RABDOMIÓLISE
O PERIGO DE
CONFUNDIR SUPERAÇÃO COM SAÚDE:
QUANDO O CORPO
COBRA A CONTA
por Heitor Jorge Lau
Estamos
vivendo uma espécie de culto à superação física, no qual correr mais, percorrer
distâncias maiores, suportar mais dor e exibir resultados nas redes sociais
passaram a ser tratados como demonstrações de saúde, disciplina e sucesso
pessoal. Entretanto, existe uma diferença enorme entre cuidar do corpo e
submetê-lo a exigências para as quais ele não está preparado.
A morte de
uma jovem durante uma maratona nos Estados Unidos, atribuída à Rabdomiólise,
deveria servir de alerta para uma questão que vem ganhando espaço na sociedade:
a perigosa banalização dos limites físicos do organismo. Estamos assistindo a
uma crescente valorização de desafios esportivos, corridas de longa distância e
demonstrações de resistência que, embora frequentemente apresentadas como
símbolos de saúde e determinação, escondem riscos que muitas pessoas
simplesmente ignoram. O problema não está na atividade física, que é
indispensável à saúde, mas na transformação do exercício em uma espécie de
competição permanente contra o próprio corpo.
Essa
preocupação ganha proporções ainda maiores quando observamos pessoas acima dos
40, 50 e 60 anos assumindo desafios físicos cada vez mais exigentes, muitas
vezes sem preparação compatível, acompanhamento adequado ou compreensão dos
riscos envolvidos. Parece existir uma necessidade crescente de provar que a
idade não representa obstáculo, como se envelhecer fosse uma condição a ser
combatida mediante quilômetros percorridos, recordes pessoais e fotografias
exibindo medalhas. Entretanto, existe uma diferença fundamental entre
envelhecer com saúde e tentar demonstrar uma juventude física que o organismo
já não possui da mesma maneira.
Recentemente,
ouvi o relato de uma mulher cuja irmã, acima dos 50 anos, havia participado de
uma corrida de 25 quilômetros em Porto Alegre. Ao manifestar minha preocupação,
ouvi como justificativa: "Ela está acostumada". É justamente aí que
reside uma das maiores armadilhas dessa cultura de desafios físicos. Estar
acostumado a correr não significa estar adequadamente preparado para uma prova
de longa distância. Ter conseguido completar determinado percurso também não
significa que o organismo tenha suportado a experiência sem consequências.
Resistir a um esforço não é sinônimo de estar fisiologicamente protegido contra
ele.
A
rabdomiólise é um exemplo assustador dessa realidade. Trata-se de uma condição
na qual ocorre destruição das fibras musculares, liberando substâncias na
corrente sanguínea que podem provocar lesões renais graves e até levar à morte.
O esforço físico extremo, especialmente quando realizado sem condicionamento
adequado, associado ao calor, à desidratação ou à recuperação insuficiente,
pode desencadear esse quadro. E o mais preocupante é que uma pessoa pode
interpretar sinais de esgotamento como simples manifestações de esforço,
insistindo na atividade quando deveria interrompê-la e procurar atendimento.
Foi o caso da JOVEM que veio a falecer.
Não estamos
falando apenas de atletas profissionais. Ao contrário, o alerta precisa
alcançar principalmente os chamados atletas de fim de semana, aqueles que
passam boa parte da semana em atividades sedentárias e, em determinados
momentos, resolvem compensar a inatividade submetendo o organismo a esforços
intensos. Também precisamos considerar que, com o avanço da idade, a
recuperação muscular, a capacidade cardiovascular, a resposta ao calor e outras
funções fisiológicas passam por transformações. Isso não significa que pessoas
com 50, 60 ou 70 anos devam abandonar as corridas ou os desafios esportivos.
Significa que precisam compreender melhor suas condições individuais e
respeitar os limites do próprio organismo.
E os jovens
também não estão livres desses riscos. A juventude oferece determinadas
vantagens fisiológicas, mas não constitui um escudo contra o excesso, a
imprudência ou a falta de preparo. A rabdomiólise não escolhe idade, e
nenhum organismo está autorizado a ignorar seus próprios sinais de esgotamento.
Precisamos
abandonar a ideia de que parar representa fraqueza, que diminuir o ritmo
significa fracasso ou que completar uma prova a qualquer custo constitui uma
conquista admirável. A verdadeira inteligência esportiva está em reconhecer
limites, preparar-se progressivamente, respeitar períodos de recuperação e
compreender que desempenho não pode ser colocado acima da própria vida. Afinal,
de que adianta conquistar uma medalha, publicar uma fotografia de superação e
receber aplausos por alguns quilômetros percorridos, se o preço dessa
demonstração de resistência pode ser a própria saúde.
O corpo não
é um adversário a ser derrotado, tampouco uma máquina que aceita exigências
ilimitadas. É uma estrutura biológica complexa, que precisa de cuidados,
respeito e bom senso. Envelhecer com saúde não significa provar que ainda somos
capazes de fazer tudo o que fazíamos aos 20 anos. Significa ter maturidade
suficiente para compreender que a longevidade vale muito mais do que qualquer
medalha.
Enfim, não
transforme o exercício em uma aposta com a própria vida. Superação sem
consciência não é saúde. É imprudência disfarçada de virtude.

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