terça-feira, 1 de setembro de 2026

A PASSIVIDADE QUE TRANSFORMA DISCURSOS MAL INTENCIONADOS EM VERDADES SALVADORAS

A HISTÓRIA DOS DISCURSOS MAL INTENCIONADOS

por Heitor Jorge Lau

 

Líder

Período no poder

Principais crimes

Estimativa de mortes

Adolf Hitler

1933–1945 (Alemanha)

Holocausto, perseguição a judeus, ciganos, deficientes, opositores políticos; guerra total

10–12 milhões

  • Ideologia: Nacional-socialismo, racismo biológico, antissemitismo radical.
  • Atrocidades: O Holocausto exterminou cerca de 6 milhões de judeus, além de ciganos, deficientes, opositores políticos e homossexuais.
  • Guerra: A Segunda Guerra Mundial, iniciada por sua política expansionista, causou mais de 50 milhões de mortes.
  • Sociedade: Parte da população apoiou por nacionalismo e propaganda; outros se calaram por medo da Gestapo.

Josef Stalin

1924–1953 (URSS)

Gulags, expurgos, deportações forçadas, Holodomor (fome na Ucrânia)

9–20 milhões

  • Métodos: Expurgos políticos, culto à personalidade, repressão sistemática.
  • Atrocidades: O Holodomor (fome na Ucrânia, 1932–33) matou milhões; os Gulags aprisionaram milhões em condições desumanas.
  • Estimativa: Entre 9 e 20 milhões de mortos.
  • Sociedade: Muitos apoiaram por ideologia comunista; outros colaboraram por medo da polícia secreta NKVD

Mao Tsé-Tung

1949–1976 (China)

Grande Salto Adiante (fome em massa), Revolução Cultural, perseguição a intelectuais

40–70 milhões

  • Políticas: Grande Salto Adiante e Revolução Cultural.
  • Atrocidades: Fome em massa (1958–62) matou entre 30 e 45 milhões; perseguição a intelectuais e opositores.
  • Sociedade: Jovens foram mobilizados como Guardas Vermelhos; milhões participaram da perseguição por fervor ideológico.

Idi Amin Dada

1971–1979 (Uganda)

Execuções em massa, perseguição a minorias, repressão política

300 mil–500 mil

  • Regime: Ditadura militar marcada por paranoia e violência.
  • Atrocidades: Execuções em massa, perseguição a minorias asiáticas e opositores políticos.
  • Estimativa: Entre 300 mil e 500 mil mortos.
  • Sociedade: Parte do exército e da população colaborou; outros permaneceram passivos por medo.

 

            Adolf Hitler representa o exemplo mais emblemático da fusão entre ideologia e violência sistemática. Seu regime nazista não apenas exterminou milhões de judeus, ciganos, deficientes e opositores, mas também transformou a própria sociedade alemã em cúmplice ativa ou passiva do genocídio. A propaganda nazista, cuidadosamente elaborada por Joseph Goebbels, moldou percepções e anestesiou consciências, criando uma atmosfera em que o ódio era visto como patriotismo. Psicologicamente, o Holocausto mostra como a desumanização pode ser internalizada por cidadãos comuns, que passaram a enxergar vizinhos como inimigos a serem eliminados. Filosoficamente, Hannah Arendt descreveu esse fenômeno como a “banalidade do mal”: não é necessário ser um monstro para cometer atrocidades, basta ser um burocrata obediente, um soldado disciplinado ou um cidadão indiferente. O mal, nesse sentido, não é apenas um ato excepcional, mas pode se tornar rotina quando a sociedade abdica da responsabilidade moral.

            Josef Stalin, por sua vez, construiu um império de medo na União Soviética. Seus expurgos políticos, os Gulags e a fome planejada na Ucrânia (Holodomor) revelam como o poder absoluto pode transformar a vida humana em mera estatística descartável. Milhões morreram em campos de trabalho forçado, onde a sobrevivência era quase impossível. Psicologicamente, o stalinismo mostra a força da coerção: a delação se tornava uma forma de autopreservação, e o silêncio era a única defesa contra a polícia secreta NKVD. Filosoficamente, o regime de Stalin expõe o paradoxo da utopia comunista: em nome da igualdade, criou-se um sistema de terror que destruiu qualquer possibilidade de liberdade. A sociedade soviética, em grande parte, foi cúmplice por medo, mas também por acreditar que o sacrifício era necessário para construir um futuro melhor. Essa mistura de ideologia e terror revela como a esperança pode ser manipulada para justificar a violência.

            Mao Tsé-Tung levou esse mecanismo a uma escala ainda maior. O Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural resultaram em dezenas de milhões de mortes por fome, perseguição e violência política. Mao mobilizou jovens como Guardas Vermelhos, transformando-os em instrumentos de repressão contra professores, intelectuais e até familiares. Psicologicamente, esse processo mostra como o fervor ideológico pode ser usado para destruir laços sociais e familiares, substituindo-os pela lealdade ao líder. Filosoficamente, Mao representa a perversão da ideia de revolução: em vez de libertar, aprisionou a sociedade em um ciclo de violência e paranoia. A população chinesa, em grande parte, participou ativamente, seja por convicção ou medo, mostrando como a linha entre vítima e cúmplice pode se tornar difusa em regimes totalitários.

            Idi Amin Dada, em Uganda, e Pol Pot, no Camboja, revelam a face mais brutal da ditadura militar e do radicalismo ideológico. Amin governou com paranoia, executando opositores e perseguindo minorias, enquanto Pol Pot exterminou cerca de um quarto da população cambojana em nome de um comunismo agrário radical. Psicologicamente, Pol Pot mostra como a desumanização pode atingir níveis absurdos: usar óculos era visto como sinal de intelectualidade e, portanto, motivo para execução. Filosoficamente, seu regime expõe a fragilidade da civilização: bastou uma ideologia radical e um líder carismático para transformar vizinhos em carrascos. A sociedade cambojana, coagida e manipulada, tornou-se parte do genocídio, mostrando como o medo e a propaganda podem corroer qualquer resistência.

            O que une todos esses casos é o papel das sociedades que os sustentaram. Não foram apenas líderes isolados que cometeram atrocidades, mas sistemas inteiros que se alimentaram da obediência, indiferença e participação ativa de milhões. Psicologicamente, isso revela a vulnerabilidade humana diante da autoridade e da propaganda. Filosoficamente, levanta a questão da responsabilidade coletiva: até que ponto uma sociedade pode ser considerada culpada quando se cala diante do mal? O lado negro da história não é apenas o retrato de ditadores sanguinários, mas o espelho de nossa própria capacidade de abdicar da moralidade em nome da sobrevivência, da ideologia ou da neutralidade.

            A filosofia da banalidade do mal, formulada por Hannah Arendt, é uma das reflexões mais perturbadoras sobre a natureza da violência e da responsabilidade humana. Ao acompanhar o julgamento de Adolf Eichmann, Arendt esperava encontrar um monstro ideológico, mas deparou-se com um homem medíocre, incapaz de pensar criticamente, que justificava suas ações com frases burocráticas como “cumpri ordens”. Esse choque levou-a a concluir que o mal não precisa ser radical ou demoníaco para existir; ele pode ser banal, fruto da ausência de pensamento, da renúncia à reflexão moral e da obediência automática a sistemas que legitimam a destruição. O que torna esse conceito tão inquietante é que ele desloca o foco da monstruosidade individual para a fragilidade coletiva: qualquer pessoa, em determinadas circunstâncias, pode se tornar cúmplice de atrocidades sem perceber a dimensão de seus atos.

            Essa ideia ganha força quando aplicada aos regimes de Hitler, Stalin, Mao, Pol Pot e outros. Milhões de pessoas participaram direta ou indiretamente de genocídios e perseguições não por sadismo, mas por conformismo, medo ou busca de pertencimento. O funcionário que carimbava documentos de deportação, o soldado que obedecia a ordens sem questionar, o vizinho que se calava diante da perseguição — todos se tornaram peças de engrenagens que produziam morte em escala industrial. Psicologicamente, isso revela a vulnerabilidade humana diante da autoridade e da propaganda: quando o pensamento crítico é sufocado, a obediência se torna virtude e a indiferença se transforma em autopreservação. Filosoficamente, a banalidade do mal nos obriga a repensar a responsabilidade moral: não basta não matar; é preciso pensar, julgar e resistir, mesmo quando o custo é alto.

            O conceito também ilumina o papel das sociedades que sustentaram esses regimes. Não se trata apenas de líderes sanguinários, mas de populações inteiras que, em graus variados, apoiaram, participaram ou se omitiram. A banalidade do mal mostra que o silêncio diante da injustiça é uma forma de cumplicidade, e que a neutralidade pode ser tão destrutiva quanto a ação direta. Em regimes totalitários, o medo e a propaganda corroem a capacidade de resistência, mas Arendt insiste que pensar é sempre possível, mesmo sob opressão. Essa insistência filosófica é um chamado à responsabilidade: cada indivíduo tem o dever de refletir sobre suas ações e suas consequências, porque é na ausência desse pensamento que o mal se banaliza e se perpetua.

            Hoje, a banalidade do mal continua atual. Ela não se limita ao nazismo ou ao comunismo, mas pode se manifestar em qualquer sistema burocrático que legitime injustiças, em discursos políticos que normalizam a violência ou em sociedades digitais que multiplicam a indiferença. O perigo não está apenas nos líderes carismáticos, mas na passividade das massas que aceitam narrativas sem questionar. Arendt nos alerta que o mal pode surgir sempre que o pensamento crítico é abandonado, e que a única defesa contra ele é a coragem de pensar e julgar, mesmo quando isso nos coloca contra a corrente. A filosofia da banalidade do mal, portanto, não é apenas uma análise histórica, mas uma advertência permanente: o maior risco não é o ódio explícito, mas a indiferença silenciosa que permite que ele floresça.

            A psicologia das massas em ditaduras revela como sociedades inteiras podem ser moldadas para aceitar, apoiar ou se calar diante de atrocidades. O fenômeno não se explica apenas pelo medo, mas pela manipulação sistemática da percepção coletiva. Líderes como Hitler, Stalin, Mao ou Pol Pot compreenderam que o poder não se sustenta apenas pela violência física, mas pela construção de uma narrativa que transforma o indivíduo em parte de um corpo social homogêneo. A propaganda, repetida incessantemente, cria uma realidade paralela em que o líder é visto como salvador e qualquer oposição é percebida como ameaça existencial. Nesse ambiente, a capacidade crítica se dissolve, e o cidadão comum passa a agir não como indivíduo, mas como membro de uma massa que se identifica com símbolos, slogans e promessas. Psicologicamente, isso gera um estado de fusão emocional, em que a responsabilidade pessoal é diluída e a obediência se torna virtude.

            Esse processo é reforçado pela dinâmica do medo. Em regimes totalitários, a repressão não se limita aos opositores ativos, mas se estende a qualquer um que demonstre dúvida ou neutralidade. O medo da punição, da prisão ou da morte cria uma atmosfera em que o silêncio é a única forma de sobrevivência. Mas paradoxalmente, esse mesmo medo pode levar à participação ativa: muitos se tornam delatores ou agentes da repressão para proteger a si mesmos ou suas famílias. A psicologia das massas, nesse contexto, mostra como o instinto de autopreservação pode ser manipulado para alimentar o sistema de terror. Filosoficamente, isso levanta a questão da responsabilidade coletiva: até que ponto o medo justifica a omissão, e até que ponto a neutralidade se transforma em cumplicidade? Hannah Arendt, ao falar da banalidade do mal, sugere que mesmo sob coerção, o indivíduo mantém a capacidade de pensar e julgar, e é justamente a renúncia a esse pensamento que permite que o mal se perpetue.

            Outro aspecto fundamental é o papel da ideologia. Ditaduras não sobrevivem apenas pela força, mas pela promessa de um futuro melhor. Hitler prometia a grandeza da Alemanha, Stalin a construção do socialismo, Mao a revolução permanente, Pol Pot a pureza agrária. Essas promessas funcionavam como anestésicos morais, justificando o sacrifício de milhões em nome de uma utopia. Psicologicamente, a ideologia oferece sentido e pertencimento, preenchendo o vazio existencial e transformando o sofrimento em missão. A massa, nesse contexto, não apenas obedece por medo, mas participa com fervor, acreditando que sua dor é parte de um processo histórico grandioso. Filosoficamente, isso revela a sedução da utopia: quando o futuro é idealizado, o presente pode ser destruído sem remorso.

            A psicologia das massas em ditaduras mostra como o indivíduo pode ser dissolvido em um coletivo que legitima a violência. A indiferença, o conformismo e a obediência se tornam mecanismos de sobrevivência, mas também de cumplicidade. O lado mais perturbador é que não estamos diante de monstros isolados, mas de sociedades inteiras que, em graus variados, aceitaram ou participaram das atrocidades. Isso nos obriga a refletir sobre nossa própria vulnerabilidade: em que medida qualquer sociedade, diante de crise, medo ou promessa de salvação, pode repetir esses padrões? A filosofia da banalidade do mal e a psicologia das massas convergem para uma advertência: o maior perigo não é apenas o líder tirânico, mas a passividade coletiva que permite que ele floresça. Nesse contexto a propaganda em regimes autoritários é uma das ferramentas mais poderosas de controle social: ela não apenas manipula percepções, mas cria uma realidade paralela em que o líder é visto como salvador e qualquer oposição é percebida como ameaça existencial.

            Nos regimes autoritários do século XX — como o nazismo de Hitler, o fascismo de Mussolini, o salazarismo em Portugal ou o franquismo na Espanha — a propaganda foi utilizada para moldar a opinião pública e legitimar o poder. Ela não se limitava a cartazes e discursos, mas penetrava em todas as esferas da vida: rádio, cinema, jornais, escolas e até na arte. O objetivo era criar uma narrativa única, sem espaço para contestação, em que o Estado se apresentava como guardião da ordem e da moral. A censura complementava esse processo, eliminando qualquer voz dissonante e garantindo que apenas a versão oficial dos fatos circulasse. Como afirmava Salazar em 1932, “nunca se deve perder o controle da formação da opinião pública”, revelando a consciência de que dominar a mente coletiva era tão importante quanto controlar o aparato militar.

            Psicologicamente, a propaganda funcionava como um anestésico moral. Ela transformava o ódio em virtude, a violência em patriotismo e a obediência em dever. Ao repetir slogans e símbolos, criava uma sensação de pertencimento que dissolvia o indivíduo na massa. O cidadão comum, exposto diariamente a mensagens que exaltavam o líder e demonizavam o inimigo, passava a internalizar essas ideias como verdades naturais. Esse processo era reforçado pelo medo: quem ousava questionar arriscava-se a ser denunciado, preso ou morto. Assim, a propaganda não apenas convencia, mas também silenciava, criando uma atmosfera em que pensar diferente se tornava perigoso.

            Filosoficamente, a propaganda em regimes autoritários revela a fragilidade da liberdade humana diante da manipulação sistemática. Ela mostra como a verdade pode ser construída artificialmente, e como sociedades inteiras podem aceitar narrativas falsas quando são privadas de alternativas. A “construção da verdade autoritária”, como descrevem estudiosos, é um processo em que palavras e imagens não apenas informam, mas moldam a própria realidade. Nesse sentido, a propaganda não é apenas um instrumento político, mas uma forma de engenharia social que transforma cidadãos em cúmplices, seja por convicção, seja por indiferença.

            Hoje, a lógica da propaganda autoritária continua atual, ainda que adaptada às redes sociais e ao ambiente digital. Estudos recentes mostram que sua eficácia depende da estrutura das conexões sociais: em sociedades altamente atomizadas ou totalmente conectadas, a propaganda se espalha com mais força, enquanto em redes intermediárias precisa ser menos enviesada para manter engajamento. Isso revela que o perigo não desapareceu... apenas mudou de forma. A lição histórica é clara: quando a informação é monopolizada e a pluralidade é sufocada, a propaganda se torna uma arma capaz de legitimar atrocidades e perpetuar regimes de violência.

            Durante períodos eleitorais, a retórica de políticos mal-intencionados frequentemente ecoa os mecanismos de manipulação usados em regimes autoritários do passado. Assim como Hitler, Stalin ou Mao mobilizavam massas por meio de slogans simplistas e narrativas de salvação nacional, muitos candidatos contemporâneos recorrem a discursos que reduzem problemas complexos a inimigos fáceis de identificar. O “outro” — seja um grupo social, uma minoria ou um adversário político — é transformado em bode expiatório, e a promessa de ordem ou prosperidade é apresentada como justificativa para medidas que corroem direitos e liberdades. Psicologicamente, esse tipo de discurso ativa o medo e a esperança ao mesmo tempo: o medo de perder o que se tem e a esperança de recuperar uma grandeza supostamente perdida. Filosoficamente, trata-se da mesma lógica da banalidade do mal: quando cidadãos aceitam narrativas sem reflexão crítica, tornam-se cúmplices de sistemas que podem legitimar injustiças.

            A propaganda eleitoral, nesse contexto, funciona como uma versão suavizada das técnicas autoritárias. Ela repete slogans até que se tornem verdades aparentes, manipula emoções coletivas e cria uma atmosfera em que pensar diferente é visto como traição. O perigo não está apenas nos líderes que proferem tais discursos, mas na massa que os acolhe sem questionar. Assim como nos regimes totalitários, a responsabilidade não é apenas dos que governam, mas também dos que se deixam seduzir pela retórica fácil. A analogia é clara: quando a sociedade abdica da reflexão crítica e se entrega ao conforto das promessas simplistas, abre espaço para que o mal se banalize novamente, desta vez sob a forma de políticas que corroem lentamente a democracia.

            Esse paralelo nos obriga a olhar para o presente com atenção. A história mostra que a manipulação das massas não começa com campos de concentração ou expurgos, mas com palavras aparentemente inofensivas, repetidas até se tornarem senso comum. O discurso dos políticos mal-intencionados durante eleições é, portanto, um alerta: não basta rejeitar a violência explícita; é preciso resistir à sedução da retórica que transforma medo em arma e esperança em ilusão. A psicologia das massas e a filosofia da banalidade do mal nos lembram que o maior risco não é apenas o líder tirânico, mas a passividade coletiva que permite que ele floresça.