domingo, 21 de junho de 2026

VAMOS FALAR SOBRE GÍRIAS


 

NEM TODA “NUDEZ” SERÁ CASTIGADA

por Heitor Jorge Lau

            Hoje pela manhã acordei pensando num pequeno livro, literalmente. Topless, uma obra bastante peculiar de Marta Medeiros. Apesar do título provocar uma expectativa inicial, o livro não trata de nudez física, mas de algo muito mais interessante: a nudez das ideias, dos sentimentos, das contradições humanas e dos pequenos acontecimentos do cotidiano. Marta possui uma habilidade rara de transformar situações aparentemente banais em reflexões profundas. Seus textos costumam ser curtos, quase conversas íntimas com o leitor, mas deixam uma espécie de eco que permanece depois da leitura. É o tipo de livro que não exige pressa. Pode ser aberto em qualquer página, lido em poucos minutos e, ainda assim, acompanhar o leitor pelo restante do dia.

            Ao lembrar desse livro e seu conteúdo, pensei algo que talvez explique meu encanto. Existem obras que contam histórias e existem obras que nos fazem conversar conosco mesmos. "Topless" pertence mais à segunda categoria. Cada crônica funciona como um espelho discreto: o texto fala de alguém, mas o leitor acaba encontrando a si mesmo. Curiosamente, esse gênero de narrativa breve e reflexiva parece dialogar muito com as teorias psicanalíticas. Um detalhe cotidiano, uma frase ouvida por acaso, uma lembrança aparentemente insignificante — tudo isso pode abrir caminhos inesperados para a reflexão. As melhores crônicas fazem justamente isso: revelam que a profundidade nem sempre está nos grandes acontecimentos, mas na maneira como olhamos para os pequenos.

            A minha lembrança também me fez pensar numa reflexão interessante. Algo como: Há livros que terminam quando chegamos à última página e outros começam, justamente, nesse ponto. Alguns textos de Marta Medeiros têm esse efeito. Encerramos a leitura, mas a reflexão continua silenciosamente dentro de nós.

 

 

            Há livros que nos contam histórias e há livros que nos fazem prestar atenção na vida. Lembro-me de ter sentido isso ao ler "Topless", de Marta Medeiros. As narrativas eram breves, mas carregavam algo curioso: a capacidade de transformar situações comuns em reflexões inesperadas. Muitas vezes eu terminava uma página pensando menos na história e mais nas pessoas que haviam passado pela minha vida. Uma dessas recordações surgiu ao observar a maneira como cada geração fala. O idioma é o mesmo, mas as palavras parecem vestir roupas diferentes conforme o tempo passa. Quem viveu algumas décadas já ouviu expressões que hoje soam quase arqueológicas. Houve uma época em que tudo era "jóia", "legal", "bacana", "supimpa" ou "uma brasa, mora?". Depois vieram outras modas linguísticas, cada qual acreditando que seria eterna.

            Atualmente escuto com frequência frases recheadas de "tá ligado?", "tipo assim" e "não eras". Não me incomodam por existirem. O que chama atenção é a velocidade com que algumas delas se repetem. Conheci uma pessoa que conseguia encaixar um "tipo assim" a cada meia dúzia de palavras. Em determinado momento, entre a amizade e o desespero, pedi que tentasse falar "direito". Rimos muito da situação, embora a expressão continuasse firme e forte na conversa. O curioso é que provavelmente alguém mais velho também deve ter se irritado com as gírias da minha geração. Enquanto eu franzia a testa para o "tipo assim", outro cidadão, décadas atrás, fazia o mesmo ao ouvir um jovem dizer que algo era "bacana" ou "trique trique". A história humana parece repetir esse pequeno ritual: os jovens inventam palavras, os adultos reclamam delas e, algum tempo depois, todos percebem que aquelas expressões se tornaram lembranças afetuosas de uma época.

            As gírias acabam funcionando como fotografias invisíveis. Basta ouvir uma delas para que retornem determinados lugares, músicas, amizades e modos de viver. Algumas desaparecem completamente. Outras sobrevivem apenas na memória daqueles que as utilizaram sem imaginar que um dia se tornariam peças de museu linguístico. Talvez seja por isso que textos como os de Marta Medeiros continuem agradando tantos leitores. Eles nos lembram que a vida não é feita apenas de grandes acontecimentos. Existe poesia nas palavras que escolhemos, nos hábitos que adquirimos e até nas expressões que repetimos sem perceber. No fim das contas, cada geração deixa sua marca não apenas no que faz, mas também na maneira como fala. E, gostemos ou não das gírias da moda, elas acabam contando um pedaço da história de quem fomos.

            Enfim, não se trata de transformar a questão das gírias em uma crítica aos jovens (ou nem tão jovens), mas em uma observação sobre a passagem do tempo. Aquele que um dia foi (trique trique) jovem, será um dia (tipo assim) um pouco mais velho. Talvez no futuro distante (ou menos) muitos que foram jovens (hoje) estarão rindo ou reclamando de quem um dia disse “tá lig@do!”. Simples assim!

 

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