A HISTÓRIA DO SUJEITO TEIMOSO
TRÊS TENTATIVAS, DOIS MIL ANOS E NENHUM APRENDIZADO
Por Heitor Jorge Lau
Existe uma pergunta que ninguém faz em voz alta, mas que, convenhamos, já passou pela cabeça de qualquer pessoa minimamente honesta consigo mesma: E se o problema não for a falta de salvadores — mas a abundância de pessoas esperando ser salvas?
Permita-me contar uma história. Você já conhece. Mas talvez não a tenha ouvido assim.
Certo dia, há mais ou menos dois mil anos — numa época sem anestesia, sem advogado de defesa e sem serviço de entrega em domicílio —, nasceu um sujeito numa manjedoura.
Uma manjedoura.
Onde comem os animais.
Já começou mal.
A mãe, uma jovem que teve a gravidez mais surpreendente da história da humanidade, fez o que pôde. O pai adotivo, um carpinteiro com uma fé admirável e um ego à prova de situações constrangedoras, também colaborou. Três reis magos apareceram com presentes — ouro, incenso e mirra — sendo que dois desses itens são absolutamente inúteis para um recém-nascido, mas tudo bem, a intenção era boa e em presente não se olham os dentes nem o manual de instruções.
Houve estrela. Houve anjo. Houve um rei paranoico decretando o assassinato de todas as crianças da região — porque toda boa história de nascimento precisa de um vilão completamente desproporcional.
O menino sobreviveu.
E o mundo respirou aliviado.
Temporariamente.
O sujeito cresceu e, quando chegou à idade adulta, saiu pelo mundo com uma proposta revolucionária, perturbadora, quase subversiva na sua simplicidade:
Sejam legais uns com os outros.
Basicamente isso.
Ele curou doentes, ressuscitou mortos, transformou água em vinho — o que, convenhamos, é o milagre mais socialmente útil de toda a lista — e alimentou multidões com o que parecia ser o cardápio mais esticado da história da gastronomia.
As pessoas adoraram.
Seguiram ele por todo lado.
Ouviram cada palavra.
E não mudou absolutamente nada.
Pelo contrário — nos séculos seguintes, seus seguidores mais dedicados promoveram guerras santas, torturas institucionalizadas, queima de pessoas consideradas inconvenientes e uma quantidade de hipocrisia que nem o maior dos milagres conseguiria mensurar.
Mas eram muito devotos. Isso ninguém pode negar.
Então chegou o dia mais inconveniente da história.
O sujeito morreu.
De forma brutal, injusta e com uma produção cenográfica que Hollywood levaria séculos para reproduzir — e reproduziu, várias vezes, com trilha sonora e tudo.
As pessoas, tocadas até a medula, reuniram-se e disseram com olhos marejados:
— Que homem extraordinário! Que mensagem poderosa! A humanidade jamais será a mesma!
Spoiler: foi exatamente a mesma.
Mais guerras. Desta vez em nome dele — o que adicionou uma camada extra de criatividade à hipocrisia humana.
Três dias depois — porque o sujeito claramente não havia terminado o que tinha a dizer, e quem pode culpá-lo —, aconteceu o evento que nenhum roteirista ousaria propor numa reunião de pauta:
Ele voltou.
Ressuscitou.
Apareceu para os amigos, que reagiram com uma mistura de alegria, incredulidade e o tipo de pânico que acontece quando alguém que você viu morrer aparece na sua cozinha numa manhã de domingo.
E o que o sujeito fez com essa segunda chance extraordinária, com esse bônus existencial sem precedentes na história da humanidade?
Transmitiu mais mensagens de paz e amor.
Naturalmente.
Porque era o que ele sabia fazer. E porque acreditava, com um otimismo comovente — e ligeiramente delirante —, que desta vez ia funcionar.
Não funcionou.
Mais guerras.
Desta vez com canhões.
O sujeito então subiu aos céus — literalmente, na frente de todo mundo, com testemunhas e tudo — com a serenidade de quem entregou o trabalho, fez hora extra não remunerada, ressuscitou sem adicional de insalubridade, e ainda assim o cliente não ficou satisfeito.
E as pessoas?
As pessoas sentaram.
E permanecem sentadas.
Esperando-o voltar.
De novo.
Pela terceira vez.
Como se nas duas primeiras o problema tivesse sido a quantidade insuficiente de visitas.
Suponhamos — num exercício de especulação séria embrulhada em papel de deboche — que ele resolva realmente voltar.
Numa quinta-feira qualquer. Sem aviso prévio.
O que aconteceria?
Primeiro: ninguém concordaria que é ele. Haveria comissão de verificação, exigência de documentos, perícia nas marcas das mãos — com laudo assinado por três especialistas e reconhecimento em cartório.
Segundo: os canais de televisão brigariam pelos direitos de transmissão exclusiva. Alguém perguntaria a opinião dele sobre o imposto de renda.
Terceiro: as diferentes facções religiosas — cada uma convicta de possuir a versão correta e exclusiva do manual de instruções — entrariam em conflito sobre qual delas tinha razão. Possivelmente à bala. Em nome dele. Novamente.
E o sujeito, lá no meio, com sua mensagem de sempre — sejam legais uns com os outros, pelo amor de mim literalmente — olharia ao redor, veria exatamente o mesmo circo de dois mil anos atrás com melhor tecnologia e roupas mais feias, e consideraria seriamente se valeu a pena ressuscitar.
Porque o problema nunca foi a falta de mensagem.
A humanidade tem mensagens de sobra. Tem mensagens empilhadas até o teto. Em papiro, em pergaminho, em papel, em pixel, em stories que somem em 24 horas e em tatuagens que não somem nunca.
O ser humano é o único animal capaz de ouvir "ame o seu próximo" pela manhã, curtir a frase numa rede social ao meio-dia, e passar a tarde inteira odiando o vizinho com uma criatividade e uma dedicação verdadeiramente impressionantes.
É um talento. Reconheçamos.
Então fica a pergunta — e desta vez sem deboche, porque ela merece ser feita com seriedade:
Se dois mil anos de mensagens, milagres, mártires, templos, escrituras e promessas de salvação não foram suficientes para mudar substantivamente a forma como o ser humano trata o ser humano — o que exatamente estamos esperando que mude?
Outro salvador? Outro profeta? Outro líder? Outro algoritmo?
Ou será que chegou o momento — desconfortável, incômodo, sem glamour nenhum — de sentar diante do espelho e encarar a única variável que todas as religiões, filosofias e neurociências apontam como central, e que curiosamente é a que menos visitamos:
Nós mesmos.
A solução que a humanidade busca lá fora há milênios mora aqui dentro há exatamente o mesmo tempo.
Só que esse endereço dá mais trabalho de visitar.
E então — você ainda está esperando-o voltar?

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