UMA VIDA E TRÊS
BILHÕES DE RAZÕES
PARA ADMIRAR O SEU
CORAÇÃO
por Heitor Jorge Lau
Imagine
passar os próximos oitenta anos realizando agachamentos sem parar. Não importa
se é dia ou noite, verão ou inverno, feriado ou segunda-feira comum. Imagine
também abrir e fechar as mãos continuamente durante esse mesmo período, ou
movimentar a mandíbula sem qualquer interrupção por décadas seguidas. A simples
ideia já parece absurda, pois sabemos que nenhum músculo do corpo humano
suportaria uma tarefa tão extenuante. Mesmo os atletas mais preparados
necessitam de pausas, recuperação e repouso. O organismo inteiro foi concebido
para alternar atividade e descanso. A fadiga é inevitável, o cansaço chega e os
limites acabam se impondo. Entretanto, existe um músculo que parece ignorar
todas essas regras e que, desde antes do nosso nascimento, realiza um trabalho
tão extraordinário que raramente paramos para refletir sobre ele.
Esse
trabalhador silencioso é o coração. Enquanto dormimos, conversamos, estudamos,
caminhamos ou simplesmente observamos o movimento da vida ao nosso redor, ele
continua desempenhando sua função com uma regularidade admirável. Não há
domingos, férias, licenças ou aposentadoria. Há apenas uma sequência contínua
de contrações e relaxamentos que se repetem milhares de vezes a cada dia.
Considerando uma frequência média de setenta batimentos por minuto, um coração
humano chega facilmente à marca de cem mil batimentos diários. Em apenas seis
meses de vida, já terá trabalhado cerca de dezoito milhões de vezes, número que
seria suficiente para impressionar qualquer pessoa que se dispusesse a fazer as
contas.
Mas
os números se tornam ainda mais surpreendentes à medida que os anos avançam.
Aos seis anos de idade, o coração já terá realizado mais de duzentos e vinte
milhões de batimentos. Aos dez anos, essa marca se aproxima de trezentos e
setenta milhões. Aos quinze anos, ultrapassa confortavelmente os quinhentos e
cinquenta milhões. Estamos falando de um músculo que trabalha de forma
ininterrupta desde os primeiros instantes da existência, mantendo o sangue em
circulação e abastecendo cada célula do corpo com o oxigênio e os nutrientes
necessários para a vida. Tudo isso acontece sem que precisemos dar qualquer
comando consciente ou sequer lembrar que esse processo está ocorrendo.
Quando
observamos uma vida inteira, os números assumem proporções quase difíceis de
imaginar. Aos sessenta anos de idade, um coração terá batido algo em torno de
dois bilhões e duzentos milhões de vezes. Aos setenta anos, a contagem alcança
aproximadamente dois bilhões e seiscentos milhões. Aos oitenta anos,
aproxima-se da impressionante marca de três bilhões de batimentos. Três bilhões
de movimentos coordenados, precisos e persistentes, executados sem interrupção
ao longo de décadas. Poucas máquinas produzidas pelo ser humano conseguiriam
apresentar tamanha durabilidade e confiabilidade, e mesmo as mais sofisticadas
exigiriam manutenção constante e substituição de peças ao longo do caminho.
Talvez
a maior curiosidade seja o fato de que raramente pensamos nisso. O coração
costuma chamar nossa atenção apenas quando algo não está funcionando bem. Fora
desses momentos, ele permanece quase invisível, trabalhando nos bastidores da
existência com uma discrição admirável. E, no entanto, enquanto nossos
pensamentos se ocupam das preocupações cotidianas, dos projetos, das alegrias e
das dificuldades da vida, ele continua realizando sua tarefa fundamental. Neste
exato instante, enquanto você termina a leitura destas linhas, esse incansável
companheiro segue trabalhando da mesma forma que trabalhou ontem, que
trabalhará amanhã e que continuará trabalhando por toda a sua vida. Batimento
após batimento, ele sustenta silenciosamente o milagre cotidiano de estarmos
vivos.

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