QUEM AINDA VIGIA A
SOCIEDADE?
o quarto poder
tornou-se o principal mecanismo contemporâneo de controle social?
por Heitor Jorge Lau
Durante
séculos, o comportamento humano foi regulado por diferentes instituições. A
família transmitia valores. A religião estabelecia parâmetros morais. A escola
ensinava não apenas conteúdos, mas também civismo. O Estado aplicava as leis.
As comunidades exerciam vigilância informal sobre seus membros. Nenhuma dessas
instituições era perfeita, mas juntas formavam uma rede de contenção.
Nas últimas
décadas, entretanto, essa arquitetura perdeu parte de sua coesão. A família
tornou-se mais diversa e menos homogênea. A influência religiosa diminuiu em
muitas sociedades. A escola passou a enfrentar desafios enormes para conciliar
ensino, inclusão e formação ética. O Estado, frequentemente, vê sua
legitimidade questionada por escândalos de corrupção, polarização política ou
ineficiência administrativa. Empresas respondem prioritariamente aos incentivos
econômicos. Universidades convivem com pressões financeiras e mercadológicas.
Nesse
cenário, os meios de comunicação — e hoje também as redes sociais — passaram a
exercer uma função que extrapola a simples divulgação de notícias. Tornaram-se
um espaço onde governos, empresas, autoridades e indivíduos prestam contas
publicamente. Um ato que antes permanecia restrito a um gabinete pode, em
poucas horas, ser conhecido mundialmente.
Essa
visibilidade produz um efeito disciplinador. Muitas decisões são revistas não
porque uma lei foi aplicada, mas porque a opinião pública reagiu. Empresas
mudam campanhas publicitárias. Políticos retiram declarações. Instituições
abrem investigações. Celebridades pedem desculpas. Organizações alteram
procedimentos. Em inúmeros casos, a sanção social chega antes da sanção
jurídica.
Ao mesmo
tempo, esse poder possui um lado delicado. A imprensa investiga, denuncia e
informa, mas também seleciona pautas, estabelece prioridades e influencia a
percepção coletiva. As redes sociais ampliaram ainda mais esse fenômeno. A
velocidade da informação muitas vezes supera a capacidade de verificação.
Julgamentos públicos podem ocorrer antes que os fatos sejam plenamente
esclarecidos. A pressão social pode corrigir injustiças, mas também produzir
condenações precipitadas.
Isso revela
um aspecto interessante: o quarto poder não substitui os demais poderes nem as
demais instituições. Ele funciona como um espelho permanente da sociedade. Um
espelho que amplia, destaca e ilumina determinados acontecimentos. Quando as
demais instituições cumprem bem suas funções, a imprensa fiscaliza. Quando elas
falham, a imprensa frequentemente denuncia. Quando a imprensa falha,
entretanto, resta uma lacuna difícil de preencher.
Por isso,
considero que o verdadeiro papel do quarto poder não é impor moralidade.
Moralidade nasce da consciência, da educação, da cultura e das relações
humanas. O quarto poder exerce outra função: ele reduz a invisibilidade. Ao
tornar públicos comportamentos antes ocultos, aumenta o custo social de
determinadas condutas.
Há uma
frase atribuída ao jurista inglês Jeremy Bentham que sintetiza bem essa ideia: "A
publicidade é a própria alma da justiça." Enquanto um ato permanece
oculto, seus responsáveis respondem apenas à própria consciência, quando
respondem. Quando ele se torna público, passa a responder também ao julgamento
da sociedade.
Entretanto,
penso que existe uma reflexão ainda mais profunda.
Uma
sociedade verdadeiramente saudável não depende de um vigilante permanente para
agir corretamente. Ela constrói cidadãos que fazem o que é correto mesmo quando
ninguém está olhando. Se chegarmos ao ponto de depender quase exclusivamente da
imprensa ou das redes sociais para conter abusos, isso significa que as demais
instituições formadoras — família, escola, comunidade, religião, cultura e
Estado — perderam parte significativa de sua capacidade de formar consciências.
E essa
constatação conduz a uma pergunta inquietante: o quarto poder tornou-se mais
forte... ou os demais pilares da vida social tornaram-se mais fracos?
Na minha
percepção, essa é a questão central. Não foi apenas a imprensa que ganhou
importância. Foi a erosão gradual de diversas instituições que fez com que ela
assumisse um protagonismo que, originalmente, nunca lhe pertenceu. É justamente
nesse deslocamento que reside um dos fenômenos sociais mais marcantes do nosso
tempo.

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