quarta-feira, 4 de novembro de 2026

ESTÉTICA ou SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL?

CONTÊINERES SUBTERRÂNEOS PARA OS RESÍDUOS

ESTÉTICA ou SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL?

por Heitor Jorge Lau

            A matéria apresentada na Gazeta do Sul (4 de novembro de 2026) expressa uma proposta interessante para Santa Cruz do Sul, mas há algumas questões técnicas que merecem bastante atenção antes de se considerar a instalação desses equipamentos um avanço na gestão dos resíduos urbanos.

            Um primeiro detalhe chama a atenção: a notícia não anuncia uma decisão definitiva de implantação. A Prefeitura está estudando a possibilidade de realizar um projeto-piloto no município, tendo como referência o modelo utilizado em Balneário Camboriú, Santa Catarina. A reportagem também revela uma característica importante: os resíduos ficam depositados em contêineres instalados abaixo do nível do solo, enquanto a parte superior permite o descarte pela população. No momento da coleta, o equipamento é elevado para que o caminhão possa retirar o material. Isso significa que não estamos falando simplesmente de substituir lixeiras convencionais por recipientes mais bonitos. Estamos falando de instalar uma estrutura subterrânea, com componentes mecânicos, hidráulicos ou eletromecânicos, que exige obras civis, drenagem, higienização e manutenção especializada.

            Minha primeira observação crítica: a redução do impacto visual é uma vantagem evidente, mas não constitui, por si só, uma demonstração de sustentabilidade ambiental. Precisamos avaliar o que acontece com os resíduos, os líquidos gerados, o solo, as águas subterrâneas e os custos de operação durante toda a vida útil do sistema.

 

            Desvantagens e riscos que merecem investigação

            Aqui começa a parte mais importante da análise. O fato de o recipiente ficar enterrado não significa que os problemas relacionados aos resíduos desapareçam. Alguns apenas deixam de ficar visíveis.

           

            Acúmulo de líquidos e chorume

            Este é um dos pontos que eu exigiria que a Prefeitura esclarecesse tecnicamente.

            Resíduos orgânicos, restos de alimentos, líquidos descartados e materiais em decomposição podem produzir líquidos contaminantes. A esse líquido damos o nome de chorume, ou lixiviado. O risco depende da construção do equipamento. Se o contentor for estanque, íntegro e possuir sistema adequado de retenção, o líquido não deve entrar em contato com o solo. Entretanto, precisamos saber:

            - O recipiente possui vedação contra vazamentos?

            - Existe sistema de coleta de líquidos acumulados?

            - Como é feita a retirada e a destinação desses líquidos?

            - A caixa subterrânea possui impermeabilização?

            - Existe sistema de drenagem para águas pluviais?

            - Como são identificados vazamentos e infiltrações?

 

            É importante não afirmar que todo contêiner subterrâneo contamina o solo. Isso não é correto. Mas também seria inadequado presumir que o risco inexiste simplesmente porque o fabricante apresenta o equipamento como ambientalmente seguro.

 

            Água subterrânea e condições do terreno

            Uma instalação subterrânea exige conhecimento prévio das condições geológicas e hidrológicas do local. Em áreas com lençol freático elevado, por exemplo, a instalação pode exigir soluções especiais de impermeabilização, drenagem e ancoragem. A pressão da água subterrânea pode comprometer estruturas mal dimensionadas. Além disso, uma caixa subterrânea mal executada pode receber água da chuva, acumular umidade e favorecer a corrosão de componentes metálicos. Na Rua Marechal Floriano, seria necessário verificar as redes subterrâneas existentes, as condições do pavimento, a drenagem urbana e as características do terreno antes de definir o ponto de instalação.

 

            Higienização e odores

            A Prefeitura de Balneário Camboriú afirma que os equipamentos não geram odores. Essa afirmação precisa ser interpretada com cautela. O armazenamento subterrâneo pode reduzir a exposição dos resíduos e as oscilações térmicas, mas não interrompe a decomposição da matéria orgânica. Se houver resíduos aderidos às paredes, líquidos acumulados, falhas de vedação ou higienização insuficiente, os odores podem persistir. A limpeza precisa alcançar não somente o recipiente removível, mas também as bocas de descarte, a plataforma e as superfícies internas da estrutura.

 

            Falhas mecânicas e hidráulicas

            Este é um problema que não existe da mesma maneira em uma lixeira convencional. O equipamento depende de mecanismos de elevação, componentes hidráulicos, travas de segurança, sensores e estruturas de sustentação. Uma falha pode impedir a coleta ou deixar o equipamento indisponível. A depender do projeto, o reparo exige assistência especializada e peças específicas. Também precisamos considerar a possibilidade de corrosão, desgaste de componentes, infiltrações na instalação elétrica, quando existente, e falhas dos sensores.

 

            Segurança dos usuários e dos trabalhadores

            A movimentação de uma plataforma de elevação exige dispositivos de segurança e procedimentos operacionais rigorosos. É necessário impedir o acesso de pessoas à área de movimentação durante a elevação, evitar quedas no vão subterrâneo e assegurar que a operação seja realizada por trabalhadores capacitados. O equipamento também precisa permanecer protegido contra acionamentos indevidos e vandalismo.

 

            Capacidade insuficiente e descarte inadequado

            Um contentor de mil litros não resolve automaticamente o problema da geração de resíduos. Se a capacidade for insuficiente para a demanda daquele ponto, o resultado será o acúmulo de sacos de lixo na superfície, justamente o problema que se pretende solucionar. Também existe a questão do descarte irregular: móveis, papelões volumosos, restos de construção, óleo, pilhas e outros materiais incompatíveis podem comprometer o funcionamento do equipamento.

 

            Portanto, a implantação precisa estar associada a orientação pública, fiscalização e coleta diferenciada.

 

            Uma descoberta importante: o sistema subterrâneo não é necessariamente mais sustentável

            Encontrei um estudo científico particularmente relevante para a investigação: Life cycle assessment as a decision-making tool for the design of urban solid waste pre-collection and collection/transport systems, publicado na revista científica Resources, Conservation and Recycling. O trabalho compara diferentes sistemas de pré-coleta e transporte de resíduos utilizando a metodologia de Avaliação do Ciclo de Vida (ACV).

            Uma de suas conclusões é especialmente significativa: nos cenários analisados, os sistemas convencionais com contêineres de superfície apresentaram impactos ambientais menores do que os sistemas com contêineres subterrâneos. Isso não significa que todos os modelos subterrâneos sejam ambientalmente piores. O resultado depende das características dos equipamentos, das obras de instalação, da logística de coleta, da energia utilizada e da vida útil considerada.

            Mas essa pesquisa derruba uma associação que frequentemente aparece em campanhas de modernização urbana: tecnologia mais sofisticada não significa necessariamente maior sustentabilidade. A fabricação dos componentes, o concreto utilizado, a escavação, o transporte de materiais, as substituições de peças e a manutenção também precisam entrar na conta ambiental.

 

            O custo que costuma ficar escondido

            A instalação de um contêiner convencional envolve basicamente a aquisição ou locação do recipiente e sua manutenção. Já um sistema subterrâneo envolve uma estrutura muito mais complexa.

 

            Para Santa Cruz do Sul, eu consideraria obrigatória uma planilha que contemplasse:

1.      Componente   à Despesa envolvida   

2.      Obras civis      à Escavação, concreto e pavimentação

3.      Equipamento  à Contentor, plataforma e mecanismos

4.      Instalação       à Montagem, transporte e testes

5.      Operação        à Elevação e recolhimento dos resíduos

6.      Higienização   à Lavagem e desinfecção

7.      Manutenção    à Peças, hidráulica e reparos

8.      Segurança       à Inspeções e dispositivos de proteção

9.      Vida útil          à Substituição e modernização

 

            Observe uma questão fundamental: a instalação de contêineres subterrâneos não representa, isoladamente, avanço significativo nessas prioridades. Ela pode melhorar o acondicionamento e a coleta, mas não reduz necessariamente a quantidade de lixo produzida, não aumenta automaticamente a reciclagem e não garante melhor tratamento dos resíduos. A legislação estabelece que os municípios são responsáveis pela gestão integrada dos resíduos sólidos em seus territórios e prevê mecanismos de controle social, educação ambiental e participação das cooperativas de catadores. Portanto, qualquer projeto de modernização deveria ser apresentado como parte de uma política mais ampla de gestão de resíduos, e não como solução ambiental isolada.

 

            O que eu investigaria especificamente em Santa Cruz do Sul

            A escolha da Rua Marechal Floriano merece uma avaliação própria. A reportagem informa que a intenção é liberar espaço ocupado pelos contêineres tradicionais e ampliar as vagas de estacionamento. Esse objetivo é legítimo do ponto de vista urbanístico. Entretanto, eu não consideraria suficiente justificar um investimento público apenas pela recuperação de espaço na via.

            Há questões que precisam ser respondidas antes da implantação:

            - Condições físicas do local: existem redes de água, esgoto, drenagem, telefonia e energia no ponto escolhido? Qual é a profundidade disponível para escavação? Existe interferência com outras estruturas subterrâneas?

            - Condições ambientais: qual é a situação do lençol freático? Como será feita a impermeabilização? Há previsão de coleta e destinação dos líquidos eventualmente acumulados?

            - Condições operacionais: os caminhões atualmente utilizados pela empresa responsável pela coleta possuem equipamentos compatíveis com o sistema? Qual será o tempo necessário para cada operação?

            - Condições econômicas: quanto custará o conjunto completo? Qual será o custo mensal de operação? Quem pagará pela manutenção? Qual é a vida útil estimada?

            - Condições sanitárias: qual será a frequência de lavagem? Como serão controlados odores, vetores, resíduos aderidos e líquidos provenientes da decomposição?

            - Condições de acessibilidade: a instalação não poderá prejudicar a circulação de pedestres, especialmente pessoas com deficiência e usuários de cadeiras de rodas.

            Essas informações precisam fazer parte do planejamento, não ser providenciadas depois que o equipamento já estiver instalado.

 

            Minha perspectiva: como deveria ser conduzido o projeto-piloto

            Considero acertada a ideia de começar com apenas uma unidade. Isso reduz o risco de um investimento precipitado e permite avaliar o comportamento do equipamento em condições reais. Mas eu acrescentaria uma exigência: o projeto-piloto precisa ter indicadores objetivos de desempenho, definidos antes da instalação:

 

              Indicador                      O que avaliar

1.      | Custo total                à Instalação e operação

2.      | Disponibilidade        à Tempo em funcionamento

3.      | Manutenção              à Frequência e custo dos reparos

4.      | Higienização             à Frequência e eficiência

5.      | Odores                      à Ocorrências registradas

6.      | Vazamentos              à Inspeções e ocorrências

7.      | Coleta                       àTempo e eficiência operacional

8.      | Capacidade               àFrequência de transbordamento

9.      | Reciclagem               àQuantidade efetivamente recuperada

10.  | Satisfação pública     à Avaliação dos usuários

 

            Também considero indispensável estabelecer um período de acompanhamento suficientemente longo para contemplar diferentes condições climáticas e variações na geração de resíduos. Uma avaliação realizada apenas nos primeiros dias de funcionamento seria insuficiente. E existe uma questão adicional: o município deveria comparar o desempenho do equipamento subterrâneo com o de um contêiner convencional instalado em condições equivalentes. Sem essa comparação, não será possível determinar se o investimento realmente produziu ganhos.

 

            Balanço geral: prós e contras

            Avaliação técnica qualitativa da tecnologia, não uma pontuação estatística.

 

            Aspecto                    Avaliação

1.      Estética urbana                       àFavorável

2.      Liberação de espaço               àFavorável

3.      Proteção contra animais         àFavorável, se bem vedado

4.      Proteção contra chuva            àFavorável, dependendo do projeto

5.      Controle de odores                 àFavorável, mas não garantido

Higienização                    àExige cuidados adicionais

6.      Risco de vazamentos             àExige controle específico

Manutenção                     àMais complexa

7.      Investimento inicial                àTendencialmente mais elevado

8.      Dependência tecnológica       àMaior

9.      Eficiência da coleta                àDepende da operação

10.  Sustentabilidade ambiental    àNão comprovadamente superior

11.  Reciclagem                             àNão melhora automaticamente

 

            Modernização urbana não pode ser confundida com sustentabilidade

            Minha avaliação é que os contêineres subterrâneos constituem uma alternativa tecnicamente interessante para determinados ambientes urbanos, principalmente locais de grande circulação de pessoas, concentração comercial e limitação de espaço nas calçadas. Entretanto, não encontrei fundamento para afirmar que essa tecnologia seja, por definição, ambientalmente superior aos contêineres convencionais. Pelo contrário, a pesquisa de avaliação do ciclo de vida que localizei aponta resultados desfavoráveis ao sistema subterrâneo em determinados indicadores ambientais.

            O que considero mais importante é que a Prefeitura de Santa Cruz do Sul não transforme uma iniciativa de modernização paisagística em uma iniciativa apresentada automaticamente como política de sustentabilidade. A sustentabilidade precisa ser demonstrada por resultados mensuráveis, considerando todo o ciclo de vida do equipamento, os recursos empregados, os custos públicos, a prevenção de contaminações e a efetiva melhoria na gestão dos resíduos.

            Eu não sou contrário à implantação. Sou contrário à implantação sem fundamentação técnica, ambiental e econômica suficientemente demonstrada. Um projeto-piloto bem planejado pode ser uma boa oportunidade para o município aprender, testar e decidir. Mas um projeto-piloto sem critérios de avaliação corre o risco de servir apenas para justificar uma expansão futura.

            Se eu tivesse oportunidade de encaminhar perguntas à Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Saneamento e Sustentabilidade, faria estas:

            1. Existe estudo técnico preliminar comparando os custos dos contêineres subterrâneos com os convencionais?

            2. Qual é o investimento total previsto para a instalação do equipamento na Rua Marechal Floriano?

            3. Qual será o custo anual de manutenção, operação e higienização?

            4. Qual é a solução técnica prevista para a contenção e destinação de líquidos provenientes dos resíduos?

            5. Qual é a garantia de impermeabilização da estrutura subterrânea?

            6. Foi realizado estudo das condições geológicas e hidrológicas do local?

            7. Qual é a vida útil estimada do equipamento e de seus componentes hidráulicos?

            8. Quais indicadores serão utilizados para avaliar o sucesso do projeto-piloto?

            9. Existe avaliação comparativa independente dos impactos ambientais do sistema?

            10. Qual será a destinação dos resíduos e como será preservada a coleta seletiva?

 

            Essas perguntas não representam oposição à administração municipal. Representam o exercício legítimo do controle social sobre a aplicação de recursos públicos.

            Uma última consideração: existe material suficiente para uma reflexão pública interessante sobre esse assunto. A questão não é simplesmente decidir se queremos lixeiras subterrâneas ou superficiais. É discutir quais critérios devem orientar o emprego do dinheiro público quando uma administração municipal anuncia uma inovação tecnológica com justificativa ambiental. Eu considero essa uma discussão especialmente pertinente para Santa Cruz do Sul e você?

 

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