ANTES DO RÓTULO,
HAVIA ALGUÉM
Sobre a pessoa, a
profissão e o posicionamento político
por Heitor Jorge Lau
Há uma cena
banal que se repete todos os dias, em conversas de bar, reuniões de trabalho e,
sobretudo, nas redes sociais. Alguém menciona um nome e, antes que a frase
termine, o interlocutor já decidiu quem é aquela pessoa: “ah, é professor”,
“ah, é de direita”, “ah, é daquele partido”. Em poucos segundos, um ser humano
inteiro foi arquivado numa gaveta com etiqueta. A pergunta que merece ser feita
é simples e, justamente por isso, desconfortável: quando falamos de alguém, de
quem estamos realmente falando? Sobre a pessoa, sobre a sua profissão ou do seu
posicionamento político?
A resposta
mais honesta - do ponto de vista filosófico e linguístico - é que um nome
próprio aponta para um indivíduo inteiro, com biografia, afetos, medos,
contradições e uma história que ultrapassa qualquer papel que ele desempenhe.
Quando dizemos “João”, não estamos dizendo “o contador” nem “o eleitor de tal
candidato”. Profissão e convicção política são atributos de alguém, não o
alguém em si. Um médico é uma pessoa que exerce a medicina; um militante é uma
pessoa que abraçou certas ideias. O atributo descreve, mas não esgota. Essa
distinção parece óbvia quando enunciada com calma, e, no entanto, é violada com
uma naturalidade assustadora no dia a dia.
O mecanismo
dessa violação é conhecido. Trata-se da METONÍMIA e da ROTULAGEM:
tomamos a parte pelo todo e deixamos que a categoria fale no lugar do
indivíduo. Expressamos “os médicos pensam assim”, “os professores são todos
iguais”, “os eleitores daquele lado fazem aquilo”, e a pessoa concreta
desaparece atrás do grupo abstrato. Há, é verdade, uma economia cognitiva
nisso, porque o mundo é complexo e o rótulo simplifica. Mas o preço da
simplificação é alto. O rótulo apaga a singularidade, atribui a cada um tudo o
que se associa ao coletivo e transforma o debate de ideias em um confronto de
identidades. Quem é reduzido ao rótulo deixa de ser ouvido pelo que diz e passa
a ser lido pelo que supostamente representa.
Convém,
contudo, separar dois planos. No plano descritivo, mencionar a profissão ou a
posição política de alguém é perfeitamente legítimo quando isso é relevante ao
assunto em questão. Se discutimos uma sentença, é pertinente falar da juíza; se
analisamos um voto no parlamento, é pertinente falar do partido do parlamentar.
O problema nasce no plano valorativo, quando o atributo deixa de ser
informação e vira argumento. “Isso é coisa de empresário”, “só poderia vir de
um professor universitário”: nessas frases, ninguém examina o que foi dito,
apenas desqualifica-se quem disse. É a velha falácia ad hominem, que
avalia o falante em vez da fala. E o caminho inverso é igualmente enganoso, o
argumento de autoridade, em que o atributo serve de escudo: “ele é doutor, logo
está certo”. Nos dois casos, o rótulo ocupa o lugar que deveria pertencer à
razão.
Seria um
erro, porém, concluir que profissão e política são camadas superficiais, que a
pessoa veste e despe como um casaco. Para muita gente, ser professor, militar,
enfermeiro ou militante não é apenas o que faz... é quem é. São escolhas que
moldam rotinas, vínculos, vocabulário e até a forma de enxergar o mundo. Tratar
esses elementos como descartáveis também seria uma injustiça, porque negaria
algo que a própria pessoa considera essencial em sua trajetória. A questão,
portanto, não é negar que tais atributos compõem alguém, e sim reconhecer que
compõem sem esgotar. Uma pessoa pode ser coerente em suas convicções e, ainda
assim, surpreender, mudar de ideia, discordar do próprio grupo e agir de modo
que nenhum rótulo previa. A coerência de um indivíduo é maior e mais
interessante do que a coerência de qualquer categoria.
Há aqui,
ainda, uma dimensão que toca diretamente o problema da interpretação. Quando
lemos ou ouvimos alguém já munidos de um rótulo, aplicamos uma intenção
presumida ao discurso antes mesmo de compreendê-lo. Em vez de interpretar o que
foi dito, projetamos o que esperávamos ouvir. Umberto Eco, ao refletir sobre os
limites da interpretação, lembrava que um texto não pode ser transformado em
qualquer coisa que o leitor deseje, que há um ponto em que a leitura precisa
ser contida por aquilo que o texto efetivamente diz. Com as pessoas ocorre algo
semelhante. O rótulo funciona como uma chave de leitura imposta de fora, uma “sobreinterpretação”
que faz a fala do outro caber, à força, na caixa que já tínhamos preparado.
Ouvimos o que o rótulo prometia, não o que a pessoa disse.
O ambiente
digital agrava esse quadro. As redes sociais premiam a identificação rápida de
lados, recompensam a frase de efeito e punem a nuance. Cada perfil é lido em
segundos, classificado em segundos e, em segundos, aceito ou condenado. Nessa
lógica, quem se apresenta como “fulano, professor, de direita” ou “beltrana,
advogada, de esquerda” oferece, voluntariamente, o crachá com o qual será lido.
Seria isso uma autorização para que o reduzam ao crachá? Penso que não. Quem se
apresenta por um rótulo está dizendo de onde fala, não renunciando ao direito
de ser compreendido além dele. Apresentar-se não é render-se à classificação
alheia.
Existe, por
fim, uma maneira honesta de criticar ideias, instituições e grupos sem atingir
injustamente os indivíduos que os compõem. Ela exige um esforço que o rótulo
dispensa: o de ouvir antes de classificar, perguntar antes de presumir, e de refutar
o argumento e não o argumentador. É mais trabalhoso, sem dúvida, porque obriga
a reconhecer que o outro é complexo tanto quanto nós mesmos. Mas é também o
único caminho para um debate que produza compreensão, e não apenas ruído.
Enfim,
quando nos referimos a uma pessoa, referimo-nos a ela, inteira, com tudo o que
a torna única, inclusive a profissão que exerce e as ideias que defende, mas
sem nunca nos limitarmos a essas marcas. Tratar alguém como pessoa antes de
tratá-lo como representante de uma categoria é um ato de justiça e de
generosidade intelectual. Antes do rótulo, havia alguém. E o maior
desafio é lembrar disso, justamente quando o rótulo é mais conveniente do que a
conversa.

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