Não fazemos perguntas para encontrar respostas.
Nós fazemos perguntas para confrontar as respostas que já habitam em nós.
por Heitor Jorge Lau
Há
algum tempo surgiu uma ideia que, à primeira vista, parece apenas um jogo de
palavras. Mas quanto mais se pensa nela, mais sentido faz.
Toda
pergunta é apenas meia pergunta.
A
afirmação pode parecer estranha, mas basta observar como as pessoas conversam.
Ninguém pergunta a partir do absoluto desconhecimento. Antes de formular
qualquer pergunta, já existe uma história, uma experiência, uma lembrança, uma
crença, uma expectativa ou, pelo menos, uma hipótese.
É
justamente essa bagagem que torna possível perguntar.
Uma
criança pergunta por que o céu é azul porque já percebeu que ele possui uma cor
diferente de muitas outras coisas. Um estudante pergunta sobre determinado
assunto porque já compreendeu parte dele. Um paciente pergunta ao médico porque
já percebeu algum sintoma. Até mesmo quem pergunta "Quem sou eu?" já
possui alguma ideia sobre si, ainda que considere essa ideia insuficiente.
A
pergunta, portanto, nunca nasce do vazio. Ela sempre carrega uma resposta
provisória. Talvez por isso toda pergunta seja apenas metade da pergunta. A
outra metade está escondida naquilo que o próprio questionador acredita,
imagina ou espera encontrar.
Curiosamente,
o mesmo acontece com as respostas.
Quando
alguém responde, também oferece apenas meia resposta. A outra metade não
pertence a quem responde, mas a quem escuta. Afinal, toda resposta será
comparada com aquilo que o ouvinte já pensava antes de ouvi-la. Se a resposta
confirmar suas expectativas, provavelmente será aceita com facilidade. Se
contrariar suas convicções, poderá ser rejeitada, reinterpretada ou até
provocar desconforto.
Não
é raro vermos duas pessoas ouvirem exatamente a mesma explicação e chegarem a
conclusões completamente diferentes. Isso acontece porque nenhuma delas chegou
à conversa de mãos vazias. Cada uma trouxe consigo uma história diferente,
valores diferentes e, sobretudo, uma resposta silenciosa esperando ser
confirmada ou desmentida.
Essa
ideia aproxima-se de um campo da filosofia chamado hermenêutica, palavra
que significa, de maneira simples, a Teoria da Interpretação. A hermenêutica
ensina que compreender não é apenas receber informações. Compreender é
interpretar. E toda interpretação acontece a partir daquilo que já somos.
Quando
lemos um livro, por exemplo, não encontramos apenas o pensamento do autor.
Encontramos também nossas experiências, nossas lembranças e nossas crenças
dialogando com aquelas palavras. O mesmo livro pode transformar profundamente
uma pessoa e passar quase despercebido por outra. O texto é o mesmo. Quem muda
é o leitor.
O
filósofo Hans-Georg Gadamer dizia que toda compreensão nasce do encontro entre
aquilo que o texto apresenta e aquilo que o leitor já traz consigo. Não existe
leitura completamente neutra. Existe diálogo.
Talvez
o mesmo aconteça em todas as conversas humanas.
Perguntar
não significa apenas procurar respostas. Significa colocar em movimento aquilo
que já pensamos. Responder também não significa encerrar um assunto.
Significa oferecer uma possibilidade de interpretação que será recebida,
modificada ou até rejeitada por quem escuta.
Sob
essa perspectiva, o conhecimento deixa de ser uma simples transferência de
informações. Ele passa a ser uma construção compartilhada.
Cada
pergunta chega incompleta.
Cada
resposta também.
É
justamente nesse espaço entre as duas que nasce o verdadeiro diálogo.
É
justamente por isso que algumas conversas mudam a nossa vida, enquanto outras
terminam exatamente como começaram. Não depende apenas da qualidade da pergunta
nem da inteligência da resposta. Depende da disposição de ambos para permitir
que suas "meias respostas" sejam transformadas pelo encontro.
No
fundo, aprender é exatamente isso: permitir que a metade da resposta que
carregamos dentro de nós tenha coragem de conversar com a metade que vem do
outro.

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