
Foi o filósofo
Platão quem o propôs pela primeira vez, ao inventar (ou descobrir?) as ideias.
Ele propôs que nossos conteúdos mentais podem ser abstraídos e individuados das
mentes que os pensam. As ideias ou conteúdos mentais apenas ocorrem nas mentes,
tendo uma realidade independente. Os pensamentos podem ser abstraídos dos atos
de pensá-los, formando um verdadeiro mundo à parte. Pensar significa apenas
aceder a esse mundo, incorporar as ideias ou pensamentos aos nossos atos de
pensar, tomando-nos apenas veículos momentâneos desse mundo das ideias.
Perceberíamos a realidade independente desse mundo das ideias quando pensamos,
por exemplo, nas verdades da matemática e quando concebemos, por exemplo, que
“2 + 2 = 4”. A realidade de 2 + 2 = 4 ou de uma demonstração geométrica
qualquer seriam sempre verdadeiras independentemente de elas ocorrerem ou não
na minha mente. Uma verdade geométrica como, por exemplo, “a soma dos ângulos
de um triângulo será sempre 180 graus” independe não só de eu pensá-la aqui e
agora como também de qualquer triângulo ou exemplo de triângulo que possa
existir no mundo e que eu possa estar vendo na minha frente.
Isto levou
Platão a propor que o mundo das ideias é o único mundo verdadeiro, o mundo
imutável. O mundo que percebemos através dos nossos sentidos ou que pensamos
momentaneamente seria apenas uma cópia desse mundo verdadeiro. Com isto, Platão
dividiu a realidade em duas partes: a do mundo sensível e a do mundo
inteligível. Platão inaugurou a dualidade de realidades ou o dualismo
ontológico. Ao inventar o mundo das ideias espalhou a discórdia entre os
filósofos, que nunca mais chegaram a um consenso sobre o que existe ou não, se
o mundo é aquilo que vemos ou se existe algo para além daquilo que os nossos
sentidos nos mostram. Nem mesmo um consenso sobre quantas e quais ideias existiriam
nesse mundo jamais foi alcançado. Existiria apenas uma ideia para cada tipo de objeto
sensível, ou cópia dessa ideia, ou várias ideias correspondentes a várias
cópias desse objeto que poderiam estar no mundo sensível? E quando penso no
cavalo alado, terá ele uma existência real e independente nesse mundo das
ideias?
Essa foi a
primeira e a maior diafonia da história da filosofia; tudo o que se seguiu
depois foi uma tentativa de superá-la. Quando refletimos sobre o problema da
relação entre mente e cérebro podemos perceber como essa diafonia se manifesta.
Serão nossos pensamentos parte do mundo das ideias? Serão nossos cérebros
apenas veículo desses pensamentos, transmissores de algum tipo de versão sensível
desse mundo das ideias, produtores apenas de cópias manifestas dessa realidade independente?
Podemos dar um passo a mais e perguntar também se “mente” não seria uma ideia
no sentido platônico, ou seja, uma realidade única, imutável e eterna, da mesma
maneira que as verdades matemáticas e geométricas. Mas sobre isto os filósofos
discordaram. Alguns acharam que a ideia de “mente” não seria nada além de um
artifício da imaginação, como, por exemplo, o cavalo alado. Outros acharam que
mentes existiriam nesse mundo à parte, sem, contudo, conseguir explicar como
essas poderiam se relacionar com o mundo sensível.
Enfim, de uma
forma ou de outra, estava formada a diafonia, a cisão fundamental ou o problema
ontológico, do qual o problema da relação entre mente e cérebro seria apenas um
caso particular, embora de importância decisiva. Dualistas e monistas jamais
puderam se reconciliar e a história da filosofia da mente repete o longo
comentário e tentativa de reconciliação entre os dois mundos de Platão. Muitos
de nós somos platonistas sem o saber. O platonismo é uma espécie de filosofia espontânea
dos matemáticos e de engenheiros, que acreditam que a mente é uma
estrutura matemática abstrata que poderia ser reproduzida por um programa de computador.
A mente seria independente do cérebro, e, da mesma maneira que um teorema matemático
seria independente do cérebro de alguém que o descobriu, o programa de computador
seria independente do computador onde ele é executado. Esse programa de computador
seria portável, no sentido computacional do termo, ou seja, poderia ser transportado
e instalado em qualquer tipo de hardware. Instalaríamos mente e
consciência num computador da mesma maneira que nele instalamos através de um DVD
o Windows. Teríamos um ícone na tela, correspondendo, por exemplo, à
consciência. Clicamos o ícone e nosso computador adquire mente e consciência.
Nunca se
chegou a um consenso acerca de como e até que ponto gostaríamos de povoar nosso
universo, com mentes e cérebros ou apenas com cérebros. Nessa disputa
interminável, a estratégia do dualista foi sempre a de tentar encontrar uma
marca distintiva do mental, algo que nos levasse a acreditar que ele não apenas
é diferente, como também irreconciliável com o físico ou com o sensível e
observável. Seu desejo é o de encontrar uma assimetria fundamental entre mente
e cérebro, uma assimetria da qual se pudesse derivar a plausibilidade de
crenças religiosas na realidade e imortalidade das mentes ou almas. Disto
decorre uma adoção implícita, mas inevitável, de algum tipo de platonismo por
parte do dualista... um platonismo que serviria para fundamentar uma assimetria
entre mente e cérebro, como, por exemplo, o caráter eterno, indestrutível e
imutável que seria comum às mentes e às verdades matemáticas.
A proposta
desse tipo de assimetria não parece, entretanto, ter se revelado tão boa assim:
a física mostra que a matéria é tão indestrutível como o são as mentes. E a
história da ciência mostra que as verdades matemáticas não são tão imutáveis
quanto poderíamos supor. Em geometrias não euclidianas há triângulos cuja soma
dos ângulos não têm 180 graus. O monista caminha na direção contrária,
procurando desfazer as assimetrias e assimilar o mental ao físico. Sua proposta
e sua motivação coincidem com a ambição científica que caracteriza nosso
século. Apostamos no triunfo de uma ciência que dê conta de todos os fenômenos
que nos rodeiam; uma ciência que unifique a diversidade do mundo num único padrão
explicativo. Trata-se então de explicar cientificamente a natureza do mental,
ou, em outras palavras, explicar o mental em termos de fenômenos físicos ou
cerebrais.
Essas tentativas,
contudo, esbarram em grandes dificuldades e acabam revelando a existência de muito
mais assimetrias entre mente e cérebro do que se imaginava... inicialmente
assimetrias que ainda não podem ser explicadas pela ciência. Consideremos
novamente o neurocientista examinando o cérebro para tentar encontrar nesse algo
que se assemelhe a estados mentais. Hoje em dia dispomos de técnicas mais aperfeiçoadas
para realizar esse tipo de investigação. Contamos com vários recursos para produzir
imagens do cérebro em funcionamento ou mesmo para medir sua atividade elétrica.
Um deles é o eletroencefalograma ou EEG. Através do EEG podemos determinar,
durante o sono, quando alguém está sonhando, ou seja, quando alguém entra em
sono REM, pois, nesse caso, o eletroencefalograma se altera substancialmente.
A
dificuldade surge na medida em que, pelo exame do EEG, podemos saber que o
indivíduo está sonhando, mas não podemos saber com o que ele está sonhando. Da
mesma maneira, podemos, pelo exame da atividade química e glandular do corpo de
uma pessoa, saber se ela está tendo um ataque de fúria. Haverá mais adrenalina
no sangue dessa pessoa. Mas, da mesma forma, a detecção de uma maior quantidade
de adrenalina no corpo de uma pessoa permite-nos saber que ela está tendo um
ataque de fúria, mas não saber com o que ou com quem ela está enfurecida. Ora,
a questão que se coloca é a seguinte: será o exame da atividade física do corpo
ou do cérebro suficiente para determinar os conteúdos mentais que ocorrem nessa
pessoa? Ou haverá um hiato intransponível entre cérebro e estados subjetivos,
um hiato que se impõe pela incapacidade de se estabelecer um caminho entre os
sinais elétricos do cérebro, sua atividade química e aquilo que podemos
identificar como sendo nossos conteúdos mentais ou nossas ideias?
Não
dispomos de respostas para essas questões. A ciência ainda não conseguiu
resgatar esse hiato, que se alarga ainda mais quando supomos que esses eventos
mentais são experiências conscientes. O problema que se coloca é, então, não
apenas o de traçar algum tipo de correlação entre duas séries (a do físico e a
do mental), mas o de saber como a série de eventos físicos pode produzir o
aspecto específico desse tipo de experiência que a toma uma experiência
consciente. Em outras palavras: se há uma relação entre esses dois tipos de séries,
que tipo de relação será essa? Como passamos de um conjunto de propriedades
para outro, aparentemente tão distinto?
O que falta
é algum tipo de explicação que toma inteligível a passagem entre o físico e o
mental... uma inteligibilidade que requer mais do que simplesmente estabelecer
correlações. Que tipo de propriedade ou que tipo de circunstância leva a
matéria (o cérebro) a produzir consciência? Responder a essa questão parece ser
o grande desafio a ser enfrentado por aqueles que apostam no monismo ou na
possibilidade de que a ciência possa fornecer uma explicação definitiva da
natureza da mente e de suas relações com o cérebro. Trata-se de explicar como o
cérebro pode produzir fenômenos mentais subjetivos ou conscientes utilizando-se
das mesmas categorias explicativas que são usadas para explicar o funcionamento
de um sistema físico. Monismo, do grego μόνος mónos, "sozinho, único",
é aquilo que atribui unidade ou singularidade -em grego: μόνος - a um conceito,
por exemplo, à existência. Em geral, é o nome dado às teorias filosóficas que
defendem a unidade da realidade como um todo (em metafísica) ou a existência de
um único tipo de substância ontológica, como a identidade entre mente e corpo
(em filosofia da mente) por oposição ao dualismo ou ao pluralismo, à afirmação
de realidades separadas.
Que tipo de
interpretação física podem ter fenômenos como a subjetividade e a consciência? Serão
as leis naturais suficientes para capturar e explicar os aspectos específicos
que levam à produção da subjetividade e da consciência? Tomemos mais um
exemplo. Suponhamos novamente que um neurocientista observa o cérebro de alguém
e que ele queira identificar os estados mentais dessa pessoa com a atividade exibida
pelo seu cérebro, da mesma maneira que um químico identifica água com H2O. Esse
tipo de identificação é frequentemente buscada pela investigação científica
pois supõe-se que através dela se possa chegar a algum tipo de explicação da
natureza de um determinado fenômeno por exemplo, uma explicação do que é a
água. O neurocientista estaria procurando uma explicação do que são estados
mentais através de uma identificação desses com estados cerebrais, uma
identificação entre os dois modos de apresentação ou as duas descrições possíveis
de um mesmo fenômeno. Digamos que, após algumas investigações, ele conclua que o
estado mental correspondente a sentir que uma determinada dor ocorre sempre que
determinadas fibras do sistema nervoso forem estimuladas. Ora, será que podemos
afirmar que “estimular as fibras” significa explicar o que é sentir uma
determinada dor? Até que ponto a descrição de uma dor como “estimulação das
fibras” realmente expressa os aspectos subjetivos e conscientes envolvidos em
sentir uma determinada dor? Ou, em outras palavras, será que a descrição
“estimular as fibras” poderia expressar o que significa sentir uma determinada dor?
O obstáculo
que o neurocientista enfrenta é a transposição de uma descrição em terceira pessoa
(estimulação das fibras) para uma descrição em primeira pessoa, onde se expressam
estados subjetivos e experiências conscientes. Esse é o problema da
interpretação física de fenômenos que envolvem subjetividade e consciência. Trata-se
de um problema que sugere que esses fenômenos nunca poderiam ser integralmente
descritos ou reduzidos aos termos de uma linguagem científica. A relação entre
o mental e o físico não seria capturada por uma linguagem construída
exclusivamente em terceira pessoa e descrevendo unicamente eventos públicos,
como é o caso da linguagem da ciência. Uma linguagem onde a conexão entre
estados mentais e estados cerebrais não nos permite aproximá-los ao ponto de
podermos dizer, por exemplo, que sentir uma determinada dor e estimular as
fibras são a mesma coisa, da mesma maneira que água e H2O o são.
Entender
essa relação e poder expressá-la na linguagem da ciência seria uma tarefa importantíssima,
uma tarefa que ultrapassa, em importância, a pura e simples escolha de uma imagem
do mundo por contraposição a outra. Precisaríamos saber não apenas como de cérebros
podem emergir mentes, mas como essas últimas podem, reciprocamente, alterar o cérebro
e o corpo. Sabemos que a ordem física dos eventos cerebrais altera estados
mentais. Como dissemos há pouco, esse é um conhecimento intuitivo, que temos
quando tomamos bebidas alcoólicas e drogas que alteram o equilíbrio químico das
reações entre as diversas partes do cérebro. Mas não sabemos como, a partir de
sinais elétricos, passamos aos pensamentos. Não sabemos tampouco como esses
podem alterar os próprios sinais elétricos do cérebro e influenciar nosso corpo
a ponto até de gerarmos vários tipos de doenças ou disfunções orgânicas.
Novamente o
problema que se coloca é nossa incapacidade não apenas de descobrir, mas talvez
de conceber como se dá a passagem entre o mental e o cerebral, entre o físico e
o subjetivo. Além daqueles que apostam na ciência e no triunfo futuro do
monismo e daqueles que apostam no dualismo, seja abraçando algum tipo de crença
religiosa ou não, podemos identificar um terceiro grupo nesse debate: os que
supõem que o problema da relação mente-cérebro não pode ser resolvido; os
chamados “agnósticos”. Assim como na matemática há vários problemas cuja
solução é impossível, o mesmo ocorreria com o problema das relações entre mente
e cérebro. Os agnósticos partem da ideia de que o problema da interpretação
física dos fenômenos subjetivos e conscientes seria agravado pelo fato de nossa
vida mental não nos permitir acesso senão aos conteúdos mentais que a compõem,
ou seja, que nosso pensamento nunca poderia nos fornecer alguma pista acerca
dos processos cerebrais que estão envolvidos na sua própria produção.
Seria pouco
provável que algum dia essa condição pudesse ser alterada: a perspectiva que
podemos ter do mundo nos confina ao nosso próprio universo mental. Para o
agnóstico, uma imagem do meu próprio cérebro em funcionamento como aquelas obtidas
por ressonância magnética altamente sofisticada ou por qualquer outra técnica
de neuroimagem apresenta-se tão estranha a mim quanto uma radiografia de meu
pulmão. Eu só saberia que aquela é uma imagem do meu próprio cérebro em
funcionamento ou que aquela é uma radiografia de meu pulmão se alguém me
fornecesse essa informação (a princípio). Eventos neurais, ou seja, a
interpretação física de fenômenos mentais não participa de nossas experiências
subjetivas; podemos no máximo traçar algumas correlações, mas essas não explicam
a passagem entre o físico e o subjetivo. Imagine uma situação experimental onde
eu sou convidado junto com várias outras pessoas a pensar sobre uma mesma
coisa, ou seja, produzir conteúdos mentais semelhantes. Imagine também que,
simultaneamente, alguém esteja produzindo imagens desses vários cérebros em funcionamento
que, por hipótese, mostrariam em todos esses cérebros um mesmo conjunto de
áreas sendo estimuladas.
Todos
veríamos simultaneamente essas imagens projetadas numa tela diante de nós sem
saber, contudo, qual imagem corresponde ao cérebro de quem, ou seja, as imagens
não seriam numeradas nem posicionadas de forma a dar esse tipo de pista. E
todas as imagens seriam praticamente iguais, mostrando um cérebro com algumas regiões
semelhantes em atividade. Seria eu capaz de dizer qual dessas imagens
corresponde à do meu cérebro, ou seja, seria eu capaz de relacionar meu
pensamento com a imagem de minha atividade cerebral a não ser que alguém me
informasse que aquela era a imagem do meu cérebro? A imagem do meu cérebro é
tão estranha quanto a imagem do meu fígado; só sei que aquela é a imagem de meu
fígado se alguém me disser isso ou se eu estiver numa máquina de ultrassom
sabendo, de antemão, que as imagens que aparecem na tela são do meu fígado.
Esse experimento
com imagens de vários cérebros projetadas simultaneamente numa mesma tela que,
talvez por razões práticas, nunca pudesse vir a ser realizado ilustraria a
pressuposição do agnóstico, qual seja, a de que jamais poderíamos encontrar uma
passagem entre sinal cerebral e experiência consciente. Seria mais uma versão
daquilo que os filósofos chamaram de problema da intransponibilidade entre
primeira e terceira pessoa e que expressaria toda a dificuldade envolvida no
problema da relação entre mente e cérebro. O desânimo do agnóstico
implicitamente nos convida a abandonar o monismo e optar pelo dualismo. Dualismo
é uma concepção filosófica ou teológica do mundo baseada na presença de dois
princípios ou duas substâncias ou duas realidades opostas, irredutíveis entre
si e incapazes de uma síntese final ou de recíproca subordinação. É dualista
por excelência qualquer explicação metafísica do universo que suponha a
existência de dois princípios ou realidades não subordináveis e irredutíveis
entre si.
Essa é uma
visão radicalmente oposta àquela sugerida pela neurociência. Para o dualista, a
mente é imaterial, com propriedades distintas e incompatíveis com o mundo
físico. Será que podemos sequer imaginar o que seria algo imaterial? Certamente
só poderíamos conferir uma caracterização negativa para esse conceito, ou seja,
só poderíamos definir algo imaterial por oposição às propriedades da matéria,
ou seja, dizendo o que essa substância imaterial não é. Dizendo que ela não tem
localização espacial, não tem peso, não tem massa ... Eis aqui um belo
exercício filosófico para desafiar nossa imaginação. Aparentemente, o dualista
não precisaria se preocupar com o problema da interpretação física dos
fenômenos subjetivos e conscientes. Pois ele não busca saber como poderíamos caracterizar
esse tipo de fenômenos a partir das descrições em terceira pessoa, utilizadas
pela linguagem científica: seu ponto de partida é considerar subjetividade e
consciência como distintos e irredutíveis a qualquer tipo de base física.
Contudo, o problema da relação entre o mental e o físico persiste, embora de
uma maneira diferente.
A maior
dificuldade enfrentada pelo dualismo é saber como algum tipo de relação entre
mente e cérebro pode ocorrer: como conceber que algo imaterial possa, de alguma
maneira, afetar coisas materiais como o cérebro? Nesse sentido, a única
diferença entre monismo e dualismo seria uma inversão na direção da
investigação. O primeiro teria de dar conta de como a partir do mundo material pode
surgir subjetividade e consciência; ao segundo caberia mostrar como
subjetividade e consciência poderiam afetar o mundo material. Esta última
questão não é menos importante e nem fácil de responder, sobretudo quando se considera
o papel de intenções, crenças e desejos, ou seja, estados mentais na sua
relação com o comportamento. Se esses estados mentais são imateriais, como
poderiam afetar o curso de nossos comportamentos? Não parece intuitivo que
nossos comportamentos sejam, de alguma forma, causados ou guiados por nossas
intenções ou desejos? Mas, nesse caso, como algo imaterial pode afetar nosso
corpo? Como minha intenção ou meu desejo de levantar e ir abrir a porta poderia
causar algo no mundo físico como, por exemplo, meus movimentos musculares? Ou
teremos que acreditar que nossos comportamentos não são causados por nossas
intenções e desejos? Teríamos então de abrir mão da noção intuitiva de que
nossos comportamentos resultam de estados da minha mente e com ela mantém algum
tipo de relação causal? Ou buscar uma outra maneira de conceber a própria
relação de causalidade? Não seria mais prudente abandonar o dualismo? Há ainda
outras dificuldades que precisam ser enfrentadas pelo dualista: se a mente é imaterial
e totalmente independente do cérebro, como explicar que danos causados a este último
possam também afetar atividades mentais? E, se a mente é imaterial e
independente do cérebro, por que temos então um cérebro tão complexo comparado
com o de outros seres vivos?
O dualismo
é visto pelos filósofos contemporâneos da mente como uma doutrina metafísica extravagante,
uma doutrina que dificilmente poderia ser coerentemente sustentada. Mas talvez
o aspecto mais problemático do dualismo seja o fato de ele ser uma filosofia
sem agenda. Ou seja, tudo que o dualista pode fazer é tentar provar a
existência de uma diferença radical entre mente e matéria. Daí para diante nada
mais poderia ser feito. A ideia de algo imaterial só pode ser caracterizada
negativamente, por oposição às propriedades do mundo material: nada poderia ser
afirmado acerca da natureza do mental além do fato de ele ser distinto do
físico. Nunca uma ciência do mental poderia ser desenvolvida, pois a mente não
teria nenhuma característica que permitisse qualquer tipo de abordagem
científica. Ora, haverá alternativas ao monismo e ao dualismo sem que essas
signifiquem desistir de tomar uma posição como faz o agnóstico? Ou serão essas
as duas únicas alternativas possíveis para tentarmos resolver o problema
mente-cérebro?
Antes de
tentarmos responder essas duas questões precisamos caracterizar o tipo de
problema com que nos defrontamos quando consideramos a relação entre mente e
cérebro e saber por que ele tem persistido ao longo da história da filosofia e
da história da ciência. Acreditamos ser organismos complexos e que nossas
funções mentais se devem a essa complexidade. Ou seja, somos educados de acordo
com uma tradição científica que sempre esteve presente na nossa cultura. Ao
mesmo tempo recebemos uma educação religiosa, que nos ensina sermos dotados de
espíritos que sobreviverão após nossa morte. Como se não bastassem essas
contradições, somos ainda educados a usar dois tipos de vocabulário: um vocabulário
físico e um vocabulário mental. Referimo-nos a eventos físicos usando um tipo
de vocabulário; para os eventos mentais desenvolvemos um vocabulário
específico, que sugere, implicitamente, que o físico e o mental são distintos.
Só esses dois fatores já seriam suficientes para percebermos por que a relação
entre mente e cérebro teria, necessariamente, de se apresentar como um problema.
Defrontamo-nos, na verdade, com duas crenças contraditórias, mas nenhuma delas
pode ser considerada ingênua. Por um lado, somos levados a crer no monismo e na
aposta de que o problema mente-cérebro é um problema científico, ou seja, um
problema empírico que poderia ser resolvido, algum dia, através de alguma
descoberta científica da mesma maneira que se descobriu, por exemplo, a cura
das infecções através da penicilina.
A
característica básica dos problemas científicos consiste no fato de que eles
podem ser resolvidos através da observação e da experimentação. Essa estratégia
pode rapidamente se defrontar com várias limitações. É possível que, por mais
que a neurociência avance, isto é, por mais que ela nos proporcione dados
empíricos ou resultados experimentais, esses se limitem a ser sempre
informações apenas acerca do funcionamento do cérebro. O problema que pode
permanecer seria saber como poderíamos relacionar todos esses dados e
observações com os aspectos subjetivos presentes na nossa vida mental. É
possível que nenhum dado em si possa nos ajudar a passar de uma perspectiva de
terceira pessoa para uma de primeira pessoa. Mesmo que esse dado venha a
surgir, sempre poderá existir algum tipo de discussão envolvendo sua
interpretação. Ao incluirmos a necessidade de uma interpretação específica já
nos afastamos da proposta de que algum tipo de dado poderia, por si só,
resolver o problema da relação mente-cérebro. Contudo, o problema da
interpretação e o problema da passagem da terceira para a primeira pessoa não
parecem ter sido suficientes para abandonarmos nossa aposta no triunfo do
monismo e na explicação neurocientífica da natureza dos fenômenos mentais.
Prova disto
é o fato de que a pesquisa neurocientífica continua se desenvolvendo cada vez
mais na sua busca pelos correlatos neurais da consciência e da experiência
subjetiva. Adotar uma perspectiva oposta ao monismo significaria acreditar no
que dizem os dualistas e os agnósticos. Vimos que essas duas posições, embora
distintas, tendem a se confundir, pois nossa tendência é interpretar o discurso
do agnóstico como sendo um discurso pela impossibilidade de solução do problema
mente-cérebro. Desistir de resolver um problema, ou concluir que a ciência não
pode resolver o problema mente-cérebro, não implica, porém, em optar pela
solução contrária. É possível ser agnóstico sem ser dualista. Quando um
matemático conclui que um determinado problema não tem solução ou que sua
solução é impossível ele não está necessariamente sugerindo que devemos jogar
fora o conhecimento matemático. O difícil, porém, é ser dualista sem abraçar,
simultaneamente algum tipo de concepção religiosa: embora uma coisa não
implique necessariamente na outra; a nossa tradição cultural sugere esse tipo
de aliança. O monista conta com dados, observações e métodos experimentais
consagrados. O dualista conta apenas com argumentos filosóficos e crenças
religiosas.
Vista dessa
perspectiva, nossa escolha por uma doutrina em favor de outra já estaria feita.
Restaria apenas aguardar que a ciência se desenvolvesse e culminasse com uma
solução definitiva para o problema mente-cérebro. O monista não conta com a
possibilidade de que isto possa não acontecer ou que a própria ciência possa
concluir que a solução desse problema seja impossível. O monismo tem sido uma
grande aposta no futuro da ciência. Uma aposta que, aliás, já dura alguns
séculos. O monista acredita no sucesso futuro da ciência da mesma maneira que
os dualistas (na sua maioria) acreditam na religião: ambos fazem discursos
opostos, nos quais, entretanto, se expressa algum tipo de crença. Faz parte da
crença do monista acreditar que não existem problemas para os quais a ciência
não possa oferecer uma solução. Acreditar na existência desse tipo de problema
não significa, aliás, como sugere o monista, assumir necessariamente uma
postura anticientífica. Não podemos esperar que a ciência responda, por
exemplo, questões do seguinte tipo: “Quais os princípios que devem reger uma
sociedade para que essa seja justa?” Tal questão não poderia ser respondida
unicamente com base em dados de observação ou em experimentos. Isto não a torna
uma falsa questão nem tampouco uma questão irrelevante.
Trata-se de
uma questão de outra natureza, ou seja, aquilo que chamamos de uma questão
conceitual. Questões conceituais dizem respeito ao modo como concebemos o mundo
e como podemos tornar essas concepções coerentes e adequadas. Reconhecer a
existência de questões conceituais não significa desprezar a investigação
científica nem os dados que podem se originar. Significa apenas reconhecer que
dados e experimentos podem não ser suficientes para resolver certas categorias
de problemas. A ilusão do monista consiste em achar que a ciência poderia
resolver todos os problemas, inclusive os conceituais. Ao assumir essa
perspectiva, ele se esquece de que ao fazer ciência ele está, necessariamente,
envolvendo-se com questões conceituais. É ingênuo supor que podemos separar a
produção da ciência de questões conceituais, embora muitas vezes o ensino de
ciências que recebemos na escola nos dê a impressão de que isto seria possível.
Questões
conceituais perpassam a própria prática da ciência e compõem os pressupostos sobre
os quais essa se baseia. Basta pensar nos conceitos que são implicitamente
mobilizados pelo discurso científico, como, por exemplo, teoria, explicação,
confirmação, teste empírico e assim por diante. Usar a ciência para explicar a
natureza dos conceitos sobre os quais ela mesma se assenta equivaleria a correr
o risco de incorrer num círculo vicioso: dificilmente chegaríamos a algum lugar.
O mesmo poderíamos afirmar das tentativas de resolver o problema das relações
entre mente e cérebro na qualidade de um problema unicamente científico ou
empírico: pois a mente que se quer explicar é a mesma que produz a ciência
usada para explicá-la. Estaríamos girando em círculos. Os dualistas e os
agnósticos correm, entretanto, o risco inverso. Eles supõem ser possível discutir
e até chegar a uma solução para o problema da relação entre mente e cérebro sem
sair de sua poltrona, isto é, virando as costas para a ciência e para qualquer
tipo de resultado empírico que possa surgir. Eles parecem se esquecer de que a
filosofia começa onde a ciência acaba, ou seja, que os problemas conceituais
adquirem sentido e consistência por se situarem no limiar da investigação
científica. Isto é o que vem ocorrendo, por exemplo, com a física a partir do
século XX que passou a se confrontar com questões do tipo “será o universo determinista
ou não?” ou “podemos ter uma imagem estritamente objetiva do mundo físico?” e assim
por diante. Questões do tipo “qual a natureza da mente?” ou “como é possível a
relação entre mente e cérebro?” surgem no limiar da neurociência. Avaliar sua
verdadeira amplitude e espessura não poderia ser feito se ignorássemos o que a
ciência tem a dizer acerca da mente, do cérebro e de sua relação. Portanto...esse
debate ainda vai longe, muito longe...