"O
SENHOR ACHA QUE SABE TUDO?"
A RESPOSTA HONESTA
É: QUASE NADA
por Heitor Jorge Lau
Numa certa
noite, durante uma palestra que eu ministrava para acadêmicos de um curso
superior, uma aluna me interrompeu com uma pergunta em tom provocativo. Ela
claramente não estava gostando da minha fala. Perguntou: "O senhor acha
que sabe tudo?" Respondi: "Eu praticamente sei quase nada."
Pode
parecer modéstia, ou até uma resposta para encerrar a discussão. Não era! Era
uma constatação, e hoje a ciência ajuda a mostrar o quanto ela é verdadeira,
para mim, para você e para qualquer ser humano que já passou por este planeta.
Para
entender o tamanho dessa conta, precisamos de uma régua. Os computadores medem
informação em bytes, e dá para imaginar essas medidas como uma grande
biblioteca. Um byte é uma única letra de um texto. Mil letras, mais ou menos
uma página, formam um kilobyte. Mil páginas, o equivalente a um livro inteiro,
formam um megabyte. Mil livros, o acervo de uma boa biblioteca de escola,
formam um gigabyte. Mil gigabytes, ou um milhão de livros, formam um terabyte,
o tamanho de uma grande biblioteca pública. E mil dessas grandes bibliotecas
formam um petabyte.
Agora vem o
salto. Mil petabytes formam um exabyte, e mil exabytes formam um zettabyte. Ou
seja, um zettabyte equivale a um milhão de petabytes, algo como um bilhão de
grandes bibliotecas. É uma quantidade tão grande que o nosso cérebro,
acostumado a contar o que cabe numa mesa ou numa estante, simplesmente não
consegue imaginar.
Agora, os
números. Os pesquisadores ainda discutem quanto o cérebro humano consegue
armazenar. Algumas estimativas falam em capacidade teórica de 1 a 2,5
petabytes: seria como carregar dentro da cabeça mil ou duas mil e quinhentas
dessas bibliotecas gigantes. Já estudos de psicologia que medem o que uma
pessoa realmente retém ao longo da vida chegam a valores muito menores, algo
como a informação de algumas centenas de livros. A diferença está entre o que o
cérebro poderia guardar e o que ele de fato guarda.
Agora olhe
para o outro lado da balança. A humanidade já produziu algumas centenas de
zettabytes de dados, e a conta cresce a cada dia. Em bibliotecas, seriam
centenas de bilhões. Mesmo na hipótese mais generosa, aquela em que o cérebro
estivesse completamente cheio, tudo o que um ser humano consegue saber
representa cerca de 0,0000005% de tudo o que existe, ou menos. É como levar
algumas gotas d'água até uma piscina enorme e dizer que conhece a piscina.
E tem mais
um detalhe: nem tudo o que guardamos está guardado direito. A memória não
funciona como um arquivo de computador. Ela é reconstruída a cada vez que a
acessamos, e por isso muda, se mistura e, às vezes, falha. Guardamos o que tem
emoção, repetição ou utilidade, e o resto se perde pelo caminho. Esquecer,
afinal, faz parte do funcionamento normal do cérebro.
Isso me faz
lembrar de uma frase atribuída a Sócrates: "Só sei que nada sei." Ele
não estava dizendo que era ignorante. Estava dizendo que quem enxerga o tamanho
do que não sabe fica livre para continuar aprendendo. Quem acha que já sabe
tudo para de perguntar, e quem para de perguntar para de crescer (para não
dizer outra coisa).
Talvez seja
por isso que o conhecimento de verdade não se mede em quantidade. O que faz
diferença é a qualidade das conexões que fazemos entre as poucas coisas que
sabemos: a capacidade de comparar, duvidar, ligar um assunto a outro e mudar de
ideia quando aparecem bons argumentos. É daí que nascem a compreensão, o bom
senso e a criatividade. Saber muito importa menos do que saber o que fazer com
o que se sabe.
Aquela
aluna me fez uma pergunta provocativa, e eu agradeço a ela até hoje, porque me
obrigou a dizer em voz alta algo que todos nós deveríamos lembrar com mais
frequência: diante do tamanho do mundo, somos eternos aprendizes, e não há
vergonha nenhuma nisso.
E você,
quanto acha que sabe?

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