DOMINAR O LADO
EMOCIONAL:
COMPREENDER NÃO
SIGNIFICA ACEITAR
Por Heitor Jorge Lau
Ao longo da
vida, sempre fui extremamente exigente com relação àquilo que as pessoas pensam
e fazem quando percebo incoerência, ausência de bom senso ou falta de
inteligência diante de situações que, a meu ver, não exigiriam grande esforço
para serem compreendidas. Muitas vezes, essa exigência ultrapassou aquilo que
seria razoável esperar de alguém diante da diversidade humana. A irritação
diante de uma decisão evidentemente contraditória, de uma argumentação sem
fundamento ou de uma atitude que parecia ignorar aquilo que estava diante dos
olhos sempre esteve presente. Durante muito tempo, a reação era quase
automática: se determinada situação apresentava uma solução aparentemente
óbvia, parecia difícil compreender por que alguém escolheria outra direção. Com
o passar dos anos, entretanto, alguma coisa mudou. Não necessariamente a
exigência em relação à coerência, ao bom senso ou à capacidade de pensar, mas a
compreensão de que as pessoas não funcionam o tempo inteiro a partir da razão.
Hoje consigo compreender melhor determinados comportamentos que antes apenas me
causavam indignação. Isso não significa que eu os aceite. Significa apenas que
passei a perceber que compreender a origem de uma conduta é diferente de
justificá-la. Essa diferença, aparentemente simples, tornou-se uma das mais
importantes formas de amadurecimento que encontrei. A observação da natureza
humana, a experiência acumulada, a formação em diferentes áreas do
conhecimento, o exercício da psicanálise e o contato permanente com pessoas e
suas histórias contribuíram para essa mudança. Algumas leituras também ajudaram
a organizar pensamentos que já vinham sendo construídos pela experiência. Entre
elas, determinadas reflexões sobre o funcionamento emocional humano encontraram
ressonância em percepções que já faziam parte da minha maneira de observar o
mundo. O resultado não foi uma mudança de convicções, mas uma mudança na
maneira de lidar com aquilo que antes provocava uma reação imediata.
Existe uma
ideia aparentemente simples, mas extremamente difícil de colocar em prática:
não somos tão racionais quanto imaginamos. Gostamos de acreditar que analisamos
acontecimentos, avaliamos possibilidades e tomamos decisões a partir de
critérios objetivos. Entretanto, sentimentos, expectativas, experiências
anteriores, desejos, medos, inseguranças, orgulho, necessidade de
reconhecimento e inúmeros outros elementos participam continuamente das
decisões humanas. Muitas vezes, a pessoa acredita estar raciocinando quando
está apenas procurando argumentos que deem sustentação a uma conclusão
emocionalmente construída. A inteligência pode permanecer funcionando
normalmente, mas passa a trabalhar a serviço de uma necessidade que não foi
reconhecida. É possível pensar muito e pensar mal. É possível argumentar com
habilidade e, ainda assim, estar profundamente equivocado. É possível possuir
grande capacidade intelectual e demonstrar extrema irracionalidade diante de
uma questão que toca algum ponto emocionalmente sensível.
Essa
constatação modifica profundamente a minha maneira de observar as pessoas. Uma
determinada atitude pode parecer absurda quando analisada apenas pelo resultado
final, mas adquirir outra dimensão quando são consideradas as circunstâncias
internas e históricas que conduziram até ela. O comportamento humano não nasce
no instante em que aparece. Existe uma história por trás de cada reação.
Existem experiências anteriores, aprendizados, traumas, valores, crenças,
modelos familiares, frustrações e desejos que ajudam a determinar aquilo que
uma pessoa considera razoável. Duas pessoas podem receber exatamente a mesma
informação e chegar a conclusões completamente diferentes porque nenhuma delas
está diante da realidade de maneira absolutamente neutra. Cada indivíduo interpreta
o mundo a partir de uma estrutura subjetiva construída ao longo da própria
existência.
Isso não
significa que todas as interpretações sejam igualmente válidas. Essa é uma
confusão bastante comum. Reconhecer a subjetividade humana não significa
abandonar a realidade objetiva nem transformar qualquer opinião em verdade.
Existem fatos... existem contradições... existem decisões evidentemente
inadequadas... existem comportamentos prejudiciais... existem argumentos que
simplesmente não se sustentam. O reconhecimento da influência emocional não
elimina a necessidade de avaliar. Apenas impede que a avaliação seja
transformada imediatamente em condenação pessoal.
Uma das
maiores dificuldades para quem valoriza profundamente a coerência é justamente
lidar com o fato de que aquilo que parece evidente nem sempre será evidente
para outra pessoa. Quando determinada informação está disponível, surge
naturalmente a pergunta: como alguém pode não perceber? Quando uma consequência
parece previsível, surge outra: por que alguém insiste nesse caminho? Quando
uma contradição é explícita, aparece a sensação de que somente uma pessoa muito
desatenta poderia não a perceber. Mas existe uma distância enorme entre aquilo
que é logicamente perceptível e aquilo que uma pessoa está emocionalmente
preparada para reconhecer.
A emoção
pode funcionar como uma espécie de filtro. Não necessariamente altera o fato,
mas altera a maneira como o fato é recebido. Uma crítica pode ser interpretada
como uma oportunidade de correção por uma pessoa e como uma humilhação por
outra. Uma discordância pode ser percebida como parte natural de uma conversa
ou como uma ameaça à própria identidade. Uma mudança pode ser compreendida como
oportunidade ou como perda. Uma informação nova pode despertar curiosidade ou
provocar resistência. O acontecimento é o mesmo. Contudo, a experiência
subjetiva não é. É justamente nesse ponto que começa uma das tarefas mais
difíceis do amadurecimento: aprender a separar aquilo que aconteceu daquilo que
sentimos sobre o que aconteceu. Essa separação não significa ignorar a emoção.
Significa observá-la antes de permitir que ela determine a resposta. Sentir
irritação é uma coisa. Agir impulsivamente a partir da irritação é bem outra.
Sentir-se desrespeitado é uma coisa. Transformar imediatamente essa sensação em
agressividade é outra. Perceber uma injustiça é uma coisa. Permitir que a
indignação elimine completamente a capacidade de avaliar as circunstâncias é
outra.
Existe,
entre o estímulo e a resposta, um espaço extremamente importante. É nesse
espaço que aparece a possibilidade de escolha. Quanto menor esse intervalo,
maior a possibilidade de reação automática. Quanto maior a capacidade de criar
esse intervalo, maior a possibilidade de reflexão. Uma pessoa emocionalmente
madura não é aquela que nunca se irrita, nunca se entristece, nunca sente medo
ou nunca se decepciona. É aquela que consegue perceber essas emoções sem
necessariamente entregar a elas o comando imediato do comportamento. Esse domínio é particularmente
importante quando lidamos com outras pessoas. O comportamento alheio pode
funcionar como um gatilho para conteúdos que já existem dentro de nós. Uma
pessoa excessivamente lenta pode provocar irritação em alguém que valoriza
eficiência. Uma pessoa desorganizada pode incomodar profundamente alguém que
necessita de ordem. Uma pessoa que muda constantemente de opinião pode
despertar intolerância em quem valoriza coerência. Uma pessoa que fala sem
pensar pode incomodar alguém que valoriza precisão. Em todos esses casos,
existe uma característica objetiva no comportamento do outro, mas também existe
uma relação subjetiva entre essa característica e aquilo que valorizamos.
Isso
significa que a reação não pertence exclusivamente ao outro. O acontecimento
pode ser externo, mas a intensidade da reação é construída internamente. Essa
percepção é extremamente importante porque devolve ao indivíduo uma parcela de
responsabilidade sobre aquilo que sente. Não é possível controlar tudo aquilo
que as pessoas fazem. É possível, porém, trabalhar a maneira como determinadas
atitudes são recebidas. Essa é uma das diferenças mais importantes entre
maturidade e simples experiência. O tempo, por si só, não torna ninguém
emocionalmente maduro. Uma pessoa pode envelhecer mantendo exatamente os mesmos
padrões de reação que possuía décadas antes. Maturidade implica aprendizagem.
Implica perceber que algumas batalhas não merecem ser travadas, que algumas
provocações não merecem resposta e que algumas pessoas não precisam ser
convencidas para que uma posição própria continue válida.
Convencer
alguém também pode se transformar em uma necessidade emocional. Em determinadas
situações, o interesse pela verdade desaparece e surge a necessidade de vencer.
A pessoa já não quer compreender o argumento contrário. Quer demonstrar
superioridade. Já não procura verificar se existe alguma coisa a aprender.
Procura apenas encontrar uma maneira de derrotar a posição do outro. A
inteligência, nesse momento, pode tornar-se uma ferramenta de defesa do ego. É
possível perceber esse mecanismo em discussões aparentemente banais. Uma pessoa
apresenta uma opinião. Outra discorda. A conversa começa racionalmente. Pouco
depois, alguma palavra toca uma região emocional. O tom muda. A pessoa deixa de
responder ao argumento e começa a responder ao que imaginou existir por trás do
argumento. O assunto inicial desaparece e surge uma disputa por reconhecimento.
No final, ninguém necessariamente aprendeu coisa alguma. Mas alguém sai com a
sensação de ter vencido (ou ambos).
Esse
comportamento revela uma questão importante: muitas discussões não são
realmente sobre aquilo que aparentam ser. Uma discussão sobre política pode
ser, em determinado momento, uma disputa por identidade. Uma discussão
profissional pode esconder uma disputa por reconhecimento. Uma discussão
familiar pode carregar ressentimentos acumulados durante anos. Uma divergência
aparentemente pequena pode tocar sentimentos muito maiores do que o assunto
justificaria. Por isso, uma reação desproporcional sempre merece alguma
atenção. Quando uma resposta parece muito maior do que o estímulo que a
provocou, provavelmente existe alguma coisa além do acontecimento imediato.
Isso não significa diagnosticar pessoas ou procurar explicações ocultas para
cada comportamento. Significa apenas reconhecer que a intensidade emocional
pode revelar que determinado acontecimento encontrou algo previamente
existente.
Essa
observação também precisa ser aplicada a nós mesmos. É relativamente fácil
identificar a irracionalidade dos outros. Muito mais difícil é perceber quando
a própria razão está sendo utilizada para proteger uma posição emocional. A
tendência humana de procurar confirmação das próprias crenças não desaparece
simplesmente porque adquirimos conhecimento. Pelo contrário. Quanto maior a
capacidade intelectual, maior pode ser a habilidade de construir argumentos
sofisticados para defender uma posição que emocionalmente já foi escolhida. Essa
sempre foi uma das formas mais perigosas de irracionalidade porque produz a
ilusão de racionalidade. A pessoa possui argumentos, informações e possui
referências. Consegue explicar sua posição. Mas tudo isso pode estar sendo
utilizado não para investigar a realidade, mas para preservar uma conclusão
anterior. A verdadeira racionalidade exige uma disposição que o ego considera
desconfortável: a possibilidade de mudar de opinião.
Mudar de
opinião não deveria ser interpretado como fraqueza intelectual. Em muitas
circunstâncias, é justamente o contrário. Uma pessoa que consegue reconhecer um
erro demonstra que a relação com a realidade é mais importante do que a
necessidade de preservar uma imagem de infalibilidade. A capacidade de dizer
“eu estava errado” exige mais força interior do que a capacidade de produzir
justificativas para continuar certo. Essa questão possui enorme importância no
processo de autoconhecimento. Não basta conhecer as próprias qualidades. É
necessário reconhecer os próprios pontos cegos. Todo indivíduo possui regiões
da própria personalidade que são mais difíceis de observar. Algumas aparecem
quando somos contrariados... outras surgem quando somos criticados. Algumas se
manifestam quando perdemos controle... outras aparecem quando alguém recebe
aquilo que gostaríamos de receber.
A
observação dessas situações pode ser mais reveladora do que qualquer descrição
consciente que fazemos sobre nós mesmos. Uma pessoa pode afirmar que é
extremamente racional e perceber, em determinada situação, que não consegue
ouvir uma crítica. Outra pode acreditar que não se importa com reconhecimento e
descobrir quanto se incomoda quando o trabalho realizado não recebe atenção.
Outra pode considerar-se tolerante até encontrar alguém que pense de maneira
completamente diferente. É nessas situações que a experiência se transforma em
conhecimento. Não basta saber teoricamente que as emoções influenciam o
comportamento humano. É preciso perceber a influência das emoções sobre o
próprio comportamento. A compreensão intelectual somente se torna verdadeira
quando consegue produzir alguma transformação na maneira de viver.
Ao longo da
vida, essa percepção pode produzir uma mudança importante na relação com as
incoerências alheias. A incoerência continua sendo percebida... o absurdo
continua parecendo absurdo... a falta de bom senso continua incomodando. A
diferença está na necessidade de reagir. Antes, a incoerência podia provocar
imediatamente indignação. Depois, pode provocar apenas uma observação
silenciosa. O julgamento continua existindo, mas deixa de exigir uma resposta. Essa
diferença é muito importante. Tornar-se mais compreensivo não significa
tornar-se indiferente. Também não significa desenvolver uma espécie de
tolerância indiscriminada diante de qualquer comportamento. Existem situações
nas quais é necessário dizer não, estabelecer limites, discordar, afastar-se ou
até confrontar. O autodomínio não elimina a firmeza. Na realidade, pode
torná-la mais precisa.
Uma pessoa
dominada pela emoção frequentemente reage com intensidade maior do que a
situação exige. Uma pessoa que aprendeu a administrar melhor as próprias
emoções pode agir com firmeza sem perder o controle. Existe uma enorme
diferença entre agressividade e assertividade. A agressividade procura impor. A
assertividade procura estabelecer uma posição. A primeira frequentemente nasce
da necessidade de dominar a situação. A segunda pode existir mesmo quando não
existe nenhuma necessidade de vencer. Isso nos leva novamente à diferença entre
compreender e aceitar. Compreender é tornar inteligível. Aceitar pode
significar concordar, permitir ou considerar legítimo. Não são a mesma coisa. É
possível compreender a origem de uma agressividade e continuar considerando a
agressividade inadequada. É possível compreender uma mentira e continuar
considerando a mentira inaceitável. É possível compreender uma atitude egoísta
e continuar mantendo distância de quem a pratica.
Na verdade,
estimado leitor, quanto maior a compreensão sobre a natureza humana, menos
necessidade existe de transformar cada comportamento inadequado em uma batalha
moral. A pessoa passa a perceber padrões. Reconhece que determinadas reações
são previsíveis. Entende que algumas pessoas não conseguem admitir erros.
Percebe que outras precisam constantemente de aprovação. Identifica quem reage
mal à contrariedade, quem transforma divergências em conflitos e quem precisa
estar permanentemente demonstrando superioridade. Essa percepção não deve
servir para rotular pessoas. Rótulos encerram aquilo que deveria permanecer
aberto à observação. O objetivo não é decidir definitivamente quem alguém é,
mas compreender como alguém tende a funcionar em determinadas circunstâncias.
Uma pessoa pode agir de maneira extremamente generosa em determinada situação e
profundamente egoísta em outra. Pode demonstrar coragem em uma área da vida e
insegurança em outra. Pode ser racional no trabalho e completamente emocional
nas relações afetivas.
O ser
humano é contraditório. Essa é uma das características que mais dificultam sua
compreensão. A mesma pessoa pode defender um princípio e violá-lo quando o
princípio entra em conflito com um interesse pessoal. Pode exigir honestidade e
esconder informações. Pode criticar o orgulho alheio e ser incapaz de
reconhecer os próprios erros. Pode condenar determinadas atitudes e
justificá-las quando praticadas por alguém de quem gosta. Essa contradição não
deveria causar surpresa. O indivíduo não é uma estrutura perfeitamente
organizada. A personalidade é formada por diferentes forças, algumas
conscientes, outras pouco conscientes, que nem sempre caminham na mesma
direção. Esperar uma coerência absoluta do ser humano é esperar algo que
provavelmente nunca existirá.
Mas
reconhecer essa condição não significa abandonar a busca por coerência. Pelo
contrário. Talvez justamente porque a incoerência seja natural, a coerência
tenha tanto valor. O bom senso continua sendo importante. A inteligência
continua sendo importante. A responsabilidade continua sendo importante. O fato
de alguém possuir limitações não significa que todas as consequências de suas
escolhas devam ser ignoradas. Existe, portanto, uma posição intermediária entre
a intolerância e a permissividade. É possível reconhecer as limitações humanas
sem transformar essas limitações em desculpas permanentes. É possível ser
compreensivo sem ser ingênuo. É possível ser tolerante sem abandonar critérios.
É possível compreender sem aceitar.
Essa
posição exige algo que nem sempre é fácil: abandonar a expectativa de que todos
agirão de acordo com aquilo que consideramos óbvio. O óbvio é uma experiência
muito mais pessoal do que imaginamos. Aquilo que parece evidente para alguém
pode não ter o mesmo significado para outra pessoa. Isso não torna todas as
percepções equivalentes, mas ajuda a compreender por que a comunicação humana é
tão frequentemente atravessada por mal-entendidos. Uma das maiores formas de
liberdade é justamente deixar de exigir que o outro seja aquilo que gostaríamos
que fosse. Essa liberdade não significa desistir de valores ou aceitar qualquer
comportamento. Significa apenas reconhecer que não temos controle sobre a
estrutura psicológica das outras pessoas. Podemos argumentar, explicar,
ensinar, aconselhar, estabelecer limites e tomar decisões. Não podemos entrar
na mente de alguém e reorganizar sua maneira de perceber o mundo.
Quando essa
compreensão se estabelece, a relação com o conflito também muda. Nem todo
conflito precisa ser resolvido. Alguns precisam apenas ser administrados.
Algumas divergências não têm solução porque não resultam de falta de
informação, mas de diferenças profundas de valores, experiências ou interesses.
Insistir indefinidamente na tentativa de convencer o outro pode consumir
energia sem produzir resultado. O autodomínio aparece justamente nessa
capacidade de escolher onde colocar energia. Nem toda provocação merece
resposta. Nem toda incoerência precisa ser corrigida. Nem toda opinião precisa
ser contestada. Nem toda pessoa precisa compreender aquilo que compreendemos.
E, principalmente, nem todo erro cometido por outra pessoa precisa ocupar
espaço dentro de nós.
Isso não
significa tornar-se passivo. Significa tornar-se seletivo. Existe uma enorme
diferença entre não reagir porque não se tem coragem e não reagir porque se
compreendeu que a reação não produziria nada de útil. No primeiro caso existe
impotência. No segundo existe escolha. Essa é a forma mais profunda de dominar
o lado emocional: não eliminar aquilo que sentimos, mas impedir que aquilo que
sentimos determine automaticamente aquilo que fazemos. A emoção pode continuar
existindo. A irritação pode aparecer. A indignação pode surgir. A frustração
pode incomodar. O pensamento pode continuar avaliando a situação. Mas entre a
emoção e a ação passa a existir consciência. Essa consciência permite uma
mudança silenciosa, mas profunda. A pessoa começa a perceber que não precisa
responder a tudo. Não precisa explicar tudo. Não precisa corrigir todos. Não
precisa convencer todos. Não precisa transformar cada incoerência em um
problema pessoal.
A
experiência de vida ensina, pouco a pouco, que determinadas pessoas continuarão
fazendo coisas que parecem absolutamente incompreensíveis. Algumas continuarão
insistindo em erros evidentes. Algumas defenderão posições contraditórias.
Algumas tomarão decisões que parecem desprovidas de bom senso. E isso
continuará acontecendo independentemente da nossa capacidade de demonstrar a
inconsistência. A diferença é que aquilo que antes provocava apenas irritação
pode começar a provocar curiosidade. O que mudou? Por que essa pessoa pensa
assim? O que está protegendo? O que teme perder? O que deseja preservar? Que
experiência produziu essa maneira de enxergar? A pergunta deixa de ser apenas
“como alguém consegue fazer isso?” e passa a ser também “o que existe por trás
dessa maneira de agir?”.
Essa
mudança não elimina o julgamento. Torna o julgamento mais complexo. Em vez de
simplesmente condenar, começamos a compreender. Em vez de apenas reagir,
observamos. Em vez de tentar imediatamente corrigir o outro, procuramos
entender o funcionamento da situação. E, ao fazer isso, paradoxalmente,
ganhamos maior capacidade de decidir quando vale a pena intervir. Afinal,
compreender o ser humano não significa perder os critérios que orientam a
própria vida. Significa adquirir critérios mais realistas. Significa reconhecer
que as pessoas são influenciadas por emoções, experiências, desejos, medos e
contradições. Significa reconhecer também que nós mesmos estamos sujeitos às
mesmas forças.
Essa sempre
foi e sempre será a parte mais difícil de todo o processo: aplicar aos próprios
pensamentos a mesma capacidade de análise que aplicamos aos pensamentos dos
outros. É fácil perceber quando alguém está sendo dominado pelo orgulho. Mais
difícil é perceber o próprio orgulho. É fácil identificar a necessidade de
reconhecimento em outra pessoa. Mais difícil é reconhecer a própria
necessidade. É fácil perceber quando alguém não aceita uma crítica. Mais
difícil é observar a própria resistência diante de uma crítica que toca um ponto
sensível. O autoconhecimento começa quando essa assimetria diminui. Quando
deixamos de observar apenas o comportamento dos outros e começamos a observar
também nossas próprias reações. O que nos irrita? O que nos ofende? O que nos
faz perder a paciência? O que nos faz querer provar que estamos certos? O que
nos faz insistir em uma discussão que já deixou de produzir qualquer resultado?
Essas
perguntas não servem para produzir culpa. Servem para produzir liberdade.
Quanto mais conhecemos os mecanismos que nos movem, menor a possibilidade de
sermos conduzidos por eles sem perceber. A emoção deixa de ser uma força
invisível e passa a ser uma informação. A irritação pode indicar um limite
ultrapassado. A ansiedade pode indicar uma ameaça percebida. A frustração pode
revelar uma expectativa. A indignação pode apontar para um valor importante.
Nenhuma dessas emoções precisa ser obedecida automaticamente. Esse é o ponto em
que experiência, conhecimento e maturidade se encontram. A vida não nos torna
necessariamente menos emocionais. Pode, entretanto, tornar-nos mais conscientes
das próprias emoções. E essa consciência cria uma distância que antes não
existia. Uma distância entre aquilo que acontece e aquilo que fazemos com o que
acontece.
Hoje,
consigo compreender muito mais do comportamento humano do que conseguia no
passado. Consigo perceber que uma pessoa pode agir de maneira incoerente sem
necessariamente perceber a própria incoerência. Consigo entender que
determinadas escolhas são produzidas por medos, inseguranças ou necessidades
que permanecem invisíveis para quem observa apenas o comportamento exterior.
Consigo reconhecer que aquilo que considero evidente pode não encontrar o mesmo
significado na experiência de outra pessoa.
Mas
compreender não significa aceitar. Continuo acreditando que coerência
importa. Que bom senso importa. Que inteligência importa. Que responsabilidade
importa. Que existem comportamentos que precisam ser questionados e atitudes
que não podem ser justificadas simplesmente porque possuem uma explicação
psicológica. A compreensão não elimina o discernimento. Apenas impede que o
discernimento seja transformado imediatamente em hostilidade. A verdadeira
maturidade emocional está, justamente, nessa combinação aparentemente
contraditória: compreender profundamente sem necessariamente concordar;
observar sem necessariamente interferir; reconhecer limitações sem abandonar
critérios; estabelecer limites sem precisar odiar; discordar sem precisar
destruir; perceber a irracionalidade sem permitir que a irracionalidade alheia
nos torne irracionais também.
No final,
dominar o lado emocional não significa dominar completamente aquilo que
sentimos. Isso provavelmente seria impossível e, de certa forma, indesejável.
Significa dominar a distância entre sentir e agir. Significa conseguir
permanecer lúcido quando alguma coisa dentro de nós pede uma reação imediata.
Significa compreender que o comportamento dos outros pode ser objeto de análise
sem se tornar proprietário do nosso estado emocional. A natureza humana
continuará sendo contraditória. As pessoas continuarão errando, insistindo em
erros, defendendo posições frágeis, agindo por impulso e interpretando o mundo
a partir de suas próprias necessidades. Continuaremos encontrando comportamentos
que parecem absurdos. Continuaremos discordando. Continuaremos nos irritando.
A
diferença está no que fazemos depois. Podemos reagir imediatamente e entrar
na mesma dinâmica emocional que estamos criticando. Ou podemos observar,
compreender, avaliar e escolher. Podemos reconhecer que algo é incoerente sem
permitir que a incoerência nos domine. Podemos considerar determinada atitude
inadequada sem transformar essa avaliação em uma guerra. Podemos compreender a
pessoa sem aceitar o comportamento. Então, qual a maior conquista que a
experiência pode proporcionar? É descobrir que não precisamos abandonar aquilo
em que acreditamos para compreender aqueles que pensam de maneira diferente.
Podemos continuar exigentes com a coerência, com o bom senso e com a
responsabilidade e, ao mesmo tempo, desenvolver uma compreensão mais profunda
das limitações humanas. Porque compreender não diminui necessariamente a
exigência. Às vezes, apenas diminui a irritação. E quando a irritação diminui,
o pensamento ganha espaço. É nesse espaço que começa o verdadeiro domínio
emocional.

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