sábado, 18 de abril de 2026

A TIRANIA DO SOFÁ: COMO A PSICANÁLISE DO SÉCULO XIX AINDA SEQUESTRA O PENSAMENTO CLÍNICO CONTEMPORÂNEO

FREUD MORREU EM 1939

ALGUÉM PRECISA AVISAR ALGUNS TERAPEUTAS

a inércia intelectual disfarçada de tradição clínica

Por Heitor Jorge Lau

            A psicanálise freudiana carrega, desde sua origem, o peso de um contexto histórico profundamente limitado. Sigmund Freud desenvolveu suas teorias no final do século XIX e início do século XX, numa Viena conservadora, patriarcal e repleta de repressões sociais que inevitavelmente moldaram — e contaminaram — cada conclusão que tirou sobre a mente humana. Homem de seu tempo, o que não é necessariamente uma crítica, mas torna-se um problema grave quando as ideias produzidas nesse contexto são transportadas intactas para o século XXI como se fossem verdades absolutas e imunes ao avanço do conhecimento.

            O chamado Complexo de Édipo, talvez a peça mais ousada e controversa de toda a arquitetura psicanalítica, afirma que meninos entre três e seis anos experimentam uma atração de natureza sexual pela figura materna e enxergam o pai como um rival a ser temido e eventualmente superado. Para as meninas, Freud — e mais tarde Jung, que cunhou o termo — descreveu o chamado Complexo de Electra, com a inversão dos papéis: atração pelo pai, rivalidade com a mãe. Décadas depois de formuladas, essas ideias continuam sendo ensinadas, repetidas e, o que é ainda mais perturbador, aplicadas clinicamente por profissionais de saúde mental como se tivessem o mesmo peso epistemológico de uma lei da termodinâmica.

            Nenhuma dessas afirmações foi jamais comprovada empiricamente. Não existe um único estudo científico robusto, metodologicamente sólido e reproduzível que demonstre que crianças nessa faixa etária desenvolvem atração sexual — ainda que difusa ou inconsciente, como os freudianos costumam defender — pelo genitor do sexo oposto. O que existe, em abundância, são interpretações retroativas, relatos clínicos não controlados e uma tradição oral dentro da psicanálise que se perpetua muito mais por autoridade institucional do que por evidência. A ciência moderna, especialmente a neurociência do desenvolvimento, a psicologia evolutiva e a psicologia do desenvolvimento infantil, simplesmente não encontrou nenhum substrato que sustente essa construção teórica e absurda.

            Freud era um homem marcado por contradições profundas. Usava cocaína de forma habitual por anos, o que não invalida automaticamente seu trabalho, mas compõe o retrato de alguém longe da imagem de observador neutro e racional que seus seguidores costumam projetar. Era declaradamente machista em diversas de suas formulações — basta observar como descreveu a psicologia feminina, chegando ao ponto de afirmar que mulheres sofrem de "inveja do pênis", uma das afirmações mais ridículas já produzidas por alguém considerado um gênio da humanidade. Tinha uma visão de sexualidade profundamente marcada pela moralidade vitoriana que pretendia criticar, e suas conclusões sobre a infância foram construídas não a partir de observações diretas e sistemáticas de crianças, mas majoritariamente de análises retrospectivas de adultos em sofrimento.

            O problema não está em ter existido Freud. Todo campo do conhecimento precisa de pioneiros, e pioneiros inevitavelmente erram, exageram e produzem ideias que o tempo encarregará de refinar ou descartar. O problema real, o que provoca justa indignação, está na postura de profissionais formados décadas depois, com acesso a uma literatura científica vastíssima e diversificada, que escolhem permanecer ancorados em formulações do século XIX como se o conhecimento tivesse parado junto com o coração de Freud em 1939. Isso não é fidelidade intelectual. É inércia. É comodismo disfarçado de tradição.

            Quando um terapeuta em 2026 afirmar categoricamente para um paciente ou para a família de uma criança que determinado comportamento se explica pelo Complexo de Édipo — dito com a solenidade de quem anuncia uma verdade revelada —, estará cometendo um ato de negligência epistemológica que pode ter consequências reais e concretas na vida daquelas pessoas (até porque o ser humano prefere acreditar em fantasias ao invés de dados e estudos científicos...exige menos raciocínio). Está impondo uma narrativa não verificável sobre experiências humanas que merecem ser compreendidas com as ferramentas mais rigorosas disponíveis. Está usando a autoridade do jaleco ou do consultório para blindar ideias que não sobreviveriam a um escrutínio científico honesto. A formação universitária em psicologia no Brasil e em boa parte do mundo ainda reserva espaço desproporcional para a teoria psicanalítica, o que explica, ao menos em parte, por que tantos profissionais saem da graduação com Freud como referência central.

             Existe um abismo curricular entre Brasil e EUA e a estrutura é incompatível desde a base. O curso de psicologia no Brasil tem duração de cinco anos e segue as diretrizes do MEC, combinando teoria e prática clínica desde cedo, com disciplinas como psicopatologia, psicoterapia, psicologia clínica, psicologia social e neuropsicologia. Até aí parece robusto. O problema começa quando esse diploma tenta se converter no sistema americano. Nos Estados Unidos, a trajetória é mais longa e complexa. O primeiro passo é concluir uma graduação de quatro anos — e só depois disso o profissional ingressa em um programa de pós-graduação para atuar clinicamente. Ou seja: o que o Brasil chama de graduação completa que habilita à prática clínica, os EUA tratam como uma etapa preparatória incompleta. O diploma brasileiro simplesmente não é reconhecido como equivalente.

            A American Psychological Association reserva o título de "psychologist" para profissionais com nível de doutorado — para qualquer diploma concedido após 1968. Nos EUA, psicólogo significa doutor. Isso significa que o bacharel brasileiro, mesmo com cinco anos de formação e habilitação clínica plena no Brasil, não pode usar o título nem atender pacientes nos EUA com esse diploma. O relato de quem viveu isso na prática é revelador. - Um profissional com mestrado em psicologia clínica e licença em dois países relatou que, ao tentar o reconhecimento nos EUA, centenas de créditos acadêmicos simplesmente não foram convertidos em nenhum grau acadêmico americano. Após insistência, o instituto de credenciamento exigiu que a universidade de origem emitisse o diploma num formato padronizado do estado americano — caso contrário, nem revisaria o pedido.

            As disciplinas mais rejeitadas ou desvalorizadas:

            Não existe uma lista oficial publicada, mas o padrão é claro a partir das diferenças estruturais:

            1. Psicanálise e teorias freudianas/lacanianas — disciplinas que ocupam espaço desproporcional nos currículos brasileiros são praticamente irrelevantes nos programas americanos baseados em evidências. A psicanálise que dominou os EUA entre 1940 e 1960 foi superada pelo cognitivismo a partir dos anos 70, e hoje há uma enorme dominância do behaviorismo e das abordagens baseadas em evidências.

            2. Psicoterapia de orientação analítica — horas clínicas feitas sob supervisão psicanalítica dificilmente são aproveitadas, pois os programas americanos exigem formação em TCC (Terapia Cognitivo-Comportamental), DBT (Terapia Comportamental Dialética) e outras abordagens empiricamente validadas. As duas abordagens têm em comum o que a psicanálise freudiana nunca teve: protocolos testados, estudos controlados, resultados replicáveis e métricas de eficácia. Nos EUA, são a espinha dorsal da formação clínica. No Brasil, ainda disputam espaço — e muitas vezes perdem — para Freud e Lacan.

            3. Estágios clínicos brasileiros — a estrutura de supervisão e o volume de horas não seguem os padrões da APA (American Psychological Association - Associação Norte-Americana de Psicologia, tradução mais apropriada possível), o que invalida o aproveitamento.

            4. Disciplinas teóricas sem base empírica mensurável — filosofia da psicanálise, teoria lacaniana, história da psicanálise — conteúdos que em muitas faculdades brasileiras ocupam semestres inteiros.

             O dado mais perturbador ancora no fato de que o profissional (exemplo citado anteriormente) que finalmente conseguiu o reconhecimento do mestrado e ingressou num programa de doutorado em psicologia nos EUA relatou que foi a coisa mais difícil que já fez na vida — e que a qualidade do ensino e o currículo americano estavam muito acima dos padrões que havia experimentado anteriormente. Isso fecha um ciclo: o currículo brasileiro, saturado de psicanálise e teoria não verificável, não apenas dificulta o reconhecimento internacional — ele forma profissionais com lacunas reais em metodologia científica, pesquisa baseada em evidências e abordagens clinicamente validadas. O problema não é só burocrático. É de substância.

            Mas a graduação é o começo, e não o fim. A responsabilidade ética de qualquer profissional de saúde inclui a atualização contínua, a leitura crítica e a disposição de abandonar aquilo que a evidência demonstrou ser insuficiente ou equivocado. Médicos não tratam infecções com sangrias. Físicos não calculam órbitas com a mecânica pré newtoniana. Por que razão parte significativa dos psicólogos e psicanalistas se autoriza a operar com um sistema teórico que não passou pelos filtros básicos da verificação científica?

            A resposta, incômoda, passa pela estrutura da própria psicanálise como instituição. Organizada em torno de institutos, associações e linhagens de supervisão que funcionam mais como ordens religiosas do que como comunidades científicas, a psicanálise desenvolveu mecanismos sofisticados de autoproteção contra a crítica externa. Quem questiona Freud dentro desses círculos frequentemente é acusado de resistência — e a resistência, claro, é interpretada como mais um sintoma a ser analisado. Trata-se de um sistema fechado, imune à falsificação, o que, segundo o próprio critério proposto por Karl Popper, retira da psicanálise o estatuto de ciência.

            Nada disso significa que toda escuta clínica de orientação psicanalítica seja inútil. A relação terapêutica, o espaço de fala, a atenção ao inconsciente como dimensão relevante da vida psíquica — tudo isso tem valor, e pesquisas sobre efetividade de psicoterapias indicam que fatores comuns a diferentes abordagens, como a aliança terapêutica, explicam grande parte dos resultados positivos, independentemente da teoria adotada. O que não se sustenta é a pretensão de que formulações específicas como o Complexo de Édipo sejam verdades clínicas a serem aplicadas como diagnóstico sobre crianças e famílias. Afirmar que um menino de quatro anos é atraído pela mãe e vê o pai como rival não é apenas cientificamente insustentável. É potencialmente danoso. Pode distorcer a percepção que pais têm de seus filhos, introduzir desconfiança em vínculos afetivos saudáveis e patologizar comportamentos absolutamente normais do desenvolvimento infantil. E quando isso é dito por alguém investido de autoridade profissional, o dano é amplificado pela assimetria de poder que existe entre o especialista e quem procura ajuda.

            O século XXI dispõe de neurociência cognitiva, psicologia baseada em evidências, teoria do apego, psicologia do desenvolvimento com metodologia rigorosa e uma compreensão de infância que não passa pelo filtro distorcido de um clínico vienense do século XIX. Usar essas ferramentas não é negar a história do pensamento psicológico. É simplesmente fazer jus à responsabilidade que qualquer profissional tem diante de quem confia nele. E é, antes de tudo, um gesto de respeito pelo ser humano que está do outro lado — especialmente quando esse ser humano é uma criança.


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