sábado, 7 de junho de 2025

MOTORES DA PSIQUE HUMANA - UMA ANALOGIA com a história de Caim e Abel


 

A Sombra Fraternal: Caim, Abel e a Eternidade da Natureza Humana

uma narrativa filosófica não religiosa

                                                                                                         By Lau

            A narrativa bíblica de Caim e Abel, contada no livro de Gênesis, é uma das histórias mais antigas e incisivas da humanidade. Mais do que um mero relato de fratricídio (assassinato de irmão ou de irmã), ela serve como uma parábola atemporal e multifacetada da natureza humana, revelando profundidades psicológicas e morais que ressoam até os dias de hoje. Ao despojarmos a história de seu véu religioso, encontramos um reflexo límpido de nossos impulsos mais primários: a busca por aceitação, a corrosão da inveja, a escolha entre a benevolência e a violência, e a inescapável responsabilidade por nossas ações.

            No início, havia Adão e Eva, e depois seus filhos. Caim, o primogênito, era lavrador. Abel, o mais novo, pastor de ovelhas. Essa distinção inicial, embora aparentemente simples, já prenuncia as divergências que se seguiriam. Eles representam as primeiras gerações de seres humanos nascidos fora do Éden, carregando consigo o peso da nova liberdade e da nova responsabilidade que a expulsão de seus pais havia imposto. Não há um Deus que os guie diretamente como um pai faria com seus filhos pequenos. Eles devem discernir, por si mesmos, o caminho a seguir.

            A oferta de seus dons ao Senhor é o ponto de inflexão. Caim oferece frutos da terra, Abel oferece as primícias de seu rebanho e a gordura deles. A aceitação divina da oferta de Abel e a rejeição da oferta de Caim lançam as sementes da discórdia. Mas por que essa distinção? As interpretações variam. Alguns teólogos sugerem que a diferença residia na qualidade da oferta – Abel teria oferecido o melhor, enquanto Caim teria oferecido sem o mesmo fervor ou sacrifício. Outros argumentam que a atitude do ofertante era o cerne da questão: Abel teria um coração puro e obediente, enquanto Caim já guardava alguma reserva ou ressentimento.

            Independentemente da exata razão teológica, a analogia com a natureza humana é cristalina. Somos constantemente avaliados, seja por nós mesmos, por nossos pares, ou por um poder maior que concebamos. A busca por reconhecimento e validação é um dos motores mais poderosos da psique humana. Quando essa validação é negada, especialmente em comparação com outro, surgem as emoções mais sombrias. A rejeição da oferta de Caim não é apenas uma crítica a seu trabalho, mas uma afronta à sua própria existência, à sua identidade como provedor e como filho. Ele se sente diminuído, inadequado, e essa sensação de inadequação se transforma rapidamente em ressentimento.

            A inveja é o veneno que Caim permite que corroa sua alma. Ele não inveja apenas a aceitação de Abel, mas a própria existência do irmão como símbolo de seu próprio fracasso percebido. A inveja não é apenas o desejo de ter o que o outro tem, mas, em sua forma mais destrutiva, o desejo de que o outro não tenha aquilo que nós mesmos não possuímos. É um sentimento que nega a possibilidade da felicidade alheia, envenenando a própria fonte da alegria.

            O Senhor, em sua infinita sabedoria, tenta alertar Caim: "Por que andas irado? E por que descaiu o teu semblante? Se bem fizeres, não haverá aceitação para ti? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar." Essa passagem é um momento crucial na narrativa e na analogia com a natureza humana. Ela revela que o pecado, a inclinação para o mal, não é algo imposto externamente, mas uma força que "jaz à porta", à espera de ser convidada para entrar. O Senhor concede a Caim a agência, o livre-arbítrio, a capacidade de dominar sobre o pecado. Ele tem a escolha de transcender sua ira, de encontrar uma forma mais produtiva de lidar com a rejeição. Mas Caim falha nesse teste. A ira se solidifica, a inveja se aprofunda, e a voz da razão é sufocada pelo clamor do ego ferido. Ele convida Abel para o campo, e lá, em um ato premeditado e brutal, tira a vida de seu irmão. O primeiro ato de violência humana documentado é um fratricídio, um assassinato de sangue, ecoando a fragmentação da harmonia original.

            A pergunta divina que se segue é um dos momentos mais pungentes da Bíblia: "Onde está Abel, teu irmão?". A resposta de Caim, "Não sei; sou eu guardador do meu irmão?", é uma manifestação da negação e da irresponsabilidade que permeiam a natureza humana. É a tentativa de se desvencilhar da culpa, de transferir a responsabilidade para outro, ou de simplesmente se eximir de qualquer envolvimento. Mas o sangue de Abel, que clama da terra, é a prova irrefutável. A própria terra, que Caim lavrava, testemunha seu crime. A mancha de sangue é mais do que uma metáfora... é o peso da consciência, a marca indelével que um ato de violência deixa na alma. Mesmo que ninguém mais saiba, o perpetrador carrega consigo o fardo de suas ações.

            A maldição imposta a Caim – a terra não lhe dará mais sua força e ele será um fugitivo e errante – é a representação externa da sua turbulência interna. Ele está condenado a uma existência de agitação e improdutividade, incapaz de encontrar descanso ou paz. A terra que antes era sua fonte de vida, agora se torna um símbolo de sua rejeição. A frase de Caim, "Maior é a minha pena do que a que eu possa suportar!", embora seja um lamento, também revela uma dimensão complexa da culpa. Não é necessariamente um remorso genuíno pelo ato em si, mas sim pela consequência, pelo fardo que lhe foi imposto. A natureza humana muitas vezes lamenta as consequências de suas ações mais do que as próprias ações, focando na dor pessoal em vez do dano infligido.

            A "marca de Caim", frequentemente mal interpretada, é um elemento fascinante da narrativa. O Senhor, apesar da gravidade do crime de Caim, não o abandona completamente. Ele coloca uma marca em Caim, não para identificá-lo como um assassino a ser caçado, mas para protegê-lo de ser morto por vingança. "Portanto, qualquer que matar a Caim, sete vezes será castigado." Essa marca tem profundas implicações filosóficas sobre a natureza divina e, por extensão, sobre a complexidade da justiça e da misericórdia na natureza humana. Mesmo nos atos mais hediondos, há um resquício de valor, um fio de dignidade que não deve ser completamente apagado. A marca é um lembrete de que, mesmo quando caímos em nossos piores impulsos, a vida continua sendo sagrada.

            Analogamente, na natureza humana, a marca de Caim pode ser vista como as consequências inerentes de nossas ações. A culpa, o isolamento, a dificuldade de encontrar paz – são marcas que carregamos, não como punição externa, mas como o resultado natural de nossos desvios morais. E, paradoxalmente, essas marcas podem servir como um limite, impedindo-nos de cair ainda mais fundo, ou protegendo-nos das retribuições de outros que, em sua própria ira, poderiam replicar a violência que perpetramos. É um paradoxo da existência que, mesmo em nossa queda, a vida ainda nos oferece um caminho, por mais árduo que seja.

            A história de Caim e Abel não termina com a maldição de Caim. Adão e Eva geram outro filho, Seth, e através de Seth, a linhagem humana continua. Essa é a nota de esperança, a capacidade da humanidade de renovar-se e de encontrar um novo começo mesmo após a tragédia. Seth, em hebraico, significa "substituto" ou "posto". Ele é o substituto de Abel, a promessa de que a bondade, a espiritualidade e a capacidade de se relacionar com o divino não se extinguiram com a morte de Abel. Essa continuidade da linhagem reflete a resiliência intrínseca da natureza humana. Mesmo após as maiores falhas, as mais profundas quedas, há sempre a possibilidade de redenção, de aprendizado e de um novo florescimento. A humanidade, em sua essência, não é definida apenas por seus erros, mas pela sua capacidade de se reerguer, de buscar a luz novamente e de tentar construir um futuro melhor.

            A aparente beleza e a permanência da história de Caim e Abel residem em sua universalidade. Ela não é apenas um “relato histórico”, mas uma alegoria atemporal que se manifesta em cada um de nós. Desde a infância, o ser humano busca a aprovação dos pais, professores, amigos... A rejeição, real ou percebida, pode desencadear uma série de reações, da frustração à ira. O resultado final pode ser compreendido como uma semente da inveja. O homem vive em um mundo de comparações constantes. Redes sociais, carreiras, bens materiais – todos são bombardeados com a imagem de "sucesso" alheio. É um desafio diário não permitir que a grama do vizinho, que parece mais verde, envenene a própria paz. A inveja pode corroer relacionamentos, levar a atos de sabotagem e minar a própria alegria de viver.

            Porém, existe a escolha. Diante da adversidade ou da injustiça, ainda sim, existe a opção da escolha. É possível sucumbir à ira, ao ressentimento e à violência, ou buscar a superação, o perdão (próprio e aos outros) e a construção. A voz que disse a Caim para "dominar sobre o pecado" é a voz da própria consciência, a capacidade de razão e moralidade que permite escolher o caminho certo. Contudo a responsabilidade é, sempre, individual. Caim tenta negar a sua responsabilidade, mas o clamor do sangue de Abel é inegável. Em última instância, o ser humano é responsável por suas escolhas e consequências, mesmo que diante da tentativa de esconder a verdade de si próprio e dos outros. A verdade sempre encontrará uma forma de se revelar.

            Sempre existirá uma sombra e a luz. A história de Caim e Abel é um lembrete constante da dualidade inerente à natureza humana. Somos capazes de grande bondade e grande maldade, indiscutivelmente. Dizem que somos feitos à imagem e semelhança de um Criador, mas também carregamos a capacidade de desfigurar essa imagem. A luta entre Caim e Abel não é apenas entre dois irmãos, mas a luta interna entre nossas inclinações mais nobres e nossos impulsos mais sombrios. A narrativa de Caim e Abel, portanto, não é apenas um mito distante. É uma lição filosófica profunda sobre a condição humana. Ela força um confronto entre as partes mais obscuras de cada um, a reconhecer a tentação da inveja, a facilidade de ceder à ira e a dificuldade de aceitar a própria responsabilidade. Mas, ao mesmo tempo, ela oferece a esperança da redenção, da continuidade da vida e da possibilidade de escolher o caminho da virtude, da compaixão e do amor fraternal. A sombra fraternal de Caim e Abel paira sobre a humanidade, um lembrete eterno das possíveis escolhas e de quem verdadeiramente o homem é na sua essência.

quinta-feira, 5 de junho de 2025

DESEJOS (i)REFREÁVEIS DA MENTE

 

O Paraíso Perdido e a Natureza Impulsiva: uma Reflexão sobre a Expulsão

                                                                                                              By Lau

             A narrativa bíblica da expulsão do homem do Paraíso, presente no livro de Gênesis, ecoa através dos milênios, não apenas como um mito primeiro de muitas culturas, mas como uma poderosa alegoria sobre a condição humana. Adão e Eva, imersos em um estado de inocência e harmonia, foram banidos de seu Éden por um ato de desobediência – um ato impulsionado por um desejo, por uma curiosidade, por uma inconsequência que alterou para sempre sua existência. Essa história, em sua essência, oferece uma analogia profunda com a própria natureza do homem: a tendência intrínseca do ser humano de agir por impulso, muitas vezes com consequências imprevisíveis e duradouras.

             O Paraíso, em sua representação simbólica, pode ser visto como um estado de plenitude, de ausência de preocupação, de um conhecimento limitado, mas suficiente para a felicidade. É um lugar onde a necessidade não existe e a escolha, embora presente, não é guiada pela complexidade da razão ou pela sedução da transgressão. Adão e Eva viviam em um presente contínuo, sem a sombra do passado ou a ansiedade do futuro. A árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, nesse contexto, não era apenas uma árvore, mas o símbolo da fronteira entre a inocência e a consciência, entre a obediência e a autonomia, entre a ignorância abençoada e a dura realidade do saber.

             A serpente, por sua vez, não é meramente um réptil, mas a personificação da tentação, do questionamento, da voz que sussurra a possibilidade do "outro". Ela representa o impulso que leva a transcender limites, a buscar o que é proibido, a explorar o desconhecido, mesmo que as consequências sejam incertas. A decisão de Adão e Eva de comer do fruto, embora aparentemente um ato simples, foi um divisor de águas. Não foi um ato de maldade premeditada, mas sim um gesto impensado, uma falha em prever as ramificações de sua escolha. Eles agiram por um desejo imediato, por uma curiosidade que superou a prudência.

             Essa ação impulsiva, que levou à expulsão do Paraíso, ressoa profundamente em nossa natureza humana. Somos seres movidos por impulsos. Desde os desejos mais básicos de fome e sede até as complexas motivações de amor, poder e reconhecimento, nossos impulsos moldam as nossas ações. Muitas vezes, agimos sem considerar as consequências de nossos atos. Um comentário precipitado em uma discussão, uma compra impulsiva que compromete o orçamento, uma decisão tomada sob pressão que se revela desastrosa – todos esses são exemplos da propensão a ceder ao impulso do momento.

             A inconsequência é a irmã gêmea do impulso. Não se trata necessariamente de uma maldade inerente, mas sim de uma incapacidade ou falha em prever o impacto de nossas ações. Adão e Eva, ao morder o fruto, provavelmente não anteciparam a dor do trabalho, o sofrimento do parto, a mortalidade ou a angústia da consciência de sua nudez e de sua falha. Eles agiram sem ponderar as implicações a longo prazo, focados apenas na gratificação imediata do desejo de conhecimento ou de experimentação. Da mesma forma, em nossas vidas, quantas vezes nos arrependemos de decisões tomadas sem a devida reflexão, sem considerar as possíveis ramificações? A inconsequência se manifesta no agir sem avaliar o custo real, a perda potencial, o impacto em nós mesmos e nos outros.

             A expulsão do Paraíso, então, pode ser interpretada como a entrada da humanidade na esfera da consciência e da responsabilidade. Ao serem forçados a deixar o Éden, Adão e Eva foram confrontados com a realidade da escolha e de suas consequências. A vida fora do Paraíso não é mais um dom espontâneo, mas uma existência forjada pelo suor do rosto, pela luta e pela necessidade de discernimento. A dor, o trabalho, a mortalidade – tudo isso emerge como resultado daquele ato impulsivo e inconsequente.

             A analogia se estende para a nossa jornada individual. Em nossa busca por crescimento e maturidade, frequentemente nos deparamos com "paraísos" pessoais – momentos de conforto, de segurança, de inocência. E, invariavelmente, surgem as "serpentes" – as tentações, os desafios, os impulsos que nos convidam a transgredir. A escolha de ceder a esses impulsos, sem a devida ponderação, pode nos levar a "expulsões" de nossos próprios paraísos, seja o rompimento de um relacionamento por uma palavra impensada, a perda de uma oportunidade por uma decisão precipitada, ou o sofrimento causado por hábitos inconsequentes.

             A filosofia existencialista, por exemplo, aborda a liberdade humana e a consequente responsabilidade pelos nossos atos. Sartre argumentava que "o homem está condenado a ser livre". Essa liberdade, porém, vem acompanhada da angústia da escolha. Cada decisão, por mais trivial que pareça, é um passo que molda nossa existência e a de outros. Agir por impulso e inconsequência é, de certa forma, abdicar dessa responsabilidade, é negar o peso da nossa liberdade em favor da gratificação imediata.

             É importante notar que nem todo impulso é negativo. O impulso criativo, a paixão que nos move, o instinto de autopreservação – todos esses são impulsos vitais que nos impulsionam. A questão não é erradicar o impulso, mas sim desenvolver a capacidade de discernimento e autocontrole. A expulsão do Paraíso não foi o fim da história, mas o início de uma nova fase onde a humanidade teria que aprender a lidar com sua liberdade e suas escolhas.

             Nesse sentido, a narrativa bíblica oferece uma lição atemporal: a necessidade de reflexão antes da ação. A sabedoria não está em negar o impulso, mas em compreendê-lo, em avaliá-lo à luz das consequências potenciais. É a capacidade de pausar, de respirar, de considerar as ramificações de nossos atos antes de ceder ao desejo imediato. Isso não significa viver em um estado de paralisia pela análise, mas sim cultivar a prudência – a virtude de agir com bom senso e cautela.

            Ainda vivemos com o legado da expulsão do Paraíso, tanto no sentido metafórico quanto no individual. Carregamos a "marca" da nossa natureza impulsiva e inconsequente, mas também a capacidade de aprender, de crescer e de buscar a redenção. A cada escolha que fazemos, temos a oportunidade de nos aproximar ou nos afastar de uma espécie de "reentrada" em um estado de harmonia, não um paraíso de inocência, mas um paraíso de consciência responsável.

             Em última análise, a história de Adão e Eva é um espelho para a nossa própria jornada. Ela nos lembra que a liberdade é uma faca de dois gumes, que o conhecimento traz responsabilidade e que a inconsequência pode nos afastar da plenitude. Ao compreendermos essa analogia, podemos nos tornar mais conscientes de nossos próprios impulsos, mais atentos às consequências de nossas ações e, assim, mais aptos a construir um presente e um futuro mais alinhados com a sabedoria e a responsabilidade, em vez de sermos eternamente banidos pelos ecos de nossos próprios atos impensados. A busca pelo equilíbrio entre o desejo e a razão, entre o impulso e a consequência, é a verdadeira jornada do homem fora do Paraíso.


sexta-feira, 25 de abril de 2025

PSICANÁLISE E ANTROPOLOGIA SOCIAL

 

A PSICANÁLISE E A ANTROPOLOGIA SOCIAL:

UMA CONVERGÊNCIA DE OLHARES SOBRE O HUMANO

 

A psicanálise e a antropologia social são disciplinas que, à primeira vista, podem parecer distantes em seus objetivos e métodos. A primeira, fundada por Freud, tem como foco central o estudo da mente humana, seus processos inconscientes e os conflitos psíquicos que moldam o comportamento individual. A segunda, surgida como uma ramificação da antropologia geral, busca entender os aspectos culturais, sociais e simbólicos das sociedades humanas em sua diversidade. No entanto, ao explorar as conexões e interseções entre essas áreas, percebe-se um diálogo fértil e profundo que enriquece a compreensão do humano em suas dimensões individual e coletiva.

 

O inconsciente e os sistemas simbólicos

Freud, ao introduzir o conceito de inconsciente, inaugurou uma perspectiva revolucionária para a análise da mente humana. Para ele, o inconsciente é a morada de desejos reprimidos, traumas e impulsos que influenciam nossas ações e decisões. Da mesma forma, a antropologia social, especialmente com a contribuição de autores como Claude Lévi-Strauss, enfatiza a importância dos sistemas simbólicos, como mitos, rituais e linguagens, na constituição da vida social. Esses sistemas podem ser vistos como manifestações coletivas do que Freud chamaria de inconsciente cultural. Nesse sentido, tanto a psicanálise quanto a antropologia social estão preocupadas com o que está "por trás" do comportamento humano. Enquanto Freud se debruça sobre os sonhos e os atos falhos para desvendar o inconsciente individual, os antropólogos sociais analisam os mitos e rituais para compreender os padrões simbólicos que estruturam as sociedades. Ambos os campos reconhecem que há camadas profundas de significado que transcendem o que é aparente e consciente.

 

A cultura como mediadora da psique

Freud, em suas reflexões sobre a civilização, sugeriu que a cultura desempenha um papel fundamental na repressão dos impulsos humanos. Obras como “O Mal-Estar na Civilização” exploram como normas culturais e sociais servem para regular os instintos, criando tensões entre os desejos individuais e as exigências coletivas. A antropologia social, por sua vez, examina como diferentes culturas estruturam essas normas e mecanismos reguladores. Por exemplo, a análise antropológica dos ritos de passagem revela como as sociedades moldam as transições individuais, como nascimento, casamento e morte, dentro de contextos culturais específicos. Esses ritos, muitas vezes, atuam como processos de repressão ou sublimação, conceitos fundamentais na psicanálise. Assim, o estudo antropológico da cultura pode fornecer insights sobre como o inconsciente é moldado por contextos sociais e históricos.

 

A psicanálise na antropologia: diálogo e controvérsias

Desde sua origem, a psicanálise exerceu influência sobre a antropologia social, especialmente nas análises de mitos e práticas culturais. Bronislaw Malinowski, um dos pioneiros da antropologia moderna, utilizou conceitos freudianos para interpretar o papel da família nas sociedades tribais das Ilhas Trobriand. Ele argumentou que, embora o complexo de Édipo, conforme descrito por Freud, tenha relevância universal, suas manifestações são moldadas pelas particularidades culturais. Essa abordagem gerou debates intensos dentro da antropologia. Alguns críticos alegaram que o uso da psicanálise para interpretar culturas "não ocidentais" corria o risco de impor categorias eurocêntricas e inadequadas. Contudo, outros pesquisadores viram nesse diálogo uma oportunidade de enriquecer ambas as disciplinas, mostrando como o inconsciente individual e os sistemas culturais interagem.

 

Antropologia psicanalítica: Freud e seus sucessores

A antropologia psicanalítica é um campo que busca integrar insights psicanalíticos com métodos antropológicos para compreender melhor as sociedades humanas. Freud foi precursor desse diálogo ao abordar mitos como o de Édipo ou o relato bíblico de Moisés em suas obras. Ele sugeriu que os mitos servem como expressões simbólicas dos conflitos humanos universais, particularmente aqueles relacionados à sexualidade e ao poder. Posteriormente, autores como Géza Róheim e Jacques Lacan expandiram essa abordagem. Róheim, por exemplo, argumentou que os mitos e rituais são manifestações culturais do inconsciente, enquanto Lacan trouxe uma perspectiva linguística, analisando como os sistemas simbólicos moldam tanto a psique quanto a cultura. Esses esforços mostram como a psicanálise pode oferecer uma lente poderosa para a compreensão antropológica.

 

Metodologias e desafios éticos

Apesar dos pontos de convergência, as metodologias das duas disciplinas apresentam diferenças significativas. A psicanálise, baseada em sessões clínicas e interpretações individuais, muitas vezes foca na profundidade subjetiva do paciente. Por outro lado, a antropologia social utiliza métodos etnográficos, como a observação participante, para captar o funcionamento das sociedades em sua totalidade. Essa diferença metodológica levanta desafios éticos, especialmente ao se aplicar conceitos psicanalíticos a culturas diversas. É essencial reconhecer a especificidade cultural das sociedades e evitar reduzi-las a padrões universais simplistas. A antropologia psicanalítica, nesse contexto, deve equilibrar o respeito pela diversidade cultural com a busca de princípios gerais do comportamento humano.

 

O futuro do diálogo interdisciplinar

Na medida que o mundo se torna cada vez mais interconectado, o diálogo entre a psicanálise e a antropologia social ganha nova relevância. As questões relacionadas à identidade, pertencimento e trauma coletivo exigem uma abordagem que integre dimensões individuais e culturais. Por exemplo, o estudo de comunidades afetadas por desastres naturais ou conflitos armados pode se beneficiar da perspectiva psicanalítica para compreender os traumas individuais e da antropologia social para analisar os mecanismos de resiliência cultural. Além disso, o avanço das tecnologias digitais levanta novas questões sobre como os sistemas simbólicos e inconscientes são moldados. O estudo das redes sociais, por exemplo, pode revelar padrões emergentes de interação simbólica e psicológica que desafiam tanto a psicanálise quanto a antropologia tradicional. A relação entre a psicanálise e a antropologia social é marcada por um diálogo complexo e produtivo. Ambas as disciplinas, ao explorar as profundezas do inconsciente e os sistemas simbólicos da cultura, oferecem insights complementares sobre o humano. Ao integrar suas perspectivas, esta intersecção convida para entender melhor como os desejos individuais e os significados coletivos se entrelaçam, moldando a existência humana. É nessa convergência de olhares que reside o potencial para novas descobertas e para uma compreensão mais rica da condição humana.

 


quarta-feira, 5 de março de 2025

EM QUE MOMENTO O SER HUMANO RECONHECEU A SUA CONSCIÊNCIA? AFINAL, ELE É CONSCIENTE?

 


TODO SER HUMANO É CONSCIENTE?

O ALVORECER DA CONSCIÊNCIA

COM A DESTRUIÇÃO DA MENTALIDADE BICAMERAL

O autor e psicólogo Julian Jaynes descreveu em seu livro "A Origem da Consciência e o Colapso da Mente Bicameral", que a mente humana era dividida em duas câmaras: uma com os instintos, onde o homem sabe que precisa realizar funções básicas para a sua sobrevivência, além de sua função na sociedade. Noutra, com uma "voz da consciência", que era interpretada como uma voz divina e não como um próprio "eu". Essa Mentalidade Bicameral sofreu um colapso quando o ser humano passou a se tornar consciente de si mesmo. A Mentalidade Bicameral é uma hipótese introduzida por Jaynes, que argumentou que os ancestrais humanos, até os antigos gregos, não consideravam as emoções e os desejos como decorrentes de suas próprias mentes, mas como consequências de ações de deuses externos a eles. Mas será que nós realmente somos conscientes? Será que a mente bicameral não existe mais?

Em O Oráculo da Noite, o neurocientista Sidarta Ribeiro faz uma alegação curiosa: ele diz que a importância cultural dos sonhos diminuiu com a popularização da escrita. Afinal, qual o significado disso? As religiões, por exemplo, sempre estiveram conectadas aos sonhos. A tradição budista e cristã diz que os nascimentos de Buda e de Jesus, respectivamente, foram anunciados em sonho. Anjos apareciam a Maomé em seus sonhos. No xamanismo, a conexão com o transcendental, a comunicação com ancestrais e divindades depende de estados alterados de consciência dos quais os sonhos são um exemplo.

A perspectiva de Sidarta nesse livro é que a escrita diminuiu a necessidade das experiências oníricas na espiritualidade. Isso porque a escrita permite o registro das experiências subjetivas. Quer dizer, se alguém sonho com uma divindade dizendo alguma coisa, é possível escrever o conteúdo da mensagem para que outras pessoas leiam, sem que elas mesmas tenham que ter de novo as mesmas experiências. O acesso à religião passa a ser pela leitura, então as mensagens dos sonhos ficam menos subjetivas e se tornam mais coletivas. Isso pavimentou o caminho para que a mensagem das religiões passasse a ser cada vez mais universalista e preocupada com a salvação pessoal. Ou seja, um elemento de pessoalidade continua a existir, mas ao mesmo tempo serve como projeto para a humanidade, algo como a lei de ouro “não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a você mesmo”.

Isso começa a ocorrer quando a escrita deixa de ser usada como mero registro contábil nas primeiras civilizações agrícolas e passa a ser uma reprodução mais fiel do cotidiano (a Era Axial, de 800 a.C. até 200 a.C). Não à toa, nesse período nascem várias das tradições filosóficas e religiosas mais conhecidas hoje. Por exemplo, “religiões do livro”, como Judaísmo, Hinduísmo e Budismo, tomam forma nesse período. O conhece a ti mesmo da filosofia socrática, que traz o ser humano para o centro das indagações filosóficas, também surge aí. Isso significa que, de algum modo, a utilização da escrita como um reflexo da oralidade modificou fundamentalmente a psicologia humana. Riscar materiais como argila, papiro ou papel para registrar e observar seus próprios pensamentos trouxe uma nova forma de consciência para a humanidade. É como se a escrita fosse um aplicativo instalado no cérebro humano, criando novas funções e aprimorando as existentes.

Essa influência da escrita sobre a consciência foi proposta no livro  “A Origem da Consciência com o Colapso da Mente Bicameral”, escrito pelo psicólogo Julian Jaynes. Ele argumenta que, antes desse uso oral da escrita, as pessoas tinham a mente dividida em duas câmaras. Uma câmara dá ordens e a outra câmara obedece. Isso é basicamente o que acontece quando as pessoas estão distraídas olhando pela janela do ônibus e um pensamento surge, algo como “Puxa, esqueci que hoje tenho um compromisso tal hora. que horas são agora?”, aí você pergunta a hora para a pessoa mais próxima sem pensar muito no que está fazendo. Isso acontece também na direção, quando o motorista experiente entra num estado de fluxo e só age, sem refletir muito, sem questionar pensamentos que por ventura brotem. Você não sabe o porquê nem como surgiu esse pensamento, só sabe que do nada ele apareceu como se tivesse sido soprado por alguém. Pois é exatamente isso que as pessoas há milênios achavam. Essas vozes alucinatórias eram os deuses falando com os humanos. Esses humanos eram inconscientes no mesmo sentido do motorista em fluxo. Você não é um robô, mas é como se a capacidade de questionar esse fluxo fosse menor e menos voluntária.

Vislumbres de consciência apareciam em momentos de estresse. Hoje ainda passamos por isso. Já reparou que no dia da prova da autoescola erramos procedimentos que nunca erramos nos treinos? Isso acontece porque sob estresse tendemos a não entrar em estado de flow nas tarefas. Ficamos hipervigilantes em relação a qualquer comportamento e isso dificulta a realização de certas tarefas. Uma voz alucinatória começa a narrar o que estamos fazendo, a dizer o que foi feito, o que será feito. Você está nervoso e pensa em cada movimento do volante, da marcha.

A diferença entre nós e pessoas pré-Era Axial é o gap entre as vozes alucinatórias e a tomada de decisão. Não havia muita reflexão antes de realizar um comportamento. Não havia introspecção. As pessoas só questionavam essas vozes e suas próprias ações nos momentos de estresse, quando esse fluxo automático das coisas se rompia. A capacidade de ouvir essas vozes internas e debater com elas racionalmente não nasce pronta nos humanos. Não é nata. Pesar prós e contras cuidadosamente e tomar decisões racionalmente é algo que se aprende. Pode-se dizer que o ser humano não nasce racional, mas torna-se.

Julian Jaynes argumenta que em obras como Ilíada as pessoas pareciam ter Mentalidade Bicameral. Por exemplo, Aquiles nunca pensava sobre si mesmo, nunca se engajava num processo de introspecção. Eram sempre os deuses instruindo sobre suas ações. Do mesmo jeito, no Antigo Testamento bíblico a voz de Javé ordenando coisas se parecia muito com um processo de tomada de decisão rudimentar. Por exemplo, Javé fala para Abraão sacrificar seu filho para provar sua fé. No meio do procedimento Javé diz que o fato de Abraão ter concordado com o sacrifício já era suficiente prova. Isso poderia muito bem ter sido o patriarca deliberando e tirando conclusões diferentes sobre o que significariam suas próprias atitudes. Mas essas vozes alucinatórias em sua cabeça não eram entendidas como pensamentos como as entendemos hoje. Era a voz divina.

A escrita possibilita essa habilidade de introspecção porque permite colocar as ideias num meio físico manipulável. O argumento é que assim como não é possível escrever um artigo de cabeça, sem escrever e estar o tempo todo alterando o que foi escrito, não é possível organizar seus próprios estados internos e questioná-los muito eficientemente. Não é que toda pessoa precise de um diário para ser capaz de pensar sobre o que ela mesma pensa. A ideia é que a criação da escrita como forma narrativa criou um trending cultural. A escrita fabricou a possibilidade cultural de um novo modo de ser humano. Você não precisa de um diário, mas só de viver numa cultura letrada você já aprende oralmente que você tem uma biografia, que pode controlar seus devaneios internos e transformá-los em reflexão racional. Simples assim!