quarta-feira, 4 de novembro de 2026

RABDOMIÓLISE - QUANDO O CORPO COBRA A CONTA

RABDOMIÓLISE

O PERIGO DE CONFUNDIR SUPERAÇÃO COM SAÚDE:

QUANDO O CORPO COBRA A CONTA

por Heitor Jorge Lau

            Estamos vivendo uma espécie de culto à superação física, no qual correr mais, percorrer distâncias maiores, suportar mais dor e exibir resultados nas redes sociais passaram a ser tratados como demonstrações de saúde, disciplina e sucesso pessoal. Entretanto, existe uma diferença enorme entre cuidar do corpo e submetê-lo a exigências para as quais ele não está preparado.

            A morte de uma jovem durante uma maratona nos Estados Unidos, atribuída à Rabdomiólise, deveria servir de alerta para uma questão que vem ganhando espaço na sociedade: a perigosa banalização dos limites físicos do organismo. Estamos assistindo a uma crescente valorização de desafios esportivos, corridas de longa distância e demonstrações de resistência que, embora frequentemente apresentadas como símbolos de saúde e determinação, escondem riscos que muitas pessoas simplesmente ignoram. O problema não está na atividade física, que é indispensável à saúde, mas na transformação do exercício em uma espécie de competição permanente contra o próprio corpo.

            Essa preocupação ganha proporções ainda maiores quando observamos pessoas acima dos 40, 50 e 60 anos assumindo desafios físicos cada vez mais exigentes, muitas vezes sem preparação compatível, acompanhamento adequado ou compreensão dos riscos envolvidos. Parece existir uma necessidade crescente de provar que a idade não representa obstáculo, como se envelhecer fosse uma condição a ser combatida mediante quilômetros percorridos, recordes pessoais e fotografias exibindo medalhas. Entretanto, existe uma diferença fundamental entre envelhecer com saúde e tentar demonstrar uma juventude física que o organismo já não possui da mesma maneira.

            Recentemente, ouvi o relato de uma mulher cuja irmã, acima dos 50 anos, havia participado de uma corrida de 25 quilômetros em Porto Alegre. Ao manifestar minha preocupação, ouvi como justificativa: "Ela está acostumada". É justamente aí que reside uma das maiores armadilhas dessa cultura de desafios físicos. Estar acostumado a correr não significa estar adequadamente preparado para uma prova de longa distância. Ter conseguido completar determinado percurso também não significa que o organismo tenha suportado a experiência sem consequências. Resistir a um esforço não é sinônimo de estar fisiologicamente protegido contra ele.

            A rabdomiólise é um exemplo assustador dessa realidade. Trata-se de uma condição na qual ocorre destruição das fibras musculares, liberando substâncias na corrente sanguínea que podem provocar lesões renais graves e até levar à morte. O esforço físico extremo, especialmente quando realizado sem condicionamento adequado, associado ao calor, à desidratação ou à recuperação insuficiente, pode desencadear esse quadro. E o mais preocupante é que uma pessoa pode interpretar sinais de esgotamento como simples manifestações de esforço, insistindo na atividade quando deveria interrompê-la e procurar atendimento. Foi o caso da JOVEM que veio a falecer.

            Não estamos falando apenas de atletas profissionais. Ao contrário, o alerta precisa alcançar principalmente os chamados atletas de fim de semana, aqueles que passam boa parte da semana em atividades sedentárias e, em determinados momentos, resolvem compensar a inatividade submetendo o organismo a esforços intensos. Também precisamos considerar que, com o avanço da idade, a recuperação muscular, a capacidade cardiovascular, a resposta ao calor e outras funções fisiológicas passam por transformações. Isso não significa que pessoas com 50, 60 ou 70 anos devam abandonar as corridas ou os desafios esportivos. Significa que precisam compreender melhor suas condições individuais e respeitar os limites do próprio organismo.

            E os jovens também não estão livres desses riscos. A juventude oferece determinadas vantagens fisiológicas, mas não constitui um escudo contra o excesso, a imprudência ou a falta de preparo. A rabdomiólise não escolhe idade, e nenhum organismo está autorizado a ignorar seus próprios sinais de esgotamento.

            Precisamos abandonar a ideia de que parar representa fraqueza, que diminuir o ritmo significa fracasso ou que completar uma prova a qualquer custo constitui uma conquista admirável. A verdadeira inteligência esportiva está em reconhecer limites, preparar-se progressivamente, respeitar períodos de recuperação e compreender que desempenho não pode ser colocado acima da própria vida. Afinal, de que adianta conquistar uma medalha, publicar uma fotografia de superação e receber aplausos por alguns quilômetros percorridos, se o preço dessa demonstração de resistência pode ser a própria saúde.

            O corpo não é um adversário a ser derrotado, tampouco uma máquina que aceita exigências ilimitadas. É uma estrutura biológica complexa, que precisa de cuidados, respeito e bom senso. Envelhecer com saúde não significa provar que ainda somos capazes de fazer tudo o que fazíamos aos 20 anos. Significa ter maturidade suficiente para compreender que a longevidade vale muito mais do que qualquer medalha.

            Enfim, não transforme o exercício em uma aposta com a própria vida. Superação sem consciência não é saúde. É imprudência disfarçada de virtude.

 

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