quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

CÉREBRO, HÁBITO, APRENDIZADO, NEUROPLASTICIDAE E MUNDO DIGITAL

 

    O consumo recreativo do digital pela nova geração, sob todas as suas formas, seja por intermédio de um smartphone, tablets ou uma televisão,  é absolutamente estratosférico. A partir dos 2 anos de idade, as crianças dos países ocidentais acumulam diariamente quase 50 minutos diante da tela. Entre 2 e 8 anos, esse tempo sobe para 2h45min. Entre 8 e 12 anos, os jovens passam aproximadamente 4h45min diante das telas. Entre 13 e 18 anos, eles chegam perto de 7h15min. Parece absurdo ou fantasioso, mas não é, são dados oriundos de pesquisas científicas. Ao completar  um ano de idade, o tempo consumido totaliza mais de 1.000 horas para um aluno da pré-escola (1,4 mês), 1.700 horas para um estudante do nível fundamental (2,4 meses) e 2.650 horas para alunos do ensino médio (3,7 meses). Expresso em fração do tempo diário de vigília, isso resulta, respectivamente, em 20%, 32%, 45%. Ao longo dos 18 primeiros anos de vida, eles representam o equivalente a quase 30 anos letivos, ou, 15 anos de um emprego em tempo integral. Sem se alarmar, muitos especialistas midiáticos parecem aplaudir a situação. Psiquiatras, universitários, pediatras, sociólogos, consultores, jornalistas, ... multiplicam suas declarações indulgentes para tranquilizar os pais e a sociedade “entorpecidamente”crédula. Para eles, “os profissionais”, a humanidade estaria em uma nova era, e o mundo pertenceria agora aos assim chamados digital natives (nascidos nos tempos digitais, ou “nativos digitais”). Até mesmo o cérebro dos membros dessa geração pós-digital teria se modificado – para melhor, é claro. Ele teria, afirmam, se tornado mais rápido, mais reativo, mais apto à multiplicidade simultânea de tarefas, mais competente para sintetizar o imenso fluxo de informações, mais adaptado ao trabalho colaborativo. Essas evoluções acabariam por representar uma possibilidade extraordinária para a escola. Elas ofereceriam uma oportunidade absolutamente única de refundar o ensino, estimular a motivação dos alunos, fecundar sua criatividade, eliminar o fracasso escolar e derrubar o bunker das desigualdades sociais. Não é novidade ouvir a seguinte afirmação (deveras estúpida): eles já nasceram sabendo. Surge, então, a pergunta que não quer calar: sabendo o que?

    Infelizmente, esse entusiasmo generalizado está longe de ser unânime. Inúmeros especialistas denunciam a influência profundamente negativa dos dispositivos digitais atuais sobre o desenvolvimento. Todas as dimensões estariam sendo afetadas, desde o somático (obesidade e a maturação cardiovascular), até o emocional (agressividade e a ansiedade), passando pelo cognitivo (linguagem e a concentração); tantos danos, seguramente, não deixariam ileso o desempenho escolar. Por sinal, a respeito deste último, tudo indica que as práticas digitais realizadas em aula, para fins de instrução, também não seriam particularmente benéficas, como parece apontar a maioria dos estudos de impacto disponíveis, dentre os quais as famosas avaliações internacionais PISA - Programa Internacional de Avaliação de Estudantes. O diretor desse programa explicava recentemente, a respeito do processo de digitalização do ensino: “Se algum efeito tiver, é o de piorar as coisas”. Em sintonia com esses receios, alguns indivíduos e atores institucionais escolheram a prudência. Na Inglaterra, por exemplo, os diretores dos principais colégios ameaçaram enviar a polícia e os serviços sociais aos lares em que os pais deixam seus filhos jogar videogames violentos. Em Taiwan, onde os alunos apresentam um dos melhores desempenhos do planeta, uma lei prevê pesadas multas para os pais que expõem seus filhos com menos de 24 meses a qualquer aplicativo digital e que não limitam suficientemente o tempo de utilização pelos jovens de 2 a 18 anos de idade (o uso não deve ultrapassar 30 minutos consecutivos). Na China, as autoridades tomaram medidas drásticas afim de regulamentar o consumo de videogames entre os menores de idade, alegando especialmente que isso afetaria de forma negativa o bom desempenho escolar. Naquele país, crianças e adolescentes não têm mais permissão para jogar durante o período normalmente dedicado ao sono (entre 22 e 8 horas) ou para ultrapassar 90 minutos de exposição diária em dias de semana (e 180 minutos nos fins de semana e durante as férias escolares). Nos Estados Unidos, inúmeros dirigentes ilustres de indústrias digitais, como era o caso de Steve Jobs, o mítico ex-diretor da Apple, parecem bastante preocupados em proteger sua prole das diversas “ferramentas digitais” que eles próprios comercializam. Tudo indica, como sugeriu o New York Times, que “um consenso sombrio em relação à utilização de telas digitais pelas crianças começa a surgir no Vale do Silício”. Um consenso aparentemente bem expressivo, capaz de extrapolar o ambiente doméstico e incentivar os geeks a inscrever seus filhos em escolas particulares caríssimas onde não se utilizam telas digitais (e aqui no Brasil andam discutindo a intensificação das tecnologia nas escolas em detrimento de professores melhor treinados e remunerados - puro mercantilismo e jogo político). Como explica Chris Anderson, ex editor da revista Wired e atual executivo de uma empresa de robótica: “Meus cinco filhos (de 6 a 17 anos) acusam a mim e a minha esposa de sermos fascistas e exageradamente preocupados com a tecnologia, e dizem que nenhum de seus amigos é submetido a essas regras. Isso acontece porque nós logo percebemos os perigos tecnológicos. Eu notei isso em mim. Não quero que o mesmo aconteça com meus filhos”. Para ele, “na escala entre doces e cocaína, isso está mais próximo da cocaína”.

    Esta é a conclusão do jornalista francês, doutor em sociologia, Guillaume Erner: “A moral da história é a seguinte: deem telas a seus filhos, os fabricantes de telas continuarão dando livros aos deles”. Então, em quem acreditar? No meio desse pandemônio contraditório, quem está blefando? Quem se engana? Onde está a verdade? Nutridos pelas telas digitais, estarão nossos filhos encarnando “a mais esperta geração de todas”, como garante Don Tapscott, consultor especialista sobre o impacto das novas tecnologias, ou seriam eles “a geração mais estúpida”, como alerta Mark Bauerlein, professor na Universidade de Emory? Mais globalmente, a atual “revolução digital” é, para nossos filhos, uma oportunidade ou um triste mecanismo de fabricar imbecis? Eis o ponto essencial deste breve texto: responder a estas perguntas. Visando a clareza, esta análise é organizada em três partes principais. A primeira avalia a substância do conceito fundador, ainda vivo, do nativo digital. A segunda análise é sobre a dupla natureza, qualitativa e quantitativa, do uso das tecnologias digitais pelas crianças e adolescentes. A terceira examina o impacto desse uso. É enorme a distância entre a realidade inquietante das pesquisas disponíveis e o conteúdo frequentemente tranquilizador (e mesmo entusiasta) dos discursos midiáticos. Esse hiato, porém, nada tem de surpreendente. Ele apenas remete a potência econômica das indústrias digitais recreativas. A cada ano, elas produzem bilhões de dólares de lucro. Ora, se a história recente ensinou alguma coisa, é exatamente que os prezados homens de negócios não renunciam facilmente a seus lucros, ainda que estes se multipliquem em detrimento da saúde dos consumidores. No centro dessa guerra travada pelo mercantilismo contra o bem comum se encontra um poderoso exército de cientistas complacentes, lobistas zelosos e mercadores profissionais da dúvida.

    Tabaco, remédio, alimentação, mudanças climáticas, amianto, chuvas ácidas, ..., é longa a lista de precedentes instrutivos. O grupelho aterrorizado dos obscurantistas reacionários já teria golpeado, por exemplo, com o fliperama, o micro-ondas, o rock, a tipografia ou a escrita (denunciada em sua época por Sócrates, por conta de seus possíveis efeitos sobre a memória). Infelizmente, por mais sedutoras que sejam, essas considerações não são menos imprecisas. O problema é que não existem estudos estabelecendo a nocividade do fliperama, do micro-ondas ou do rock. Ao mesmo tempo, existe um corpus sólido que salienta a influência positiva do livro e do domínio da escrita sobre o desenvolvimento. A partir daí, o que desqualifica uma hipótese não é a sua formulação inicial, mas sua avaliação final. Alguns temeram o rock. Mas nada corrobora esse medo: ponto final. Outros se inquietaram com a escrita. Uma vasta literatura científica invalida esse temor: que rufem os tambores. Pouco importam os medos histéricos do passado. Somente os dados atuais devem contar: o que dizem eles, de onde vêm, são confiáveis, são coerentes, quais são seus limites, ...? É respondendo a essas perguntas que será permitido a todos tomar decisões ponderadas, não fugindo à questão por meio do escapismo obsoleto do alarmismo, da culpa ou dos pânicos morais.

    Enfim, está fora de questão rejeitar “O” mundo digital em seu conjunto e reivindicar, sem nuances, o retorno ao telégrafo a fio, à calculadora de Pascal ou aos rádios a válvulas. Este texto não é tecnófobo. Em diversos campos – associados, por exemplo, à saúde, às telecomunicações, ao transporte aéreo, à produção agrícola ou à atividade industrial – o aporte extremamente fecundo do mundo digital não pode ser contestado. Quem pode se queixar de ver robôs efetuarem nos campos, nas minas ou nas fábricas todas as tarefas brutais, repetitivas e destruidoras que até então eram realizadas por homens e mulheres ao custo de sua saúde? Quem pode negar o enorme impacto que as ferramentas de cálculos, de simulação, de armazenamento e de compartilhamento de dados tiveram sobre a pesquisa científica e médica? Quem pode questionar o interesse dos softwares para tratamento de texto, de gestão, de desenho mecânico e industrial? Quem ousaria afirmar que a existência de recursos pedagógicos e documentais competentes, livremente acessíveis a todos, não representa um benefício? Obviamente, ninguém! Dito isso, esses incontestáveis benefícios não devem ocultar a existência de avanços tecnológicos muito mais prejudiciais, especialmente no campo dos consumos recreativos. Ainda mais que esses consumos concentram a quase totalidade dos usos de tecnologias digitais pelas jovens gerações. Dito de outra forma, quando o arsenal de telas disponíveis hoje em dia (tablets, computadores, videogames, smartphones, ...) é disponibilizado para as crianças e adolescentes, suas práticas não se orientam no sentido de utilizações mais nitidamente positivas, mas no sentido de uma farra de utilizações recreativas das quais a pesquisa revela irrevogavelmente um caráter nocivo. Uma coisa é certa: se as crianças e os adolescentes concentrassem suas práticas naquilo que o digital oferece de mais positivo, o presente texto, estudos e os respectivos alertas não teriam razão alguma de existir.

terça-feira, 28 de novembro de 2023

A ARTE MODERNA PEDE SOCORRO

 

Interação de criança com homem nu gera polêmica em exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo” (https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/artes/noticia). Esta é a chamada inserida no link anterior. Uma polêmica sem precedentes (creio) que gerou um mix de revoltas, indignações, críticas e exageros (como sempre). Mas sobre este episódio muito já se falou e discutiu. Esta introdução foi para chamar a atenção. Agora, aqui, o papo é outro. Uma crítica sobre a arte moderna. Afinal o que vem a ser arte e o que vem a ser arte moderna? Há quem afirme que um monte de livros empilhados ou uma pedra de três toneladas no meio de uma salão é arte moderna. Mesmo que um olhar desmunido de crítica artística não perceba ou não consiga interpretar a mensagem ou as mensagens de um quadro de “algum famoso” (se é que existe uma), por exemplo, este mesmo olhar é humanamente capaz de fazer aquela cara de paisagem diante da obra, suspirar e... era isso! Bem no comecinho do século, um cara chamado Affonso Romano de Sant'Anna, que graduou em Letras Neolatinas pela então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da UMG, atual Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), iniciou uma ampla discussão a respeito daquilo que acabou sendo convencionado como Arte Moderna.

Sant'Anna lecionou na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), EUA, cursou doutorado pela UFMG e, após um ano, desenvolveu um curso de pós-graduação em Literatura Brasileira na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Ele ministrou cursos na Alemanha (Universidade de Colônia), Estados Unidos (Universidade do Texas e UCLA), Dinamarca (Universidade de Aarhus), Portugal (Universidade Nova) e França (Universidade de Aix-en-Provence). Pouca coisa (né)! Ainda teria mais histórico mas vamos parar por aqui, afinal, este breve “historiquinho” é para demonstrar que não se trata de um reles palpiteiro de plantão.

Segundo este ilustre cidadão brasileiro, “nos últimos anos — disse ele — tornou-se evidente um fosso entre o público e as obras apresentadas como artísticas (…) Muitos intelectuais importantes dentro da chamada modernidade não reconhecem em muitas das obras hoje apresentadas em galerias e museus o caráter de inovação ou de criatividade artística”. Ele esclarece que não está se referindo a qualquer manifestação com o mesmo teor vanguardista que sinalizou a passagem do século XIX para o XX, com linguagens estéticas inovadoras e as suas respectivas dificuldades de assimilação das pretensas mensagens artísticas.

Sant'Anna complementa que “a sensação que se tem hoje é que muitos autores desses produtos não estão apenas repetindo essencialmente as experiências que vão do impressionismo ao dadaísmo, mas sobretudo são despreparados técnica e intelectualmente para a tarefa a que se propõem”. Verdade indiscutível! Dadísmo é movimento vanguardista do início do século XX. Sua denominação é derivada da palavra dadá, que pode ter múltiplos significados e não significar coisa alguma. Surgiu durante a Primeira Guerra Mundial, em 1916, como a ideia básica de contestar os valores culturais. As muitas reflexões de Affonso Romano de Sant’Anna foram aglutinadas no livro intitulado Desconstruir Duchamp: arte na hora da revisão. Marcel Duchamp (1887-1968) foi o responsável pelo conceito de Ready Made, que é o transporte de um elemento da vida cotidiana, a princípio não reconhecido como artístico, para o campo das artes. Começou apenas como uma mera brincadeira entre amigos. A partir daí, Duchamp passou a incorporar materiais de uso comum nas suas esculturas. Em vez de trabalhá-los artisticamente, ele simplesmente os considerava prontos e os exibia como obras de arte. Enfim, foi ele que transformou um penico em obra de arte. Pasmem! Certa vez desenhou um bigodinho na Mona Lisa. Sim, na Mona Lisa! O ápice da sua “inspiração e criação artística” foi quando acordou no meio da noite e resolveu se masturbar (desculpem os leitores mas é verdade). O produto final da masturbação pingou sobre um chinelo usado e voilà: atualmente a obra ou (para os leigos) o chinelo velho com “aquilo” encontra-se exposto num museu de Tóquio, e... vale uma fortuna. Guardem os seus chinelos velhos. Um dia eles irão valer muita grana (rsss).

Foi uma época em que demandava questionamentos sobre o fazer artístico. Mas, o tempo de Marcel Duchamp passou, foi, já era... e muita gente insiste em querer imitá-lo sem perceber a total ingenuidade (e falta de criatividade) da atitude. No “conjunto da obra”, se tudo que é enfadonho, desprovido de criatividade, apelativo e sem noção (ou seja, qualquer coisa) é considerado arte ou pode vir a ser arte, a contrapartida mais sensata e aceitável é que nada do que é chamado de arte terá a possibilidade de ser arte. Simples assim!

O resultado disso tudo? Está aí, mundo a fora: uma pirâmide feita com caixinhas de fósforos é uma escultura; uma toalha suja pendurada na parede, um autorretrato; um doido jogando cerveja no chão, um ato de protesto. Certa vez um artista italiano, Piero Manzoni (1933-1963), depositou suas fezes dentro de uma latinha e batizou a obra como Merda de Artista. É celebre sua obra Merda de Artista, dentre outras tantas que chegam a ser vendidas por mais de um milhão de libras (ou seis milhões e reais). É algo a se pensar: fazer no vaso ou dentro de uma lata? Vá que o “cocozinho” renda uma grana. Em seguida, o artista belga Win Delvoye, construiu uma gigantesca máquina de fazer cocô. Ele ficou conhecido por trabalhos provocadores, como esta, a"Cloaca", uma máquina que reproduz o sistema digestivo humano e gera fezes O produto dessa máquina já foi vendido em saquinhos que custavam mil dólares cada. Tá loko! Atualmente me questiono se não entendo de arte ou de cocô.

Diante destes mínimos exemplos de cair o queixo, seria possível inventar uma leitura intelectualizável de tais “obras artísticas”, mas... isto seria um gesto tão imbeciloide quanto levar fezes humanas embaladas para casa. Não se trata aqui de propor um boicote ou uma censura à performance com atitudes autoritárias e pouco construtivas. Trata-se, sim, de reconhecer, sem medo de passar um atestado de conservadorismo, que o mundo está diante de arte ruim, tola, esnobe, repetitiva e totalmente deslocada do seu tempo (se é que algum dia deveria ter tido tempo). Mas...se existe “arte” ruim e sem significado, também existem “críticos” de arte e “apreciadores” desta “arte” que permanecem estáticos diante disto tudo com cara de samambaia jurando que estão percebendo o imperceptível. Palavras de Sant’Anna: “já passou da hora de os artistas urinarem no penico de Duchamp”...ou quem sabe pegar o cocô da latinha de Manzoni e colocar no penico artístico.

domingo, 12 de novembro de 2023

MÍDIAS SOCIAIS: INTELIGÊNCIA LADEIRA ABAIXO


 REDES SOCIAIS – A RECEITA PARA ALIENAR CÉREBROS DESATENTOS

Um estudo realizado há mais de uma década por uma renomada instituição norte-americana alertara na época que o Facebook e Twitter (principalmente, e agora Instagram e Tik Tok) teriam a potencialidade de viciar o internauta, muito maior do que as drogas lícitas. É importante ressaltar que até mesmo o próprio Steve Jobs, “pai” da Apple, nunca permitiu que os seus filhos tivessem contato demasiado com tais tecnologias (e outras) porque afirmara que as redes sociais poderiam afetar os mais jovens com maior intensidade e facilidade (no entanto, parece que este detalhe se estendeu a todas as faixas etárias). Entre as causas mais contundentes da dependência das redes sociais estão: a baixíssima autoestima, a insatisfação pessoal, a depressão e, inclusive, a falta de afeto, carência que muitas vezes os internautas procuram preencher com os “famosos” likes. O fato é que as pessoas buscam compulsivamente nas redes sociais um experimentar intenso e uma sensação de satisfação que, no entanto, pode ser contraproducente uma vez que geram, ao longo do tempo, a dependência emocional da opinião dos outros. A verdade é que - diante do parecer técnico de muitos especialistas - o uso das redes sociais pode acarretar em dependências acompanhadas de suas preocupantes consequências: distanciamento da vida real, distanciamento das relações familiares, depressão, ansiedade, isolamento, irritabilidade, perda de controle sobre a própria existência … Quanto menor a faixa etária do internauta maior o risco de “cair” na dependência. Os motivos determinantes são: tendência para a impulsividade, necessidade de ter influência social ampla e expansiva e, finalmente, a necessidade de reafirmar a identidade de grupo. A permanência excessiva nas redes sociais debilita, indiscutivelmente, os laços que unem os seres humanos.

quem categorize como sinais mais comuns do dependente das redes: estresse diante da ausência de acesso à internet; nervosismo quando o sinal de acesso à internet não funciona ou encontra-se mais lento do que o normal; ímpeto incontrolável de dar aquela olhadinha nas redes sociais a todo instante; inquietude caso o celular não estiver ao alcance da mão; ansiedade ao ouvir o “plim” no celular; caminhar utilizando as redes sociais (já presenciei gente caindo na calçada); mal-estar e desespero se não receber likes, retweets ou visualizações; uso das redes sociais ao dirigir (prática comum); necessidade irresistível de publicar qualquer coisa da vida diária (vou ao banho, tomando café, dor de cabeça, fazendo xixi... tá loko!); perceber a vida dos outros como melhor do que a própria; ir na academia e não largar – NÃO LARGAR – o celular durante os exercícios (eis algo irritante porque a pessoa passa mais tempo no telefone do que se exercitando – e “monopolizando” o aparelho). Enfim, a lista vai longe...e ter paciência deixou de ser uma virtude. Passou a ser uma necessidade! Perder a noção do tempo e deixar tarefas de lado é algo comum quando se está imerso no mundo digital e incontáveis vezes as pessoas acabam passando mais tempo em seus refúgios virtuais que na vida real. As redes sociais dominaram a mente de boa parte dos internautas provocando mudanças de hábitos que interferem diretamente no raciocínio, como por exemplo:

Estimular a compra compulsiva: as redes sociais são um prato cheio para captar consumidores dada a quantidade de tempo que os internautas permanecem conectadas, aumentando consideravelmente a possibilidade de caírem na compra compulsiva. Ampliação da necessidade da aprovação alheia: um número considerável de internautas utiliza as redes sociais na ânsia de encontrar algum tipo de validação social, ou seja, permanecem muito tempo conectados por sentirem a necessidade constante de aprovação alheia. Insatisfação com a própria vida: ninguém publica momentos ruins da própria vida para o mundo ver. Logo, permanecer tempo demais logado nas redes sociais pode gerar a sensação de que todos estão vivendo muito bem, aproveitando a vida (“menos eu”). Queda do nível de atenção mental: não é segredo que qualquer mínima notificação de celular chama a atenção instantaneamente. Acostumados à presença e à comodidade dos aparelhos eletrônicos, a atenção se volta para eles tão logo emitam a menor vibração. Desta forma, o cérebro se programa para atender ao estímulo produzido pelo celular, e retira o foco de atenção de quaisquer outras atividades que se esteja desempenhando. Perda da independência do pensamento: dentre os danos causados pelas redes sociais, um recorrente é o “efeito manada”. O instinto humano de ser aceito é algo inconsciente e, portanto, praticamente inevitável. E se na vida social muitos são levados a se comportar como os demais – seja para se sentir aceito e acolhido, ou para não “destoar” ou parecer estranho perante os outros – imagine essa mesma pressão no mundo virtual, onde a “manada” é exponencialmente maior e a competição por atenção chega a ser cruel. Diversidade de interpretações: este efeito pode ser percebido na redução da capacidade de pensar por si próprio. Basta notar a quantidade de haters dissimulando ódio gratuitamente. E pior: o tamanho da influência que essas pessoas exercem no meio virtual.

Zygmunt Bauman, lembram? O sociólogo antecipou a crise das relações no seu famoso livro “Amor Líquido”, muito antes do uso insano e desenfreado das redes. O conteúdo representa o quanto as relações e os vínculos afetivos tornam-se descartáveis, facilmente substituíveis e dispersos. A impressão é que tudo acaba em curtir, compartilhar, seguir de volta, acumular, bloquear e silenciar seguidores. Interessante perceber que os usuários possuem muitos, muitos amigos, centenas, milhares de amigos nas redes. Aham! Sim! Claro! “Com certeza!”. Viver on-line é “maravilhoso” pelas possibilidades (aparentes) sem fronteira. Entretanto, na vida real, o cenário e os “atores” são outros. A dinâmica das redes sociais segue uma regra previsível: nem sempre o que está sendo publicado condiz com a realidade. Essa fragilidade é posta, sobretudo, no que diz respeito às relações interpessoais. Enfim, quem dera o cérebro pensasse mais do que os dedos e respondesse as seguintes questões: Afinal, as redes sociais aproximam ou afastam das “trocas reais”? Como essa superficialidade compromete a saúde mental?


 

 

 

sábado, 31 de dezembro de 2022

MANOEL DE BARROS - UM VERDADEIRO POETA


 

O filósofo catalão Rafael Argullol define a poesia como “a destilação do silêncio”. Em um dos versos das Memórias inventadas, o poeta Manoel de Barros confirma este elo essencial entre a escrita poética, o desaparecimento e a mudez: “Uso a palavra para compor meus silêncios.” Esse apego ao recolhimento é, no caso de Manoel, uma estratégia que cobiça o nada. Uma arte da meditação. Está escrito em O guardador de Águas: “Não tenho bens de acontecimentos./ O que não sei fazer desconto nas palavras.”


O objetivo da poesia de Manoel de Barros não é explicar, mas “desexplicar”. Ela se desenrola além da razão e de seus bons argumentos. Por isso, provavelmente, é uma poesia que se apega à infância, momento da vida em que todos os sentidos ainda estão por se fazer. A criança tem a liberdade para cultivar uma visão torta das coisas. Seu olhar é sinuoso, e não reto. A razão — que nos fascina desde o Iluminismo — ainda é uma quimera. Nesse corajoso retorno à infância, Manoel trabalha com inversões, deslocamentos, deformações — “brincadeiras” semelhantes as dos primeiros anos de vida. Pode dizer coisas como: “O córrego ficava à beira/ de um menino…” ou “luava um pássaro”. É toda uma realidade que se inverte, libertando-se das amarras do bom senso. Não só dele, mas do valor solene e definitivo que os adultos, em geral, atribuem às palavras.


O poeta Manoel de Barros não blefava, não mentia, ao contrário, levava a encarar a difícil verdade. A poesia de Manoel é feita de restos, de sobras, de dejetos. Como ele diz em um poema: de “inutensílios”. É uma poesia que se instala nos primórdios, quando as palavras ainda se confundem com as imagens. Ela confirma, assim, o caráter “inútil” — isto é, não pragmático, indiferente aos resultados — que a define. Como ele mesmo diz no Concerto a Céu Aberto para Solos de Ave: “Passei anos me procurando por lugares nenhuns./ Até que não me achei — e fui salvo.”


Estranha salvação promovida não por um encontro, mas por um desencontro. Barros elogia também os defeitos, os desvios e o desprezível. De seu personagem Bernardo, ele diz que “desregula a natureza”.


Está dito no Livro Sobre Nada: “A sensatez me absurda.” Por isso, talvez, alguns intelectuais sisudos, inseguros, dele se afastem e até neguem sua grandeza. Nada disso o importunava. Dizia Manoel ter aprendido com o pintor boliviano Rômulo Quiroga que a força de um artista não vem de seus sucessos, mas de suas derrotas. É ali onde a arte falha — em pleno silêncio aterrador — que a poesia nasce. Quando pensa em suas palavras, perde o medo de errar. Mesmo com os cabelos brancos, Manoel ainda vivia uma infância na qual “não havia limites para ser”.


Preferia as ciências “que analfabetam”. Orgulhava-se, também, de seu senso apurado “de irresponsabilidades”. No Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo, ele escreve: “Meu fado é o de não saber quase tudo.” Toma uma posição oposta a dos poetas sabichões, para quem a contradição é intolerável. Sabia, ao contrário, que a realidade é feita de lados divergentes. De difíceis paradoxos. É uma esfera que, em seu centro, sustenta a ignorância. Em Menino do Mato, ele diz: “Certas visões não significavam nada mas eram passeios verbais.” Sua poesia não está só além dos significados: ela os desmonta. Aquele homem sereno não tinha medo de enlouquecer. Ao contrário: sabia que, sem uma dose de desrazão, não se consegue fazer arte. Em O livro das Ignorãças ele afirma: “No descomeço era o verbo./ Só depois é que veio o delírio do verbo.”


O apego ao silêncio era uma forma que Manoel encontrava para ir além das palavras. Repetia um pouco Clarice Lispector, que escrevia para chegar “atrás de detrás dos pensamentos”. Ambos foram desbravadores, e isso os envolveu no manto da desconfiança. Na verdade: dá medo. Sua escrita errante e tortuosa dele se alimenta. “Sou mais a palavra com febre”, escreve nos Arranjos para Assobio. Também não temeu a sujeira — que, aliás, desde as primeiras fraldas, define o humano: “O que é bom para o lixo é bom para a poesia”, recomenda em Matéria de Poesia.


Por tudo isso, o encontro com a poesia de Manoel de Barros promovido por esta antologia se torna, ao mesmo tempo, um desencontro. O leitor se desencontra consigo mesmo e com tudo o que aprendeu: eis a poesia. O leitor tropeça no desconhecido e, ao se mirar no espelho das palavras, se desconhece: a poesia de novo. Manoel nunca temeu afirmar que o nome empobrece a imagem. Que a palavra a diminui e prende. Ainda assim, a palavra é tudo o que um poeta tem. Aceitando seu destino, escreveu: “Com esses exercícios os nossos/ desconhecimentos aumentaram bem."

 

Adaptado do livro: Meu Quintal é Maior que o Mundo de Manoel de Barros

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO - 56 ANOS DEPOIS

 

"Sociedade do espetáculo": esta expressão já está em voga, especialmente ao se falar de televisão. No Brasil, parece se impor mais do que em outros lugares. Poucos, porém, sabem que, na origem, este era o título de um livro de Guy Debord. Lançado na França em 1967, A Sociedade do Espetáculo tornou-se inicialmente livro de culto da ala mais extremista do Maio de 68, em Paris; tornou-se um clássico em muitos países. Em um prefácio de 1982, o autor sustentava com orgulho que o seu livro não necessitava de nenhuma correção.O "espetáculo" de que fala Debord vai muito além da onipresença dos meios de comunicação de massa, que representam somente o seu aspecto mais visível e mais superficial. Em 221 brilhantes teses de concisão aforística e com múltiplas alusões ocultas a autores conhecidos, Debord explica que o espetáculo é uma forma de sociedade em que a vida real é pobre e fragmentária, e os indivíduos são obrigados a contemplar e a consumir passivamente as imagens de tudo o que lhes falta em sua existência real.


Têm de olhar para outros (estrelas, homens políticos...) que vivem em seu lugar. A realidade torna-se uma imagem, e as imagens tornam-se realidade; a unidade que falta à vida, recupera-se no plano da imagem. Enquanto a primeira fase do domínio da economia sobre a vida caracterizava-se pela notória degradação do ser em ter, no espetáculo chegou-se ao reinado soberano do aparecer. As relações entre os homens já não são mediadas apenas pelas coisas, como no fetichismo da mercadoria de que Marx falou, mas diretamente pelas imagens. Para Debord, no entanto, a imagem não obedece a uma lógica própria, como pensam, ao contrário, os pós-modernos "a la Baudrillard", que saquearam amplamente Debord.


A imagem é uma abstração do real, e o seu predomínio, isto é, o espetáculo, significa um "tornar-se abstrato" do mundo. A abstração generalizada, porém, é uma consequência da sociedade capitalista da mercadoria, da qual o espetáculo é a forma mais desenvolvida. A mercadoria se baseia no valor de troca, em que todas as qualidades concretas do objeto são anuladas em favor da quantidade abstrata de dinheiro que este representa. No espetáculo, a economia, de meio que era, transformou-se em fim, a que os homens submetem-se totalmente, e a alienação social alcançou o seu ápice: o espetáculo é uma verdadeira religião terrena e material, em que o homem se crê governado por algo que, na realidade, ele próprio criou.


Nessa base, Debord condena toda a sociedade existente, não somente fraquezas individuais e imperfeições. Em 1967, Debord distinguia dois tipos de espetáculo. O "difundido" (o tipo ocidental, "democrático") caracterizava-se pela abundância de mercadorias e por uma aparente liberdade de escolha. No espetáculo "concentrado", ou seja, nos regimes totalitários de toda a espécie, a identificação mágica com a ideologia no poder era imposta a todos para suprir a falta de um real desenvolvimento econômico. Toda a forma de poder espetacular justificava-se denunciando a outra; e nenhum sistema, além destes dois, devia ser imaginável.


Debord, portanto, reconheceu na antiga e extinta URSS, nada menos do que 25 anos antes de seu fim, uma forma subalterna – e destinada, enfim, a sucumbir - da sociedade da mercadoria. Mas, por um longo período, enquanto existia um proletariado inquieto, o comunismo de Estado desempenhou uma função essencial para o espetáculo ocidental: a de assegurar que os rebeldes potenciais se identificassem com a mera imagem da revolução, delegando a ação real aos Estados e aos partidos comunistas totalmente cúmplices do espetáculo ocidental; ou, então, a pressupostos revolucionários muito distantes, no Terceiro Mundo.




Debord anunciou, no entanto, o aparecimento de um movimento de contestação de tipo novo: retomando o conteúdo liberatório da arte moderna, teria como programa a revolução da vida cotidiana, a realização dos desejos oprimidos, a recusa dos partidos, dos sindicatos e de todas as outras formas de luta alienadas e hierárquicas, a abolição do dinheiro, do Estado, do trabalho e da mercadoria. Por isto, Debord sempre considerou o conteúdo profundo de 1968 como uma confirmação de suas ideias.

Teve, porém, de admitir, em Comentários Sobre a Sociedade do Espetáculo (1988), que o domínio espetacular conseguiu se aperfeiçoar e vencer todos os seus adversários; de modo que agora é a sua própria dinâmica, a sua desenfreada loucura econômica a arrastá-lo em direção à irracionalidade total e à ruína. Os dois tipos anteriores de espetáculo deram lugar, no mundo todo, a um único tipo: o "integrado". Sob a máscara da democracia, este remodelou totalmente a sociedade segundo a própria imagem, pretendendo que nenhuma alternativa seja sequer concebível. Nunca o poder foi mais perfeito, pois consegue falsificar tudo, desde a cerveja, o pensamento e até os próprios revolucionários. Ninguém pode verificar nada pessoalmente. Ao contrário, temos de confiar em imagens, e, como senão bastasse, imagens que outros escolheram. Para os donos da sociedade, o espetáculo integrado é muito mais conveniente do que os velhos totalitarismos. A América Latina sabe algo a respeito. Mas Debord (1931-1994) não é apenas um dos poucos autores de inspiração marxista que hoje podem dar uma contribuição válida para a análise do capitalismo globalizado e pós-moderno. Ele também fascina por sua vida singular, sem compromissos e conforme as suas teorias.


A busca da aventura e da vida "verdadeira" esteve na base de sua vida pessoal - da qual a sua autobiografia Panegírico e os seus filmes falam -, assim como de sua teoria. Levou uma existência intencionalmente "maldita", às margens da sociedade, sem um trabalho reconhecido, sem nenhum contato com as instituições, sem nunca ter frequentado uma universidade, concedido uma entrevista ou participado de um congresso e, no entanto, conseguiu fazer com que fosse ouvido. Levou adiante a sua batalha contra a sociedade espetacular exclusivamente com os meios que ele próprio criou para si: em primeiro lugar, com a Internacional Situacionista, uma pequena organização que existiu entre 1957 e 1972 e que se originou da decomposição do surrealismo parisiense e de outras experiências artísticas.


Com a revista homônima e novos meios de agitação (quadrinhos, organização de escândalos), os situacionistas souberam prefigurar, muito melhor do que a esquerda "política", as novas linhas de conflito na sociedade "da abundância". Entre outras coisas, criticavam impiedosamente a nova arquitetura, o vazio e o tédio do pós-guerra. Com poucas intervenções miradas, os situacionistas fizeram com que ideias subversivas - que, por volta de 1960, eram compartilhadas por um punhado de pessoas - se tornassem, em 1968 e posteriormente, um fator histórico de primeira ordem. Os situacionistas, e particularmente Debord, distinguem-se pelo estilo inconfundível, e não somente no plano literário. Era o resultado da mistura entre um conteúdo radical - que remetia, entre outros, aos dadaístas, aos anárquicos e à vida popular parisiense - e um tom sofisticado e aristocrático, com muitas referências à cultura clássica francesa.


Este estilo, assim como a sua verve polêmica, mesmo para com todos os supostos contestadores (esquerda oficial, artistas "engajados"...), sua inacessibilidade e a sua transgressividade nas formas, logo os cercou de um ódio significativo, mas sobretudo de uma aura de mistério. Que ainda vive, 30 anos depois: com efeito, ainda se publicam textos dos situacionistas e sobre eles, embora amiúde procurem fazê-los passar exclusivamente por última "vanguarda cultural". Na França, ao contrário, só querem enxergar em Debord o escritor. Ainda hoje não querem perdoá-lo por ter escrito A Sociedade do Espetáculo.

 


 

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Fratelli Tutti à sombra do Antropoceno


Entre as inúmeras aparições do Papa Francisco, qual será considerada pela posteridade como a mais icônica? Provavelmente nem a visita a Lampedusa entre os migrantes nem o encontro com os povos indígenas da Amazônia, embora ambos sejam imagens peculiares do seu pontificado – mas sim a sua aparição em uma Praça de São Pedro deserta durante a pandemia do coronavírus.

 

Uma figura de branco, sozinha, que subia fatigantemente os degraus rumo à Basílica de São Pedro, para depois dar a bênção eucarística Urbi et Orbi: essa será a imagem que entrará nos livros de história. Uma visão, sem dúvida, cheia de contrastes: a imagem do papa solitário ao entardecer debaixo da chuva, em contraste com a imagem familiar, para os telespectadores de todo o mundo, dele olhando para a Praça de São Pedro saudado pela exultação de dezenas ou centenas de milhares de fiéis entre as colunas de Bernini. E, depois, em março de 2020, uma manifestação poderosa de vulnerabilidade que comoveu até os não crentes.

 

No entanto, a pandemia está ofuscando a consciência referente a outra calamidade. Longe das câmeras, em agosto de 2018, Greta Thunberg prestava um testemunho anônimo dessa calamidade, brandindo o seu cartaz com a frase “School Strike for Climate” (Greve escolar pelo clima), em Estocolmo, totalmente sozinha, em frente ao Parlamento sueco. Na época com 15 anos, armada de um talento notável e de muita obstinação, ela desencadeava a proverbial avalanche.

 

A partir dos “Fridays for Future”, o aquecimento global (e a falta de combate a esse problema) tornou-se um refrão em todo o mundo. A indignação de Greta nas Nações Unidas (com o seu “Como vocês se atrevem?”) teve uma cobertura tão vasta na mídia que a revista estadunidense Time nomeou a menina como “Pessoa do Ano de 2019”.

 

Mas a Covid-19 apagou Greta da memória coletiva. E se trata de uma supressão de primeiro grau, porque já está claro a todos os especialistas que a pandemia da Covid-19 é apenas o prelúdio de uma era de colisões na biosfera devidas a uma relação já comprometida entre o gênero humano e a natureza. E esse é também o sentimento do escritor britânico Ian McEwan: “A Covid é o nosso tutorial em massa, a nossa prova geral de todos os danos e os infortúnios pessoais que a emergência climática pode causar. Recebemos o aviso de um desastre em escala planetária” (The Wall Street Journal, 19 de março de 2021).

 

Por trás da Covid-19, esconde-se uma crise da natureza, e, depois da pandemia, o Antropoceno se assoma no horizonte. Como o próprio Papa Francisco contou, ele foi surpreendido pela pandemia enquanto escrevia a encíclica Fratelli tutti. Mas a encíclica tem algo a dizer sobre essa crise da natureza que está destinada a se tornar a marca distintiva do século XXI? A mensagem da fraternidade universal pode se realizar à sombra do Antropoceno?
 
Antropoceno: um conceito que esconde um abismo

 

Raramente uma exclamação teve tanto sucesso. Em 2000, durante uma conferência sobre a mudança global em Cuernavaca, no México, Paul J. Crutzen, cientista de Mainz, premiado com o Nobel pelo seu trabalho sobre o buraco de ozônio, não conseguiu se conter: “Paremos de usar a palavra Holoceno. Não estamos mais no Holoceno. Estamos no Antropoceno!” (E. Horn - H. Bergthaller, The Anthropocene. Key Issues for the Humanities, Routledge, 2019). No início, houve um silêncio atônito, em seguida, no momento do coffee break, o termo começou a circular, difundindo-se primeiro nos círculos profissionais e depois, na última década, entre um público mais amplo, até entrar em todos os âmbitos, da sociologia à arte.

 

O que Crutzen queria dizer? A Terra entrou em uma nova época histórica em que o gênero humano deve ser considerado uma força geológica, da mesma forma que as erupções vulcânicas e os terremotos. A atividade humana está modelando a superfície da Terra e a atmosfera em larga escala e de modo permanente, entre o aquecimento global com as suas consequências para a flora, a fauna e o habitat humano e a impermeabilização da superfície terrestre com a interrupção do ciclo da água, a rápida redução da biodiversidade, a poluição de ar, solo e água por meio de substâncias tóxicas, com uma população humana em rápido crescimento e a exploração de recursos para a criação de gado de corte.

 

A biosfera terrestre está atualmente superexplorada por um fator de 1,7, por isso não é nenhuma surpresa que a natureza, tanto em nível local quanto global, esteja gemendo de fadiga. Em consideração a essa mudança epocal, o discurso convencional sobre a crise ambiental foi posto em exibição como em uma vitrine. Mas não se trata aqui de ambiente, mas sim da natureza subjugada por influência do ser humano; e, novamente, não se trata de uma crise passageira, mas sim de uma era geológica.

 

O que o termo “Antropoceno” nos transmite, desde que a geologia histórica o aceite em termos de classificação, é um alerta inquietante: enquanto o gênero humano não reduzir drasticamente sua pegada ecológica, assistiremos ao colapso gradual de um número cada vez maior de formas de vida conhecidas no mundo.

 

Essas mudanças induzidas pelo ser humano no planeta estão tendo um efeito bumerangue que poderia dar origem a uma catástrofe gradual. Nunca na história humana o poder e a impotência foram tão inseparáveis como no Antropoceno, um tempo em que coexistem lado a lado as viagens espaciais e o aquecimento global, os arranha-céus e a extinção das espécies, as interconexões digitais e a urbanização, tudo causado pelas tentativas humanas de controlar a natureza.

 

Parece que quanto mais profundamente nós, humanos, intervimos no sistema terrestre, mais temos que enfrentar processos que vão além do nosso controle.

 

Temos mais poder sobre a natureza, mas ao mesmo tempo a natureza tem mais poder sobre nós. Isso leva à situação paradoxal em que as pessoas do século XXI se encontram divididas entre um enorme poder humano e uma grande perda de controle.

 
Da Laudato si’ à Fratelli tutti

 

“Recebemos a Terra do Criador como uma casa-jardim”, disse o Papa Francisco no encontro com os dirigentes de empresas petrolíferas e do setor energético em junho de 2018. “Não a transmitamos às futuras gerações como um lugar selvagem.” O papa exortou as empresas a abandonarem os combustíveis fósseis e a investirem nas energias renováveis.

 

Na encíclica Laudato si’, ele havia falado da profanação da natureza e do grito do pobre, um tema recorrente do seu pontificado. Quem não se lembrará de como, com profunda autocrítica, ele havia se distanciado do dominium terrae de Gênesis 1? Isto é, da ideia de que os seres humanos são dominadores e proprietários da natureza, como postulado por Descartes no início da era moderna.

 

O papa, pelo contrário, chama a Terra, em puro espírito franciscano, de mãe e irmã. Ele também chama a atenção para a contraparte da natureza, a tecnosfera. Ele desaprova o imperativo da eficiência econômica que permeia a tecnologia, deixando pouco espaço para o bem-estar, e não só dos seres humanos. O fabuloso crescimento do poder humano permaneceu sem senso de responsabilidade e clarividência.

 

Em contraste, a natureza não aparece na encíclica Fratelli tutti. Esta se centra totalmente na observação da relação com os outros dentro do horizonte visionário de um mundo justo e fraterno. Este se contrapõe à “globalização da indiferença”, como o Papa Francisco a definiu em Lampedusa, propondo, em vez disso, uma globalização da fraternidade, que abrange um amplo leque de questões: dos males de um mundo fechado aos outros, como o medo dos migrantes, a fácil violação dos direitos humanos, a solidão digital, aos princípios para um mundo hospitaleiro marcado pela dignidade humana, pela busca do bem comum e pelo diálogo entre culturas.

 

E, até agora, tudo bem, mas não há nenhuma menção à crise da natureza. Isso é surpreendente, pois o discurso da fraternidade com todos os seres vivos poderia ter sido o fio condutor entre as duas encíclicas. No entanto, a Fratelli tutti aborda as questões existenciais do gênero humano, com o foco central na busca – que remonta a Abel e a Caim – de uma sociedade sem violência e sem discriminação, mas marcada pela solidariedade e pelo senso de comunidade.

 

Portanto, o documento magisterial do papa aborda os fatos que estão na vanguarda da história: a opressão, o egoísmo dos ricos, as migrações. Por outro lado, os eventos de segundo plano permanecem ocultos: o aquecimento global, a perda de biodiversidade, a urbanização. O que esses dois cenários têm em comum? E como um memorando sobre a coesão da sociedade global pode contribuir com o conceito de Antropoceno?

 
O declínio do estilo de vida imperial

 

É preciso levar em consideração três fatos:

 

1) o número dos habitantes da Terra aumentou rapidamente, de 2,5 bilhões em 1950 para os atuais 7,8 bilhões;

 

2) desde 1950, o Antropoceno sofreu uma enorme aceleração: a natureza teve que servir de mina de carvão, de petróleo, de gás, de metais, de minerais e de água doce; teve que se pôr à disposição como área para a infraestrutura, a urbanização, a agricultura e teve que suportar vapores de todos os tipos, como emissões poluentes, pesticidas e nitratos: a Terra se curvou ao estilo de vida industrial;

 

3) o avanço da desigualdade global, entre quem tem e quem não tem nada, entre os possuidores e os refugiados, entre quem tem poder e quem não o tem. A desigualdade econômica se replica na desigualdade ecológica. Como consequência, metade da humanidade se empanturra de natureza, enquanto a outra metade tem que se contentar com migalhas. Sem meios termos, o anthropos da palavra Antropoceno é sinônimo de dominação global dos ricos sobre os pobres por meio da exploração da natureza.

 

Talvez alguns dados possam ajudar. Se observarmos a população mundial de acordo com a classe de renda e examinarmos as suas emissões de CO2, surge uma enorme lacuna. Em 2015, uma pequena parcela da população que produzia 50% da renda mundial provocava impressionantes 93% das emissões de CO2, enquanto a metade mais pobre era responsável por apenas 7%.

 

Se olharmos o mapa-múndi para identificar onde residem as classes alta e média globais, surge o seguinte quadro: em relação às emissões globais de pessoas com renda média/alta, 35,9% provêm da América do Norte e da Europa, 24,8% da China, 13,6% do restante da Ásia incluindo a Índia, 13,6% do Oriente Médio e da Rússia/Ásia Central, 3,5% da América Latina e 1,7% da África. Por outro lado, a outra metade da população mundial, aquela dos de 7%, encontra-se principalmente na Índia, China, África e América Latina.

 

Da mesma forma, a divisão do mundo se reflete nas emissões climáticas. Viagens aéreas, mercado imobiliário e bifes são típicos das classes altas do mundo, enquanto os carros de segunda mão, as máquinas de lavar e o ar-condicionado são comuns entre a classe média. E depois há a classe dos mais pobres, que têm que se contentar em viajar em ônibus lotados, alimentando-se de modo inadequado e fazendo uso de latrinas.

 

De modo geral, entre 1970 e 2017, a demanda anual por materiais, por exemplo biomassa, recursos fósseis, minerais, metais, aumentou de 7 toneladas per capita para 12 toneladas. O desmatamento em grande escala e o esvaziamento das áreas de pesca, as plataformas de petróleo e os gasodutos, as minas de prata e a extração de lítio a céu aberto são exemplos de extrativismo de recursos. E aqui também os ricos levam a parte do leão: a pegada material (tanto interna quanto externa) do consumo nos países com renda alta é de cerca de 27 toneladas per capita, nos países de renda média é de 16 toneladas e nos países com renda baixa é de 2 toneladas.

 

Mudando o foco para as multinacionais que comercializam materiais tirados da biosfera, o grau de concentração é surpreendente: nada menos do que quatro empresas têm uma parcela de 84% do mercado global de pesticidas, cinco empresas são responsáveis por 90% do mercado de óleo de palma, 10 empresas estão envolvidas na extração de cobre (50%) e de prata (36%), outras 10 controlam 72% das reservas de petróleo e 51% das reservas de gás. Naturalmente, todas têm as suas sedes em arranha-céus, principalmente na América do Norte, Europa, China e Oriente Médio.

 

Se olharmos para os últimos 70 anos, podemos afirmar que o modelo econômico predominante não é nem justo nem sustentável. Pelo contrário, ele alimenta a polarização social e provoca uma colisão com a natureza. Portanto, é incapaz de garantir o bem comum global. Além disso, esse modelo econômico desastroso deu origem a um estilo de vida imperialista que, por meio do poder de vínculos práticos, obtém aquilo que tenta esconder: que alguns vivam às custas de outros.

 
Uma ecologia com intenção cosmopolita

 

Tudo isso fica claro quando se leem as inúmeras mensagens, os discursos e as encíclicas do Papa Francisco: ele absolutamente não está olhando o mundo a partir da perspectiva do progresso e do crescimento, mas da desigualdade global e da destruição da natureza. Esse é o motivo pelo qual ele está levando adiante um conceito de mundo como alternativa ao neoliberalismo e ao estatismo, baseado na fraternidade. Uma ideia bíblica que adquiriu relevância durante a Revolução Francesa, com o slogan antifeudal/democrático “Liberté, Égalité, Fraternité”, e que após 1848 foi substituído pelo conceito de solidariedade tanto pelo movimento operário quanto pelo ensino social cristão. Um eco tardio ainda pode ser encontrado no hino europeu, o “Hino à alegria”, de Schiller, musicado por Beethoven (“Alle Menschen werden Brüder”, todos os homens serão irmãos).

 

Comparada com a “solidariedade”, a palavra “fraternidade” assume uma característica imediata, que consiste em estabelecer uma relação de parentesco. Entre irmãos/irmãs, quer vivam distantes ou perto, existe um certo vínculo indissolúvel: eles partilham os eventos e as coisas da vida; ficam quase fisicamente afetados se um deles estiver mal. Além disso, no momento em que chamamos alguém de irmão ou irmã, mesmo que em sentido metafórico, professamos ter progenitores comuns.

 

Quando Francisco de Assis, no “Cântico do Irmão Sol”, chama as estrelas, o fogo, a água e a terra de irmão ou irmã, ele celebra Deus Pai. Entendido de forma secular, isso pode significar aparentar-nos com os seres humanos e não humanos para manter exuberante de saúde a árvore da vida familiar sobre a terra. Geneticamente, os humanos têm muito em comum com outros mamíferos; eles participam, junto com outros animais, da atmosfera criada pelas plantas que cercam a Terra, na delicada camada da biosfera, da qual não existe um exemplo semelhante em todo o universo. Estreitados nesse vínculo, como irmãos/irmãs, fraternidade significa cuidar dos fundamentos naturais da vida das criaturas humanas e não humanas.

 

“Cuidar do mundo que nos rodeia e sustenta significa cuidar de nós mesmos”, afirma a encíclica. “Mas precisamos de nos constituirmos como um «nós» que habita a casa comum. Um tal cuidado não interessa aos poderes econômicos que necessitam de um ganho rápido” (Fratelli tutti, n. 17). As incumbentes consequências negativas ocultas, embora óbvias, do Antropoceno afetam a todos, especialmente no Sul do mundo, junto com os animais e as plantas da terra inteira. E isso é verdade particularmente para o quarto mais pobre da população mundial, que depende do acesso gratuito às áreas naturais para sua própria subsistência, e para o qual a savana, a floresta, a água, as terras aráveis e também os peixes, os animais de caça e os animais de criação são meios de subsistência imediata.

 

Os direitos humanos como a alimentação, o vestuário, a habitação, os remédios e também a cultura estão ligados a ecossistemas intactos em economias de subsistência. Esse vínculo entre os direitos humanos e os espaços naturais é um tema particularmente caro ao Papa Francisco, como se pôde observar de modo evidente com o Sínodo para a Amazônia de 2019, durante o qual ele se cercou de representantes das populações indígenas.

 

É claro que ele também pensa neles quando cita Francisco de Assis no primeiro parágrafo da encíclica: “Feliz quem ama o outro, ‘o seu irmão, tanto quando está longe, como quando está junto de si’ (Fratelli tutti, n. 1). E esta não é uma posição distante do programa cosmopolita que remonta à stoà, passando pelo Iluminismo, até a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1848, segundo a qual o mundo é uma comunidade de pessoas, não um conjunto de Estados ou de clãs, mas uma comunidade na qual todos têm o direito de receber justiça, assim como de oferecê-la.

 

Naturalmente, os direitos de uns não podem ser obtidos sem os deveres dos outros. No debate internacional, no entanto, fala-se frequentemente de direitos humanos, e muito pouco de deveres humanos. E como a universalidade dos direitos humanos pode ser garantida se não for contrabalançada pela universalidade dos deveres humanos? Levantar a hipótese não dos direitos, mas da sua contrapartida – os deveres universais – foi o movimento decisivo da ética de Immanuel Kant.

 

Como bem se sabe, o imperativo categórico é: aja segundo aquela máxima que você deseja que todas as outras pessoas racionais sigam, como se fosse uma lei universal. Em perspectiva kantiana, a injustiça, portanto, pode ser definida assim: as instituições políticas e econômicas são injustas quando se baseiam em princípios que não podem ser assumidos por todas as nações. Nas palavras pungentes da encíclica: “Enquanto uma parte da humanidade vive na opulência, outra parte vê a própria dignidade não reconhecida, desprezada ou espezinhada e os seus direitos fundamentais ignorados ou violados” (Fratelli tutti, n. 22).

 

Um exemplo flagrante disso é a distribuição desigual dos recursos naturais, que foram acumulados pelas classes médias e altas do mundo em tal medida que os pobres não podem dispor deles para poderem alcançar um nível igual. E, pior ainda, a metade mais pobre da população global não tem a permissão de se desenvolver no mesmo nível, porque senão os limites do planeta seriam ultrapassados.

 

Assim, falando em termos esquemáticos, a distribuição internacional dos recursos torna-se um jogo de soma zero, no qual vencer significa que outros perdem. Injusto e limitativo – nisso reside um poder explosivo que pode desembocar em conflitos e, em casos extremos, em guerras pela obtenção dos recursos.

 

Só há uma saída: uma renúncia disciplinada ao estilo de vida imperialista. Porque não está claro como podem ser disponibilizados, por exemplo, a motorização em massa, as residências com ar-condicionado ou o alto consumo de carne para todos os habitantes do planeta. Uma prosperidade frugal deveria estar na ordem do dia, de modo a combinar uma economia de recursos com estilos de vida diferentes em todo o mundo. Uma tarefa que levará uma boa parte do século para ser realizada, na qual certamente serão indispensáveis um movimento popular democrático, uma transformação da tecnologia e uma moderação na economia e no estilo de vida.

 

Acima de tudo, uma pegada ecológica menor deverá ser acompanhada por processos de eliminação gradual e por um novo desenvolvimento. Por exemplo, a energia fóssil, os produtos petroquímicos e os automóveis terão que ser substituídos gradualmente pelo desenvolvimento de energias renováveis, por sistemas de mobilidade suave, por uma agricultura regenerativa e pela restauração das áreas naturalistas. Isso não seria nada menos do que uma declaração de guerra contra a civilização industrial das classes médias e altas do mundo, nos Estados Unidos assim como no Uruguai, na China assim como no Chile. Uma revolução não só contra quem está no poder, mas também contra todo um estilo de vida, real ou imaginário, de grande parte da população mundial.

 

Será doloroso, mas também estimulante. Será conflitante, mas também galvanizante. De todos os modos, é necessário mudar o nosso modo de olhar para o mundo: dos pobres para os ricos. Durante 70 anos, as políticas de desenvolvimento procuraram melhorar os padrões de vida dos pobres em nome da justiça – com resultados mistos. Mas agora se trata de mudar o estilo de vida dos ricos. Caso contrário, não haverá uma perspectiva de justiça em um mundo limitado. Sem pôr limites à riqueza, não será possível pôr limites à pobreza.

 
Esperar contra toda esperança

 

Parece que é preciso reviver uma antiga virtude cristã, indispensável em vista das questões futuras: spes contra spem, esperar contra toda esperança. Na sua epístola aos Romanos, Paulo adotou esse lema em referência a Abraão, que ansiava por ter filhos e netos. Atualmente, o objetivo é criar um futuro adequado para os nossos netos e assegurar uma habitabilidade duradoura da Terra.

 

As expectativas se baseiam em previsões, que por sua vez se baseiam em probabilidades. Mas a história, em nível local e também global, absolutamente não segue caminhos lineares, mas é intercalada por muitos eventos não lineares. Os exemplos abundam: a queda do Muro de Berlim, a pandemia do coronavírus, o movimento “Fridays for Future”. Esses eventos têm um denominador comum: foram imprevisíveis e epocais.

 

Quem espera, antecipa as surpresas; a esperança se baseia sobretudo nos momentos não lineares, caóticos da história. É por isso que é necessário desenvolver uma ética que respeite as condições de incerteza. Nesse sentido, é bastante razoável que a ação ética prossiga dentro da própria comunidade sem se preocupar com o que ocorre em outras comunidades e regiões do mundo.

 

Não há outro modo de compreender a decisão do Papa Francisco quando recomendou a figura do Bom Samaritano como modelo para a ação social e civil na sociedade mundial. Diz o papa: “O amor social é uma ‘força capaz de suscitar novas vias para enfrentar os problemas do mundo de hoje e renovar profundamente, desde o interior, as estruturas, organizações sociais, ordenamentos jurídicos’” (Fratelli tutti, n. 183). Portanto, ele é guiado pela esperança e certamente não pela probabilidade, optando por confiar nas inúmeras iniciativas que vão contra a corrente.

 

E o nosso vai para aquelas cooperativas de cidadãos que trabalham pelas energias renováveis, aquelas empresas que levam seriamente em consideração os direitos humanos nas suas cadeias de fornecimento, aqueles advogados que levam as causas ambientais aos tribunais ou aqueles fazendeiros que abriram mão das criações intensivas. Isso sem falar dos inúmeros conflitos, especialmente no Sul do mundo: protestos contra a construção de barragens, de minas, de plantações, em favor de uma agroecologia, de uma mobilidade sem automóveis, da multiplicidade de empresas sociais.

 

Tomada individualmente, cada iniciativa é fragmentária e efêmera, mas, tomadas em conjunto, podem produzir uma grande repercussão na sociedade, especialmente nos momentos de caos. O que dizia o eminente ativista tcheco pelos direitos humanos e presidente da República Tcheca, Václav Havel? “A esperança não é a convicção de que algo vai dar certo, mas sim a certeza de que esse algo faz sentido, independentemente de como acabe.” 

Por: Wolfang Sachs