quinta-feira, 16 de julho de 2026

OPINIÃO NÃO SUBSTITUI CONHECIMENTO

OPINIÃO NÃO SUBSTITUI CONHECIMENTO

por Heitor Jorge Lau

            Há alguns dias, ouvi novamente uma daquelas afirmações que, de tão absurdas, fazem qualquer pessoa minimamente comprometida com o conhecimento parar para refletir. Não era a primeira vez. Ao longo dos anos, já escutei quem dissesse que o efeito estufa é uma invenção, que o aquecimento global não existe, que o aumento do nível dos oceanos é uma fantasia e que o degelo das calotas polares não passa de propaganda. Desta vez, porém, alguém foi além: afirmou, com absoluta convicção, que a La Niña simplesmente não existe. Confesso que a preocupação não está apenas na ignorância da afirmação, mas na facilidade com que esse tipo de discurso encontra ouvintes dispostos a aceitá-lo sem qualquer questionamento. É justamente sobre esse fenômeno — o da opinião travestida de conhecimento — que proponho a reflexão a seguir.

            Vivemos em uma época curiosa. Nunca houve tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil transformar opinião em aparente verdade. Basta abrir um canal na internet, falar com convicção e, em poucos minutos, conquistar seguidores dispostos a aceitar qualquer afirmação como se fosse resultado de décadas de pesquisa. É justamente nesse ponto que nasce um dos maiores problemas do nosso tempo: a especulação sem estudo. Opinar faz parte da liberdade de expressão; negar fatos amplamente investigados pela ciência sem apresentar evidências consistentes é apenas um exercício de crença pessoal. Crenças podem orientar escolhas individuais, mas não alteram o funcionamento da natureza.

            Afirmar que o efeito estufa não existe, que o nível dos oceanos não está mudando, que a temperatura média do planeta não apresenta tendência de aumento ou que fenômenos climáticos como a El Niño e a La Niña são invenções é ignorar milhares de estudos produzidos por pesquisadores de diferentes países, utilizando satélites, boias oceânicas, estações meteorológicas, medições de campo e análises estatísticas acumuladas ao longo de muitas décadas. A ciência não se sustenta pela autoridade de uma pessoa, mas pela repetição dos resultados, pela crítica permanente e pela possibilidade de outros pesquisadores confirmarem ou contestarem as conclusões.

            A La Niña, por exemplo, está longe de ser uma teoria conspiratória. Trata-se de um fenômeno climático caracterizado pelo resfriamento anormal das águas superficiais da região central e leste do Oceano Pacífico Equatorial. Esse resfriamento modifica a circulação dos ventos e da atmosfera, alterando o regime de chuvas e as temperaturas em diversas partes do planeta. No Brasil, seus efeitos variam conforme a região, podendo favorecer períodos de estiagem em alguns locais e chuvas acima da média em outros.

            Isso não significa que toda seca ou toda enchente seja causada exclusivamente pela La Niña. O clima é um sistema extremamente complexo, influenciado por diversos fatores que interagem simultaneamente. A ciência, justamente por reconhecer essa complexidade, evita explicações simplistas e conclusões apressadas. Confiar mais em um influenciador do que em milhares de pesquisadores independentes não é sinal de espírito crítico; muitas vezes, é apenas trocar um método rigoroso por uma narrativa conveniente. O verdadeiro pensamento crítico não consiste em rejeitar a ciência, mas em compreender como ela produz conhecimento, como corrige seus próprios erros e por que suas conclusões possuem graus diferentes de confiança conforme as evidências disponíveis.

            Quem realmente deseja compreender o mundo precisa distinguir opinião de conhecimento. Especulação sem estudo produz debates intermináveis. Conhecimento construído com método produz explicações cada vez mais precisas. Dar o mesmo peso a ambos não representa equilíbrio; representa apenas confundir convicção com evidência. Afinal, quem pretende ensinar como o mundo funciona deve, antes de tudo, demonstrar que estudou seriamente o mundo que pretende explicar. Estudar muito!

 

 

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