segunda-feira, 2 de novembro de 2026

SOLASTALGIA: A SAUDADE DE CASA ESTANDO EM CASA

SOLASTALGIA: A SAUDADE DE CASA ESTANDO EM CASA

Sobre a nostalgia, a memória e os lugares que mudam diante de nós

por Heitor Jorge Lau

            Existe um tipo de saudade que dispensa a viagem. Não é a de quem partiu e olha para trás, mas a de quem ficou e foi percebendo, aos poucos, que o lugar onde sempre viveu já não é o mesmo. A rua conserva o nome, a casa continua no mesmo número, mas o cheiro, o ruído, o comércio da esquina e a sombra da árvore da calçada não são mais aqueles. Quem passa por isso costuma sentir um desconforto difícil de explicar, porque não há a quem dizer “estou com saudade de casa” sem ouvir como resposta: “mas você está em casa”.

            Para esse sentimento, o filósofo australiano Glenn Albrecht propôs, em 2003, a palavra solastalgia, formada pelo latim solacium, que significa consolo, e pelo grego algos, que significa dor. Seria, portanto, a dor de perder o consolo que um lugar nos oferecia. Albrecht a observou em moradores de uma região cuja paisagem foi profundamente transformada, mas o termo logo ultrapassou a origem e passou a nomear algo que qualquer pessoa já experimentou em escala menor: o bairro da infância irreconhecível, a escola reformada, a padaria que fechou, a praça que ganhou outro desenho. O ponto central é que a perda, aqui, não está na distância, e sim na mudança. É o lugar que parte, enquanto a pessoa fica.

            A palavra irmã, nostalgia, tem uma história curiosa. Ela foi cunhada em 1688 pelo estudante de medicina suíço Johannes Hofer, a partir do grego nostos, que quer dizer regresso, e algos, dor. Hofer a criou para descrever uma doença: o mal que acometia soldados suíços servindo longe de casa, com tristeza persistente, insônia e perda de apetite. Durante muito tempo, médicos procuraram causas físicas para ela e a trataram como enfermidade. Só séculos depois a nostalgia passou a ser compreendida como uma emoção humana comum, e algo curioso aconteceu com o seu sentido: nascida como dor do espaço, a saudade do lugar distante, ela se tornou dor do tempo, a falta de uma época que não volta. A solastalgia reúne as duas, porque o lugar que perdemos é sempre o lugar de um tempo.

            A Antropologia ajuda a entender por que essa perda pesa tanto. O geógrafo Yi-Fu Tuan falou em topofilia, o laço afetivo que as pessoas criam com os lugares, e lembrou que um lugar é diferente de um simples espaço: é um espaço ao qual atribuímos significado. O antropólogo Marc Augé, por sua vez, distinguiu os lugares antropológicos, que carregam identidade, relações e história, dos chamados não-lugares, como aeroportos e corredores de passagem, onde ninguém se demora o bastante para deixar marcas. Quando um lugar cheio de sentido vai perdendo seus traços, as pessoas perdem também parte dos “espelhos” em que se reconheciam. Quem sou eu sem a esquina onde aprendi a andar de bicicleta? A identidade, de certa forma, tem endereço.

            A Psicanálise oferece outra chave. Em “Luto e Melancolia”, de 1917, Freud descreveu o trabalho do luto como o processo lento pelo qual retiramos, pouco a pouco, a energia afetiva depositada em algo ou alguém que perdemos. Mas o luto costuma pressupor uma perda reconhecível, com marcos claros, como a morte, a despedida e o velório. Na solastalgia, não há cerimônia alguma, porque o objeto amado continua ali, apenas modificado. Como elaborar a perda de algo que ainda existe? Isso nos remete a outro conceito freudiano, o estranho familiar, apresentado em 1919. A palavra alemã heimlich, que designa o que é íntimo e doméstico, vem de Heim, o lar, e o seu oposto, unheimlich, descreve aquilo que inquieta justamente por ter sido familiar. O que nos perturba, nesse caso, não é o desconhecido, mas o conhecido que mudou de rosto. O lugar da infância alterado produz exatamente essa sensação.

            A Neurociência acrescenta que a memória não funciona como um arquivo fixo. Cada vez que recordamos, reconstruímos, e o ambiente físico serve como um conjunto de pistas que facilitam esse resgate. O hipocampo, estrutura ligada à memória espacial e à memória de episódios, trabalha em estreita relação com o lugar em que as coisas aconteceram, e o olfato mantém conexões diretas com regiões como a amígdala e o próprio hipocampo, o que ajuda a explicar por que um simples cheiro pode devolver uma tarde inteira em poucos segundos, fenômeno eternizado por Proust no Episódio da Madeleine. É plausível supor, portanto, que, quando o cenário muda, algumas dessas pistas desaparecem e certas lembranças ficam mais difíceis de alcançar. A pessoa sente que perdeu o lugar e, ao mesmo tempo, que está perdendo um pouco do acesso ao que viveu nele.

            Seria um erro, porém, pensar que a nostalgia é apenas dor. Pesquisadores como Constantine Sedikides e Tim Wildschut, da Universidade de Southampton, vêm mostrando em estudos que recordar o passado de forma nostálgica tende a aumentar a sensação de sentido na vida, de conexão com outras pessoas e de continuidade da própria história. A estudiosa Svetlana Boym propôs uma distinção interessante entre dois modos de sentir. Na nostalgia restauradora, a pessoa deseja reconstruir o passado tal como ele era, como se fosse possível fazer o relógio voltar. Na nostalgia reflexiva, ela se demora na saudade, aceita que o tempo passou e usa a lembrança para compreender melhor quem foi e quem é. As duas existem em nós, em proporções que variam conforme a fase da vida e o que está em jogo.

            O português tem uma palavra que costuma ser apontada como difícil de traduzir: saudade. Talvez, ainda assim, nos falte uma para a saudade específica do lugar que mudou diante dos nossos olhos. Há também uma observação antiga que pode adicionar uma camada a essa reflexão. Heráclito dizia que ninguém entra duas vezes no mesmo rio, porque o rio muda e quem entra também muda. Parte da dor da solastalgia talvez venha de esquecermos que não foi apenas o lugar que se transformou. Quem olha também não é mais a criança que corria por aquela calçada. A casa da infância parece menor quando voltamos a ela não só porque foi alterada, mas porque crescemos, e porque aquilo que de fato perdemos não cabe em nenhum endereço: é o olhar com o qual a víamos.

            Este texto não pretende dizer se a mudança dos lugares é boa ou ruim. Cidades, bairros e paisagens se transformam o tempo todo, e nem sempre para pior; muitas vezes, aquilo que parece perda para uns é conquista para outros. A intenção é apenas dar nome a uma experiência silenciosa, porque nomear já é uma maneira de começar a elaborar. Quem descobre que existe uma palavra para o que sente deixa de achar que está exagerando ou sozinho nesse sentimento. E fica uma pergunta que cada leitor pode levar consigo: qual lugar ainda está no mesmo endereço, mas já não mora onde você o deixou?

#Reflexão #Nostalgia #Memória #Saudade #Solastalgia

 

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