TODA OBRA DE ARTE
É UM AUTORRETRATO INVISÍVEL
- um tributo às alunas do Ateliê da Artista Plástica
Márcia Marostega -
por Heitor Jorge Lau
Há quadros
que parecem silenciosos à primeira vista. A tinta repousa sobre a tela como
quem apenas cumpriu um destino estético. Mas basta permanecer alguns instantes
diante de uma obra verdadeira para perceber que ali existe algo pulsando. Algo
que não pertence somente à técnica, à escola artística, ao período histórico ou
à cultura de um tempo.
Existe
alguém ali!
Toda obra
de arte carrega mais do que formas, cores e composições. Ela carrega noites pensantes,
dúvidas escondidas, memórias que nunca foram confessadas em voz alta. Carrega a
ansiedade delicada da criação, aquele instante em que a artista encara a tela
vazia como quem encara a si mesma. Cada pincelada é uma tentativa de organizar
emoções que nem sempre encontram palavras suficientes para existir.
Há
felicidade no ato de revelar. Uma felicidade íntima, quase secreta, que nasce
quando algo finalmente deixa de habitar apenas o coração e ganha forma no mundo...
no universo das artes. Mas junto dessa revelação também existe o medo. O receio
silencioso da rejeição, da incompreensão, do olhar apressado que vê apenas
tinta onde havia sentimento. Porque toda artista, ao criar, inevitavelmente se
expõe. Mesmo quando pinta paisagens, flores, sombras ou figuras abstratas, há
sempre fragmentos dela espalhados pela obra.
E ainda assim, ela recomeça...
Recomeça
após cada insegurança. Após cada tela abandonada. Após cada sensação de não ter
conseguido traduzir exatamente aquilo que ardia dentro dela. Talvez porque a
arte não nasça da perfeição, mas da necessidade humana de continuar tentando
dizer o indizível.
Por isso,
quando contemplamos uma obra de arte com verdadeira sensibilidade, não estamos
apenas admirando uma criação estética. Estamos tocando, ainda que
discretamente, a alma de quem a criou. Estamos diante da coragem de alguém que
transformou sentimentos em imagem, silêncio em cor, fragilidade em permanência.
No fim,
toda grande obra de arte é um autorretrato invisível.
Mesmo
quando a artista jamais pintou o próprio rosto.

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