sexta-feira, 25 de novembro de 2011

EDUCAÇÃO NO BRASIL

Por Heitor Jorge Lau
Relações Públicas, Pós-Graduado em Gestão de Pessoas e Mestrando em Educação

Nossa linda pátria amada ainda terá que correr muito para alcançar bons índices no ranking da OCDE - Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Somos a nação com um dos piores desempenhos dentre os 65 países que participam da prova da OCDE, na qual são avaliados conhecimentos de leitura, ciências e matemática. Tal resultado é proveninente de uma série de fatores que são, em parte, negligenciados pela sociedade brasileira. Um deles é o descomprometimento com o formato do ensino praticado. Atualmente, grande parte do que se aprende perde validade em questão de menos de meia década. A função do sistema de educação é ENSINAR A APRENDER, ponto!. Mas, as instituições educacionais insistem em ensinar somente conteúdos prontos, com respostas prontas, com caminhos pré-determinados. Muito daquilo que se transmite ao discente não instiga o pensamento lógico, a prática do questionar, não desperta a consciência crítica e ávida por conhecimento. Um país como o nosso, com quase 195 milhões de habitantes, não deveria figurar em estatísticas tão deprimentes. Na Coréia do sul , com 49 milhões de habitantes (300% a menos), o grau de exigência de um futuro acadêmico é tão acentuada que, dos 600 mil alunos que prestaram vestibular, 120 mil optaram por estudar mais e tentar uma vaga numa universidade mais renomada., no próximo ano. Mas, a dedicação não se resume apenas ao acadêmico. A sociedade se mobiliza em massa para que seus estudantes prestem o vestibular com máxima tranquilidade. Lá, o processo é unificado, em meados de novembro. As igrejas e os templos ficam recheados de mães mergulhadas em orações em prol de uma gloriosa aprovação. A Bolsa de Valores retarda o começo da jornada de trabalho em pelo menos uma hora a fim de evitar congestionamentos no trânsito. O ápice da dedicação percebe-se na hora em que os atrasadinhos (lá também existem, rss) são escoltados por policiais até o destino. Ano passado, durante a prova oral de língua inglesa, até os aviões foram impedidos de decolar e aterrisar para evitar comprometimento da compreensão do idioma estrangeiro. Estas são algumas das "pequenas" diferenças que fazem da Coréia uma fábrica de gênios. Aqui a realidade é completamente diferente e o que vale é ser aprovado, seja onde for, estudar o mínimo possível, e sair com o canudo na mão sem muito esforço. É por isto que o diploma muitas vezes fica empoeirado na moldura da sala ou guardadinho numa gaveta da cômoda do quarto. Como disse uma professora muito sábia da época em que graduei: - Entrar aqui é fácil. Difícil, é sair daqui com conhecimento adquirido.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

DESABAFO DE UM HOMEM PRESERVACIONISTA II

Por Heitor Jorge Lau
Relações Públicas e Empresário

Onde resido há quatro anos, 5% da mata nativa existente nos morros que circundam a região já eram. O cálculo é meio amador, então, pode ser um pouco maior o índice. Motivo: pessoas que não se importam, inconseqüentes, irresponsáveis e ignorantes, estão cortando todo tipo de árvore com a intenção de queimar no fogão à lenha ou transformar o local numa “lavoura vertical”. E cá entre nós, qual a planta que se desenvolve satisfatoriamente na encosta de um morro. Isto sem pensar nos reflexos da inexistência da vegetação de cobertura que segura a erosão natural das enxurradas. Este pequeno cenário macabro é mínimo perto do que estão fazendo com a Mata Atlântica e a Amazônia. Mas, isto já é assunto e estresse para outro dia. Neste momento fico até onde minhas vistas alcançam. O som de uma moto serra me provoca arrepios e acessos de raiva porque eu sei que alguém, em algum lugar próximo, está fazendo uma barbaridade – cortando árvores irracionalmente. Três meses atrás subi um cerro perto de minha propriedade para verificar se estava tudo bem. Surpresa! Uma área de árvores nativas de mais ou menos 30 m x 30 m havia sumido do mapa. Onde foi parar? Empilhado num galpão, cortadinha em pequenos tocos de lenha para o fogão. Mas quem se importa com isso? Eu, a fauna e a flora. Uma moto serra nas mãos de gente desta natureza pode ser considerada uma arma. E arma, todos sabem, só pode ser usada com autorização. Está aí , algo para refletir: arma de fogo precisa de licença, para dirigir um carro é preciso de licença, construir precisa de licença... etc. etc. etc., mas para acabar com o Planeta não precisa. Ah, dizem alguns experts: - Determinados tipos de árvores não podem ser derrubadas sem permissão de órgão competente. Quem dá poder ao ser humano para decidir quem vive ou quem morre na fauna e flora?? Pois é, a questão continua a mesma e sem solução aparente. As reações da natureza continuam sinalizando que a coisa está ficando “preta”, mas ninguém quer “ouvir”. Sempre foi dito que deveríamos preservar o Planeta para nossos filhos e netos. Mas, acho que devíamos pensar em como educar os filhos e netos para deixar neste Planeta.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Não é preciso ser um São Francisco para ser contra a pobreza

Por Heitor Jorge Lau

Ninguém é a favor da pobreza, assim como ninguém é a favor da corrupção, HIV ou maus-tratos desferidos à criancinhas indefesas por babás enlouquecidas. Se ninguém é a favor, por que então existe pobreza no Brasil? A realidade é clara: vivemos num país injusto e com um número crescente de pobres e desamparados. A pobreza é certamente a mais urgente questão com que nos deparamos neste início de mais um século.

Nunca houve, como agora, tanta inconformidade diante da pobreza. Claramente, à medida que aumenta o número de cidadãos com acesso a um padrão de vida decente, aumenta também a sensação de desconforto em relação aos que estão de fora deste cenário. Não fosse a demagogia explícita por trás dos reais interesses das promessas políticas, seria possível crer que o futuro da nação, estaria depositado justamente nas mãos daqueles que por obrigação, são responsáveis pelo desenvolvimento do bem-estar.

Levar em consideração promessas recheadas de pura politicagem serve apenas para alimentar a indústria da obtenção de votos, que é absolutamente estéril na hora de encontrar formas de reduzir a pobreza. Um bom exemplo são as propostas que prometem erradicar o problema em meros quatro anos. A pobreza, para infelicidade geral de muitos, não vai ser erradicada em curto espaço de tempo.

Sua origem não é recente, ela carrega consigo raízes históricas e profundas. Reduzi-la a níveis aceitáveis é uma obra de gerações e exige muita determinação, perseverança, direção e, sobretudo, capacidade profissional para não sucumbir à tentação de atalhos milagrosos e provisórios. Na maioria das vezes, políticas compensatórias, como as famosas cestas básicas, são muito boas para aliviar os efeitos da pobreza, mas ineficazes na solução do problema. Não que o exercício da filantropia deva definitivamente ser banido das práticas dos homens de boa vontade. Mas não é daí que sairá qualquer medida mais profunda.

Mas quais são as soluções corretas? Bem, aí entra em campo o interminável debate sobre os principais atores históricos de um filme que parece não ter fim e que deixa o Brasil longe de ter bons indicadores sociais. Escravidão, ausência de democracia, falta de partidos políticos sólidos, oligarquias nordestinas, e outras tantas, suficientes para preencher mais cem páginas neste texto. Incontáveis as causas motivadoras das mazelas nacionais, servem apenas para justificar o presente. Os fatos não podem nem devem servir, sob hipótese alguma, como repositório de culpas e culpados pela atual situação de miséria que assola determinadas castas sociais. É preciso se indignar com o que acontece no país. Não dá para se acostumar a viver em um país com tantos pobres e tanta concentração.

As políticas sociais devem ter uma orientação de médio e longo prazo e devem ser mantidas por diferentes governos, o que não ocorre na prática, na maioria das vezes.
Perseverar é preciso. E ser perseverante significa ter paciência, porque se as políticas sociais corretas forem adotadas e cumpridas na íntegra, os resultados irão aparecer. Mas, inevitavelmente, isso leva tempo e não existe outra maneira a não ser esperar. Querer encurtar esse percurso com algum atalho milagreiro é a melhor forma de manter, para benefício de alguns, a pobreza de muitos.


Fontes de pesquisa:

- http://jornalglobal.com.br/noticias.php?noticia=2803 – Índices de miséria no Brasil.

- http://www.fundaj.gov.br/observanordeste/obte001.doc - As raízes da miséria no Brasil: da senzala à favela.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

EDUCAÇÃO EM TEMPOS DIFÍCEIS

Por Heitor Jorge Lau

Texto extraído da Revista Educação & Psicologia e adaptado.

Título original: Alguns equívocos sobre o sujeito da educação

Por Lisandre Castello Branco

Vejo praticamente todos os dias alguns dos meus professores do segundo grau, ou melhor MESTRES. Percebo no semblante de cada um deles uma expressão de gente sábia, orgulhosa da profissão, sob minha ótica, a mais honrada e digna desde os primórdios da humanidade. Um professor particularmente me chama muito a atenção, por seu jeito falante, rosto erguido, fala firme e alta, como nos tempos da sala de aula (e faz tempo isto). Este cidadão é detentor de uma vantagem intelectual e cultural de dar inveja - no bom sentido é claro. Cursei o segundo grau em tempos memoráveis. Imaginem vocês que na grade curricular haviam as seguintes disciplinas: Estatística e Custos; Direito; Filosofia; Técnicas Comerciais; entre outras. Citei estas que mais marcaram por sua relevância. De fato, aquela escola preparava o aluno para encarar o mundo do trabalho. Saudades daqueles tempos. Mas e hoje, o que está havendo com o ensino?

"Entre a chamada escola tradicional e a família tradicional o que podia ser facilmente observado era o estrito paralelismo existente entre ambas as instituições. Tal paralelismo ficava evidente nos modos pelos quais eram disciplinadoras, autoritárias e exerciam seus papéis e funções de modo preestabelecido. Tudo isto com uma linguagem educativa e valores pedagógicos comuns que estabeleciam entre elas um continuum de tal maneira que advertências verbais e escritas e suspensões escolares eram prontamente ratificadas pela família, quando não acrescidas de algum castigo adicional em casa. A figura do professor exigente, disciplinador implacável, do diretor que assumia suas funções com mãos de ferro, ultrapassava os muros da escola e, de certo modo, acabava fazendo parte da família como alguém a ser temido e também valorizado. Obviamente que essas referências não são descrições generalizáveis para todas as escolas e famílias, apenas correspondem ao imaginário do que é ainda referido como “escola pública de qualidade” e “família organizada”. Também a família mudou. Aquela família composta por pai, mãe e seus respectivos filhos foi, a partir da revolução cultural deflagrada pelo advento da pílula e da luta das mulheres pelo direito à igualdade de condições, então prerrogativas dos homens, sofrendo um processo de mudança acelerada e tornou-se, então, a “nova família”, cujo padrão tradicional foi substituído pelas mais diferentes modalidades de composição. Com essas mudanças, o ideário da educação familiar, antes calcado nas tradições familiares, foi substituído. Antes, as preocupações estavam centradas na educação moral e social. Exigiam-se obediência, respeito, cumprimento dos deveres e obrigações, principalmente os referentes à escola. Com a “nova família” surgiram as primeiras contestações à escola e aos seus professores. Tudo coincidindo com a democratização da educação. Como se percebe, a situação do sistema educacional ficou, de um dia para o outro, simplesmente irreconhecível. A partir das contestações da “nova família” aos professores, aos conteúdos de ensino, aos procedimentos de avaliação, às relações de seus filhos com os professores, é que pudemos observar uma extraordinária mudança no cenário do cotidiano escolar. O que antes, na escola tradicional, era tratado sob a epígrafe de questões disciplinares, portanto sujeito apenas a procedimentos repressivos passou, muito rapidamente, a ser enfrentado com a convocação da participação dos “especialistas“. Psicólogos, psicopedagogos, fonoaudiólogos, neurologistas, além dos já conhecidos professores particulares, foram muito rapidamente integrados à participação no cotidiano escolar. E, de acordo com os novos paradigmas da ciência positiva – neurociência -, surgiram novos “diagnósticos” para os chamados problemas de aprendizado. Dislexia, distúrbios de atenção, problemas de concentração e outros foram, então, identificados e “tratados”. Não só com atendimento clínico-pedagógico, mas também com medicamentos. O professor passou a conviver, não apenas com esses novos personagens da vida escolar, mas também com anfetaminas para alunos “hiperativos”, coadjuvantes dos “materiais escolares”. Bem, pelo exposto até então, resta um questionamento: quem é, afinal, o sujeito da educação? Por mais extensos e padronizados sejam as grade curriculares e os programas de ensino e, ainda, por mais que os professores mais bem preparados ministrem seus cursos, isso não garante o que preconiza a legislação: formação integral e plena dos alunos. Além disso, é preciso reafirmar, lembrando os ensinamentos de Piaget e Freud, que é somente pela resposta do aluno que é possível verificar se ele aprendeu ou não e, principalmente, como aprendeu. A proposta da substituição do “fracasso escolar” pelo “fracasso da escola” apenas encontra o nome do algoz: o professor. Porque a escola ainda que seja reconhecida como uma das instituições fundantes da inserção do sujeito no mundo só é capaz de realizar tal operação pela mediação do professor, que se encarna em escola na relação com o aluno. Contudo, fazer do professor o algoz é ignorar que ele é tão vítima quanto o aluno. Aquele velho professor da antiga escola tradicional gozava de prestígio social, era digno de respeito e admiração e, ainda por cima, ganhava dinheiro suficiente para manter-se e prover sua família com dignidade. Assim, o professor, que ao longo dos últimos anos, teve que enfrentar os desafios de deparar-se com uma nova clientela escolar sem ter tido um mínimo de preparação prévia vem, a cada dia, sendo obrigado a assumir também as conseqüências da “nova família”. Esse fenômeno o atinge em duas frentes: a profissional e a pessoal, pois, além de não ser respeitado em sala de aula, também não experimenta nenhum orgulho ao se declarar professor, porque nada sobrou do prestígio que coroava a profissão. E o salário, em que pesem as jornadas extenuantes, faz “sobrar cada vez mais mês no fim do dinheiro”, como diz Millôr Fernandes".

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O POVÃO E A ELITE - ELITE E O POVÃO

Por Heitor Jorge Lau

Parece que a sociedade brasileira acostumou-se com a idéia de inventar chavões do povão e da elite. Povão, sinônimo de gente íntegra acima de qualquer suspeita. Em compensação, a elite é associada à imoralidade, gente sem valor que não merece confiança. O povão também é denominado como gente imunda e grosseira, aquela fração da população que não tem jeito mesmo. A elite por sua vez, detentora de natureza livre de impurezas e de educação exemplar, digna de usufruir as coisas boas da vida.

É mister reconhecer que, tanto o povão quanto a elite, possuem suas particularidades boas e ruins e, qualquer tentativa de discriminação não passa de pura frivolidade.

Tudo não passa de um jogo de palavras muitas vezes mal-intencionado.

terça-feira, 12 de julho de 2011

SOCIEDADE NARCISISTA


Por Heitor Jorge Lau

Pela imensa janela do local que trabalho, pelas vias que transito todos os dias, pelas palavras (muitas ofensivas) que escuto pairar no ar, vejo algo perturbador: a crescente insanidade mental que se prolifera na sociedade, com uma velocidade de preocupar. Acredito que o mundo, pelo menos este que eu convivo, está doente. Recheados por narcisistas. Tudo bem, não vamos generalizar, mas a maioria está com a antena parabólica desajustada. O narcisismo descreve uma condição puramente psicológica e uma condição singularmente cultural. Em nível individual, denota uma perturbação da personalidade delineada por um investimento extremamente exagerado na imagem da própria pessoa à custa do self. Todo narcisista está mais preocupado com o modo como se apresenta do que como se sente. Negam toda espécie de sentimento que contradiga a imagem que desesperadamente procuram apresentar. Agem sem sentimento, tendem a ser sedutores e ardilosos, empenham-se na obtenção de poder e de controle. Acabam por se tornarem egoístas, concentrados somente em seus próprios interesses, ignorando e carecendo, nitidamente, de autoexpressão, serenidade, dignidade e integridade.

Esta gente que está por aí, jogando toda espécie de lixo nas ruas (pasmem, no mesmo local que retornarão em seguida), que desrespeitam as regras de trânsito, que baixam os quatro vidros do carrão para que todos ouçam o super-som instalado (pior, a música mais brega e rançosa existente), que desejam ganhar a atenção com músculos e curvas constituídas a partir de horas de academia, plástica e outras químicas, enfim, etc etc etc... vivem a vida como algo vazio e destituído de significado. São zumbis desmunidos de valores humanos - ausência total de interesse pelo meio ambiente, pela qualidade de vida, pelos seres humanos seus semelhantes. Uma sociedade que sacrifica sem dó o meio ambiente em nome do lucro e do poder, seja qual for, revela sua insensibilidade em face das necessidades humanas. A proliferação de coisas materiais converte-se em medida de progresso de vida, e assim, o homem é oposto à mulher, o trabalhador ao empregador, o indivíduo à comunidade. Quando a ignorância ocupa posição mais elevada do que a sabedoria, quando a notoriedade é mais admirada do que a dignidade, quando o êxito é mais importante do que o respeito por si mesmo, a própria cultura supervaloriza a imagem e deve ser considerada narcisista.

Ternura, compaixão, solidariedade, respeito são palavras que fazem parte de um vocabulário que está quase sendo colocado no museu, afinal, neste local permanecem objetos que lembram aquilo que já foi e existiu um dia.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O LADO PRIMITIVO DO HUMANO

Por Heitor Jorge Lau

Bem, misturando o ambiente errado com a influência inadequada, teremos inevitavelmente, a receita da capacidade do homem de abandonar sua humanidade na medida em que ele funde sua personalidade única nas estruturas institucionais defeituosas. Talvez esse seja o defeito fatal com que a natureza nos dotou e que em longo prazo dá a nossa espécie apenas uma modesta chance de sobrevivência.

Pessimismo ou não, basta resgatar a teoria da evolução de Charles Darwin que afirma que os seres humanos compartilham uma descendência comum com os mais primitivos dos animais. Esta herança aplica-se tanto ao cérebro humano, o berço da razão e da sensação, quanto a qualquer outra parte de nossa estrutura física e psicológica. Mas como estamos analisando comportamento ignoremos do “pescoço para baixo”.

A ciência comprovou a existência de duas partes importantes do nosso cérebro: o paleocórtex e neocórtex. O paleocórtex ou sistema límbico, é uma estrutura cerebral que se desenvolveu posteriormente e que governa a expressão das emoções. O neocórtex ou massa cinzenta é que distingue o homem dos outros animais. É justamente o neocórtex que permite o raciocínio lógico, o uso da linguagem complexa e a quebra das barreiras da evolução biológica.

O homem herda algo mais do que genes, ele herda também as culturas complexas que ele mesmo cria. Naturalmente, existe um certo grau de intercomunicação entre as duas partes, mesmo assim todas elas têm suas funções separadas e nenhuma tentativa de explicar a natureza humana pode ser bem-sucedida se não levarmos em conta essas diferenças.

O desenvolvimento do neocórtex tornou possíveis as funções inter-relacionadas do raciocínio e da linguagem, mas como derivam de uma estrutura posterior, separada, o raciocínio e a linguagem têm pouco poder sobre o sistema límbico do paleocórtex e as emoções que ele governa. Esta pode ser a causa mais provável de nosso elenco desesperado ter migrado do imaginário moral e eticamente correto para um mundo onde a luta pela sobrevivência é mister. (Por isso que ainda somos meio símios em determinados aspectos da vida).

Questões como: Somente situações extremas fazem aflorar nossos instintos mais primitivos? - ou - Será que somos selvagens em nosso cotidiano de forma institucionalizada? Resta refletir sobre estas e outras tantas situações que assolam nosso desenvolvimento social. Quem sabe um dia as pessoas passem de candidatos à categoria efetiva de seres humanos, na verdadeira concepção da palavra.

“Não existe arte mais difícil que a de viver. Porque para as demais artes e ciências há mestres por toda parte. Até os jovens acreditam haver aprendido essas artes de tal maneira que podem ensiná-las a outros: durante a vida inteira a criatura tem que continuar aprendendo a viver e, coisa que surpreenderá ainda mais, tem , durante a vida inteira, que aprender a morrer.”

Sênega

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O LOBO MAU E OS TRÊS PORQUINHOS


- A VERDADEIRA HISTÓRIA -

Era uma vez três porquinhos: Heitor, Cícero e Prático.

O primeiro porquinho, ao contrário dos outros, tinha sobrenome, Jorge Lau. Cursava MBA em Gestão de Recursos Humanos e dedicava-se muito aos estudos. Com a constante falta de dinheiro no banco sua casa não era lá estas coisas. Casebre frágil, todinho de papelão.

Já Cícero, construíra um chalé. Não se tratava de madeira nobríssima, afinal, era tábua recolhida de tudo quanto era canto da cidade. Mas resistia bravamente às longas estações das chuvas.

Prático, por outro lado, conhecia o gerente da Caixa Econômica Federal. Daí, entre ser amigo do “ome” e conseguir um empréstimo foi coisa pouca. Resultado, uma bela e imponente casa de alvenaria com 100m². Erguida tijolo por tijolo, diga-se de passagem, maciço, com direito a reboco e telha de barro. Porquinho sabido, adivinha de que cor pintou a residência? Azul e branco, as cores da Caixa.

Mas, foi numa bela-feia, quente-fria, ensolarada-nublada e seca-úmida manhã que apareceu uma criatura para atormentar o sossego sossegado da “porcaiada”. Um tal de lobo-mau. O cara era mau mesmo, tanto que já havia abominado a pacata e serena vida do Chapeuzinho Vermelho e sua Vovozinha.

Mais tarde, descobriu-se que o Lobo bobo encheu o saco das duas porque eram filiadas ao PT. Não era para menos, o lobão havia sido assessor do ex-presidente FHC e as pobres atazanadas deram muita bandeira com aquela capa vermelha da netinha desavisada. Há tempos a Polícia Federal, a mando do ex-presidente, vinha investigando as iniciais CV, pintadas na caixinha de correspondências das apoquentadas. Triste confusão. Confundiram CV, de Chapeuzinho Vermelho, com Comando Vermelho. E foi aí que o barraco se armou, mas isso é pano para outra manga.

O Lobão, corretor da Caixa, resolveu ganhar uma grana em cima da venda de seguro contra vendaval, fenômeno muito comum na região. E, voilà, descobriu que Heitor, Cícero e Prático não possuíam seguro de qualquer espécie.

Ansioso pela grana fácil, o Canis Lupus não quis esperar pelo próximo vento tempestuoso para faturar. Foi à luta um dia após a brilhante idéia ter brotado em sua mente maligna.

Dirigiu-se à casa de Prático e tentou passar o maior “lero” no porquinho desprevenido. Mas, suíno esperto, não caiu na conversa lobística do cara. Então, o mal sucedido vendedor de seguros postou-se diante da morada e soprou até os bofes saírem pra fora. Resultado, não moveu uma palha, ou melhor, um tijolo.

Raivoso, dirigiu-se ao chalé do irmão menos abastado e alçou mão de toda verbosidade acumulada em seu vocabulário. Para tristeza do corretor, Cícero também não levou muito a sério a fala melíflua do peludo. Indignado com o suposto cliente, mais uma vez, colocou-se a expirar uma ventania sobre o amontoado de tábuas com o maior bafo de alho da pizza que comera na noite anterior. Resultado, uma tremenda falta de ar nos exauridos pulmões da criatura. O que ele não sabia era que o porquinho havia utilizado parafusos ao invés de pregos para montar o domicílio.

Bem, só restava um último otário a cair no golpe diabólico. O paupérrimo Heitor. No exato momento em que o acadêmico preparava-se para fazer um trabalho para a aula de segunda à noite: toc, toc, toc. Quem seria aquela hora? Ao abrir a porta, uma surpresa. O devorador de vovozinhas, completamente sem fôlego, defere um boooooooooooooa noiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiite, cheio de más intenções.

Pois, para a surpresa do visitante mal-intencionado, Heitor pronuncia alegremente: - Senhor Lobão, ótimo aparecer por aqui, preciso urgentemente comprar um seguro.

O cachorrão uivento quase caiu de costas ao ouvir tal exclamação. É hoje, mentalizou num piscar de olhos.

Após as devidas cordialidades e inúmeras explicações a papelada foi deixada a mercê do provável futuro segurado. Afinal de contas, o negócio estava no papo e bastava uma leitura à luz de velas nas infinitas linhas redigidas em fonte tamanho cinco por longas e intermináveis 15 páginas do documento.

Combinaram que toda aquela celulose sólida seria entregue na manhã seguinte, preenchida e assinada, é claro, diretamente na seguradora. Dito e feito. Promessa cumprida. Agora era só aguardar a próxima rebeldia de São Pedro e mandar ver.

Sorte do estudante!!! Não é que no outro dia um vendaval para matilha de lobo-mau-sopradores nenhum botar defeito recaiu sobre a localidade. Bom, não havia super-bonder suficiente para remontar a casa de papelão.

Chegada a hora da retirada do valor do seguro, uma surpresa: o anexo contendo a adesão voluntária, manuscrita a punho pelo agora denominado “sem teto”, estava ilegível e indecifrável. Tamanha euforia do Lobo Mau que a papelada toda tinha sido arquivada sem qualquer revisão, ou melhor, o que interessava mesmo era a assinatura do engambelado.

No exato momento de redigir o termo de adesão, o confuso suíno acabara de encerrar seus estudos sobre conjugação verbal. Ao tentar expressar sua concordância com as diretivas do contrato, o zonzo não sabia se escrevia: eu concordo no presente, eu concordei no pretérito perfeito, eu concordara no pretérito mais-que-perfeito ou se concordava no pretérito imperfeito.

A garatujada foi tanta que se tornou impossível perceber o significado daquela engrola toda. Coitado do infortunado: ficou sem dinheiro, sem barraco e sem jeito.

Moral da história: Mais vale ter um português perfeito do que um seguro mal feito.

V O L T E I !!!!

sexta-feira, 26 de março de 2010

HERÓIS E HEROÍNAS DO SÉCULO DA INFORMAÇÃO

O mundo está doente!!! Não o Planeta Terra, os humanos que idolatram e tornam-se fãs das criaturas com o QI beirando a -1. Ontem à noite eu dediquei uma fração do meu precioso tempo de vida para assistir, ou melhor, resistir diante do televisor, vinte minutos do Big Brother. Faço uso de uma frase que veio até a minha mente neste exato momento: 'Jesus me abane!' A cada edição o nível cultural e intelectual dos astros do denominado Reality Show, despencam ladeira abaixo. Para a imensidão de telespectadores, que também não devem ter algo melhor para fazer na vida, isto passa de forma transparente, afinal, corpos sarados e, se possível, sacanagem é o mais importante. Ao ficar sabendo que o ídolo preferido da juventude não possui a mínima noção de como o HIV é transmitido é de arrepiar o cabelo... My God, como é possível admirar alguém que no ano de 2010 DC pense como um chimpanzé (os símios que me perdoem). Realmente, o mundo está perdido. O pior deste cenário macabro é saber que o principal articulador daquele programa sem qualquer valor social alega que as declarações proferidas pelos participantes é de inteira responsabilidade DELES. Qual o papel dos meios de comunicação??? Jogar porcaria no ventilador e deixar respingar para todos os lados. Gente, o mundo está doente!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

REVOLTA ESPACIAL


Hoje, durante aquele bate-papo rebelde entre amigos, conversávamos sobre o desperdício do dinheiro público no Brasil, no "País da Impunidade". Daí, lembrei do episódio Jornada nas Estrelas, mas não se trata da famosa série daquele Vulcano de orelhas pontudas, o Spok. Recordei a viagem ao espaço do primeiro astronauta brasileiro. Lembram? Pois é, não foi somente o emprego e o feijão nosso de cada dia que foi para o espaço. O dinheiro do contribuinte também. Quem não assistiu o astronauta brasileiro flutuando na estação espacial internacional? Enquanto todos aplaudiam a grande odisséia na via láctea, milhões de famintos babavam ao ver aquele pequeno grãozinho preto germinar num laboratório sideral. É uma pena que o governo federal não invista soma tão considerável nas lavouras do Brasil. Nada contra o herói flutuante, mas é notável como o congresso nacional sempre consegue verba para investimentos de prioridade zero ou melhor, gravidade zero. Diziam que a experiência traria grandes avanços tecnológicos à nossa agricultura. Algum terráqueo já percebeu como a sua vida mudou de lá para cá? Nãoooo? Talvez a intenção real da viagem era descobrir como mandar todo pobre para o espaço já que para o inferno não é possível, porque lá, a casa já está lotada de políticos corruptos.

sábado, 16 de janeiro de 2010

PROGRAMAÇÃO TRASH


Ao que tudo indica, assistir a programação da televisão está se tornando a melhor ou única opção de lazer e fonte de conhecimento do povo brasileiro, mesmo que topar com informação crível e entretenimento saudável esteja cada vez mais difícil. Aparentemente, o fenômeno é estimulado por um modelo cultural proveniente do arrocho econômico, afinal, quem dispõe de dinheiro no bolso para usufruir de uma vida socialmente ativa ou comprar um bom livro?

Cientes ou não dessa situação, o fato é que os dirigentes das emissoras disputam entre si de uma fatia cada vez mais preciosa da audiência, através de uma programação banalizada por excesso de baixaria e qualidade duvidosa. Mas, independentemente da programação ou contexto social, a verdade é que a televisão sempre exerceu grande atração e influência sobre as pessoas. A maior prova disto são as tendências da moda, do vestuário e do cabelo, por exemplo, que oscila conforme a novela em voga.

Esse fascínio que a TV provoca na mente do telespectador faz surtir certa confusão entre o real e o imaginário. Aquilo que se encontra distante, seja por questões financeiras, geográficas ou intelectuais, parece mais acessível. A sensação é a de que o penteado “super-transado” da novela das oito fica no saloon mais próximo ou que o corpo perfeito do comercial das nove está na academia que todos freqüentam. São aspirações alucinadas que deturpam o raciocínio dos mais desatentos.

Até mesmo nos telejornais é visível o uso desenfreado da dramatização por parte dos apresentadores, a partir da utilização de dueto diante das câmeras – enquanto um fala outro fica atento aos fatos, sempre com expressão sisuda. Esse artifício adotado praticamente por todas as emissoras, nada mais é do que a tentativa de tornar mais realista a narrativa dos acontecimentos.

E se a ordem do momento é ser realista, então, a interatividade não poderia permanecer de fora do cenário, afinal, o que torna mais real uma circunstância do que a interação. O profissional sentado diante das inúmeras câmeras do estúdio estimula e convida, literalmente, o telespectador atento a participar de uma promoção, melhor ainda, a proferir sua opinião a respeito de determinado tema, preferencialmente polêmico. Eis aí o ingrediente perfeito: o prestígio.

Se na sociedade tal consideração não é encontrada com tanta facilidade, por intermédio de uma conexão telefônica ela torna-se instantânea. Até mesmo o noticiário esportivo não encontra mais espaço para retransmitir todos os gols da rodada anterior, porque falta tempo para conciliar tanta participação dos desportistas com a quantidade de bolas na rede. Noticiário, esporte, reality-show, não importa, a questão é cativar a atenção de quem passa pela frente do televisor.

Mas como se não bastasse o fato do meio de comunicação exagerar, de forma deliberada ou inconsciente, e pior, inconseqüente, da tentativa frenética de imitar a realidade e do abuso da interação, a falta de moralidade, de ética e civilidade também estão presentes. Principalmente nos comerciais publicitários está evidente o esquecimento momentâneo da moral e dos bons costumes em detrimento de um humor rançoso que anestesia o senso crítico do consumidor.

Indubitavelmente, a televisão sempre ocupou lugar de destaque entre os demais meios de comunicação por ser naturalmente uma forma extraordinária de transmissão de cultura e conhecimento. Porém, o que falta são profissionais sérios, dotados de senso crítico e responsabilidade para ocuparem o lugar destes que hoje estão aí, utilizando o recurso da pior forma possível. Assim, eles desmoralizam e ridicularizam os conteúdos porque, infelizmente, ainda existem consumidores.

Resta saber se a programação vigente configura-se sem restrição, fiscalização e, conseqüentemente, com pouca qualidade em decorrência de uma vasta legião de telespectadores submissos ou, na pior das hipóteses, desinteressada. Alguma atitude deve ser adotada, caso contrário, todos ficarão a mercê de uma programação que além de influenciar e viciar tem o poder impressionante de atrofiar a massa cinzenta de grande parte da nação.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Desabafo de um homem preservacionista.


Trabalho na zona urbana, mas há dois e meio optei por viver na zona rural. Na época, me parecia a forma mais fácil de fazer a minha parte com a questão preservacionista. Não estava confortável na posição de mais um parasita, consumindo os recursos do planeta e fazendo quase nada para preservar os recursos naturais, que pasmem, são esgotáveis.



Não posso dizer que consegui a paz de consciência desejada... O galo canta às cinco horas da manhã e, logo mais, a coruja anuncia mais uma noite que está por vir, mas as “COISAS” do cotidiano parecem que continuam as mesmas, ou melhor, as pessoas permanecem no seu estado de indiferença e estagnação. Pensam que a solução e o equilíbrio ambiental virão de alguma autoridade ou de Deus...



Por mais que eu queira me conformar com o modus operandis da sociedade atual com relação aos assuntos e acontecimentos da sociedade caótica do século XXI, não consigo apaziguar minha mente e adormeço todas às noites inquieto e preocupado por ver tão claramente que nossa civilização caminha para seu extermínio no planeta. Não entendo como alguns ainda planejam ter filhos...



Não quero o papel de profeta do apocalipse, mas os sinais são claros e podem ser analisados por qualquer mente crítica: chuvas torrenciais, frios extremos, ciclones inusitados. Nada disso, porém, parece afetar a consciência dos cidadãos globais de forma significativa. Continuamos na gana consumista como se os recursos fossem inesgotáveis! A maioria continua vivendo ou sobrevivendo como se o planeta não estivesse com seus dias contados. Aliás, é preciso me corrigir, o planeta já demonstrou que pode viver sem os humanos... a extinção então, refere-se a forma de vida humana da qual sou um dos representantes.



O descaso pela fauna e flora é o ápice da falta de prospecção lógica, intelectual e emocional de quase toda a totalidade da raça que se autodenomina humana. Caríssimos amigos e leitores deste blog, não se considerem inclusos nesta vala comum porque o simples fato de estarem navegando por estas paragens vocês já pertencem a outra “casta”... aquela que procura conhecimento, questionamento do status-quo, não fogem da controvérsia, opiniões diversas, gente insatisfeita... São estes que afinal, destoam da voz acomodada e, se não faz diferença signifigativa, ao menos incomoda aqueles que fingem não ver o que acontece.


Hoje, após bebericar alguns drinks e uma certa quantidade de cerveja, olhando a mata nativa que pago para preservar (tentando fazer a minha parte), encontro-me em estado de total revolta e repúdio pela falta de consideração e preocupação das criaturas que usufruem da vida (divina que Deus lhes deu), sem a mínima consideração pela nave mãe chamada Planeta Terra e seus habitantes das mais variadas espécies.


Moro há oito metros acima do nível do mar. Mesmo assim, na última segunda-feira, não consegui chegar na minha casa, 30 quilometros do local que trabalho... pois a chuvarada que abalou o Rio Grande do Sul em menos de 24 horas, tomou conta da estrada e isolou localidades, entre elas, o distrito onde moro. A chuva torrencial, além de invadir as estradas, inundaram as terras dos meus vizinhos e conhecidos e, hoje, após sete dias decorridos, tudo voltou ao normal. Veja bem, o normal significa queimadas, devastações das matas, lixo jogado nos rios e matas... A humanidade caminha para o fim porque o planeta, senhores, está nos expurgando como erva daninha!!! Salvo algumas consciências desgarradas, o restante pensa que tudo não passou de um deslize natural ocasionado pelo fenômeno El niña (como se este fosse produto da ira de Deus e não resultado da exploração da natureza).


“Jesus me abane!” O único consolo que me resta é o fato de eu ter feito e continuar tentando fazer a diferença. Cuido da fauna e flora que me circundam, dentro das minhas atuais condições econômicas, preservo a pureza da natureza e das águas em 5 hectares. Local que amo e dedico tempo e cuidado aos seres que possuem vida... incondicionalmente... Procuro esclarecer e difundir práticas consevacionistas entre meus vizinhos (evitar queimadas, preservar a mata nativa, nascentes dos rios, plantar árvores frutíferas para as aves silvestres... ). Mas não vou negar, a ignorância, a limitação de inteligência de alguns me tiram do sério... não colho resultados fartos. Posso concluir, que somente consigo resultados proveitosos naqueles que em sua essência, já pressentiam e tinham sensibilidade de que precisam proteger a natureza que tão generosamente tem lhes mantido na terra.


Perdoem meu sentimentalismo, mas amo demais este planeta para não sofrer com estes acontecimentos.


Créditos da Imagem: fotógrafo Nick Brandt

Texto: Heitor Jorge Lau

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

QUANDO O REAL É SOBREPUJADO PELO IMAGINÁRIO


O imaginário humano possui a capacidade extraordinária de tornar determinadas ocorrências suscetíveis a exageros e distorções. Esse processo é típico do homem, ser capaz de adulterar, moldar e certificar deliberadamente certos aspectos do factual, de acordo com sua visão, interpretação, sensibilidade, emoção e conveniência.

Mas a pergunta é: como seria a vida sem o extraordinário? É impressionante como o incomum parece provocar grande fascínio nas pessoas, a ponto de influir no seu modo de agir e pensar, transformando o excepcional em mito, crença e em determinados contextos em “verdadeiro”. É importante perceber que, não raramente, a ficção procura, até mesmo, justificar ou explicar a realidade.

A página preliminar do livro Pensar o somático: imaginário e patologia, de Sami-Ali contém uma epígrafe de Ibn Arabi (1164-1240) que diz o seguinte: “Nada seríamos, não fosse a imaginação”. A mensagem intrínseca na oração é relevante. Afinal, desde os tempos bíblicos o imaginário, segundo registros preservados, é uma constante. O caráter e as proporções que determinados relatos da época alcançaram delineiam a fé cristã há milhares de anos, por exemplo.

Cabe ressaltar que, neste momento, não existe qualquer motivo ou tentativa de pôr em dúvida ou adentrar no mérito da veracidade dos fatos. A exemplificação elencada almeja suscitar no leitor a reflexão sobre a potencialidade do imaginário. Deseja evidenciar que certos fenômenos e manifestações podem permanecer legitimados e certificados por meses, anos, milênios.

Todavia existem criações, originárias da mesma fase citada anteriormente, que perderam sua validade por não encontrar mais respaldo em um contexto mais moderno, mais intelectivo. Criaturas mitológicas como o Minotauro, por exemplo, foram imaginários que obtiveram sua valorização, sua veneração e respeitabilidade pelo medo dos castigos impostos por uma eventual desconsideração. Mas o ser humano evolui e parte daquilo que foi pertinente um dia deixa de ser noutro.

O homem ao nascer, independentemente do período histórico, apesar de dotado da capacidade de raciocinar, primeiramente imagina. O primeiro contato com os objetos, sons, odores é assimilado pelos sensores físicos, mas a significação não possui lógica ou comparação com alguma experiência vivenciada, portanto, não passa de pura imaginação. Pois é justamente este imaginário que constitui os sentidos e molda a gênese do mundo de cada vivente.

Afinal, se o imaginário já faz parte do indivíduo desde sua concepção, por que não é aceito com naturalidade por algumas pessoas? Quiçá, simplesmente pelo fato de o termo comportar certa confusão semântica desde sua origem. Numa acepção mais simplista, é compreendido como desvario e ausência de honestidade, ou seja, qualquer criação oriunda do imaginário é encarada com incredulidade e suspeição. Se o racional tem status de verdadeiro, a imaginação é produto do inconsistente.

Teorias à parte, o fato é que todo ser humano possui uma essência imperscrutável e o imaginário lhe pertence. É nesse universo insondável, repleto de segredos, que os dados e as informações do mundo físico são reprocessadas sob uma nova roupagem, um novo significado, onde o lobo vira lobisomem, o morcego transforma-se em vampiro, e a mula-sem-cabeça, que além da ausência da caixa craniana, ainda serve de protagonista de histórias assustadoras.

Mas o imaginário não aflora somente em relatos e lendas espantosas. A arte, de forma geral, é inspirada, sim, pela capacidade imaginativa do poeta, do compositor, do pintor, do escritor. Nela são encontradas todas as maneiras imaginativas de traduzir o já manifesto e compreendido, descritas de forma a atiçar a mente e o coração do homem que, além de racional é também emocional.

Os exemplos anteriores denotam a presença do imaginário como fomentador da imaginação. Essa consideração parece sem nexo ou redundante, mas aquele que lê, assiste ou ouve, aprecia e constrói o seu imaginário pessoal de acordo com a sua interpretação e conveniência. Conclui-se, então, que não há como negar: o imaginoso sempre esteve e sempre fará parte do cotidiano do homem, mesmo porque essa capacidade lhe é conferida naturalmente.

Assim, após uma explanação, mesmo que deveras sucinta sobre o tema imaginário, foi possível observar que o mundo real coexiste com o irreal explícito e suscitado e, por que não afirmar, ainda, que os dois necessariamente dependem um do outro porque a reflexão, tão necessária na humanidade, é instigada pela controvérsia. E, o imaginário quase sempre desperta a curiosidade e provoca a polêmica, a discussão.

Também, os produtos da imaginação possuem sentidos conotativos, por isso estão sujeitos à discriminação como sendo oriundos dos insanos ou loroteiros. Segundo Malebranche (apud DURAND, 1998, p. 10), a imaginação “é suspeita de ser a amante do erro e da falsidade”. Aqui se percebe que a subjetividade não é interpretada no sentido literal da palavra. O subjetivo é particular e indeterminável, portanto, deveria ser isento de crítica ou comparação, entretanto, muitas vezes não é.

Outro detalhe, talvez o mais importante, é que o imaginário não é restrito àquele que é dotado de maior capacidade intelectual ou cultural. Logo, qualquer um pode construir, usufruir e disseminar uma idéia oriunda da imaginação. Por isso, o imaginário tem a potencialidade de difundir as representações coletivas do povo como é o caso das lendas e histórias populares.

O imaginário, enquanto propriedade própria do ser humano, se entretece com o real por meio da criação metafórica do mundo numa reciprocidade da qual só de modo paulatino e por meio de uma gradual compreensão podem desprender-se como termos distintos. Portanto, a verdade é que o imaginário se tornou parte integrante e indissociável da elaboração de qualquer discurso proferido pelo homem e do qual não pode prescindir.