quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

POR QUE O SER HUMANO PERMANECE NUM ETERNO CONFLITO ENTRE FORÇAS INTERNAS E EXTERNAS DA MENTE?

O CÉREBRO IDEOLÓGICO E OS LABIRINTOS DA POLÍTICA

Por Heitor Jorge Lau

            Pergunta: as inclinações ideológicas são apenas fruto da educação e cultura ou também refletem predisposições neurológicas, isto é, tendências biologicamente inscritas nos circuitos do cérebro que influenciam a forma como o ser humano reage ao mundo. Durante séculos, a política foi compreendida como resultado de convicções, valores e circunstâncias históricas, raramente convocando o cérebro para o debate. Contudo, a ciência contemporânea sugere algo provocador: talvez as ideologias humanas não sejam apenas construções sociais, mas também reflexos de como o sistema nervoso, a rede complexa de neurônios que processa informação e coordena as funções do corpo, interpreta e responde à realidade. O ser humano move-se entre dois instintos fundamentais que moldam a sua relação com o mundo. Por um lado, existe o instinto de proteção, que ergue muralhas contra a incerteza e procura segurança no conhecido. Por outro, manifesta-se o instinto de descoberta, que abre horizontes para o novo e abraça a transformação. Alguns cérebros mostram-se mais sensíveis à ameaça, valorizando previsibilidade e ordem, enquanto outros sentem-se atraídos pela aventura e pela mudança. Desta tensão biológica e psicológica nascem estilos políticos distintos: o conservadorismo como defesa da ordem estabelecida, o progressismo como aposta na transformação social. Mas esta obra não é sobre destinos biológicos imutáveis. O cérebro é moldável, plástico, capaz de aprender e de se reinventar. A biologia pode inclinar-nos numa direção, mas é a experiência vivida, a educação recebida e a cultura envolvente que decidem verdadeiramente para onde caminhamos.

            Estudos recentes em neurociência política, um campo emergente que investiga as bases cerebrais do comportamento político, revelam que certas diferenças estruturais no cérebro podem predispor o ser humano para formas distintas de pensamento. A amígdala, uma pequena estrutura cerebral em forma de amêndoa localizada no sistema límbico e responsável por processar emoções como o medo, quando mais desenvolvida, tende a estar associada a maior sensibilidade ao risco e à ameaça. Pessoas com amígdalas mais ativas ou volumosas geralmente inclinam-se para preferir estabilidade, tradição e estruturas sociais previsíveis. Por outro lado, o córtex cingulado anterior, uma região do cérebro envolvida no processamento de conflitos cognitivos e na tomada de decisões complexas, quando mais ativo, relaciona-se com maior flexibilidade cognitiva, isto é, a capacidade de adaptar o pensamento a novas situações, e abertura a experiências inovadoras. Todavia, é fundamental ressaltar que não se trata de destino biológico inflexível, mas de predisposição que pode ser significativamente moldada pela experiência, educação e contexto cultural. O cérebro possui plasticidade neuronal, a extraordinária capacidade de reorganizar as suas conexões sinápticas, ou seja, os pontos de comunicação entre neurônios, em resposta a aprendizagens e vivências ao longo de toda a vida.

            O medo emerge como uma das emoções mais antigas e poderosas inscritas no cérebro humano. Muito antes da invenção das leis, exércitos ou parlamentos, a amígdala disparava alarmes perante o som de um predador ou a sombra de uma tempestade. A amígdala cerebral, quando hiperativa, produz estados de ansiedade generalizada e aversão ao risco, levando indivíduos a valorizar mais segurança, disciplina e estruturas autoritárias. Foi o medo que salvou a humanidade da extinção ao longo da evolução, mas é também ele que, no palco político contemporâneo, tantas vezes aprisiona populações inteiras. A história está repleta de exemplos onde o medo do inimigo externo alimentou nacionalismos ferozes e xenófobos, onde o medo do caos social legitimou ditaduras brutais, e onde o medo do outro, diferente e estranho, foi sistematicamente manipulado para consolidar fronteiras e excluir comunidades inteiras. O problema surge quando líderes políticos (principalmente) descobrem como transformar este instinto vital de sobrevivência em instrumento refinado de poder, mantendo a “amígdala do povo” em alerta permanente através de narrativas de ameaça constante, para que o apelo por autoridade forte e regras rígidas se torne psicologicamente irresistível. A política do medo não protege genuinamente as populações, apenas as condiciona. Entre proteção legítima e manipulação calculada existe um abismo moral. Em Portugal (por exemplo), ainda hoje, o discurso político recorre frequentemente a este mecanismo ancestral: a ameaça permanente da crise econômica, do colapso das instituições, do estrangeiro que supostamente rouba empregos, do futuro tecnológico que nos deixará irreversivelmente para trás... São narrativas cuidadosamente construídas que exploram a ansiedade coletiva para manter o eleitorado em estado de vigilância e submissão psicológica. Quando o medo governa as decisões políticas, as sociedades trocam liberdade por uma mera sensação de segurança, uma “prisão dourada” onde as pessoas se sentem protegidas, mas tornam-se incapazes de sonhar com alternativas.

            A vida humana constitui uma permanente negociação com o risco e a incerteza. Desde que os antepassados humanos abandonaram a segurança relativa das cavernas para explorar territórios desconhecidos, a humanidade dança entre o medo paralisante da perda e o desejo estimulante da mudança. Esta tensão não é apenas social ou cultural, mas possui raízes profundamente neurológicas. Alguns cérebros sentem o risco como ameaça intolerável, levando à preferência por estruturas rígidas: partidos que prometem estabilidade eterna, religiões que oferecem certezas absolutas, governos que dizem cuidar em troca de obediência incondicional... São as muralhas invisíveis erguidas no cérebro, antes mesmo de as construir na sociedade. Outros cérebros, mais flexíveis e abertos à novidade, veem o risco como oportunidade criativa, onde instabilidade representa espaço para inovação e onde incerteza significa horizonte por descobrir. A política revela-se assim como uma dança eterna entre aqueles que querem fixar os passos, como numa valsa previsível e coreografada, e aqueles que preferem improvisar, como no jazz experimental, onde cada nota é surpresa e possibilidade. Nem um nem outro estilo é absolutamente melhor. Sociedades que apenas conservam tradições morrem por falta de adaptação ao mundo em mudança, enquanto sociedades que apenas arriscam colapsam por falta de estabilidade estrutural. É na tensão criativa e produtiva entre ordem e mudança, entre conservação e transformação, que se escreve a história humana.

            Se o cérebro oferece predisposições biológicas, é a cultura que dá forma definitiva e significado social. Ninguém nasce com ideologias prontas e completas, mas com circuitos neuronais sensíveis que o mundo social se apressa a moldar desde a infância. A neurociência moderna fala em plasticidade neuronal, a extraordinária capacidade do cérebro de se reconfigurar estruturalmente perante novas aprendizagens, experiências traumáticas ou enriquecedoras e contextos culturais distintos. Um jovem com predisposição genética para a cautela pode, através de uma educação adequada que valorize a experimentação e a curiosidade, aprender a ousar e a abraçar mudanças. Um adulto naturalmente aberto à novidade pode, após experimentar um trauma social ou pessoal significativo, tornar-se progressivamente avesso ao risco. O cérebro é como argila: nunca totalmente rígido e fixo, nunca totalmente livre e indeterminado, mas sempre em transformação dinâmica. Logo, a educação (seja ela boa ou ruim) funciona como verdadeira arquiteta da mente, esculpindo gradualmente as estruturas cognitivas que determinam como pensamos sobre o mundo. Se a instituição de ensino ensina predominantemente a decorar fatos e obedecer a autoridades sem questionar, o cérebro habitua-se à repetição mecânica e à disciplina cega, desenvolvendo padrões neuronais que favorecem conformismo. Se, pelo contrário, ela ensina a questionar pressupostos, a criar soluções inovadoras e a pensar criticamente sobre informações recebidas, o cérebro abre-se estruturalmente à inovação e à liberdade intelectual. Portugal (apena um exemplo), infelizmente, habituou-se historicamente ao primeiro modelo: um sistema de ensino largamente herdado do período salazarista, onde a obediência inquestionável pesava muito mais do que a criatividade ou o pensamento independente. A consequência observável é uma sociedade onde muitos cérebros foram sistematicamente treinados para não arriscar, para se contentar com a mediania confortável e aceitar o presente como inevitável. A cultura atua assim, como lente invisível através da qual se interpreta toda a realidade, tatuando-se no cérebro de forma imperceptível, mas profundamente persistente ao longo das gerações.

            Nenhum cérebro humano existe isolado do seu contexto social e relacional. O ser humano vive permanentemente mergulhado em densas redes de linguagem partilhada, símbolos coletivos, medos socialmente construídos e esperanças culturalmente moldadas. A política, no fundo, é a tradução amplificada desse fenômeno: não é o som solitário de um cérebro individual, mas a orquestra frequentemente caótica de milhões de mentes interconectadas. A neurociência demonstra convincentemente que as emoções são profundamente contagiosas através de mecanismos biológicos: quando uma multidão vibra intensamente de medo ou de entusiasmo coletivo, cada cérebro individual amplifica automaticamente o estado emocional partilhado através dos neurônios-espelho, células nervosas especializadas que se ativam tanto quando se executa uma ação quanto quando se observa outros a executá-la. É a mesma lógica neurológica que explica porque um indivíduo (ou vários) boceja automaticamente quando percebe alguém bocejar, ou porque alguém sorri involuntariamente quando presencia um sorriso genuíno. Na política contemporânea, este contágio emocional constitui uma arma psicológica extremamente poderosa: basta um líder carismático acionar habilmente o gatilho do medo coletivo ou da esperança partilhada, e o efeito propaga-se rapidamente em cascata através de toda a população.

            As multidões comportam-se frequentemente como um cérebro coletivo único: com amígdalas em sobressalto generalizado podem tornar-se violentas, intolerantes e dispostas a sacrificar liberdades fundamentais em troca de promessas de segurança; com córtices inspirados e estimulados podem exigir justiça social, sonhar coletivamente em futuros alternativos e reinventar radicalmente estruturas sociais. Líderes autoritários através da história compreenderam intuitivamente que não precisam de convencer racionalmente todos os indivíduos, bastando acionar estrategicamente os instintos mais básicos e primitivos: o medo ancestral do outro, a raiva visceral contra elites percebidas como corruptas, a promessa reconfortante de redenção coletiva. Portugal (mais uma vez como exemplo) apresenta-se como caso particularmente ilustrativo deste fenômeno neuropolítico. O país carrega um paradoxo histórico profundo: foi pioneiro corajoso nos oceanos durante a era dos descobrimentos e desafiou o desconhecido quando outros temiam o horizonte, mas simultaneamente arrasta pesados séculos de submissão política, de medo institucionalizado e de aversão cultural à mudança. O salazarismo deixou marcas indeléveis na mente nacional coletiva, treinando o país sistematicamente durante longas décadas a desconfiar da diferença, a obedecer a autoridades sem questionar e a acreditar firmemente que ousar era fundamentalmente perigoso. Esse treino psicológico profundo não desapareceu magicamente com a Revolução Libertadora de Abril, persistindo como tatuagem neurológica invisível nas sinapses de sucessivas gerações. A aversão crônica ao risco que caracteriza grande parte da sociedade portuguesa contemporânea não é apenas econômica ou meramente cultural, mas também neurológica, literalmente inscrita por longos anos de medo socialmente aprendido e culturalmente reforçado.

            A neuropolítica emerge assim como campo inquietante que cruza neurociência, psicologia cognitiva e ciência política tradicional. Em teoria acadêmica, procura compreender cientificamente como o cérebro processa valores éticos, crenças ideológicas e preferências políticas. Na prática potencial, abre perigosamente a porta à possibilidade técnica de medir com precisão e influenciar estrategicamente predisposições políticas individuais com base em padrões neuronais identificáveis. Se atualmente as redes sociais alimentam algoritmos sofisticados que acabam por conhecer psicologicamente o internauta melhor do que ele próprio, o que acontecerá quando governos autoritários ou empresas sem escrúpulos tiverem acesso direto e detalhado a dados neurobiológicos sensíveis? Poderiam teoricamente selecionar e personalizar mensagens políticas precisamente adaptadas ao perfil cerebral específico de cada eleitor individual, explorar sistematicamente medos particulares e criar ilusões personalizadas irresistíveis (de certa forma, algo parecido já acontece nos discursos proferidos). A democracia, nesse cenário distópico, mas tecnicamente plausível, deixaria de ser escolha verdadeiramente consciente e livre para se tornar mero reflexo condicionado e automatizado, inaugurando uma forma inteiramente nova de tirania: não a tirania tradicional da força física bruta, mas a tirania invisível e insidiosa do estímulo neurológico calibrado.

            A questão absolutamente central do presente tempo histórico revela-se assim com clareza perturbadora: como defender eficazmente a democracia quando se conhece cientificamente que os cérebros humanos são biologicamente vulneráveis a múltiplas formas de manipulação? A verdadeira liberdade política não consiste ingenuamente em estar completamente livre de todas as influências externas, mas em reconhecer conscientemente essas influências e escolher deliberadamente apesar delas. Uma democracia genuinamente saudável exige cérebros cultivadamente críticos: não basta apenas votar periodicamente, sendo absolutamente necessário compreender profundamente por que se vota em determinadas opções. A educação (nesse interim, satisfatória) surge aqui como a maior arma civilizacional: uma escola que ensina sistematicamente a pensar autonomamente, a duvidar construtivamente de informações recebidas, a reconhecer as próprias vulnerabilidades neuronais inerentes, fortalece fundamentalmente a estrutura democrática de uma sociedade. O cérebro humano constitui simultaneamente um espelho fiel e um labirinto complexo. Espelho das predisposições biológicas inatas, labirinto intrincado onde se perde perigosamente quando se confunde predisposição temporária com destino permanente, quando se toma instinto primitivo por verdade absoluta. A liberdade humana manifesta-se precisamente como dança delicada entre muralhas protetoras e horizontes abertos, entre a valsa estruturada e o jazz improvisado, entre medo ancestral e ousadia criativa. O cérebro é palco onde o drama se desenrola, mas a consciência reflexiva é a verdadeira autora do enredo. Enquanto houver quem ouse escrever narrativas para além dos meros instintos biológicos, haverá futuro onde a ideologia não representa prisão determinista, mas caminho escolhido, onde a biologia não constitui destino inevitável, mas ponto de partida transformável, onde a liberdade continua incansavelmente a reinventar-se em cada nova geração humana.


 

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