quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

MENTE, EXCITAÇÃO, SEXUALIDADE, COMPORTAMENTO, EMOÇÃO

 

    Por que a emoção é muito mais emoção do que se pensa? Basta perguntar a qualquer estudante universitário de vinte anos se  pratica sexo desprotegido e ele recita de imediato inumeráveis riscos de terríveis doenças e gravidez. Talvez tal pergunta não se restrinja tão somente à faixa etária mais jovem. Enfim, em quaisquer circunstâncias sossegadas, quando estão fazendo os trabalhos de casa ou assistindo a um filme, pergunte se algum deles gosta de ser espancado ou de fazer sexo a  três. Todos se retraem e respondem que nem  pensar. Além disso, ainda se perguntam: que tipo de  maluco pergunta algo assim?

    Como  compreender o grau que as pessoas racionais e inteligentes conseguem prever as suas mudanças de atitude quando estão num estado de excitação mental acima do normal? É simples, basta estudar o comportamento deles num estado emocional alterado, neste caso, apaixonados ou emocionalmente muito envolvidos e excitados. Para tornar o estudo realista é preciso medir as respostas emocionais diante de um sentimento de raiva ou fome, frustração ou aborrecimento, ..., porém, o mais apropriado ou sensato é diante de alguma experiência agradável. Uma experiência agradável? Que tal estudar a tomada de decisões durante a excitação sexual?

    Compreender o seu impacto no comportamento e tomada de decisão poderia ajudar  a sociedade a lidar com alguns dos seus problemas mais sérios,  como a gravidez na adolescência e a propagação da SIDA. A SIDA é um quadro clínico resultante da infecção pelo HIV do qual se conhecem dois tipos: o HIV1 e HIV2. Onde  quer que se olhe, sempre se encontrará algum tipo de motivação sexual. Para saber se alguém consegue prever os seus comportamentos num estado emocional específico, faz-se necessário que a emoção lhe seja muito  familiar. Se existe algo previsível e habitual é a regularidade da excitação sexual.

    Uma forma simples de monitorar a excitação e consequente dinâmica da tomada de decisão seria instalar num computador um programa de pergunta e resposta. Por exemplo: diante do programa previamente instalado (e processando) um suposto candidato ao estudo manusearia o teclado, passando várias imagens de mulheres nuas em poses eróticas. À medida que o candidato fique mais excitado, ele ajusta o medidor de excitação” na parte superior do monitor. Quando chegar à zona alta crítica”, surge uma pergunta no monitor: você poderia fazer sexo com alguém que detesta? A escala de resposta é “não ou “sim” para esta e demais perguntas. Em seguida aparece outra pergunta: você seria capaz de embriagar uma mulher para poder fazer sexo com ela? E mais outra pergunta: você usa sempre preservativo? ...e por aí vai...

    A sessão experimental não poderia transcorrer acima de uma hora e o estudo seria aplicável somente com homens que, em termos sexuais, a sua concepção do sexo (aceitando ou não) é muito mais simplista. Surge uma ou duas questões: Poderia acontecer de algum participante revelar memórias reprimidas de abuso sexual como resultado da pesquisa? Existe a possibilidade de um participante descobrir que é viciado em sexo? As duas questões, a princípio, parecem sensatas, coerentes. Todavia, descabidas, uma vez que qualquer pessoa com um computador e uma conexão de Internet tem acesso a mais intensa e variada pornografia cibernética. Bem, tal pesquisa, teoricamente, seria difícil de ser realizada. Contudo, ela foi, sim, realizada no ano de 2001, por Dan Ariely (autor do livro Previsivelmente Irracional - aprenda a tomar melhores decisões) e George Lowenstein (educador e economista americano).

    No decorrer de três meses, vários excelentes alunos da Universidade de Berkeley da Califórnia, passaram por diferentes sessões. Aquelas  realizadas num estado frio e desapaixonado, previram as decisões morais e sexuais que tomariam se estivessem excitados. As mesmas decisões também surgiram nas sessões em que participantes se encontravam excitados, contudo, todos estavam apaixonados. Presumivelmente tinham mais consciência das suas preferências nesse estado específico. No término do estudo, as conclusões foram consistentes e claras, esmagadoras e assustadoramente claras, segundo os estudiosos.

    Em todos os casos, os participantes, considerados inteligentes pela instituição de ensino, deram respostas muito diferentes quando estavam excitados e quando não estavam. Nas 19 perguntas sobre preferências sexuais, quando os respondentes estavam excitados, previram o desejo de participar em atividades estranhas aproximadamente duas vezes maior (72% superior) do que num estado de relaxamento. A ideia de gostar do contado com animais era duplamente apelativa num estado excitado do que num estado normal. Nas cinco questões sobre a propensão a atividades imorais, quando excitados previram-na em mais do dobro (136%) do que no seu estado normal. Do mesmo modo, nas perguntas relativas ao uso de preservativo, quando excitados, previram dispensar o seu uso em mais 25%. Em todos os casos eles não conseguiram prever a influência da excitação sexual quanto às suas preferências, moralidade e abordagem a um sexo seguro.

    Os resultados demonstraram que no estado de não excitação, os participantes tinham mais deferência com as mulheres e não se sentiam particularmente atraídos pelas peculiares atividades sexuais com as quais foram questionados. Adotavam sempre uma atitude considerada moral e previram utilizar sempre o preservativo. Alegaram autoconhecimento sobre si,  suas preferências e quais os atos que seriam capazes de praticar. Porém, subestimaram totalmente as suas reações. Independente da ótica que os números foram analisados, a magnitude da imprevisibilidade dos participantes era substancial. Os dados revelaram que em estado normal os participantes não se conheciam em estado de excitação. A prevenção, a proteção, o conservadorismo e a moralidade desapareciam completamente do bom senso. Simplesmente, não eram capazes de prever o nível a que o ardor do momento os poderia conduzir.

    É importante ressaltar que estes resultados aplicam-se mais diretamente à excitação sexual e à sua influência nas pessoas. Também é possível reconhecer que outros estados emocionais como a raiva, fome, o entusiasmo, ciúme, por exemplo, funcionam de modo semelhante. O ser humano poderia pensar até que aquela famosa história do Dr. Jeckyll and Mr. Hyde, não era tão fantasiosa e improvável de acontecer (dentro das devidas proporções é lógico...ou não?). O livro remete a visão de que o verdadeiro homem não é só um, mas realmente dois. A história cativou a imaginação vitoriana, que vivia fascinada pela dicotomia entre a propriedade repressiva, representada pelo cientista bem-educado, o Dr. Jeckyll, e a paixão descontrolada personificada pelo assassino Mr. Hyde. O Dr. Jeckyll acreditava que sabia se controlar mas, diante do Mr. Hyde, todo cuidado era pouco.

    A história era assustadora e imaginativa, mas não era novidade. Muito antes do Oedipus Rex de Sófocles e o Macbeth de Shakespeare, a guerra entre o bem e o mal tem alimentado os mitos, as religiões e a literatura. Em termos freudianos, todo ser humano alberga um eu obscuro, uma parte inconsciente da personalidade, um bruto que pode tomar um poder imprevisível sobre o superego. E por isso que um vizinho simpático, num acesso de raiva condutora, esmaga o carro contra uma parede e um adolescente pega numa espingarda e mata os amigos. Estas pessoas também afirmam autoconhecimento, mas subitamente, no calor da circunstância e num piscar de olhos, todo o cenário pode mudar.

    A experiência realizada em Berkeley não só constatou que todo ser humano é como Jeckyll e Hyde, e que, independentemente da bondade interior, ninguém consegue prever os efeitos da excitação exacerbada (se é que existe uma que não seja) no comportamento. Em todos os casos, os participantes das experiências se enganaram nas suas previsões pessoais. Mesmo a pessoa mais racional e brilhante, no auge da paixão ou excitação, parece totalmente divorciada da pessoa que pensava ser. A margem de erro é bem significativa. Segundo os resultados do estudo, na maior parte do tempo algumas pessoas são espertas, decentes, razoáveis, gentis e de confiança. Os seus lóbulos frontais funcionam plenamente com um perfeito controle dos comportamentos. O Córtex Pré-frontal, responsável direto pelo sistema executivo e por processar a informação do cérebro humano, é a base, em última instância, da cognição, do comportamento e da resposta emocional dos humanos. É a parte mediadora entre muitas outras estruturas que se distribuem ao longo do encéfalo, tendo um papel chave na tomada de decisões.

    Porém, diante da excitação sexual (nesta pesquisa e estudo), o Cérebro Reptiliano apodera-se da sensatez e controle emocional. O Cérebro Reptiliano é considerado a região mais “primitiva” do cérebro humano, responsável por regular as reações instintivas. A princípio todos julgam saber como reagiriam diante da excitação, mas este saber é mascarado pelo estado de relaxamento e tranquilidade momentânea. É imperceptível  quando a motivação sexual se torna mais intensa, capaz de extinguir as cautelas costumeiras, a ponto de arriscar o contágio de doenças sexualmente transmissíveis ou uma paternidade ou maternidade indesejadas, tudo pela obtenção do prazer sexual.

    Quando a paixão domina, as emoções obscurecem a fronteira entre o certo e o errado. Ninguém imagina o instinto primitivo que pode emergir das profundezas da mente, uma vez que é comum errar diante da tentativa de prever o seu comportamento estando em outro estado emocional. Seria o mesmo que tentar prever o calor morando na Sibéria. O estudo também salientou que a capacidade do autoconhecimento no estado de excitação  não melhora com a experiência. O que acontece quando o eu irracional ganha força no local emocional que se julga ser familiar mas, que na realidade, é desconhecido? A falta do autoconhecimento seria o principal obstáculo para antever as reações comportamentais próprias e, quando se “perde a cabeça, está raivoso, esfomeado, assustado ou sexualmente excitado? Seria possível fazer alguma coisa quanto a isso?

    As respostas a estas e outras perguntas são profundas, pois acenam acautelamento com as situações em que o Mr. Hyde pode dominar. Num estado frio e racional - de Dr. Jeckyll -, muitos pais e adolescentes acreditam que a mera promessa de abstinência, vulgarmente conhecida por dizer que não, é proteção suficiente contra doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejadas. Assumindo que este nível mental prevalece, mesmo quando as emoções atingem o ponto de ebulição, os defensores do dizer que não não vêem motivos para andar sempre com preservativos na carteira. Mas, como demonstra o estudo, no calor da paixão, todos correm o perigo de teclar o não ao invés do “Sim”. Na vida real, num breve instante, se não houver um preservativo por perto, o mais provável é continuar e ignorar os riscos.

    O que isto sugere? É essencial a disponibilidade generalizada dos preservativos. Não se deve decidir por sua presença na carteira ou bolsa ou bolso (seja onde for) no estado mental normal. A “camisinha” deve, obrigatoriamente, estar disponível no caso de ser necessária. A imprevisibilidade das reações defronte um estado emocional alterado é fato comprovado cientificamente. Este problema é exacerbado nos adolescentes, devido ao fato de que a educação sexual focar muito na psicologia e na biologia do sistema reprodutivo, e pouco (ou quase nada) nas estratégias para lidar com as emoções que acompanham a excitação sexual.

    Contudo, é importante ter a consciência que andar sempre com preservativos e compreender (mesmo que superficialmente) a tempestade emocional da excitação sexual não é o suficiente. Comumente, existem várias situações em que os adolescentes não sabem lidar com as emoções (e quase a totalidade dos adultos, diga-se de passagem). Só existe uma forma de não queimar a mão na fogueira: é se afastar da fogueira. Enfim, não é fácil se afastar da excitação pela possibilidade dela devastar, mesmo que brevemente, a sensatez e a prudência. É mais fácil se afastar da tentação do que arcar com as consequências de um comportamento descabido e inconsequente. Evitar a tentação é imensamente mais fácil do que vencê-la.

    Desligar espontaneamente a paixão e excitação, a qualquer momento, é uma premissa impossível de sugerir ou exigir. A remota alternativa de um mínimo sucesso seria colocar de lado o debate dos prós e dos contras do sexo na adolescência, e ensinar a dizer não antes de surgir qualquer tentação que se torne irresistível... ou, como alternativa, prepará-los para lidar com as consequências do sim no calor da paixão. Uma coisa é certa, é preciso buscar o entendimento de como o cérebro reage de modo diferente quando está calmo e quando os hormônios” estão fervilhando.

    Este assunto delicado não deve se restringir apenas à aulas de Psicologia ou Psicanálise. Trata de incentivar as pessoas a estudar e compreender minimamente os dois estados mentais cotidianos do ser humano: o estado mental “frio e quente”. Trata de entender como essas diferenças podem beneficiar a vida e como podem comprometer negativamente as decisões comportamentais. Talvez seja necessário repensar os modelos do comportamento humano. Talvez, não exista um ser humano completamente integrado e é possível que todos sejam um ajuntamento de vários eus. Finalmente surge a indagação: então, como obrigar o lado Hyde a comportar-se melhor? Apesar de não ser tão fácil obrigar o Mr. Hyde a apreciar as beneces do comportamento do Dr. Jeckyll,  talvez possa ajudar a simples consciência de que a tendência de decidir mal vive a espreita da oportunidade em torno das emoções intensas. De algum modo, é preciso aplicar o conhecimento do lado “Jeckyll” ao quotidiano do  oportunista do lado “Hyde. Simples assim! Nem tanto!

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

CÉREBRO, HÁBITO, APRENDIZADO, NEUROPLASTICIDAE E MUNDO DIGITAL

 

    O consumo recreativo do digital pela nova geração, sob todas as suas formas, seja por intermédio de um smartphone, tablets ou uma televisão,  é absolutamente estratosférico. A partir dos 2 anos de idade, as crianças dos países ocidentais acumulam diariamente quase 50 minutos diante da tela. Entre 2 e 8 anos, esse tempo sobe para 2h45min. Entre 8 e 12 anos, os jovens passam aproximadamente 4h45min diante das telas. Entre 13 e 18 anos, eles chegam perto de 7h15min. Parece absurdo ou fantasioso, mas não é, são dados oriundos de pesquisas científicas. Ao completar  um ano de idade, o tempo consumido totaliza mais de 1.000 horas para um aluno da pré-escola (1,4 mês), 1.700 horas para um estudante do nível fundamental (2,4 meses) e 2.650 horas para alunos do ensino médio (3,7 meses). Expresso em fração do tempo diário de vigília, isso resulta, respectivamente, em 20%, 32%, 45%. Ao longo dos 18 primeiros anos de vida, eles representam o equivalente a quase 30 anos letivos, ou, 15 anos de um emprego em tempo integral. Sem se alarmar, muitos especialistas midiáticos parecem aplaudir a situação. Psiquiatras, universitários, pediatras, sociólogos, consultores, jornalistas, ... multiplicam suas declarações indulgentes para tranquilizar os pais e a sociedade “entorpecidamente”crédula. Para eles, “os profissionais”, a humanidade estaria em uma nova era, e o mundo pertenceria agora aos assim chamados digital natives (nascidos nos tempos digitais, ou “nativos digitais”). Até mesmo o cérebro dos membros dessa geração pós-digital teria se modificado – para melhor, é claro. Ele teria, afirmam, se tornado mais rápido, mais reativo, mais apto à multiplicidade simultânea de tarefas, mais competente para sintetizar o imenso fluxo de informações, mais adaptado ao trabalho colaborativo. Essas evoluções acabariam por representar uma possibilidade extraordinária para a escola. Elas ofereceriam uma oportunidade absolutamente única de refundar o ensino, estimular a motivação dos alunos, fecundar sua criatividade, eliminar o fracasso escolar e derrubar o bunker das desigualdades sociais. Não é novidade ouvir a seguinte afirmação (deveras estúpida): eles já nasceram sabendo. Surge, então, a pergunta que não quer calar: sabendo o que?

    Infelizmente, esse entusiasmo generalizado está longe de ser unânime. Inúmeros especialistas denunciam a influência profundamente negativa dos dispositivos digitais atuais sobre o desenvolvimento. Todas as dimensões estariam sendo afetadas, desde o somático (obesidade e a maturação cardiovascular), até o emocional (agressividade e a ansiedade), passando pelo cognitivo (linguagem e a concentração); tantos danos, seguramente, não deixariam ileso o desempenho escolar. Por sinal, a respeito deste último, tudo indica que as práticas digitais realizadas em aula, para fins de instrução, também não seriam particularmente benéficas, como parece apontar a maioria dos estudos de impacto disponíveis, dentre os quais as famosas avaliações internacionais PISA - Programa Internacional de Avaliação de Estudantes. O diretor desse programa explicava recentemente, a respeito do processo de digitalização do ensino: “Se algum efeito tiver, é o de piorar as coisas”. Em sintonia com esses receios, alguns indivíduos e atores institucionais escolheram a prudência. Na Inglaterra, por exemplo, os diretores dos principais colégios ameaçaram enviar a polícia e os serviços sociais aos lares em que os pais deixam seus filhos jogar videogames violentos. Em Taiwan, onde os alunos apresentam um dos melhores desempenhos do planeta, uma lei prevê pesadas multas para os pais que expõem seus filhos com menos de 24 meses a qualquer aplicativo digital e que não limitam suficientemente o tempo de utilização pelos jovens de 2 a 18 anos de idade (o uso não deve ultrapassar 30 minutos consecutivos). Na China, as autoridades tomaram medidas drásticas afim de regulamentar o consumo de videogames entre os menores de idade, alegando especialmente que isso afetaria de forma negativa o bom desempenho escolar. Naquele país, crianças e adolescentes não têm mais permissão para jogar durante o período normalmente dedicado ao sono (entre 22 e 8 horas) ou para ultrapassar 90 minutos de exposição diária em dias de semana (e 180 minutos nos fins de semana e durante as férias escolares). Nos Estados Unidos, inúmeros dirigentes ilustres de indústrias digitais, como era o caso de Steve Jobs, o mítico ex-diretor da Apple, parecem bastante preocupados em proteger sua prole das diversas “ferramentas digitais” que eles próprios comercializam. Tudo indica, como sugeriu o New York Times, que “um consenso sombrio em relação à utilização de telas digitais pelas crianças começa a surgir no Vale do Silício”. Um consenso aparentemente bem expressivo, capaz de extrapolar o ambiente doméstico e incentivar os geeks a inscrever seus filhos em escolas particulares caríssimas onde não se utilizam telas digitais (e aqui no Brasil andam discutindo a intensificação das tecnologia nas escolas em detrimento de professores melhor treinados e remunerados - puro mercantilismo e jogo político). Como explica Chris Anderson, ex editor da revista Wired e atual executivo de uma empresa de robótica: “Meus cinco filhos (de 6 a 17 anos) acusam a mim e a minha esposa de sermos fascistas e exageradamente preocupados com a tecnologia, e dizem que nenhum de seus amigos é submetido a essas regras. Isso acontece porque nós logo percebemos os perigos tecnológicos. Eu notei isso em mim. Não quero que o mesmo aconteça com meus filhos”. Para ele, “na escala entre doces e cocaína, isso está mais próximo da cocaína”.

    Esta é a conclusão do jornalista francês, doutor em sociologia, Guillaume Erner: “A moral da história é a seguinte: deem telas a seus filhos, os fabricantes de telas continuarão dando livros aos deles”. Então, em quem acreditar? No meio desse pandemônio contraditório, quem está blefando? Quem se engana? Onde está a verdade? Nutridos pelas telas digitais, estarão nossos filhos encarnando “a mais esperta geração de todas”, como garante Don Tapscott, consultor especialista sobre o impacto das novas tecnologias, ou seriam eles “a geração mais estúpida”, como alerta Mark Bauerlein, professor na Universidade de Emory? Mais globalmente, a atual “revolução digital” é, para nossos filhos, uma oportunidade ou um triste mecanismo de fabricar imbecis? Eis o ponto essencial deste breve texto: responder a estas perguntas. Visando a clareza, esta análise é organizada em três partes principais. A primeira avalia a substância do conceito fundador, ainda vivo, do nativo digital. A segunda análise é sobre a dupla natureza, qualitativa e quantitativa, do uso das tecnologias digitais pelas crianças e adolescentes. A terceira examina o impacto desse uso. É enorme a distância entre a realidade inquietante das pesquisas disponíveis e o conteúdo frequentemente tranquilizador (e mesmo entusiasta) dos discursos midiáticos. Esse hiato, porém, nada tem de surpreendente. Ele apenas remete a potência econômica das indústrias digitais recreativas. A cada ano, elas produzem bilhões de dólares de lucro. Ora, se a história recente ensinou alguma coisa, é exatamente que os prezados homens de negócios não renunciam facilmente a seus lucros, ainda que estes se multipliquem em detrimento da saúde dos consumidores. No centro dessa guerra travada pelo mercantilismo contra o bem comum se encontra um poderoso exército de cientistas complacentes, lobistas zelosos e mercadores profissionais da dúvida.

    Tabaco, remédio, alimentação, mudanças climáticas, amianto, chuvas ácidas, ..., é longa a lista de precedentes instrutivos. O grupelho aterrorizado dos obscurantistas reacionários já teria golpeado, por exemplo, com o fliperama, o micro-ondas, o rock, a tipografia ou a escrita (denunciada em sua época por Sócrates, por conta de seus possíveis efeitos sobre a memória). Infelizmente, por mais sedutoras que sejam, essas considerações não são menos imprecisas. O problema é que não existem estudos estabelecendo a nocividade do fliperama, do micro-ondas ou do rock. Ao mesmo tempo, existe um corpus sólido que salienta a influência positiva do livro e do domínio da escrita sobre o desenvolvimento. A partir daí, o que desqualifica uma hipótese não é a sua formulação inicial, mas sua avaliação final. Alguns temeram o rock. Mas nada corrobora esse medo: ponto final. Outros se inquietaram com a escrita. Uma vasta literatura científica invalida esse temor: que rufem os tambores. Pouco importam os medos histéricos do passado. Somente os dados atuais devem contar: o que dizem eles, de onde vêm, são confiáveis, são coerentes, quais são seus limites, ...? É respondendo a essas perguntas que será permitido a todos tomar decisões ponderadas, não fugindo à questão por meio do escapismo obsoleto do alarmismo, da culpa ou dos pânicos morais.

    Enfim, está fora de questão rejeitar “O” mundo digital em seu conjunto e reivindicar, sem nuances, o retorno ao telégrafo a fio, à calculadora de Pascal ou aos rádios a válvulas. Este texto não é tecnófobo. Em diversos campos – associados, por exemplo, à saúde, às telecomunicações, ao transporte aéreo, à produção agrícola ou à atividade industrial – o aporte extremamente fecundo do mundo digital não pode ser contestado. Quem pode se queixar de ver robôs efetuarem nos campos, nas minas ou nas fábricas todas as tarefas brutais, repetitivas e destruidoras que até então eram realizadas por homens e mulheres ao custo de sua saúde? Quem pode negar o enorme impacto que as ferramentas de cálculos, de simulação, de armazenamento e de compartilhamento de dados tiveram sobre a pesquisa científica e médica? Quem pode questionar o interesse dos softwares para tratamento de texto, de gestão, de desenho mecânico e industrial? Quem ousaria afirmar que a existência de recursos pedagógicos e documentais competentes, livremente acessíveis a todos, não representa um benefício? Obviamente, ninguém! Dito isso, esses incontestáveis benefícios não devem ocultar a existência de avanços tecnológicos muito mais prejudiciais, especialmente no campo dos consumos recreativos. Ainda mais que esses consumos concentram a quase totalidade dos usos de tecnologias digitais pelas jovens gerações. Dito de outra forma, quando o arsenal de telas disponíveis hoje em dia (tablets, computadores, videogames, smartphones, ...) é disponibilizado para as crianças e adolescentes, suas práticas não se orientam no sentido de utilizações mais nitidamente positivas, mas no sentido de uma farra de utilizações recreativas das quais a pesquisa revela irrevogavelmente um caráter nocivo. Uma coisa é certa: se as crianças e os adolescentes concentrassem suas práticas naquilo que o digital oferece de mais positivo, o presente texto, estudos e os respectivos alertas não teriam razão alguma de existir.

terça-feira, 28 de novembro de 2023

A ARTE MODERNA PEDE SOCORRO

 

Interação de criança com homem nu gera polêmica em exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo” (https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/artes/noticia). Esta é a chamada inserida no link anterior. Uma polêmica sem precedentes (creio) que gerou um mix de revoltas, indignações, críticas e exageros (como sempre). Mas sobre este episódio muito já se falou e discutiu. Esta introdução foi para chamar a atenção. Agora, aqui, o papo é outro. Uma crítica sobre a arte moderna. Afinal o que vem a ser arte e o que vem a ser arte moderna? Há quem afirme que um monte de livros empilhados ou uma pedra de três toneladas no meio de uma salão é arte moderna. Mesmo que um olhar desmunido de crítica artística não perceba ou não consiga interpretar a mensagem ou as mensagens de um quadro de “algum famoso” (se é que existe uma), por exemplo, este mesmo olhar é humanamente capaz de fazer aquela cara de paisagem diante da obra, suspirar e... era isso! Bem no comecinho do século, um cara chamado Affonso Romano de Sant'Anna, que graduou em Letras Neolatinas pela então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da UMG, atual Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), iniciou uma ampla discussão a respeito daquilo que acabou sendo convencionado como Arte Moderna.

Sant'Anna lecionou na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), EUA, cursou doutorado pela UFMG e, após um ano, desenvolveu um curso de pós-graduação em Literatura Brasileira na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Ele ministrou cursos na Alemanha (Universidade de Colônia), Estados Unidos (Universidade do Texas e UCLA), Dinamarca (Universidade de Aarhus), Portugal (Universidade Nova) e França (Universidade de Aix-en-Provence). Pouca coisa (né)! Ainda teria mais histórico mas vamos parar por aqui, afinal, este breve “historiquinho” é para demonstrar que não se trata de um reles palpiteiro de plantão.

Segundo este ilustre cidadão brasileiro, “nos últimos anos — disse ele — tornou-se evidente um fosso entre o público e as obras apresentadas como artísticas (…) Muitos intelectuais importantes dentro da chamada modernidade não reconhecem em muitas das obras hoje apresentadas em galerias e museus o caráter de inovação ou de criatividade artística”. Ele esclarece que não está se referindo a qualquer manifestação com o mesmo teor vanguardista que sinalizou a passagem do século XIX para o XX, com linguagens estéticas inovadoras e as suas respectivas dificuldades de assimilação das pretensas mensagens artísticas.

Sant'Anna complementa que “a sensação que se tem hoje é que muitos autores desses produtos não estão apenas repetindo essencialmente as experiências que vão do impressionismo ao dadaísmo, mas sobretudo são despreparados técnica e intelectualmente para a tarefa a que se propõem”. Verdade indiscutível! Dadísmo é movimento vanguardista do início do século XX. Sua denominação é derivada da palavra dadá, que pode ter múltiplos significados e não significar coisa alguma. Surgiu durante a Primeira Guerra Mundial, em 1916, como a ideia básica de contestar os valores culturais. As muitas reflexões de Affonso Romano de Sant’Anna foram aglutinadas no livro intitulado Desconstruir Duchamp: arte na hora da revisão. Marcel Duchamp (1887-1968) foi o responsável pelo conceito de Ready Made, que é o transporte de um elemento da vida cotidiana, a princípio não reconhecido como artístico, para o campo das artes. Começou apenas como uma mera brincadeira entre amigos. A partir daí, Duchamp passou a incorporar materiais de uso comum nas suas esculturas. Em vez de trabalhá-los artisticamente, ele simplesmente os considerava prontos e os exibia como obras de arte. Enfim, foi ele que transformou um penico em obra de arte. Pasmem! Certa vez desenhou um bigodinho na Mona Lisa. Sim, na Mona Lisa! O ápice da sua “inspiração e criação artística” foi quando acordou no meio da noite e resolveu se masturbar (desculpem os leitores mas é verdade). O produto final da masturbação pingou sobre um chinelo usado e voilà: atualmente a obra ou (para os leigos) o chinelo velho com “aquilo” encontra-se exposto num museu de Tóquio, e... vale uma fortuna. Guardem os seus chinelos velhos. Um dia eles irão valer muita grana (rsss).

Foi uma época em que demandava questionamentos sobre o fazer artístico. Mas, o tempo de Marcel Duchamp passou, foi, já era... e muita gente insiste em querer imitá-lo sem perceber a total ingenuidade (e falta de criatividade) da atitude. No “conjunto da obra”, se tudo que é enfadonho, desprovido de criatividade, apelativo e sem noção (ou seja, qualquer coisa) é considerado arte ou pode vir a ser arte, a contrapartida mais sensata e aceitável é que nada do que é chamado de arte terá a possibilidade de ser arte. Simples assim!

O resultado disso tudo? Está aí, mundo a fora: uma pirâmide feita com caixinhas de fósforos é uma escultura; uma toalha suja pendurada na parede, um autorretrato; um doido jogando cerveja no chão, um ato de protesto. Certa vez um artista italiano, Piero Manzoni (1933-1963), depositou suas fezes dentro de uma latinha e batizou a obra como Merda de Artista. É celebre sua obra Merda de Artista, dentre outras tantas que chegam a ser vendidas por mais de um milhão de libras (ou seis milhões e reais). É algo a se pensar: fazer no vaso ou dentro de uma lata? Vá que o “cocozinho” renda uma grana. Em seguida, o artista belga Win Delvoye, construiu uma gigantesca máquina de fazer cocô. Ele ficou conhecido por trabalhos provocadores, como esta, a"Cloaca", uma máquina que reproduz o sistema digestivo humano e gera fezes O produto dessa máquina já foi vendido em saquinhos que custavam mil dólares cada. Tá loko! Atualmente me questiono se não entendo de arte ou de cocô.

Diante destes mínimos exemplos de cair o queixo, seria possível inventar uma leitura intelectualizável de tais “obras artísticas”, mas... isto seria um gesto tão imbeciloide quanto levar fezes humanas embaladas para casa. Não se trata aqui de propor um boicote ou uma censura à performance com atitudes autoritárias e pouco construtivas. Trata-se, sim, de reconhecer, sem medo de passar um atestado de conservadorismo, que o mundo está diante de arte ruim, tola, esnobe, repetitiva e totalmente deslocada do seu tempo (se é que algum dia deveria ter tido tempo). Mas...se existe “arte” ruim e sem significado, também existem “críticos” de arte e “apreciadores” desta “arte” que permanecem estáticos diante disto tudo com cara de samambaia jurando que estão percebendo o imperceptível. Palavras de Sant’Anna: “já passou da hora de os artistas urinarem no penico de Duchamp”...ou quem sabe pegar o cocô da latinha de Manzoni e colocar no penico artístico.

domingo, 12 de novembro de 2023

MÍDIAS SOCIAIS: INTELIGÊNCIA LADEIRA ABAIXO


 REDES SOCIAIS – A RECEITA PARA ALIENAR CÉREBROS DESATENTOS

Um estudo realizado há mais de uma década por uma renomada instituição norte-americana alertara na época que o Facebook e Twitter (principalmente, e agora Instagram e Tik Tok) teriam a potencialidade de viciar o internauta, muito maior do que as drogas lícitas. É importante ressaltar que até mesmo o próprio Steve Jobs, “pai” da Apple, nunca permitiu que os seus filhos tivessem contato demasiado com tais tecnologias (e outras) porque afirmara que as redes sociais poderiam afetar os mais jovens com maior intensidade e facilidade (no entanto, parece que este detalhe se estendeu a todas as faixas etárias). Entre as causas mais contundentes da dependência das redes sociais estão: a baixíssima autoestima, a insatisfação pessoal, a depressão e, inclusive, a falta de afeto, carência que muitas vezes os internautas procuram preencher com os “famosos” likes. O fato é que as pessoas buscam compulsivamente nas redes sociais um experimentar intenso e uma sensação de satisfação que, no entanto, pode ser contraproducente uma vez que geram, ao longo do tempo, a dependência emocional da opinião dos outros. A verdade é que - diante do parecer técnico de muitos especialistas - o uso das redes sociais pode acarretar em dependências acompanhadas de suas preocupantes consequências: distanciamento da vida real, distanciamento das relações familiares, depressão, ansiedade, isolamento, irritabilidade, perda de controle sobre a própria existência … Quanto menor a faixa etária do internauta maior o risco de “cair” na dependência. Os motivos determinantes são: tendência para a impulsividade, necessidade de ter influência social ampla e expansiva e, finalmente, a necessidade de reafirmar a identidade de grupo. A permanência excessiva nas redes sociais debilita, indiscutivelmente, os laços que unem os seres humanos.

quem categorize como sinais mais comuns do dependente das redes: estresse diante da ausência de acesso à internet; nervosismo quando o sinal de acesso à internet não funciona ou encontra-se mais lento do que o normal; ímpeto incontrolável de dar aquela olhadinha nas redes sociais a todo instante; inquietude caso o celular não estiver ao alcance da mão; ansiedade ao ouvir o “plim” no celular; caminhar utilizando as redes sociais (já presenciei gente caindo na calçada); mal-estar e desespero se não receber likes, retweets ou visualizações; uso das redes sociais ao dirigir (prática comum); necessidade irresistível de publicar qualquer coisa da vida diária (vou ao banho, tomando café, dor de cabeça, fazendo xixi... tá loko!); perceber a vida dos outros como melhor do que a própria; ir na academia e não largar – NÃO LARGAR – o celular durante os exercícios (eis algo irritante porque a pessoa passa mais tempo no telefone do que se exercitando – e “monopolizando” o aparelho). Enfim, a lista vai longe...e ter paciência deixou de ser uma virtude. Passou a ser uma necessidade! Perder a noção do tempo e deixar tarefas de lado é algo comum quando se está imerso no mundo digital e incontáveis vezes as pessoas acabam passando mais tempo em seus refúgios virtuais que na vida real. As redes sociais dominaram a mente de boa parte dos internautas provocando mudanças de hábitos que interferem diretamente no raciocínio, como por exemplo:

Estimular a compra compulsiva: as redes sociais são um prato cheio para captar consumidores dada a quantidade de tempo que os internautas permanecem conectadas, aumentando consideravelmente a possibilidade de caírem na compra compulsiva. Ampliação da necessidade da aprovação alheia: um número considerável de internautas utiliza as redes sociais na ânsia de encontrar algum tipo de validação social, ou seja, permanecem muito tempo conectados por sentirem a necessidade constante de aprovação alheia. Insatisfação com a própria vida: ninguém publica momentos ruins da própria vida para o mundo ver. Logo, permanecer tempo demais logado nas redes sociais pode gerar a sensação de que todos estão vivendo muito bem, aproveitando a vida (“menos eu”). Queda do nível de atenção mental: não é segredo que qualquer mínima notificação de celular chama a atenção instantaneamente. Acostumados à presença e à comodidade dos aparelhos eletrônicos, a atenção se volta para eles tão logo emitam a menor vibração. Desta forma, o cérebro se programa para atender ao estímulo produzido pelo celular, e retira o foco de atenção de quaisquer outras atividades que se esteja desempenhando. Perda da independência do pensamento: dentre os danos causados pelas redes sociais, um recorrente é o “efeito manada”. O instinto humano de ser aceito é algo inconsciente e, portanto, praticamente inevitável. E se na vida social muitos são levados a se comportar como os demais – seja para se sentir aceito e acolhido, ou para não “destoar” ou parecer estranho perante os outros – imagine essa mesma pressão no mundo virtual, onde a “manada” é exponencialmente maior e a competição por atenção chega a ser cruel. Diversidade de interpretações: este efeito pode ser percebido na redução da capacidade de pensar por si próprio. Basta notar a quantidade de haters dissimulando ódio gratuitamente. E pior: o tamanho da influência que essas pessoas exercem no meio virtual.

Zygmunt Bauman, lembram? O sociólogo antecipou a crise das relações no seu famoso livro “Amor Líquido”, muito antes do uso insano e desenfreado das redes. O conteúdo representa o quanto as relações e os vínculos afetivos tornam-se descartáveis, facilmente substituíveis e dispersos. A impressão é que tudo acaba em curtir, compartilhar, seguir de volta, acumular, bloquear e silenciar seguidores. Interessante perceber que os usuários possuem muitos, muitos amigos, centenas, milhares de amigos nas redes. Aham! Sim! Claro! “Com certeza!”. Viver on-line é “maravilhoso” pelas possibilidades (aparentes) sem fronteira. Entretanto, na vida real, o cenário e os “atores” são outros. A dinâmica das redes sociais segue uma regra previsível: nem sempre o que está sendo publicado condiz com a realidade. Essa fragilidade é posta, sobretudo, no que diz respeito às relações interpessoais. Enfim, quem dera o cérebro pensasse mais do que os dedos e respondesse as seguintes questões: Afinal, as redes sociais aproximam ou afastam das “trocas reais”? Como essa superficialidade compromete a saúde mental?


 

 

 

sábado, 31 de dezembro de 2022

MANOEL DE BARROS - UM VERDADEIRO POETA


 

O filósofo catalão Rafael Argullol define a poesia como “a destilação do silêncio”. Em um dos versos das Memórias inventadas, o poeta Manoel de Barros confirma este elo essencial entre a escrita poética, o desaparecimento e a mudez: “Uso a palavra para compor meus silêncios.” Esse apego ao recolhimento é, no caso de Manoel, uma estratégia que cobiça o nada. Uma arte da meditação. Está escrito em O guardador de Águas: “Não tenho bens de acontecimentos./ O que não sei fazer desconto nas palavras.”


O objetivo da poesia de Manoel de Barros não é explicar, mas “desexplicar”. Ela se desenrola além da razão e de seus bons argumentos. Por isso, provavelmente, é uma poesia que se apega à infância, momento da vida em que todos os sentidos ainda estão por se fazer. A criança tem a liberdade para cultivar uma visão torta das coisas. Seu olhar é sinuoso, e não reto. A razão — que nos fascina desde o Iluminismo — ainda é uma quimera. Nesse corajoso retorno à infância, Manoel trabalha com inversões, deslocamentos, deformações — “brincadeiras” semelhantes as dos primeiros anos de vida. Pode dizer coisas como: “O córrego ficava à beira/ de um menino…” ou “luava um pássaro”. É toda uma realidade que se inverte, libertando-se das amarras do bom senso. Não só dele, mas do valor solene e definitivo que os adultos, em geral, atribuem às palavras.


O poeta Manoel de Barros não blefava, não mentia, ao contrário, levava a encarar a difícil verdade. A poesia de Manoel é feita de restos, de sobras, de dejetos. Como ele diz em um poema: de “inutensílios”. É uma poesia que se instala nos primórdios, quando as palavras ainda se confundem com as imagens. Ela confirma, assim, o caráter “inútil” — isto é, não pragmático, indiferente aos resultados — que a define. Como ele mesmo diz no Concerto a Céu Aberto para Solos de Ave: “Passei anos me procurando por lugares nenhuns./ Até que não me achei — e fui salvo.”


Estranha salvação promovida não por um encontro, mas por um desencontro. Barros elogia também os defeitos, os desvios e o desprezível. De seu personagem Bernardo, ele diz que “desregula a natureza”.


Está dito no Livro Sobre Nada: “A sensatez me absurda.” Por isso, talvez, alguns intelectuais sisudos, inseguros, dele se afastem e até neguem sua grandeza. Nada disso o importunava. Dizia Manoel ter aprendido com o pintor boliviano Rômulo Quiroga que a força de um artista não vem de seus sucessos, mas de suas derrotas. É ali onde a arte falha — em pleno silêncio aterrador — que a poesia nasce. Quando pensa em suas palavras, perde o medo de errar. Mesmo com os cabelos brancos, Manoel ainda vivia uma infância na qual “não havia limites para ser”.


Preferia as ciências “que analfabetam”. Orgulhava-se, também, de seu senso apurado “de irresponsabilidades”. No Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo, ele escreve: “Meu fado é o de não saber quase tudo.” Toma uma posição oposta a dos poetas sabichões, para quem a contradição é intolerável. Sabia, ao contrário, que a realidade é feita de lados divergentes. De difíceis paradoxos. É uma esfera que, em seu centro, sustenta a ignorância. Em Menino do Mato, ele diz: “Certas visões não significavam nada mas eram passeios verbais.” Sua poesia não está só além dos significados: ela os desmonta. Aquele homem sereno não tinha medo de enlouquecer. Ao contrário: sabia que, sem uma dose de desrazão, não se consegue fazer arte. Em O livro das Ignorãças ele afirma: “No descomeço era o verbo./ Só depois é que veio o delírio do verbo.”


O apego ao silêncio era uma forma que Manoel encontrava para ir além das palavras. Repetia um pouco Clarice Lispector, que escrevia para chegar “atrás de detrás dos pensamentos”. Ambos foram desbravadores, e isso os envolveu no manto da desconfiança. Na verdade: dá medo. Sua escrita errante e tortuosa dele se alimenta. “Sou mais a palavra com febre”, escreve nos Arranjos para Assobio. Também não temeu a sujeira — que, aliás, desde as primeiras fraldas, define o humano: “O que é bom para o lixo é bom para a poesia”, recomenda em Matéria de Poesia.


Por tudo isso, o encontro com a poesia de Manoel de Barros promovido por esta antologia se torna, ao mesmo tempo, um desencontro. O leitor se desencontra consigo mesmo e com tudo o que aprendeu: eis a poesia. O leitor tropeça no desconhecido e, ao se mirar no espelho das palavras, se desconhece: a poesia de novo. Manoel nunca temeu afirmar que o nome empobrece a imagem. Que a palavra a diminui e prende. Ainda assim, a palavra é tudo o que um poeta tem. Aceitando seu destino, escreveu: “Com esses exercícios os nossos/ desconhecimentos aumentaram bem."

 

Adaptado do livro: Meu Quintal é Maior que o Mundo de Manoel de Barros

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO - 56 ANOS DEPOIS

 

"Sociedade do espetáculo": esta expressão já está em voga, especialmente ao se falar de televisão. No Brasil, parece se impor mais do que em outros lugares. Poucos, porém, sabem que, na origem, este era o título de um livro de Guy Debord. Lançado na França em 1967, A Sociedade do Espetáculo tornou-se inicialmente livro de culto da ala mais extremista do Maio de 68, em Paris; tornou-se um clássico em muitos países. Em um prefácio de 1982, o autor sustentava com orgulho que o seu livro não necessitava de nenhuma correção.O "espetáculo" de que fala Debord vai muito além da onipresença dos meios de comunicação de massa, que representam somente o seu aspecto mais visível e mais superficial. Em 221 brilhantes teses de concisão aforística e com múltiplas alusões ocultas a autores conhecidos, Debord explica que o espetáculo é uma forma de sociedade em que a vida real é pobre e fragmentária, e os indivíduos são obrigados a contemplar e a consumir passivamente as imagens de tudo o que lhes falta em sua existência real.


Têm de olhar para outros (estrelas, homens políticos...) que vivem em seu lugar. A realidade torna-se uma imagem, e as imagens tornam-se realidade; a unidade que falta à vida, recupera-se no plano da imagem. Enquanto a primeira fase do domínio da economia sobre a vida caracterizava-se pela notória degradação do ser em ter, no espetáculo chegou-se ao reinado soberano do aparecer. As relações entre os homens já não são mediadas apenas pelas coisas, como no fetichismo da mercadoria de que Marx falou, mas diretamente pelas imagens. Para Debord, no entanto, a imagem não obedece a uma lógica própria, como pensam, ao contrário, os pós-modernos "a la Baudrillard", que saquearam amplamente Debord.


A imagem é uma abstração do real, e o seu predomínio, isto é, o espetáculo, significa um "tornar-se abstrato" do mundo. A abstração generalizada, porém, é uma consequência da sociedade capitalista da mercadoria, da qual o espetáculo é a forma mais desenvolvida. A mercadoria se baseia no valor de troca, em que todas as qualidades concretas do objeto são anuladas em favor da quantidade abstrata de dinheiro que este representa. No espetáculo, a economia, de meio que era, transformou-se em fim, a que os homens submetem-se totalmente, e a alienação social alcançou o seu ápice: o espetáculo é uma verdadeira religião terrena e material, em que o homem se crê governado por algo que, na realidade, ele próprio criou.


Nessa base, Debord condena toda a sociedade existente, não somente fraquezas individuais e imperfeições. Em 1967, Debord distinguia dois tipos de espetáculo. O "difundido" (o tipo ocidental, "democrático") caracterizava-se pela abundância de mercadorias e por uma aparente liberdade de escolha. No espetáculo "concentrado", ou seja, nos regimes totalitários de toda a espécie, a identificação mágica com a ideologia no poder era imposta a todos para suprir a falta de um real desenvolvimento econômico. Toda a forma de poder espetacular justificava-se denunciando a outra; e nenhum sistema, além destes dois, devia ser imaginável.


Debord, portanto, reconheceu na antiga e extinta URSS, nada menos do que 25 anos antes de seu fim, uma forma subalterna – e destinada, enfim, a sucumbir - da sociedade da mercadoria. Mas, por um longo período, enquanto existia um proletariado inquieto, o comunismo de Estado desempenhou uma função essencial para o espetáculo ocidental: a de assegurar que os rebeldes potenciais se identificassem com a mera imagem da revolução, delegando a ação real aos Estados e aos partidos comunistas totalmente cúmplices do espetáculo ocidental; ou, então, a pressupostos revolucionários muito distantes, no Terceiro Mundo.




Debord anunciou, no entanto, o aparecimento de um movimento de contestação de tipo novo: retomando o conteúdo liberatório da arte moderna, teria como programa a revolução da vida cotidiana, a realização dos desejos oprimidos, a recusa dos partidos, dos sindicatos e de todas as outras formas de luta alienadas e hierárquicas, a abolição do dinheiro, do Estado, do trabalho e da mercadoria. Por isto, Debord sempre considerou o conteúdo profundo de 1968 como uma confirmação de suas ideias.

Teve, porém, de admitir, em Comentários Sobre a Sociedade do Espetáculo (1988), que o domínio espetacular conseguiu se aperfeiçoar e vencer todos os seus adversários; de modo que agora é a sua própria dinâmica, a sua desenfreada loucura econômica a arrastá-lo em direção à irracionalidade total e à ruína. Os dois tipos anteriores de espetáculo deram lugar, no mundo todo, a um único tipo: o "integrado". Sob a máscara da democracia, este remodelou totalmente a sociedade segundo a própria imagem, pretendendo que nenhuma alternativa seja sequer concebível. Nunca o poder foi mais perfeito, pois consegue falsificar tudo, desde a cerveja, o pensamento e até os próprios revolucionários. Ninguém pode verificar nada pessoalmente. Ao contrário, temos de confiar em imagens, e, como senão bastasse, imagens que outros escolheram. Para os donos da sociedade, o espetáculo integrado é muito mais conveniente do que os velhos totalitarismos. A América Latina sabe algo a respeito. Mas Debord (1931-1994) não é apenas um dos poucos autores de inspiração marxista que hoje podem dar uma contribuição válida para a análise do capitalismo globalizado e pós-moderno. Ele também fascina por sua vida singular, sem compromissos e conforme as suas teorias.


A busca da aventura e da vida "verdadeira" esteve na base de sua vida pessoal - da qual a sua autobiografia Panegírico e os seus filmes falam -, assim como de sua teoria. Levou uma existência intencionalmente "maldita", às margens da sociedade, sem um trabalho reconhecido, sem nenhum contato com as instituições, sem nunca ter frequentado uma universidade, concedido uma entrevista ou participado de um congresso e, no entanto, conseguiu fazer com que fosse ouvido. Levou adiante a sua batalha contra a sociedade espetacular exclusivamente com os meios que ele próprio criou para si: em primeiro lugar, com a Internacional Situacionista, uma pequena organização que existiu entre 1957 e 1972 e que se originou da decomposição do surrealismo parisiense e de outras experiências artísticas.


Com a revista homônima e novos meios de agitação (quadrinhos, organização de escândalos), os situacionistas souberam prefigurar, muito melhor do que a esquerda "política", as novas linhas de conflito na sociedade "da abundância". Entre outras coisas, criticavam impiedosamente a nova arquitetura, o vazio e o tédio do pós-guerra. Com poucas intervenções miradas, os situacionistas fizeram com que ideias subversivas - que, por volta de 1960, eram compartilhadas por um punhado de pessoas - se tornassem, em 1968 e posteriormente, um fator histórico de primeira ordem. Os situacionistas, e particularmente Debord, distinguem-se pelo estilo inconfundível, e não somente no plano literário. Era o resultado da mistura entre um conteúdo radical - que remetia, entre outros, aos dadaístas, aos anárquicos e à vida popular parisiense - e um tom sofisticado e aristocrático, com muitas referências à cultura clássica francesa.


Este estilo, assim como a sua verve polêmica, mesmo para com todos os supostos contestadores (esquerda oficial, artistas "engajados"...), sua inacessibilidade e a sua transgressividade nas formas, logo os cercou de um ódio significativo, mas sobretudo de uma aura de mistério. Que ainda vive, 30 anos depois: com efeito, ainda se publicam textos dos situacionistas e sobre eles, embora amiúde procurem fazê-los passar exclusivamente por última "vanguarda cultural". Na França, ao contrário, só querem enxergar em Debord o escritor. Ainda hoje não querem perdoá-lo por ter escrito A Sociedade do Espetáculo.