpretamos tudo aquilo que já sabíamos. Uma experiência posterior pode
reorganizar uma lembrança antiga, assim como uma nova compreensão pode alterar
o significado de algo que aconteceu muitos anos antes. O passado permanece
cronologicamente imóvel, mas sua interpretação continua se transformando dentro
de nós.
Por isso
que algumas pessoas envelhecem permanecendo intelectualmente jovens, enquanto
outras envelhecem muito antes de seus cabelos embranquecerem. A idade
cronológica não determina sozinha a vitalidade interior. Existe uma diferença
enorme entre acumular anos e continuar aprendendo. Quem deixou de aprender pode
permanecer biologicamente vivo, mas começa a viver dentro de um mundo cada vez
mais fechado, no qual as novas experiências precisam caber nas antigas
certezas. Quem continua aprendendo aceita, ainda que nem sempre
confortavelmente, que o mundo pode obrigá-lo a reorganizar aquilo que pensava
saber. Isso não significa abandonar princípios ou transformar toda convicção em
dúvida permanente. Significa reconhecer que uma mente viva não é uma sala onde
colocamos objetos e depois fechamos a porta. É um espaço em permanente
reorganização, no qual cada experiência significativa pode deslocar alguma
coisa de lugar.
É justamente
aí que a leitura adquire uma importância que ultrapassa o simples prazer de
ler. Ler é permitir que uma inteligência que existiu em outro tempo entre em
contato com a nossa própria inteligência e produza alguma alteração. Quando
abrimos um livro, colocamos nossa experiência diante da experiência de alguém
que viveu, pensou, imaginou ou pesquisou de outra maneira. Podemos concordar ou
discordar, aceitar ou rejeitar, mas alguma coisa acontece nesse encontro. Muitas
vezes o livro confirma aquilo que já pensávamos. Noutras vezes destrói uma
certeza. Ou... oferece uma pergunta que permanece conosco por anos. E, em
determinadas ocasiões, encontramos uma ideia que parece ter esperado por nós
durante toda a vida. É nesse momento que compreendemos que ler não é
simplesmente passar os olhos sobre palavras. Ler é permitir que palavras
produzam movimento dentro de nós.
No fim, a
grande aventura intelectual de uma vida não está em chegar a um ponto onde
finalmente sabemos tudo, mas em conservar a capacidade de sermos modificados
por aquilo que encontramos. Há uma espécie de pobreza interior em quem já não
admite nenhuma transformação, porque toda novidade passa a ser julgada imediatamente
pelas antigas certezas. Em contrapartida, existe uma forma de riqueza
silenciosa naquele que ainda consegue dizer: eu não havia pensado nisso dessa
maneira. Essa pequena frase representa uma das maiores demonstrações de
inteligência que um ser humano pode oferecer. Ela significa que ainda existe
espaço interior para que alguma coisa nova aconteça. Significa que o cérebro
continua aprendendo, mas significa também algo maior: que a pessoa ainda
permite que a vida participe da construção de quem ela é.
Envelhecer,
em parte, é compreender isso. Não podemos impedir que o tempo transforme nosso
corpo, nem podemos recuperar exatamente as pessoas que fomos em outras épocas.
Também não podemos voltar ao estado mental anterior a determinadas
experiências. Mas podemos continuar oferecendo à nossa existência aquilo que a
mantém intelectualmente viva: curiosidade, leitura, observação, diálogo,
contemplação e disposição para aprender. Cada nova compreensão modifica alguma
coisa em nós. Cada experiência importante desloca alguma peça do nosso mundo
interior. Cada livro que realmente nos alcança deixa alguma marca, ainda que
não consigamos identificá-la imediatamente. E assim vamos envelhecendo, não
como quem simplesmente acumula tempo, mas como quem atravessa sucessivas
transformações.
No fundo, esse
é o paradoxo mais valoroso da existência: passamos a vida tentando descobrir
quem somos, enquanto cada descoberta modifica aquele que está descobrindo.
Procuramos conhecer o mundo, mas o mundo também nos transforma enquanto o
conhecemos. Lemos para compreender a realidade, mas as melhores leituras acabam
modificando o leitor. Vivemos para acumular experiências, mas são as
experiências que acabam nos reconstruindo. E, quando percebemos isso,
compreendemos que não existe uma versão definitiva de nós mesmos esperando no
futuro. Existe apenas essa construção contínua, silenciosa e inevitável de
alguém que nunca permanece exatamente igual.
Toda vez
que realmente aprendemos alguma coisa, alguma coisa em nós precisa deixar de
ser exatamente como era. Isso não é uma perda. É precisamente a maneira que a
vida encontrou para impedir que nos tornemos estátuas de nós mesmos.
terça-feira, 29 de setembro de 2026
O CALDEIRÃO CLIMÁTICO E A FRAGILIDADE HUMANA
O
CALDEIRÃO CLIMÁTICO E A FRAGILIDADE HUMANA
DA EUROPA
TROPICALIZADA ÀS MAZELAS DO BRASIL
por Heitor Jorge Lau
O espanto
coletivo diante de notícias sobre milhares de mortes causadas por ondas de
calor na Europa revela uma miopia generalizada sobre os limites biológicos do
ser humano e a resiliência das nossas infraestruturas. Quando termômetros
disparam em latitudes tradicionalmente temperadas, o senso comum costuma
questionar como o calor pode ser letal, imaginando que se trata apenas de um
incômodo passageiro ou de um exagero midiático. No entanto, a letalidade desses
eventos não reside estritamente na marca registrada pelo mercúrio dos
termômetros, mas em uma engrenagem trágica que une o colapso fisiológico do
organismo, a herança arquitetônica das edificações e a implacável fratura
social. Ao deslocarmos esse olhar para o Brasil, percebemos que o problema não
apenas nos pertence como se capilariza de forma perversa, escancarando que a
adaptação às mudanças climáticas é, antes de tudo, uma questão de justiça
econômica e estrutural.
Do ponto de
vista puramente biológico, o corpo humano funciona como uma refinada máquina
termodinâmica que precisa manter sua temperatura interna estritamente regulada
entre 36,5°C e 37°C. Quando o ambiente externo ameaça esse equilíbrio, o
sistema cardiovascular aciona um mecanismo de defesa conhecido como
vasodilatação periférica, processo no qual os vasos sanguíneos se dilatam para
direcionar um fluxo maior de sangue à pele, dissipando o calor acumulado.
Paralelamente, ocorre a sudorese (produção de suor pelo corpo, essencial para
regular a temperatura corporal e eliminar calor excessivo), cujo resfriamento
por evaporação atua como o principal ar-condicionado natural do corpo. Contudo,
em cenários de calor extremo e umidade elevada — condição esta que anula a
evaporação do suor —, esse sistema entra em exaustão. O coração passa a bombear
sangue em ritmo frenético para tentar resfriar o corpo, gerando uma sobrecarga
cardiovascular severa que pode desencadear infartos e insuficiência cardíaca,
sobretudo em populações idosas ou com comorbidades pré-existentes. A perda
massiva de líquidos e sais minerais também compromete a perfusão sanguínea nos
rins, provocando quadros de falência renal aguda, enquanto a ausência de alívio
térmico noturno impede o descanso biológico, acumulando estresse fisiológico
dia após dia.
Se a
vulnerabilidade biológica é universal, a forma como ela se manifesta na
infraestrutura urbana varia drasticamente conforme a geografia e a economia. Na
Europa, a arquitetura histórica foi concebida para reter calor em função dos
invernos rigorosos, transformando edifícios modernos e antigos em verdadeiras
estufas durante o verão, agravadas pela escassez cultural e estrutural de
sistemas de ar-condicionado. No Brasil, o problema assume feições distintas,
embora igualmente dramáticas. Existe um mito reconfortante de que o brasileiro
estaria naturalmente aclimatado ao calor por viver em um país tropical,
ignorando que a fisiologia humana possui limites intransponíveis. Mais grave
ainda é o fator socioeconômico que dita a forma como construímos nossas moradias.
A arquitetura brasileira é flagrantemente deficiente tanto para o rigor do
verão quanto para o frio, não por falta de conhecimento técnico, mas pela
barreira financeira intransponível para a imensa maioria da população. Com um
déficit habitacional histórico, grande parte das famílias constrói suas casas
por etapas, utilizando materiais inadequados e de baixo custo que não oferecem
nenhum isolamento térmico, transformando os lares em fornos abafados (ou “geladeiras”).
Empreender valores na edificação de habitações bioclimáticas eficientes exige
recursos que simplesmente não estão disponíveis para quem luta cotidianamente
pela subsistência.
Essa
carência estrutural se desdobra nas periferias urbanas e nas ruas, onde o
impacto letal do calor ganha contornos de urgência social. Trabalhadores
informais, entregadores, agricultores, garis e profissionais da construção
civil exercem suas atividades sob radiação solar implacável, muitas vezes sem
qualquer amparo legal ou proteção ocupacional adequada. Nas favelas e
aglomerados urbanos, a ausência de arborização, o adensamento excessivo e o uso
generalizado de telhas de fibrocimento ou zinco intensificam o fenômeno da ilha
de calor urbana, onde o concreto e o asfalto retêm o calor durante o dia e o
irradiam noite adentro, roubando o sono e a saúde da população mais vulnerável.
O calor extremo atua, portanto, como um revelador implacável das desigualdades:
ele mata quem não tem ar-condicionado, quem mora em habitações precárias, quem
trabalha desprotegido e quem habita cidades que priorizam o cimento em
detrimento do verde e da dignidade humana.
Enfrentar
essa realidade exige abandonar a ilusão de que o clima extremo é um fenômeno
distante ou passageiro. A transição para cidades mais resilientes e a exigência
de normas construtivas voltadas à eficiência térmica não podem ser tratadas
como luxo, mas como pilares fundamentais de saúde pública e direitos humanos.
Se continuarmos a ignorar o peso da desigualdade sobre a nossa capacidade de
adaptação térmica, o calor continuará a cobrar seu tributo mais alto justamente
daqueles que já carregam o fardo da invisibilidade social, transformando o
termômetro em um implacável juiz do nosso fracasso coletivo.
O MENINO, A MENINA E A GANGORRA QUE MOVE O CLIMA DO PLANETA
O MENINO, A MENINA
E A GANGORRA QUE MOVE O CLIMA DO
PLANETA
por
Heitor Jorge Lau
Você sabia que o mar não tem o mesmo
nível em todo o Pacífico? Por mais incrível que pareça, os ventos que sopram
sem parar sobre a linha do Equador empurram tanta água para o oeste que o nível
do mar na Indonésia fica cerca de meio metro acima do Equador. Essa diferença é
a situação normal do oceano. E é justamente quando esse equilíbrio se desfaz
que nasce um dos fenômenos mais famosos do clima, cuja história começa com
pescadores olhando para o mar.
Muito antes de existirem satélites,
boias e modelos de computador, os pescadores da costa norte do Peru perceberam
um padrão curioso. Perto do Natal, o mar ficava mais quente do que o normal e
os peixes, que davam sustento a suas famílias, ficavam mais escassos. Como o
fenômeno coincidia com a data do nascimento de Jesus, eles o batizaram de
"El Niño", que em espanhol significa "o menino". Um nome
carinhoso para algo que, mais tarde, a ciência descobriria ser muito maior do
que parecia.
Por muito tempo, o termo designava
apenas essa corrente de água quente que aparecia todo fim de ano junto à costa
peruana. Os registros indicam que, em 1892, o geógrafo Camilo Carrillo
apresentou em Lima um trabalho que citava o nome usado pelos marinheiros da
região, e foi assim que a expressão entrou no vocabulário científico. Com o
tempo, ela passou a nomear algo mais raro e intenso: os anos em que o
aquecimento do oceano ia muito além do normal e trazia consequências
dramáticas.
Para entender o que acontece,
imagine o Pacífico como uma grande bacia de água. Os ventos alísios sopram de
leste a oeste e empurram a água quente da superfície em direção à Ásia e à
Austrália, como um sopro que a acumula num dos lados da bacia. No lado oposto,
perto da América do Sul, a água que sai é substituída por água fria vinda das
profundezas, rica em nutrientes, num movimento chamado ressurgência. É essa
água fria que alimenta o plâncton e os peixes que os pescadores conhecem tão
bem.
No El Niño, essa engrenagem falha.
Os ventos alísios enfraquecem e o sopro que mantinha a água de um lado da bacia
diminui. A água acumulada no oeste desliza de volta para o centro e o leste do
Pacífico, e o nível do mar sobe de um lado e baixa do outro. A água fria das
profundezas sobe menos, a superfície esquenta e os cardumes diminuem. O ar
acima dessa mancha quente também muda, e isso aciona um ciclo: o mar aquecido
enfraquece ainda mais os ventos, e os ventos fracos deixam o mar ainda mais
quente.
É aí que está a virada na
compreensão do fenômeno. Ele não é apenas "o vento que enfraquece"
nem apenas "o mar que esquenta". É uma conversa constante entre o
oceano e a atmosfera, em que um influencia o outro. Nas primeiras décadas do
século XX, o meteorologista Gilbert Walker percebeu que a pressão do ar
oscilava entre lados opostos do Pacífico. Décadas depois, Jacob Bjerknes uniu
as peças e mostrou que oceano e ar formavam um único sistema. Por isso, hoje os
cientistas falam em El Niño-Oscilação Sul, ou simplesmente ENOS.
Mas essa história tem uma segunda
personagem. Ao contrário do que muita gente imagina, a La Niña, "a
menina", não é um fenômeno novo: ela sempre fez parte do mesmo sistema, e
só ganhou mais espaço no noticiário nos últimos tempos. Seu nome surgiu por ela
ser o oposto do menino, e a ciência também a chama de episódio frio. Chamá-la
de "anti-El Niño" soaria estranho, já que o menino do nome é o menino
Jesus. Nas décadas passadas houve até quem a chamasse de El Viejo, “o velho”,
para completar o par.
Na La Niña, a bacia do Pacífico faz
o caminho contrário do El Niño. Os ventos alísios ficam mais fortes que o
normal e empurram ainda mais água quente para o oeste, o que aumenta o desnível
entre os dois lados do oceano. No leste, perto do Peru e do Equador, a
ressurgência se intensifica, a água fria sobe em maior quantidade e o mar
esfria. É uma situação curiosa: enquanto o El Niño costuma prejudicar a pesca
na região, a La Niña tende a favorecê-la, porque traz mais nutrientes para a
superfície. Então El Niño e La Niña são uma gangorra: quando um lado sobe, o
outro desce, e o clima do planeta balança junto.
As consequências dessa gangorra
chegam muito longe, mas não são simplesmente opostas. Como o aquecimento ou o
resfriamento do Pacífico altera a circulação do ar em escala planetária,
algumas regiões recebem chuvas acima do normal e outras enfrentam secas. No
Brasil, o El Niño costuma trazer mais chuva ao Sul e menos ao Norte e ao
Nordeste, enquanto a La Niña tende a intensificar as chuvas em partes do Norte
e do Nordeste. Os efeitos variam de um episódio para outro, e por isso
instituições como a NOAA, nos Estados Unidos, e o INPE, no Brasil, acompanham o
Pacífico de perto.
E o El Niño é tão poderoso que até a
rotação da Terra sente. Como os ventos da atmosfera se aceleram durante o
fenômeno, o planeta gira um pouco mais devagar para conservar a energia de
rotação do conjunto, e o dia fica menos de um milésimo de segundo mais longo. É
imperceptível para nós, mas os instrumentos mais sensíveis detectam essa
diferença. Quando o El Niño se dissipa, a atmosfera desacelera, a Terra volta a
girar mais rápido e tudo retorna ao normal.
É por isso que o El Niño e a La Niña
devem ser acompanhados de perto: entender o que acontece no Pacífico ajuda a se
preparar para chuvas, secas e outros impactos que afetam a vida de milhões de
pessoas. E tudo isso começou quando alguém olhou para o mar com atenção.
Quantas outras descobertas ainda estão esperando alguém que simplesmente
observe?
segunda-feira, 28 de setembro de 2026
ATÉ ONDE OS TRAUMAS DA INFÂNCIA COMANDAM A VIDA ADULTA?
O PASSADO QUE NÃO
PASSA
ATÉ ONDE OS
TRAUMAS DA INFÂNCIA COMANDAM A VIDA ADULTA?
por Heitor Jorge Lau
A
influência dos traumas e recalques infantis na vida adulta é profunda e, em
muitos aspectos, estruturante, mas o seu peso e o grau de determinação sobre o
presente não são fixos nem definitivos. Na perspectiva da psicanálise contemporânea,
a infância não é uma condenação, mas sim o solo onde se constroem as primeiras
defesas, os padrões relacionais e as lentes através das quais interpretamos o
mundo. Para compreender até que ponto essas marcas acompanham o indivíduo, vale
a pena observar como elas operam e, sobretudo, como podem ser transformadas.
1. O
PESO ESTRUTURANTE DO PASSADO
Os eventos
e as cargas afetivas da infância — especialmente os recalques,
mecanismos de defesa em que desejos, ideias ou afetos intoleráveis são banidos
para o inconsciente — não desaparecem com o tempo. Eles continuam ativos,
atuando nos bastidores da vida psíquica:
Repetição
no presente: como o inconsciente não tem noção cronológica, aquilo que não foi
elaborado tende a se repetir. Na psicanálise, a elaboração é o processo
psíquico pelo qual a pessoa consegue metabolizar uma vivência dolorosa,
integrando-a à sua história sem que ela continue gerando sofrimento ou sintomas
automáticos. O adulto pode se ver, sem entender o motivo, atraído pelos mesmos
tipos de relações conflituosas, vivenciando sentimentos crônicos de inadequação
ou adotando defesas rígidas que o protegem de dores antigas, mas que hoje
sabotam sua felicidade.
Sintomatologia
e sofrimento: traumas não resolvidos frequentemente encontram vias de expressão
no corpo (sintomas psicossomáticos), na ansiedade generalizada, em fobias ou em
traços de caráter endurecidos.
2.
LEMBRAR NÃO É O MESMO QUE ELABORAR
Muitas
pessoas questionam esse processo porque dizem se lembrar perfeitamente de suas
infâncias, sejam de episódios difíceis ou de lares onde "nada de grave
aconteceu". No entanto percebemos que “ter memória não é o mesmo que
elaborar”.
É
perfeitamente possível guardar fatos na memória racional enquanto o afeto
correspondente continua soterrado, intocado e operando no escuro. A elaboração vai
muito além da recordação: é o trabalho psíquico de metabolizar a vivência,
permitindo que o adulto dê um novo significado àquela dor infantil. É preciso
recolocar a história no seu devido lugar temporal para que ela deixe de ditar
ordens no presente.
3. A
MALEABILIDADE DA MENTE E A PLASTICIDADE PSÍQUICA
Embora as
marcas infantis sejam profundas, a psique humana não é estática. O alcance
desses traumas na vida adulta depende de ferramentas poderosas de
transformação:
A escuta
analítica: quando o adulto consegue, através da palavra e de um espaço de
escuta qualificada, acessar esses conteúdos recalcados, o peso do sintoma
diminui drasticamente.
Novas experiências
emocionais: relações afetivas maduras, ambientes seguros e experiências
reparadoras ao longo da vida adulta têm a capacidade de reescrever, em alguma
medida, as antigas matrizes emocionais, provando ao psiquismo que o presente
não é necessariamente uma repetição do passado.
4. ATÉ
QUE PONTO? LIMITES E POSSIBILIDADES
É possível
afirmar que um adulto carrega esses traumas até o limite em que escolhe — ou
tem condições de — olhar para eles. Enquanto permanecem inconscientes, os
traumas operam como um roteiro invisível que o indivíduo é compelido a encenar.
No entanto, à medida que a reflexão profunda ilumina essas zonas escuras, o
grau de determinismo diminui.
Aqui entra uma
virada ética fundamental: embora não escolhamos o que nos feriu ou o que
nos faltou na infância, a responsabilidade sobre o tratamento e sobre o que
faremos com essas marcas na vida adulta passa a ser inteiramente nossa. O
passado deixa de ser um cárcere irrevogável e passa a ser compreendido como
história. O sujeito descobre que, se não pode apagar o que aconteceu, tem
inteira autonomia para decidir o destino de sua própria vida a partir de agora.
Você
sabia? O Conceito da Fita de Möbius
Na
ilustração, a estrutura em espiral que conecta o passado ao presente é
inspirada na Fita de Möbius — uma superfície geométrica fascinante que possui
apenas uma borda e um único lado. Na psicanálise, eu uso ela como uma metáfora
visual: ilustra como o inconsciente, os traumas infantis e a vida adulta não
estão separados em caixas estanques, mas fazem parte de uma mesma continuidade
psíquica que pode ser integrada e transformada através da elaboração.
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