O MENINO, A MENINA
E A GANGORRA QUE MOVE O CLIMA DO
PLANETA
por
Heitor Jorge Lau
Você sabia que o mar não tem o mesmo
nível em todo o Pacífico? Por mais incrível que pareça, os ventos que sopram
sem parar sobre a linha do Equador empurram tanta água para o oeste que o nível
do mar na Indonésia fica cerca de meio metro acima do Equador. Essa diferença é
a situação normal do oceano. E é justamente quando esse equilíbrio se desfaz
que nasce um dos fenômenos mais famosos do clima, cuja história começa com
pescadores olhando para o mar.
Muito antes de existirem satélites,
boias e modelos de computador, os pescadores da costa norte do Peru perceberam
um padrão curioso. Perto do Natal, o mar ficava mais quente do que o normal e
os peixes, que davam sustento a suas famílias, ficavam mais escassos. Como o
fenômeno coincidia com a data do nascimento de Jesus, eles o batizaram de
"El Niño", que em espanhol significa "o menino". Um nome
carinhoso para algo que, mais tarde, a ciência descobriria ser muito maior do
que parecia.
Por muito tempo, o termo designava
apenas essa corrente de água quente que aparecia todo fim de ano junto à costa
peruana. Os registros indicam que, em 1892, o geógrafo Camilo Carrillo
apresentou em Lima um trabalho que citava o nome usado pelos marinheiros da
região, e foi assim que a expressão entrou no vocabulário científico. Com o
tempo, ela passou a nomear algo mais raro e intenso: os anos em que o
aquecimento do oceano ia muito além do normal e trazia consequências
dramáticas.
Para entender o que acontece,
imagine o Pacífico como uma grande bacia de água. Os ventos alísios sopram de
leste a oeste e empurram a água quente da superfície em direção à Ásia e à
Austrália, como um sopro que a acumula num dos lados da bacia. No lado oposto,
perto da América do Sul, a água que sai é substituída por água fria vinda das
profundezas, rica em nutrientes, num movimento chamado ressurgência. É essa
água fria que alimenta o plâncton e os peixes que os pescadores conhecem tão
bem.
No El Niño, essa engrenagem falha.
Os ventos alísios enfraquecem e o sopro que mantinha a água de um lado da bacia
diminui. A água acumulada no oeste desliza de volta para o centro e o leste do
Pacífico, e o nível do mar sobe de um lado e baixa do outro. A água fria das
profundezas sobe menos, a superfície esquenta e os cardumes diminuem. O ar
acima dessa mancha quente também muda, e isso aciona um ciclo: o mar aquecido
enfraquece ainda mais os ventos, e os ventos fracos deixam o mar ainda mais
quente.
É aí que está a virada na
compreensão do fenômeno. Ele não é apenas "o vento que enfraquece"
nem apenas "o mar que esquenta". É uma conversa constante entre o
oceano e a atmosfera, em que um influencia o outro. Nas primeiras décadas do
século XX, o meteorologista Gilbert Walker percebeu que a pressão do ar
oscilava entre lados opostos do Pacífico. Décadas depois, Jacob Bjerknes uniu
as peças e mostrou que oceano e ar formavam um único sistema. Por isso, hoje os
cientistas falam em El Niño-Oscilação Sul, ou simplesmente ENOS.
Mas essa história tem uma segunda
personagem. Ao contrário do que muita gente imagina, a La Niña, "a
menina", não é um fenômeno novo: ela sempre fez parte do mesmo sistema, e
só ganhou mais espaço no noticiário nos últimos tempos. Seu nome surgiu por ela
ser o oposto do menino, e a ciência também a chama de episódio frio. Chamá-la
de "anti-El Niño" soaria estranho, já que o menino do nome é o menino
Jesus. Nas décadas passadas houve até quem a chamasse de El Viejo, “o velho”,
para completar o par.
Na La Niña, a bacia do Pacífico faz
o caminho contrário do El Niño. Os ventos alísios ficam mais fortes que o
normal e empurram ainda mais água quente para o oeste, o que aumenta o desnível
entre os dois lados do oceano. No leste, perto do Peru e do Equador, a
ressurgência se intensifica, a água fria sobe em maior quantidade e o mar
esfria. É uma situação curiosa: enquanto o El Niño costuma prejudicar a pesca
na região, a La Niña tende a favorecê-la, porque traz mais nutrientes para a
superfície. Então El Niño e La Niña são uma gangorra: quando um lado sobe, o
outro desce, e o clima do planeta balança junto.
As consequências dessa gangorra
chegam muito longe, mas não são simplesmente opostas. Como o aquecimento ou o
resfriamento do Pacífico altera a circulação do ar em escala planetária,
algumas regiões recebem chuvas acima do normal e outras enfrentam secas. No
Brasil, o El Niño costuma trazer mais chuva ao Sul e menos ao Norte e ao
Nordeste, enquanto a La Niña tende a intensificar as chuvas em partes do Norte
e do Nordeste. Os efeitos variam de um episódio para outro, e por isso
instituições como a NOAA, nos Estados Unidos, e o INPE, no Brasil, acompanham o
Pacífico de perto.
E o El Niño é tão poderoso que até a
rotação da Terra sente. Como os ventos da atmosfera se aceleram durante o
fenômeno, o planeta gira um pouco mais devagar para conservar a energia de
rotação do conjunto, e o dia fica menos de um milésimo de segundo mais longo. É
imperceptível para nós, mas os instrumentos mais sensíveis detectam essa
diferença. Quando o El Niño se dissipa, a atmosfera desacelera, a Terra volta a
girar mais rápido e tudo retorna ao normal.
É por isso que o El Niño e a La Niña
devem ser acompanhados de perto: entender o que acontece no Pacífico ajuda a se
preparar para chuvas, secas e outros impactos que afetam a vida de milhões de
pessoas. E tudo isso começou quando alguém olhou para o mar com atenção.
Quantas outras descobertas ainda estão esperando alguém que simplesmente
observe?

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