CETICISMO E
ATEÍSMO: DÚVIDA NÃO É DESCRENÇA
por Heitor Jorge Lau
No texto
que redigi anteriormente, expliquei o significado de “pessimismo” e “realismo”.
Lembrei-me, então, de outros dois termos de que comumente ouço falar: ceticismo
e ateísmo. Já me perguntaram, inclusive, se eu era ateu. Vamos, pois, às
devidas explicações.
Ceticismo e
ateísmo se confundem porque ambos costumam aparecer juntos na mesma pessoa e
porque o senso comum associa "duvidar" a "não acreditar em
Deus". Mas as duas palavras respondem a perguntas diferentes. O ceticismo
diz respeito a como alguém forma suas convicções, enquanto o ateísmo diz
respeito a uma convicção específica, a de que não há deuses.
A palavra
"cético" vem do grego skeptikós, que significa "aquele
que examina". Na Antiguidade, filósofos como Pirro e, mais tarde, Sexto
Empírico propunham suspender o juízo (a epoché) diante de afirmações que
não podem ser sustentadas por razões suficientes. Em sua forma mais radical,
isso valia para quase tudo. Na versão moderna, mais comum, o ceticismo virou
uma atitude de exigir evidências proporcionais à força da afirmação, aplicada a
qualquer assunto: medicina alternativa, horóscopo, notícias, promessas de
investimento, teorias da conspiração. Nesse sentido, o cético é alguém que
pergunta "como você sabe disso?" antes de concordar.
"Epoché"
é uma palavra grega que significa "suspensão" ou
"contenção". Na filosofia cética, ela designa o ato de não aceitar
nem rejeitar uma afirmação, deixando o juízo em aberto. Quem pratica a epoché
não diz "isso é verdade" nem "isso é falso", mas "por
enquanto não tenho razões suficientes para decidir".
A ideia
aparece em Pirro de Élis, filósofo do século IV a.C., e foi sistematizada
séculos depois por Sexto Empírico, em obras como os Esboços Pirrônicos. O
raciocínio deles partia de uma observação: para quase toda afirmação sobre como
as coisas realmente são, é possível encontrar um argumento contrário de força
semelhante. Os céticos chamavam isso de equipolência, ou seja, razões que se
equilibram como pesos numa balança. Quando as razões a favor e contra se
equivalem, qualquer decisão parece arbitrária, e o caminho mais honesto é
suspender o juízo.
Um exemplo
cotidiano ajuda: imagine duas testemunhas igualmente confiáveis que contam
versões opostas de um acidente. Enquanto não surgir um fato novo, como uma
gravação ou uma perícia, a atitude racional é não bater o martelo. Isso é a epoché
em pequena escala: não é ignorância nem preguiça, mas uma recusa consciente de
concluir além do que as evidências permitem.
Convém
notar que essa suspensão não leva à paralisia nem à afirmação de que nada pode
ser conhecido. Os céticos pirrônicos faziam questão de distinguir sua posição
da de outros filósofos, os da chamada Academia Cética, que declaravam ser
impossível o conhecimento. Para Sexto Empírico, isso já seria uma tese
dogmática, só que negativa. O cético de verdade continua investigando, e é por
isso que o nome vem de "aquele que examina". Na vida prática, ele segue
as aparências, os costumes e as necessidades do dia a dia: o mel lhe parece
doce, ele come quando tem fome e respeita as leis da cidade. O que ele evita é
afirmar, com certeza metafísica, como as coisas são em si mesmas.
Havia
também um objetivo de fundo. Os pirrônicos observaram que a ansiedade de quem
briga para ter certezas, e sofre quando elas são contestadas, costuma
desaparecer em quem suspende o juízo. Eles chamavam esse estado de Ataraxia,
a tranquilidade do espírito. A suspensão, portanto, era vista não só como uma
conclusão intelectual, mas como um caminho para viver com mais serenidade.
No uso
moderno, a ideia sobrevive de forma mais branda. O cético atual não suspende o
juízo sobre tudo, mas o faz de modo provisório diante de afirmações que carecem
de evidência suficiente, e está disposto a revisá-lo quando surgirem dados
novos. A epoché, nesse sentido, é uma pausa antes da conclusão, não uma
recusa permanente de concluir.
O ateísmo,
por sua vez, trata de um único tema. Em sentido amplo, é a ausência de crença
em divindades, e em sentido mais estrito é a afirmação de que elas não existem.
Perceba que o ateu pode chegar a essa posição por vários caminhos, alguns
bastante rigorosos. Existem ateus que examinaram argumentos com muito cuidado,
e há ateus que simplesmente herdaram a descrença da família ou do meio social,
sem jamais terem questionado outras crenças que sustentam, como superstições,
teorias da conspiração ou fé cega em alguma ideologia. Ser ateu não torna
ninguém automaticamente cético.
O inverso
também vale. Existem pessoas religiosas e céticas ao mesmo tempo, porque
aplicam a dúvida metódica à política, à ciência e à imprensa e, ainda assim,
mantêm uma crença religiosa que consideram fora do alcance da prova, como
aquelas que a tratam como questão de fé e não de evidência. Pensadores como
Pascal e Montaigne, cada um à sua maneira, combinaram um olhar muito crítico
sobre a capacidade da razão com uma postura religiosa. Além disso, o próprio
cético rigoroso costuma desconfiar também do ateísmo dogmático, quando este se
apresenta como certeza absoluta, porque a ausência de evidência não é, por si
só, prova de ausência.
Há ainda um
terceiro termo que costuma entrar na confusão, o agnosticismo. Foi cunhado por
Thomas Huxley no século XIX e se refere ao conhecimento, não à crença:
agnóstico é quem entende que não é possível saber se há ou não um deus. Ele é
mais próximo do ceticismo do que o ateísmo, mas ainda assim é uma posição
específica sobre um tema específico, ao passo que o ceticismo é uma postura bem
mais ampla. Aliás, é possível ser ao mesmo tempo ateu e agnóstico, quando se
vive sem crer em deuses, mas se admite que não há como provar a inexistência
deles.
Em resumo,
o ceticismo é um método, uma disposição de examinar antes de aceitar, e o
ateísmo é uma conclusão a respeito de um assunto determinado. Chamar o cético
de ateu é parecido com o equívoco do texto anterior, quando se chama o realista
de pessimista: toma-se a atitude que examina pelo resultado que alguns, e só
alguns, tiram dela.

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