QUANTO VALE UM CHUTE EM UMA BOLA?
por Heitor Jorge Lau
Há alguns dias, voltou a circular a notícia de que um jovem jogador brasileiro poderia ser negociado por aproximadamente sessenta milhões de euros. Embora cifras dessa natureza já não provoquem o espanto de outros tempos, vale a pena interromper por alguns instantes o fluxo frenético das notícias esportivas para refletir sobre o significado desse número. Convertido para a moeda brasileira, esse valor supera facilmente a marca de R$ 350.000.000,00 - trezentos e cinquenta milhões de reais. Não estamos falando da construção de um hospital, de um programa nacional de pesquisa científica, da implantação de uma universidade ou da criação de uma tecnologia capaz de beneficiar milhões de pessoas. Estamos falando apenas da transferência dos direitos desportivos de um atleta entre dois clubes. A notícia, entretanto, não desperta indignação. Ao contrário, costuma ser recebida com entusiasmo, curiosidade e até admiração, como se cifras cada vez maiores fossem uma demonstração natural da evolução do esporte e da prosperidade da sociedade.
A dimensão dessa realidade torna-se ainda mais impressionante quando comparada à vida das pessoas comuns. Um trabalhador brasileiro que receba apenas um salário mínimo, supondo a hipótese absolutamente impossível de conseguir economizar integralmente cada centavo recebido ao longo da vida, precisaria trabalhar por mais de dezesseis mil anos para acumular uma quantia equivalente. Isso representa mais de duzentas vidas completas de trabalho ininterrupto, sem um único dia de descanso, sem despesas, sem alimentação, sem moradia e sem qualquer necessidade básica. É evidente que essa comparação possui um caráter simbólico, pois ninguém vive nessas condições. Ainda assim, ela evidencia uma desproporção que dificilmente pode ser ignorada. Não se trata de questionar o mérito esportivo de um atleta talentoso, nem de condenar alguém por receber aquilo que o mercado está disposto a pagar. A questão é muito mais profunda e desconfortável: o que leva uma sociedade a considerar perfeitamente aceitável que um espetáculo esportivo movimente recursos equivalentes ao trabalho de centenas de vidas humanas?
Essa reflexão torna-se ainda mais inquietante quando recordamos que, alguns anos atrás, uma transferência internacional ultrapassou a inacreditável marca de duzentos e vinte milhões de euros (70.900 anos para acumular esse montante. Isso equivale a mais de 1.000 vidas inteiras de trabalho), estabelecendo um recorde mundial que parecia impossível de ser alcançado. Durante semanas, jornais, emissoras de televisão e redes sociais acompanharam cada detalhe da negociação como se estivessem diante de um dos acontecimentos mais relevantes da história contemporânea. A cifra tornou-se motivo de orgulho para alguns, de fascínio para milhões de torcedores e de intermináveis debates entre comentaristas esportivos. Poucos, entretanto, fizeram a pergunta mais importante: que sociedade é esta capaz de celebrar com tanta naturalidade a movimentação de bilhões de reais em torno do entretenimento enquanto tantos setores fundamentais sobrevivem com recursos insuficientes? Não é o futebol que merece reprovação, mas a escala de valores construída ao longo das últimas décadas e que passou a tratar o espetáculo como prioridade absoluta.
Costuma-se afirmar que essa é apenas a lógica do mercado. A frase parece encerrar qualquer discussão, como se o mercado fosse uma força da natureza, independente da vontade humana e incapaz de ser questionada. Entretanto, mercados não possuem consciência, sentimentos ou preferências. Mercados apenas refletem aquilo que milhões de pessoas escolhem consumir, admirar e financiar diariamente. Cada ingresso comprado, cada assinatura de televisão, cada camisa oficial adquirida, cada patrocinador valorizado e cada minuto de audiência contribuem para alimentar um sistema econômico que transforma atletas em ativos financeiros de valor incalculável. Enquanto isso, pesquisadores lutam por verbas, professores reivindicam salários dignos, profissionais da saúde enfrentam estruturas precárias e cientistas dedicam décadas de estudo a descobertas que raramente ocupam espaço equivalente nas manchetes. Não é o mercado que escolhe sozinho. Somos nós que, consciente ou inconscientemente, determinamos aquilo que merece ser recompensado.
O maior equívoco dessa discussão é imaginar que ela representa uma crítica ao futebol ou aos atletas. Não representa. O esporte possui uma extraordinária capacidade de unir pessoas, despertar emoções e produzir momentos inesquecíveis. O problema surge quando o entretenimento passa a ocupar um lugar tão privilegiado que obscurece quase todas as demais formas de contribuição para o desenvolvimento humano. Uma sociedade revela sua verdadeira identidade não apenas por aquilo que produz, mas principalmente por aquilo que decide admirar, financiar e transformar em símbolo de sucesso. Quando um único contrato esportivo representa mais riqueza do que centenas de vidas dedicadas ao trabalho honesto, não é o valor do atleta que deva ser questionado. É o valor que atribuído às demais profissões, ao conhecimento, à ciência, à educação e à própria dignidade do trabalho humano. Afinal, os números não possuem ideologia nem sentimentos. Eles apenas revelam, com absoluta sinceridade, aquilo que uma fração da civilização decidiu considerar importante.
É provável que alguém apresente um argumento aparentemente irrefutável: "Mas a carreira de um jogador de futebol é muito curta." É verdade. Poucos conseguem permanecer em alto nível por mais de quinze ou vinte anos. Entretanto, essa observação conduz a uma pergunta inevitável: será essa a única profissão cuja vida profissional é breve? Basta desviar o olhar dos estádios para encontrar milhares de trabalhadores cuja capacidade laboral também se esgota muito antes da velhice. A diferença é que esses homens e mulheres raramente encerram suas carreiras como milionários. Muitos as encerram com o corpo comprometido, a saúde debilitada e uma aposentadoria insuficiente para compensar décadas de esforço físico e exposição a riscos permanentes.
Pensemos, por exemplo, no minerador. Enquanto multidões acompanham uma partida de futebol confortavelmente instaladas diante da televisão, ele desce diariamente por túneis profundos, respirando poeira, suportando calor intenso, ruído constante e condições de trabalho que, mesmo quando rigorosamente fiscalizadas, jamais deixam de representar perigo. Ao longo dos anos, o corpo acumula as marcas desse ambiente hostil. As articulações se desgastam, a coluna cobra seu preço, a capacidade respiratória pode diminuir e a qualidade de vida passa a depender de limitações que nenhum contrato milionário é capaz de compensar. Quando finalmente deixa a atividade, leva consigo muito mais cicatrizes do que reconhecimento público.
O mesmo poderia ser dito do operário da construção civil que trabalha diariamente em grandes alturas, do pescador que enfrenta tempestades e longas jornadas em alto-mar, do coletor de lixo que percorre quilômetros pendurado na traseira de um caminhão sob chuva ou calor intenso, do agricultor exposto durante décadas ao sol escaldante e às intempéries, do bombeiro que entra em edificações em chamas quando todos os demais procuram sair, do policial que convive diariamente com o risco da violência, do enfermeiro que atravessa madrugadas inteiras cuidando de desconhecidos ou do caminhoneiro que percorre milhares de quilômetros enfrentando cansaço, estradas precárias e a permanente ameaça de acidentes. Em comum, todas essas profissões possuem algo que raramente aparece nas estatísticas econômicas: o desgaste silencioso do corpo e da mente, pago com salários que, na maioria das vezes, mal permitem uma vida confortável.
Tal discussão não é sobre futebol. Ela é sobre aquilo que muitos decidiram admirar. O mercado remunera aquilo que desperta audiência, consumo e lucro. A sociedade, porém, deveria ser capaz de distinguir valor econômico de valor humano. O primeiro depende da oferta e da procura. O segundo deveria depender da contribuição que cada profissão oferece para a existência coletiva. Quando uma pessoa dedica a juventude inteira extraindo os minérios que construirão nossas cidades, produzindo os alimentos que chegam à nossa mesa, apagando incêndios, salvando vidas ou formando novas gerações e, ainda assim, termina sua carreira sem segurança financeira, enquanto outra movimenta cifras equivalentes ao trabalho de milhares de vidas apenas por trocar de uniforme, talvez o verdadeiro escândalo não esteja nos contratos do esporte. Talvez esteja na extraordinária facilidade com que parte da sociedade considera essa desigualdade como algo absolutamente normal.

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