quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

ENTRE MÁSCARAS, JULGAMENTOS E A ILUSÃO DA AUTENTICIDADE - JULGAMENTO DA MENTE CRIATIVA

A PERFORMANCE DO SER

Por Heitor Jorge Lau

            Existe uma dança silenciosa e quase imperceptível que se desenrola a cada encontro humano, uma coreografia invisível onde julgamentos são lançados antes mesmo que qualquer palavra seja proferida. O ser humano, esse animal social por excelência, carrega consigo um aparato cognitivo que o impele a categorizar, avaliar e julgar tudo aquilo que seus sentidos captam, especialmente quando o objeto dessa avaliação é outro ser humano. Essa tendência profundamente enraizada na arquitetura mental humana transforma cada interação social em um teatro complexo, onde atores interpretam papéis que não necessariamente correspondem à essência daquilo que realmente são, enquanto a plateia, por sua vez, assiste e julga performances baseando-se em fragmentos de informação, aparências superficiais e narrativas de terceiros que muitas vezes são tão distorcidas quanto as próprias atuações que pretendem descrever. A questão central que se apresenta aqui não é meramente sociológica ou comportamental, mas toca nas camadas mais profundas da experiência humana: como é possível conhecer verdadeiramente alguém se constantemente se julga com base em aparências, e se aquele que é julgado permanentemente adapta sua apresentação conforme o ambiente? O ser humano está diante de um paradoxo existencial onde autenticidade e performance se confundem de tal maneira que talvez nem mesmo o próprio indivíduo saiba distinguir onde termina sua essência e onde começam as máscaras que habitualmente veste.

            Para compreender essa dinâmica, faz-se necessário primeiramente investigar as raízes neurobiológicas dessa tendência humana ao julgamento imediato. O cérebro humano evoluiu ao longo de milhões de anos em ambientes onde decisões rápidas frequentemente significavam a diferença entre sobrevivência e morte. Os ancestrais precisavam avaliar instantaneamente se um estranho representava ameaça ou oportunidade, se poderia ser um aliado confiável ou um rival perigoso. Essa pressão evolutiva moldou circuitos neurais especializados em processamento rápido de informações sociais, particularmente localizados na amígdala, uma estrutura cerebral em forma de amêndoa situada profundamente no lobo temporal, responsável pelo processamento de emoções, especialmente o medo, e por respostas automáticas a estímulos potencialmente relevantes para a sobrevivência. Estudos em neurociência social demonstram que a amígdala se ativa em milésimos de segundo diante de um rosto desconhecido, processando características faciais e gerando avaliações preliminares de confiabilidade, ameaça e intenção antes mesmo que se tenha a consciência deliberada desses julgamentos. Esse processamento ocorre através do que os neurocientistas chamam de via neural rápida, um atalho evolutivo que permite respostas emocionais instantâneas sem o envolvimento dos centros cerebrais superiores responsáveis pelo pensamento reflexivo e análise complexa. Paralelamente, o córtex pré-frontal, região localizada na parte frontal do cérebro e responsável por funções executivas como planejamento, tomada de decisão consciente e controle de impulsos, tenta modular essas reações automáticas, mas frequentemente chega atrasado a essa “festa” neural, tentando racionalizar julgamentos que já foram formados subconscientemente.

            Essa arquitetura cerebral explica por que os primeiros julgamentos sobre as pessoas são tão rápidos, viscerais e difíceis de modificar posteriormente. O psicólogo Daniel Kahneman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2002 por seu trabalho sobre tomada de decisão humana, descreveu esse fenômeno através de sua teoria dos dois sistemas de pensamento. O Sistema 1, rápido, automático e intuitivo, domina as primeiras impressões sociais, enquanto o Sistema 2, lento, deliberativo e lógico, raramente consegue revisar completamente os vereditos já pronunciados pelo seu companheiro mais ágil. Essa dinâmica neural cria o que psicólogos sociais denominam viés de confirmação, a tendência de buscar, interpretar e recordar informações de maneira a confirmar as crenças preexistentes, fazendo com que as primeiras impressões se autorreforcem mesmo diante de evidências contrárias. Mas a questão se aprofunda quando o ser humano considera não apenas o julgamento baseado na aparência física direta, mas aquele alimentado por narrativas de terceiros. Quando se ouve alguém falar sobre outra pessoa, o ouvinte não está recebendo informação neutra e objetiva, mas sim uma construção narrativa filtrada pelas percepções, preconceitos, emoções e interesses de quem narra. Essa pessoa, por sua vez, provavelmente encontrou apenas uma das muitas personas que o indivíduo criticado apresenta conforme o contexto. Portanto, se está julgando uma sombra de uma sombra, uma representação de uma representação, construindo na mente uma imagem fantasmagórica que tem pouca ou nenhuma correspondência com a totalidade complexa e multifacetada daquele ser humano real.

            Aqui ressoam ecos da alegoria da caverna de Platão, filósofo grego que viveu entre 428 e 348 a.C. e fundou a Academia de Atenas, considerado um dos pensadores mais influentes da história ocidental. Em sua alegoria, Platão descreve prisioneiros acorrentados desde a infância em uma caverna, capazes apenas de ver sombras projetadas na parede à sua frente, reflexos de objetos e pessoas que passam diante de uma fogueira às suas costas. Esses prisioneiros tomam as sombras como a realidade em si, incapazes de perceber que aquilo que veem são apenas representações imperfeitas de uma realidade mais profunda e verdadeira. A tendência de julgar pessoas com base em aparências e comentários alheios coloca a maioria das pessoas em posição análoga: observa-se apenas sombras comportamentais, fragmentos de apresentações contextualizadas, conduzindo a uma crença de estar conhecendo a pessoa em sua totalidade. A questão se complexifica ainda mais quando se analisa o outro lado dessa dinâmica: a multiplicação de personas que cada indivíduo desenvolve e apresenta conforme o ambiente social. Carl Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço que viveu entre 1875 e 1961 e fundou a psicologia analítica, desenvolveu extensamente o conceito de persona, termo derivado do latim que originalmente designava as máscaras usadas por atores no teatro romano. Para Jung, a persona é a interface entre o indivíduo e o mundo social, uma máscara psicológica constituída para atender às expectativas sociais e proteger a vulnerabilidade interior. Não se trata necessariamente de falsidade ou hipocrisia, mas de um mecanismo psicológico adaptativo que permite a navegação nos diversos contextos sociais.

            O problema surge quando a multiplicação dessas personas se torna tão extensa e fragmentada que o próprio indivíduo perde contato com aquilo que Jung chamaria de Self, o centro integrador da psique que representa a totalidade psicológica autêntica. Quando alguém é uma pessoa no trabalho, outra em casa, outra ainda com amigos, outra nas redes sociais e outra em ambientes religiosos ou políticos, eventualmente ela pode se deparar com uma pergunta inquietante: quem sou eu realmente quando ninguém está olhando? Ou ainda mais perturbador: existe um eu autêntico por trás dessas máscaras, ou sou apenas a soma dessas performances contextuais? Erving Goffman, sociólogo canadense que viveu entre 1922 e 1982 e é considerado um dos mais influentes estudiosos da interação social, desenvolveu a Teoria da Representação do EU na Vida Cotidiana, comparando a vida social a uma peça teatral onde os indivíduos são simultaneamente atores e diretores. Segundo Goffman, as interações sociais ocorrem em regiões de fachada, onde se performa para uma audiência... e regiões de bastidores, onde é possível relaxar as performances. Cada situação social demanda uma apresentação específica do Self, com figurinos apropriados, diálogos ensaiados e gestos calculados para produzir determinadas impressões nos observadores.

            A relevância da análise de Goffman reside em demonstrar que essa teatralidade não é exceção, mas regra fundamental da vida social. Não são apenas alguns indivíduos manipuladores que performam papéis, todos constantemente gerenciam impressões, adaptam comportamentos e apresentam versões editadas de si mesmo. A questão não é de performance, mas o grau de consciência e a extensão dessa performance. Existem pessoas que mantêm alguma coerência entre suas várias personas, preservando valores e características fundamentais através dos diferentes contextos, enquanto outras se fragmentam tão completamente que cada ambiente evoca um personagem quase inteiramente diferente. Essa fragmentação encontra terreno fértil na sociedade contemporânea, especialmente com o advento das redes sociais e da hiperconectividade digital. Plataformas como Instagram, Facebook, TikTok e LinkedIn não apenas permitem, mas ativamente incentivam a gestão cuidadosa de identidades públicas. Cada postagem é um ato deliberado de construção de imagem, cada fotografia um elemento de narrativa pessoal cuidadosamente elaborada. O perfil digital se torna uma persona adicional, frequentemente a mais elaborada e menos autêntica de todas, uma versão idealizada e estrategicamente editada do EU que busca maximizar aprovação social através de métricas quantificáveis como curtidas, comentários e compartilhamentos.

            Simultaneamente, essas mesmas plataformas amplificam exponencialmente a capacidade humana de julgar outros com base em informações superficiais e comentários de terceiros. Opiniões são construídas sobre pessoas desconhecidas apenas por perfis fragmentados, interpretação de fotografias cuidadosamente selecionadas como se fossem janelas transparentes para a “alma” alheia. Mais grave ainda, ocorre a participação em rituais coletivos de julgamento e condenação, onde narrativas simplificadas sobre indivíduos se espalham viralmente, criando consensos públicos sobre o caráter de pessoas que a maioria dos julgadores nunca encontrou e sobre cujas vidas reais possuem conhecimento praticamente nulo. A psicologia social identifica esse fenômeno como parte do erro fundamental de atribuição, a tendência sistemática de atribuir comportamentos alheios a características pessoais internas, ignorando fatores situacionais e contextuais. Quando alguém age de maneira contrária às crenças pessoais, rapidamente a conclusão é de que isso revela algo fundamental sobre seu caráter, desconsiderando as pressões situacionais, estados emocionais momentâneos ou circunstâncias particulares que podem ter influenciado aquele comportamento específico. Ironicamente, quando um indivíduo age de forma problemática, prontamente atribui o comportamento a fatores externos e circunstâncias atenuantes. Esse duplo padrão revela algo inquietante sobre a natureza humana: cada indivíduo é, simultaneamente, rigoroso juiz dos outros e advogado indulgente dele mesmo. Essa assimetria perceptual não é acidental, mas resulta de uma diferença fundamental em perspectiva. Cada pessoa conhece suas próprias intenções, conflitos internos, dilemas morais e pressões contextuais porque as vivenciam diretamente. Cada um conhece a complexidade narrativa de sua vida. Dos outros, a percepção são apenas comportamentos externos, fragmentos comportamentais descontextualizados interpretados através de lentes perceptuais próprias, carregadas de preconceitos, projeções e experiências passadas.

            O filósofo francês Jean-Paul Sartre, que viveu entre 1905 e 1980 e foi figura central do existencialismo, um movimento filosófico que enfatiza a liberdade individual, a responsabilidade pessoal e a criação de significado em um universo sem propósito intrínseco, explorou profundamente essa dinâmica através de seu conceito do olhar do Outro. Para Sartre, a presença de outro ser humano fundamentalmente transforma a experiência individual de cada pessoa. Sob o olhar alheio, os indivíduos se tornam objetos, coisas a serem julgadas e categorizadas, perdendo momentaneamente a experiência subjetiva de liberdade e fluidez. Esse olhar objetificante congela a todos em uma identidade específica, uma essência que o outro nos atribui e que pode ou não corresponder à própria autocompreensão. Mais perturbador ainda, Sartre argumentava que frequentemente o ser humano internaliza esses olhares externos, incorporando os julgamentos alheios em sua própria autoconcepção. Cada indivíduo começa a se perceber através dos olhos dos outros, julgando a si com os mesmos critérios superficiais e frequentemente injustos usados para julgar os demais. Essa internalização do olhar externo pode se tornar fonte de profunda alienação, ocasionando a perda de contato com a própria experiência subjetiva autêntica. Ao final, cada pessoa passa a habitar permanentemente o espaço da performance, representando não para os outros, mas para si mesmo através do imaginar como os outros o percebem.

            A Neurofenomenologia, campo interdisciplinar que busca integrar estudos neurológicos com análises filosóficas da experiência consciente, oferece insights fascinantes sobre essa dinâmica. Pesquisas sobre os neurônios-espelho células nervosas que se ativam tanto quando se executa uma ação quanto quando se observa outros executando a mesma ação, descobertos inicialmente pelo neurocientista italiano Giacomo Rizzolatti na década de 1990, sugerem a existência de sistemas neurais dedicados a simular internamente os estados mentais alheios. Essa capacidade de simulação é fundamental para empatia, compreensão social e coordenação interpessoal. Entretanto, essa mesma capacidade pode alimentar julgamentos precipitados. Quando se observa alguém, automaticamente ocorre a simulação dos sentimentos e pensamentos que se teria caso aquela ação fosse executada por si mesmo naquele contexto. O problema é que frequentemente não existe informação suficiente sobre o contexto real, os estados internos e as motivações da outra pessoa, de modo que as simulações refletem mais os próprios padrões mentais que a realidade alheia. Portanto, o julgamento sobre os outros ocorre como se fossem versões de si mesmo em situações similares, desconsiderando as diferenças profundas em história pessoal, temperamento, valores e circunstâncias que tornam cada indivíduo único.

            Diante desse panorama complexo, surge uma questão: existe saída para esse labirinto de julgamentos e performances? É possível algum grau de autenticidade em meio a essa teatralidade social inevitável? A resposta, talvez, não resida em abolir completamente as personas ou cessar qualquer forma de julgamento, ambos provavelmente impossíveis dada a configuração psicológica e neural humana, mas em desenvolver consciência crítica sobre esses processos e cultivar o que se poderia chamar de humildade epistêmica, o reconhecimento dos limites fundamentais do conhecimento sobre os outros e sobre si. A prática contemplativa budista, com seus dois mil e quinhentos anos de investigação sobre a natureza da mente e do Self, oferece ferramentas valiosas nesse sentido. A meditação Mindfulness, ou atenção plena, treina a capacidade de observar os próprios processos mentais, incluindo a formação de julgamentos, sem identificação imediata com eles ou ação baseada neles. Ao desenvolver a habilidade de notar "estou julgando essa pessoa" sem necessariamente acreditar que esse julgamento representa verdade objetiva, um espaço mental é criado para questionamento e revisão. Simultaneamente, tradições contemplativas orientais enfatizam a natureza fundamentalmente vazia ou construída do próprio senso de Self. A experiência meditativa profunda pode revelar que o "EU" não é uma entidade fixa e unitária, mas um processo dinâmico e fluido, uma narrativa constantemente reconstruída momento a momento. Se não existe um Self fixo em cada indivíduo, certamente não é possível presumir conhecer o Self fixo dos outros. Essa percepção, longe de conduzir ao niilismo ou relativismo absoluto, pode cultivar compaixão genuína baseada no reconhecimento de que todos navegam essa complexidade existencial, todos usam máscaras porque a vulnerabilidade completa seria insuportável, todos julgam porque os cérebros foram moldados para fazê-lo.

            A autenticidade, nessa perspectiva, não significa apresentar um Self verdadeiro e imutável que existe independentemente do contexto, mas sim desenvolver congruência entre os valores internos e as expressões externas, manter integridade entre as diversas personas que se habita, reconhecer conscientemente quando e por que se está performando determinado papel. Trata-se menos de eliminar as máscaras do que de saber que se está usando-as; compreender por que foram escolhidas e mantê-las suficientemente permeáveis para que algo genuíno possa transpirar através delas. Quanto aos julgamentos que inevitavelmente são constituídos sobre os outros, a sabedoria talvez resida em mantê-los perpetuamente provisórios, reconhecendo-os como hipóteses de trabalho sempre sujeitas a revisão, nunca como vereditos definitivos. Cada pessoa que se conhece carrega multitudes, carrega histórias desconhecidas, enfrenta batalhas invisíveis, apresenta diferentes faces conforme o contexto não por duplicidade necessária, mas por complexidade humana inerente. O indivíduo julgado com base em fragmentos de informação é sempre mais do que se consegue perceber, e a avaliação diz frequentemente mais sobre as próprias lentes perceptuais que sobre a realidade que se pretende capturar. Enfim, o ser humano vive em um teatro sem fim, onde todos simultaneamente atuam e assistem, julgam e são julgados, performam autenticidade e autenticamente performam. A consciência crítica dessa condição não libertará o ser humano completamente dela, porque está tecida na própria estrutura de cognição social e existência intersubjetiva. Mas pode gerar atores e espectadores mais compassivos, menos apressados nos julgamentos, mais generosos nas interpretações, mais humildes sobre as limitações do conhecimento sobre os mundos interiores alheios. E talvez, apenas talvez, mais honestos sobre as múltiplas máscaras que cada pessoa veste, reconhecendo nelas não necessariamente falsidade, mas estratégias de sobrevivência em um mundo social infinitamente complexo onde todos tateiam em busca de conexão, reconhecimento e alguma forma precária de compreensão mútua.

 

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