A PERFORMANCE DO
SER
Por Heitor Jorge Lau
Existe uma
dança silenciosa e quase imperceptível que se desenrola a cada encontro humano,
uma coreografia invisível onde julgamentos são lançados antes mesmo que
qualquer palavra seja proferida. O ser humano, esse animal social por
excelência, carrega consigo um aparato cognitivo que o impele a
categorizar, avaliar e julgar tudo aquilo que seus sentidos captam,
especialmente quando o objeto dessa avaliação é outro ser humano. Essa
tendência profundamente enraizada na arquitetura mental humana transforma cada
interação social em um teatro complexo, onde atores interpretam papéis que não
necessariamente correspondem à essência daquilo que realmente são, enquanto a
plateia, por sua vez, assiste e julga performances baseando-se em fragmentos de
informação, aparências superficiais e narrativas de terceiros que muitas
vezes são tão distorcidas quanto as próprias atuações que pretendem
descrever. A questão central que se apresenta aqui não é meramente sociológica
ou comportamental, mas toca nas camadas mais profundas da experiência humana:
como é possível conhecer verdadeiramente alguém se constantemente se julga com
base em aparências, e se aquele que é julgado permanentemente adapta sua
apresentação conforme o ambiente? O ser humano está diante de um paradoxo
existencial onde autenticidade e performance se confundem de tal maneira que
talvez nem mesmo o próprio indivíduo saiba distinguir onde termina sua essência
e onde começam as máscaras que habitualmente veste.
Para
compreender essa dinâmica, faz-se necessário primeiramente investigar as raízes
neurobiológicas dessa tendência humana ao julgamento imediato. O cérebro humano
evoluiu ao longo de milhões de anos em ambientes onde decisões rápidas
frequentemente significavam a diferença entre sobrevivência e morte. Os ancestrais
precisavam avaliar instantaneamente se um estranho representava ameaça ou
oportunidade, se poderia ser um aliado confiável ou um rival perigoso. Essa
pressão evolutiva moldou circuitos neurais especializados em processamento
rápido de informações sociais, particularmente localizados na amígdala, uma
estrutura cerebral em forma de amêndoa situada profundamente no lobo temporal,
responsável pelo processamento de emoções, especialmente o medo, e por
respostas automáticas a estímulos potencialmente relevantes para a
sobrevivência. Estudos em neurociência social demonstram que a amígdala se
ativa em milésimos de segundo diante de um rosto desconhecido, processando
características faciais e gerando avaliações preliminares de confiabilidade,
ameaça e intenção antes mesmo que se tenha a consciência deliberada desses
julgamentos. Esse processamento ocorre através do que os neurocientistas chamam
de via neural rápida, um atalho evolutivo que permite respostas emocionais
instantâneas sem o envolvimento dos centros cerebrais superiores responsáveis
pelo pensamento reflexivo e análise complexa. Paralelamente, o córtex
pré-frontal, região localizada na parte frontal do cérebro e responsável por
funções executivas como planejamento, tomada de decisão consciente e controle
de impulsos, tenta modular essas reações automáticas, mas frequentemente chega
atrasado a essa “festa” neural, tentando racionalizar julgamentos que já foram
formados subconscientemente.
Essa
arquitetura cerebral explica por que os primeiros julgamentos sobre as pessoas
são tão rápidos, viscerais e difíceis de modificar posteriormente. O psicólogo
Daniel Kahneman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2002 por seu trabalho
sobre tomada de decisão humana, descreveu esse fenômeno através de sua teoria
dos dois sistemas de pensamento. O Sistema 1, rápido, automático e intuitivo,
domina as primeiras impressões sociais, enquanto o Sistema 2, lento,
deliberativo e lógico, raramente consegue revisar completamente os vereditos já
pronunciados pelo seu companheiro mais ágil. Essa dinâmica neural cria o que
psicólogos sociais denominam viés de confirmação, a tendência de buscar,
interpretar e recordar informações de maneira a confirmar as crenças
preexistentes, fazendo com que as primeiras impressões se autorreforcem mesmo
diante de evidências contrárias. Mas a questão se aprofunda quando o ser humano
considera não apenas o julgamento baseado na aparência física direta, mas
aquele alimentado por narrativas de terceiros. Quando se ouve alguém
falar sobre outra pessoa, o ouvinte não está recebendo informação neutra e
objetiva, mas sim uma construção narrativa filtrada pelas percepções,
preconceitos, emoções e interesses de quem narra. Essa pessoa, por sua vez,
provavelmente encontrou apenas uma das muitas personas que o indivíduo criticado
apresenta conforme o contexto. Portanto, se está julgando uma sombra de uma
sombra, uma representação de uma representação, construindo na mente uma imagem
fantasmagórica que tem pouca ou nenhuma correspondência com a totalidade
complexa e multifacetada daquele ser humano real.
Aqui
ressoam ecos da alegoria da caverna de Platão, filósofo grego que viveu entre
428 e 348 a.C. e fundou a Academia de Atenas, considerado um dos pensadores
mais influentes da história ocidental. Em sua alegoria, Platão descreve
prisioneiros acorrentados desde a infância em uma caverna, capazes apenas de
ver sombras projetadas na parede à sua frente, reflexos de objetos e pessoas
que passam diante de uma fogueira às suas costas. Esses prisioneiros tomam as
sombras como a realidade em si, incapazes de perceber que aquilo que veem são
apenas representações imperfeitas de uma realidade mais profunda e verdadeira. A
tendência de julgar pessoas com base em aparências e comentários alheios coloca
a maioria das pessoas em posição análoga: observa-se apenas sombras
comportamentais, fragmentos de apresentações contextualizadas, conduzindo a uma
crença de estar conhecendo a pessoa em sua totalidade. A questão se
complexifica ainda mais quando se analisa o outro lado dessa dinâmica: a
multiplicação de personas que cada indivíduo desenvolve e apresenta
conforme o ambiente social. Carl Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço que
viveu entre 1875 e 1961 e fundou a psicologia analítica, desenvolveu
extensamente o conceito de persona, termo derivado do latim que originalmente
designava as máscaras usadas por atores no teatro romano. Para Jung, a
persona é a interface entre o indivíduo e o mundo social, uma máscara
psicológica constituída para atender às expectativas sociais e proteger a
vulnerabilidade interior. Não se trata necessariamente de falsidade ou
hipocrisia, mas de um mecanismo psicológico adaptativo que permite a navegação
nos diversos contextos sociais.
O problema
surge quando a multiplicação dessas personas se torna tão extensa e fragmentada
que o próprio indivíduo perde contato com aquilo que Jung chamaria de Self,
o centro integrador da psique que representa a totalidade psicológica
autêntica. Quando alguém é uma pessoa no trabalho, outra em casa, outra ainda
com amigos, outra nas redes sociais e outra em ambientes religiosos ou
políticos, eventualmente ela pode se deparar com uma pergunta inquietante: quem
sou eu realmente quando ninguém está olhando? Ou ainda mais perturbador: existe
um eu autêntico por trás dessas máscaras, ou sou apenas a soma dessas
performances contextuais? Erving Goffman, sociólogo canadense que viveu entre
1922 e 1982 e é considerado um dos mais influentes estudiosos da interação
social, desenvolveu a Teoria da Representação do EU na Vida Cotidiana,
comparando a vida social a uma peça teatral onde os indivíduos são
simultaneamente atores e diretores. Segundo Goffman, as interações sociais
ocorrem em regiões de fachada, onde se performa para uma audiência... e regiões
de bastidores, onde é possível relaxar as performances. Cada situação social
demanda uma apresentação específica do Self, com figurinos
apropriados, diálogos ensaiados e gestos calculados para produzir determinadas
impressões nos observadores.
A relevância
da análise de Goffman reside em demonstrar que essa teatralidade não é exceção,
mas regra fundamental da vida social. Não são apenas alguns indivíduos
manipuladores que performam papéis, todos constantemente gerenciam impressões,
adaptam comportamentos e apresentam versões editadas de si mesmo. A questão não
é de performance, mas o grau de consciência e a extensão dessa performance.
Existem pessoas que mantêm alguma coerência entre suas várias personas,
preservando valores e características fundamentais através dos diferentes
contextos, enquanto outras se fragmentam tão completamente que cada ambiente
evoca um personagem quase inteiramente diferente. Essa fragmentação encontra
terreno fértil na sociedade contemporânea, especialmente com o advento das
redes sociais e da hiperconectividade digital. Plataformas como Instagram,
Facebook, TikTok e LinkedIn não apenas permitem, mas ativamente incentivam a gestão
cuidadosa de identidades públicas. Cada postagem é um ato deliberado de
construção de imagem, cada fotografia um elemento de narrativa pessoal
cuidadosamente elaborada. O perfil digital se torna uma persona adicional,
frequentemente a mais elaborada e menos autêntica de todas, uma versão
idealizada e estrategicamente editada do EU que busca maximizar
aprovação social através de métricas quantificáveis como curtidas, comentários
e compartilhamentos.
Simultaneamente,
essas mesmas plataformas amplificam exponencialmente a capacidade humana de
julgar outros com base em informações superficiais e comentários de terceiros. Opiniões
são construídas sobre pessoas desconhecidas apenas por perfis fragmentados,
interpretação de fotografias cuidadosamente selecionadas como se fossem janelas
transparentes para a “alma” alheia. Mais grave ainda, ocorre a participação em
rituais coletivos de julgamento e condenação, onde narrativas simplificadas
sobre indivíduos se espalham viralmente, criando consensos públicos sobre o
caráter de pessoas que a maioria dos julgadores nunca encontrou e sobre cujas
vidas reais possuem conhecimento praticamente nulo. A psicologia social
identifica esse fenômeno como parte do erro fundamental de atribuição, a
tendência sistemática de atribuir comportamentos alheios a características
pessoais internas, ignorando fatores situacionais e contextuais. Quando alguém
age de maneira contrária às crenças pessoais, rapidamente a conclusão é de que
isso revela algo fundamental sobre seu caráter, desconsiderando as pressões
situacionais, estados emocionais momentâneos ou circunstâncias particulares que
podem ter influenciado aquele comportamento específico. Ironicamente, quando um
indivíduo age de forma problemática, prontamente atribui o comportamento a
fatores externos e circunstâncias atenuantes. Esse duplo padrão revela algo
inquietante sobre a natureza humana: cada indivíduo é, simultaneamente, rigoroso
juiz dos outros e advogado indulgente dele mesmo. Essa assimetria perceptual
não é acidental, mas resulta de uma diferença fundamental em perspectiva. Cada
pessoa conhece suas próprias intenções, conflitos internos, dilemas morais e
pressões contextuais porque as vivenciam diretamente. Cada um conhece a
complexidade narrativa de sua vida. Dos outros, a percepção são apenas
comportamentos externos, fragmentos comportamentais descontextualizados interpretados
através de lentes perceptuais próprias, carregadas de preconceitos, projeções e
experiências passadas.
O filósofo
francês Jean-Paul Sartre, que viveu entre 1905 e 1980 e foi figura central do
existencialismo, um movimento filosófico que enfatiza a liberdade individual, a
responsabilidade pessoal e a criação de significado em um universo sem
propósito intrínseco, explorou profundamente essa dinâmica através de seu conceito
do olhar do Outro. Para Sartre, a presença de outro ser humano
fundamentalmente transforma a experiência individual de cada pessoa. Sob o
olhar alheio, os indivíduos se tornam objetos, coisas a serem julgadas e
categorizadas, perdendo momentaneamente a experiência subjetiva de liberdade e
fluidez. Esse olhar objetificante congela a todos em uma identidade específica,
uma essência que o outro nos atribui e que pode ou não corresponder à própria
autocompreensão. Mais perturbador ainda, Sartre argumentava que frequentemente o
ser humano internaliza esses olhares externos, incorporando os julgamentos
alheios em sua própria autoconcepção. Cada indivíduo começa a se perceber através
dos olhos dos outros, julgando a si com os mesmos critérios superficiais e
frequentemente injustos usados para julgar os demais. Essa internalização do
olhar externo pode se tornar fonte de profunda alienação, ocasionando a perda
de contato com a própria experiência subjetiva autêntica. Ao final, cada pessoa
passa a habitar permanentemente o espaço da performance, representando não para
os outros, mas para si mesmo através do imaginar como os outros o percebem.
A Neurofenomenologia,
campo interdisciplinar que busca integrar estudos neurológicos com análises
filosóficas da experiência consciente, oferece insights fascinantes
sobre essa dinâmica. Pesquisas sobre os neurônios-espelho células nervosas que
se ativam tanto quando se executa uma ação quanto quando se observa outros
executando a mesma ação, descobertos inicialmente pelo neurocientista italiano
Giacomo Rizzolatti na década de 1990, sugerem a existência de sistemas neurais
dedicados a simular internamente os estados mentais alheios. Essa capacidade de
simulação é fundamental para empatia, compreensão social e coordenação
interpessoal. Entretanto, essa mesma capacidade pode alimentar julgamentos
precipitados. Quando se observa alguém, automaticamente ocorre a simulação dos
sentimentos e pensamentos que se teria caso aquela ação fosse executada por si
mesmo naquele contexto. O problema é que frequentemente não existe informação
suficiente sobre o contexto real, os estados internos e as motivações da outra
pessoa, de modo que as simulações refletem mais os próprios padrões mentais que
a realidade alheia. Portanto, o julgamento sobre os outros ocorre como se
fossem versões de si mesmo em situações similares, desconsiderando as
diferenças profundas em história pessoal, temperamento, valores e
circunstâncias que tornam cada indivíduo único.
Diante
desse panorama complexo, surge uma questão: existe saída para esse labirinto de
julgamentos e performances? É possível algum grau de autenticidade em meio a
essa teatralidade social inevitável? A resposta, talvez, não resida em abolir
completamente as personas ou cessar qualquer forma de julgamento, ambos
provavelmente impossíveis dada a configuração psicológica e neural humana, mas
em desenvolver consciência crítica sobre esses processos e cultivar o que se
poderia chamar de humildade epistêmica, o reconhecimento dos limites
fundamentais do conhecimento sobre os outros e sobre si. A prática
contemplativa budista, com seus dois mil e quinhentos anos de investigação
sobre a natureza da mente e do Self, oferece ferramentas valiosas
nesse sentido. A meditação Mindfulness, ou atenção plena, treina
a capacidade de observar os próprios processos mentais, incluindo a formação de
julgamentos, sem identificação imediata com eles ou ação baseada neles. Ao
desenvolver a habilidade de notar "estou julgando essa pessoa" sem
necessariamente acreditar que esse julgamento representa verdade objetiva, um
espaço mental é criado para questionamento e revisão. Simultaneamente,
tradições contemplativas orientais enfatizam a natureza fundamentalmente vazia
ou construída do próprio senso de Self. A experiência meditativa
profunda pode revelar que o "EU" não é uma entidade fixa e
unitária, mas um processo dinâmico e fluido, uma narrativa constantemente
reconstruída momento a momento. Se não existe um Self fixo em
cada indivíduo, certamente não é possível presumir conhecer o Self
fixo dos outros. Essa percepção, longe de conduzir ao niilismo ou relativismo
absoluto, pode cultivar compaixão genuína baseada no reconhecimento de que
todos navegam essa complexidade existencial, todos usam máscaras porque a
vulnerabilidade completa seria insuportável, todos julgam porque os cérebros
foram moldados para fazê-lo.
A
autenticidade, nessa perspectiva, não significa apresentar um Self
verdadeiro e imutável que existe independentemente do contexto, mas sim
desenvolver congruência entre os valores internos e as expressões externas,
manter integridade entre as diversas personas que se habita, reconhecer
conscientemente quando e por que se está performando determinado papel. Trata-se
menos de eliminar as máscaras do que de saber que se está usando-as; compreender
por que foram escolhidas e mantê-las suficientemente permeáveis para que algo
genuíno possa transpirar através delas. Quanto aos julgamentos que
inevitavelmente são constituídos sobre os outros, a sabedoria talvez resida em
mantê-los perpetuamente provisórios, reconhecendo-os como hipóteses de trabalho
sempre sujeitas a revisão, nunca como vereditos definitivos. Cada pessoa que se
conhece carrega multitudes, carrega histórias desconhecidas, enfrenta batalhas
invisíveis, apresenta diferentes faces conforme o contexto não por duplicidade
necessária, mas por complexidade humana inerente. O indivíduo julgado com base
em fragmentos de informação é sempre mais do que se consegue perceber, e a avaliação
diz frequentemente mais sobre as próprias lentes perceptuais que sobre a
realidade que se pretende capturar. Enfim, o ser humano vive em um teatro sem
fim, onde todos simultaneamente atuam e assistem, julgam e são julgados,
performam autenticidade e autenticamente performam. A consciência crítica dessa
condição não libertará o ser humano completamente dela, porque está tecida na
própria estrutura de cognição social e existência intersubjetiva. Mas pode gerar
atores e espectadores mais compassivos, menos apressados nos julgamentos, mais
generosos nas interpretações, mais humildes sobre as limitações do conhecimento
sobre os mundos interiores alheios. E talvez, apenas talvez, mais honestos
sobre as múltiplas máscaras que cada pessoa veste, reconhecendo nelas não
necessariamente falsidade, mas estratégias de sobrevivência em um mundo social
infinitamente complexo onde todos tateiam em busca de conexão, reconhecimento e
alguma forma precária de compreensão mútua.

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