quarta-feira, 16 de junho de 2021

PSICANÁLISE COGNITIVA

 

 

                Definindo Psicanálise Cognitiva

                 O Cognitivismo, um olhar contemporâneo sobre o comportamento humano, surge com a convicção de que a forma como as pessoas pensam justifica quase que a totalidade das atitudes comportamentais. A conjunção das teorias behavioristas e gestaltistas formataram o teor do cognitivismo. Todavia, é importante ressaltar que a Psicanálise Cognitiva se aproxima muito do Gestaltismo por procurar saber como o ser humano raciocina e aprende. A Psicanálise Cognitiva aborda áreas de estudo que visam compreender como o ser humano concebe, assimila, recorda e raciocina diante de informações que chegam até ele. O Psicanalista Cognitivo, por sua vez, procura entender como os indivíduos apercebem formas variadas, os motivos ou motivações que os levam a recordar ou obliterar acontecimentos e porque o aprendizado de uma língua acontece. Qualquer tentativa de aprender sobre a capacidade cognitiva do ser humano sem um resgate histórico dos estudos relacionados ao pensamento torna mais complexa a empreitada. É possível alegar que as pessoas também aprendem ou evoluem com os erros cometidos no passado.

            Portanto, ao se conhecer a gênese e trajetória do passado se descobre como o ser humano “pensa sobre o pensar”. Partindo do pressuposto que o ser humano evolui gradativamente no percurso palmilhado, ele incrementa ou transforma as suas ideias sob a égide da dialética. A dialética pode ser entendida como um processo que transforma as ideias no decorrer do tempo, todavia, por intermédio de um padrão de transmutação. Este processo de transformação surge a partir de uma tese (enunciado de uma opinião), constituindo a seguir uma antítese (enunciado contrário à tese), culminado em uma síntese (rebate entre tese e antítese). A dialética surge no âmbito da Psicanálise Cognitiva justamente para equilibrar qualquer tentativa de negligenciar ou refutar um pensamento em detrimento de outro por mera preferência ou tendência. Portanto, a dialética conduz para uma visão técnico-científica, ou seja, isenta de especulações sobre a crença de que a inteligência é fruto especifico da genética ou do ambiente.

 

                Antecedentes Filosóficos da Psicanálise

                 Racionalismo versus Empirismo

              Os antecedentes da Psicanálise Cognitiva, segundo historiadores, possuem alicerces nas abordagens Filosóficas e Fisiológicas. A primeira busca compreender variados aspectos da vida a partir de contextualizações das ideias e experiências interiores do ser humano. A segunda abordagem age e estuda cientificamente por intermédio de metodologias empíricas, cujo objetivo é observar as funções vitais dos seres vivos. Tanto o Racionalismo como o Empirismo convergem em um objetivo principal: o estudo da mente. A primeira teoria crê que a análise lógica conduz ao conhecimento; em contrapartida, a segunda acredita não somente no potencial científico da observação, mas também da experimentação. Se o racionalista fundamenta a teoria da Psicanálise, o empirista, por sua vez, orienta o seu investigar empírico. Tal ótica possibilita a certeza de que tanto uma teoria quanto a outra se complementam. Kant (1724-1804) acabou por concluir tal concepção, anteriormente consideradas incompatíveis por Descartes (1596-1650) e Locke (1632-1704).

 

                Antecedentes Psicológicos da Psicanálise Cognitiva

                 As Primeiras Dialéticas na Psicanálise da Cognição

                 O Estruturalismo insurgiu como a primeira dialética histórica da Psicanálise entre o Estruturalismo e o Funcionalismo. O Estruturalismo, como o próprio termo expressa, busca compreender a estrutura da mente humana e suas respectivas percepções das assimilações desenvolvidas nos elementos estruturais. Wundt (1832-1920), Filósofo e Psicólogo alemão, utilizou o método da introspecção, cujo princípio é visualizar as informações que foram interiorizadas pela mente. A sua teoria contribuiu para a formatação do Estruturalismo mesmo sendo criticado por especialistas da época. Como contraponto surge o Funcionalismo, teoria que se interessa muito mais sobre o que o ser humano realiza e por que as realiza. A condução das pesquisas funcionalistas culminou no Pragmatismo, uma vez que, os pragmatistas se interessam pela utilidade prática do conhecimento adquirido sobre as ações e motivações individuais. A Teoria do Associacionismo, antecessora do Behaviorismo, fui muito influenciada por filosofias empiristas e positivistas, a qual considera o ambiente e a experiência prática como fonte do saber e da formatação do comportamento humano.

                Como sugere o termo, é uma associação das ideias e eventos à mente humana, composição capaz de propiciar a plena aprendizagem. Ebbinghaus (1850-1909) foi o pesquisador que empregou os princípios associacionistas de modo sistêmico. Thorndike (1874-1949) elencou a questão, deveras interessante, que a formatação das associações era fomentada pela satisfação, o que denominou de Lei de Efeito (1905). A teoria afirma que todo estímulo resulta em alguma resposta a partir de uma recompensa. O Behaviorismo, uma teoria de perspectiva estritamente teórica, percebida como uma tradução extrema do Associacionismo sustenta que a Psicanálise atente na correlação entre o “comportamento observável” e os “estímulos ambientais”. O Behaviorismo sofreu enorme resistência dos Psicanalistas da Gestalt. A Psicanálise da Gestalt entende que as compreensões das manifestações psicológicas são percebidas e interpretadas sob um olhar holístico, ou seja, sobre o todo, ao invés de fragmentos da totalidade. A visão gestaltista sintetiza categoricamente que “o todo é diferente das partes”, em síntese, é impossível resolver qualquer questão apenas observando frações da totalidade.

terça-feira, 15 de junho de 2021

TERAPIA DA CONVERSA

 

               A diferença entre conversar com um profissional e um amigo

            Falar com um amigo e terapeuta é a mesma coisa? Não? Afinal, com um amigo a gente só conversa. Não é raro encontrar pessoas que pensem de tal forma. A princípio o acompanhamento profissional pode parecer uma simples conversa. Uma vez compreendido o papel da terapia, não é possível mais realizar essa analogia. Aliás, a confusão entre amizade e terapia pode ter efeitos drásticos para o relacionamento das pessoas – e essa questão é pouco levantada quando se desabafa com alguém constantemente.

            Amizade e psicoterapia: qual a diferença?

            Amizade é um conceito fluído e possui diversas acepções ao longo do tempo. A amizade e a sua manutenção dependem de três características chaves: interesses compartilhados, igualdade e reciprocidade. Dessa forma, as amizades só persistem se ambas as partes compartilharem uma perspectiva comum, tiverem personalidades parecidas e forem capazes de dar e receber apoio mútuo. O “como” conversar é fundamental. Um profissional que conduz a Terapia da Conversa ajuda as pessoas com o autoconhecimento.  Promove o crescimento pessoal. A Terapia da Conversa é um processo de desdobramento da sabedoria inerente que muitas vezes é aprisionada sob camadas de condicionamento, medo e reatividade. A diferença entre conversar com amigos e realizar a Terapia da Conversa é que os amigos, na maioria das vezes, ficam felizes por nós ou temem por nós, mas normalmente não estão analisando e refletindo sobre os seus comentários para apoiar o crescimento e a mudança a longo prazo.

            A diferença entre conversar com o profissional e um amigo

          Conversar com alguém, seja um amigo ou profissional, é imprescindível à saúde mental, entretanto atuam em esferas separadas da nossa vida. As conceituações evidenciam uma primeira diferença, porém é necessário esclarecer os pontos em que elas são distintas. A amizade envolve uma troca mútua. O encontro é algo mais pontual e ambas as partes se beneficiam da convivência. O aspecto positivo é o que mantém o elo entre as pessoas. Ajudar e escutar o amigo em dificuldade faz parte desse acordo social, porém há um limite para que a relação não se desgaste. Descarregar constantemente a carga negativa nos amigos não é uma boa opção, pois todos possuem os seus problemas. É importante ter alguém para conversar, mas é importante separar os momentos. Quando realizamos isso deixamos de tratar a amizade como algo positivo e mútuo, e vemos uma relação “benéfica” somente para uma das partes. O Profissional Terapeuta é importante nesse contexto. A relação profissional permite que a conversa seja um espaço focado somente naquele que deseja desabafar. O espaço é um ambiente reservado para discutir os problemas que a pessoa possui. Além disso, a recorrência da Terapia da Conversa é fundamental para a solução dessas questões – o que vai na direção contrária dos encontros pontuais da amizade. Estamos conversando com um profissional, ou seja, alguém que passou por toda uma graduação e atua de forma especializada no tema.
             
            O profissional da Terapia da Conversa é o personagem mais acertado para tratar de questões que incomodam a mente, pois ele irá focar no crescimento a longo prazo. Os amigos procuram soluções mais imediatas e raramente possuem conhecimento no assunto apresentado a eles. Outro ponto a ser considerado é a imparcialidade do terapeuta. Nesse sentido, podemos nos sentir desconfortáveis com o julgamento das pessoas mais próximas sobre as nossas ações e pensamentos. Já, na Terapia da Conversa não há essa preocupação, pois esse é o ambiente para a pessoa se abrir sem restrições. Ela precisa disso para compreender o que aconteceu e, assim, aprender e crescer com isso. E muito importante: a confidencialidade é um aspecto fundamental na condução do processo. Está precisando desabafar? Talvez a Terapia da Conversa seja o caminho mais acertado.

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Atenção e Consciência

 

                A natureza da atenção e da consciência

             A atenção envolve processos conscientes e inconscientes. As atividades do subconsciente, como o próprio termo expressa, não fazem parte da camada da consciência, portanto, difíceis de perceber e estudar. É significativo saber que a mente humana possui limitação para armazenar informações, a qual demarca o extremo que a concentração pode chegar. A compensação ou equilíbrio de estímulos externos e internos é que possibilitam a concentração apenas naquilo que interessa. A pré-consciência, por sua vez, se constitui a partir dos sentimentos de percepção consciente e dos conteúdos da consciência propriamente dito, sendo que uma parcela significativa desta poderá estar sob domínio do processo de atenção. DiGirolamo e Griffin (2003) citados por Sternberg (2016) afirmam que tanto a atenção como a consciência compõem dois conjuntos sobrepostos, entretanto, parciais. A Consciência detém informações que estão em um nível mais profundo da mente, isto é, não fazem parte da consciência momentaneamente. Porém, todas elas podem ser resgatadas, a qualquer momento, quando necessárias para o desenvolvimento de processos cognitivos.

 

             Processos Controlados versus Processos Automáticos

        Os Processos Automáticos, como a própria nomenclatura sugere, não exigem domínio consciente, todavia, curiosamente, são executados conscientemente. Existem Processos Automáticos que ocorrem seguidamente de forma simultânea, neste caso, denominados de Processos Paralelos. Os Processos Controlados se configuram conscientemente, mas de forma sequencial, e por esta razão demandam mais tempo para o processamento das informações. Segundo Posner e Snyder (1975) citados por Sternberg (2016), os Processos Automáticos são singularizados por três características: são ocultos da consciência; não são propositais; e, requerem e empregam parcos recursos da atenção. Os processos automáticos e controlados parecem estar em uma sequência ininterrupta, uma vez que grande parte deles inicia controladamente e encerra-se automaticamente. É possível concluir que os aprendizados recentes são inicialmente controlados, transformando-se em automáticos na medida em que se tornam rotineiros, repetitivos. E, por serem habituais tornam-se mais facilmente acessíveis ao controle consciente. A mudança de controlado para automático é conhecida como procedimentalização. O processo de tornar automático qualquer procedimento pode ser compreendido como a conjugação de vários procedimentos (passo-a-passo) em um “único”. O termo “único” deve ser interpretado como a execução de um grupo de etapas com a utilização mínima ou nula de recursos cognitivos, ou seja, não requer até mesmo um grau mínimo de atenção. Uma questão importante e indispensável no raciocínio sobre automatização diz respeito ao fato de que os processos automatizados ao exigirem o mínimo de esforço e controle da consciência, possibilitam o acúmulo de ‘múltiplos comportamentos automáticos’. No entanto, a biologia do sistema nervoso comprova que é humanamente impossível ou deveras dificultoso controlar vários processos automáticos que exijam estímulos acentuados.

            O ser humano é dotado de características biológicas que propiciam o aprendizado e a execução de processos controlados e automáticos. Mas, este aprendizado, esta captação de informações acontece por um princípio básico: a detecção de sinais. Os sinais podem ser importantes ou inexpressivos, alarmantes ou tranquilizantes, enfim, é necessário que ocorra uma seleção dentre um conjunto de sinalizações variadas, aqueles que precisam ser levados em conta de imediato ou futuramente. O estado de alerta para a detecção de sinais é importante porque eles são acompanhados de ‘fatores de distração’, os quais podem conduzir à tomada de decisão equívoca.

 

            A Natureza da Detecção de Sinais

           A Teoria da Detecção de Sinais (TDS) conceitua que o processo de perceber um sinal depende da existência ou inexistência, e de constatar ou desconhecer um possível estímulo. Neste ínterim podem acontecer os acertos de detecção, as detecções falsas, as falhas de detecção, e as rejeições de detecção (neste caso, ocorre o acerto em perceber a inexistência de um sinal). A TDS envolve a atenção, percepção e memória. A percepção de qualquer informação (sinal) presente no ambiente se concretiza na mesma proporção do estado de alerta do indivíduo, ou seja, quanto mais atento ele estiver, mais propenso a identificar sinais. A capacidade de distinguir sinais de pouca intensidade está estritamente ligada à capacidade perceptual. E, a amplitude da memória ou o repertório de informações armazenadas (memorizadas) facilita a identificação de sinais, mesmo fracos, uma vez que surge a lembrança de algo anteriormente vivenciado. Contudo, permanecer vigilante parece ser fator indispensável para a detecção de sinais. A vigilância é o estado de alerta que uma pessoa mantém prolongadamente durante a procura de algum ‘estímulo-alvo’ do seu interesse. Um sentido que exerce forte influência sobre a vigilância é a expectativa. Cientificamente, a presença da possibilidade diante da vigilância estimula o estado de alerta e a procura por sinais.

 

            Teorias de Atenção Seletiva do Filtro e do Gargalo

           Os tipos de Atenção Seletiva podem variar segundo alguns modelos propostos: - O Modelo de Broadbent teoriza que o ‘nível sensorial’ executa uma filtragem na informação logo após tê-la recebido. Nesta atividade vários canais de entrada de informação sensorial serão direcionados à atenção. Desta feita, o processamento da percepção será executado somente sobre o conteúdo que transcendeu o filtro da atenção. Esta teoria sustenta que um sinal pode ser percebido por um ouvido que não está atento, desde que não demande níveis de percepção superior. - O Modelo de Moray adversa o de Broadbent na medida em que a teoria conceitua que as mensagens com muito destaque ultrapassam os mecanismos dedicados à filtragem. Portanto, os filtros dedicados a atenção seletiva não conseguem (naturalmente) interferir ou bloquear determinados sinais. - O Modelo de Atenuação de Treisman esclarece que enquanto um ouvido dedica atenção para uma mensagem de interesse, o outro pode ignorar uma mensagem que não interessa. Entretanto, se as mensagens forem deslocadas, simultaneamente, de um ouvido para o outro, a tendência natural é de que a mensagem que estava sendo ignorada passe a ser priorizada, e a mensagem que estava sendo percebida passe a ser parcialmente ignorada. Outra questão curiosa é o fato de que mensagens idênticas, transmitidas paralelamente aos dois ouvidos, com timing inicial de emissão diferente, são percebidas como iguais. – O Modelo do Filtro Posterior de Deutsch e Deutsch parece se contrastar aos demais conceitos, por uma particularidade, o filtro que bloqueia os sinais entra em atividade após o processamento da percepção. Neste fluxo a filtragem ocorre imediatamente após qualquer análise perceptiva ou conceitual. Assim, ocorrendo, o ouvido desatento é capaz de perceber todas as informações que chegam até ele. Estas e as teorias anteriormente elencadas possuem algo em comum: a existência de um ‘gargalo de atenção’, pelo qual apenas a informação filtrada irá passar, todavia, diferem sobre o local deste ‘gargalo’. – A Teoria Multifocal apresenta a ideia de que a atenção é arqueável. Diante da teórica flexibilidade a seleção da informação pode acontecer em qualquer localização durante o processo de seletividade. - A Síntese de Neisser propõe duas formas de processamento que norteiam a atenção: o Processo Pré-atencional e Processo Atencional. O primeiro, considerado automático, age com mais rapidez e tem por objetivo identificar somente as peculiaridades físicas da informação que estão em foco, não considerando qualquer sentido ou relação nela. O segundo, considerado controlado, entra em execução logo após. Por ser um processo controlado ele consome mais recursos de tempo e atenção.

 

            Teorias de Atenção Seletiva Baseados em Recursos de Atenção

           A Teoria de Recursos de Atenção explicam a maneira como a mente consegue administrar ou controlar mais de uma atividade que exija tempo simultaneamente. A teoria dita que o ser humano dispõe de frações fixas de atenção disponíveis para uso conforme a necessidade. Esta teoria foi rejeitada por ser considerada ampla, vaga e excessivamente simplista para explicar como ocorrem os processos perceptivos. O princípio declara que determinadas faculdades são específicas para determinadas atividades. Um exemplo, segundo Sternberg, é ouvir música conjuntamente ao ato de redigir. Conforme a hipótese, um conjunto de duas tarefas facilmente realizáveis. Nesta exemplificação torna-se cristalino que o recurso utilizado para escutar a melodia é distinto do necessário para escrever. Seguindo o mesmo raciocínio, seria diferente do ato de prestar atenção ao noticiário e redigir uma carta. Neste contexto são requeridas habilidades similares, as verbais, e por este motivo, dificultosas de executar.

            Sobre a Atenção Seletiva

            Papel das Variáveis de Tarefa, Situação e Pessoa

           Determinados estados físicos ou mentais podem exercer forte influência sobre a atenção. Nesta seção serão abordadas algumas delas. A excitação proveniente do cansaço, da tontura ou da drogadição podem dissipar, reduzir ou até mesmo intensificar a atenção. O interesse sobre a informação também influencia a atenção (a distração é acompanhada da falta de atenção). A natureza da atividade quando dificultosa, complexa ou inédita demanda mais atenção, ao contrário da fácil, simplória ou familiar. A quantidade de prática (a experiência propriamente dita) estará diretamente relacionada aos recursos necessários de atenção para a efetividade da atividade, ou seja, quanto mais acentuadas a prática e habilidade, mais atenção. A etapa do processamento que a atenção é requerida. O processamento perceptual poderá exigir mais atenção antecipadamente, como no decorrer ou posteriormente. Em síntese, é possível compreender que muitos processos de atenção intercorrem fora da consciência e outros, pelo contrário, sob o domínio do consciente. A cientificidade em torno da psicologia cognitiva estuda fenômenos como a ‘vigilância, busca, atenção seletiva e atenção dividida’ a fim de buscar entender que alguns ‘mecanismos de filtragem’ delineiam determinadas dimensões da atenção.

           

            O Efeito Stroop

           Os estudos sobre a atenção buscam respostas nos processos auditivos e visuais. O Efeito Stroop (Johm Ridley Stroop, 1935) comprova o quão é psicologicamente dificultoso dedicar atenção para uma tintura sem deixar de prestar atenção a nomenclatura nela impressa. Ao que tudo indica a leitura é um processo automático que não se encontra sob domínio do consciente. Isto significa que a cor da palavra se manifesta em uma via cortical e o letramento outra, sendo que a primeira exerce influência na segunda. Este confronto de forças corticais ocasiona um tempo de resposta mais delongado porque a mente demora a decidir entre expressar o nome ou ler o nome da cor.

 

            Atenção Dividida

         O reconhecimento simultâneo de variadas particularidades durante a identificação de sinais é coordenado pelo Sistema de Atenção, muitas vezes executando multitarefas concomitantes. A Atenção dividida, em síntese, é a habilidade humana de desenvolver respostas simultâneas para atividades múltiplas, e tal capacidade exterioriza a impressão de que tudo está sendo realizado ao mesmo tempo porque os recursos de atenção são compartilhados. É relevante enfatizar que as atividades controladas quando realizadas simultaneamente são mais dificultosas, porém, quanto mais acentuada a prática, mais tarefas podem ser acumuladas.

 

            Consciência dos Processos Mentais Complexos

           A ciência crê que o ser humano não detém acesso aos mecanismos mentais mais simplificados. Contudo, existe uma questão: até que ponto ele acessa os processos mentais de maior complexidade? Parece que não existe uma unanimidade com relação a este questionamento porque alguns Psicólogos Cognitivos acreditam que o ser humano detém um bom acesso aos processos mentais mais complexos, e outros creem que não. A teoria dita que a maioria das pessoas acredita que está plenamente consciente sobre os processos mentais e decisórios, todavia, esta convicção pode ilusória ou vaga. Uma abordagem importante neste contexto diz respeito à Cegueira à Mudança. A biologia dos seres vivos comporta uma característica singular no que diz respeito à sobrevivência e adaptatividade: identificar ameaças. Contudo, O’Regan (2003) e Simons (2000) citados por Sternberg (2016) mencionam que, mesmo diante desta capacidade conatural, o ser humano sofre de Cegueira à Mudança, que é a ausência da capacidade de perceber alterações em cenários e objetos que se encontram no seu entorno. O curioso desta incapacidade é que fatores culturais podem exercer influência sobre o grau de percepção de mudanças. Estudos comprovaram que norte-americanos, por exemplo, possuem a capacidade perceptual de mudanças das áreas periféricas inferior a das áreas centrais. Em contrapartida, nos orientais a capacidade de percepção central e periférica é oposta, ou seja, maior capacidade de percepção das áreas periféricas e menor das centrais.

terça-feira, 1 de junho de 2021

Inconsciente e Recalcamento

 

                A descoberta central de Freud foi a do inconsciente e a do recalcamento. Ele ligou este conceito central com a sua Teoria da Libido e admitiu que o inconsciente era a base dos desejos do instinto sexual, sendo que mais tarde, afirmou que parte do ego e do superego eram também inconscientes. Esta ligação facilitou um desenvolvimento que incomodava o pensamento psicanalítico. Primeiramente, porque todo interesse foi concentrado no conteúdo sexual, genital e pré-genital e o único aspecto interessante do inconsciente foi o da sexualidade recalcada. Quaisquer que sejam os méritos da Teoria da Libido, Freud criou um instrumento para conhecer-se a si mesmo que se estende, para além do domínio sexual, a todas as áreas do inconsciente. [Eu, como pessoa, sou ganancioso, medroso, narcisista, sádico, masoquista, destrutivo, desonesto etc., mas meu conhecimento de todas estas qualidades é recalcado. Se concentrar todo o meu interesse nos esforços de recalcamento sexual e erótico, posso viver com esta espécie de análise, muito confortavelmente, em especial se acreditar que a sexualidade — genital e pré-genital — é boa e não deve ser recalcada nem suprimida. Mão tenho a dolorosa tarefa de ver qual o lado de mim mesmo que não corresponde à minha autoimagem consciente]. Restrita à libido, a grande descoberta de Freud, na verdade, perde muito do seu caráter crítico e desmascarador; simplesmente, está mais apta a ser usada como instrumento de análise dos outros, daqueles que ainda não se tenham libertado de seus tabus sexuais; não como instrumento de autoconhecimento e transformação. Este modelo de psicanálise não pode ser descartado chamando-o de terapia e dizendo que pertence ao ofício do terapeuta. A terapia pode ter algum caráter técnico, mas o fenômeno em si, o entendimento de meu próprio inconsciente é de sua incompatibilidade com minha imagem consciente é, precisamente, a descoberta que dá à psicanálise sua importância, como passo radical na própria descoberta do homem e em direção a uma nova forma de sinceridade.

            Infelizmente, tomou-se elegante aplicar o conceito de recalcamento, exclusivamente ao sexo e acreditar que se não há recalque dos desejos sexuais, o inconsciente toma-se consciente. É claramente demonstrável nos grupos sociais em que a sexualidade, sob todas as suas formas, é livremente praticada e experimentada sem o fardo de tradicionais sentimentos de culpa, que a falta do recalcamento dos desejos sexuais não significa que a maior parte do inconsciente se tornou consciente. Na verdade, esta é uma das mudanças extraordinárias que ocorre na sociedade ocidental de hoje. É mais extraordinário ainda, que esta experiência do sexo, livre de "culpabilidade”, seja encontrada não somente em grupos politicamente radicais; mas está igualmente presente entre os não-politizados. Parece que, a liberação sexual ocorreu com velocidade espantosa em todos os grupos da sociedade de consumo sem as consequências políticas.  O importante é entender a qualidade da experiência sexual. Em larga escala, a gratificação sexual tornou-se um artigo de consumo e tem as características de todos os outros consumos modernos; amplamente motivada pelo vazio, pela depressão oculta e pela ansiedade; o ato de satisfação é, em si mesmo, banal, superficial. Parece que muito da motivação sexual esteja, de alguma forma, incitada pelas considerações teóricas feitas ao longo das linhas de Freud. A satisfação sexual, como forma de alguém livrar-se de todos os “complexos” pode, de alguma forma, tornar-se obsessiva, especialmente quando vem junto com um autoexame ansioso sobre o orgasmo “adequado”.

            Ainda que se possa dizer muito sobre isso teoricamente, o sexo em grupo pode, na prática (na medida em que supera o sentido de propriedade e ciúme), não ser tão diferente da vida sexual extraconjugal convencional (incluindo voyeurismo e exibicionismo), como pensam seus participantes. Isto é especialmente verdadeiro para a necessidade de novos e diferentes parceiros sexuais devido ao rápido enfraquecimento do interesse no mesmo parceiro. Enquanto a emancipação da satisfação sexual dos sentimentos de culpa avançou um passo, a questão permanece, na medida em que a juventude "radical" sofre do mesmo defeito de seus pares mais velhos e mais convencionais: a inabilidade para a intimidade humana, defeito pelo qual se substitui a intimidade sexual. O próximo passo da geração radical jovem poderia ser, assim parece, tornar-se mais ciente de seu medo da intimidade emocional profunda e o papel do sexo como seu substituto. Além disso, parece ser uma tendência das mesmas pessoas que rejeitam tão fortemente os políticos como guias, a seguir doutrinas psicanalíticas meio-digeridas para que seu sexo viva.

            Seguindo Freud, mesmo se completamente digerido, sua teoria conduz à uma super ênfase no sexo e à negligência de Eros e do amor. De acordo com os conceitos de Freud, que molda o comportamento sexual de alguém, eles parecem, de alguma forma, antigos e “radicais” somente em termos da geração mais velha. Mas com a liberdade sexual não significa que os participantes dela tenham perdido a maior parte de seus avós: o que mudou foi o conteúdo daquilo que é recalcado. Olhando principalmente para o inconsciente, no domínio da sexualidade, fica muito mais difícil descobrir outras experiências inconscientes. A deterioração do conceito de inconsciente é ainda maior quando este é aplicado no sentido abstrato e quando se refere, principalmente, a conceitos gerais como Eros ou o instinto de morte. Neste caso, perde todo significado pessoal e, de modo algum, é um instrumento para a autodescoberta. Até mesmo o Complexo de Édipo, ocupando o centro do recalcamento na visão de Freud, quase toca as profundezas das paixões humanas inconscientes. Na realidade, o desejo do menino pela relação sexual com a mãe, por mais escandaloso que possa ser, do ponto de vista convencional, atualmente não é nada irracional; o Complexo de Édipo é o amor triangular dos adultos retraduzido na situação infantil.

            A criança age quase racionalmente, na realidade, mais do que os adultos frequentemente o fazem em situações similares. O menino pequeno, incitado pela sua sexualidade florescente, quer a mãe porque ela é a única mulher à sua volta ou a que está mais à disposição; confrontado com a ameaça de castração do pai-rival a auto conservação vence a paixão sexual; ele desiste da mãe e identifica-se com o agressor.  Por trás do vínculo do menino com a mãe a nível genital, existe um muito mais profundo e mais irracional. O bebê — menino ou menina — está vinculado à mãe como aquela que lhe deu vida, ajuda, proteção, a figura amorosa; a mãe é vida, segurança; ela protege a criança da realidade da situação humana, que requer atividade, o saber tomar decisões, correr riscos, estar só e morrer. Se o vínculo com a mãe pudesse permanecer intacto do começo ao fim da vida, a vida poderia ser contentamento; a da existência humana não seria encarada. Assim, o bebê apega-se à mãe e resiste deixá-la. Ao mesmo tempo, no caso de desenvolvimento normal, tanto sua própria maturação física quanto as influências culturais gerais, constituem a contra-tendência que, eventualmente, faz a criança desistir da mãe e encontrar, teoricamente nos relacionamentos que tiver, o amor e a intimidade como pessoa independente. A profunda ânsia de permanecer um bebê é habitualmente recalcada, isto é, inconsciente, porque é incompatível com os ideais da idade adulta, com os quais a criança é impregnada pela sociedade patriarcal. Numa sociedade primitiva os ritos de iniciação têm a função de quebrar, drasticamente, este vínculo.

            Contudo, na forma justamente descrita a recusa em aceitar todo o fardo da individualização ainda não perdeu a racionalidade e o contato com a realidade; a pessoa pode encontrar uma figura materna ou uma representação (dela) a que pode permanecer ligada; na realidade, alguém que a domina (ou serve) e a protege: ela pode, por exemplo, prender-se a uma mulher maternal, ou a uma instituição como uma igreja ou alguém, com muitas outras formas, oferecido pela sociedade. Mas recusar a separação da mãe pode tomar formas mais extremas; mais profundas e ainda mais irracionais do que o desejo de ser amado e protegido por ela, do começo ao fim da vida, ansiando ser um com ela, retomar ao seu ventre e, eventualmente, desfazer o fato de ter nascido; então o ventre toma-se o túmulo, a mãe, a terra na qual se está “enterrado”, o oceano onde afogar-se. Não há nada “simbólico” nisso; anseios não são “disfarces” para as lutas do Édipo recalcado; ao contrário, as lutas incestuosas são, muitas vezes uma tentativa de salvar-se da mais profunda ameaça à vida e do anseio pela mãe. O anseio mais profundo e mais intenso pela mãe é o mais recalcado deles. Só no caso da psicose este anseio torna-se consciente.

            A psicanálise clássica não leva em conta a profundidade deste anseio e não dá o peso apropriado ao fato de que o vínculo primitivo do bebê, menino ou menina, é com a mãe. Só em 1931, Freud, no seu artigo sobre a sexualidade feminina, fez uma significativa revisão de sua mais primitiva teoria, estabelecendo que a fase “pré-edípica (ligação pré-edípica com a mãe precedendo a ligação com o pai) na mulher ganha uma importância pouco atribuída até agora”. É interessante observar que Freud compara esta ligação pré-edípica à mãe com a sociedade patriarcal. Em Esboço da Psicanálise de Freud, ainda dá um outro passo. Ele escreve: “Nessas duas relações (alimentação e cuidado com o corpo da criança) situa-se a origem da importância da mãe. Única, sem paralelo, estabeleceu-se inalteravelmente por toda a vida como primeiro e mais forte objeto de amor e como protótipo de todas as relações posteriores de amor — para ambos os sexos. Em tudo isto, a base filogenética tem muito mais domínio sob a experiência pessoal acidental que não faz diferença se a criança tiver realmente mamado no seio ou se tiver sido criada na mamadeira e nunca desfrutado a ternura dos cuidados matemos". Certamente, parece que, no fim de sua vida, Freud apresentou uma teoria que contradisse drasticamente sua posição prévia. Depois de descrever a profundidade do vínculo pré-edipiano com a mãe, declarou que ele existe, tanto nas meninas como nos meninos, (em 1931 seu artigo discutiu só as meninas) e também no desenvolvimento filogenético, no que diz respeito a alimentação atual e ao cuidado com o corpo. Contudo, Freud não introduziu esta afirmação como uma revisão radical; em vez disso, seguiu os comentários tradicionais sobre como a mãe estabelece vínculos com o bebê, alimentando-o e cuidando do seu corpo. A maneira quase casual como Freud acrescentou isto só pode ser explicada pela psicanálise literária. É admissível que Freud tenha estado ocupado anos com a possibilidade de um número de hipóteses mais antigas não terem sido corretas, por exemplo, o significado, exclusivamente sexual, do Complexo de Édipo e a negação de vínculos vitais, duradouros e profundos com a mãe, nos meninos e nas meninas; ele não poderia, contudo, permitir-se fazer mudanças explícitas, e tomar claros os velhos elementos da teoria que haviam tido colapso e os novos conceitos que os substituíram.

            É como se algumas novas ideias tivessem estado inconscientes e fossem agora, expressas como tal num "descuido" dos freudianos; escrevendo esse relato, Freud, provavelmente, não estava ciente da extensão da contradição com suas hipóteses anteriores. A maioria dos psicanalistas, mesmo depois de 1931, não levou bastante a sério as sugestões de Freud para revisar seu pensamento teórico mais antigo. A psicanálise clássica fracassou tanto em ver a profundidade e a irracionalidade do anseio pela mãe, quanto no fato de que este anseio não é simplesmente uma luta "infantil". É verdade que, geneticamente falando, o bebê por razões biológicas, atravessa uma fase de intensa “fixação na mãe”; mas esta não é a “causa” da dependência posterior da mãe. Este vínculo com a mãe pode conservar sua força — ou a pessoa pode regredir a esta solução — precisamente porque ele é questão de “espírito”, da existência humana. Verdadeiro o suficiente para conduzir à dependência absoluta, à insanidade ou ao suicídio — mas também uma das possibilidades abertas ao homem na sua existência. Explicá-lo em bases sexuais ou como repetição-compulsiva é omitir o verdadeiro caráter desta questão da existência. Todas estas considerações levam a crer que a solução do controle não é realmente a “vinculação com a mãe”, mas o que pode ser referenciado como “existência paradisíaca”, caracterizada pela tentativa de evitar alcançar a completa individualização; mas em vez disso, viver na fantasia de proteção absoluta, da segurança, do aconchego no mundo, às custas da individualidade e da liberdade. Este é um estado de desenvolvimento biologicamente condicionado cuja fantasia é realidade e absolutamente normal. Mas, pode-se pensar demais em termos genéticos, se a atenção estiver centrada na vinculação com a mãe, mais do que em toda a função desta experiência. É preciso estudar muito mais de perto a sua estrutura total — o papel do narcisismo, o medo de perceber completamente a realidade, o desejo de “invulnerabilidade”, de onisciência; a predisposição à depressão, o senso de solidão total quando a experiência de invulnerabilidade está ameaçada e muitos outros elementos. Afinal, quando se olha a existência humana como um todo, não se deve esquecer de que o adulto não é tão diferente da criança no seu desamparo em relação às forças que determinam sua vida; ele é muito mais ciente de si e do quão pouco pode fazer para controlá-las. Seu desamparo atinge o grau mais alto, mas, num certo sentido, não menor do que o da criança; somente a total expansão de todas as suas potencialidades pode capacitá-lo a fazer face a seu desamparo objetivo e ainda, a não procurar refúgio na “fantasia paradisíaca”.