A
GERAÇÃO NEM NEM
O PROBLEMA ESTÁ NOS
JOVENS OU NOS ADULTOS?
por Heitor Jorge Lau
Existe
uma afirmação repetida com tanta frequência que acabou sendo aceita como uma
verdade quase indiscutível: os jovens de hoje não querem nada com nada. São
acusados de não querer trabalhar, não querer estudar, não assumir
responsabilidades e de viver apenas em busca de prazeres imediatos. Essa
narrativa aparece em conversas familiares, ambientes profissionais, escolas e
nas redes sociais. No entanto, antes de condenarmos uma geração inteira, talvez
seja necessário fazer uma pergunta simples: em qual período da história os
jovens foram exatamente aquilo que os adultos esperavam que fossem?
A
juventude sempre foi uma fase marcada pela experimentação, busca de identidade
e resistência às normas estabelecidas. Desde a Antiguidade existem registros de
adultos reclamando dos mais jovens, acusando-os de serem preguiçosos, rebeldes,
superficiais ou desinteressados. O curioso é que essas críticas atravessam
séculos sem que os adultos percebam uma contradição evidente: eles próprios já
foram jovens. Muitas vezes parece que, ao envelhecer, as pessoas desenvolvem
uma espécie de amnésia seletiva sobre suas próprias inseguranças, dúvidas,
indecisões e dificuldades.
Quando
o assunto é trabalho, a responsabilidade costuma ser atribuída exclusivamente
aos jovens. Contudo, raramente se questiona a qualidade dos ambientes
profissionais oferecidos a eles. Empresas frequentemente afirmam que os novos
trabalhadores não possuem comprometimento, mas poucas se perguntam se possuem
lideranças preparadas para lidar com as transformações culturais e tecnológicas
das últimas décadas. Muitos gestores foram treinados para administrar pessoas
em um mundo que já não existe mais. Exigem dos jovens adaptações constantes,
mas demonstram enorme resistência em rever seus próprios métodos e práticas.
A
mesma reflexão pode ser aplicada à educação. É comum ouvir que os estudantes
não querem aprender. Entretanto, será que o problema está apenas na falta de
interesse dos alunos? Ou parte da dificuldade está em modelos educacionais que
permanecem praticamente inalterados enquanto o mundo muda em velocidade
crescente? Em muitas salas de aula, os professores disputam a atenção de uma
geração criada em meio a múltiplas formas de comunicação, informação
instantânea e tecnologias interativas. Talvez a questão não seja simplesmente
ensinar mais conteúdo, mas compreender novas formas de aprendizagem e de
construção do conhecimento.
O
ambiente familiar também merece atenção nessa discussão. Muitos pais lamentam a
falta de disciplina, autonomia ou responsabilidade dos filhos, mas nem sempre
percebem o papel que desempenham na formação desses comportamentos. Educar
exige presença, coerência, limites e, sobretudo, exemplo. Uma sociedade que
terceiriza a educação para escolas, dispositivos eletrônicos ou redes sociais
não pode se surpreender quando surgem jovens inseguros, desmotivados ou sem
direção clara. Em grande medida, os filhos aprendem menos com discursos e mais
com aquilo que observam diariamente nos adultos que os cercam.
O
maior equívoco da expressão “geração nem nem” é a simplificação excessiva do
termo. Ela transforma um fenômeno complexo em uma explicação conveniente. Ao
atribuir aos jovens toda a responsabilidade por dificuldades sociais,
econômicas e educacionais, os adultos evitam examinar suas próprias falhas. É
mais confortável afirmar que os jovens não querem trabalhar do que questionar a
precarização do mercado de trabalho. É mais fácil dizer que não querem estudar
do que reconhecer problemas nos sistemas educacionais. É menos doloroso acusar
uma geração inteira do que admitir limitações nas formas contemporâneas de
educar.
Isso
não significa que os jovens estejam livres de responsabilidade por suas
escolhas. Toda geração possui desafios, virtudes e defeitos. O problema surge
quando transformamos características individuais em julgamentos coletivos. Nem
todos os jovens são desinteressados, assim como nem todos os adultos são
responsáveis, maduros ou preparados. Generalizações costumam revelar mais sobre
quem acusa do que sobre quem é acusado.
A
pergunta correta não é por que os jovens não querem nada, mas que tipo de mundo
estamos oferecendo a eles. O mundo atual caminha com incertezas econômicas,
relações de trabalho instáveis, excesso de informações, crises de identidade e
profundas transformações culturais. Antes de apontar o dedo para uma geração,
seria prudente examinar o espelho. Afinal, os jovens de hoje foram educados,
ensinados e preparados pelos adultos de ontem. E quando uma geração fracassa,
dificilmente a responsabilidade pertence apenas a um dos lados.

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