SINCERICÍDEO - O APLAUSO QUE NUNCA PEDIMOS
Há algo profundamente contraditório — e francamente irritante — no comportamento humano quando o assunto é opinião. As pessoas chegam até você carregando suas ideias, suas escolhas e suas certezas como se fossem troféus recém-conquistados. Falam, gesticulam, explicam com entusiasmo. E você, ingenuamente, acredita que está diante de um diálogo. Que ilusão.
O ser humano, na sua grande maioria, não quer troca. Quer confirmação. Existe uma necessidade psicológica profunda chamada validação social, estudada à exaustão pela psicologia e pela neurociência. Quando alguém compartilha uma opinião ou uma decisão, o cérebro já está, naquele momento, buscando a dose de dopamina que vem com o "que ótimo!", o "concordo totalmente" ou o simples aceno de cabeça. O problema é que eles raramente avisam isso. Fingem que estão pedindo sua perspectiva quando, na verdade, estão pedindo seu carimbo.
E por que isso acontece? Porque a autoimagem humana é frágil por natureza. Construímos nossas identidades sobre um conjunto de crenças, gostos e escolhas que, no fundo, precisam ser reforçados externamente para parecerem reais e legítimos. Quando você discorda, não está apenas contrariando uma ideia — está, aos olhos de quem ouve, ameaçando a coerência de quem essa pessoa acredita ser. O ego interpreta a discordância como ataque. E aí vem a virada de cara, o silêncio gelado, a ofensa não declarada.
Há também o fenômeno do viés de confirmação, que faz com que as pessoas filtrem o mundo em busca apenas daquilo que já pensam. Elas procuram aliados, não interlocutores. Companheiros de crença, não parceiros de pensamento. E quando você ousa sair desse script, quebra um contrato social não escrito que elas mesmas estabeleceram sem te consultar — o contrato de que sua função ali era apenas concordar.
O que mais indigna nessa dinâmica é a desonestidade velada do processo. Ninguém chega dizendo "preciso que você valide minha escolha". Não. Elas perguntam o que você acha, pedem sua opinião com toda a aparência de quem está aberto ao debate. E então, no exato momento em que você se arrisca a ser real, a ser genuíno, a oferecer algo além de um espelho — você se torna o problema. Você foi rude. Você foi insensível. Você "não entendeu".
No fundo, o que falta é uma habilidade que deveria ser ensinada desde cedo: distinguir entre precisar de apoio emocional e querer uma opinião real. São coisas completamente diferentes, e confundi-las gera exatamente esse ciclo desgastante. Porque quando alguém genuinamente quer ouvir, ouve — mesmo que doa um pouco. E quando alguém só quer ser aplaudido, qualquer coisa diferente de aplauso soa como agressão.
A questão, no fim, não é que as pessoas sejam más ou deliberadamente hipócritas. É que a maioria nunca foi ensinada a ter uma relação madura com a discordância. Crescemos em ambientes onde concordar era sinal de afeto e discordar era sinal de conflito. O resultado é uma sociedade cheia de pessoas que dizem "me fala o que você pensa”, mas que, no íntimo, torcem para que o que você pensa seja exatamente igual ao que elas já pensam. E nós, que insistimos em ser honestos, ficamos aprendendo — na marra — quando falar e quando simplesmente sorrir. O que, convenhamos, é uma pequena tragédia cotidiana.
Ah, a palavra perfeita para o fenômeno! SINCERICÍDEO — aquele momento em que você é honesto demais e mata a relação na hora. A verdade entrou, a amizade saiu. É quase uma ironia cruel: a sinceridade, que deveria ser um dos pilares de qualquer relação saudável, virou uma arma perigosa nas mãos de quem a usa sem o filtro social esperado. Você não mentiu, não foi cruel, não teve má intenção — simplesmente falou o que pensava. E foi o suficiente para o desastre.
O sincericídeo tem uma característica muito particular: a vítima nunca é quem falou a verdade. É a relação em si. E o curioso é que o "ofendido" raramente admite que o problema foi não ter suportado ouvir algo diferente do que esperava. Ele vai reformular a narrativa, vai dizer que você foi grosseiro, insensível, que "não precisava ter falado assim" — como se houvesse uma forma cirúrgica e indolor de contrariar o ego alheio. No fundo, o sincericídeo revela algo sobre quem não sobreviveu a ele: que a relação tinha condições. Que o seu lugar ali era de espelho, não de pessoa. E espelho, como se sabe, só serve enquanto reflete o que o outro quer ver.

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