terça-feira, 29 de setembro de 2026

O MENINO, A MENINA E A GANGORRA QUE MOVE O CLIMA DO PLANETA

O MENINO, A MENINA

E A GANGORRA QUE MOVE O CLIMA DO PLANETA

por Heitor Jorge Lau

            Você sabia que o mar não tem o mesmo nível em todo o Pacífico? Por mais incrível que pareça, os ventos que sopram sem parar sobre a linha do Equador empurram tanta água para o oeste que o nível do mar na Indonésia fica cerca de meio metro acima do Equador. Essa diferença é a situação normal do oceano. E é justamente quando esse equilíbrio se desfaz que nasce um dos fenômenos mais famosos do clima, cuja história começa com pescadores olhando para o mar.

            Muito antes de existirem satélites, boias e modelos de computador, os pescadores da costa norte do Peru perceberam um padrão curioso. Perto do Natal, o mar ficava mais quente do que o normal e os peixes, que davam sustento a suas famílias, ficavam mais escassos. Como o fenômeno coincidia com a data do nascimento de Jesus, eles o batizaram de "El Niño", que em espanhol significa "o menino". Um nome carinhoso para algo que, mais tarde, a ciência descobriria ser muito maior do que parecia.

            Por muito tempo, o termo designava apenas essa corrente de água quente que aparecia todo fim de ano junto à costa peruana. Os registros indicam que, em 1892, o geógrafo Camilo Carrillo apresentou em Lima um trabalho que citava o nome usado pelos marinheiros da região, e foi assim que a expressão entrou no vocabulário científico. Com o tempo, ela passou a nomear algo mais raro e intenso: os anos em que o aquecimento do oceano ia muito além do normal e trazia consequências dramáticas.

            Para entender o que acontece, imagine o Pacífico como uma grande bacia de água. Os ventos alísios sopram de leste a oeste e empurram a água quente da superfície em direção à Ásia e à Austrália, como um sopro que a acumula num dos lados da bacia. No lado oposto, perto da América do Sul, a água que sai é substituída por água fria vinda das profundezas, rica em nutrientes, num movimento chamado ressurgência. É essa água fria que alimenta o plâncton e os peixes que os pescadores conhecem tão bem.

            No El Niño, essa engrenagem falha. Os ventos alísios enfraquecem e o sopro que mantinha a água de um lado da bacia diminui. A água acumulada no oeste desliza de volta para o centro e o leste do Pacífico, e o nível do mar sobe de um lado e baixa do outro. A água fria das profundezas sobe menos, a superfície esquenta e os cardumes diminuem. O ar acima dessa mancha quente também muda, e isso aciona um ciclo: o mar aquecido enfraquece ainda mais os ventos, e os ventos fracos deixam o mar ainda mais quente.

            É aí que está a virada na compreensão do fenômeno. Ele não é apenas "o vento que enfraquece" nem apenas "o mar que esquenta". É uma conversa constante entre o oceano e a atmosfera, em que um influencia o outro. Nas primeiras décadas do século XX, o meteorologista Gilbert Walker percebeu que a pressão do ar oscilava entre lados opostos do Pacífico. Décadas depois, Jacob Bjerknes uniu as peças e mostrou que oceano e ar formavam um único sistema. Por isso, hoje os cientistas falam em El Niño-Oscilação Sul, ou simplesmente ENOS.

            Mas essa história tem uma segunda personagem. Ao contrário do que muita gente imagina, a La Niña, "a menina", não é um fenômeno novo: ela sempre fez parte do mesmo sistema, e só ganhou mais espaço no noticiário nos últimos tempos. Seu nome surgiu por ela ser o oposto do menino, e a ciência também a chama de episódio frio. Chamá-la de "anti-El Niño" soaria estranho, já que o menino do nome é o menino Jesus. Nas décadas passadas houve até quem a chamasse de El Viejo, “o velho”, para completar o par.

            Na La Niña, a bacia do Pacífico faz o caminho contrário do El Niño. Os ventos alísios ficam mais fortes que o normal e empurram ainda mais água quente para o oeste, o que aumenta o desnível entre os dois lados do oceano. No leste, perto do Peru e do Equador, a ressurgência se intensifica, a água fria sobe em maior quantidade e o mar esfria. É uma situação curiosa: enquanto o El Niño costuma prejudicar a pesca na região, a La Niña tende a favorecê-la, porque traz mais nutrientes para a superfície. Então El Niño e La Niña são uma gangorra: quando um lado sobe, o outro desce, e o clima do planeta balança junto.

            As consequências dessa gangorra chegam muito longe, mas não são simplesmente opostas. Como o aquecimento ou o resfriamento do Pacífico altera a circulação do ar em escala planetária, algumas regiões recebem chuvas acima do normal e outras enfrentam secas. No Brasil, o El Niño costuma trazer mais chuva ao Sul e menos ao Norte e ao Nordeste, enquanto a La Niña tende a intensificar as chuvas em partes do Norte e do Nordeste. Os efeitos variam de um episódio para outro, e por isso instituições como a NOAA, nos Estados Unidos, e o INPE, no Brasil, acompanham o Pacífico de perto.

            E o El Niño é tão poderoso que até a rotação da Terra sente. Como os ventos da atmosfera se aceleram durante o fenômeno, o planeta gira um pouco mais devagar para conservar a energia de rotação do conjunto, e o dia fica menos de um milésimo de segundo mais longo. É imperceptível para nós, mas os instrumentos mais sensíveis detectam essa diferença. Quando o El Niño se dissipa, a atmosfera desacelera, a Terra volta a girar mais rápido e tudo retorna ao normal.

            É por isso que o El Niño e a La Niña devem ser acompanhados de perto: entender o que acontece no Pacífico ajuda a se preparar para chuvas, secas e outros impactos que afetam a vida de milhões de pessoas. E tudo isso começou quando alguém olhou para o mar com atenção. Quantas outras descobertas ainda estão esperando alguém que simplesmente observe?         

 

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