DOENÇA
DE CREUTZFELDT-JAKOB
ENTENDENDO UMA
ENFERMIDADE RARA E SILENCIOSA
por Heitor Jorge Lau
PSICANALISTA
Lito Sousa,
influenciador e especialista em aviação, criador do canal “Aviões e Músicas”.
Falecido aos 59 anos, em 1º de outubro de 2026, por complicações da doença de
Creutzfeldt-Jakob (DCJ), uma condição neurológica rara que compromete o
funcionamento do cérebro. Foram menos de dois meses entre o diagnóstico e a
morte.
A doença de
Creutzfeldt-Jakob, muitas vezes chamada apenas de DCJ, é uma enfermidade que
ataca o cérebro e provoca uma perda muito rápida das capacidades de pensar, lembrar
das coisas e de controlar o próprio corpo. O nome vem dos dois médicos alemães
que a descreveram no início do século passado. Ela é considerada rara porque
aparece em cerca de uma a duas pessoas por milhão a cada ano. Apesar de pouco
frequente, desperta atenção por ser grave e por ter uma origem diferente de
quase todas as outras doenças que conhecemos.
Para
entendê-la, é preciso primeiro saber o que é uma proteína. Proteínas são
pequenas estruturas, invisíveis a olho nu, que o corpo fabrica o tempo todo e
que funcionam como minúsculas peças de trabalho. Algumas ajudam a digerir os
alimentos, outras formam os músculos, outras transportam substâncias pelo
sangue. Cada proteína só funciona direito porque tem um formato específico,
como uma chave que só abre determinada fechadura. Quando o formato muda, a peça
deixa de cumprir seu papel e pode até atrapalhar o trabalho das vizinhas.
No centro
da doença está um tipo especial de proteína, chamada Príon. O mais
curioso é que ela existe normalmente no cérebro de todas as pessoas saudáveis,
e os cientistas ainda discutem qual é exatamente a sua função. O problema
começa quando uma dessas proteínas se “dobra” do jeito errado, adquirindo um
formato anormal. Essa versão defeituosa tem uma característica perigosa: ela
força as proteínas normais ao seu redor a adotarem também o formato errado. É
como uma fila de dominós em que a queda de um derruba o seguinte, e assim a
alteração se espalha aos poucos.
À medida
que as proteínas defeituosas se multiplicam, elas se acumulam dentro do cérebro
e passam a prejudicar os neurônios, que são as células responsáveis por
receber, processar e enviar as mensagens que nos permitem pensar, sentir, falar
e nos movimentar. Os neurônios danificados vão morrendo, e no lugar deles
surgem pequenos buracos. Quando os médicos examinam o tecido cerebral ao
microscópio, ele lembra uma esponja cheia de furos. Por isso a DCJ pertence a
um grupo chamado de Encefalopatias Espongiformes, expressão que significa,
simplesmente, doenças do cérebro com aspecto de esponja.
A doença
pode surgir por três caminhos diferentes. O mais comum, responsável pela grande
maioria dos casos, é o chamado esporádico, em que ela aparece sem motivo
conhecido, como se uma proteína se dobrasse errado por acaso. O segundo caminho
é o hereditário, em que a pessoa nasce com uma alteração em um gene, que é o
trecho do material genético que guarda as instruções para fabricar cada
proteína. Esse defeito passa de pais para filhos e faz o corpo produzir a
proteína já propensa ao erro. O terceiro caminho, bem mais raro, é o adquirido,
quando o contato com tecido cerebral contaminado transmite o problema, como
ocorreu no passado em certos tratamentos médicos antigos e em casos ligados ao
consumo de carne de gado doente, a famosa Doença da Vaca Louca.
Os
primeiros sinais costumam ser confundidos com problemas comuns: esquecimentos,
dificuldade de concentração, mudanças de humor, ansiedade, tristeza profunda ou
alterações de comportamento. Logo depois surgem sintomas mais evidentes, como
falta de coordenação ao andar, problemas de visão, dificuldade para falar e
movimentos bruscos e involuntários, que são pequenos sacolejos nos músculos que
a pessoa não consegue controlar. O quadro avança até a demência, que é a perda
grave da capacidade de raciocinar, de lembrar e de cuidar de si mesmo. Nas
fases finais, a pessoa pode ficar incapaz de se mexer e de se comunicar, embora
em muitos casos a consciência permaneça por bastante tempo.
O que torna
a DCJ especialmente dura é a velocidade. Enquanto outras doenças que afetam a
memória levam muitos anos para progredir, aqui a DCJ costuma se dar em semanas
ou meses, e a maioria dos pacientes falece em cerca de um ano após os primeiros
sintomas, muitas vezes em bem menos tempo. O diagnóstico não é simples, porque
os sintomas lembram os de outras condições. Os médicos combinam a avaliação
clínica com exames de imagem do cérebro, o registro da atividade elétrica
cerebral e a análise do líquido que envolve a medula, em busca de sinais da
proteína alterada. A confirmação absoluta só vem com o exame do tecido do
cérebro.
Até hoje
não existe cura nem tratamento capaz de interromper ou reverter a doença. O
cuidado se concentra nos chamados cuidados paliativos, que são aqueles voltados
a aliviar o sofrimento, controlar os sintomas e dar conforto ao paciente e à
família, sem a pretensão de curar. Pesquisadores em vários países testam
substâncias experimentais, que são medicamentos ainda em fase de estudo e sem
eficácia comprovada, na esperança de frear o avanço da doença. Os resultados
ainda são incertos, mas cada estudo ajuda a compreender melhor esse mecanismo
tão incomum de adoecimento.
Uma dúvida
frequente é se a doença é contagiosa, e a resposta tranquilizadora é que ela
não se transmite pelo convívio do dia a dia. Abraçar, conversar, dividir a mesa
ou cuidar de um paciente em casa não oferece risco. A transmissão exige contato
direto com tecidos contaminados, o que só ocorre em situações muito
específicas, como certos procedimentos médicos com instrumentos mal
esterilizados, algo que hoje é rigorosamente controlado. Compreender a DCJ
ajuda a diminuir o medo e o preconceito e lembra o quanto ainda há a descobrir
sobre o funcionamento do cérebro humano e sobre os limites da medicina.

Nenhum comentário:
Postar um comentário