quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O APRENDIZADO DIANTE DO ESTADO DE TRANSIÇÃO NA EXPERIÊNCIA HUMANA

LIMINARIDADE

O ESTADO DE TRANSIÇÃO NA EXPERIÊNCIA HUMANA

Por Heitor Jorge Lau

            A experiência humana encontra-se repleta de momentos nos quais a vida suspende suas certezas habituais. Existe um estado peculiar, simultaneamente desconcertante e transformador, que se manifesta quando o ser humano atravessa as fronteiras entre diferentes fases da existência. Este estado intermediário, caracterizado pela ambiguidade e pela dissolução temporária das estruturas convencionais, recebe o nome de liminaridade, conceito fundamental para compreender os processos de transformação individual e coletiva. O termo liminaridade deriva do latim "limen", palavra que designa o limiar ou a soleira de uma porta. Esta etimologia revela a essência do conceito: trata-se de ocupar o espaço de transição, aquele território indefinido entre o que ficou para trás e o que ainda está por vir. Assim como a soleira de uma casa não pertence propriamente nem ao interior nem ao exterior, mas conecta ambos os espaços, a liminaridade representa essa zona fronteiriça onde as categorias habituais perdem sua nitidez.

            A antropologia desenvolveu este conceito através dos estudos pioneiros sobre ritos de passagem. Arnold van Gennep, antropólogo francês do início do século XX, identificou que sociedades de diferentes culturas compartilham uma estrutura comum em suas cerimônias de transição. Essas cerimônias seguem três fases distintas: a separação do estado anterior, a transição propriamente dita e a incorporação ao novo estado. A fase intermediária, aquela da transição, constitui precisamente o momento liminar. Victor Turner, antropólogo britânico, expandiu significativamente a compreensão deste fenômeno ao dedicar décadas de pesquisa ao estudo da liminaridade. As investigações de Turner, particularmente entre os povos Ndembu da atual Zâmbia, revelaram que o estado liminar possui características próprias que transcendem o mero deslocamento de uma posição social para outra. Durante a liminaridade, as estruturas hierárquicas convencionais da sociedade encontram-se suspensas, criando condições para experiências profundamente transformadoras. O estado liminar apresenta características paradoxais que o distinguem da vida cotidiana. Aquilo que se encontra em liminaridade não é nem uma coisa nem outra, ocupando simultaneamente múltiplas posições ou nenhuma delas. Esta ambiguidade fundamental gera uma situação de vulnerabilidade, mas também de potencialidade. A pessoa em transição deixou para trás as certezas do estado anterior sem ainda ter conquistado a segurança do próximo, permanecendo em uma condição de abertura e incerteza.

            Esta abertura característica do estado liminar permite que processos de aprendizagem e transformação ocorram com intensidade particular. Desprovido das estruturas habituais de identificação social, o ser humano em liminaridade encontra-se mais receptivo a novas perspectivas, conhecimentos e formas de ser. As sociedades tradicionais reconhecem esta potencialidade e estruturam seus ritos de iniciação de modo a aproveitar este período para transmitir conhecimentos sagrados, valores culturais fundamentais e habilidades essenciais. A suspensão das hierarquias sociais durante a liminaridade dá origem a uma forma específica de relacionamento social que Turner denominou "communitas". Enquanto a estrutura social cotidiana organiza-se através de diferenças de status, papel e posição, a communitas representa uma experiência de comunhão igualitária entre aquelas pessoas que compartilham o mesmo estado de transição. Esta experiência de igualdade radical e conexão profunda surge precisamente porque os marcadores convencionais de diferença social encontram-se temporariamente dissolvidos.

            A communitas manifesta-se de forma particularmente evidente em rituais de iniciação coletivos, onde jovens de diferentes origens sociais passam juntos pelo mesmo processo transformador. Durante este período, as diferenças de classe, riqueza ou parentesco tornam-se irrelevantes diante da experiência compartilhada de transição. Esta igualdade temporária não apenas facilita a coesão do grupo, mas também possibilita que vínculos profundos se formem entre pessoas que, na vida cotidiana, ocupariam posições sociais distantes. Os ritos de passagem nas sociedades tradicionais exemplificam com clareza o processo liminar. Cerimônias de iniciação à vida adulta frequentemente retiram os jovens de suas famílias e comunidades, colocando-os em espaços separados onde vivenciam provações, recebem ensinamentos e passam por transformações simbólicas. Durante este período, os iniciandos não são mais crianças, mas tampouco são ainda adultos reconhecidos. Ocupam uma posição intermediária, muitas vezes simbolizada através de marcas corporais, vestimentas especiais ou restrições comportamentais.

            A modernidade não eliminou a liminaridade da experiência humana, embora tenha transformado suas manifestações. Sociedades contemporâneas apresentam numerosos exemplos de estados liminares, ainda que frequentemente menos ritualizados que nas sociedades tradicionais. A adolescência constitui talvez o exemplo mais universal de liminaridade na vida moderna. Este período prolongado entre a infância e a vida adulta caracteriza-se precisamente pela ambiguidade: não mais criança, mas ainda sem os direitos e responsabilidades plenas da idade adulta. Outras transições vitais também carregam dimensões liminares significativas. A gravidez representa um estado de passagem no qual a gestante encontra-se entre a condição anterior e a maternidade que se aproxima. Processos de luto colocam as pessoas enlutadas em uma posição liminar, entre a vida com o ente querido e a adaptação à ausência. Mudanças profissionais, migrações, casamentos e divórcios, todos estes eventos criam períodos nos quais as identidades anteriores já não se aplicam completamente, enquanto as novas ainda não se consolidaram.

            A liminaridade também se manifesta através de espaços físicos específicos. Aeroportos, estações de trem e rodoviárias funcionam como zonas liminares por excelência. Estes locais de trânsito caracterizam-se por uma qualidade de "não-lugar", onde as pessoas não estão propriamente em nenhum destino, mas em deslocamento entre origem e chegada. A experiência nestes espaços frequentemente produz uma sensação de suspensão temporal e desconexão das rotinas habituais. Hospitais também operam como espaços liminares, particularmente para aqueles que ali se encontram em tratamento. A pessoa hospitalizada deixa temporariamente sua vida cotidiana, suas roupas, seus papéis sociais, submetendo-se a uma condição intermediária entre saúde e doença, entre a vida anterior à internação e a recuperação esperada. Esta condição liminar do hospital amplifica tanto a vulnerabilidade quanto a possibilidade de transformação. A dimensão temporal da liminaridade merece atenção especial. O tempo liminar não segue a progressão linear do tempo cotidiano. Turner observou que rituais liminares frequentemente criam uma experiência de tempo suspenso ou cíclico, desconectado da cronologia convencional. Esta qualidade temporal contribui para a sensação de que, durante a liminaridade, opera-se em uma dimensão diferente da realidade ordinária.

            Períodos históricos de grande transformação social também podem ser compreendidos através do conceito de liminaridade. Revoluções, pandemias, guerras e outras rupturas coletivas criam estados liminares em escala ampliada. Durante tais períodos, as estruturas sociais estabelecidas encontram-se questionadas ou suspensas, sem que novas estruturas estáveis tenham ainda se consolidado. A incerteza e a potencialidade da liminaridade individual multiplicam-se na experiência coletiva, gerando tanto ansiedade quanto possibilidades de renovação social. A pandemia de COVID-19 ilustrou vividamente este fenômeno. Durante meses, sociedades inteiras vivenciaram uma condição liminar, suspensas entre o mundo anterior à pandemia e um futuro incerto. Rotinas habituais dissolveram-se, hierarquias sociais foram questionadas, e surgiu uma experiência de communitas em meio à crise compartilhada. Este período liminar global produziu tanto sofrimento quanto reflexões profundas sobre valores, prioridades e estruturas sociais.

            A criatividade e a liminaridade mantêm conexões profundas. A suspensão das categorias convencionais que caracteriza o estado liminar libera o pensamento de suas amarras habituais, permitindo que novas conexões e possibilidades emerjam. Artistas e criadores frequentemente buscam estados liminares deliberadamente, através de práticas que dissolvem as fronteiras entre categorias estabelecidas, explorando zonas de ambiguidade e transformação. Os perigos da liminaridade também merecem reconhecimento. A ausência de estrutura pode gerar não apenas criatividade, mas também desorientação e vulnerabilidade. Pessoas em estados liminares encontram-se particularmente suscetíveis a influências externas, podendo ser manipuladas ou exploradas. Sociedades tradicionais reconhecem estes perigos e estruturam cuidadosamente seus rituais liminares, proporcionando orientação e proteção aos iniciandos. A liminaridade prolongada ou não resolvida pode tornar-se problemática. Quando a transição não se completa, quando o estado intermediário se estende indefinidamente sem resolução, o potencial transformador da liminaridade converte-se em fonte de angústia. A contemporaneidade, com suas múltiplas identidades fluidas e transições constantes, às vezes produz uma condição de liminaridade crônica que pode ser experimentada como fragmentação ou perda de ancoragem.

            A compreensão da liminaridade oferece ferramentas valiosas para navegar as transições inevitáveis da existência humana. Reconhecer que certos períodos de incerteza e ambiguidade não representam falhas, mas fazem parte de processos naturais de transformação, pode aliviar a ansiedade que frequentemente acompanha estas fases. A liminaridade não é um problema a ser resolvido rapidamente, mas uma condição a ser atravessada com consciência e, quando possível, com o apoio de comunidades que reconhecem seu valor. As sociedades contemporâneas poderiam beneficiar-se de uma revalorização dos processos liminares e de suas potencialidades transformadoras. Enquanto sociedades tradicionais estruturam cuidadosamente os ritos de passagem, reconhecendo sua importância para o desenvolvimento individual e coletivo, sociedades modernas frequentemente negligenciam ou apressam estas transições. A recuperação de práticas que honrem e acompanhem os estados liminares poderia contribuir para experiências de transição mais significativas e menos traumáticas.

            A liminaridade revela-se, portanto, como conceito fundamental para compreender tanto as experiências individuais de transformação quanto os processos de mudança social em escala mais ampla. Este estado intermediário, caracterizado pela suspensão das estruturas convencionais e pela abertura ao novo, constitui não uma anomalia, mas parte essencial do modo como seres humanos e sociedades se transformam. Reconhecer, compreender e valorizar adequadamente os processos liminares permite navegar com maior sabedoria os inúmeros limiares que a existência apresenta, transformando momentos de vulnerabilidade e incerteza em oportunidades genuínas de crescimento e renovação.


 

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