O SOFRIMENTO QUE
NÃO EXISTE NA NATUREZA
por Heitor Jorge Lau
Nenhuma
árvore sofre por não ser pássaro. Nenhum rio lamenta não ser montanha. A
natureza jamais desperdiça energia tentando ser outra coisa. Apenas o ser
humano transforma a própria identidade em motivo de insatisfação, consumindo
boa parte da existência desejando viver a vida de alguém que não é.
A
sabedoria da natureza não está na ausência de limites, mas na ausência de
revolta contra eles. A árvore cresce até onde suas raízes alcançam. O rio
percorre o leito que encontra. O pássaro voa com as asas que possui. Cada ser
realiza, com plenitude, as possibilidades inscritas em sua própria natureza.
Apenas o homem, podendo tornar extraordinária a sua existência, desperdiça
parte da vida desejando florescer nas raízes de outra árvore.
Grande
parte do sofrimento humano não nasce apenas daquilo que nos falta, mas da
fantasia de que a felicidade habita uma existência diferente da nossa.
Imaginamos que seríamos plenos se tivéssemos outro corpo, outra profissão,
outra inteligência, outro casamento, outra história... Enquanto isso, a
natureza parece ensinar uma lição silenciosa: cada organismo investe toda a sua
energia em realizar aquilo que pode ser, e não em lamentar aquilo que nunca
será.
Nenhum
organismo prospera negando a própria natureza. Um lobo não deseja voar. Uma
águia não sonha em respirar debaixo d'água. A evolução aperfeiçoa aquilo que
cada espécie já é, e não aquilo que ela gostaria de ser. O ser humano,
entretanto, possui imaginação simbólica. Essa capacidade extraordinária,
responsável pela arte, pela ciência e pela cultura, também produz um efeito
colateral inevitável: a comparação incessante. Já não basta existir. É preciso
desejar existir como outro.
Essa
é uma das mais silenciosas tragédias da condição humana. Enquanto a natureza
realiza serenamente aquilo que é, o homem frequentemente desperdiça sua
existência tentando escapar da própria. E, ao perseguir uma vida imaginária,
negligencia a única que realmente possui.
Talvez
seja por isso que a natureza desconheça esse sofrimento. A árvore floresce sem
invejar o voo dos pássaros. O rio encontra o mar sem desejar ser montanha. O
lobo corre sem sonhar com asas. Apenas o homem imagina que encontrará paz
tornando-se alguém diferente. E é justamente nessa longa fuga de si mesmo que,
muitas vezes, esquece de florescer.

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