A EPIDEMIA DA REALIDADE
da TV Trash às Redes Sociais
Por Heitor Jorge Lau
"A condição de nossa independência e de nossa força repousa de fato no que formos capazes de fazer com nossa mente."
O realismo é a linguagem insuportável da mídia que está aí...
Nos anos 60, uma década e tanto após o início da televisão no Brasil, o grande tema dos primeiros cursos superiores de comunicação era a linguagem do novo meio. Haveria uma especificidade da linguagem da TV? Poderia ser diferente daquela do cinema? Daria para distanciá-la da "velha" linguagem estática do teatro? Mais de sessenta anos depois, a pergunta continua — mas o palco mudou radicalmente. Hoje não se fala apenas em TV: fala-se em feeds, em reels, em lives, em podcasts, em conteúdo gerado por inteligência artificial. E o realismo, que já era a ditadura da televisão, tornou-se a religião das redes sociais. O objeto da câmera continua exercendo sobre quem filma uma poderosa ditadura: se do outro lado há sempre uma pessoa real, uma paisagem real, uma vida real — como optar por outra linguagem? Ao realismo da matéria parece dever corresponder um realismo na forma. E assim, a avalanche continua — agora com mais telas, mais canais, mais algoritmos.
Da pegadinha ao prank: o realismo pré-fabricado se reinventa
O que antes era o realismo reencenado do Linha Direta ou o realismo coreografado dos artistas em joguinhos ridículos de auditório, hoje é o prank do TikTok — roteirizado, ensaiado, publicado como se fosse espontâneo. A câmera escondida virou câmera fingida de estar escondida. O espectador sabe que é falso. O criador sabe que o espectador sabe. E mesmo assim, ambos fingem que não. O Big Brother de outrora — que pelo menos confinava suas criaturas em um espaço físico controlado — foi substituído pelo confinamento voluntário do influenciador em sua própria câmera. Agora o reality é perpétuo, vinte e quatro horas, sete dias por semana, publicado em doses diárias como se fosse a vida real. E talvez seja — o que é ainda mais perturbador. A tentativa de imitar o realismo é a ração diária também dos criadores de conteúdo, através do cenário cuidadosamente desordenado, das roupas estrategicamente casualizadas, da voz propositalmente cansada — tudo isso forçado pelo campo estreito da câmera do celular, do rosto que surge em primeiríssimo plano, agora suavizado por filtros que simulam pele de porcelana.
A contradição interna: quando o realismo falha em ser real
O realismo do objeto frequentemente se choca com o realismo na forma de mostrá-lo, e o efeito de realidade se desfaz. Nas redes, a fala "autêntica" do criador deveria ser análoga à fala operativa real — não deveria parecer ensaiada, literária, nem lida de teleprompter. Mas os influenciadores frequentemente não conversam: discursam para a câmera em takes nos quais as coisas não são vividas, mas descritas como tendo sido vividas. Tampouco é o realismo que vigora quando um criador reage sozinho — em voz alta, para ninguém — a um vídeo, a uma notícia, a si mesmo. Quem faz isso realmente, fora das câmeras? E a iluminação: nada menos realista que o ring light onipresente dos criadores de conteúdo, onde a luz cai perfeitamente sobre o rosto, colocando-os no centro de um halo que os destaca irrealisticamente do fundo cuidadosamente desfocado. Nesses momentos, a linguagem da rede torna-se simbólica — e não por adoção intencional de um programa estético, mas por quebra involuntária dele.
A nova camada: quando a inteligência artificial entra em cena
Em 2026, contudo, o problema ganhou uma dimensão que o texto original não poderia prever. Se antes a TV prometia realismo e entregava encenação — e o espectador atento percebia a costura —, hoje temos conteúdo gerado por inteligência artificial que é, para o olho comum, indistinguível do real. O vídeo que parece ao vivo é sintético. A voz que soa familiar é clonada. O rosto que gesticula com naturalidade nunca existiu. O realismo já não é uma aspiração da mídia — é uma ameaça que ela carrega dentro de si. Não se trata mais de uma TV que fingia ser real sem conseguir. Trata-se de um ecossistema que consegue ser tão real quanto o real, a ponto de o real precisar se justificar. O deepfake é o Linha Direta perfeito: a reencenação que não admite ser reencenação. E o espectador — que já não confia no que vê na TV, que já desconfia do que lê no feed — agora está diante de um objeto que desafia até mesmo sua percepção sensorial.
Os apresentadores continuam — agora se chamam influenciadores
Mas não basta ter uma programação da pior espécie — são necessários também péssimos apresentadores. É impressionante a avalanche de criadores de conteúdo insuportáveis que inundam as plataformas. Certo influenciador fala como se tivesse engolido um algoritmo, repetindo as mesmas fórmulas de engajamento com variações mínimas. Outra chega ao ridículo de fingir emoção diante de uma câmera enquanto seu gestor de tráfego acompanha os números em tempo real. Para quem não gosta desse formato, é possível optar pelos comentaristas políticos que surgem em todos os canais, lançando todo santo dia a figura insuportável de alguém que jura de pés juntos que se importa com o sofrimento alheio — e que, ao mesmo tempo, monetiza esse sofrimento com anúncios de suplementos alimentares e cursos de gestão financeira. A imagem dos influenciadores diante da câmera dizendo as mesmas bobagens — ou outras bobagens — para o seguidor ou com a audiência participante nos comentários, firmemente convictos de sua genialidade algoritmicamente contestadora, se traduz em amadorismo rançoso embrulhado em estratégia de conteúdo.
O antídoto continua o mesmo
O que mudou, portanto, não foi o problema — foi sua escala, sua velocidade e sua sofisticação técnica. A ditadura do realismo que antes ocupava algumas horas de grade televisiva agora ocupa cada momento disponível da atenção humana: no bolso, no pulso, no carro, na cama. E o antídoto? Continua sendo o mesmo que era — e o mesmo que sempre foi, desde antes da TV, desde antes do rádio, desde antes da imprensa. A mente crítica. A capacidade de perguntar: quem fez isso? Por quê? Para quem? O que está sendo mostrado, e o que está sendo escondido atrás da luz perfeitamente posicionada? Em um ecossistema de mídia onde até o real precisa provar que é real, a mente que se recusa a consumir passivamente não é apenas um luxo intelectual. É um ato de resistência.

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