segunda-feira, 11 de julho de 2022

Retornando ao Jardim do Éden

 

A Bíblia narra uma história criada na tradição judaica e compartilhada pelos dois filhos da fé de Abraão: Cristianismo e Judaísmo. É a narrativa do primeiro pecado. Deus coloca Adão no centro de um jardim maravilhoso. Adão é um ser único, pois, como ensinam os especialistas na Torá, a humanidade inteira descende dele e isso institui a fraternidade universal. Somos filhos do mesmo Pai: ninguém é estrangeiro ou estranho neste planeta. Deus se apresenta nos capítulos iniciais da criação como dotado dos atributos da misericórdia e da justiça. A tradição interpretativa judaica (Midrash) identifica esses dois atributos como importantes: se o mundo for criado só com misericórdia, haverá muitos pecadores; se for criado exclusivamente com justiça, ninguém poderá subsistir. Assim, o mundo é elaborado com misericórdia e justiça. Em outras palavras: se Deus for muito compreensivo com sua criação, cada um fará o que bem entende e se distanciará do Criador; se for exclusivamente justo, ou seja, punir quem erra de acordo com a Lei, quem poderia sobreviver ao rigor do olhar divino? Assim, o mundo foi gerado com o atributo divino da misericórdia (Midat Harachamim) e com o da justiça (Midat Hadin).

É uma forma de equilíbrio ditado por Deus. A primeira norma surge antes da criação de Eva: não comer da árvore da vida. Liberdade absoluta: tudo poderia ser utilizado, menos o fruto da árvore do saber, do bem e do mal. A primeira regra da criação já veio com o primeiro código penal: “No dia em que comeres dela, morrerás” (Gênesis 2:17). Criar punição antes da infração indica que já se sabe da dificuldade na observação da regra. Quando estabeleço o que acontece com quem não obedecer, já reconheço que obedecer é uma opção e que é humano enfrentar a regra. É interessante imaginar que uma norma seduz para a possibilidade da infração. Diga-se a uma criança que pode brincar com TUDO naquele espaço MENOS com o brinquedo vermelho que está sobre a cadeira. Não é necessário ser um grande psicólogo ou pedagogo para imaginar que será exatamente o brinquedo proibido o alvo maior do interesse dela. O mais lógico é imaginar que, exatamente por causa da proibição, o brinquedo interditado será o único desejado, pois o interdito ganhou uma aura de interesse. Aquele brinquedo deve conter algo muito especial e todos os outros são monótonos. De alguma forma, o erro, o pecado, a infração, são criados pela norma que os institui. A gramática estabelece à medida que torna alguém mau usuário da norma culta. Quem escreve uma gramática está criando os incultos da língua. A regra é a mãe do infrator. Talvez isso explique que a justiça de Deus ande de mãos dadas com sua misericórdia. É uma percepção sábia, pois estabelece uma norma como meta e já prevê a inevitável infração. Seria tentador imaginar que a culpa do pecado esteja em Deus. Ele determinou algo que seria impossível de evitar, como é impossível à criança frear a vontade do brinquedo vermelho sobre a cadeira. Mais forte seria imaginar que a norma contém um secreto desejo de infração.

Na cabeça do legislador, estaria uma vontade de exaltar a regra e sua sabedoria, pois pela transgressão, ficariam evidentes a reta intenção e a justiça do autor da regra. O pecador faz a justiça de Deus brilhar, bem como torna necessária sua misericórdia. Há uma questão no primeiro pecado que é muito interessante. Deus diz que não se pode comer do fruto da Árvore da Vida. A maçã, como consagrou a tradição, era interditada ao paladar humano. Porém, quando a serpente tentou, insinuou o contrário; Eva argumentou que não poderia nem comer e “nem tocar no fruto” (Gênesis 3:3). Eva exagera a regra e a muda. Eva acrescenta mais interdição. O reforço imaginativo talvez evidencie o quanto de sedutor havia no não. A tentação é iniciada pela serpente, mais astuta do que qualquer animal. Parece que a inteligência é associada ao pecado. Posteriormente, essa serpente seria identificada com o demônio, mas isso é mais cristão do que judaico, pois o demônio tem maior autonomia e força no Cristianismo do que no Judaísmo. Inteligência permite ter consciência. A serpente a possui antes do episódio da queda. Consciência só existirá para Adão e Eva após o pecado. Como personagens, Adão e Eva são totalmente rasos e desinteressantes quando estão em plena comunhão com Deus. O casal só nota a nudez depois de ter comido a fruta e cria um traje de folhas de figo. Inteligência, consciência e, agora, moral: estava ocorrendo uma segunda criação do ser humano. Na primeira criação, surgira um ser sem doenças, perfeito e integrado ao Criador. A segunda criação é o surgimento do mundo como o conhecemos: infrator, culpado, com desvios incessantes. Deus criou Adão e Eva e, com o pecado, Adão e Eva nos criaram. De fato, somos descendentes do primeiro casal, mas os filhos só nasceram fora do Paraíso. Somos nós, melancólicos de uma ordem da qual só ouvimos falar: o mundo sem erro e sem pecados. O grande Maimônides havia advertido que o livre-arbítrio era respeitado por Deus (Os oito capítulos). Fomos criados com a capacidade de optar entre o Bem e o Mal. Eva disse para a serpente que sabia da norma. A serpente disse que ela não morreria, mas viveria eternamente. É uma pergunta colossal e um drama cósmico: por que escolhemos, conscientemente, o que sabemos ser errado? Talvez essa seja a pergunta mais importante de todas. Vai dos pequenos dramas cotidianos às questões cósmicas. Por que optamos pelo errado? Eva demonstra, imediatamente, a vontade do bem. Responde com a regra que ela sabe correta. Seduzida para agir mal, a primeira mãe responde bem. Eva é nosso modelo humano. Quase sempre não precisamos que alguém nos diga o certo. Agimos errado com consciência do erro. Sabemos o dano que causa a fritura. Temos clara profecia sobre o dia seguinte ao optar pela bebida em excesso. Sabemos que o dinheiro gasto daquele jeito fará falta. Eva enveredou por uma decisão crucial, como nós enveredamos diariamente pelos pequenos desastres. A resposta mais óbvia é que o erro nasce do prazer imediato que se antecipa. Engordar está no futuro e o brigadeiro sedutor e tenro está no presente. Poupança é árdua e o gasto imediato é uma maravilha. O dia está pela frente, frio, e a cama está quente e envolvente agora.

Errar seria abandonar a virtude do futuro pelo prazer presente. Errar seria colocar satisfação no aqui e agora e evitar o investimento de longo prazo. Errar seria apenas uma estratégia temporal? O bem X está no ponto mais próximo e palpável e o bem Y está longínquo; então… opto pelo X. Olhando tecnicamente, o erro seria apenas um equívoco temporal, ou um choque entre uma noção de dever de longo prazo contra um ganho imediato. Curiosamente, há um sentimento generalizado: as pessoas muito “certinhas”, aquelas que sempre apostam no adequado, que poupam, que comem alimentos corretos, que nunca se atrasam, que dormem nas horas exatas e na quantidade prescrita pela Organização Mundial de Saúde seriam… chatas. Há mais: seriam pouco aptas ao inovador, ao inesperado. Esses apóstolos da virtude seriam burocráticos e fadados ao fracasso no campo do empreendedorismo. A Bíblia foi escrita antes de o empreendedorismo virar a Teologia da nossa época. A Bíblia foi escrita antes do próprio capitalismo. O defeito da escolha de Adão e Eva é mais vasto. Não diz respeito a um prazer imediato e inovador, mas a uma cegueira. O primeiro casal desejou ser Criador, almejou elevar a criatura. Isso é, basicamente, idolatria. Em um sentido estrito, a idolatria é o culto de estátuas de deuses falsos. No sentido mais amplo, é a substituição do Criador pela criatura. Adão e Eva desejaram “ser como Deus”, a promessa que a serpente fez. O primeiro erro é uma forma de idolatria, dentro da qual está inserida a desobediência. Não era fome ou um prazer imediato. Não era o prazer juvenil da revolta. Era uma ambição de superioridade impossível de ser contemplada. O segundo erro é mais sutil. Adão e Eva comeram da árvore do conhecimento, cujo fruto pronto e maduro se apresentava. O conhecimento, na tradição judaica, é uma obrigação, um dever imposto aos homens.

Mas o conhecimento é fruto do esforço, do contínuo aperfeiçoamento, da luta pelo esclarecimento. Tomar o conhecimento pronto e maduro não é o verdadeiro conhecimento, mas apenas a vaidade de possuí-lo. Esse é o outro e fundamental erro: o atalho. Sem luta interna, sem uma guerra consigo (física e psíquica), o conhecimento é vazio. O saber nasce dessa luta e não do conhecimento em si. O caminho é o conhecimento. A luta por saber é o saber. Essa é outra lição do Gênesis. Nesse caso, não se trata de substituir o prazer no longo prazo pelo prazer imediato. Adão e Eva perderam o Paraíso não pelo gosto do fruto ou pelo prazer infrator. Não foi uma dúvida entre ter prazer agora ou cumprir uma ordem em longo prazo. Nossos pais primordiais desejaram o longo prazo irrealizável ao errarem. Eles comeram para ser como Deus, apostaram em uma falsa premissa. Sua busca pelo discernimento absoluto apenas trouxe à tona sua falta de capacidade para isso. Nesse caso, o pecado é um equívoco de outra forma de idolatria orgulhosa: julgar-se capaz de mais do que se pode. O pecado é um erro de avaliação. O pecado é filho da vaidade. Ficamos com um caso curioso. Ao desejarem conhecimento imediato e pronto, Adão e Eva demonstraram que não tinham conhecimento algum. A ignorância, em si, não é um erro, mas o orgulho dela e a permanência nela, sim. O episódio de Adão e Eva na Torá traz mais uma revelação. Já identificamos a justiça que pune e a misericórdia que ampara. O castigo pela desobediência é duro: expulsão do Paraíso. Adão teria de trabalhar com dificuldade e seu suor seria o custo da sua sobrevivência. Eva teve duplo castigo: parir filhos na dor e ser submissa ao marido. Faltam milênios para um pensamento feminista despontar na linha do horizonte. Dor, trabalho, perda do Paraíso: enormes punições pelo erro. Mas… logo após essas pragas sobre Adão e Eva e toda a humanidade, vem a misericórdia. Um versículo simples, isolado, que parece reverter todo o jogo até aqui (Gênesis 3:21). Deus fez túnicas de pele e vestiu homem e mulher. Foram expulsos de casa, mas com itens básicos de guarda-roupa. A justiça foi feita e a misericórdia, atendida. Começa a história humana. Principiamos com a queda. O pecado nos humanizou. O preço da humanização é alto. Fora do Paraíso, Adão e Eva geram filhos.

É interessante notar que nunca existiu uma família completa no Paraíso. Adão e Eva foram perfeitamente felizes sem filhos. Só foram férteis após o pecado. A dor da concepção faz parte do castigo da mulher. A ordem de crescer e multiplicar tinha sido dada, mas só será realizada no lado externo do Jardim das Delícias. Caim nasce aqui, neste mundo, no famoso Vale de Lágrimas. O agricultor Caim logo teria um irmão, o pastor Abel. Formou-se a primeira família humana. O primeiro homicídio nasce de uma disputa de afeto. Caim ofereceu um fruto da terra a Deus. Abel fez o mesmo com o primogênito do seu rebanho. A Bíblia não diz textualmente, mas a tradição judaica fala que Caim ofereceu produtos com descuido e Abel trouxe, de coração limpo, o melhor do rebanho. Em todo caso, Deus olhou para o sacrifício de Abel e não para o de Caim. O ressentimento instalou-se no coração do primeiro filho. Em uma época de comunicação mais livre entre Deus e os homens, o Altíssimo vê a tristeza de Caim e o questiona. Há uma pequena passagem muito significativa no capítulo 4 do Gênesis. Deus diz a Caim que o bem o faz andar de cabeça erguida e o mal faz o pecado espreitar à porta: “A ti vai seu desejo, mas tu deves dominá-lo” (Gênesis 4:7). Tu deves dominar teu desejo, é tradição mais corrente nas Bíblias, especialmente as cristãs. Se ficarmos mais fieis ao hebraico da Torá, o verbo não é dever, mas poder. No texto hebraico, não é ressaltado um dever exatamente, mas uma capacidade. É uma tradição forte na Bíblia: o mal espreita e o homem tem capacidade de agir bem e recusar o pecado. Se pecar, deve arrepender-se e Deus o perdoará. Se a tentação e a força do mal fossem maiores do que nossa capacidade, não seria pecado de fato, pois não haveria escolha nem liberdade. No Novo Testamento, na carta aos Romanos que abre a coleção de textos atribuídos a Paulo, há uma passagem que dialoga com essa tradição. O homem de Tarso diz que onde aumenta o pecado, a graça transborda (Romanos 5:20). Uma das possibilidades de interpretação dessa passagem é que sempre existe a fortaleza dada pelo Espírito para que cada um possa resistir aos erros. Não há tentação maior do que nossa vontade e, assim, todo pecado é uma escolha, muito clara, pelo Mal, escolha consciente e deliberada. O direito e o costume contemporâneos introduziram reflexões que, em alguns casos, justifica ou sociologiza o erro. Por causa de um desvio mental, por causa de sua origem social, em função de uma insanidade temporária ou um traço específico, o criminoso torna-se menos culpado ou até digno de uma absolvição. A tradição bíblica é distinta.

Por um lado, o erro é escolha de cada um, consciente e deliberada. Por outro lado, reconhecendo o erro e se arrependendo dele, o perdão pode existir. Todos são imputáveis na Bíblia, mas nem todos são perdoados. Caim matou o irmão e passou a errar pela Terra com um sinal colocado por Deus, para que não seja morto e vague pelo mundo. Reflita, estimado leitor: estamos falando da primeira família humana, aquela que mais próxima esteve de Deus e teve um começo tão feliz. Nessa família não existia sogro ou sogra, genro ou nora, nem avós distintos para separar as festas. Adão e Eva não tiveram infância. A primeira mãe ouviu o demônio, o primeiro pai a seguiu, o filho mais velho é assassino e o mais novo está morto. No próximo Natal ou na Festa de Hanucá, ao ver pequenos problemas domésticos, alguma ironia velada ou chantagem emocional, seja um pouco mais generoso com a mesa familiar. Se os filhos não se entenderem, se houver intrigas entre cunhados, se o marido ou a mulher estiverem de mau humor, reflitam: estamos melhor do que Adão e Eva…

quarta-feira, 22 de junho de 2022

MODELOS DE GESTÃO ORGANIZACIONAL ULTRAPASSADOS

Um dos desenhos animados mais populares da história da humanidade foi Os Jetsons – que fascinava a audiência com um mágico exercício de futurologia –, produzido pelo lendário estúdio Hanna-Barbera, responsável por obras-primas, como Os Flintstones, Tom e Jerry, dentre tantas outras animações que marcaram a vida de milhões de brasileiros. Em Orbit City, George Jetson lidera uma divertida família típica norteamericana com a esposa Jane, dois filhos, Elroy e Judy, um simpático cão, Astor, e uma empregada doméstica robô, Rosie, que cuida da limpeza do lar com uma infinidade de quinquilharias e ferramentas acionadas automaticamente por diversos botões. A série foi lançada na década de 1960, porém só nos anos 1980 adquiriu imensa popularidade entre as famílias brasileiras que se encantavam, debruçadas em seus televisores, com carros voadores, cidades suspensas, trabalho automatizado, robôs realizando atividades de seres humanos e toda a sorte de aparelhos eletrodomésticos e de entretenimento autônomos.

Ao longo de mais de cinquenta anos, essa realidade fez parte de um imaginário distante, inacessível. Nos últimos anos, entretanto, o que era uma abstração tem se tornado, a passos cada vez mais largos, uma realidade onipresente. As transformações pelas quais passa a sociedade são tão velozes que os indivíduos não conseguem perceber racionalmente o processo de mudança. Seus impactos, no entanto, são e serão mais sentidos do que nunca, e, como resultado, emergem discussões e reflexões profundas sobre o futuro da humanidade. Qual será o futuro do trabalho com a automatização crescente? Os robôs irão substituir o ser humano? Qual é o limite da tecnologia e como ela impactará a sociedade?

O que era uma verdade apenas para a família Jetsons transformou-se em uma realidade inequívoca que dá novas cores à sociedade. Existe um conceito no campo da Física intitulado “ponto de bifurcação”. Simplificando uma definição complexa, um ponto de bifurcação representa uma mudança dramática e súbita na trajetória de um sistema que estava em equilíbrio. Nesse momento, ele pode se decompor ou imergir em novos estados. A complexidade desse movimento é tão grande que nunca é possível predizer o caminho que o sistema vai seguir e suas características. Tomando emprestada a definição do conceito físico para a realidade atual, a sociedade está diante de um ponto de bifurcação histórico. Coabitam o novo, representado pelas recentes tecnologias, inovações e rupturas, e o clássico, o tradicional, forjado ao longo de séculos de convivência e de desenvolvimento humano.

A nova era é conhecida como 4ª Revolução Industrial, a mais abrangente, profunda e ampla da história. Em um mesmo momento da humanidade, há confluências de forças tecnológicas que, por si sós, já teriam o potencial de transformar o planeta. Atuando de forma síncrona e em sinergia, no entanto, têm uma energia avassaladora. Essa revolução é poderosa, pois não transforma apenas as coisas. Ela está modificando a forma como indivíduos vivem, trabalham e se relacionam uns com os outros. Está alterando a vida tal como nos habituamos e conhecemos.

 Hoje, fazem parte do vocabulário corrente da população termos e conceitos – que estão mais presentes do que nunca e vieram para ficar –, como inteligência artificial, big data, internet das coisas, robótica, algoritmos, plataformas digitais, dentre tantos outros que até pouco tempo atrás estavam circunscritos a terminologia típica de cientistas e nerds. O mundo corporativo, com líderes encasulados em seus confortáveis e seguros gabinetes, não passa incólume a essa transformação. A arrogância proveniente de quem sabe de tudo e traz em seu repertório a certeza das verdades absolutas constrói uma barreira quase intransponível para a invasão do novo, e convicções muito arraigadas têm um efeito perverso que favorece a manutenção do status quo. O discurso pode ser modernoso, porém além da fala existe a prática.

Essa é a autêntica hora da verdade. É nesse universo que se proliferam modelos de gestão provenientes do período da 1ª Revolução Industrial, como os organogramas (representação gráfica utilizada, em larga escala, para as empresas mostrarem como estão dispostas suas unidades funcionais e hierarquia. Registros históricos apontam que o organograma foi criado em 1856). Faltam adjetivos para descrever quão bizarra é a constatação de que a maior parte das organizações do mundo utiliza, de forma central em seus negócios, uma ferramenta estratégica que foi desenvolvida há mais de 150 anos! O cenário, porém, é mais crítico ainda. O processo de transformação só acontece por intermédio das pessoas, sendo a educação um dos seus vetores mais relevantes. Para que o movimento se consubstancie na prática, é requerido que os indivíduos entendam a dinâmica das mudanças, que sejam educados conforme essa nova realidade. Como nossos mecanismos formais de educação e seus agentes estão lidando com esse novo mundo? A resposta para essa provocação é fácil: da mesma forma que estavam lidando em 1800, ou há mais de duzentos anos.

Não existe uma referência histórica definitiva, porém está claro que o modelo atual de educação com o formato da sala de aula e do professor consolidou-se na Revolução Francesa. Mais uma bizarrice contemporânea: nossos modelos formais de educação remontam a uma realidade de mais de duzentos anos e, se confrontados à luz de todos os avanços tecnológicos e sociais, tornam-se uma ficção tal qual eram os robôs dos Jetsons ou, para nos mantermos no campo das animações míticas, pré-históricos como os dinossauros dos Flintstones.

E os líderes atuais? Como têm se comportado perante um mundo em ebulição cuja natureza das relações obedece a uma nova ordem? A resposta, como não poderia ser diferente, não foge muito das provocações anteriores. Foi na primeira metade do século XX que Henri Fayol definiu alguns parâmetros críticos numa das primeiras incursões da chamada administração científica. Foram agregados conceitos, como autoridade, unidade de comando, hierarquia estrita, prioridade da organização em relação ao indivíduo, unidade de direção, dentre outros direcionamentos para o negócio que norteariam, a partir daquele ponto, a posição do líder no relacionamento com seus subordinados.

Não é necessária nenhuma pesquisa em profundidade para concluir que muitos dos executivos atuais continuam rezando na cartilha de Fayol que refletia uma sociedade de cem anos atrás. Pretensos líderes vão mais longe ainda: atuam como feitores do regime escravocrata, pautando seus atos e comportamentos pelo mais vil e ultrapassado autoritarismo. O mundo corporativo ainda está muito aferrado ao passado. É chegada a hora da mudança. É o momento definitivo da busca por novas referências para lidar com um novo mundo. Algumas organizações e líderes já se deram conta dessa demanda e se adaptaram rapidamente ao ambiente. Setores inteiros estão sendo disruptados (outra palavra nova que estará, cada vez mais, no centro das atenções) por empresas que começaram sua jornada por meio do voluntarismo de jovens impetuosos que, libertos das amarras do passado, se abriram ao novo e fizeram uma leitura adequada das transformações.

Organizações seculares perdem relevância e são subjugadas à segunda divisão do mundo empresarial, tornando seus negócios obsoletos, ultrapassados. A boa notícia é que tudo está em aberto. Tal qual um jogo de videogame, as organizações estão começando uma nova jornada do zero e devem se esmerar para “passar de fase” e considerar que tudo o que fizeram serve como repertório e experiência, porém não como chave para a prosperidade. Muito se fala das características do ambiente apresentado, do potencial das novas tecnologias, da magia existente por trás disso tudo. É necessário, porém, sair do campo da ficção, da animação dos Jetsons e partir para a prática.

Como as organizações e seus líderes devem se comportar para superar os desafios e, sobretudo, aproveitar as imensas oportunidades advindas desse admirável mundo novo? Para prever as possibilidades do futuro, é necessário entender a essência do passado, dos fundamentos, das raízes da nossa origem. A primeira etapa dessa jornada se dedica a construir uma visão sobre a história do mundo do management. Mais do que uma linha do tempo, o objetivo é mostrar como as principais transformações do ambiente corporativo foram provenientes de mudanças sociais que são as catapultas de qualquer processo de evolução empresarial.

Uma organização é uma entidade social e é nesse ambiente que ela milita e realiza seu processo de troca com a sociedade. Para ter referências, indícios, dicas sobre o que está por vir, é preciso entender, em profundidade, a origem de tudo. A transformação no ambiente empresarial vai demandar novos modelos de gestão, novos processos de aprendizagem e novos líderes. Não existe outro momento mais vibrante na história recente da humanidade. Um ambiente repleto de desafios reserva oportunidades até então não mapeadas. O mundo está em aberto. A vida está em aberto. Não há tempo a perder. É necessário arregaçar as mangas e fazer acontecer.


 

sábado, 11 de junho de 2022

um processo que está fadado ao fracasso por excesso de arrogância

 

Até meados do final do século 20, um cidadão procurava um novo trabalho nos jornais e agências de emprego, levava pessoalmente o seu currículo em papel para o setor de recursos humanos da empresa e depois era submetido a testes e entrevistas. Com a internet, o envio do currículo passou a ser por e-mail, mas o restante do processo não mudou muito. Mas agora quase tudo é online, da inscrição à aprovação ou recusa. As plataformas de recrutamento, com ferramentas que automatizam algumas das etapas, sem dúvida deixaram tudo mais eficaz e pragmático, mas nem tudo é tão perfeito quanto muitos pensam (e não são os candidatos).

Nas redes sociais (e pessoalmente com quem converso), participantes de seleções reclamam ao usar serviços do gênero. Entre os pontos criticados estão a demora ou inexistência de comunicação para informar que o candidato foi reprovado; testes longos, complexos ou pouco alinhados com as requisições da vaga; longas fichas de cadastro com perguntas pessoais demasiadas; incoerências na forma como os profissionais pontuam nos testes; e e-mails escritos com erros, com erros de dados pessoais ou incoerentes com a situação da pessoa.

Os comentários trazem experiências ruins como: “passei um ano amargando com esses testes. Um dos testes era um GMAT (teste usado para fazer MBA nos EUA), e outro de português eram questões baseadas no livro 'Dom Casmurro'. Eram perguntas de vestibular para Fuvest (universidade de São Paulo), sendo que a vaga desse último teste era de atendimento, para ganhar R$ 2.000 [por mês]", respondeu uma profissional candidata.

O diferencial desses serviços em relação aos modos anteriores de recrutamento e seleção pode ser resumido em duas palavras: inteligência artificial. O termo, excessivamente usado hoje em dia, pode significar muitas coisas, mas no caso é um algoritmo feito para automatizar alguns processos, principalmente a triagem de currículos e o ranqueamento dos “melhores” candidatos. O objetivo é criar um "match" entre candidato e empresa recrutadora de forma similar ao do aplicativo de namoro Tinder: se a empresa gostaria de ver profissionais com certas características, o programa vai fazer um megafiltro para apresentar apenas os que cumprem esses requisitos.

O uso de inteligência artificial leva a algumas questões. Quais são os critérios que orientam a seleção? Como sabemos que o algoritmo escolhe de fato os melhores candidatos e não comete erros? Como temos certeza que não existem vieses neste julgamento? Das críticas apontadas nas redes sociais, até que ponto a responsabilidade é das plataformas ou das empresas recrutadoras? Será que elas têm seguido a Lei Geral da Proteção de Dados (LGPD) e tratam devidamente os dados pessoais dos candidatos sob o consentimento deles?

O recrutamento automatizado de plataformas de RH é apontado como um dos motivos do desemprego de pessoas capacitadas, afinal, critérios curriculares como lacunas de tempo sem emprego de tempo integral viram pretexto para rejeitar candidatos com experiência adequada à vaga.

Pelo menos no discurso as startups afirmam se importar tanto com seus clientes quanto com os candidatos e tentam evitar a chance de enviesar o recrutamento. Parabéns para estes empreendedores que, pelo visto, estão anos luz a frente das empresas que juram de pés juntos que sabem contratar. As startups querem que a experiência do candidato também seja incrível durante todo o processo. Porque, quando uma pessoa tem um contato negativo com uma empresa, ela vira uma detratora, não vai recomendar aquela marca para os amigos, no futuro. Se o recrutador souber as características das pessoas que está buscando, é possível ignorar dados como faculdade em que os candidatos estudaram (ou idade, ou cursos, etc.) e tomar uma decisão mais assertiva.

Talvez em teoria, utilizar a identificação complexa de padrões e indicadores para prever se uma pessoa se adequa à empresa é um objetivo eficiente. Mas a tecnologia não consegue considerar fatores de cultura organizacional, machismo, racismo e capacitismo que afetam as pessoas no dia a dia. Então reproduzir grandes bases de dados costuma não ser uma boa ideia quando se fala sobre seres humanos. Aliás, muitas empresas discursam magnificamente sobre a importância das relações humanas, mas na prática, destoam. Enfim, não é à toa que o “entra e sai” nas empresas é infindável e, pior, custa caro. E... se o candidato obter êxito na etapa automatizada: prepare-se! É de ficar boquiaberto presenciar as perguntas dos “profissionais que fazem as entrevistas” – Você gosta de fazer horas extras? – Você gosta de trabalhar em equipe? E aí vai... Perguntas muito espertas! Depois a culpa é do governo, da economia, do covid.......