
A
descoberta central de Freud foi a do inconsciente e a do recalcamento. Ele
ligou este conceito central com a sua Teoria da Libido e admitiu que o
inconsciente era a base dos desejos do instinto sexual, sendo que mais tarde, afirmou
que parte do ego e do superego eram também inconscientes. Esta ligação
facilitou um desenvolvimento que incomodava o pensamento psicanalítico. Primeiramente,
porque todo interesse foi concentrado no conteúdo sexual, genital e pré-genital
e o único aspecto interessante do inconsciente foi o da sexualidade recalcada.
Quaisquer que sejam os méritos da Teoria da Libido, Freud criou um instrumento
para conhecer-se a si mesmo que se estende, para além do domínio sexual, a
todas as áreas do inconsciente. [Eu, como pessoa, sou ganancioso, medroso,
narcisista, sádico, masoquista, destrutivo, desonesto etc., mas meu
conhecimento de todas estas qualidades é recalcado. Se concentrar todo o meu
interesse nos esforços de recalcamento sexual e erótico, posso viver com esta
espécie de análise, muito confortavelmente, em especial se acreditar que a
sexualidade — genital e pré-genital — é boa e não deve ser recalcada nem suprimida.
Mão tenho a dolorosa tarefa de ver qual o lado de mim mesmo que não corresponde
à minha autoimagem consciente]. Restrita à libido, a grande descoberta de
Freud, na verdade, perde muito do seu caráter crítico e desmascarador;
simplesmente, está mais apta a ser usada como instrumento de análise dos outros,
daqueles que ainda não se tenham libertado de seus tabus sexuais; não como
instrumento de autoconhecimento e transformação. Este modelo de psicanálise não
pode ser descartado chamando-o de terapia e dizendo que pertence ao ofício do terapeuta.
A terapia pode ter algum caráter técnico, mas o fenômeno em si, o entendimento
de meu próprio inconsciente é de sua incompatibilidade com minha imagem consciente
é, precisamente, a descoberta que dá à psicanálise sua importância, como passo
radical na própria descoberta do homem e em direção a uma nova forma de
sinceridade.
Infelizmente,
tomou-se elegante aplicar o conceito de recalcamento, exclusivamente ao sexo e
acreditar que se não há recalque dos desejos sexuais, o inconsciente toma-se
consciente. É claramente demonstrável nos grupos sociais em que a sexualidade,
sob todas as suas formas, é livremente praticada e experimentada sem o fardo de
tradicionais sentimentos de culpa, que a falta do recalcamento dos desejos
sexuais não significa que a maior parte do inconsciente se tornou consciente.
Na verdade, esta é uma das mudanças extraordinárias que ocorre na sociedade
ocidental de hoje. É mais extraordinário ainda, que esta experiência do sexo,
livre de "culpabilidade”, seja encontrada não somente em grupos politicamente
radicais; mas está igualmente presente entre os não-politizados. Parece que, a liberação
sexual ocorreu com velocidade espantosa em todos os grupos da sociedade de
consumo sem as consequências políticas. O
importante é entender a qualidade da experiência sexual. Em larga escala, a
gratificação sexual tornou-se um artigo de consumo e tem as características de todos
os outros consumos modernos; amplamente motivada pelo vazio, pela depressão
oculta e pela ansiedade; o ato de satisfação é, em si mesmo, banal, superficial.
Parece que muito da motivação sexual esteja, de alguma forma, incitada pelas
considerações teóricas feitas ao longo das linhas de Freud. A satisfação
sexual, como forma de alguém livrar-se de todos os “complexos” pode, de alguma
forma, tornar-se obsessiva, especialmente quando vem junto com um autoexame ansioso
sobre o orgasmo “adequado”.
Ainda
que se possa dizer muito sobre isso teoricamente, o sexo em grupo pode, na
prática (na medida em que supera o sentido de propriedade e ciúme), não ser tão
diferente da vida sexual extraconjugal convencional (incluindo voyeurismo e
exibicionismo), como pensam seus participantes. Isto é especialmente verdadeiro
para a necessidade de novos e diferentes parceiros sexuais devido ao rápido
enfraquecimento do interesse no mesmo parceiro. Enquanto a emancipação da
satisfação sexual dos sentimentos de culpa avançou um passo, a questão permanece,
na medida em que a juventude "radical" sofre do mesmo defeito de seus
pares mais velhos e mais convencionais: a inabilidade para a intimidade humana,
defeito pelo qual se substitui a intimidade sexual. O próximo passo da geração radical
jovem poderia ser, assim parece, tornar-se mais ciente de seu medo da
intimidade emocional profunda e o papel do sexo como seu substituto. Além
disso, parece ser uma tendência das mesmas pessoas que rejeitam tão fortemente
os políticos como guias, a seguir doutrinas psicanalíticas meio-digeridas para que
seu sexo viva.
Seguindo
Freud, mesmo se completamente digerido, sua teoria conduz à uma super ênfase no
sexo e à negligência de Eros e do amor. De acordo com os conceitos de Freud,
que molda o comportamento sexual de alguém, eles parecem, de alguma forma,
antigos e “radicais” somente em termos da geração mais velha. Mas com a
liberdade sexual não significa que os participantes dela tenham perdido a maior
parte de seus avós: o que mudou foi o conteúdo daquilo que é recalcado. Olhando
principalmente para o inconsciente, no domínio da sexualidade, fica muito mais
difícil descobrir outras experiências inconscientes. A deterioração do conceito
de inconsciente é ainda maior quando este é aplicado no sentido abstrato e quando
se refere, principalmente, a conceitos gerais como Eros ou o instinto de morte.
Neste caso, perde todo significado pessoal e, de modo algum, é um instrumento
para a autodescoberta. Até mesmo o Complexo de Édipo, ocupando o centro do recalcamento
na visão de Freud, quase toca as profundezas das paixões humanas inconscientes.
Na realidade, o desejo do menino pela relação sexual com a mãe, por mais escandaloso
que possa ser, do ponto de vista convencional, atualmente não é nada
irracional; o Complexo de Édipo é o amor triangular dos adultos retraduzido na
situação infantil.
A
criança age quase racionalmente, na realidade, mais do que os adultos frequentemente
o fazem em situações similares. O menino pequeno, incitado pela sua sexualidade
florescente, quer a mãe porque ela é a única mulher à sua volta ou a que está
mais à disposição; confrontado com a ameaça de castração do pai-rival a auto
conservação vence a paixão sexual; ele desiste da mãe e identifica-se com o
agressor. Por trás do vínculo do menino
com a mãe a nível genital, existe um muito mais profundo e mais irracional. O
bebê — menino ou menina — está vinculado à mãe como aquela que lhe deu vida,
ajuda, proteção, a figura amorosa; a mãe é vida, segurança; ela protege a
criança da realidade da situação humana, que requer atividade, o saber tomar
decisões, correr riscos, estar só e morrer. Se o vínculo com a mãe pudesse
permanecer intacto do começo ao fim da vida, a vida poderia ser contentamento;
a da existência humana não seria encarada. Assim, o bebê apega-se à mãe e
resiste deixá-la. Ao mesmo tempo, no caso de desenvolvimento normal, tanto sua
própria maturação física quanto as influências culturais gerais, constituem a contra-tendência
que, eventualmente, faz a criança desistir da mãe e encontrar, teoricamente nos
relacionamentos que tiver, o amor e a intimidade como pessoa independente. A
profunda ânsia de permanecer um bebê é habitualmente recalcada, isto é,
inconsciente, porque é incompatível com os ideais da idade adulta, com os quais
a criança é impregnada pela sociedade patriarcal. Numa sociedade primitiva os
ritos de iniciação têm a função de quebrar, drasticamente, este vínculo.
Contudo,
na forma justamente descrita a recusa em aceitar todo o fardo da
individualização ainda não perdeu a racionalidade e o contato com a realidade;
a pessoa pode encontrar uma figura materna ou uma representação (dela) a que
pode permanecer ligada; na realidade, alguém que a domina (ou serve) e a
protege: ela pode, por exemplo, prender-se a uma mulher maternal, ou a uma
instituição como uma igreja ou alguém, com muitas outras formas, oferecido pela
sociedade. Mas recusar a separação da mãe pode tomar formas mais extremas; mais
profundas e ainda mais irracionais do que o desejo de ser amado e protegido por
ela, do começo ao fim da vida, ansiando ser um com ela, retomar ao seu ventre
e, eventualmente, desfazer o fato de ter nascido; então o ventre toma-se o
túmulo, a mãe, a terra na qual se está “enterrado”, o oceano onde afogar-se.
Não há nada “simbólico” nisso; anseios não são “disfarces” para as lutas do
Édipo recalcado; ao contrário, as lutas incestuosas são, muitas vezes uma
tentativa de salvar-se da mais profunda ameaça à vida e do anseio pela mãe. O
anseio mais profundo e mais intenso pela mãe é o mais recalcado deles. Só no
caso da psicose este anseio torna-se consciente.
A
psicanálise clássica não leva em conta a profundidade deste anseio e não dá o
peso apropriado ao fato de que o vínculo primitivo do bebê, menino ou menina, é
com a mãe. Só em 1931, Freud, no seu artigo sobre a sexualidade feminina, fez
uma significativa revisão de sua mais primitiva teoria, estabelecendo que a
fase “pré-edípica (ligação pré-edípica com a mãe precedendo a ligação com o
pai) na mulher ganha uma importância pouco atribuída até agora”. É interessante
observar que Freud compara esta ligação pré-edípica à mãe com a sociedade
patriarcal. Em Esboço da Psicanálise de Freud, ainda dá um outro passo. Ele
escreve: “Nessas duas relações (alimentação e cuidado com o corpo da criança)
situa-se a origem da importância da mãe. Única, sem paralelo, estabeleceu-se
inalteravelmente por toda a vida como primeiro e mais forte objeto de amor e
como protótipo de todas as relações posteriores de amor — para ambos os sexos. Em
tudo isto, a base filogenética tem muito mais domínio sob a experiência pessoal
acidental que não faz diferença se a criança tiver realmente mamado no seio ou
se tiver sido criada na mamadeira e nunca desfrutado a ternura dos cuidados
matemos". Certamente, parece que, no fim de sua vida, Freud apresentou uma
teoria que contradisse drasticamente sua posição prévia. Depois de descrever a
profundidade do vínculo pré-edipiano com a mãe, declarou que ele existe, tanto
nas meninas como nos meninos, (em 1931 seu artigo discutiu só as meninas) e
também no desenvolvimento filogenético, no que diz respeito a alimentação atual
e ao cuidado com o corpo. Contudo, Freud não introduziu esta afirmação como uma
revisão radical; em vez disso, seguiu os comentários tradicionais sobre como a
mãe estabelece vínculos com o bebê, alimentando-o e cuidando do seu corpo. A
maneira quase casual como Freud acrescentou isto só pode ser explicada pela
psicanálise literária. É admissível que Freud tenha estado ocupado anos com a possibilidade
de um número de hipóteses mais antigas não terem sido corretas, por exemplo, o significado,
exclusivamente sexual, do Complexo de Édipo e a negação de vínculos vitais,
duradouros e profundos com a mãe, nos meninos e nas meninas; ele não poderia,
contudo, permitir-se fazer mudanças explícitas, e tomar claros os velhos
elementos da teoria que haviam tido colapso e os novos conceitos que os substituíram.
É
como se algumas novas ideias tivessem estado inconscientes e fossem agora,
expressas como tal num "descuido" dos freudianos; escrevendo esse
relato, Freud, provavelmente, não estava ciente da extensão da contradição com
suas hipóteses anteriores. A maioria dos psicanalistas, mesmo depois de 1931, não
levou bastante a sério as sugestões de Freud para revisar seu pensamento
teórico mais antigo. A psicanálise clássica fracassou tanto em ver a profundidade
e a irracionalidade do anseio pela mãe, quanto no fato de que este anseio não é
simplesmente uma luta "infantil". É verdade que, geneticamente falando,
o bebê por razões biológicas, atravessa uma fase de intensa “fixação na mãe”;
mas esta não é a “causa” da dependência posterior da mãe. Este vínculo com a
mãe pode conservar sua força — ou a pessoa pode regredir a esta solução —
precisamente porque ele é questão de “espírito”, da existência humana. Verdadeiro
o suficiente para conduzir à dependência absoluta, à insanidade ou ao suicídio
— mas também uma das possibilidades abertas ao homem na sua existência.
Explicá-lo em bases sexuais ou como repetição-compulsiva é omitir o verdadeiro
caráter desta questão da existência. Todas estas considerações levam a crer que
a solução do controle não é realmente a “vinculação com a mãe”, mas o que pode
ser referenciado como “existência paradisíaca”, caracterizada pela tentativa de
evitar alcançar a completa individualização; mas em vez disso, viver na
fantasia de proteção absoluta, da segurança, do aconchego no mundo, às custas
da individualidade e da liberdade. Este é um estado de desenvolvimento
biologicamente condicionado cuja fantasia é realidade e absolutamente normal.
Mas, pode-se pensar demais em termos genéticos, se a atenção estiver centrada
na vinculação com a mãe, mais do que em toda a função desta experiência. É
preciso estudar muito mais de perto a sua estrutura total — o papel do narcisismo,
o medo de perceber completamente a realidade, o desejo de “invulnerabilidade”,
de onisciência; a predisposição à depressão, o senso de solidão total quando a
experiência de invulnerabilidade está ameaçada e muitos outros elementos. Afinal,
quando se olha a existência humana como um todo, não se deve esquecer de que o
adulto não é tão diferente da criança no seu desamparo em relação às forças que
determinam sua vida; ele é muito mais ciente de si e do quão pouco pode fazer
para controlá-las. Seu desamparo atinge o grau mais alto, mas, num certo
sentido, não menor do que o da criança; somente a total expansão de todas as
suas potencialidades pode capacitá-lo a fazer face a seu desamparo objetivo e
ainda, a não procurar refúgio na “fantasia paradisíaca”.