segunda-feira, 22 de junho de 2026

O CENTRO DA VIDA

 

A FLORESTA E O CENTRO DA VIDA

Quando você entra em uma floresta, em que momento começa a sair dela?

por Heitor Jorge Lau

            Há perguntas que atravessam décadas sem envelhecer. Elas permanecem guardadas em algum canto da memória, não porque exigem uma resposta difícil, mas porque contêm uma verdade que só se revela plenamente com o passar dos anos. Uma dessas perguntas me foi feita por meu irmão mais velho quando eu ainda era um pré-adolescente: ao entrar em uma floresta, em que momento se começa a sair dela?

            Minha resposta foi imediata e aparentemente lógica. Disse que a saída começava quando a pessoa deixava a floresta para trás. Ele discordou. Segundo sua explicação, começamos a sair da floresta exatamente quando atingimos o seu ponto central. Até ali estamos entrando. Dali em diante, embora continuemos caminhando para frente, já estamos nos afastando da entrada e nos aproximando da saída. Naquele instante, a observação me pareceu surpreendente. Hoje, muitos anos depois, percebo que ela contém uma reflexão muito mais ampla do que eu poderia imaginar naquela época. A floresta não era apenas uma floresta. Era uma imagem da própria existência.

            Costumamos pensar a vida como um processo contínuo de avanço. Desde a infância somos estimulados a seguir adiante, conquistar espaços, acumular experiências e alcançar objetivos. A ideia de progresso ocupa um lugar central em nossa cultura. Caminhar para frente parece sempre significar crescimento. No entanto, a metáfora da floresta sugere algo diferente. Há momentos em que continuar avançando significa também iniciar um afastamento.

            O que chamamos de auge já contém, em si mesmo, o início da transformação. O dia de maior juventude também marca o começo do envelhecimento. O momento de maior expansão de um projeto é, muitas vezes, o instante em que ele começa a se encaminhar para sua conclusão. O ponto mais alto de uma montanha não é apenas o fim da subida. É igualmente o início da descida.

            Essa constatação pode parecer melancólica à primeira vista, mas não precisa ser interpretada dessa forma. Pelo contrário. Ela nos convida a enxergar a realidade com mais lucidez e menos ilusão. Nada permanece indefinidamente em estado de crescimento. A natureza inteira funciona em ciclos. Há estações para germinar, florescer, frutificar e recolher-se. O ser humano, apesar de seus sonhos de permanência, participa da mesma dinâmica.

            Uma das dificuldades da vida adulta consiste justamente em reconhecer quando atravessamos certos centros invisíveis. Nem sempre percebemos quando uma fase começa a se despedir. Muitas vezes continuamos acreditando que estamos entrando, quando na verdade já estamos saindo. Isso acontece com relacionamentos, profissões, amizades, projetos e até com determinadas versões de nós mesmos. A mudança costuma ser silenciosa. Quando nos damos conta, a paisagem já é outra.

            Existe, porém, uma sabedoria especial em aceitar essa condição. Quem compreende que tudo possui um ponto de passagem aprende a valorizar mais intensamente o presente. Em vez de viver apenas em função do que virá, passa a reconhecer a riqueza do que está acontecendo agora. Afinal, cada instante é único justamente porque não pode ser repetido.

            A velha pergunta sobre a floresta também nos conduz a uma reflexão ainda mais profunda. Se a vida possui um centro invisível, em que momento o atravessamos? Ninguém sabe responder. Não existe um marco, uma placa ou um sinal indicando que chegamos a ele. Seguimos caminhando sem saber se ainda estamos entrando ou se já começamos a sair. Essa incerteza, longe de ser um problema, é parte do mistério da condição humana.

            Talvez por isso a imagem da floresta seja tão poderosa. Ela nos lembra que a existência não é uma linha reta entre dois pontos conhecidos. É uma travessia. E o sentido da caminhada não está apenas na entrada nem na saída, mas na experiência de percorrer o caminho. Enquanto observamos as árvores, escutamos os sons ao redor e descobrimos novas paisagens, a vida acontece.

            Hoje penso que a resposta do meu irmão continha uma filosofia involuntária. Sem recorrer a livros ou teorias, ele expressou uma verdade simples e profunda: há momentos em que avançar e despedir-se são movimentos inseparáveis. A própria continuidade da jornada faz nascer a aproximação do seu término. E é justamente essa fragilidade que torna cada passo tão valioso.

            A floresta continua sendo a mesma. O que muda é o nosso olhar. Com o passar dos anos, compreendemos que não estamos aqui para encontrar o centro ou a saída, mas para viver conscientemente cada trecho do caminho. E isso, por si só, já é uma forma de sabedoria.

Nenhum comentário:

Postar um comentário