A TIRANIA SILENCIOSA DO EXCESSO
Por Heitor Jorge Lau
Existe uma violência que não aparece nos noticiários policiais, não deixa marcas visíveis no corpo de ninguém e ainda assim destrói vidas com uma eficiência admirável. Ela opera dentro da lei, usa gravatas e procuradores, assina contratos em cartório e é celebrada em revistas de negócios como sinônimo de inteligência financeira. Chama-se acúmulo predatório — e a sociedade, de forma geral, aprendeu a tratá-la como virtude.
Tome-se o caso dos imóveis. A moradia é, por definição, uma necessidade humana básica. Não é luxo, não é aspiração de consumo, não é item de desejo como um carro novo ou uma viagem ao exterior. É o lugar onde uma pessoa dorme, cria filhos, descansa do mundo, existe com alguma dignidade. E, no entanto, ao longo de décadas, foi transformada em ativo financeiro — objeto de especulação, reserva de valor, instrumento de renda passiva para quem já tem mais do que precisa. Quando uma única pessoa acumula trezentas residências e terras para alugá-las, não está apenas exercendo um direito de propriedade. Está retirando trezentas famílias do mercado de compra e condenando-as ao aluguel perpétuo, com preços que ela mesma ajuda a inflar por meio da escassez que o próprio acúmulo produz. É um mecanismo elegante: compra-se o excesso, cria-se a falta, cobra-se pelo acesso. O mercado agradece. Os inquilinos pagam.
Há um argumento que aparece com regularidade nesse debate, repetido com a convicção de quem acredita estar enunciando uma lei da natureza: o dinheiro é da pessoa e ela faz o que bem entender. É uma frase que soa razoável até ser examinada com alguma seriedade. Porque de onde vem esse dinheiro? De onde vem qualquer riqueza, por maior que seja? Vem do trabalho de outras pessoas — trabalhadores braçais, funcionários mal remunerados, prestadores de serviço que entregam o melhor do seu tempo e da sua saúde em troca de salários que mal cobrem o aluguel que pagarão ao fim do mês ao mesmo sistema que os explora. Vem também da natureza, que não pertence a ninguém e da qual tudo é extraído: o minério, a madeira, a água, o solo fértil. Nada cai do espaço sideral pronto para ser vendido. Tudo tem origem, e essa origem é coletiva, mesmo que a apropriação seja individual.
Dizer que o rico merece tudo o que acumulou porque "trabalhou para isso" é ignorar convenientemente a estrutura que tornou esse trabalho possível — as estradas públicas por onde os produtos circulam, os hospitais que mantiveram a força de trabalho funcionando, as escolas que formaram os engenheiros, os técnicos, os motoristas, os operadores sem os quais nenhuma riqueza privada existiria. A fortuna individual é sempre, em alguma medida, uma conquista coletiva com apropriação privada. E quanto maior a fortuna, maior a dívida silenciosa que ela carrega consigo. Portanto, dizer que “eu trabalhei duro para ter tudo isso” é uma visão imensuravelmente limitada ou cega.
A teoria administrativa, em suas vertentes mais humanistas, há muito já reconheceu que parte do que uma empresa fatura deveria retornar à comunidade de alguma forma — não como caridade opcional, não como marketing de responsabilidade social, mas como reconhecimento estrutural de que a empresa existe dentro de uma sociedade e depende dela para funcionar. Não é uma ideia revolucionária. É quase um bom senso que foi sistematicamente soterrado por décadas de discurso que coloca o lucro acima de tudo e chama isso de eficiência.
O problema não é a prosperidade em si. Não há nada de errado em viver bem, em ter segurança financeira, em deixar algum patrimônio para os filhos. O problema é o excesso sem função social, o acúmulo que não serve a nenhum propósito produtivo além de gerar mais acúmulo, o dinheiro que se reproduz sobre o trabalho alheio enquanto quem trabalha não consegue comprar o teto sobre a própria cabeça. Uma pessoa que acumula imóveis aos montes para extrair aluguel de quem não tem outra opção não está criando riqueza — está apenas redirecionando a riqueza produzida por outros para o próprio bolso, usando como ferramenta a escassez que ela mesma ajudou a construir.
E o trabalhador braçal com pouca instrução formal — que acorda às cinco da manhã, carrega peso que machuca as costas, volta para casa depois de dez horas de sol e ainda entrega boa parte do salário ao proprietário de vários imóveis — esse trabalhador não é um dado do sistema, não é uma variável de custo, não é um recurso humano. É uma vida. Uma vida que merece dignidade não porque foi especialmente produtiva, não porque acumulou o suficiente para merecer respeito, mas simplesmente porque é uma vida. E uma sociedade que precisa lembrar disso toda vez que discute política habitacional ou distribuição de renda já está, ela própria, doente de um jeito difícil de curar.
A lei que proibiria o acúmulo predatório de imóveis não existe na maioria dos países — e onde existe em alguma forma, é tímida, cheia de brechas e mal aplicada. Isso não é um acidente. É o resultado de décadas de influência política exercida exatamente por quem tem mais a perder com qualquer regulação séria. O dinheiro compra imóveis. Compra também parlamentares, narrativas e o silêncio confortável de uma classe de pessoas que acredita piamente que dar um trabalho para quem necessita é o suficiente.
No fim, o que está em jogo não é apenas economia ou política habitacional. É uma escolha sobre o tipo de mundo que se quer habitar. Um mundo onde morar é um direito ou um mundo onde morar é um privilégio que se aluga mês a mês de quem teve a “habilidade” de comprar tudo antes que chegassem os outros. A resposta que se dá a essa pergunta — mesmo que em silêncio, mesmo que sem perceber — diz muito sobre o que uma sociedade realmente acredita quando fala em dignidade humana.

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