segunda-feira, 13 de outubro de 2025

VIOLÊNCIA P0R OPÇÃO OU POR NECESSIDADE? EIS UMA QUESTÃO MILENAR DIFÍCIL DE RESPONDER.


 

UMA ANÁLISE BIO-PSICOSSOCIAL DA VIOLÊNCIA

por Heitor Jorge Lau 

            A violência, em suas multifacetadas manifestações - da agressão física e verbal no ambiente doméstico aos mais complexos e premeditados atos de crueldade que chocam a sociedade - é um dos enigmas mais persistentes e dolorosos da experiência humana. Para além de qualquer explicação simplista que a reduza a um mero "instinto" ou a uma falha moral individual, o entendimento contemporâneo exige a adoção de uma perspectiva integradora, o modelo biopsicossocial, que reconhece a natureza complexa e determinada por múltiplas camadas de causalidade. Este modelo, ao invés de isolar a biologia, a psicologia ou o ambiente social, propõe que estes domínios interagem de forma dinâmica e contínua, moldando a propensão de um indivíduo ao comportamento agressivo.

            A dimensão biológica estabelece o substrato fundamental para qualquer comportamento. Ela engloba a genética, a neuroquímica e a estrutura cerebral. Longe de determinar o destino de um indivíduo, a herança genética confere uma predisposição, uma vulnerabilidade que pode ou não ser ativada por fatores externos. No cerne desta predisposição estão genes que regulam a função de neurotransmissores, que são substâncias químicas cerebrais responsáveis pela comunicação entre os neurônios. Um exemplo notório é o gene da Monoamina Oxidase A (MAOA), frequentemente apelidado de "gene guerreiro". A enzima MAOA metaboliza, ou seja, inativa neurotransmissores cruciais como a serotonina e a dopamina, que estão intimamente ligados à regulação do humor, da impulsividade e da agressão. Uma variante de baixa atividade deste gene tem sido consistentemente associada a um risco aumentado de comportamento antissocial e violento. Contudo, é fundamental a ressalva de que esta predisposição genética só se traduz em violência significativa quando o indivíduo é exposto a ambientes adversos, como maus-tratos e negligência na infância, demonstrando que o código genético é apenas um potencial a ser modulado pelo contexto.

            A estrutura e o funcionamento cerebral também são cruciais. Estudos de neuroimagem têm demonstrado que indivíduos com histórico de violência ou com Transtorno de Personalidade Antissocial, um distúrbio caracterizado por um padrão de desrespeito e violação dos direitos dos outros, frequentemente apresentam alterações no córtex pré-frontal. Esta é a área mais anterior do cérebro, responsável pelas funções executivas, que incluem o controle de impulsos, o planejamento de longo prazo, a tomada de decisões morais e a regulação emocional. Um volume reduzido ou uma atividade diminuída nesta região pode resultar em dificuldades na inibição de reações agressivas e em um julgamento moral deficiente. Outra estrutura relevante é a amígdala, um par de núcleos em forma de amêndoa profundo no lobo temporal, que desempenha um papel central no processamento de emoções, especialmente o medo e a raiva. Disfunções na amígdala podem levar a uma resposta emocional hiperativa a ameaças percebidas, ou, inversamente, a uma redução na capacidade de sentir empatia e de processar o medo de punição.

            A interação entre a biologia e o ambiente ocorre através da epigenética, o estudo das alterações na expressão dos genes, a forma como são ativados ou silenciados, sem que haja uma mudança na sequência subjacente do DNA. A exposição a estresse precoce e crônico, como o trauma de abuso infantil, pode induzir modificações epigenéticas que alteram permanentemente o funcionamento de genes envolvidos na resposta ao estresse. O abuso na infância, por exemplo, pode "ligar" ou "desligar" genes que regulam o sistema de cortisol, o hormônio do estresse, levando a uma desregulação do eixo Hipotálamo-Hipófise-Adrenal (HHA), que é o sistema central de resposta ao estresse. Um eixo HHA disfuncional pode resultar em níveis cronicamente elevados de estresse e em uma reatividade emocional exagerada, alimentando o ciclo da agressão.

            A dimensão psicológica aborda os fatores internos do indivíduo, como o desenvolvimento da personalidade, os processos cognitivos, as habilidades sociais e a saúde mental. A personalidade de um indivíduo, que é o padrão de pensamentos, sentimentos e comportamentos relativamente estáveis, é formada pela interação do temperamento, que são as tendências inatas e genéticas, com o caráter, que é o resultado do aprendizado e da socialização. Indivíduos com altos níveis de impulsividade, baixa tolerância à frustração e baixo autocontrole, características que podem ter um componente genético, são mais propensos a reagir agressivamente a situações estressantes ou percebidas como ameaçadoras.

            Os processos cognitivos também desempenham um papel vital. A forma como um indivíduo interpreta as intenções e ações dos outros é um preditor chave do comportamento agressivo. O viés de atribuição hostil é um erro cognitivo comum em agressores, onde eles tendem a interpretar ambiguidades sociais como hostis ou ameaçadoras. Por exemplo, um esbarrão acidental na rua pode ser interpretado não como um descuido, mas como um ato deliberado de desrespeito, levando a uma escalada de retaliação. Além disso, a falta de empatia, a capacidade de se colocar no lugar do outro e compartilhar seus sentimentos, é uma característica central em indivíduos que cometem atos de violência extrema, como os serial killers. A ausência de empatia remove a barreira emocional que impede a maioria das pessoas de infligir sofrimento a outrem.

            Questões de saúde mental, como o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), o Transtorno Opositivo Desafiador (TOD) e o Transtorno de Conduta (TC) na infância e adolescência, e posteriormente o Transtorno de Personalidade Antissocial na idade adulta, estão frequentemente associadas à violência. Embora não sejam causas diretas da violência em si, elas representam déficits no desenvolvimento socioemocional e cognitivo que aumentam o risco de comportamentos agressivos e de conflito com normas sociais. A ansiedade, a depressão e o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), muitas vezes resultantes da própria exposição à violência como vítima, também podem, paradoxalmente, levar a reações agressivas como forma de defesa ou expressão de sofrimento.

            A dimensão social engloba o ambiente familiar, as relações interpessoais, o contexto socioeconômico e as normas culturais. A família é a primeira e o mais influente delineador de socialização. Um ambiente familiar caracterizado por violência doméstica, abuso, negligência, ou práticas parentais inconsistentes e punitivas, é um dos fatores de risco mais poderosos para o desenvolvimento de comportamentos agressivos na prole. As crianças aprendem sobre o mundo, sobre as relações e sobre a resolução de conflitos observando e internalizando o comportamento dos pais e cuidadores, um processo descrito pela Teoria da Aprendizagem Social. A exposição constante a modelos violentos normaliza a agressão como uma resposta aceitável, ou mesmo eficaz, para lidar com o estresse e alcançar objetivos.

            Fora do núcleo familiar, o ambiente social mais amplo introduz fatores como a pobreza, o isolamento social e a exposição à criminalidade na vizinhança. O estresse socioeconômico crônico, imposto pela pobreza, atua como um catalisador, aumentando a tensão dentro das famílias e limitando o acesso a recursos de apoio e educação. A ausência de redes de suporte social fortes e a exclusão do mercado de trabalho aumentam o sentimento de desamparo e frustração, que são precursores conhecidos da agressão.

            A cultura, o conjunto de valores, crenças e práticas compartilhadas por um grupo social, também define o que é considerado violência e como ela deve ser tratada. Em culturas ou subculturas onde a agressão, especialmente por parte de homens, é vista como um sinal de força, masculinidade ou é justificada em certas situações, a incidência de violência tende a ser maior. A mudança cultural, que inclui o fortalecimento das normas de respeito, a desconstrução da masculinidade tóxica e o estabelecimento de um sistema legal que penalize a agressão, é fundamental para a redução da violência em larga escala.

            Seria possível considerar, portanto, que a violência humana é um produto da combinação de fatores. O indivíduo nasce com uma vulnerabilidade biológica (a genética), que é então moldada pelas experiências iniciais (o ambiente familiar e o trauma), afetando o desenvolvimento de sua mente (a psicologia, com déficits de empatia e controle de impulso), e que se manifesta sob a pressão de um contexto mais amplo (a sociedade, a cultura e a pobreza). Assim, um ato de violência (seja qual for, neste contexto não me refiro a defesa pessoal ou outro tipo de defesa) não é apenas um caso isolado de maldade, mas um reflexo trágico da falha em uma ou mais dessas esferas interconectadas. Uma compreensão integral, informada pelo modelo biopsicossocial, é o primeiro e mais vital passo para desenvolver intervenções preventivas e terapêuticas verdadeiramente eficazes, que atuem em todos os níveis: fortalecendo a resiliência biológica, cultivando a saúde mental e construindo sociedades mais justas e menos violentas.

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