quinta-feira, 29 de abril de 2021

A Sombra de Todo Ser Humano

 

                O LADO DA SOMBRA NA VIDA COTIDIANA

                Em 1886, mais de uma década antes de Freud sondar as profundezas da escuridão humana, Robert Louis Stevenson teve um sonho altamente revelador: um homem, perseguido por um crime, engolia um certo pó e passava por uma drástica mudança de caráter, tão drástica que ele se tornava irreconhecível. O amável e laborioso cientista Dr. Jekyll transformava-se no violento e implacável Mr. Hyde, cuja maldade assumia proporções cada vez mais grotescas à medida que o sonho se desenrolava. Stevenson desenvolveu o sonho no seu famoso romance The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde (O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde). Seu tema integrou-se de tal modo na cultura popular que se pensa nele quando alguém diz: "Eu não era eu mesmo", ou "Ele parecia possuído por um demônio", ou "Ela virou uma megera". Como dizia John Sanford (analista junguiano) se uma história como essa toca tão a fundo e soa tão verdadeira, é porque ela contém uma qualidade arquetípica — ela fala de um ponto no ser humano que é universal. Todos contêm um Dr. Jekyll e um Mr. Hyde: uma persona agradável para o uso cotidiano e um eu oculto e noturno) que permanece amordaçado a maior parte do tempo. Emoções e comportamentos negativos — raiva, inveja, vergonha, falsidade, ressentimento, lascívia, cobiça, tendências suicidas e homicidas — ficam escondidos logo abaixo da superfície, mascarados pelo eu mais apropriado às conveniências.

                Em seu conjunto, são conhecidos na psicologia como a Sombra Pessoal, que continua a ser um território indomado e inexplorado para a maioria das pessoas.

                A apresentação da sombra

                A sombra pessoal desenvolve-se naturalmente em todas as crianças. Na medida da identificação com as características ideais de personalidade (tais como polidez e generosidade) que são encorajadas pelo ambiente, acontece a formatação daquilo que W. Brugh Joy chama de: "eu das decisões de Ano Novo". Ao mesmo tempo, vai enterrando na sombra aquelas qualidades que não são adequadas à autoimagem, como a rudeza e o egoísmo. O ego e a sombra, portanto, desenvolvem-se aos pares, criando-se mutuamente a partir da mesma experiência de vida. Carl Jung viu em si mesmo a inseparabilidade do ego e da sombra, num sonho que descreve em sua autobiografia Memories, Dreams, Reflections (Memórias, Sonhos, Reflexões): “Era noite, em algum lugar desconhecido, e eu avançava com muita dificuldade contra uma forte tempestade. Havia um denso nevoeiro. Eu segurava e protegia com as mãos uma pequena luz que ameaçava extinguir-se a qualquer momento. Eu sentia que precisava mantê-la acesa, pois tudo dependia disso. De súbito, tive a sensação de que estava sendo seguido. Olhei para trás e percebi uma gigantesca forma escura seguindo meus passos. Mas no mesmo instante tive consciência, apesar do meu terror, de que eu precisava atravessar a noite e o vento com a minha pequena luz, sem levar em conta perigo algum. Ao acordar, percebi de imediato que havia sonhado com a minha própria sombra, projetada no nevoeiro pela pequena luz que eu carregava. Entendi que essa pequena luz era a minha consciência, a única luz que possuo. Embora infinitamente pequena e frágil em comparação com os poderes das trevas, ela ainda é uma luz, a minha única luz”.

                Muitas forças estão em jogo na formação da sombra e, em última análise, determinam o que pode e o que não pode ser expresso. Pais, irmãos, professores, clérigos e amigos criam um ambiente complexo no qual se aprende aquilo que representa o comportamento gentil, conveniente e moral, e aquilo que é mesquinho, vergonhoso e pecaminoso. A sombra age como um sistema imunológico psíquico, definindo o que é eu e o que é não-eu. Pessoas diferentes, em diferentes famílias e culturas, consideram de modos diversos aquilo que pertence ao ego e aquilo que pertence à sombra. Por exemplo, alguns permitem a expressão da raiva ou da agressividade; a maioria, não. Alguns permitem a sexualidade, a vulnerabilidade ou as emoções fortes; muitos, não. Alguns permitem a ambição financeira, a expressão artística ou o desenvolvimento intelectual; outros, não. Todos os sentimentos e capacidades que são rejeitados pelo ego e na sombra contribuem para o poder oculto do lado escuro da natureza humana. No entanto, nem todos eles são aquilo que se considera traços negativos. De acordo com Liliane FreyRohn (analista junguiana), esse escuro tesouro inclui a porção infantil, os apegos emocionais e sintomas neuróticos bem como os talentos e dons não-desenvolvidos. A sombra, diz ela, "mantém contato com as profundezas perdidas da alma, com a vida e a vitalidade — o superior, o universalmente humano, sim, mesmo o criativo pode ser percebido ali".

                A rejeição da sombra

                Não se pode olhar diretamente para esse domínio oculto. A sombra é, por natureza, difícil de ser apreendida. Ela é perigosa, desordenada e eternamente oculta, como se a luz da consciência pudesse roubar-lhe a vida. James Hillman (analista junguiano), autor de diversas obras, diz: "O inconsciente não pode ser consciente; a Lua tem seu lado escuro, o Sol se põe e não pode iluminar o mundo todo ao mesmo tempo [...]. A atenção e o foco exigem que algumas coisas fiquem fora do campo visual, permaneçam no escuro. Não se pode olhar em duas direções ao mesmo tempo". Por essa razão, a sombra geralmente é percebida indiretamente, nos traços e ações desagradáveis das outras pessoas, lá fora, onde é mais seguro observá-la. Reações intensas a uma qualidade qualquer (preguiça, estupidez, sensualidade, espiritualidade, etc.) de uma pessoa ou grupo, e a pessoas se “enche” de grande aversão ou admiração — essa reação talvez seja a própria sombra se revelando. O ser humano se projeta ao atribuir essa qualidade à outra pessoa, num esforço inconsciente de bani-la de si mesmo, de evitar vê-la dentro de si.

                Marie-Louise von Franz (analista junguiana) sugere que essa projeção é como disparar uma flecha mágica. Se o destinatário tem um "ponto fraco" onde receber a projeção, então ela se mantém, se projetada a raiva sobre um companheiro insatisfeito, ou o poder de sedução sobre um atraente estranho, ou os atributos espirituais sobre um guru, então o alvo é atingido e a projeção se mantém. Daí em diante, emissor e receptor estarão unidos numa misteriosa aliança, como apaixonar-se ou encontrar o herói (ou vilão) perfeito. A sombra pessoal contém, portanto, todos os tipos de potencialidades não desenvolvidas e não-expressas. Ela é aquela parte do inconsciente que complementa o ego e representa as características que a personalidade consciente se recusa a admitir e, portanto, negligencia, esquece e enterra até redescobri-las em confrontos desagradáveis com os outros.

                O encontro com a sombra

                Embora não se possa fitá-la diretamente, a sombra surge na vida diária. Por exemplo, ela se encontra em tiradas humorísticas (tais como piadas sujas ou brincadeiras tolas) que expressam as emoções ocultas, inferiores ou temidas. Analisando de perto aquilo que é engraçado (como alguém escorregando numa casca de banana ou se referindo a uma parte "proibida" do corpo), se descobre que sombra pessoal está ativa. John Sanford diz que é possível que as pessoas destituídas de senso de humor tenham uma sombra muito reprimida. Em geral, é a sombra que ri das piadas. Molly Tuby (psicanalista inglesa) sugere seis outras maneiras pelas quais, mesmo sem saber, a sombra pode ser encontrada no dia-a-dia:

         Nos sentimentos exagerados em relação aos outros ("Eu simplesmente não acredito que ele tenha feito isso!", "Não consigo entender como ela é capaz de usar uma roupa dessas!")

         Na opinião negativa que se recebe daqueles que servem de espelhos ("Já é a terceira vez que você chega tarde sem me avisar.")

         Nas interações em que continuamente se exerce o mesmo efeito perturbador sobre diversas pessoas diferentes ("Eu e o Sam achamos que você não está sendo honesto com a gente.")

         Nos nossos atos impulsivos e não-intencionais ("Puxa, desculpe, eu não quis dizer isso!")

         Nas situações de humilhação ("Estou tão envergonhada com o jeito que ele me trata.")

         Na raiva exagerada em relação aos erros alheios ("Ela simplesmente não consegue fazer seu trabalho em tempo!", "Cara, mas ele perdeu totalmente o controle do peso!")

                Em momentos como esses, de dominação por fortes sentimentos de vergonha ou de raiva, ou quando se descobre que o próprio comportamento é inaceitável, é a sombra que está irrompendo de um modo inesperado. E em geral ela retrocede com igual velocidade; pois encontrar a sombra pode ser uma experiência assustadora e chocante para a autoimagem. Por essa razão, é possível mudar rapidamente para a negação, deixando de prestar atenção a fantasias homicidas, a pensamentos suicidas ou a embaraçosos sentimentos de inveja, que revelariam um pouco da própria escuridão. R. D. Laing (psiquiatra já falecido) descreve de modo poético o reflexo de negação da mente: “O alcance do que pensamos e fazemos é limitado pelo que deixamos de notar. E por deixarmos de notar que deixamos de notar pouco podemos fazer para mudar, até que notemos como o deixar de notar forma nossos pensamentos e ações”. Se a negação permanecer, então, como diz Laing, talvez nem sequer é notado que foi deixado de notar. Por exemplo, é comum encontrar a sombra na meia-idade, quando mais profundas necessidades e valores tendem a mudar de direção. Isso exige a quebra de velhos hábitos e o cultivo de talentos adormecidos. Ao não parar para ouvir atentamente o chamado e continuar a se mover na mesma direção anterior, se permanece inconsciente daquilo que a meia-idade tem a ensinar.

                A depressão também pode representar uma confrontação paralisante com o lado escuro, um equivalente moderno da "noite escura da alma" do místico. A exigência interior para que se desça ao mundo subterrâneo pode ser suplantada por considerações de ordem externa (como a necessidade de trabalhar por longas horas), pela interferência dos outros ou por drogas antidepressivas que amortecem a sensação de desespero. Nesse caso, se deixa de apreender o propósito da melancolia. Encontrar a sombra pede uma desaceleração do ritmo da vida, pede que se ouça as indicações do próprio corpo e que conceda tempo para estar a sós, a fim de poder digerir as mensagens misteriosas do mundo oculto.

                A sombra coletiva

                Hoje em dia, todos se defrontam com o lado escuro da natureza humana ao abrir um jornal ou ouvir o noticiário. Os efeitos mais repulsivos da sombra tornam-se visíveis na esmagadora mensagem diária dos meios de comunicação, transmitida em massa para toda a moderna aldeia global eletrônica. O mundo tornou-se um palco para a sombra coletiva. A sombra coletiva — a maldade humana — encara de praticamente todas as partes: ela salta das manchetes dos jornais; vagueia pelas ruas e, sem lar, dorme no vão das portas; entoca-se nas chamativas sexshops das cidades; desvia o dinheiro do sistema de financiamento habitacional; corrompe os políticos famintos de poder e perverte o sistema judiciário; conduz exércitos invasores através de densas florestas e áridos desertos; vende armamentos a líderes ensandecidos e repassa os lucros a insurgentes reacionários; por canos ocultos, despeja a poluição nos rios e oceanos; com invisíveis pesticidas, envenena o alimento.

                Essas observações não constituem algum novo fundamentalismo a martelar uma versão bíblica da realidade. A época atual fez, de todos, testemunhas forçadas. O mundo todo observa. Não há como evitar o assustador espectro de sombras satânicas mostrado por políticos coniventes, os colarinhos-brancos criminosos e terroristas fanáticos. O anseio interior por integração — agora tornado manifesto na máquina de comunicação global — força todos a enfrentar a conflitante hipocrisia que hoje está em toda parte. Enquanto a maioria das pessoas e grupos vive o lado socialmente aceitável da vida, outras parecem viver as porções socialmente rejeitadas pela vida. Quando essas últimas se tomam objeto de projeções grupais negativas, a sombra coletiva toma a forma de racismo, de busca de "bode expiatório" ou de criação do "inimigo". Para os americanos anticomunistas, a U.R.S.S. era o Império do Mal. Para os muçulmanos, os Estados Unidos são o Grande Satã. Para os nazistas, os judeus são vermes bolcheviques. Para o monge asceta cristão, as bruxas têm parte com o diabo. Para os sul-africanos defensores do Apartheid e os americanos da Ku Klux Klan, os negros são subumanos e não merecem ter os direitos e privilégios dos brancos. O poder hipnótico e a natureza contagiosa dessas fortes emoções ficam evidentes na extensão e universalidade das perseguições raciais, das guerras religiosas e das táticas de busca de bodes expiatórios. E, é assim que os seres humanos tentam desumanizar outros, num esforço para assegurar que eles são superiores — e que matar o inimigo não significa matar seres humanos iguais a eles.

                Ao longo da história, a sombra tem surgido (através da imaginação humana) como um monstro, um dragão, um Frankenstein, uma baleia branca, um extraterrestre ou um homem tão vil que não se pode nos espelhar nele — ele está tão distante quanto uma Górgona (criatura da mitologia grega). Revelar o lado escuro da natureza humana tem sido, então, um dos propósitos básicos da arte e da literatura. Como disse Nietzsche: "Temos arte para que a realidade não nos mate." Usando as artes e a mídia (aí incluída a propaganda política) para criar imagens tão más ou demoníacas quanto à sombra, se tenta ganhar poder sobre ela, quebrar seu feitiço. Isso pode ajudar a explicar por que o ser humano fica tão excitados com as violentas arengas de arautos da guerra e de fanáticos religiosos. Simultaneamente repelidos e atraídos pela violência e pelo caos do mundo.

                A projeção também pode ajudar a explicar a imensa popularidade dos filmes e romances de terror. Através de uma representação simbólica do lado da sombra, os impulsos para o mal podem ser encorajados, ou talvez aliviados, na segurança do livro ou da tela. As crianças, tipicamente, começam a aprender os assuntos da sombra ao ouvir contos de fada que mostram a guerra entre as forças do bem e do mal, fadas-madrinhas e terríveis demônios. As crianças, como os adultos, também sofrem simbolicamente as provações de seus heróis e heroínas e, assim, aprendem os padrões universais do destino humano. Na batalha da censura que hoje se desenrola no campo da mídia e da música, aqueles que pretendem estrangular a voz da sombra talvez não compreendam sua urgente necessidade de ser ouvida. Num esforço para proteger os jovens, os censores reescrevem Chapeuzinho Vermelho e fazem com que ela não seja mais devorada pelo lobo; mas, desse modo, acabam deixando os jovens despreparados para enfrentar o mal com que irão se defrontar. Como a sociedade, cada família também constrói seus próprios tabus, suas áreas proibidas. A sombra familiar contém tudo o que é rejeitado pela percepção consciente de uma família, aqueles sentimentos e ações que são considerados demasiado ameaçadores à sua autoimagem.

                Numa honrada e conservadora família cristã, a ameaça talvez seja embriagar-se ou desposar alguém de outra religião; numa família liberal e ateia, talvez seja a opção pelos relacionamentos homossexuais. Na sociedade, espancamento da esposa e abuso dos filhos costumavam ficar ocultos na sombra familiar, mas hoje emergem, em proporções epidêmicas, à luz do dia. O lado escuro não é nenhuma conquista evolucionária recente, resultado de civilização e educação. Ele tem suas raízes numa sombra biológica, que se baseia nas próprias células. Os ancestrais animalescos, afinal de contas, sobreviveram graças às presas e às garras. A besta nas pessoas está viva, muito viva — só que a maior parte do tempo encarcerada. Muitos antropólogos e sociobiólogos acreditam que a maldade humana seja resultado do controle da agressividade animal, da opção pela cultura em detrimento da natureza e da perda de contato com a selvageria primitiva. Melvin Konner (médico e antropólogo) conta, em The Tangled Wing, que foi a um zoológico, viu uma placa que dizia "O Animal Mais Perigoso da Terra" e se descobriu olhando para um espelho. Conhece-te a ti mesmo. Em tempos remotos, o ser humano reconhecia as diversas dimensões da sombra: a pessoal, a coletiva, a familiar e a biológica. Nos degraus do templo de Apolo em Delfos — erigido na encosta do Monte Parnaso pelos gregos do período clássico e hoje destruído — os sacerdotes gravaram na pedra duas famosas inscrições, dois preceitos que ainda guardam imensa significação para nos dias de hoje.

                O primeiro deles, "Conhece-te a ti mesmo". Conheça tudo sobre você mesmo, aconselhavam os sacerdotes do deus da luz. É possível dizer: Conheça especialmente o lado escuro de você mesmo. Os seres humanos são descendentes diretos da mente grega. A sombra continua a ser o grande fardo do autoconhecimento, o elemento destrutivo que não quer ser conhecido. Os gregos entenderam muito bem esse problema e sua religião os compensava pelo lado de baixo da vida. Era na mesma encosta da montanha acima de Delfos que os gregos celebravam, todos os anos, as suas famosas bacanais, as orgias que glorificavam a poderosa e criativa presença do deus da natureza, Dioniso, nos seres humanos. Hoje, Dioniso foi aviltado e apenas subsiste nas imagens de Satã, o Diabo de cascos fendidos, personificação do mal. Não mais um deus a ser reverenciado e digno de receber um tributo, ele foi banido para o mundo dos anjos caídos. Marie-Louise von Franz reconhece a relação entre o diabo e a sombra pessoal quando diz: "Na verdade, o princípio da individuação está relacionado com o elemento diabólico na medida em que este último representa a separação do divino dentro da totalidade da natureza. Os aspectos diabólicos são os elementos destrutivos — os afetos, o impulso autônomo de poder e coisas semelhantes. Eles rompem a unidade da personalidade".

                Nada em excesso

                A outra inscrição em Delfos talvez seja mais representativa da época atual. "Nada em excesso", proclama o deus grego do alto de seu santuário terrestre hoje desmoronado. Dodds, estudioso dos clássicos, sugere uma interpretação para essa epígrafe. Só uma pessoa que conhece os excessos, diz ele, poderia viver segundo essa máxima. Só aqueles que conhecem a sua capacidade para a lascívia, a cobiça, a raiva, a glutonaria e todos os excessos — aqueles que compreenderam e aceitaram o seu próprio potencial para extremos inadequados — podem optar por controlar e humanizar suas ações. Atualmente se vive numa época de excessos críticos: gente demais, crime demais, exploração demais, poluição demais, armas demais. Esses são excessos que possíveis de reconhecer e condenar, mesmo que impotentes para fazer algo a respeito. E, afinal, existe algo que se possa fazer a respeito? Para muitas pessoas, as qualidades inaceitáveis do excesso vão diretamente para a sombra inconsciente ou se expressam em comportamentos indistintos. Para alguns, esses extremos tomam a forma de sintomas: sentimentos e ações intensamente negativos, sofrimento neurótico, doenças psicossomáticas, depressão e abuso das próprias forças. Os cenários podem parecer a estes: diante de um sentimento excessivo, ele é lançado na sombra e depois passado para o ato sem nenhuma preocupação pelos outros; diante de um sentimento de fome excessiva, ele é lançado na sombra e depois acontece o “empanturramento”, embriaguez e evacuação, tratando o corpo como lixo; diante de um sentimento de anseio excessivo pelo lado mais elevado da vida, ele é lançado na sombra e depois buscado através de gratificações instantâneas ou de atividades hedonísticas, como abuso de drogas ou de álcool. A lista continua. Na sociedade, é possível ver o crescimento dos excessos da sombra por todos os lados:

                - Num impulso descontrolado para conhecer e dominar a natureza (que se expressa na imoralidade da ciência e na união desregrada entre os negócios e a tecnologia).

                - Numa pretensiosa compulsão de ajudar e curar os outros (que se expressa na distorção e na dependência do papel dos profissionais da área de saúde e na cobiça de médicos e companhias farmacêuticas).

                - No ritmo acelerado e desumanizado do mercado de trabalho (que se expressa na apatia de uma força de trabalho alienada, na obsolescência não-planejada, causada pela automação, e na arrogância do sucesso).

                - Na maximização do crescimento e expansão dos negócios (que se expressa nas aquisições fraudulentas de controle acionário, no enriquecimento ilícito, no uso privilegiado de informações confidenciais e no colapso do sistema de financiamento habitacional).

                - Num hedonismo materialista (que se expressa no consumo exacerbado, na propaganda enganosa, no desperdício e na poluição devastadora).

                - No desejo de controlar a vida íntima, que é incontrolável por sua própria natureza (que se expressa no narcisismo generalizado, na exploração pessoal, na manipulação dos outros e no abuso de mulheres e crianças).

                - E no incessante medo da morte (que se expressa na obsessão com a saúde e a forma física, dietas, medicamentos e longevidade a qualquer preço).

                Esses aspectos da sombra atingem toda a sociedade. No entanto, algumas soluções que foram experimentadas para curar o excesso coletivo podem ser ainda mais perigosas que o problema. Basta considerar, por exemplo, o fascismo e o autoritarismo — horrores que surgiram das tentativas reacionárias de deter a desordem social e a decadência e permissividade generalizadas na Europa. Em tempos mais recentes e como reação a ideias progressistas, o fervor do fundamentalismo religioso e político voltou a despertar nos Estados Unidos e na Europa, encorajando, nas palavras de William B. Yeats (poeta), que a "anarquia seja lançada sobre o mundo". Jung atenuou a questão ao afirmar que: "Ingenuamente, esquecemos que por debaixo do nosso mundo racional jaz um outro enterrado. Não sei o que a humanidade ainda terá de sofrer até que ouse reconhecê-lo." Se não agora, quando?

                A história registra, desde tempos imemoriais, os tormentos causados pela maldade humana. Nações inteiras deixaram-se levar a histerias de massa de proporções devastadoras. Desde o término aparente da Guerra Fria, existem algumas esperançosas exceções. Pela primeira vez, nações inteiras pararam para refletir e tentaram a direção oposta. Relato de jornal da época, que fala por si mesmo (conforme citado por Jerome S. Bernstein em seu livro Power and Politics (O Poder e a Política)): "O governo soviético anuncia a suspensão temporária de todas as provas de História no país." O jornal Philadelphia Inquirer de 11 de junho de 1988 informava: A União Soviética, declarando que os manuais de História ensinaram a gerações de crianças soviéticas mentiras que envenenaram suas "mentes e almas", anunciou ontem o cancelamento dos exames finais de História para mais de 53 milhões de estudantes. Ao anunciar o cancelamento, o jornal oficial Isvestia informou que a extraordinária decisão visava pôr um término à transmissão de mentiras de uma geração para outra, processo esse que consolidou o sistema político e econômico stalinista que a atual liderança pretende encerrar. "A culpa daqueles que iludiram uma geração após outra... é imensurável", declara o jornal num comentário de primeira página. "Hoje estamos colhendo os frutos amargos da nossa própria lassidão moral, estamos pagando por termos sucumbido ao conformismo e, assim, dado nossa aprovação silenciosa a tudo aquilo que hoje nos enche de vergonha e que não sabemos explicar honestamente aos nossos filhos."

                Essa surpreendente confissão de toda uma nação poderia marcar o fim de uma era. De acordo com Sam Keen, autor de Faces of the Enemy (As Faces do Inimigo), "As únicas nações a salvo são aquelas que se vacinam sistematicamente, através de uma imprensa livre e da voz de uma minoria profética, contra a intoxicação de destinos divinos e purificações paranoicas". Hoje o mundo move-se em duas direções aparentemente opostas: alguns fogem dos regimes fanáticos e totalitários; outros enterram-se neles até o pescoço. Talvez as pessoas se sintam impotentes diante de forças tão poderosas. Ou, se pensar no assunto, o que se sente é certamente a consciência culpada diante da cumplicidade involuntária nas dificuldades coletivas. Esse perturbador estado de coisas foi acuradamente expresso por Jung na metade do século: "A voz interior traz à consciência tudo aquilo de que padece o todo — seja a nação à qual pertencemos ou a humanidade da qual fazemos parte. Mas ela apresenta esse mal em uma forma individual, de modo que, no início, era possível supor que todo esse mal é apenas um traço do caráter individua”. A proteção contra a maldade humana que essas forças inconscientes de massa podem representar, dispõe de uma única arma: maior conscientização individual.  Ao deixar de aprender ou agir com base naquilo que se aprende com o drama do comportamento humano, o poder pessoal se perde, enquanto indivíduos, de alterar a si mesmo e, assim, salvar o mundo. Sim, o mal estará sempre presente. Mas as consequências do mal irrefreado não precisam ser toleradas. “Uma grande mudança na atitude psicológica está iminente", disse Jung em 1959. “O único perigo verdadeiro que existe é o próprio homem. Ele é o grande [...]. Nós somos a origem de todo o mal vindouro." O personagem Pogo, do cartunista Walt Kelly, apresentou a questão de maneira bastante simples: "Encontramos o inimigo, e ele somos nós." Hoje se pode dar um renovado significado psicológico à ideia de poder individual. Os limites para a ação de confrontar a sombra estão — como sempre estiveram — no indivíduo.

                A aceitação da sombra

                O objetivo de encontrar a sombra é desenvolver um relacionamento progressivo com ela e expandir o senso do eu alcançando o equilíbrio entre a unilateralidade das atitudes conscientes e as profundezas inconscientes. Tom Robbins (romancista) diz: "O propósito de encontrar a sombra é estar no lugar certo da maneira certa”. Quando se mantém um relacionamento adequado com ele, o inconsciente não é um monstro demoníaco; diz-nos Jung: "Ele só se torna perigoso quando a atenção consciente que lhe dedicamos é desesperadoramente errada." Um relacionamento correto com a sombra oferece um presente valioso: leva ao reencontro das potencialidades enterradas. Através do trabalho com a sombra (expressão para referir ao esforço continuado no sentido de desenvolver um relacionamento criativo com a sombra), é possível:

                - Chegar a uma autoaceitação mais genuína, baseada num conhecimento mais completo do eu;

                - Desativar as emoções negativas que irrompem inesperadamente na vida cotidiana;

                - Eliminar sentimentos de culpa e vergonha associadas aos sentimentos e atos negativos; reconhecer as projeções que matizam as opiniões sobre os outros; curar relacionamentos através de um autoexame mais honesto e de uma comunicação direta;

                - E, usar a imaginação criativa (através de sonhos, desenhos, escrita e rituais) para aceitar o eu reprimido.

                Talvez, também se possa, desse modo, evitar acrescentar a sombra pessoal à densidade da sombra coletiva. Liz Greene (analista junguiana e astróloga britânica) mostra a natureza paradoxal da sombra enquanto receptáculo de escuridão e facho de luz. "O lado sofredor e aleijado da nossa personalidade é aquela sombra escura e imutável, mas também é o redentor que poderá transformar nossa vida e alterar nossos valores. O redentor tem condições de encontrar o tesouro oculto, conquistar a princesa e derrotar o dragão... pois ele está, de algum modo, marcado — ele é anormal. A sombra é, ao mesmo tempo, aquela coisa horrível que precisa de redenção e o sofrido salvador que pode redimi-la”.

 

“Todo homem tem uma sombra e, quanto menos ela se incorporar à sua vida consciente, mais escura e densa ela será. De todo modo, ela forma uma trava inconsciente que frustra nossas melhores intenções”. Jung.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

PUNIÇÃO OU AJUSTE SOCIAL?


Empresário e Mestrando em Educação
Pós-Graduado em Gestão de Recursos Humanos
Bacharel em Comunicação Social – Relações Públicas













    O mês que passou foi brutalmente marcado por nove adolescentes com idades entre 15, 16 e 17 anos. Todos repetentes, cursando 6º e 7º ano. Após a ingestão de bebidas alcoólicas atearam fogo na Escola Municipal La Hire Guerra, de Eldorado do Sul.  Dois prédios foram atingidos e o prejuízo foi estimado em R$ 1 milhão, aproximadamente.  A “pauta” atual é o destino que se deve dar aos jovens e qual o tipo de punição. Por se tratar de cidadãos menores de idade, provavelmente, serão encaminhados para a Fase. A princípio esta fundação tem a missão de gerar oportunidade de estudo e trabalho. A Fase-RS - Fundação de Atendimento Sócio-Educativo do Rio Grande do Sul -, é responsável pela execução das Medidas Sócio-Educativas de Internação e de Semiliberdade, determinadas pelo Poder Judiciário, com vistas aos adolescentes autores de ato infracional. A Fase surgiu no cenário governamental com o propósito de romper com o paradigma correcional-repressivo que orientava a política do bem-estar do menor infrator. Mas, o foco deste breve comentário não é a fundação de atendimento sócio-educativo. É outro!

    Neste triste episódio também surgiram comentários ou discussões populares incitando a redução da maioridade penal. Ao que tudo indica o Brasil, definitivamente, adotou a prática de “apagar incêndios” como única solução para as questões provenientes dos desajustes existentes na sociedade. A ordem é discutir como extinguir o problema ao invés de identificar e prevenir a causa, ou seja, não cortar o mal pela raiz. Prova disto está na discussão do momento que trata da redução da maioridade penal. Ora, o sistema penitenciário do país encontra-se em estado calamitoso com celas impróprias, na maioria dos casos, com superpopulação e sem as mínimas condições de habitação. Outra questão diz respeito à inexistência de programas efetivos e eficientes de reintegração social. O processo atual acaba por devolver o detento ao convívio comunitário em condição psicológica e profissional igual ou pior a que gozava quando ingressou no regime carcerário.

    Estas considerações são suficientes para provocar uma reflexão sobre a seguinte pergunta: é humano, correto e sensato enviar menores infratores para esses “repositórios de seres humanos desafortunados”? A resposta é não. Não é a intenção aliviar ou não responsabilizar adequadamente um infrator. Redigir este comentário é difícil porque só quem passou por uma situação real de brutalidade consegue perceber o sentimento de fragilidade e impotência diante da circunstância. Contudo, somos parte dos problemas e das soluções. Devemos nos envolver, mesmo sob uma ótica teórica. Antes da procurar por soluções impensadas ou provisórias é preciso atender as demandas básicas de dignidade da população como educação de qualidade, saúde humanizada e emprego. Caso contrário a legião de criminosos aumentará exponencialmente e não haverá território suficiente para abrigar tanto delinqüente.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

COPA 2014

Brasil, o país do futebol!
Brasil, o país da maquiagem!
Brasil... o país que muitos não percebem!

Assista o vídeo


quinta-feira, 4 de julho de 2013

O SILÊNCIO PERIGOSO



O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons”.

  Martin Luther King

Heitor Jorge Lau
Empresário e Mestrando em Educação
Pós-Graduado em Gestão de Recursos Humanos
Bacharel em Comunicação Social – Relações Públicas


A FACES DA HISTÓRIA POLÍTICA DO BRASIL NA ÚLTIMA DÉCADA

















Heitor Jorge Lau
Empresário e Mestrando em Educação
Pós-Graduado em Gestão de Recursos Humanos
Bacharel em Comunicação Social – Relações Públicas



Olá brasileiros e brasileiras insatisfeitos e de "saco" cheio do Brasil!

Recebi um texto via e-mail imensuravelmente esclarecedor e infinitamente irritante pelos fatos relatados.
Diante de tudo que li sinto a obrigação de transferi-lo para este blog e torná-lo ainda mais acessível.

O PERIGO É O SILÊNCIO

Diamantina, Interior de Minas Gerais, 1914.

O jovem 'Juscelino Kubitschek', de 12 anos, ganha seu primeiro par de sapatos.
Passou fome. Jurou estudar e ser alguém.
Com inúmeras dificuldades, concluiu o curso de Medicina e se especializou em Paris.
Como Presidente, modernizou o Brasil. Legou um rol impressionante de obras e; humilde e obstinado, era (E AINDA É) querido por todos.


BRASÍLIA 2003

Lula assume a presidência.
Arrogante, se vangloria de não haver estudado.
Acha bobagem falar inglês. 'Tenho diploma da vida', afirma. E para ele basta.
Meses depois, diz que 'ler é um hábito chato'.
Quando era 'sindicalista', percebeu que poderia ganhar sem estudar e sem trabalhar - sua meta até hoje.

LONDRES 1940



Os bombardeios são diários, e uma invasão aeronaval nazista é iminente.
O primeiro-ministro W. Churchill pede ao rei George VI que vá para o Canadá.
Tranqüilo, o rei avisa que não vai.
Churchill insiste: então que, ao menos, vá a rainha com as filhas.
Elas não aceitam e a filha entra no exército britânico; como 'Tenente-Enfermeira', e, sua função é recolher feridos nos bombardeios. Hoje ela é a 'Rainha Elizabeth II'.

BRASÍLIA 2005

A primeira-dama (que nada faz para justificar o título) Marisa Letícia, requer 'cidadania italiana' - e consegue.
Explica, candidamente, que quer 'um futuro melhor para seus filhos'.

E O FUTURO DOS NOSSOS FILHOS, CIDADÃOS E TRABALHADORES BRASILEIROS?

WASHINGTON 1974

A imprensa americana descobre que o presidente Richard Nixon está envolvido até o pescoço no caso Watergate.
Ele nega, mas jornais e o Congresso o encostam contra a parede e ele acaba confessando. Renuncia nesse mesmo ano, pedindo desculpas ao povo.

BRASÍLIA 2005

Flagrado no maior escândalo de corrupção da história do País, e tentando disfarçar o desvio de dinheiro público em caixa 2, Lula é instado a se explicar.
Ante as muitas provas, Lula repete o 'eu não sabia de nada' e ainda acusa a imprensa de persegui-lo.
Disse que foi 'traído', mas não conta por quem.

LONDRES 2001

O filho mais velho do primeiro-ministro Tony Blair é detido, embriagado, pela polícia.
Sem saber quem ele é, avisam que vão ligar para seu pai buscá-lo.
Com medo de envolver o pai num escândalo, o adolescente dá um nome falso.
A polícia descobre e chama Blair,' que vai sozinho à delegacia buscar o filho'.
Pediu desculpas ao povo pelos erros do filho.

BRASÍLIA 2005

O filho mais velho de Lula é descoberto recebendo R$ 5 milhões de uma empresa, financiada com dinheiro público. Alega que recebeu a fortuna vendendo sua empresa, de fundo de quintal, que não valia nem um décimo disso.
O pai, raivoso, o defende e diz que não admite que envolvam seu 'filhinho nessa sujeira'? ? ?

NOVA DÉLHI 2003

O primeiro-ministro indiano pretende comprar um avião novo para suas viagens.
Adquire um excelente, brasileiríssimo 'EMB-195', da 'Embraer', por US$ 10 milhões.

BRASÍLIA 2003

Lula quer um avião novo para a presidência. Fabricado no Brasil não serve.
Quer um dos caros, de um consórcio franco-alemão. Gasta US$ 57 milhões e,
AINDA, manda decorar a aeronave de luxo nos EUA. 'DO BRASIL NÃO SERVE'.

AULA DE HISTÓRIA - FUTURO DO PT

Heitor Jorge Lau
Empresário e Mestrando em Educação
Pós-Graduado em Gestão de Recursos Humanos
Bacharel em Comunicação Social – Relações Públicas


Olá brasileiros e brasileiras insatisfeitos e de "saco" cheio do Brasil!

Recebi um texto via e-mail imensuravelmente esclarecedor e infinitamente irritante pelos fatos relatados.
Diante de tudo que li sinto a obrigação de transferi-lo para este blog e torná-lo ainda mais acessível.
O texto foi redigido por Lúcia Hippólito, jornalista. Não solicitei a sua autorização para tal, mas com certeza, pelo teor do exposto ela não irá se importar.
Parabéns a ela! A humanidade deve ser lapidada por gente de expressão e opinião, assim como a autora do texto.

---@

“Nascimento” do PT:

  O PT nasceu de cesariana, há 29 anos. O pai foi o movimento sindical, e a mãe, a Igreja Católica, através das Comunidades Eclesiais de Base.

  Outros orgulhosos padrinhos foram os intelectuais, basicamente paulistas e cariocas, felizes de poder participar do crescimento e um partido puro, nascido na mais nobre das classes sociais, segundo eles: o proletariado.

“ Crescimento” do PT:

O PT cresceu como criança mimada, manhosa, voluntariosa e birrenta. Não gostava do capitalismo, preferia o socialismo. Era revolucionário. Dizia que não queria chegar ao poder, mas denunciar os erros das elites brasileiras.

O PT lançava e elegia candidatos, mas não "dançava conforme a música".

Não fazia acordos, não participava de coalizões, não gostava de alianças. Era uma gente pura, ética, que não se misturava com picaretas.

O PT entrou na juventude como muitos outros jovens: mimado, chato e brigando com o mundo adulto.

Mas nos estados, o partido começava a ganhar prefeituras e governos, fruto de alianças, conversas e conchavos. E assim os petistas passaram a se relacionar com empresários, empreiteiros, banqueiros.

Tudo muito chique, conforme o figurino.

“Maioridade” do PT:

E em 2002 o PT ingressou finalmente na maioridade. Ganhou a presidência da República. Para isso, teve que se livrar de antigos companheiros, amizades problemáticas. Teve que abrir mão de convicções, amigos de fé, irmãos camaradas.

Pessoas honestas e de princípios se afastam do PT.

A primeira desilusão se deu entre intelectuais. Gente da mais alta estirpe, como Francisco de Oliveira, Leandro Konder e Carlos Nelson Coutinho se afastou do partido, seguida de um grupo liderado por Plínio de Arruda Sampaio Junior.

Em seguida, foi a vez da esquerda. A expulsão de Heloisa Helena em 2004 levou junto Luciana Genro e Chico Alencar, entre outros, que fundaram o PSOL.

Os militantes ligados a Igreja Católica também começaram a se afastar, primeiro aqueles ligados ao deputado Chico Alencar, em seguida, Frei Betto.

E agora, bem mais recentemente, o senador Flávio Arns, de fortíssimas ligações familiares com a Igreja Católica.

Os ambientalistas, por sua vez, começam a se retirar a partir do desligamento da senadora Marina Silva do partido.

Quem ficou no PT?

Afinal, quem do grupo fundador ficará no PT? Os sindicalistas.

Por isso é que se diz que o PT está cada vez mais parecido com o velho PTB de antes de 64.

Controlado pelos pelegos, todos aboletados nos ministérios, nas diretorias e nos conselhos das estatais, sempre nas proximidades do presidente da República.

Recebendo polpudos salários, mantendo relações delicadas com o empresariado. Cavando benefícios para os seus. Aliando-se ao coronelismo mais arcaico, o novo PT não vai desaparecer, porque está fortemente enraizado na administração pública dos estados e municípios. Além do governo federal, naturalmente.

É o triunfo da pelegada.



quinta-feira, 27 de junho de 2013

UM BRASIL MAQUIADO DE PAÍS EM DESEMVOLVIMENTO


Heitor Jorge Lau
Empresário e Mestrando em Educação
Pós-Graduado em Gestão de Recursos Humanos
Bacharel em Comunicação Social – Relações Públicas

quarta-feira, 26 de junho de 2013

QUEM DEFENDE CIDADANIA FAZ ATO POLÍTICO, SEMPRE!

Empresário e Mestrando em Educação
Pós-Graduado em Gestão de Recursos Humanos
Bacharel em Comunicação Social – Relações Públicas



Muitos especulam que os jovens manifestantes (dentre várias faixas etárias) são totalmente apolíticos, no sentido de que não se interessam por política. Discordo! Existe um verdadeiro abismo entre ser apolítico e ser contra a política exercida e seus executores. O manifesto possui endereço certo: uma grande fração de políticos que ocupa pomposa, tranqüila e incompetentemente as cadeiras do Congresso Nacional. É de causar náuseas as afirmações de surpresa e não entendimento de tanto “barulho”. Certo jornalista de renome nacional chegou ao disparate de declarar que os jovens que se encontram entre as multidões insatisfeitas não possuem causa definida para os clamores. E não possuem mesmo! Não se trata de uma causa ou de causas repletas de ideais. Trata-se de reivindicar por uma gama de direitos mínimos que o governo tem o dever de proporcionar da melhor forma possível, afinal, além da obrigatoriedade, o que não falta é dinheiro oriundo da imensa carga tributária. A governança pode até alegar falta de verba, mas este discurso também não cola mais, haja vista tantas evidências de péssima gestão dos recursos públicos. A obrigação de suprir demandas básicas sociais faz parte do exercício natural da política por aqueles que em primeira instância não foram eleitos pela sociedade, mas sim, desejaram e se empenharam para serem eleitos. Se as populações escolheram por obrigação um candidato, por outro lado os candidatos não se candidataram obrigados. Portanto, caros eleitos, façam o respectivo trabalho com dignidade, moral, ética e profissionalismo. Afinal, foi para isto que se colocaram a disposição do serviço público ou não foi? Tratar de política é cuidar das decisões sobre problemas de interesse da coletividade, e justamente por isso, política é a ciência do governo. Para ser político é mister ter sensibilidade técnica e profissional para conhecer a sociedade e as suas necessidades, a fim de encontrar um modo de conseguir a concordância de muitos e promover o bem comum. Um representante eleito pela sociedade precisa conjugar as ações humanas e técnicas, e orientá-las para uma direção que seja de conveniência de todos. Diante disto é inconcebível ou incompreensível como determinados personagens, hoje, estão de “posse” da titulação de deputados sem o mínimo do mínimo de preparo. O trabalho de harmonização das ações pode e deve ser realizado com plena liberdade, sem que alguém imponha alguma coisa. Por muitos motivos é preferível que o bom senso e a boa vontade de cada um criem condições para que uns colaborem com os outros e haja respeito recíproco, sem necessidade de uso da força. De qualquer modo, mesmo que as ações humanas sejam harmonizadas pacificamente e sem a necessidade de coerção, é preciso que tais ações sejam coordenadas e orientadas para um objetivo de interesse de todos. É preciso considerar que política tanto pode referir-se à vida de seres humanos integrados e organizados numa sociedade, onde são tomadas decisões sobre os assuntos de interesse comum, como pode referir-se ao estudo dessa organização e dessas decisões. Os “teóricos representantes da nação”, enfim, deveriam procurar atender as necessidades naturais de convivência dos seres humanos bem como todo o funcionamento e os objetivos de uma sociedade. O fato de existir a necessidade de viver em sociedade tem conseqüências muito sérias. Uma delas é que os problemas da cada pessoa devem ser resolvidos sem esquecer os interesses dos demais. Assim, não se pode admitir como regra que para sanar interesses particularistas de partidos, coligações ou representantes políticos, a sociedade deva sofrer prejuízos ou arcar com sacrifícios. Todo o indivíduo tem direito à proteção de sua liberdade, de sua integridade física e de outros bens que são necessários para que um cidadão não seja rebaixado de natureza humana. Portanto, igualmente incompreensível é assistir deputados vinculados a comissão de direitos humanos, concordarem que o homossexualismo é doença. À vista disto tudo, verifica-se que quando são afetados os interesses fundamentais de um indivíduo ou de um grupo social todo o conjunto da sociedade sofre conseqüências de alguma espécie. Por esse motivo pode-se afirmar que os problemas resultantes de tais situações são problemas políticos, pois afetam a convivência das pessoas e influem sobre a organização, o funcionamento e os objetivos da sociedade. É muito importante levar em conta essas conclusões, por vários motivos. Todavia, o principal erro que se encontra enraizado na atual política brasileira é tratar dos interesses partidários como se a ausência da prestação de contas à sociedade não trouxesse conseqüências para toda a coletividade. Enfim, é preciso ter consciência de que os problemas políticos são, inevitavelmente, problemas de todos os membros da sociedade. Por esse motivo, será errado obrigar um indivíduo a procurar sozinho a solução para seus problemas, quando estes afetam a convivência. E será igualmente errado permitir que qualquer partido ou político proceda como se vivesse sozinho, ignorando os interesses comuns.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

A FAUNA ESTÁ FICANDO SEM OPÇÕES

Heitor Jorge Lau
Empresário e Mestrando em Educação
Pós-Graduado em Gestão de Recursos Humanos
Bacharel em Comunicação Social – Relações Públicas

Dia 14 de maio, 20h30, terça-feira: ao transitar pela RSC 153, por imediações do trevo de acesso a Santa Maria, direção sul-norte, uma bela visão não fosse o aspecto triste do evento: visualizo um Gato do Mato Pintado atravessando a rodovia, correndo em direção a zona urbana. Dia 10 de junho, 07h45, segunda-feira: transitando, mais uma vez pela RSC 153, por imediações da estação de abastecimento de energia elétrica, uma visão entristecedora: um Tatu-bola atropelado durante a tentativa de atravessar a rodovia em direção a zona urbana. Dia 11 de junho, 18h35, terça-feira: ao cruzar o semáforo do entroncamento perto da Corporação de Bombeiros do Distrito Industrial, uma cena impressionante: um Graxaim (muitos confundem com raposa) correndo em direção, outra vez, a zona urbana. Não fosse um hábito eu dirigir sempre em velocidade compatível com a segurança e tempo de reação o teria atropelado. Três momentos inéditos, surpreendentes e assustadores. Inéditos porque tais espécies são encontradas somente no seu habitat natural, longe da zona urbana. Surpreendente porque não se espera tal acontecimento. Assustador porque pairam algumas questões que não querem calar: o que estas espécies estão fazendo tão perto da cidade? O que está acontecendo no seu habitat natural? O que o ser humano está fazendo com a nossa natureza? As respostas, todos sabem! Mas é simplesmente triste e desalentador relatar três casos, em espaço de tempo tão diminuto, provenientes do abuso à natureza. A humanidade já catalogou, aproximadamente, 1,5 bilhões de organismos, mas não é tudo: calcula-se que o número total de espécies, na Terra, chegue a 10 bilhões ou até a 100 bilhões. Contudo, a cada ano, milhares de espécies são exterminadas em proporções que podem alcançar 30% do total dentro de três décadas, caso o ritmo atual de queimadas e desmatamentos continue como está. Isso é catastrófico, afinal as espécies são o resultado de milhões de anos de evolução no planeta, e com essa perda a biosfera vai ficando mais empobrecida em diversidade biológica, o que é perigoso para o sistema de vida como um todo. O fato de um recurso ser renovável ou reciclável não significa que ele possa ser depredado ou inutilizado deliberadamente. O mau uso ou descuido com a conservação provoca extinção. Como exemplo: a degradação ou destruição irreversível de solos e o consequente desaparecimento de uma vegetação rica e complexa e sua fauna. Mesmo o ar e a água, que são extremamente abundantes, existem em quantidades limitadas no planeta. A capacidade destes recursos de suportar ou absorver poluição sem afetar a existência da vida, evidentemente é finita. Dessa forma, mesmo os recursos ditos renováveis só podem ser utilizados em longo prazo por meio de métodos racionais, com uma preocupação estritamente conservacionista, ou seja, que evite os desperdícios e os abusos. O conservacionismo é necessário, todavia insuficiente. A industrialização e a dita vida moderna transformam e transfiguram drasticamente o meio ambiente. Tudo, absolutamente tudo, é constantemente modificado, destruído e extinto em nome do “progresso”. As memórias do passado, o ecossistema e a diversidade criada pela natureza são destruídas a cada dia. Definitivamente, para que as futuras gerações tenham uma idéia da riqueza do que foi produzido no planeta, ou na pior das hipóteses, para que ela mesma sobreviva, faz-se necessário uma mudança radical de conceitos e atitudes, em detrimento da ambição do lucro e da irracionalidade

O DESPERTAR DE UMA NAÇÃO

Heitor Jorge Lau
Empresário e Mestrando em Educação
Pós-Graduado em Gestão de Recursos Humanos
Bacharel em Comunicação Social – Relações Públicas


Vamos iniciar este texto lembrando um cartaz veiculado em rede televisa após as manifestações contra o aumento das passagens de ônibus (dentre outros motivos): “[...] o despertar de um gigante adormecido [...]” (*apenas parte da expressão transcrita). O Brasil não estava adormecido, o seu povo é que se manteve durante tempo demasiado, resiliente e crédulo de que o dia da recomposição do atual estado de degradação nacional chegaria. As manifestações impressionantes de indignação e repúdio ao rumo que o país tomou por intermédio de algumas “mãos políticas” refletem uma sociedade que não tolera mais a total falta de habilidade de grande parte dos governantes desta nação. A cada ano que passa sempre surge um novo partido, uma nova esperança, todavia, mais cedo ou mais tarde, acontece o que vem acontecendo faz tempo: alianças partidárias. Daí, não há competência, boas intenções ou ideologia que resista. Esta palavra, aliança partidária, atualmente, lembra mensalão, emendas sem necessidade, ministérios de utilidade duvidosa e diluição do dinheiro do contribuinte no saldo de dívidas pretéritas das agremiações aliadas. A grande prova de que o governo atual não possui capital intelectual suficiente para sanar o turbilhão de questões que a sociedade brasileira impõe, ancora no fato da governante máxima deste Brasil insatisfeito, ter recorrido ao maior marqueteiro político em atividade no país, poucos dias transcorridos desde o primeiro ato da população. Coincidentemente, um discurso complacente e condescendente foi proferido logo após as manifestações. A pergunta é: o que este personagem poderá contribuir diante de tantas reivindicações de ordem estritamente política/econômica? Nada! Não bastasse este cenário palpitante, surgem das profundezas da inexpressão, partidos políticos jogando mais lenha à fogueira, pronunciando aquele velho discurso oportunista e enfadonho que dita: este governo é péssimo, nós somos e temos a solução (mais uma vez). Sem considerar a pequena fração de cidadãos que aproveitaram a situação para saquear, queimar e depredar ou agir com violência, a grande fração merece toda a consideração e benevolência por parte do brasileiro consciente e cansado de pagar o “pato”. Sentido da palavra pato: taxas; impostos diretos; impostos indiretos; pouco investimento em educação; pouco investimento na saúde; pouco investimento no transporte público; pouco investimento nas vias de transporte e rodagem; e mais taxas e impostos. Essa grande massa de brasileiros tremula a bandeira do sem partido, do sem preconceito e da equidade. Não há como desprezar isto. Um movimento grandioso que representa o verdadeiro Brasil, um país multiculturalista, sem fronteiras raciais, sem preconceitos sexuais, sem fronteiras religiosas e sem barreiras socioeconômicas. A legião de insatisfeitos é infinitamente maior do que a insurgente da noite para o dia. Ela também é composta por gente que não pode, é impedida ou não consegue por alguma razão, enfileirar-se aos descontentes e cansados de aguardar por um novo Brasil. A política do Pão e Circo adotada neste país não possui mais sustentação, mesmo porque nem pão o governo distribui mais por falta de verba, ao contrário do circo, que aparentemente e para o qual, grana e atores não faltam. Caso a população retorne ao estado de dormência, que seja entremeado de lindos sonhos, ao contrário do pesadelo que vivenciou, vivencia e que deseja, desesperadamente, por um fim.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

A VERTIGINOSA DECADÊNCIA DO FUNK

Heitor Jorge Lau
Empresário e Mestrando em Educação
Pós-Graduado em Gestão de Recursos Humanos
Bacharel em Comunicação Social – Relações Públicas


Navegando pelas postagens do YouTube em busca de conteúdos para pesquisas relacionadas a educação me deparei com um festival de horrores: clipes do ritmo Funk. Não consigo classificar a ordem do pior para o “menos pior” porque praticamente todos são horrendos. Mas lembro de um em especial. O de um garoto de aproximadamente 16 anos, encoberto por grossos cordões de ouro, reverenciando carros esportivos importados e iates, e como não poderia deixar de ser, rodeado de mulheres. Diga-se de passagem: submissas aos maus tratos verbais. A letra é digna de ser queimada em praça pública. Há quem diga e defenda que o Funk é digno de ser patrimônio cultural. Eis a maior piada (de mau gosto) do século. Pelo menos este que estão ouvindo por aí não! Originalmente, com um ritmo mais suave, o estilo musical nasceu como forma de contestação e tinha fortes raízes na idéia da resistência à marginalização da sociedade capitalista e racista, e ao processo de exclusão do mercado de trabalho que impossibilitava os jovens de ter completo acesso aos seus direitos. A expressão cultural tratava de movimentos de protesto. Em seguida, em meados dos anos 60, James Brown, principalmente, inovou. O ritmo ganhou uma batida mais pronunciada, pesada e também dançante. Façamos justiça: ainda existe muito artista bom, deste gênero musical, por aí. Mas, atualmente, o que predomina é esta “coisa” que se escuta por todos os cantos. Por outro lado, o incômodo que o Funk causa na sociedade tem absolutamente nada a ver com elitismos ou moralismos. O desgaste do Funk, por mais que a blindagem de simpatizantes performáticos tente evitar, se deve às próprias características deste gênero que é emanado dos carros que circulam (ou se arrastam) nas ruas da cidade. Nitidamente, o Funk tem limitações artísticas e musicais. Seus sucessos são repetitivos e seus intérpretes se diferem apenas como fetiches, mas artisticamente soam todos iguais. A demagógica tese de que o Funk é um ritmo social riquíssimo não se cumpre na prática e existe até uma piada: de rico o Funk só tem a fortuna de seus DJs e empresários. A mediocridade do próprio ritmo também é gritante. Péssimos vocalistas, sonoridade repetitiva e precária, tudo isso faz com que o ritmo não vá muito adiante à sua linguagem. Se o ritmo já se mostrava deplorável artística e culturalmente, ele tenta em vão sobreviver como cultura superior, ostentando uma reputação vanguardista bastante falsa, porque o Funk está associado a processos e valores de degradação social. Assim, o Funk  jamais conseguirá acompanhar as transformações sociais porque o ritmo aposta no mais explícito machismo que trata a mulher como um objeto sexual. A pedofilia, a criminalidade, a violência e as drogas também se tornaram valores associados ao Funk. Os próprios “funqueiros” abandonaram qualquer lição do Funk original, na sua insistente recusa ao uso de instrumentos musicais e outros recursos artísticos. Vendo as transformações dos valores sociais avançarem, o Funk mostra-se datado, ultrapassado e fechado em todos os sentidos. O Funk tenta aprisionar todos ao ritmo, transformando a população em refém. O Funk se desgasta profundamente na mesmice sonora do ritmo, por suas próprias limitações, pela sua mais evidente mediocridade e pelas baixarias em que se envolve. A choradeira ainda vai continuar, com seus defensores tentando dizer que o Funk não está decadente ou dizer que o Funk é mais uma vez vítima de preconceitos. Só que esse discurso também está sendo repetitivo e pouco convincente. Enfim, todo brasileiro que curte boa música merecia algo melhor, inclusive, os verdadeiros e autênticos artistas do Funk

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

BRASIL, TERRA QUE TUDO PRODUZ, NAÇÃO QUE NÃO RELUZ!

Heitor Jorge Lau
Empresário e Mestrando em Educação
Pós-Graduado em Gestão de Recursos Humanos
Bacharel em Comunicação Social – Relações Públicas










         
           As comunidades rurais vivem da terra. E terra, no Brasil, é o que não falta: 850 milhões de hectares configuram e delimitam as fronteiras do país. São, aproximadamente, oito milhões e meio de quilômetros quadrados. Se dividi-los entre todos os brasileiros, quase 194 milhões de habitantes, resultaria aproximadamente 4,38 hectares para cada um. No entanto, atualmente 80% da população brasileira vive na zona urbana. Este percentual de cidadãos não precisa da terra para trabalhar e gerar o seu sustento. Portanto, matematicamente sobram mais 17,53 hectares por brasileiro que vive no meio rural. De acordo com a metodologia tradicionalmente adotada nos censos demográficos, a noção de família está condicionada aos arranjos societários organizados no interior dos domicílios particulares. Em média, as famílias brasileiras rurais possuem 3,5 componentes. Teremos, então, 76 hectares por família. Desta forma, este grupo familiar poderia tranquilamente viver e produzir para vender neste espaço de terra.

            Todavia, apesar da vasta extensão territorial e da grande disponibilidade de terra, 14 milhões de cidadãos brasileiros passam fome! Então, eis a questão: se existe terra além de suficiente, por que tantos brasileiros ainda passam fome? Simples, porque as propriedades estão concentradas nas mãos de pouquíssimos donos. Porque o governo incentiva mais a agricultura de exportação do que a produção de alimentos para consumo da população. Porque grande parte dos trabalhadores rurais são bóias-frias, sujeitando-se a trabalhar como diaristas, nas épocas de plantio e de colheita, sem nenhuma garantia social, recebendo o que o dono da terra, a bel prazer, quer pagar. Porque muitos trabalham como meeiros e são enganados nas contas referentes à venda da produção.

            Isso sem contar aqueles que não possuem terra alguma. O Relatório sobre os Crimes do Latifúndio, elaborado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, Centro de Direitos Humanos Evandro Lins e Silva e Instituto Carioca de Criminologia, informou que menos de 50 mil proprietários rurais possuem áreas superiores a mil hectares, controlando 50% das terras cadastradas. Cerca de 1% dos proprietários rurais detêm em torno de 46% de todas as terras.  Dos aproximadamente 400 milhões de hectares titulados como propriedade privada, apenas 60 milhões de hectares são utilizados como lavoura. O restante das terras estão ociosas ou subutilizadas. Segundo dados do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), há cerca de 100 milhões de hectares de terras ociosas e cerca de 4,8 milhões de famílias sem-terra no Brasil.

            Atualmente, as condições de vida no campo não são tão diferentes das condições de vida da cidade quanto eram no passado. Os meios de comunicação levam ao campo valores e costumes que antes eram da vida urbana. No entanto, o próprio trabalho na terra e a forma pela qual o trabalhador está ligado a ela – proprietário, posseiro, arrendatário, meeiro, bóia-fria, todos – estabelece diferenças em suas condições de vida. O bóia-fria e o assalariado rural parecem ser os que enfrentam condições mais precárias. Alimentação deficiente, casas de pau-a-pique, sem condições mínimas de higiene e saúde, falta de qualquer assistência médica e social, são comuns na vida desses trabalhadores.

            Além das condições materiais difíceis, as dificuldades também se manifestam em relação aos aspectos sociais da vida rural, principalmente se levarmos em consideração as comunidades mais afastadas. Estas comunidades, geralmente, enfrentam condições de isolamento parcial ou total do resto do país, dificuldades de transporte, de comunicação entre outras. Por outro lado, as relações em grande parte das comunidades rurais, pelo fato de serem estabelecidas sempre entre as mesmas pessoas que se conhecem e convivem, são relações pessoais e informais. Enfim, o governo federal infla os peitos e alega uma melhora considerável na qualidade de vida de todos os brasileiros. Será? Ou não sei fazer cálculo matemático ou tenho observado o cenário de outro país subdesenvolvido. Mas uma coisa é certa: alguém está, fundamentalmente, tentando enganar alguém ou querendo se enganar. Afinal, os números não fecham e a realidade parece ser bem outra. 

Brasil!!!!!

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

A LIBERDADE EXISTE?



Heitor Jorge Lau
Empresário e Mestrando em Educação
Pós-Graduado em Gestão de Recursos Humanos
Bacharel em Comunicação Social – Relações Públicas


  O filósofo alemão Kant brincou com a idéia da liberdade do pássaro, imaginando uma pomba ágil, indignada contra a resistência do ar que a impedia de voar mais depressa. Na verdade, é justamente essa resistência que lhe serve de suporte, pois seria impossível voar no vácuo. Se o vôo livre do pássaro é uma ilusão, da mesma forma podemos dizer que incorremos em engano semelhante ao nos considerarmos capazes de liberdade absoluta. Analisemos: a partir do princípio do determinismo, tudo que existe no mundo está sujeito à lei da casualidade. A ciência só é possível porque o conhecimento da relação necessária entre causa e efeito - isto é, o conhecimento dos determinismos naturais - leva à descoberta das leis da natureza e permite que sejam feitas previsões e desenvolvidas técnicas.

  Não há como negar que também o ser humano se acha preso a determinismos: tem um corpo sujeito às leis da física e da química, é um ser vivo que pode ser compreendido pela biologia. Por isso, já no século XVIII, os matemáticos franceses D' Holbach e La Mettrie reduziam os atos humanos a elos de uma cadeia causal universal. Já, no século XIX, o filósofo francês Taine, discípulo direto de Augusto Comte, afrimava que não somos livres, mas determinados pelo momento, pelo meio e pela raça. Essa concepção influenciou os intelectuais daquele século, inclusive a literatura naturalista. No Brasil, quem ler O Cortiço e/ou Mulato, de Aluísio Azevedo, identificará as forças incontroláveis do meio e da raça agindo de forma inexorável no comportamento das pessoas.

  Herdeiros dessa visão determinista, Watson e Skinner, psicólogos contemporâneos da corrente comportamentalista, admitem que o ser humano tem a ilusão de ser livre, mas na verdade apenas desconhece as causas que atuam sobre ele. A ciência do comportamento conheceria de tal forma as motivações, que seria possível prever e portanto planejar o comportamento humano. Concluindo, além dos determinismos psicológicos, podemos acrescentar os culturais: ao nascer, encontramos um mundo já constituído e recebemos como herança a moral, a religião, a organização social e política, a língua, enfim, os costumes que de certa forma moldam nossa maneira de sentir e pensar. Então, a liberdade existe?