Diário de momentos da vida – Era uma vez na
Praça da Matriz
Era uma bela
segunda feira, ensolarada, temperatura amena, enfim, um belo dia ... uma linda e
legítima manhã de Primavera. Eu estava tranquilamente caminhando pela Praça da
Matriz e resolvi sentar em um banco para observar tudo que um cenário digno de
pintura estava me oferecendo e convidando para desfrutar. O Céu azul cobria o
espaço com um véu de paz e tranquilidade. O vento acariciava a face com afagos
de carinho e ternura. A natureza é imensuravelmente calmante, apaziguadora,
relaxante e entorpecedora. A Praça da Matriz, apesar de se localizar no centro
da cidade, reserva um mundo à parte, carregado de canto dos pássaros, risadas
de alguns transeuntes ... interessante que o som do interior deste universo
cala as buzinadas dos motoristas mais nervosinhos, as propagandas dos carros de
publicidade e propaganda, o barulho dos motores de incontáveis veículos que no
entorno da praça trafegam, as freadas e todos os demais ruídos.
Repentinamente
uma mamãe sabiá pousa sobre o gramado, perseguida por dois filhotes, bem
crescidinhos, pedindo: “queremos comidinha, comidinha, comidinha”. Uma cena não
rara para quem olha com olhos atentos e serenos quando por ali transita. Nem
por isso deixa de ser espetacular. Uma sessão psicoterápica, gratuita, sem
divã, sem hora para começar, sem hora para terminar ... e quem dera nunca
terminasse tamanha cena de descontração e tranquilidade. O ritual que diante
dos meus olhos aconteceu não se delongou muito, afinal, a mamãe sabiá precisava
encontrar mais alimento para os seus vívidos e inquietos sabiazinhos, que por
força da natureza, logo-logo serão também adultos, logo-logo estarão da mesma
forma alimentando os seus “bebês”.
Mas o cenário
na qual me encontrava detinha mais espetáculos a oferecer. Ouvi risos,
gargalhadas na verdade, alegria advindas de um grupo de cinco homens – entre 25
a 40 anos –, uns sentados no gramado, outro de pé, e outros no banco da praça.
Ao lado três companhias inusitadas: cães, igualmente felizes, deitados no chão
com a maior tranquilidade, visivelmente satisfeitos, em todos os sentidos. O
que chamou a atenção foi o fato de serem pessoas humildes, vestimenta surrada,
aparentemente desempregados – imaginei. Se por um lado lhes faltavam emprego,
roupas ou alimento, felicidade naqueles corpos tinha de sobra. Não estavam lá
muito interessados no movimento das ruas e muito menos do interior da praça.
Vez que outra algum daqueles felizes cidadãos retirava do bolso um biscoito e
comia. Ali, naquele diminuto espaço de convivência reinava a paz, harmonia, o
sossego, a total despreocupação com o tempo a seguir. O sentimento que brotava
daquele grupo dava para sentir de longe o viver sem pensar, sem calcular, sem
agendar ... apenas viver.
A minha
atenção foi desviada. Logo adiante caminhava um casal, passos lentos, palavras
inexistentes, um destino. Mas o que chamou a atenção foi aquela mulher
segurando firmemente um aparelho no qual um tubo plástico de pequeno diâmetro
se dirigia diretamente para as narinas do senhor que a acompanhava. Tudo
indicava que aquele aparelho ajudava o homem a respirar. Naquele instante,
muito mais breve que as cenas anteriores dos pássaros, surge uma sensação de
tristeza porque eu - livre da dependência de uma bomba de oxigênio - fiquei a
imaginar o quão limitador seria viver assim. Mas também senti um toque de
felicidade em perceber que naquele casal existia parceria, amizade,
cumplicidade, vontade de viver livremente sem pensar o fardo que a vida impôs a
ele, aos dois. Lembrei que muitas vezes nos queixamos de situações
indesejáveis, ausência de alguma coisa, qualquer coisa ... lembrei de gente que
passa o tempo todo se queixando da vida ... que pecado! E eles se foram, anônimos, silenciosos, misteriosos.
Contudo a lembrança ficou. Não sei até quando, mas ficou.
E em seguida
outra cena - parecia ser o dia das
lições de vida. Duas mulheres, meia idade, visivelmente passeando. Uma
delas empurrando uma senhora, presumivelmente idosa, sentada em uma cadeira de
rodas. Ao contrário daquele senhor livre ao menos para andar, esta mulher
mantinha o corpo completamente inerte, olhos fixados para o chão, não mais do
que um metro além da ponta dos seus pés apoiados na parte inferior da cadeira. Seu
rosto completamente sem expressão, nenhum sorriso, nenhuma palavra, nenhum
olhar, nada, total ausência de vida. O que será que ela estaria pensando,
sentindo? Saberia ela onde estava? Estaria ela sentindo o agradável calor do
sol sobre sua pele alva? Estaria ela ouvindo o canto dos pássaros? Difícil de
saber, triste de imaginar. E elas, também, se foram!
Estava eu
pronto para seguir o meu caminho e num piscar de olhos surge uma garota,
aproximadamente uns 17 ou 18 anos de idade. Outra pessoa, outro comportamento.
Ela tinha um caminhar incógnito, sem pressa, sem destino, sem compromisso. Mas
algo chamava a atenção: pequenos fones de ouvido, um em cada ouvido, conectados
ao seu celular. O que ela estaria ouvindo de forma tão compenetrada, com um
semblante tão sisudo? Música? Um áudio book? Que dúvida, que curiosidade. Então
ela sentou-se em um banco e começou a digitar no teclado do telefone. Ah! Que
alívio, a curiosidade foi parcialmente reduzida. Mas com quem se comunicava?
Pai? Mãe? Algum amigo ou amiga? O namorado? Seja lá com quem fosse, as
expressões do seu rosto se mantiveram tão inertes quanto a senhora da cadeira
de rodas, os gestos do corpo tão mecânicas quanto daquele senhor do oxigênio
... pena, seria tão bom ver uma jovem sentindo o sol, a natureza, como aqueles
pássaros livres para voar, livres para cantar. Ela, diferentemente dos outros
que passaram - empurrados ou acompanhados - permaneceu ali, com o corpo sem
expressão, somente os dedos moviam-se sobre as teclas virtuais do celular. Um
mundo particular e restrito. Real ou irreal, quem sabe?
E o tempo
passou – uma hora. E quem seguiu desta vez foi eu! Segui o meu caminho, mas foi
difícil esquecer a última hora e meia de acontecimentos. Cada qual com a sua
particularidade, sua mensagem intrínseca. Foram noventa minutos de análise,
filosofia, deduções, conclusões ... mas tudo, absolutamente tudo, no mundo real
preenchido pela imaginação. O grupo de homens felizes, os pássaros, o casal, as
senhoras e a jovem, o que pensavam, sentiam? Para onde foram? Será que aquela
senhora da cadeira de rodas não estaria feliz por estar passeando na praça? Não
estaria apenas com muito, muito sono? E aquele senhor do oxigênio, estaria
feliz por estar caminhando, se distraindo na praça? O grupo de homens, estariam
felizes por estar entre amigos? Não seriam eles cinco magnatas disfarçados para
fazerem o que desejam sem julgamento? Ah, não esqueçamos da mamãe sabiá. Estará
ainda buscando alimento para os filhotes ou foi a última refeição antes de deixá-los
livres – contra a vontade deles é claro.
Enfim, o
quanto a vida carrega mistérios a todo instante? Difícil e impossível de saber.
A única certeza é que a cada fração de segundos algo de novo, desconhecido e
inusitado acontece diante dos nossos olhos e só nos resta imaginar, observar o
momento, sentir a mensagem e refletir sobre o antes, durante e depois. Não se
trata de procurar verdades ou inverdades, não! Igualmente não se trata de
separar o certo do errado. E que ninguém tenha o malvado pensamento de se
tratar de bisbilhotice e curiosidade pela vida alheia. Os pequenos e mínimos
acontecimentos narrados anteriormente espelham o mundo que vivemos. O mundo
real, com seres humanos (e sabiás), alguns sorrindo, gargalhando, outros nem
tanto. Cada qual vivendo da sua maneira ou da maneira que podem.
Por ali,
naquele espaço tão pequeno, ainda passaram e passarão centenas de milhares de
pessoas. Quem serão? Por qual motivo irão cruzar aquele paraíso? Eu, por
exemplo, sempre atravesso a quadra ponta a ponta pelas extremidades, nunca pelo
meio. Por que naquele dia algo me “puxou” para cruzar pela diagonal? Também não
tenho o hábito de sentar nos bancos de praça – a não ser que seja necessário, é
claro. Então, por que naquele dia uma força me convidou para sentar naquele
banco e não em outro? Afinal, talvez noutra perspectiva eu jamais teria visto o
que era para ser visto, pensado o que era para ser pensado e muito menos
sentido o que era para ser sentido, ou imaginado o que era para ser imaginado. A
quem diga que toda história tem uma moral. Portanto, moral das minhas
histórias: viver também é uma questão de perspectiva. Podemos ver meio copo
d’água vazio ou meio copo d’água cheio. O otimista opta por saciar meia sede. O
pessimista escolhe olhar a parte vazia, lamentar que não possui o todo e guarda
a “sete chaves” o meio cheio. Mas ... quando precisar do meio cheio ele não
estará mais lá porque algumas coisas não são para ser guardadas. Vida é uma
delas!
Por Psi Heitor Jorge Lau