sábado, 28 de março de 2026

A INTELIGÊNCIA HUMANA COLOCADA EM QUESTÃO

A FERRAMENTA E O ARTESÃO

Por Heitor Jorge Lau

            A IA veio para ajudar ou diminuir ainda mais o QI da humanidade que está em franca decadência? Eu ouvi de vários profissionais da educação, em workshop que ministrei, a seguinte afirmação: eu me retirei das salas de aula depois da chegada da IA. Os alunos somente copiam. Eu acho essa afirmação extremamente errônea e equivocada. A minha reação verbal foi: adianta dar um carro de fórmula 1 para alguém que não sabe pilotar? O que desejei transmitir é que a IA não foi feita para pessoas intelectualmente insignificantes. Se o indivíduo não lê, não consegue redigir um texto estruturado e de conteúdo (por consequência), logicamente, também, não saberá como ou o que perguntar para uma inteligência artificial.

            Existe uma crença reconfortante e equivocada que se espalhou com a mesma velocidade que a inteligência artificial: a de que a tecnologia nivelou o campo intelectual, tornando dispensável o esforço de pensar, ler, escrever e estruturar ideias. Nunca uma ilusão foi tão bem embalada. A inteligência artificial é, em sua essência, uma ferramenta de amplificação. E ferramentas de amplificação têm uma característica implacável — elas amplificam o que já existe. Nas mãos de um pesquisador rigoroso, de um escritor disciplinado, de um estrategista que sabe formular perguntas precisas, a IA representa um salto qualitativo sem precedentes na história do trabalho intelectual. Nas mãos de quem não desenvolveu repertório, raciocínio crítico ou capacidade de articular pensamentos, a mesma tecnologia produz lixo com mais eficiência. A analogia é precisa: não adianta entregar um carro de Fórmula 1 a alguém que jamais aprendeu a dirigir. O veículo não está errado. O problema é anterior, mais profundo e mais difícil de resolver do que qualquer atualização de software.

            O que a inteligência artificial exige do ser humano, acima de qualquer habilidade técnica, é a capacidade de perguntar bem. E perguntar bem é uma competência que nasce da leitura, escrita, exposição a ideias complexas e do hábito de pensar com rigor. Quem nunca leu um livro até o fim, quem nunca precisou construir um argumento do zero, quem nunca enfrentou o desconforto de uma ideia que contradiz as próprias certezas — esse indivíduo chegará diante da mais poderosa ferramenta intelectual da história e não saberá o que pedir a ela. Ou, pior, pedirá pouco. E receberá pouco. O professor que abandona a sala de aula porque os alunos passaram a copiar respostas geradas por máquinas está diagnosticando o sintoma e ignorando a doença. O problema não é a IA — é a ausência de formação intelectual que antecede e independe dela. Alunos que apenas copiam já copiavam antes, de outras fontes, com outras desculpas. A tecnologia não criou a preguiça cognitiva, apenas a tornou mais visível e mais conveniente.

            Há, porém, uma questão legítima por trás do alarme dos educadores: a inteligência humana, medida por indicadores como atenção sustentada, vocabulário ativo, capacidade de leitura profunda e raciocínio abstrato, apresenta sinais preocupantes de declínio nas gerações mais recentes. Pesquisas realizadas em múltiplos países registraram quedas nos escores do chamado Efeito Flynn — a tendência histórica de crescimento do QI médio das populações ao longo do século XX, que parece ter estagnado ou se revertido em nações desenvolvidas. As causas são debatidas: excesso de estímulos fragmentados, leitura rasa de telas, redução do tempo dedicado ao pensamento longo e concentrado. Se esse diagnóstico for correto, a chegada da IA em um ambiente de empobrecimento intelectual é, de fato, preocupante. Não porque a tecnologia seja nociva, mas porque uma população que não sabe pensar e que passa a delegar o pensamento a algoritmos cria um ciclo de dependência intelectual perigoso. É o equivalente a uma sociedade que esquece como cozinhar porque sempre pode pedir comida por aplicativo — funciona, até deixar de funcionar.

            A saída não está em rejeitar a ferramenta. Está em insistir, com urgência, na formação do artesão. Leitura séria, escrita trabalhada, debate fundamentado, exposição a problemas que não têm resposta pronta — essas práticas não são romantismos pedagógicos. São os alicerces sem os quais nenhuma ferramenta, por mais poderosa que seja, produz algo que valha a pena. O antigo ditado sintetiza com brutalidade o que está em jogo: para quem não sabe para onde quer ir, qualquer caminho serve. A inteligência artificial pode encurtar caminhos, iluminar rotas, eliminar obstáculos. Mas o destino precisa existir antes. E destinos são construídos por mentes que aprenderam a querer chegar a algum lugar.


 

Nenhum comentário:

Postar um comentário