SOLASTALGIA: A
SAUDADE DE CASA ESTANDO EM CASA
Sobre a nostalgia, a
memória e os lugares que mudam diante de nós
por Heitor Jorge Lau
Existe um
tipo de saudade que dispensa a viagem. Não é a de quem partiu e olha para trás,
mas a de quem ficou e foi percebendo, aos poucos, que o lugar onde sempre viveu
já não é o mesmo. A rua conserva o nome, a casa continua no mesmo número, mas o
cheiro, o ruído, o comércio da esquina e a sombra da árvore da calçada não são
mais aqueles. Quem passa por isso costuma sentir um desconforto difícil de
explicar, porque não há a quem dizer “estou com saudade de casa” sem ouvir como
resposta: “mas você está em casa”.
Para esse
sentimento, o filósofo australiano Glenn Albrecht propôs, em 2003, a palavra solastalgia,
formada pelo latim solacium, que significa consolo, e pelo grego algos,
que significa dor. Seria, portanto, a dor de perder o consolo que um lugar nos
oferecia. Albrecht a observou em moradores de uma região cuja paisagem foi
profundamente transformada, mas o termo logo ultrapassou a origem e passou a
nomear algo que qualquer pessoa já experimentou em escala menor: o bairro da
infância irreconhecível, a escola reformada, a padaria que fechou, a praça que
ganhou outro desenho. O ponto central é que a perda, aqui, não está na
distância, e sim na mudança. É o lugar que parte, enquanto a pessoa fica.
A palavra
irmã, nostalgia, tem uma história curiosa. Ela foi cunhada em 1688 pelo
estudante de medicina suíço Johannes Hofer, a partir do grego nostos,
que quer dizer regresso, e algos, dor. Hofer a criou para descrever uma
doença: o mal que acometia soldados suíços servindo longe de casa, com tristeza
persistente, insônia e perda de apetite. Durante muito tempo, médicos
procuraram causas físicas para ela e a trataram como enfermidade. Só séculos
depois a nostalgia passou a ser compreendida como uma emoção humana comum, e
algo curioso aconteceu com o seu sentido: nascida como dor do espaço, a saudade
do lugar distante, ela se tornou dor do tempo, a falta de uma época que não
volta. A solastalgia reúne as duas, porque o lugar que perdemos é sempre o
lugar de um tempo.
A
Antropologia ajuda a entender por que essa perda pesa tanto. O geógrafo Yi-Fu
Tuan falou em topofilia, o laço afetivo que as pessoas criam com os
lugares, e lembrou que um lugar é diferente de um simples espaço: é um espaço
ao qual atribuímos significado. O antropólogo Marc Augé, por sua vez,
distinguiu os lugares antropológicos, que carregam identidade, relações e
história, dos chamados não-lugares, como aeroportos e corredores de passagem,
onde ninguém se demora o bastante para deixar marcas. Quando um lugar cheio de
sentido vai perdendo seus traços, as pessoas perdem também parte dos “espelhos”
em que se reconheciam. Quem sou eu sem a esquina onde aprendi a andar de
bicicleta? A identidade, de certa forma, tem endereço.
A
Psicanálise oferece outra chave. Em “Luto e Melancolia”, de 1917, Freud
descreveu o trabalho do luto como o processo lento pelo qual retiramos,
pouco a pouco, a energia afetiva depositada em algo ou alguém que perdemos. Mas
o luto costuma pressupor uma perda reconhecível, com marcos claros, como a
morte, a despedida e o velório. Na solastalgia, não há cerimônia alguma, porque
o objeto amado continua ali, apenas modificado. Como elaborar a perda de algo
que ainda existe? Isso nos remete a outro conceito freudiano, o estranho
familiar, apresentado em 1919. A palavra alemã heimlich, que designa
o que é íntimo e doméstico, vem de Heim, o lar, e o seu oposto, unheimlich,
descreve aquilo que inquieta justamente por ter sido familiar. O que nos
perturba, nesse caso, não é o desconhecido, mas o conhecido que mudou de rosto.
O lugar da infância alterado produz exatamente essa sensação.
A
Neurociência acrescenta que a memória não funciona como um arquivo fixo. Cada
vez que recordamos, reconstruímos, e o ambiente físico serve como um conjunto
de pistas que facilitam esse resgate. O hipocampo, estrutura ligada à memória
espacial e à memória de episódios, trabalha em estreita relação com o lugar em
que as coisas aconteceram, e o olfato mantém conexões diretas com regiões como
a amígdala e o próprio hipocampo, o que ajuda a explicar por que um simples
cheiro pode devolver uma tarde inteira em poucos segundos, fenômeno eternizado
por Proust no Episódio da Madeleine. É plausível supor, portanto, que, quando o
cenário muda, algumas dessas pistas desaparecem e certas lembranças ficam mais
difíceis de alcançar. A pessoa sente que perdeu o lugar e, ao mesmo tempo, que
está perdendo um pouco do acesso ao que viveu nele.
Seria um
erro, porém, pensar que a nostalgia é apenas dor. Pesquisadores como
Constantine Sedikides e Tim Wildschut, da Universidade de Southampton, vêm
mostrando em estudos que recordar o passado de forma nostálgica tende a
aumentar a sensação de sentido na vida, de conexão com outras pessoas e de
continuidade da própria história. A estudiosa Svetlana Boym propôs uma
distinção interessante entre dois modos de sentir. Na nostalgia restauradora,
a pessoa deseja reconstruir o passado tal como ele era, como se fosse possível
fazer o relógio voltar. Na nostalgia reflexiva, ela se demora na
saudade, aceita que o tempo passou e usa a lembrança para compreender melhor
quem foi e quem é. As duas existem em nós, em proporções que variam conforme a
fase da vida e o que está em jogo.
O português
tem uma palavra que costuma ser apontada como difícil de traduzir: saudade.
Talvez, ainda assim, nos falte uma para a saudade específica do lugar que mudou
diante dos nossos olhos. Há também uma observação antiga que pode adicionar uma
camada a essa reflexão. Heráclito dizia que ninguém entra duas vezes no mesmo
rio, porque o rio muda e quem entra também muda. Parte da dor da solastalgia
talvez venha de esquecermos que não foi apenas o lugar que se transformou. Quem
olha também não é mais a criança que corria por aquela calçada. A casa da
infância parece menor quando voltamos a ela não só porque foi alterada, mas
porque crescemos, e porque aquilo que de fato perdemos não cabe em nenhum
endereço: é o olhar com o qual a víamos.
Este texto
não pretende dizer se a mudança dos lugares é boa ou ruim. Cidades, bairros e
paisagens se transformam o tempo todo, e nem sempre para pior; muitas vezes,
aquilo que parece perda para uns é conquista para outros. A intenção é apenas
dar nome a uma experiência silenciosa, porque nomear já é uma maneira de
começar a elaborar. Quem descobre que existe uma palavra para o que sente deixa
de achar que está exagerando ou sozinho nesse sentimento. E fica uma pergunta
que cada leitor pode levar consigo: qual lugar ainda está no mesmo endereço,
mas já não mora onde você o deixou?
#Reflexão #Nostalgia
#Memória #Saudade #Solastalgia

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