segunda-feira, 15 de junho de 2026

A GERAÇÃO ATUAL QUE ESQUECEU QUE UM DIA FOI JOVEM

A GERAÇÃO NEM NEM

O PROBLEMA ESTÁ NOS JOVENS OU NOS ADULTOS?

por Heitor Jorge Lau

            Existe uma afirmação repetida com tanta frequência que acabou sendo aceita como uma verdade quase indiscutível: os jovens de hoje não querem nada com nada. São acusados de não querer trabalhar, não querer estudar, não assumir responsabilidades e de viver apenas em busca de prazeres imediatos. Essa narrativa aparece em conversas familiares, ambientes profissionais, escolas e nas redes sociais. No entanto, antes de condenarmos uma geração inteira, talvez seja necessário fazer uma pergunta simples: em qual período da história os jovens foram exatamente aquilo que os adultos esperavam que fossem?

            A juventude sempre foi uma fase marcada pela experimentação, busca de identidade e resistência às normas estabelecidas. Desde a Antiguidade existem registros de adultos reclamando dos mais jovens, acusando-os de serem preguiçosos, rebeldes, superficiais ou desinteressados. O curioso é que essas críticas atravessam séculos sem que os adultos percebam uma contradição evidente: eles próprios já foram jovens. Muitas vezes parece que, ao envelhecer, as pessoas desenvolvem uma espécie de amnésia seletiva sobre suas próprias inseguranças, dúvidas, indecisões e dificuldades.

            Quando o assunto é trabalho, a responsabilidade costuma ser atribuída exclusivamente aos jovens. Contudo, raramente se questiona a qualidade dos ambientes profissionais oferecidos a eles. Empresas frequentemente afirmam que os novos trabalhadores não possuem comprometimento, mas poucas se perguntam se possuem lideranças preparadas para lidar com as transformações culturais e tecnológicas das últimas décadas. Muitos gestores foram treinados para administrar pessoas em um mundo que já não existe mais. Exigem dos jovens adaptações constantes, mas demonstram enorme resistência em rever seus próprios métodos e práticas.

            A mesma reflexão pode ser aplicada à educação. É comum ouvir que os estudantes não querem aprender. Entretanto, será que o problema está apenas na falta de interesse dos alunos? Ou parte da dificuldade está em modelos educacionais que permanecem praticamente inalterados enquanto o mundo muda em velocidade crescente? Em muitas salas de aula, os professores disputam a atenção de uma geração criada em meio a múltiplas formas de comunicação, informação instantânea e tecnologias interativas. Talvez a questão não seja simplesmente ensinar mais conteúdo, mas compreender novas formas de aprendizagem e de construção do conhecimento.

            O ambiente familiar também merece atenção nessa discussão. Muitos pais lamentam a falta de disciplina, autonomia ou responsabilidade dos filhos, mas nem sempre percebem o papel que desempenham na formação desses comportamentos. Educar exige presença, coerência, limites e, sobretudo, exemplo. Uma sociedade que terceiriza a educação para escolas, dispositivos eletrônicos ou redes sociais não pode se surpreender quando surgem jovens inseguros, desmotivados ou sem direção clara. Em grande medida, os filhos aprendem menos com discursos e mais com aquilo que observam diariamente nos adultos que os cercam.

            O maior equívoco da expressão “geração nem nem” é a simplificação excessiva do termo. Ela transforma um fenômeno complexo em uma explicação conveniente. Ao atribuir aos jovens toda a responsabilidade por dificuldades sociais, econômicas e educacionais, os adultos evitam examinar suas próprias falhas. É mais confortável afirmar que os jovens não querem trabalhar do que questionar a precarização do mercado de trabalho. É mais fácil dizer que não querem estudar do que reconhecer problemas nos sistemas educacionais. É menos doloroso acusar uma geração inteira do que admitir limitações nas formas contemporâneas de educar.

            Isso não significa que os jovens estejam livres de responsabilidade por suas escolhas. Toda geração possui desafios, virtudes e defeitos. O problema surge quando transformamos características individuais em julgamentos coletivos. Nem todos os jovens são desinteressados, assim como nem todos os adultos são responsáveis, maduros ou preparados. Generalizações costumam revelar mais sobre quem acusa do que sobre quem é acusado.

            A pergunta correta não é por que os jovens não querem nada, mas que tipo de mundo estamos oferecendo a eles. O mundo atual caminha com incertezas econômicas, relações de trabalho instáveis, excesso de informações, crises de identidade e profundas transformações culturais. Antes de apontar o dedo para uma geração, seria prudente examinar o espelho. Afinal, os jovens de hoje foram educados, ensinados e preparados pelos adultos de ontem. E quando uma geração fracassa, dificilmente a responsabilidade pertence apenas a um dos lados.

 

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