sexta-feira, 22 de maio de 2026

A TRISTE REALIDADE DA DESUMANIZAÇÃO DOS MAIS VELHOS

O FUTURO NÃO FOI FEITO PARA TODOS

Modernização ou Abandono?

por Heitor Jorge Lau

            Há uma violência silenciosa acontecendo diante dos nossos olhos e, talvez justamente por ser silenciosa, ela passe despercebida pela maioria das pessoas que ainda conseguem acompanhar a velocidade frenética das transformações digitais. Não se trata de uma violência feita com armas, gritos ou ameaças explícitas. Trata-se de uma violência burocrática, tecnológica e institucionalizada. Uma violência fria, automatizada, polida por telas coloridas, slogans modernos e aplicativos “inteligentes” que prometem praticidade enquanto empurram milhões de seres humanos para fora do mundo funcional.

            Criou-se uma narrativa quase religiosa de que a tecnologia veio para facilitar a vida de todos. “Todos.” Essa palavra é repetida como um mantra publicitário, mas ela é profundamente falsa. A tecnologia facilita a vida de quem consegue compreendê-la, acompanhá-la e adaptar-se continuamente às mudanças arbitrárias impostas pelos sistemas. Para milhões de pessoas, especialmente idosos, aposentados, pessoas simples, trabalhadores exaustos e cidadãos sem intimidade com o universo digital, a tecnologia não trouxe liberdade. Trouxe humilhação.

            O mais perverso é que essa exclusão ainda costuma vir acompanhada de culpa. O indivíduo é levado a acreditar que o problema está nele. Se não consegue acessar sua conta, a culpa é dele. Se não entende a autenticação em duas etapas, a culpa é dele. Se não sabe diferenciar conta prata de conta ouro, a culpa é dele. Se o aplicativo trava, muda de interface ou exige reconhecimento facial impossível de concluir, o sistema nunca está errado. O ser humano é que se tornou “desatualizado”.

            Existe algo de profundamente cruel nisso.

            Imagine a ironia: pessoas que trabalharam a vida inteira, pagaram impostos durante décadas, ajudaram a construir o próprio país, criaram filhos, sustentaram famílias, sobreviveram a crises econômicas, ditaduras, hiperinflação e toda espécie de dificuldade, agora precisam implorar diante de um celular para acessar um benefício, consultar um valor esquecido ou simplesmente provar que existem. E muitas vezes não conseguem. A tecnologia deveria servir ao ser humano. Mas em inúmeros serviços públicos ela se tornou um filtro de exclusão. O cidadão não é mais atendido por pessoas, ele é confrontado por labirintos digitais projetados por técnicos que parecem esquecer completamente que do outro lado existe alguém cansado, envelhecido, inseguro ou simplesmente sem familiaridade tecnológica.

            O mais absurdo é perceber que boa parte dessas barreiras sequer é realmente necessária. Muitos sistemas são construídos com uma arrogância técnica quase obscena. Interfaces mal pensadas, excesso de etapas, termos incompreensíveis, validações redundantes, autenticações sucessivas e mensagens vagas como “erro inesperado”, “atualizando sistema”, “tente novamente mais tarde”. Parece que os sistemas foram feitos não para acolher o cidadão, mas para proteger a máquina do contato humano. E quando alguém reclama, surge imediatamente uma espécie de elite digital para ridicularizar o problema. “Mas é tão fácil.” “É só clicar ali.” “Minha avó consegue.” Como se capacidade tecnológica fosse medida de inteligência, dignidade ou valor humano. Existe uma soberba escondida no discurso tecnocrático contemporâneo. Uma incapacidade completa de perceber que aquilo que é intuitivo para alguns pode ser praticamente indecifrável para outros.

            O drama se torna ainda mais revoltante quando os canais humanos desaparecem. Bancos fecham agências. Serviços públicos eliminam atendimentos presenciais. Telefones levam a menus infinitos onde nenhuma opção resolve nada. O cidadão fica abandonado diante de máquinas que não escutam, não interpretam sofrimento e não possuem qualquer sensibilidade humana. O mundo moderno transformou o atendimento em autodefesa institucional: tudo é feito para reduzir custos, eliminar funcionários e transferir o trabalho para o próprio usuário. Hoje o cliente faz o trabalho do caixa. O paciente faz o trabalho da recepção. O cidadão faz o trabalho do atendente público. Todos trabalham gratuitamente para empresas e instituições bilionárias em nome de uma suposta “modernização”.

            E há algo ainda mais grave: a exclusão digital não atinge apenas a praticidade cotidiana. Ela corrói a autonomia psicológica das pessoas. Muitos idosos passam a sentir vergonha de pedir ajuda. Sentem-se inúteis. Dependentes. Lentamente, vão sendo empurrados para uma condição infantilizada diante da própria vida. Precisam que filhos, netos ou terceiros resolvam aquilo que antes conseguiam resolver sozinhos num balcão, numa conversa simples, numa assinatura em papel. A dignidade humana começa a morrer quando alguém perde a autonomia sobre as próprias necessidades básicas.

            O mais irônico é que frequentemente os sistemas são desenvolvidos por pessoas obcecadas pela eficiência, mas completamente desconectadas da experiência humana real. O sujeito consegue criar algoritmos sofisticados, inteligência artificial, integração bancária complexa, mas parece incapaz de compreender uma verdade elementar: nem toda pessoa deseja viver refém de senhas, aplicativos, biometria facial, QR Codes, tokens e verificações intermináveis.

            A obsessão tecnológica contemporânea criou uma sociedade onde envelhecer virou quase um pecado operacional. O idoso passou a ser tratado como incompatibilidade de sistema. E talvez a frase mais cruel do nosso tempo não seja uma ofensa direta, mas uma mensagem automática na tela: “Seu acesso não pôde ser concluído.” Porque ali não está apenas um erro técnico. Está uma declaração simbólica. Uma sociedade inteira dizendo: “Você não acompanha mais o ritmo. Você ficou para trás.” O problema não é a tecnologia em si. Ela pode ser extraordinária. O problema é a transformação da tecnologia em único caminho possível para existir socialmente. Quando o digital deixa de ser uma alternativa e se torna obrigação absoluta, ele deixa de ser progresso e começa a se tornar mecanismo de exclusão.

            Uma civilização minimamente ética jamais eliminaria completamente os caminhos humanos de acesso. Sempre haveria atendimento presencial digno, orientação simples, suporte real e respeito pelo tempo das pessoas. Mas o que vemos é exatamente o contrário: uma pressa desumana de informatizar tudo sem qualquer preocupação genuína com aqueles que serão deixados pelo caminho. E os deixados para trás não são poucos. São milhões. Milhões de pessoas constrangidas diante de caixas eletrônicos. Milhões que fingem entender aplicativos por vergonha. Milhões que anotam senhas em papéis porque não conseguem decorar dezenas de códigos. Milhões que sentem medo quando uma atualização muda tudo de lugar (mas continua fazendo a mesma coisa). Milhões que dependem de filhos ou vizinhos até para acessar um direito básico.

            Isso não é modernidade humanizada. É abandono tecnológico institucionalizado.

            Talvez uma das grandes tragédias do nosso tempo seja justamente esta: nunca tivemos tanta tecnologia e, ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil fazer um ser humano sentir-se incapaz.

 

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