O LADO DA SOMBRA NA VIDA
COTIDIANA
Em
1886, mais de uma década antes de Freud sondar as profundezas da escuridão
humana, Robert Louis Stevenson teve um sonho altamente revelador: um homem,
perseguido por um crime, engolia um certo pó e passava por uma drástica mudança
de caráter, tão drástica que ele se tornava irreconhecível. O amável e
laborioso cientista Dr. Jekyll transformava-se no violento e implacável Mr.
Hyde, cuja maldade assumia proporções cada vez mais grotescas à medida que o
sonho se desenrolava. Stevenson desenvolveu o sonho no seu famoso romance The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde
(O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde). Seu tema integrou-se de tal modo na
cultura popular que se pensa nele quando alguém diz: "Eu não era eu
mesmo", ou "Ele parecia possuído por um demônio", ou "Ela
virou uma megera". Como dizia John Sanford (analista junguiano) se uma
história como essa toca tão a fundo e soa tão verdadeira, é porque ela contém
uma qualidade arquetípica — ela fala de um ponto no ser humano que é universal.
Todos contêm um Dr. Jekyll e um Mr. Hyde: uma persona agradável para o uso
cotidiano e um eu oculto e noturno) que permanece amordaçado a maior parte do
tempo. Emoções e comportamentos negativos — raiva, inveja, vergonha, falsidade,
ressentimento, lascívia, cobiça, tendências suicidas e homicidas — ficam
escondidos logo abaixo da superfície, mascarados pelo eu mais apropriado às conveniências.
Em
seu conjunto, são conhecidos na psicologia como a Sombra Pessoal, que continua a ser um território indomado e
inexplorado para a maioria das pessoas.
A apresentação da sombra
A
sombra pessoal desenvolve-se naturalmente em todas as crianças. Na medida da identificação
com as características ideais de personalidade (tais como polidez e generosidade)
que são encorajadas pelo ambiente, acontece a formatação daquilo que W. Brugh
Joy chama de: "eu das decisões de Ano Novo". Ao mesmo tempo, vai enterrando
na sombra aquelas qualidades que não são adequadas à autoimagem, como a rudeza
e o egoísmo. O ego e a sombra, portanto, desenvolvem-se aos pares, criando-se
mutuamente a partir da mesma experiência de vida. Carl Jung viu em si mesmo a
inseparabilidade do ego e da sombra, num sonho que descreve em sua
autobiografia Memories, Dreams,
Reflections (Memórias, Sonhos, Reflexões): “Era noite, em algum lugar
desconhecido, e eu avançava com muita dificuldade contra uma forte tempestade.
Havia um denso nevoeiro. Eu segurava e protegia com as mãos uma pequena luz que
ameaçava extinguir-se a qualquer momento. Eu sentia que precisava mantê-la
acesa, pois tudo dependia disso. De súbito, tive a sensação de que estava sendo
seguido. Olhei para trás e percebi uma gigantesca forma escura seguindo meus
passos. Mas no mesmo instante tive consciência, apesar do meu terror, de que eu
precisava atravessar a noite e o vento com a minha pequena luz, sem levar em
conta perigo algum. Ao acordar, percebi de imediato que havia sonhado com a
minha própria sombra, projetada no nevoeiro pela pequena luz que eu carregava.
Entendi que essa pequena luz era a minha consciência, a única luz que possuo. Embora
infinitamente pequena e frágil em comparação com os poderes das trevas, ela
ainda é uma luz, a minha única luz”.
Muitas
forças estão em jogo na formação da sombra e, em última análise, determinam o
que pode e o que não pode ser expresso. Pais, irmãos, professores, clérigos e
amigos criam um ambiente complexo no qual se aprende aquilo que representa o comportamento
gentil, conveniente e moral, e aquilo que é mesquinho, vergonhoso e pecaminoso.
A sombra age como um sistema imunológico psíquico, definindo o que é eu e o que é não-eu. Pessoas diferentes, em
diferentes famílias e culturas, consideram de modos diversos aquilo que
pertence ao ego e aquilo que pertence à sombra. Por exemplo, alguns permitem a
expressão da raiva ou da agressividade; a maioria, não. Alguns permitem a
sexualidade, a vulnerabilidade ou as emoções fortes; muitos, não. Alguns
permitem a ambição financeira, a expressão artística ou o desenvolvimento
intelectual; outros, não. Todos os sentimentos e capacidades que são rejeitados
pelo ego e na sombra contribuem para o poder oculto do lado escuro da natureza humana.
No entanto, nem todos eles são aquilo que se considera traços negativos. De
acordo com Liliane FreyRohn (analista junguiana), esse escuro tesouro inclui a porção
infantil, os apegos emocionais e sintomas neuróticos bem como os talentos e
dons não-desenvolvidos. A sombra, diz ela, "mantém contato com as
profundezas perdidas da alma, com a vida e a vitalidade — o superior, o
universalmente humano, sim, mesmo o criativo pode ser percebido ali".
A rejeição da sombra
Não
se pode olhar diretamente para esse domínio oculto. A sombra é, por natureza,
difícil de ser apreendida. Ela é perigosa, desordenada e eternamente oculta,
como se a luz da consciência pudesse roubar-lhe a vida. James Hillman (analista
junguiano), autor de diversas obras, diz: "O inconsciente não pode ser
consciente; a Lua tem seu lado escuro, o Sol se põe e não pode iluminar o mundo
todo ao mesmo tempo [...]. A atenção e o foco exigem que algumas coisas fiquem
fora do campo visual, permaneçam no escuro. Não se pode olhar em duas direções
ao mesmo tempo". Por essa razão, a sombra geralmente é percebida indiretamente,
nos traços e ações desagradáveis das outras pessoas, lá fora, onde é mais
seguro observá-la. Reações intensas a uma qualidade qualquer (preguiça, estupidez,
sensualidade, espiritualidade, etc.) de uma pessoa ou grupo, e a pessoas se “enche”
de grande aversão ou admiração — essa reação talvez seja a própria sombra se
revelando. O ser humano se projeta ao atribuir essa qualidade à outra pessoa,
num esforço inconsciente de bani-la de si mesmo, de evitar vê-la dentro de si.
Marie-Louise
von Franz (analista junguiana) sugere que essa projeção é como disparar uma
flecha mágica. Se o destinatário tem um "ponto fraco" onde receber a projeção,
então ela se mantém, se projetada a raiva sobre um companheiro insatisfeito, ou
o poder de sedução sobre um atraente estranho, ou os atributos espirituais
sobre um guru, então o alvo é atingido e a projeção se mantém. Daí em diante,
emissor e receptor estarão unidos numa misteriosa aliança, como apaixonar-se ou
encontrar o herói (ou vilão) perfeito. A sombra pessoal contém, portanto, todos
os tipos de potencialidades não desenvolvidas e não-expressas. Ela é aquela
parte do inconsciente que complementa o ego e representa as características que
a personalidade consciente se recusa a admitir e, portanto, negligencia,
esquece e enterra até redescobri-las em confrontos desagradáveis com os outros.
O encontro com a sombra
Embora
não se possa fitá-la diretamente, a sombra surge na vida diária. Por exemplo, ela
se encontra em tiradas humorísticas (tais como piadas sujas ou brincadeiras
tolas) que expressam as emoções ocultas, inferiores ou temidas. Analisando de
perto aquilo que é engraçado (como alguém escorregando numa casca de banana ou
se referindo a uma parte "proibida" do corpo), se descobre que sombra
pessoal está ativa. John Sanford diz que é possível que as pessoas destituídas
de senso de humor tenham uma sombra muito reprimida. Em geral, é a sombra que
ri das piadas. Molly Tuby (psicanalista inglesa) sugere seis outras maneiras
pelas quais, mesmo sem saber, a sombra pode ser encontrada no dia-a-dia:
•
Nos sentimentos exagerados em relação aos
outros ("Eu simplesmente não acredito que ele tenha feito isso!",
"Não consigo entender como ela é capaz de usar uma roupa dessas!")
•
Na opinião negativa que se recebe daqueles que
servem de espelhos ("Já é a terceira vez que você chega tarde sem me
avisar.")
•
Nas interações em que continuamente se exerce
o mesmo efeito perturbador sobre diversas pessoas diferentes ("Eu e o Sam
achamos que você não está sendo honesto com a gente.")
•
Nos nossos atos impulsivos e não-intencionais
("Puxa, desculpe, eu não quis dizer isso!")
•
Nas situações de humilhação ("Estou tão
envergonhada com o jeito que ele me trata.")
•
Na raiva exagerada em relação aos erros
alheios ("Ela simplesmente não consegue fazer seu trabalho em
tempo!", "Cara, mas ele perdeu totalmente o controle do peso!")
Em
momentos como esses, de dominação por fortes sentimentos de vergonha ou de
raiva, ou quando se descobre que o próprio comportamento é inaceitável, é a
sombra que está irrompendo de um modo inesperado. E em geral ela retrocede com
igual velocidade; pois encontrar a sombra pode ser uma experiência assustadora
e chocante para a autoimagem. Por essa razão, é possível mudar rapidamente para
a negação, deixando de prestar atenção a fantasias homicidas, a pensamentos
suicidas ou a embaraçosos sentimentos de inveja, que revelariam um pouco da própria
escuridão. R. D. Laing (psiquiatra já falecido) descreve de modo poético o
reflexo de negação da mente: “O alcance do que pensamos e fazemos é limitado
pelo que deixamos de notar. E por deixarmos de notar que deixamos de notar
pouco podemos fazer para mudar, até que notemos como o deixar de notar forma
nossos pensamentos e ações”. Se a negação permanecer, então, como diz Laing,
talvez nem sequer é notado que foi deixado de notar. Por exemplo, é comum
encontrar a sombra na meia-idade, quando mais profundas necessidades e valores
tendem a mudar de direção. Isso exige a quebra de velhos hábitos e o cultivo de
talentos adormecidos. Ao não parar para ouvir atentamente o chamado e continuar
a se mover na mesma direção anterior, se permanece inconsciente daquilo que a
meia-idade tem a ensinar.
A
depressão também pode representar uma confrontação paralisante com o lado
escuro, um equivalente moderno da "noite escura da alma" do místico. A
exigência interior para que se desça ao mundo subterrâneo pode ser suplantada
por considerações de ordem externa (como
a necessidade de trabalhar por longas horas), pela interferência dos outros
ou por drogas antidepressivas que amortecem a sensação de desespero. Nesse
caso, se deixa de apreender o propósito da melancolia. Encontrar a sombra pede
uma desaceleração do ritmo da vida, pede que se ouça as indicações do próprio corpo
e que conceda tempo para estar a sós, a fim de poder digerir as mensagens
misteriosas do mundo oculto.
A sombra coletiva
Hoje
em dia, todos se defrontam com o lado escuro da natureza humana ao abrir um
jornal ou ouvir o noticiário. Os efeitos mais repulsivos da sombra tornam-se
visíveis na esmagadora mensagem diária dos meios de comunicação, transmitida em
massa para toda a moderna aldeia global eletrônica. O mundo tornou-se um palco
para a sombra coletiva. A sombra coletiva — a maldade humana — encara de
praticamente todas as partes: ela salta das manchetes dos jornais; vagueia
pelas ruas e, sem lar, dorme no vão das portas; entoca-se nas chamativas sexshops das cidades; desvia o dinheiro
do sistema de financiamento habitacional; corrompe os políticos famintos de
poder e perverte o sistema judiciário; conduz exércitos invasores através de
densas florestas e áridos desertos; vende armamentos a líderes ensandecidos e
repassa os lucros a insurgentes reacionários; por canos ocultos, despeja a
poluição nos rios e oceanos; com invisíveis pesticidas, envenena o alimento.
Essas
observações não constituem algum novo fundamentalismo a martelar uma versão
bíblica da realidade. A época atual fez, de todos, testemunhas forçadas. O
mundo todo observa. Não há como evitar o assustador espectro de sombras
satânicas mostrado por políticos coniventes, os colarinhos-brancos criminosos e
terroristas fanáticos. O anseio interior por integração — agora tornado
manifesto na máquina de comunicação global — força todos a enfrentar a
conflitante hipocrisia que hoje está em toda parte. Enquanto a maioria das
pessoas e grupos vive o lado socialmente aceitável da vida, outras parecem
viver as porções socialmente rejeitadas pela vida. Quando essas últimas se
tomam objeto de projeções grupais negativas, a sombra coletiva toma a forma de
racismo, de busca de "bode expiatório" ou de criação do
"inimigo". Para os americanos anticomunistas, a U.R.S.S. era o
Império do Mal. Para os muçulmanos, os Estados Unidos são o Grande Satã. Para
os nazistas, os judeus são vermes bolcheviques. Para o monge asceta cristão, as
bruxas têm parte com o diabo. Para os sul-africanos defensores do Apartheid e os americanos da Ku Klux Klan, os negros são subumanos e
não merecem ter os direitos e privilégios dos brancos. O poder hipnótico e a
natureza contagiosa dessas fortes emoções ficam evidentes na extensão e
universalidade das perseguições raciais, das guerras religiosas e das táticas
de busca de bodes expiatórios. E, é assim que os seres humanos tentam
desumanizar outros, num esforço para assegurar que eles são superiores — e que
matar o inimigo não significa matar seres humanos iguais a eles.
Ao
longo da história, a sombra tem surgido (através da imaginação humana) como um
monstro, um dragão, um Frankenstein, uma baleia branca, um extraterrestre ou um
homem tão vil que não se pode nos espelhar nele — ele está tão distante quanto
uma Górgona (criatura da mitologia grega). Revelar o lado escuro da natureza
humana tem sido, então, um dos propósitos básicos da arte e da literatura. Como
disse Nietzsche: "Temos arte para que a realidade não nos mate." Usando
as artes e a mídia (aí incluída a propaganda política) para criar imagens tão
más ou demoníacas quanto à sombra, se tenta ganhar poder sobre ela, quebrar seu
feitiço. Isso pode ajudar a explicar por que o ser humano fica tão excitados
com as violentas arengas de arautos da guerra e de fanáticos religiosos.
Simultaneamente repelidos e atraídos pela violência e pelo caos do mundo.
A
projeção também pode ajudar a explicar a imensa popularidade dos filmes e
romances de terror. Através de uma representação simbólica do lado da sombra, os
impulsos para o mal podem ser encorajados, ou talvez aliviados, na segurança do
livro ou da tela. As crianças, tipicamente, começam a aprender os assuntos da
sombra ao ouvir contos de fada que mostram a guerra entre as forças do bem e do
mal, fadas-madrinhas e terríveis demônios. As crianças, como os adultos, também
sofrem simbolicamente as provações de seus heróis e heroínas e, assim, aprendem
os padrões universais do destino humano. Na batalha da censura que hoje se
desenrola no campo da mídia e da música, aqueles que pretendem estrangular a
voz da sombra talvez não compreendam sua urgente necessidade de ser ouvida. Num
esforço para proteger os jovens, os censores reescrevem Chapeuzinho Vermelho e
fazem com que ela não seja mais devorada pelo lobo; mas, desse modo, acabam deixando
os jovens despreparados para enfrentar o mal com que irão se defrontar. Como a
sociedade, cada família também constrói seus próprios tabus, suas áreas
proibidas. A sombra familiar contém tudo o que é rejeitado pela percepção
consciente de uma família, aqueles sentimentos e ações que são considerados
demasiado ameaçadores à sua autoimagem.
Numa
honrada e conservadora família cristã, a ameaça talvez seja embriagar-se ou
desposar alguém de outra religião; numa família liberal e ateia, talvez seja a
opção pelos relacionamentos homossexuais. Na sociedade, espancamento da esposa
e abuso dos filhos costumavam ficar ocultos na sombra familiar, mas hoje
emergem, em proporções epidêmicas, à luz do dia. O lado escuro não é nenhuma
conquista evolucionária recente, resultado de civilização e educação. Ele tem
suas raízes numa sombra biológica, que se baseia nas próprias células. Os
ancestrais animalescos, afinal de contas, sobreviveram graças às presas e às
garras. A besta nas pessoas está viva, muito viva — só que a maior parte do
tempo encarcerada. Muitos antropólogos e sociobiólogos acreditam que a maldade
humana seja resultado do controle da agressividade animal, da opção pela cultura
em detrimento da natureza e da perda de contato com a selvageria primitiva. Melvin
Konner (médico e antropólogo) conta, em The
Tangled Wing, que foi a um zoológico, viu uma placa que dizia "O
Animal Mais Perigoso da Terra" e se descobriu olhando para um espelho. Conhece-te
a ti mesmo. Em tempos remotos, o ser humano reconhecia as diversas dimensões da
sombra: a pessoal, a coletiva, a familiar e a biológica. Nos degraus do templo de
Apolo em Delfos — erigido na encosta do Monte Parnaso pelos gregos do período
clássico e hoje destruído — os sacerdotes gravaram na pedra duas famosas
inscrições, dois preceitos que ainda guardam imensa significação para nos dias
de hoje.
O
primeiro deles, "Conhece-te a ti mesmo". Conheça tudo sobre você
mesmo, aconselhavam os sacerdotes do deus da luz. É possível dizer: Conheça especialmente
o lado escuro de você mesmo. Os seres humanos são descendentes diretos da mente
grega. A sombra continua a ser o grande fardo do autoconhecimento, o elemento
destrutivo que não quer ser conhecido. Os gregos entenderam muito bem esse
problema e sua religião os compensava pelo lado de baixo da vida. Era na mesma
encosta da montanha acima de Delfos que os gregos celebravam, todos os anos, as
suas famosas bacanais, as orgias que glorificavam a poderosa e criativa
presença do deus da natureza, Dioniso, nos seres humanos. Hoje, Dioniso foi
aviltado e apenas subsiste nas imagens de Satã, o Diabo de cascos fendidos, personificação
do mal. Não mais um deus a ser reverenciado e digno de receber um tributo, ele
foi banido para o mundo dos anjos caídos. Marie-Louise von Franz reconhece a
relação entre o diabo e a sombra pessoal quando diz: "Na verdade, o
princípio da individuação está relacionado com o elemento diabólico na medida
em que este último representa a separação do divino dentro da totalidade da
natureza. Os aspectos diabólicos são os elementos destrutivos — os afetos, o
impulso autônomo de poder e coisas semelhantes. Eles rompem a unidade da personalidade".
Nada em excesso
A
outra inscrição em Delfos talvez seja mais representativa da época atual.
"Nada em excesso", proclama o deus grego do alto de seu santuário
terrestre hoje desmoronado. Dodds, estudioso dos clássicos, sugere uma
interpretação para essa epígrafe. Só uma pessoa que conhece os excessos, diz
ele, poderia viver segundo essa máxima. Só aqueles que conhecem a sua
capacidade para a lascívia, a cobiça, a raiva, a glutonaria e todos os excessos
— aqueles que compreenderam e aceitaram o seu próprio potencial para extremos
inadequados — podem optar por controlar e humanizar suas ações. Atualmente se
vive numa época de excessos críticos: gente demais, crime demais, exploração
demais, poluição demais, armas demais. Esses são excessos que possíveis de
reconhecer e condenar, mesmo que impotentes para fazer algo a respeito. E,
afinal, existe algo que se possa fazer a respeito? Para muitas pessoas, as qualidades
inaceitáveis do excesso vão diretamente para a sombra inconsciente ou se
expressam em comportamentos indistintos. Para alguns, esses extremos tomam a
forma de sintomas: sentimentos e ações intensamente negativos, sofrimento
neurótico, doenças psicossomáticas, depressão e abuso das próprias forças. Os
cenários podem parecer a estes: diante de um sentimento excessivo, ele é
lançado na sombra e depois passado para o ato sem nenhuma preocupação pelos
outros; diante de um sentimento de fome excessiva, ele é lançado na sombra e
depois acontece o “empanturramento”, embriaguez e evacuação, tratando o corpo
como lixo; diante de um sentimento de anseio excessivo pelo lado mais elevado
da vida, ele é lançado na sombra e depois buscado através de gratificações
instantâneas ou de atividades hedonísticas, como abuso de drogas ou de álcool.
A lista continua. Na sociedade, é possível ver o crescimento dos excessos da
sombra por todos os lados:
-
Num impulso descontrolado para conhecer e dominar a natureza (que se expressa
na imoralidade da ciência e na união desregrada entre os negócios e a
tecnologia).
-
Numa pretensiosa compulsão de ajudar e curar os outros (que se expressa na
distorção e na dependência do papel dos profissionais da área de saúde e na
cobiça de médicos e companhias farmacêuticas).
-
No ritmo acelerado e desumanizado do mercado de trabalho (que se expressa na
apatia de uma força de trabalho alienada, na obsolescência não-planejada,
causada pela automação, e na arrogância do sucesso).
-
Na maximização do crescimento e expansão dos negócios (que se expressa nas
aquisições fraudulentas de controle acionário, no enriquecimento ilícito, no
uso privilegiado de informações confidenciais e no colapso do sistema de
financiamento habitacional).
-
Num hedonismo materialista (que se expressa no consumo exacerbado, na propaganda
enganosa, no desperdício e na poluição devastadora).
-
No desejo de controlar a vida íntima, que é incontrolável por sua própria
natureza (que se expressa no narcisismo generalizado, na exploração pessoal, na
manipulação dos outros e no abuso de mulheres e crianças).
-
E no incessante medo da morte (que se expressa na obsessão com a saúde e a
forma física, dietas, medicamentos e longevidade a qualquer preço).
Esses
aspectos da sombra atingem toda a sociedade. No entanto, algumas soluções que
foram experimentadas para curar o excesso coletivo podem ser ainda mais
perigosas que o problema. Basta considerar, por exemplo, o fascismo e o
autoritarismo — horrores que surgiram das tentativas reacionárias de deter a
desordem social e a decadência e permissividade generalizadas na Europa. Em
tempos mais recentes e como reação a ideias progressistas, o fervor do
fundamentalismo religioso e político voltou a despertar nos Estados Unidos e na
Europa, encorajando, nas palavras de William B. Yeats (poeta), que a
"anarquia seja lançada sobre o mundo". Jung atenuou a questão ao
afirmar que: "Ingenuamente, esquecemos que por debaixo do nosso mundo
racional jaz um outro enterrado. Não sei o que a humanidade ainda terá de
sofrer até que ouse reconhecê-lo." Se não agora, quando?
A
história registra, desde tempos imemoriais, os tormentos causados pela maldade
humana. Nações inteiras deixaram-se levar a histerias de massa de proporções
devastadoras. Desde o término aparente da Guerra Fria, existem algumas
esperançosas exceções. Pela primeira vez, nações inteiras pararam para refletir
e tentaram a direção oposta. Relato de jornal da época, que fala por si mesmo
(conforme citado por Jerome S. Bernstein em seu livro Power and Politics (O Poder e a Política)): "O governo soviético
anuncia a suspensão temporária de todas as provas de História no país." O
jornal Philadelphia Inquirer de 11 de
junho de 1988 informava: A União Soviética, declarando que os manuais de
História ensinaram a gerações de crianças soviéticas mentiras que envenenaram
suas "mentes e almas", anunciou ontem o cancelamento dos exames
finais de História para mais de 53 milhões de estudantes. Ao anunciar o
cancelamento, o jornal oficial Isvestia
informou que a extraordinária decisão visava pôr um término à transmissão de
mentiras de uma geração para outra, processo esse que consolidou o sistema
político e econômico stalinista que a atual liderança pretende encerrar. "A
culpa daqueles que iludiram uma geração após outra... é imensurável", declara
o jornal num comentário de primeira página. "Hoje estamos colhendo os
frutos amargos da nossa própria lassidão moral, estamos pagando por termos
sucumbido ao conformismo e, assim, dado nossa aprovação silenciosa a tudo
aquilo que hoje nos enche de vergonha e que não sabemos explicar honestamente
aos nossos filhos."
Essa
surpreendente confissão de toda uma nação poderia marcar o fim de uma era. De
acordo com Sam Keen, autor de Faces of
the Enemy (As Faces do Inimigo), "As únicas nações a salvo são aquelas
que se vacinam sistematicamente, através de uma imprensa livre e da voz de uma
minoria profética, contra a intoxicação de destinos divinos e purificações paranoicas".
Hoje o mundo move-se em duas direções aparentemente opostas: alguns fogem dos
regimes fanáticos e totalitários; outros enterram-se neles até o pescoço.
Talvez as pessoas se sintam impotentes diante de forças tão poderosas. Ou, se pensar
no assunto, o que se sente é certamente a consciência culpada diante da cumplicidade
involuntária nas dificuldades coletivas. Esse perturbador estado de coisas foi
acuradamente expresso por Jung na metade do século: "A voz interior traz à
consciência tudo aquilo de que padece o todo — seja a nação à qual pertencemos
ou a humanidade da qual fazemos parte. Mas
ela apresenta esse mal em uma forma individual, de modo que, no início, era
possível supor que todo esse mal é apenas um traço do caráter individua”. A proteção
contra a maldade humana que essas forças inconscientes de massa podem
representar, dispõe de uma única arma: maior conscientização individual. Ao deixar de aprender ou agir com base naquilo
que se aprende com o drama do comportamento humano, o poder pessoal se perde,
enquanto indivíduos, de alterar a si mesmo e, assim, salvar o mundo. Sim, o mal
estará sempre presente. Mas as consequências do mal irrefreado não precisam ser
toleradas. “Uma grande mudança na atitude psicológica está iminente",
disse Jung em 1959. “O único perigo verdadeiro que existe é o próprio homem. Ele
é o grande [...]. Nós somos a origem de todo o mal vindouro." O personagem
Pogo, do cartunista Walt Kelly, apresentou a questão de maneira bastante
simples: "Encontramos o inimigo, e ele somos nós." Hoje se pode dar
um renovado significado psicológico à ideia de poder individual. Os limites
para a ação de confrontar a sombra estão — como sempre estiveram — no
indivíduo.
A aceitação da sombra
O
objetivo de encontrar a sombra é desenvolver um relacionamento progressivo com
ela e expandir o senso do eu alcançando o equilíbrio entre a unilateralidade
das atitudes conscientes e as profundezas inconscientes. Tom Robbins (romancista)
diz: "O propósito de encontrar a sombra é estar no lugar certo da maneira
certa”. Quando se mantém um relacionamento adequado com ele, o inconsciente não
é um monstro demoníaco; diz-nos Jung: "Ele só se torna perigoso quando a
atenção consciente que lhe dedicamos é desesperadoramente errada." Um
relacionamento correto com a sombra oferece um presente valioso: leva ao
reencontro das potencialidades enterradas. Através do trabalho com a sombra
(expressão para referir ao esforço continuado no sentido de desenvolver um
relacionamento criativo com a sombra), é possível:
-
Chegar a uma autoaceitação mais genuína, baseada num conhecimento mais completo
do eu;
-
Desativar as emoções negativas que irrompem inesperadamente na vida cotidiana;
-
Eliminar sentimentos de culpa e vergonha associadas aos sentimentos e atos
negativos; reconhecer as projeções que matizam as opiniões sobre os outros;
curar relacionamentos através de um autoexame mais honesto e de uma comunicação
direta;
-
E, usar a imaginação criativa (através de sonhos, desenhos, escrita e rituais)
para aceitar o eu reprimido.
Talvez,
também se possa, desse modo, evitar acrescentar a sombra pessoal à densidade da
sombra coletiva. Liz Greene (analista junguiana e astróloga britânica) mostra a
natureza paradoxal da sombra enquanto receptáculo de escuridão e facho de luz.
"O lado sofredor e aleijado da nossa personalidade é aquela sombra escura
e imutável, mas também é o redentor que poderá transformar nossa vida e alterar
nossos valores. O redentor tem condições de encontrar o tesouro oculto,
conquistar a princesa e derrotar o dragão... pois ele está, de algum modo,
marcado — ele é anormal. A sombra é, ao mesmo tempo, aquela coisa horrível que
precisa de redenção e o sofrido salvador que pode redimi-la”.
“Todo
homem tem uma sombra e, quanto menos ela se incorporar à sua vida consciente,
mais escura e densa ela será. De todo modo, ela forma uma trava inconsciente
que frustra nossas melhores intenções”. Jung.