terça-feira, 4 de maio de 2021

O Narcisismo

 

            O narcisismo descreve uma condição psicológica e uma condição cultural. Em nível individual, indica uma perturbação da personalidade caracterizada por um investimento exagerado na imagem da própria pessoa à custa do self. Os narcisistas estão mais preocupados com o modo como se apresentam do que com o que sentem. De fato, eles negam quaisquer sentimentos que contradigam a imagem que procuram apresentar. Agindo sem sentimento, tendem a ser sedutores e ardilosos, empenhando-se na obtenção de poder e de controle. São egoístas, concentrados em seus próprios interesses, mas carentes dos verdadeiros valores do self — notadamente, autoexpressão, serenidade, dignidade e integridade. Aos narcisistas falta um sentimento do self derivado de sensações corporais. Sem um sólido sentimento do self, vivem a vida como algo vazio e destituído de significado. É um estado de desolação.  Em nível cultural, o narcisismo pode ser considerado como perda de valores humanos — uma ausência de interesse pelo meio ambiente, pela qualidade de vida, pelos seres humanos - seus semelhantes.

            Uma sociedade que sacrifica o meio ambiente natural em nome do lucro e do poder revela sua insensibilidade em face das necessidades humanas. A proliferação de coisas materiais converte-se em medida de progresso na vida, e o homem é oposto à mulher, o trabalhador ao patrão, o indivíduo à comunidade. Quando a riqueza ocupa uma posição mais elevada do que a sabedoria, quando a notoriedade é mais admirada do que a dignidade, quando o êxito é mais importante de que o respeito por si mesmo, a própria cultura sobrevaloriza a "imagem" e deve ser considerada narcisista.  O narcisismo do indivíduo corre a par com o da cultura. A cultura é modelada de acordo com a imagem do indivíduo e, por sua vez, a sociedade é modelada por essa cultura. É possível entender uma sem compreender a outra? Pode a psicologia ignorar a sociologia, ou vice-versa?

            As neuroses de antigamente, representadas por culpas, ansiedades, fobias ou obsessões incapacitadoras, não, são comumente vistas hoje em dia. Pelo contrário, mais pessoas se queixam de depressão; elas descrevem uma ausência de sentimento, um vazio interior, uma sensação profunda de frustração e de insatisfação com o que lograram realizar na vida. Muitas delas são bem-sucedidas em seu trabalho, o que sugere uma divisão entre o que realizam no mundo e o que vai em seu íntimo. O que parece algo estranho é uma relativa ausência de ansiedade e culpa, apesar da seriedade do distúrbio. Essa ausência de ansiedade e culpa, conjugada com a ausência de sentimento, gera uma impressão de irrealidade em torno dessas pessoas. Seu desempenho — social, sexual e profissional — parece eficiente demais, mecânico demais, perfeito demais para ser humano. Elas funcionam mais como máquinas do que como pessoas. Os narcisistas podem ser identificados por sua falta das melhores qualidades humanas: ternura, compaixão, solidariedade. Não sentem a tragédia de uma vida consumida tentando provar seu valor a um mundo indiferente. Quando a fachada narcisista de superioridade e singularidade desmorona, permitindo que a sensação de perda e tristeza se torne consciente, é frequentemente tarde demais.

             O narcisismo denota um grau de irrealidade no indivíduo e na cultura. A irrealidade não é apenas neurótica, ela toca as raias da psicose. Existe algo de loucura num padrão de comportamento que coloca a ambição de êxito acima da necessidade de amar e ser amado. Há algo de loucura numa pessoa que não está em contato com a realidade de seu ser — o corpo e suas sensações. E existe algo de loucura numa cultura que polui o ar, as águas e a terra em nome de um padrão de vida "mais elevado". Mas, pode uma cultura ser insana? A loucura é vista como o estigma de um indivíduo que está alienado da realidade de sua cultura. Por este critério (o qual possui sua validade), o narcisista bem-sucedido está longe de ser louco. A menos, é claro, que exista alguma insanidade na própria cultura. A atividade frenética das pessoas nas grandes cidades — pessoas que estão tentando ganhar mais dinheiro, conquistar mais poder, ir em frente —é como uma ponta de loucura. Não é o frenesi um sinal de loucura?

            Para entender a insanidade embutida no narcisismo, é necessária uma visão mais ampla, não-técnica, dos problemas de personalidade. Quando o ruído na cidade, por exemplo, é suficiente para "enlouquecer" qualquer mortal, está se falando numa linguagem que é real, humana e significativa. Quando se descreve alguém como "um tanto louco", se está expressando uma verdade não encontrada na literatura psiquiátrica. É preciso compreender as causas culturais que criam o problema e os fatores na personalidade humana que predispõem o indivíduo para esse problema. E cumpre-nos saber o que é ser humano, se quisermos evitar tornar-nos narcisistas.

            O tratamento de pacientes narcisistas tenta resgatar ou estabelecer contato com seus corpos, a recuperar seus sentimentos suprimidos e a reaver sua humanidade perdida. Tal abordagem implica trabalhar para reduzir as tensões e a rigidez musculares que refreiam os sentimentos da pessoa. Mas nunca as técnicas específicas para tal devem ser consideradas como o processo mais importante. A chave para a terapia é a compreensão. Sem compreensão, nenhuma abordagem ou técnica terapêutica é significativa ou eficaz em nível profundo. Somente com compreensão é possível oferecer real ajuda. Todos os pacientes buscam desesperadamente alguém que os compreenda. Quando crianças, não foram compreendidos por seus pais; não foram vistos como indivíduos dotados de sentimentos nem tratados com respeito por sua condição humana. Um terapeuta que não discirna a dor em seus pacientes, que não perceba o seu medo e ignore a intensidade da luta que travam para conservarem sua sanidade, numa situação familiar suscetível de levá-los à loucura, não poderá ajudar eficazmente os pacientes a resolverem o distúrbio narcisista.

quinta-feira, 29 de abril de 2021

A Sombra de Todo Ser Humano

 

                O LADO DA SOMBRA NA VIDA COTIDIANA

                Em 1886, mais de uma década antes de Freud sondar as profundezas da escuridão humana, Robert Louis Stevenson teve um sonho altamente revelador: um homem, perseguido por um crime, engolia um certo pó e passava por uma drástica mudança de caráter, tão drástica que ele se tornava irreconhecível. O amável e laborioso cientista Dr. Jekyll transformava-se no violento e implacável Mr. Hyde, cuja maldade assumia proporções cada vez mais grotescas à medida que o sonho se desenrolava. Stevenson desenvolveu o sonho no seu famoso romance The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde (O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde). Seu tema integrou-se de tal modo na cultura popular que se pensa nele quando alguém diz: "Eu não era eu mesmo", ou "Ele parecia possuído por um demônio", ou "Ela virou uma megera". Como dizia John Sanford (analista junguiano) se uma história como essa toca tão a fundo e soa tão verdadeira, é porque ela contém uma qualidade arquetípica — ela fala de um ponto no ser humano que é universal. Todos contêm um Dr. Jekyll e um Mr. Hyde: uma persona agradável para o uso cotidiano e um eu oculto e noturno) que permanece amordaçado a maior parte do tempo. Emoções e comportamentos negativos — raiva, inveja, vergonha, falsidade, ressentimento, lascívia, cobiça, tendências suicidas e homicidas — ficam escondidos logo abaixo da superfície, mascarados pelo eu mais apropriado às conveniências.

                Em seu conjunto, são conhecidos na psicologia como a Sombra Pessoal, que continua a ser um território indomado e inexplorado para a maioria das pessoas.

                A apresentação da sombra

                A sombra pessoal desenvolve-se naturalmente em todas as crianças. Na medida da identificação com as características ideais de personalidade (tais como polidez e generosidade) que são encorajadas pelo ambiente, acontece a formatação daquilo que W. Brugh Joy chama de: "eu das decisões de Ano Novo". Ao mesmo tempo, vai enterrando na sombra aquelas qualidades que não são adequadas à autoimagem, como a rudeza e o egoísmo. O ego e a sombra, portanto, desenvolvem-se aos pares, criando-se mutuamente a partir da mesma experiência de vida. Carl Jung viu em si mesmo a inseparabilidade do ego e da sombra, num sonho que descreve em sua autobiografia Memories, Dreams, Reflections (Memórias, Sonhos, Reflexões): “Era noite, em algum lugar desconhecido, e eu avançava com muita dificuldade contra uma forte tempestade. Havia um denso nevoeiro. Eu segurava e protegia com as mãos uma pequena luz que ameaçava extinguir-se a qualquer momento. Eu sentia que precisava mantê-la acesa, pois tudo dependia disso. De súbito, tive a sensação de que estava sendo seguido. Olhei para trás e percebi uma gigantesca forma escura seguindo meus passos. Mas no mesmo instante tive consciência, apesar do meu terror, de que eu precisava atravessar a noite e o vento com a minha pequena luz, sem levar em conta perigo algum. Ao acordar, percebi de imediato que havia sonhado com a minha própria sombra, projetada no nevoeiro pela pequena luz que eu carregava. Entendi que essa pequena luz era a minha consciência, a única luz que possuo. Embora infinitamente pequena e frágil em comparação com os poderes das trevas, ela ainda é uma luz, a minha única luz”.

                Muitas forças estão em jogo na formação da sombra e, em última análise, determinam o que pode e o que não pode ser expresso. Pais, irmãos, professores, clérigos e amigos criam um ambiente complexo no qual se aprende aquilo que representa o comportamento gentil, conveniente e moral, e aquilo que é mesquinho, vergonhoso e pecaminoso. A sombra age como um sistema imunológico psíquico, definindo o que é eu e o que é não-eu. Pessoas diferentes, em diferentes famílias e culturas, consideram de modos diversos aquilo que pertence ao ego e aquilo que pertence à sombra. Por exemplo, alguns permitem a expressão da raiva ou da agressividade; a maioria, não. Alguns permitem a sexualidade, a vulnerabilidade ou as emoções fortes; muitos, não. Alguns permitem a ambição financeira, a expressão artística ou o desenvolvimento intelectual; outros, não. Todos os sentimentos e capacidades que são rejeitados pelo ego e na sombra contribuem para o poder oculto do lado escuro da natureza humana. No entanto, nem todos eles são aquilo que se considera traços negativos. De acordo com Liliane FreyRohn (analista junguiana), esse escuro tesouro inclui a porção infantil, os apegos emocionais e sintomas neuróticos bem como os talentos e dons não-desenvolvidos. A sombra, diz ela, "mantém contato com as profundezas perdidas da alma, com a vida e a vitalidade — o superior, o universalmente humano, sim, mesmo o criativo pode ser percebido ali".

                A rejeição da sombra

                Não se pode olhar diretamente para esse domínio oculto. A sombra é, por natureza, difícil de ser apreendida. Ela é perigosa, desordenada e eternamente oculta, como se a luz da consciência pudesse roubar-lhe a vida. James Hillman (analista junguiano), autor de diversas obras, diz: "O inconsciente não pode ser consciente; a Lua tem seu lado escuro, o Sol se põe e não pode iluminar o mundo todo ao mesmo tempo [...]. A atenção e o foco exigem que algumas coisas fiquem fora do campo visual, permaneçam no escuro. Não se pode olhar em duas direções ao mesmo tempo". Por essa razão, a sombra geralmente é percebida indiretamente, nos traços e ações desagradáveis das outras pessoas, lá fora, onde é mais seguro observá-la. Reações intensas a uma qualidade qualquer (preguiça, estupidez, sensualidade, espiritualidade, etc.) de uma pessoa ou grupo, e a pessoas se “enche” de grande aversão ou admiração — essa reação talvez seja a própria sombra se revelando. O ser humano se projeta ao atribuir essa qualidade à outra pessoa, num esforço inconsciente de bani-la de si mesmo, de evitar vê-la dentro de si.

                Marie-Louise von Franz (analista junguiana) sugere que essa projeção é como disparar uma flecha mágica. Se o destinatário tem um "ponto fraco" onde receber a projeção, então ela se mantém, se projetada a raiva sobre um companheiro insatisfeito, ou o poder de sedução sobre um atraente estranho, ou os atributos espirituais sobre um guru, então o alvo é atingido e a projeção se mantém. Daí em diante, emissor e receptor estarão unidos numa misteriosa aliança, como apaixonar-se ou encontrar o herói (ou vilão) perfeito. A sombra pessoal contém, portanto, todos os tipos de potencialidades não desenvolvidas e não-expressas. Ela é aquela parte do inconsciente que complementa o ego e representa as características que a personalidade consciente se recusa a admitir e, portanto, negligencia, esquece e enterra até redescobri-las em confrontos desagradáveis com os outros.

                O encontro com a sombra

                Embora não se possa fitá-la diretamente, a sombra surge na vida diária. Por exemplo, ela se encontra em tiradas humorísticas (tais como piadas sujas ou brincadeiras tolas) que expressam as emoções ocultas, inferiores ou temidas. Analisando de perto aquilo que é engraçado (como alguém escorregando numa casca de banana ou se referindo a uma parte "proibida" do corpo), se descobre que sombra pessoal está ativa. John Sanford diz que é possível que as pessoas destituídas de senso de humor tenham uma sombra muito reprimida. Em geral, é a sombra que ri das piadas. Molly Tuby (psicanalista inglesa) sugere seis outras maneiras pelas quais, mesmo sem saber, a sombra pode ser encontrada no dia-a-dia:

         Nos sentimentos exagerados em relação aos outros ("Eu simplesmente não acredito que ele tenha feito isso!", "Não consigo entender como ela é capaz de usar uma roupa dessas!")

         Na opinião negativa que se recebe daqueles que servem de espelhos ("Já é a terceira vez que você chega tarde sem me avisar.")

         Nas interações em que continuamente se exerce o mesmo efeito perturbador sobre diversas pessoas diferentes ("Eu e o Sam achamos que você não está sendo honesto com a gente.")

         Nos nossos atos impulsivos e não-intencionais ("Puxa, desculpe, eu não quis dizer isso!")

         Nas situações de humilhação ("Estou tão envergonhada com o jeito que ele me trata.")

         Na raiva exagerada em relação aos erros alheios ("Ela simplesmente não consegue fazer seu trabalho em tempo!", "Cara, mas ele perdeu totalmente o controle do peso!")

                Em momentos como esses, de dominação por fortes sentimentos de vergonha ou de raiva, ou quando se descobre que o próprio comportamento é inaceitável, é a sombra que está irrompendo de um modo inesperado. E em geral ela retrocede com igual velocidade; pois encontrar a sombra pode ser uma experiência assustadora e chocante para a autoimagem. Por essa razão, é possível mudar rapidamente para a negação, deixando de prestar atenção a fantasias homicidas, a pensamentos suicidas ou a embaraçosos sentimentos de inveja, que revelariam um pouco da própria escuridão. R. D. Laing (psiquiatra já falecido) descreve de modo poético o reflexo de negação da mente: “O alcance do que pensamos e fazemos é limitado pelo que deixamos de notar. E por deixarmos de notar que deixamos de notar pouco podemos fazer para mudar, até que notemos como o deixar de notar forma nossos pensamentos e ações”. Se a negação permanecer, então, como diz Laing, talvez nem sequer é notado que foi deixado de notar. Por exemplo, é comum encontrar a sombra na meia-idade, quando mais profundas necessidades e valores tendem a mudar de direção. Isso exige a quebra de velhos hábitos e o cultivo de talentos adormecidos. Ao não parar para ouvir atentamente o chamado e continuar a se mover na mesma direção anterior, se permanece inconsciente daquilo que a meia-idade tem a ensinar.

                A depressão também pode representar uma confrontação paralisante com o lado escuro, um equivalente moderno da "noite escura da alma" do místico. A exigência interior para que se desça ao mundo subterrâneo pode ser suplantada por considerações de ordem externa (como a necessidade de trabalhar por longas horas), pela interferência dos outros ou por drogas antidepressivas que amortecem a sensação de desespero. Nesse caso, se deixa de apreender o propósito da melancolia. Encontrar a sombra pede uma desaceleração do ritmo da vida, pede que se ouça as indicações do próprio corpo e que conceda tempo para estar a sós, a fim de poder digerir as mensagens misteriosas do mundo oculto.

                A sombra coletiva

                Hoje em dia, todos se defrontam com o lado escuro da natureza humana ao abrir um jornal ou ouvir o noticiário. Os efeitos mais repulsivos da sombra tornam-se visíveis na esmagadora mensagem diária dos meios de comunicação, transmitida em massa para toda a moderna aldeia global eletrônica. O mundo tornou-se um palco para a sombra coletiva. A sombra coletiva — a maldade humana — encara de praticamente todas as partes: ela salta das manchetes dos jornais; vagueia pelas ruas e, sem lar, dorme no vão das portas; entoca-se nas chamativas sexshops das cidades; desvia o dinheiro do sistema de financiamento habitacional; corrompe os políticos famintos de poder e perverte o sistema judiciário; conduz exércitos invasores através de densas florestas e áridos desertos; vende armamentos a líderes ensandecidos e repassa os lucros a insurgentes reacionários; por canos ocultos, despeja a poluição nos rios e oceanos; com invisíveis pesticidas, envenena o alimento.

                Essas observações não constituem algum novo fundamentalismo a martelar uma versão bíblica da realidade. A época atual fez, de todos, testemunhas forçadas. O mundo todo observa. Não há como evitar o assustador espectro de sombras satânicas mostrado por políticos coniventes, os colarinhos-brancos criminosos e terroristas fanáticos. O anseio interior por integração — agora tornado manifesto na máquina de comunicação global — força todos a enfrentar a conflitante hipocrisia que hoje está em toda parte. Enquanto a maioria das pessoas e grupos vive o lado socialmente aceitável da vida, outras parecem viver as porções socialmente rejeitadas pela vida. Quando essas últimas se tomam objeto de projeções grupais negativas, a sombra coletiva toma a forma de racismo, de busca de "bode expiatório" ou de criação do "inimigo". Para os americanos anticomunistas, a U.R.S.S. era o Império do Mal. Para os muçulmanos, os Estados Unidos são o Grande Satã. Para os nazistas, os judeus são vermes bolcheviques. Para o monge asceta cristão, as bruxas têm parte com o diabo. Para os sul-africanos defensores do Apartheid e os americanos da Ku Klux Klan, os negros são subumanos e não merecem ter os direitos e privilégios dos brancos. O poder hipnótico e a natureza contagiosa dessas fortes emoções ficam evidentes na extensão e universalidade das perseguições raciais, das guerras religiosas e das táticas de busca de bodes expiatórios. E, é assim que os seres humanos tentam desumanizar outros, num esforço para assegurar que eles são superiores — e que matar o inimigo não significa matar seres humanos iguais a eles.

                Ao longo da história, a sombra tem surgido (através da imaginação humana) como um monstro, um dragão, um Frankenstein, uma baleia branca, um extraterrestre ou um homem tão vil que não se pode nos espelhar nele — ele está tão distante quanto uma Górgona (criatura da mitologia grega). Revelar o lado escuro da natureza humana tem sido, então, um dos propósitos básicos da arte e da literatura. Como disse Nietzsche: "Temos arte para que a realidade não nos mate." Usando as artes e a mídia (aí incluída a propaganda política) para criar imagens tão más ou demoníacas quanto à sombra, se tenta ganhar poder sobre ela, quebrar seu feitiço. Isso pode ajudar a explicar por que o ser humano fica tão excitados com as violentas arengas de arautos da guerra e de fanáticos religiosos. Simultaneamente repelidos e atraídos pela violência e pelo caos do mundo.

                A projeção também pode ajudar a explicar a imensa popularidade dos filmes e romances de terror. Através de uma representação simbólica do lado da sombra, os impulsos para o mal podem ser encorajados, ou talvez aliviados, na segurança do livro ou da tela. As crianças, tipicamente, começam a aprender os assuntos da sombra ao ouvir contos de fada que mostram a guerra entre as forças do bem e do mal, fadas-madrinhas e terríveis demônios. As crianças, como os adultos, também sofrem simbolicamente as provações de seus heróis e heroínas e, assim, aprendem os padrões universais do destino humano. Na batalha da censura que hoje se desenrola no campo da mídia e da música, aqueles que pretendem estrangular a voz da sombra talvez não compreendam sua urgente necessidade de ser ouvida. Num esforço para proteger os jovens, os censores reescrevem Chapeuzinho Vermelho e fazem com que ela não seja mais devorada pelo lobo; mas, desse modo, acabam deixando os jovens despreparados para enfrentar o mal com que irão se defrontar. Como a sociedade, cada família também constrói seus próprios tabus, suas áreas proibidas. A sombra familiar contém tudo o que é rejeitado pela percepção consciente de uma família, aqueles sentimentos e ações que são considerados demasiado ameaçadores à sua autoimagem.

                Numa honrada e conservadora família cristã, a ameaça talvez seja embriagar-se ou desposar alguém de outra religião; numa família liberal e ateia, talvez seja a opção pelos relacionamentos homossexuais. Na sociedade, espancamento da esposa e abuso dos filhos costumavam ficar ocultos na sombra familiar, mas hoje emergem, em proporções epidêmicas, à luz do dia. O lado escuro não é nenhuma conquista evolucionária recente, resultado de civilização e educação. Ele tem suas raízes numa sombra biológica, que se baseia nas próprias células. Os ancestrais animalescos, afinal de contas, sobreviveram graças às presas e às garras. A besta nas pessoas está viva, muito viva — só que a maior parte do tempo encarcerada. Muitos antropólogos e sociobiólogos acreditam que a maldade humana seja resultado do controle da agressividade animal, da opção pela cultura em detrimento da natureza e da perda de contato com a selvageria primitiva. Melvin Konner (médico e antropólogo) conta, em The Tangled Wing, que foi a um zoológico, viu uma placa que dizia "O Animal Mais Perigoso da Terra" e se descobriu olhando para um espelho. Conhece-te a ti mesmo. Em tempos remotos, o ser humano reconhecia as diversas dimensões da sombra: a pessoal, a coletiva, a familiar e a biológica. Nos degraus do templo de Apolo em Delfos — erigido na encosta do Monte Parnaso pelos gregos do período clássico e hoje destruído — os sacerdotes gravaram na pedra duas famosas inscrições, dois preceitos que ainda guardam imensa significação para nos dias de hoje.

                O primeiro deles, "Conhece-te a ti mesmo". Conheça tudo sobre você mesmo, aconselhavam os sacerdotes do deus da luz. É possível dizer: Conheça especialmente o lado escuro de você mesmo. Os seres humanos são descendentes diretos da mente grega. A sombra continua a ser o grande fardo do autoconhecimento, o elemento destrutivo que não quer ser conhecido. Os gregos entenderam muito bem esse problema e sua religião os compensava pelo lado de baixo da vida. Era na mesma encosta da montanha acima de Delfos que os gregos celebravam, todos os anos, as suas famosas bacanais, as orgias que glorificavam a poderosa e criativa presença do deus da natureza, Dioniso, nos seres humanos. Hoje, Dioniso foi aviltado e apenas subsiste nas imagens de Satã, o Diabo de cascos fendidos, personificação do mal. Não mais um deus a ser reverenciado e digno de receber um tributo, ele foi banido para o mundo dos anjos caídos. Marie-Louise von Franz reconhece a relação entre o diabo e a sombra pessoal quando diz: "Na verdade, o princípio da individuação está relacionado com o elemento diabólico na medida em que este último representa a separação do divino dentro da totalidade da natureza. Os aspectos diabólicos são os elementos destrutivos — os afetos, o impulso autônomo de poder e coisas semelhantes. Eles rompem a unidade da personalidade".

                Nada em excesso

                A outra inscrição em Delfos talvez seja mais representativa da época atual. "Nada em excesso", proclama o deus grego do alto de seu santuário terrestre hoje desmoronado. Dodds, estudioso dos clássicos, sugere uma interpretação para essa epígrafe. Só uma pessoa que conhece os excessos, diz ele, poderia viver segundo essa máxima. Só aqueles que conhecem a sua capacidade para a lascívia, a cobiça, a raiva, a glutonaria e todos os excessos — aqueles que compreenderam e aceitaram o seu próprio potencial para extremos inadequados — podem optar por controlar e humanizar suas ações. Atualmente se vive numa época de excessos críticos: gente demais, crime demais, exploração demais, poluição demais, armas demais. Esses são excessos que possíveis de reconhecer e condenar, mesmo que impotentes para fazer algo a respeito. E, afinal, existe algo que se possa fazer a respeito? Para muitas pessoas, as qualidades inaceitáveis do excesso vão diretamente para a sombra inconsciente ou se expressam em comportamentos indistintos. Para alguns, esses extremos tomam a forma de sintomas: sentimentos e ações intensamente negativos, sofrimento neurótico, doenças psicossomáticas, depressão e abuso das próprias forças. Os cenários podem parecer a estes: diante de um sentimento excessivo, ele é lançado na sombra e depois passado para o ato sem nenhuma preocupação pelos outros; diante de um sentimento de fome excessiva, ele é lançado na sombra e depois acontece o “empanturramento”, embriaguez e evacuação, tratando o corpo como lixo; diante de um sentimento de anseio excessivo pelo lado mais elevado da vida, ele é lançado na sombra e depois buscado através de gratificações instantâneas ou de atividades hedonísticas, como abuso de drogas ou de álcool. A lista continua. Na sociedade, é possível ver o crescimento dos excessos da sombra por todos os lados:

                - Num impulso descontrolado para conhecer e dominar a natureza (que se expressa na imoralidade da ciência e na união desregrada entre os negócios e a tecnologia).

                - Numa pretensiosa compulsão de ajudar e curar os outros (que se expressa na distorção e na dependência do papel dos profissionais da área de saúde e na cobiça de médicos e companhias farmacêuticas).

                - No ritmo acelerado e desumanizado do mercado de trabalho (que se expressa na apatia de uma força de trabalho alienada, na obsolescência não-planejada, causada pela automação, e na arrogância do sucesso).

                - Na maximização do crescimento e expansão dos negócios (que se expressa nas aquisições fraudulentas de controle acionário, no enriquecimento ilícito, no uso privilegiado de informações confidenciais e no colapso do sistema de financiamento habitacional).

                - Num hedonismo materialista (que se expressa no consumo exacerbado, na propaganda enganosa, no desperdício e na poluição devastadora).

                - No desejo de controlar a vida íntima, que é incontrolável por sua própria natureza (que se expressa no narcisismo generalizado, na exploração pessoal, na manipulação dos outros e no abuso de mulheres e crianças).

                - E no incessante medo da morte (que se expressa na obsessão com a saúde e a forma física, dietas, medicamentos e longevidade a qualquer preço).

                Esses aspectos da sombra atingem toda a sociedade. No entanto, algumas soluções que foram experimentadas para curar o excesso coletivo podem ser ainda mais perigosas que o problema. Basta considerar, por exemplo, o fascismo e o autoritarismo — horrores que surgiram das tentativas reacionárias de deter a desordem social e a decadência e permissividade generalizadas na Europa. Em tempos mais recentes e como reação a ideias progressistas, o fervor do fundamentalismo religioso e político voltou a despertar nos Estados Unidos e na Europa, encorajando, nas palavras de William B. Yeats (poeta), que a "anarquia seja lançada sobre o mundo". Jung atenuou a questão ao afirmar que: "Ingenuamente, esquecemos que por debaixo do nosso mundo racional jaz um outro enterrado. Não sei o que a humanidade ainda terá de sofrer até que ouse reconhecê-lo." Se não agora, quando?

                A história registra, desde tempos imemoriais, os tormentos causados pela maldade humana. Nações inteiras deixaram-se levar a histerias de massa de proporções devastadoras. Desde o término aparente da Guerra Fria, existem algumas esperançosas exceções. Pela primeira vez, nações inteiras pararam para refletir e tentaram a direção oposta. Relato de jornal da época, que fala por si mesmo (conforme citado por Jerome S. Bernstein em seu livro Power and Politics (O Poder e a Política)): "O governo soviético anuncia a suspensão temporária de todas as provas de História no país." O jornal Philadelphia Inquirer de 11 de junho de 1988 informava: A União Soviética, declarando que os manuais de História ensinaram a gerações de crianças soviéticas mentiras que envenenaram suas "mentes e almas", anunciou ontem o cancelamento dos exames finais de História para mais de 53 milhões de estudantes. Ao anunciar o cancelamento, o jornal oficial Isvestia informou que a extraordinária decisão visava pôr um término à transmissão de mentiras de uma geração para outra, processo esse que consolidou o sistema político e econômico stalinista que a atual liderança pretende encerrar. "A culpa daqueles que iludiram uma geração após outra... é imensurável", declara o jornal num comentário de primeira página. "Hoje estamos colhendo os frutos amargos da nossa própria lassidão moral, estamos pagando por termos sucumbido ao conformismo e, assim, dado nossa aprovação silenciosa a tudo aquilo que hoje nos enche de vergonha e que não sabemos explicar honestamente aos nossos filhos."

                Essa surpreendente confissão de toda uma nação poderia marcar o fim de uma era. De acordo com Sam Keen, autor de Faces of the Enemy (As Faces do Inimigo), "As únicas nações a salvo são aquelas que se vacinam sistematicamente, através de uma imprensa livre e da voz de uma minoria profética, contra a intoxicação de destinos divinos e purificações paranoicas". Hoje o mundo move-se em duas direções aparentemente opostas: alguns fogem dos regimes fanáticos e totalitários; outros enterram-se neles até o pescoço. Talvez as pessoas se sintam impotentes diante de forças tão poderosas. Ou, se pensar no assunto, o que se sente é certamente a consciência culpada diante da cumplicidade involuntária nas dificuldades coletivas. Esse perturbador estado de coisas foi acuradamente expresso por Jung na metade do século: "A voz interior traz à consciência tudo aquilo de que padece o todo — seja a nação à qual pertencemos ou a humanidade da qual fazemos parte. Mas ela apresenta esse mal em uma forma individual, de modo que, no início, era possível supor que todo esse mal é apenas um traço do caráter individua”. A proteção contra a maldade humana que essas forças inconscientes de massa podem representar, dispõe de uma única arma: maior conscientização individual.  Ao deixar de aprender ou agir com base naquilo que se aprende com o drama do comportamento humano, o poder pessoal se perde, enquanto indivíduos, de alterar a si mesmo e, assim, salvar o mundo. Sim, o mal estará sempre presente. Mas as consequências do mal irrefreado não precisam ser toleradas. “Uma grande mudança na atitude psicológica está iminente", disse Jung em 1959. “O único perigo verdadeiro que existe é o próprio homem. Ele é o grande [...]. Nós somos a origem de todo o mal vindouro." O personagem Pogo, do cartunista Walt Kelly, apresentou a questão de maneira bastante simples: "Encontramos o inimigo, e ele somos nós." Hoje se pode dar um renovado significado psicológico à ideia de poder individual. Os limites para a ação de confrontar a sombra estão — como sempre estiveram — no indivíduo.

                A aceitação da sombra

                O objetivo de encontrar a sombra é desenvolver um relacionamento progressivo com ela e expandir o senso do eu alcançando o equilíbrio entre a unilateralidade das atitudes conscientes e as profundezas inconscientes. Tom Robbins (romancista) diz: "O propósito de encontrar a sombra é estar no lugar certo da maneira certa”. Quando se mantém um relacionamento adequado com ele, o inconsciente não é um monstro demoníaco; diz-nos Jung: "Ele só se torna perigoso quando a atenção consciente que lhe dedicamos é desesperadoramente errada." Um relacionamento correto com a sombra oferece um presente valioso: leva ao reencontro das potencialidades enterradas. Através do trabalho com a sombra (expressão para referir ao esforço continuado no sentido de desenvolver um relacionamento criativo com a sombra), é possível:

                - Chegar a uma autoaceitação mais genuína, baseada num conhecimento mais completo do eu;

                - Desativar as emoções negativas que irrompem inesperadamente na vida cotidiana;

                - Eliminar sentimentos de culpa e vergonha associadas aos sentimentos e atos negativos; reconhecer as projeções que matizam as opiniões sobre os outros; curar relacionamentos através de um autoexame mais honesto e de uma comunicação direta;

                - E, usar a imaginação criativa (através de sonhos, desenhos, escrita e rituais) para aceitar o eu reprimido.

                Talvez, também se possa, desse modo, evitar acrescentar a sombra pessoal à densidade da sombra coletiva. Liz Greene (analista junguiana e astróloga britânica) mostra a natureza paradoxal da sombra enquanto receptáculo de escuridão e facho de luz. "O lado sofredor e aleijado da nossa personalidade é aquela sombra escura e imutável, mas também é o redentor que poderá transformar nossa vida e alterar nossos valores. O redentor tem condições de encontrar o tesouro oculto, conquistar a princesa e derrotar o dragão... pois ele está, de algum modo, marcado — ele é anormal. A sombra é, ao mesmo tempo, aquela coisa horrível que precisa de redenção e o sofrido salvador que pode redimi-la”.

 

“Todo homem tem uma sombra e, quanto menos ela se incorporar à sua vida consciente, mais escura e densa ela será. De todo modo, ela forma uma trava inconsciente que frustra nossas melhores intenções”. Jung.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

PUNIÇÃO OU AJUSTE SOCIAL?


Empresário e Mestrando em Educação
Pós-Graduado em Gestão de Recursos Humanos
Bacharel em Comunicação Social – Relações Públicas













    O mês que passou foi brutalmente marcado por nove adolescentes com idades entre 15, 16 e 17 anos. Todos repetentes, cursando 6º e 7º ano. Após a ingestão de bebidas alcoólicas atearam fogo na Escola Municipal La Hire Guerra, de Eldorado do Sul.  Dois prédios foram atingidos e o prejuízo foi estimado em R$ 1 milhão, aproximadamente.  A “pauta” atual é o destino que se deve dar aos jovens e qual o tipo de punição. Por se tratar de cidadãos menores de idade, provavelmente, serão encaminhados para a Fase. A princípio esta fundação tem a missão de gerar oportunidade de estudo e trabalho. A Fase-RS - Fundação de Atendimento Sócio-Educativo do Rio Grande do Sul -, é responsável pela execução das Medidas Sócio-Educativas de Internação e de Semiliberdade, determinadas pelo Poder Judiciário, com vistas aos adolescentes autores de ato infracional. A Fase surgiu no cenário governamental com o propósito de romper com o paradigma correcional-repressivo que orientava a política do bem-estar do menor infrator. Mas, o foco deste breve comentário não é a fundação de atendimento sócio-educativo. É outro!

    Neste triste episódio também surgiram comentários ou discussões populares incitando a redução da maioridade penal. Ao que tudo indica o Brasil, definitivamente, adotou a prática de “apagar incêndios” como única solução para as questões provenientes dos desajustes existentes na sociedade. A ordem é discutir como extinguir o problema ao invés de identificar e prevenir a causa, ou seja, não cortar o mal pela raiz. Prova disto está na discussão do momento que trata da redução da maioridade penal. Ora, o sistema penitenciário do país encontra-se em estado calamitoso com celas impróprias, na maioria dos casos, com superpopulação e sem as mínimas condições de habitação. Outra questão diz respeito à inexistência de programas efetivos e eficientes de reintegração social. O processo atual acaba por devolver o detento ao convívio comunitário em condição psicológica e profissional igual ou pior a que gozava quando ingressou no regime carcerário.

    Estas considerações são suficientes para provocar uma reflexão sobre a seguinte pergunta: é humano, correto e sensato enviar menores infratores para esses “repositórios de seres humanos desafortunados”? A resposta é não. Não é a intenção aliviar ou não responsabilizar adequadamente um infrator. Redigir este comentário é difícil porque só quem passou por uma situação real de brutalidade consegue perceber o sentimento de fragilidade e impotência diante da circunstância. Contudo, somos parte dos problemas e das soluções. Devemos nos envolver, mesmo sob uma ótica teórica. Antes da procurar por soluções impensadas ou provisórias é preciso atender as demandas básicas de dignidade da população como educação de qualidade, saúde humanizada e emprego. Caso contrário a legião de criminosos aumentará exponencialmente e não haverá território suficiente para abrigar tanto delinqüente.