quinta-feira, 15 de outubro de 2026

SOBRE HEREDITARIEDADE

O GENE E A PERGUNTA QUE ELE NOS FAZ:

ATÉ ONDE SOMOS O QUE ESTÁ ESCRITO EM NÓS?

por Heitor Jorge Lau

            Quase todo mundo já ouviu alguém dizer "puxou ao pai" ou "tem o gênio da avó". Frases assim mostram que, desde sempre, as pessoas perceberam que algo passa de uma geração para a outra, mas ninguém sabia o quê, nem como. É essa curiosidade antiga que o médico e pesquisador Siddhartha Mukherjee transforma em história no livro "O Gene: uma história íntima". Ele conta como a humanidade passou de simples palpites sobre a hereditariedade a ler, e hoje até a reescrever, o código que está dentro de cada uma de nossas células. Mas o livro não é apenas ciência. Mukherjee mistura essa trajetória com a da própria família, em que vários parentes sofreram de doenças mentais graves, como esquizofrenia e transtorno bipolar. Essa sombra o acompanha e o leva a uma dúvida que também pode ser nossa: quanto do nosso destino já vem pronto de “fábrica”?

            A história começa no século XIX, com um monge chamado Gregor Mendel, que passou anos cultivando ervilhas no jardim de um mosteiro. Cruzando plantas de sementes lisas e rugosas, de flores brancas e roxas, ele percebeu que as características não se misturavam como tinta. Elas passavam de pai para filho em pequenas unidades separadas, que depois ganhariam o nome de genes. O mais curioso é que ninguém deu importância ao trabalho dele. Mendel morreu sem reconhecimento, e suas ideias ficaram esquecidas por décadas. Enquanto isso, Charles Darwin propunha a evolução das espécies sem conseguir explicar como as características eram transmitidas de uma geração para a outra. A resposta já existia, mas estava guardada numa publicação que quase ninguém leu. Só no início do século XX o mundo redescobriu Mendel e percebeu que ele tinha entregado a peça que faltava no quebra-cabeça da vida.

            Quando a genética ganhou força, veio também um dos capítulos mais tristes da história. Se era possível entender a hereditariedade, algumas pessoas pensaram que seria possível "melhorar" a humanidade, escolhendo quem deveria ter filhos e quem não deveria. Essa ideia se chamou eugenia e foi defendida em vários países, inclusive por pessoas respeitadas na época. Nos Estados Unidos, milhares de pessoas foram esterilizadas à força, só por serem pobres, terem alguma deficiência ou serem consideradas "inadequadas". Um dos casos mais conhecidos é o da jovem Carrie Buck, que teve a esterilização aprovada pela Justiça. Na Alemanha nazista, essa lógica foi levada ao extremo e terminou no extermínio de milhões de pessoas. Mukherjee faz questão de lembrar esse episódio porque ele mostra o perigo de usar a ciência da herança para decidir quem merece existir e quem não merece.

            Passado esse período sombrio, os cientistas começaram a perguntar do que, afinal, os genes são feitos. Durante um tempo, muita gente achava que a herança estava guardada nas proteínas. Depois, experimentos cuidadosos mostraram que o verdadeiro material hereditário era o DNA. Em 1953, James Watson e Francis Crick apresentaram ao mundo a famosa forma de dupla hélice, uma espécie de escada em espiral. Eles contaram com dados importantes obtidos pela cientista Rosalind Franklin, cujo papel só foi reconhecido de forma mais justa com o passar do tempo. A partir dali tudo mudou de velocidade. Os pesquisadores decifraram como o DNA funciona como uma receita, escrita com apenas quatro letras, que ensina a célula a fabricar proteínas. Descobriram também que os genes são ligados e desligados conforme a necessidade, o que explica por que uma célula do coração é diferente de uma célula do cérebro, mesmo tendo o mesmo DNA.

            Com o avanço das técnicas, os cientistas aprenderam não só a ler o DNA, mas a cortá-lo, emendá-lo e passá-lo de um organismo para outro. Era uma ferramenta poderosa, capaz de produzir remédios, como a insulina feita por bactérias, mas também capaz de assustar. Em 1975, pesquisadores do mundo inteiro se reuniram numa cidade da Califórnia, chamada Asilomar, para discutir os riscos do que estavam criando. Foi um momento raro na história, em que cientistas propuseram limites para o próprio trabalho antes que algo desse errado. Pouco depois veio o grande projeto de ler o genoma humano inteiro, o conjunto completo das nossas instruções genéticas. Foi uma corrida entre um grupo de instituições públicas e uma empresa privada, e ela terminou, no início dos anos 2000, com o primeiro mapa da nossa espécie. A comemoração foi enorme, e a expectativa, ainda maior.

            Mas o mapa trouxe uma surpresa. Muita gente imaginava que, com o genoma na mão, saberíamos explicar tudo sobre as doenças e sobre as pessoas. Não foi isso que aconteceu. Algumas doenças, como a de Huntington (doença hereditária e degenerativa do cérebro), dependem de um único gene defeituoso, e nesses casos a ligação é direta. Mas a grande maioria das características humanas, da altura à propensão para certas doenças, depende de muitos genes trabalhando juntos, além do ambiente em que a pessoa vive, das experiências que tem e até do puro acaso. Mukherjee mostra que os genes não funcionam como uma sentença definitiva, e sim como um conjunto de probabilidades. Ter uma predisposição não significa que a doença virá, assim como não ter não significa que ela nunca virá. Entender isso é importante para não cairmos na ideia simplista de que somos apenas o que o nosso DNA diz.

            O livro também trata de temas delicados, como inteligência, identidade, sexualidade e raça. Nessas áreas, é comum que a ciência seja mal interpretada ou usada para reforçar preconceitos que já existiam. O autor lembra que as diferenças entre grupos humanos são muito menores do que as diferenças que existem entre indivíduos dentro de um mesmo grupo, e que a ideia de "raças" biológicas bem definidas não se sustenta nos dados. Ele mostra, ainda, o lado difícil da tentativa de corrigir genes defeituosos em pessoas doentes, a chamada terapia gênica. Houve avanços importantes, mas também fracassos dolorosos, como a morte de um jovem chamado Jesse Gelsinger, durante um teste, em 1999. Esse caso serviu de alerta de que a medicina, por mais bem-intencionada que seja, precisa avançar com cuidado, transparência e respeito pelas pessoas que se voluntariam para a pesquisa.

         Nos capítulos finais, o autor chega ao presente e ao futuro. Hoje já é possível investigar o DNA de um bebê antes mesmo do nascimento e identificar certas doenças. Também já existem ferramentas, como a famosa CRISPR, que funcionam como uma tesoura molecular capaz de editar o código da vida com enorme precisão. Isso abre a porta para curar doenças graves, mas abre também uma pergunta desconfortável: quem vai decidir o que é doença, o que é normal e o que é apenas um "aprimoramento"? Será que um dia pais poderão escolher a altura, a cor dos olhos ou a inteligência dos filhos? Mukherjee não entrega uma resposta pronta. Ele defende que os genes moldam o que somos, mas não decidem tudo, e que a liberdade de mexer na hereditariedade exige humildade, regras claras e boa memória do que a eugenia já provocou.

            Portanto, a grande lição do livro é que conhecer o gene não significa dominar a vida. Quanto mais aprendemos sobre a nossa herança biológica, mais percebemos que somos resultado de uma combinação complexa entre genes, ambiente, história e acaso. Ao mesmo tempo, o poder de ler e alterar o código humano cresce a cada ano, e com ele cresce também a nossa responsabilidade. Não se trata apenas de uma discussão para cientistas em laboratórios, mas de um debate que envolve todos nós, porque diz respeito ao futuro da nossa espécie. Mukherjee nos convida a olhar para essa história com curiosidade, mas também com cuidado, lembrando que a pergunta mais importante não é o que a ciência consegue fazer com os genes, e sim o que nós, como sociedade, decidimos que vale a pena fazer.

 

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