domingo, 5 de abril de 2026

EXPERIÊNCIA: UM PROCESSO QUE A MENTE HUMANA PARECE NÃO QUERER

A HISTÓRIA DO SUJEITO TEIMOSO

TRÊS TENTATIVAS, DOIS MIL ANOS E NENHUM APRENDIZADO

Por Heitor Jorge Lau

 

            Existe uma pergunta que ninguém faz em voz alta, mas que, convenhamos, já passou pela cabeça de qualquer pessoa minimamente honesta consigo mesma: E se o problema não for a falta de salvadores — mas a abundância de pessoas esperando ser salvas?

            Permita-me contar uma história. Você já conhece. Mas talvez não a tenha ouvido assim.

 

            Certo dia, há mais ou menos dois mil anos — numa época sem anestesia, sem advogado de defesa e sem serviço de entrega em domicílio —, nasceu um sujeito numa manjedoura.

            Uma manjedoura.

            Onde comem os animais.

            Já começou mal.

            A mãe, uma jovem que teve a gravidez mais surpreendente da história da humanidade, fez o que pôde. O pai adotivo, um carpinteiro com uma fé admirável e um ego à prova de situações constrangedoras, também colaborou. Três reis magos apareceram com presentes — ouro, incenso e mirra — sendo que dois desses itens são absolutamente inúteis para um recém-nascido, mas tudo bem, a intenção era boa e em presente não se olham os dentes nem o manual de instruções.

            Houve estrela. Houve anjo. Houve um rei paranoico decretando o assassinato de todas as crianças da região — porque toda boa história de nascimento precisa de um vilão completamente desproporcional.

            O menino sobreviveu.

            E o mundo respirou aliviado.

            Temporariamente.

 

            O sujeito cresceu e, quando chegou à idade adulta, saiu pelo mundo com uma proposta revolucionária, perturbadora, quase subversiva na sua simplicidade:

            Sejam legais uns com os outros.

            Basicamente isso.

            Ele curou doentes, ressuscitou mortos, transformou água em vinho — o que, convenhamos, é o milagre mais socialmente útil de toda a lista — e alimentou multidões com o que parecia ser o cardápio mais esticado da história da gastronomia.

            As pessoas adoraram.

            Seguiram ele por todo lado.

            Ouviram cada palavra.

            E não mudou absolutamente nada.

            Pelo contrário — nos séculos seguintes, seus seguidores mais dedicados promoveram guerras santas, torturas institucionalizadas, queima de pessoas consideradas inconvenientes e uma quantidade de hipocrisia que nem o maior dos milagres conseguiria mensurar.

            Mas eram muito devotos. Isso ninguém pode negar.

 

            Então chegou o dia mais inconveniente da história.

            O sujeito morreu.

            De forma brutal, injusta e com uma produção cenográfica que Hollywood levaria séculos para reproduzir — e reproduziu, várias vezes, com trilha sonora e tudo.

            As pessoas, tocadas até a medula, reuniram-se e disseram com olhos marejados:

— Que homem extraordinário! Que mensagem poderosa! A humanidade jamais será a mesma!

            Spoiler: foi exatamente a mesma.

            Mais guerras. Desta vez em nome dele — o que adicionou uma camada extra de criatividade à hipocrisia humana.

 

            Três dias depois — porque o sujeito claramente não havia terminado o que tinha a dizer, e quem pode culpá-lo —, aconteceu o evento que nenhum roteirista ousaria propor numa reunião de pauta:

            Ele voltou.

            Ressuscitou.

            Apareceu para os amigos, que reagiram com uma mistura de alegria, incredulidade e o tipo de pânico que acontece quando alguém que você viu morrer aparece na sua cozinha numa manhã de domingo.

            E o que o sujeito fez com essa segunda chance extraordinária, com esse bônus existencial sem precedentes na história da humanidade?

            Transmitiu mais mensagens de paz e amor.

            Naturalmente.

            Porque era o que ele sabia fazer. E porque acreditava, com um otimismo comovente — e ligeiramente delirante —, que desta vez ia funcionar.

            Não funcionou.

            Mais guerras.

            Desta vez com canhões.

 

            O sujeito então subiu aos céus — literalmente, na frente de todo mundo, com testemunhas e tudo — com a serenidade de quem entregou o trabalho, fez hora extra não remunerada, ressuscitou sem adicional de insalubridade, e ainda assim o cliente não ficou satisfeito.

            E as pessoas?

            As pessoas sentaram.

            E permanecem sentadas.

            Esperando-o voltar.

            De novo.

            Pela terceira vez.

            Como se nas duas primeiras o problema tivesse sido a quantidade insuficiente de visitas.

 

            Suponhamos — num exercício de especulação séria embrulhada em papel de deboche — que ele resolva realmente voltar.

            Numa quinta-feira qualquer. Sem aviso prévio.

            O que aconteceria?

            Primeiro: ninguém concordaria que é ele. Haveria comissão de verificação, exigência de documentos, perícia nas marcas das mãos — com laudo assinado por três especialistas e reconhecimento em cartório.

            Segundo: os canais de televisão brigariam pelos direitos de transmissão exclusiva. Alguém perguntaria a opinião dele sobre o imposto de renda.

            Terceiro: as diferentes facções religiosas — cada uma convicta de possuir a versão correta e exclusiva do manual de instruções — entrariam em conflito sobre qual delas tinha razão. Possivelmente à bala. Em nome dele. Novamente.

            E o sujeito, lá no meio, com sua mensagem de sempre — sejam legais uns com os outros, pelo amor de mim literalmente — olharia ao redor, veria exatamente o mesmo circo de dois mil anos atrás com melhor tecnologia e roupas mais feias, e consideraria seriamente se valeu a pena ressuscitar.

 

            Porque o problema nunca foi a falta de mensagem.

            A humanidade tem mensagens de sobra. Tem mensagens empilhadas até o teto. Em papiro, em pergaminho, em papel, em pixel, em stories que somem em 24 horas e em tatuagens que não somem nunca.

            O ser humano é o único animal capaz de ouvir "ame o seu próximo" pela manhã, curtir a frase numa rede social ao meio-dia, e passar a tarde inteira odiando o vizinho com uma criatividade e uma dedicação verdadeiramente impressionantes.

            É um talento. Reconheçamos.

 

            Então fica a pergunta — e desta vez sem deboche, porque ela merece ser feita com seriedade:

            Se dois mil anos de mensagens, milagres, mártires, templos, escrituras e promessas de salvação não foram suficientes para mudar substantivamente a forma como o ser humano trata o ser humano — o que exatamente estamos esperando que mude?

            Outro salvador? Outro profeta? Outro líder? Outro algoritmo?

            Ou será que chegou o momento — desconfortável, incômodo, sem glamour nenhum — de sentar diante do espelho e encarar a única variável que todas as religiões, filosofias e neurociências apontam como central, e que curiosamente é a que menos visitamos:

            Nós mesmos.

            A solução que a humanidade busca lá fora há milênios mora aqui dentro há exatamente o mesmo tempo.

            Só que esse endereço dá mais trabalho de visitar.

            E então — você ainda está esperando-o voltar?


 

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