quinta-feira, 30 de julho de 2026

QUEM AINDA VIGIA A SOCIEDADE?

QUEM AINDA VIGIA A SOCIEDADE?

o quarto poder tornou-se o principal mecanismo contemporâneo de controle social?

por Heitor Jorge Lau

            Durante séculos, o comportamento humano foi regulado por diferentes instituições. A família transmitia valores. A religião estabelecia parâmetros morais. A escola ensinava não apenas conteúdos, mas também civismo. O Estado aplicava as leis. As comunidades exerciam vigilância informal sobre seus membros. Nenhuma dessas instituições era perfeita, mas juntas formavam uma rede de contenção.

            Nas últimas décadas, entretanto, essa arquitetura perdeu parte de sua coesão. A família tornou-se mais diversa e menos homogênea. A influência religiosa diminuiu em muitas sociedades. A escola passou a enfrentar desafios enormes para conciliar ensino, inclusão e formação ética. O Estado, frequentemente, vê sua legitimidade questionada por escândalos de corrupção, polarização política ou ineficiência administrativa. Empresas respondem prioritariamente aos incentivos econômicos. Universidades convivem com pressões financeiras e mercadológicas.

            Nesse cenário, os meios de comunicação — e hoje também as redes sociais — passaram a exercer uma função que extrapola a simples divulgação de notícias. Tornaram-se um espaço onde governos, empresas, autoridades e indivíduos prestam contas publicamente. Um ato que antes permanecia restrito a um gabinete pode, em poucas horas, ser conhecido mundialmente.

            Essa visibilidade produz um efeito disciplinador. Muitas decisões são revistas não porque uma lei foi aplicada, mas porque a opinião pública reagiu. Empresas mudam campanhas publicitárias. Políticos retiram declarações. Instituições abrem investigações. Celebridades pedem desculpas. Organizações alteram procedimentos. Em inúmeros casos, a sanção social chega antes da sanção jurídica.

            Ao mesmo tempo, esse poder possui um lado delicado. A imprensa investiga, denuncia e informa, mas também seleciona pautas, estabelece prioridades e influencia a percepção coletiva. As redes sociais ampliaram ainda mais esse fenômeno. A velocidade da informação muitas vezes supera a capacidade de verificação. Julgamentos públicos podem ocorrer antes que os fatos sejam plenamente esclarecidos. A pressão social pode corrigir injustiças, mas também produzir condenações precipitadas.

            Isso revela um aspecto interessante: o quarto poder não substitui os demais poderes nem as demais instituições. Ele funciona como um espelho permanente da sociedade. Um espelho que amplia, destaca e ilumina determinados acontecimentos. Quando as demais instituições cumprem bem suas funções, a imprensa fiscaliza. Quando elas falham, a imprensa frequentemente denuncia. Quando a imprensa falha, entretanto, resta uma lacuna difícil de preencher.

            Por isso, considero que o verdadeiro papel do quarto poder não é impor moralidade. Moralidade nasce da consciência, da educação, da cultura e das relações humanas. O quarto poder exerce outra função: ele reduz a invisibilidade. Ao tornar públicos comportamentos antes ocultos, aumenta o custo social de determinadas condutas.

            Há uma frase atribuída ao jurista inglês Jeremy Bentham que sintetiza bem essa ideia: "A publicidade é a própria alma da justiça." Enquanto um ato permanece oculto, seus responsáveis respondem apenas à própria consciência, quando respondem. Quando ele se torna público, passa a responder também ao julgamento da sociedade.

            Entretanto, penso que existe uma reflexão ainda mais profunda.

            Uma sociedade verdadeiramente saudável não depende de um vigilante permanente para agir corretamente. Ela constrói cidadãos que fazem o que é correto mesmo quando ninguém está olhando. Se chegarmos ao ponto de depender quase exclusivamente da imprensa ou das redes sociais para conter abusos, isso significa que as demais instituições formadoras — família, escola, comunidade, religião, cultura e Estado — perderam parte significativa de sua capacidade de formar consciências.

            E essa constatação conduz a uma pergunta inquietante: o quarto poder tornou-se mais forte... ou os demais pilares da vida social tornaram-se mais fracos?

            Na minha percepção, essa é a questão central. Não foi apenas a imprensa que ganhou importância. Foi a erosão gradual de diversas instituições que fez com que ela assumisse um protagonismo que, originalmente, nunca lhe pertenceu. É justamente nesse deslocamento que reside um dos fenômenos sociais mais marcantes do nosso tempo.

 

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